Em uma sociedade sem estado, os déspotas não assumiriam o controle?
por , sexta-feira, 29 de maio de 2009

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Não é raro pessoas contrárias à teoria anarcocapitalista - ou até mesmo ardorosas defensoras - mandarem-me e-mails perguntando praticamente a mesma questão:  "Em um sistema 'anarcocapitalista' - isto é, em uma ordem de livre mercado puro - a sociedade não iria se degenerar em batalhas constantes entre líderes militares privados?".  Como não pude dar respostas adequadas e completas à época, espero que o seguinte artigo comprove o adágio de que o tardio é melhor do que o nunca.

COMPARANDO MAÇÃS E LARANJAS

Ao lidar com essa questão dos déspotas privados - seja na forma de polícia ou de forças armadas - é preciso garantir que as comparações sejam justas.  Em nada adianta imaginar uma sociedade A, povoada de selvagens ignorantes e sádicos que vivem em anarquia, e compará-la a uma sociedade B, composta de cidadãos iluminados e cumpridores da lei, que vivem sob um governo limitado.  O anarquista não vai negar que a vida será melhor na sociedade B.  Mas o que o anarquista irá de fato afirmar é que, para qualquer população, a imposição de um governo coercivo irá piorar as coisas.  A ausência do estado é uma condição necessária, mas não o suficiente, para se atingir uma sociedade livre.

Não importam quais sejam as condições culturais e as preferências populares de um país, não importa quão forte sejam as tendências para o totalitarismo e para o trabalho duro, e independente do fato de haver ou não justiça e de os contratos serem ou não respeitados, não há nada que o estado possa fazer para melhorar a situação.  É verdade que uma sociedade pode ser pobre e belicista sem o estado.  Ela pode ser brutal e miserável.  Mas impor um estado sobre essa sociedade irá apenas exacerbar suas piores tendências ao mesmo tempo em que sobrepuja as melhores.  O estado não oferece benefício algum a sociedade alguma, não importa suas condições culturais.  E isso vale para qualquer lugar do mundo.  O estado institucionaliza e fortifica as coisas ruins e obstaculiza o surgimento das boas.  Este é, em resumo, o foco da doutrina libertária.

Colocando de outra forma: não basta dizer que uma sociedade sem governo e baseada na propriedade privada poderia se degenerar em guerras infindáveis, onde não haveria um grupo único poderoso o suficiente para domar todos os desafiantes, e daí então afirmar que, nesse cenário, seria impossível o estabelecimento da "ordem".  Afinal, há vários exemplos de comunidades que vivem sob um estado e que se degeneraram em guerras civis.  O que houve mais recentemente na Colômbia e no Iraque não são demonstrações de anarquia que se transformou em caos, mas sim exemplos de sociedades governadas que mergulharam no caos.

Para que o argumento "os déspotas vão assumir o controle!" seja válido, o estatista teria de arfirmar que uma dada comunidade seria ordeira sob um governo e que essa mesma comunidade iria se esfarelar em guerras contínuas caso todos os serviços judiciais e de segurança se tornassem privados.  O popular caso da Somália, portanto, não ajuda nenhum dos lados da discussão, pois não se tratava de uma sociedade ordeira mesmo sob um governo.[1]  É verdade que os rothbardianos deveriam estar um pouco inquietos com o fato de que o respeito ao princípio da não agressão é aparentemente muito raro na Somália, o que impede o surgimento espontâneo de uma ordem de livre mercado.  Porém, da mesma maneira, o estatista deveria se incomodar com o fato de que o respeito pela "lei" também era muito fraco, de modo que o governo original da Somália jamais foi capaz de manter a ordem.

Agora que já nos centramos na questão, creio que haja fortes razões para supor que uma guerra civil seria muito menos provável em uma região dominada por agências judiciais e de defesa privadas, do que por um estado monopolista.  Agências privadas são donas dos ativos à sua disposição, ao passo que políticos (principalmente em democracias) meramente exercem controle temporário sobre o equipamento policial e militar do estado.  Por exemplo, já se comprovou que Bill Clinton estava perfeitamente disposto a disparar dezenas de mísseis teleguiados quando o escândalo Monica Lewinsky começava a ganhar fôlego - tudo para distrair a atenção do público.

Da mesma, a Guerra Civil Americana - e seu 1 milhão de mortos, entre soldados e civis - não teria sido possível.  Nos anos 1860, será que um combate em larga escala teria acontecido, pelo menos nessa magnitude, se, ao invés das duas facções controlando centenas de milhares de recrutas, todos os comandantes militares tivessem de contratar mercenários voluntários e pagar-lhes um salário de mercado pelos seus serviços?

O GOVERNO E SUA TEORIA DE CONTRATO

Até agora, posso imaginar o leitor endossando de modo geral a análise acima, porém ainda resistindo à minha conclusão.  Ele pode estar pensando algo assim: "Em um estado natural, as pessoas inicialmente têm diferentes visões sobre justiça.  Sob uma anarquia de mercado, diferentes consumidores iriam ser clientes de várias agências de defesa, e cada uma delas tentaria utilizar suas forças para implantar seus códigos de lei, tornando todo o sistema incompatível.  É verdade que essas gangues profissionais, em geral, poderiam evitar conflitos entre si, por uma questão de prudência, mas o equilíbrio ainda assim seria precário".

"Para evitar esse resultado", meu crítico poderia elaborar, "os cidadãos colocariam de lado suas insignificantes diferenças e concordariam em apoiar uma única agência monopolista, que teria o poder de esmagar todos aqueles que desafiassem sua autoridade.  Isso confessadamente geraria o novo problema de se controlar o leviatã que surgiria, mas ao menos resolveria o problema da infindável guerrilha doméstica."

Há vários problemas com essa abordagem.  Primeiro, ela assume que o perigo advindo de agências de defesa privadas seria pior do que a ameaça representada por um governo central tirânico.  Segundo, há um fato bastante inconveniente: nunca houve na história a formação voluntária e espontânea de um estado.  As pessoas que se estabeleciam em determinadas áreas e regiões jamais se preocupavam em definir quem elas iriam escolher para mandar em tudo dali em diante.  Mesmo aqueles cidadãos que, digamos, apoiaram a ratificação da Constituição americana, a eles jamais foi dada a opção de viver sob uma anarquia de mercado; eles tiveram de escolher um governo que estivesse sob o jugo ou da Constituição ou dos Artigos da Confederação.

Mas para os nossos propósitos, o problema mais interessante em relação e essa objeção é que, caso ela realmente fosse válida, seria desnecessário que os cidadãos formassem um governo.  Se, por hipótese, a vasta maioria das pessoas - embora tenha diferentes conceitos de justiça - pudesse concordar que é errado utilizar de violência para resolver suas pendengas, então as forças de mercado inevitavelmente iriam impor a paz e a cooperação entre as agências privadas de polícia.

Sim, é totalmente verdadeiro que as pessoas possuem opiniões vastamente distintas em relação a questões legais de cunho particular.  Algumas pessoas defendem a pena de morte e outras consideram que o aborto é assassinato.  E não haveria consenso em relação a quantos culpados deveriam ser absolvidos para evitar que um réu inocente seja condenado.  Entretanto, se a teoria de contrato do governo estiver correta, a vasta maioria dos indivíduos pode concordar em um ponto: eles deveriam resolver suas desavenças não através da força, mas, sim, através de um procedimento ordeiro (tal como ocorre durante eleições periódicas).

Mas se isso de fato descreve o comportamento de uma determinada população, então por que seria de se esperar que pessoas tão virtuosas iriam, como consumidores, prestigiar agências de defesa que rotineiramente utilizam sua força contra concorrentes mais fracos?  Por que a esmagadora maioria desses consumidores sensatos não iria prestigiar as agências de defesa que tivessem acordos de arbitragem integrados e que submetessem suas disputas legítimas a arbitradores de boa reputação no mercado?  Por que essa estrutura legal, privada e voluntária não iria funcionar como um mecanismo ordeiro capaz de resolver questões de "política pública"?

Novamente, a descrição acima não é aplicável para todas as sociedades da nossa história.  Porém, de maneira similar, pessoas de tendência belicosa também seriam incapazes de manter uma sociedade ordeira sob um estado limitado.

O PROBLEMA DO CARONA?

Um sofisticado apologista do estado - principalmente um versado em economia ortodoxa - poderia reagir com outra justificativa: "A razão por que é necessário termos governo é que não podemos confiar que o mercado irá adequadamente financiar as forças policiais.  Pode ser verdade que 95% dos indivíduos de uma sociedade teriam visões similares quanto a justiça, de modo que a paz seria obtida caso todos eles contribuíssem substancialmente para agências defesas dedicadas a executar essas mesmas visões".

"Entretanto", continuaria o apologista, "caso essas agências de polícia não tenham o direito de extrair contribuições de todos que endossam suas ações, então elas seriam incapazes de manter um efetivo substancial.  O mercado falha especificamente por causa do problema do carona: quando uma empresa legítima suprime ou toma medidas duras contra uma empresa fraudulenta e perigosa, todas as pessoas de bem se beneficiam disso, mas em um livre mercado elas não seriam obrigadas a pagar por esse 'bem público'.  Consequentemente, em uma anarquia, agências desonestas financiadas por bandidos maléficos teriam uma dimensão e uma abrangência de operação muito mais ampla".

De novo, há várias respostas possíveis a essa argumentação.  Primeiro, tenhamos em mente que um amplo exército efetivo e permanente, pronto para esmagar uma minoria discordante, não é exatamente uma característica de governo unanimemente desejada.

Segundo, o alegado problema do carona não seria nem de longe tão desastroso como muitos economistas creem.  Por exemplo, empresas de seguro iriam, em grande medida, "internalizar as externalidades".  Pode ser verdade que, se as agências policiais tivessem de pedir contribuições para os cidadãos particulares, um número "ineficiente" de assassinos seriam capturados.  (Claro, todos se beneficiam ao saber que um assassino em série foi capturado, mas o fato de uma pessoa contribuir ou não para uma agência não será o fator diferencial entre a captura e a fuga).

Porém, a solução real se encontra naquilo que é o baluarte de um livre mercado: as seguradoras.  Assim, as empresas de seguro que fornecessem apólices para milhares de pessoas em uma cidade grande estariam dispostas a contribuir com quantias substanciais para as agências policiais de modo a eliminar a ameaça de um serial killer.  Afinal, se o assassino atacar novamente, uma dessas seguradoras teria de pagar centenas de milhares de dólares para o espólio da vítima.  E esse mesmo raciocínio demonstra que o livre mercado poderia adequadamente financiar programas que visam "conter" as agências mal intencionadas.

Terceiro, se as pessoas realmente imaginarem um cenário assustador, verão o quão absurdo é a ideia de que isso será a norma.  Imagine uma cidade agitada, como Nova York, que inicialmente seja um paraíso livre-mercadista.  É realmente plausível imaginar que, com o tempo, gangues rivais iriam crescer substancialmente até chegarem ao ponto de dominar a cidade e aterrorizar todo o público?[2]  Lembre-se: essas seriam organizações admitidamente criminosas; ao contrário da prefeitura de Nova York, não haveria apoio ideológico a essas gangues.

É preciso considerar que, em um ambiente sem governo, a maioria cumpridora das leis teria todos os tipos de mecanismos legais à sua disposição.  Uma vez que juízes privados tenham sentenciado uma determinada agência criminosa, os bancos privados poderiam bloquear suas contas (no valor total das multas impostas pelos arbitradores).  Além disso, as empresas de utilidade privada poderiam cortar a eletricidade, o telefone e a água dessa agência, de acordo com as cláusulas de seu contrato.

É claro que é teoricamente possível que uma agência bandida possa superar esses obstáculos, seja através da intimidação ou da mancomunação com juízes, e tomar o controle de vários bancos, companhias de eletricidade, supermercados, etc. Mas isso só seria possível através de um ataque militar em larga escala.  A questão é que, começando uma anarquia hoje, esses pretensos tiranos teriam de começar do zero.  Em contraste, mesmo sob um atual governo limitado, todo o aparato de destruição e escravização em massa já está ali, pronto para ser tomado pelo próximo eleito.

CONCLUSÃO

A objeção padrão de que a anarquia levaria a uma batalha sangrenta entre déspotas é infundada.  Nas comunidades em que tal fenômeno porventura ocorresse, a adição de um estado não ajudaria em nada.  Com efeito, o exato oposto é verdadeiro: os arranjos voluntários de uma sociedade baseada na propriedade privada seriam muito mais propícios à paz e ao império da lei do que o arranjo coercivo de um monopólio estatal parasítico.


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[1] Tendo feito essa concessão, devo dizer que os anarcocapitalistas podem ver suas teorias sendo, de certa forma, confirmadas na Somália.

[2] Tenhamos também em mente que os grupos mafiosos que existem atualmente: (1) nem de longe extorquem tanto dinheiro ou matam tantas pessoas quanto qualquer governo em um dia típico de trabalho, e (2) só existem para fornecer bens e serviços que foram proibidos pelo governo (jogos, drogas, prostituição, agiotagem, etc.).  É desse cenário de ilegalidade, onde os contratos são cumpridos à força, que derivam sua força e poder.  Logo, a máfia dificilmente existiria em um mundo anarquista.


Robert P. Murphy 

é Ph.D em economia pela New York University, economista do Institute for Energy Research, um scholar adjunto do Mises Institute, membro docente da Mises University e autor do livro The Politically Incorrect Guide to Capitalism, além dos guias de estudo para as obras Ação Humana e Man, Economy, and State with Power and Market.  É também dono do blog Free Advice.



tags:  segurança privada  desestatização  sociedade voluntária  
38 comentários
38 comentários
Fernando 18/12/2009 02:31:03

Muita especulação teórica, análises hipotéticas, assunções de premissas fantasiosas. Pouco senso de realidade. Murphy estudou muito, talvez demais. Apenas se esqueceu de conhecer melhor o ser humano. Ironicamente, lembra-me a ingenuidade dos marxistas clássicos e do sonho de atingir uma sociedade com comunismo.

Responder
Fernando Chiocca 18/12/2009 10:56:23

É né xará.. o Murphy deve ser um cara que só estudou na vida, nunca nem saiu da biblioteca e não conhece o ser humano tão bem qto vc..\nUma pena que vc além de "conhecer melhor o ser humano" parece que não estudou muito, pois comparar os devaneios abilolados do marxismo com a analise científica praxeológica é coisa de quem não tem noção do que sejam essas coisas..

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Bruno 18/12/2009 12:27:14

O Murphy deu bola fora nesta. Até porque ele faz um monte de "e se". A única coisa que ele tem de argumento é que com governo é pior. Para mim não interessa quem é pior, interessa como a qualidade de vida de relacionamento humano (interpessoal) pode melhorada.\nA argumentação dele tem falhas terríveis de realidade.\n - Dizer que gangues em NY (exemplo dele) não teriam apoio ideológico é ridículo. As guangues existem por haver mútuo apoio entre participantes.\n - O último parágrafo antes da conclusão é falta de realidade bruta. 1º que está apenas considerando força militar, esqueceu da econômica. 2º, dizer que tiranos teriam que começar do zero. Com tanta arma a solta (inclusive nucleares) ele acha que tudo mundo vai começar do zero?\n\nNão acho que ele desconheça o ser humano. Acho que ele é desonesto na argumentação.

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Fernando Chiocca 18/12/2009 12:40:47

Hahhaha\nÉ Bruno, as gangues de NY tem muito apoio DE SUAS VÍTIMAS!!\nÉ incrivel que alguém tenha sido incappaz de perceber que é deste tipo de apoio--apoio que o Estado goza--que a teoria trata. mas não tão incrível em se tratando do Bruno.\nO resto do comentário dele deixa claro a incapacidade de compreensão que ele possui. Lamnetável.\n

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Arthur Santos 22/11/2012 14:06:00

Não acredito que o artigo tenha respondido às questões mais problemáticas. Saindo do campo das possibilidades, e indo para o mundo real: como, num país como o Brasil, por exemplo, seria iniciado o processo de diminuição do estado?

Vejam, convivemos com narcotráfico e níveis alarmantes de criminalidade violenta O que faz qualquer libertário pensar que, mesmo que resolvamos, pela via da liberdade econômica, nossos problemas internos, algo como as FARCs não irão adentrar o nosso território e criar pequenos feudos criminoso até que a expansão os satisfaça? Sem levar em conta questões como essa, acho o exercício do Murphy infruntífero.

Responder
Ricardo 22/11/2012 15:37:16

Ou seja, segundo este gênio incompreendido chamado Arthur Santos -- que está desperdiçado pela humanidade --, se o Brasil se tornar mais liberal, restringindo os poderes de Brasília, as FARC entrarão aqui e tomarão tudo.

P.S.: mas não é justamente a Brasília atual que defende as FARC?

Responder
Arthur Santos 22/11/2012 15:54:56

Não esperava que o analfabetismo funcional grassasse por estas paragens. Uma pena.
De qualquer maneira, não importa quem defende ou deixa de defender as FARC, estou fazendo uma pergunta séria que você, por burrice ou má fé, não respondeu.

Não respondeu nem como o Brasil se tornaria mais liberal (se os Libertários pretendem levar a sério a organização partidária e, paulatinamente, aprovar reformas que privilegiam o livre mercado, ou outra via [qual?]); e, caso o projeto Libertário seja bem-sucedido, como lidará com ameaças externas (tráfico internacional de drogas e armas) - considerando que somente no mundo ideal todos os países seguem o mesmo modelo de desenvolvimento econômico/social.

Responder
Ricardo 22/11/2012 16:01:00

Serei obrigado a repetir. Você é a comprovação prática daquilo que Olavo de Carvalho e o Padre Paulo Ricardo vêm falando há anos: a testosterona e a masculinidade dos homens deste país estão em queda livre.

Perante a um cenário de um pouco mais liberdade, você se treme todo e já sai perguntando: "Oh, mas quem irá me defender?"

Em momento algum passa pela sua cabeça que você próprio tem a obrigação de se armar (liberais e conservadores defendem o livre porte de armas como medida indispensável para uma sociedade livre) e proteger sua família e até mesmo seu bairro. Ademais, qual o problema de gente vender drogas? Só otário usa ou se sente tentado a usar drogas. Um sujeito vendendo pacificamente drogas na esquina é tão perigoso quanto um mosquito. Seja homem, criatura!

Quanto ao processo de transformação:

Um plano de governo para o próximo presidente brasileiro

Responder
Arthur Santos 22/11/2012 17:51:20

Ui, quanta testosterona! Tinha que vir de um beócio como Olavo de Carvalho. Enfim... Existe uma diferença de organização/treinamento gigantesca entre milícias/exércitos armados e cidadãos portadores de armas (especialmente numa organização geopolítica em que há inimigos externos estatais). A pueril ideia de que "iríamos nos defender" é muito viril na cabeça, mas, na realidade, a guerra de verdade não é bonita nem heroica como você quer fazer parecer por aqui.

Responder
Leandro 22/11/2012 20:21:07

Prezado Arthur, embora a resposta do leitor Ricardo tenha sido um pouquinho acima do tom, confesso que concordo 100% com ele -- e não há uma semana em que um leitor não venha aqui fazer exatamente essa mesma pergunta sua, daí o compreensível stress dele.

Bom, pelo que entendi, você disse que se o Brasil virasse um federalismo (pois é isso o que defendemos na prática: secessão de Brasília e depois que cada estado tome seu rumo), forças externas viriam nos dominar. Mas por quê? E como elas fariam isso? Se um estado se separou de Brasília, tornou-se autônomo e seus cidadãos estão armados, quem iria invadir esse estado e por quê? Mais ainda: invadiria como?

Um conceito básico de estratégia de guerra é que, ao se invadir um território, você tem primeiramente de tomar seu poder centralizado. Em uma operação de guerra, como uma invasão seguida de tomada de poder, é primordial que o invasor assuma o controle de pontos estratégicos. Como fazer isso em uma cidade, ou em um estado, ou em um país recheado de estados independentes, cada um com várias agências de segurança independentes? Qual o ponto estratégico? Não há. Veja a facilidade com que os americanos tomaram Bagdá (onde havia um poder central) e compare com a impossibilidade que é dominar a Somália (onde não há esse poder).

Caso queira um exemplo prático dessa impossibilidade, recomendo esse artigo que explica como e por que os nazistas, já tendo dominado quase toda a Europa, não se meteram com a minúscula Suíça.

Como o porte irrestrito de armas garantiu a liberdade dos suíços

Abraços!

Responder
anônimo 23/11/2012 02:26:55

Beócio uma ova, você que é ignorante, existem várias outras fontes que dizem a mesma coisa:
estudo mostra declínio dos níveis de testosterona

E treinamento de soldado é cada vez mais dispensável.Até porque com o aumento da tecnologia as armas que mais vão ser usadas são robôs, como os EUA já usam nas guerras idiotas que eles inventam.

Responder
Andre Cavalcante 23/11/2012 05:20:17

Caro Artur,

Esse seu questionamento parte do pressuposto que somente um estado pode defender um território qualquer contra malfeitores externos a ele. Também parte do pressuposto que somente um governo pode operar polícia internamente. Isso é, logicamente, falso. Em uma cidade privada haverá tanto defesa externa quanto policiamento interno. Sem governo central, toda a organização perpassa por entidades e instituições em nível municipal, de bairro, associação e, em última análise, de auto-defesa. Um déspota assumir o poder significa exatamente o que temos hoje! Logo, o que você teme é exatamente o que já está a acontecer. Portanto, não há perigos em tentar algo diferente, não acha?

De resto, essa sua dúvida é fartamente respondida no texto.

Quanto as FARCs, eles só existem porque existe um governo na Colômbia que faz uma guerra contra guerrilheiros e contra as drogas. Retire o governo e as FARCs acabam.

Abraços

PS.: Favor, antes de postar comentários, ler mais sobre o assunto em pauta ou será alvo de chacota geral entre alguns libertários menos pacientes...

Responder
Arthur Santos 23/11/2012 08:02:33

Agradeço às contribuições do Andre Cavalcante e do Leandro, pois ambos parecem realmente dispostos ao debate.

Andre, já li vários artigos daqui do Instituto Mises e não vi resposta a essas questões (pelo menos não respostas que me satisfaçam). O ponto principal no meu argumento - e muitos não atentaram para ele - é justamente a hipótese (tudo o que falamos aqui são hipóteses!) de assumirmos essa organização federalista e os países do entorno não. Dizer que se a Colômbia extinguir o governo as FARC desaparecem não resolve o problema. O quadro de discussão que proponho é outro.

Aí entra a questão que o Leandro propõe. Não havendo governo central, não haveria possibilidade de tomada estratégica de pontos fundamentais do governo, certo? Errado. Dominar um estado confederado é muito mais fácil do que dominar o Brasil inteiro. O exemplo aqui é mais amplo, e é pra ser pensando em âmbito mundial. Temos Irã, Paquistão, Rússia, todos países com arsenais e/ou ambições nucleares. O que eu quero entender é como vocês pretendem justificar perante a população, na atuação organização geopolítica mundial, a adoção das medidas rumo ao anarco-capitalismo se convivemos com ameaças como essas. Ódio étnico e intolerância religiosa também são motivadoras de guerras. Vocês realmente acreditam que países de regiões sensíveis do globo estariam melhor protegidas das ameaças com entidades privadas de defesa?


Responder
Andre Cavalcante 23/11/2012 09:19:46

Caro Arthur

Parágrafo deste artigo: "Para que o argumento "os déspotas vão assumir o controle!" seja válido, o estatista teria de arfirmar que uma dada comunidade seria ordeira sob um governo e que essa mesma comunidade iria se esfarelar em guerras contínuas caso todos os serviços judiciais e de segurança se tornassem privados."

E eu disse na resposta anteior: "Em uma cidade privada haverá tanto defesa externa quanto policiamento interno. Sem governo central, toda a organização perpassa por entidades e instituições em nível municipal, de bairro, associação e, em última análise, de auto-defesa. Um déspota assumir o poder significa exatamente o que temos hoje!".

Fazer o favor de ler (e entender) o que é dito, se não, não pode haver troca de ideias.

Você voltou a questionar o que já foi respondido fartamente no artigo, nos comentários (em mais de um, antes mesmo de você), pelo Leandro, por mim e por mais gente!

Mais uma vez: anarco-capitalismo ou mesmo uma minarquia, não significa a falta de ordem! LEIS são fundamentais. SEGURANÇA é fundamental. TODAS essas coisas são necessárias em uma sociedade. O fato de tais coisas não serem fornecidas pelo estado não significa que não possam ser fornecidas por entidades privadas.

Antes de pensar na impossibilidade disso, pense: porque ninguém invade/quer invadir Cingapura?

Se continuar na mesma linha de pensamento, não mais responderei! Aprenda a pensar por si, de forma clara, precisa, suscinta e lógica, ou seja, de forma racional. Só assim poderá haver um debate.

Responder
Arthur Santos 23/11/2012 09:27:56

Se você acha que isso responde às questões, esse debate é impossível mesmo.

Responder
Pedro Ivo 26/11/2012 12:47:15

Arthur Santos, leia Teoria do Caos do Murphy. Lá há um capítulo sobre defesa privada. Algumas das questões que você coloca são respondidas neste capítulo. Mas concordo com você que há várias questões geoestratégicas, geopolíticas e táticas que a teoria libertária da defesa privada responde mal ou não responde.

Responder
Andre Cavalcante 26/11/2012 14:18:29

"Mas concordo com você que há várias questões geoestratégicas, geopolíticas e táticas que a teoria libertária da defesa privada responde mal ou não responde"

Quais?

Abraços

Responder
Pedro Ivo 27/11/2012 07:03:56

Andre Cavalcante. Eu estava escrevendo uma postagem para explicar quais e descobri, depois de algumas anotações, que [1] a postagem soaria mui dogmática pois apenas elencava tópicos, e [2] que era a verdadeira boneca de um artigo.

Estou detalhando desde ontem a postagem, acrescentando referências (espacialmente links para artigos para que todos possam consultar as referências, mas inevitavelmente também de livros), e quando tiver algo apresentável submeterei à avaliação do Leandro Roque. Espero levar no máximo 1 semana para escrever, mas como sou muito detalhista e obsessivo, pode levar até 1 mês (da mais recente vez que escrevi um trabalho sobre assuntos militares, em 2009 ainda na faculdade, levei 1 mês).

Espero fazer valer a espera.

Responder
Arthur Santos 28/11/2012 12:39:04

Lerei enquanto aguardo do artigo.

Responder
Mateus 04/01/2011 23:30:35

Não sei se foi eu que não entendi mas me surgiu dúvidas ao ler o seguinte trecho:\r
\r
"Segundo, o alegado problema do carona não seria nem de longe tão desastroso como muitos economistas creem. Por exemplo, empresas de seguro iriam, em grande medida, 'internalizar as externalidades'." \r
\r
Apontamentos:\r
\r
1) Quem não pagasse nem a "polícia privada" nem as "seguradoras" continuaria pegando "carona" do mesmo jeito;\r
2) Surgirá entre os mais céticos a pergunta: quem não tem seguradora nem polícia, se fosse assassinado, ficaria por isso mesmo (sem ninguém para investigar o crime, muito menos para punir o assassino)? (Eu não vejo objeção a esta pergunta; em verdade, se com a presença do Estado é necessário pagar para ter esse "serviço público", porque não teria que pagar sem um Estado? - Levanto a questão apenas para debate, para ouvir melhores exposições);\r
3) De fato, as seguradores tenderiam a "internalizar as externalidades". Porém, o que coibiria o problema do "carona" em relação às próprias seguradoras (agências A, B, C financiam uma polícia privada, mas a D decide não mais ajudar/financiar)?\r
\r
Abraços

Responder
Tiago RC 05/01/2011 07:03:45

1) Como? Se você não paga, não pode usar seus serviços caso tenha sua propriedade atacada por exemplo.
No que diz respeito a polícia preventiva em espaços abertos ao público, seria o proprietário do espaço em questão que estaria pagando pelo serviço. Um indivíduo usuário desse espaço pagaria indiretamente pela proteção, como o cliente de um shopping paga indiretamente pela segurança do local.

2) Talvez fique sem resolução mesmo. Talvez familiares/amigos contratem alguém. Talvez o proprietário do local onde o crime ocorreu tenha um contrato com alguém. Outra coisa: em geral, o mais lógico seria o criminoso pagar pela investigação. Logo, agências de detetives poderiam fazer a investigação gratuitamente para os parentes/amigos da vítima.

Não sei se você já teve a oportunidade de ler o livro A Teoria do Caos? É um livro curto, bem interessante. Se você ler, verá que seria muito, muito improvável alguém não ter nenhum tipo de seguro numa sociedade livre. Você teria que estar garantido por alguém como um indivíduo que respeita certas leis mínimas para ser aceito em sociedade. Ninguém aceitaria viver no mesmo condomínio, trabalhar na mesma empresa etc que alguém que não tem compromisso nenhum com lei nenhuma. No texto que eu enviei para o concurso IMB eu também tentei comentar um pouco disso: www.mises.org.br/Article.aspx?id=605
O livro A Teoria do Caos é bem melhor, claro, e esclarece mais pontos. Recomendo a leitura.

3) Não entendi. Os clientes da empresa D não poderiam mais usar os serviços da polícia em questão. Onde está a carona?

Abraços,
Tiago.

Responder
Mateus Molina 05/01/2011 14:55:14

1) Ah, sim, tava pensando mais macro, pensando inclusive na atividade preventiva das polícias. Realmente, considerando apenas o serviço repressivo pós-crime, de fato não haveria este problema dos caronas;\r
\r
2) Ótimo artigo o seu. Quanto ao livro, já o li há muito tempo, talvez eu tenha que relê-lo para melhor refletir;\r
\r
3) Voltando ao problema dos "caronas" entre as agências: I) já entendi que inexistiria motivo para as agências financiassem (no sentido macro da sociedade em geral) a atividade preventiva de crimes; II) entendi que a empresa D (seguradora) que não pagou os serviços investigativos, dela não se beneficiará (carona)... \r
\r
Porém, o texto, no trecho a seguir transcrito, dá a entender que as empresas/seguradoras iriam bancar o trabalho de investigação de crimes (como serial killer) pois, "se o assassino atacar novamente", poderia arcar com "centenas de milhares de dólares". Ou seja, agências ainda não lesadas (pois seus clientes ainda não foram vítimas de crimes) bancariam a repressão de crimes por pessoas não asseguradas (ou de outras asseguradoras). Não houve aqui uma "carona" dos que nada pagaram (que foram vítimas de crimes, que estão sendo investigados por agências que não contrataram, uma vez que interessa a estas coibir os crimes pois poderia ser a próxima a arcar com os custos)? \r
\r
Porém, a solução real se encontra naquilo que é o baluarte de um livre mercado: as seguradoras. Assim, as empresas de seguro que fornecessem apólices para milhares de pessoas em uma cidade grande estariam dispostas a contribuir com quantias substanciais para as agências policiais de modo a eliminar a ameaça de um serial killer. Afinal, se o assassino atacar novamente, uma dessas seguradoras teria de pagar centenas de milhares de dólares para o espólio da vítima. E esse mesmo raciocínio demonstra que o livre mercado poderia adequadamente financiar programas que visam "conter" as agências mal intencionadas.\r
\r
PS 1: Isso sem considerar, claro, que, como você disse, seriam "quase impossível uma pessoa não ter seguro". Depois relerei o "Teoria do Caos" para ver se terei a mesma conclusão.\r
PS 2: A pessoa aceitar leis e normas, para ter acesso a contratos e trocas livres, não induz necessariamente a pessoa ter pago um serviço de proteção contra os mais variados "crimes". Eu comprar numa hipotética Casas Bahia, que determina que lides serão resolvidas pela arbitragem A (logo aceitas as condições/leis/normas das Casas Bahia), não induz necessariamente em EU ter alguém me assegurando. Pelo menos isso eu não consegui visualizar ainda.\r
\r
Obrigado pela resposta. \r
\r
\r

Responder
Joao 16/03/2011 09:14:45

Minha ideia é diferente. Em uma sociedade anarquista, os "déspostas" assumiriam, sim, o controle. O resultado seria um ou mais Estados em regiões diferentes.

Responder
Luís Fintelman 25/06/2011 23:44:24

Salve!

Levando-se em conta que em todo lugar do mundo com a mínima possibilidade de acumulação de recursos surgiu um Estado, por que pensar que no mundo pós-implantação-do-anarquismo seria diferente? Pelo que podemos observar, o Estado surge "naturalmente".

Sempre haverá alguém com mais poder do que outrem. A desigualdade de poder é como a desigualdade econômica: há sempre alguém mais esperto, mais rápido, mais inteligente, mais forte, mais rico. Se alguém é mais forte (pode inclusive ser força física) que eu, eu não vou ousar enfrentá-lo. Quando alguém se torna suficientemente poderoso para ter o respeito ou o temor de uma grande quantidade de pessoas, pronto, temos um rei. Não há nada que impeça isto numa sociedade anarquista e, levando-se em conta as diferenças "de poder" entre as pessoas, não há nada que nos garanta a manutenção desta anarquia.

Penso que em uma sociedade que conseguisse manter-se sem governo, mesmo tendo disputas entre seus membros, provavelmente não manteria-se anarquista após um momento de "extremos": ataque estrangeiro, fome, epidemia, desastre natural, momentos em que uma comunidade não pode ficar dividida.

Vale!

Responder
anônimo 26/06/2011 16:26:13

"Penso que em uma sociedade que conseguisse manter-se sem governo, mesmo tendo disputas entre seus membros, provavelmente não manteria-se anarquista após um momento de "extremos": ataque estrangeiro, fome, epidemia, desastre natural, momentos em que uma comunidade não pode ficar dividida."\r
\r
\r
Tá... digamos, só para argumentar, que o teu raciocínio esteja correto. Então, já que em algumas situações uma pessoa pode ser escravizada ou violentada por outra, então aceitar a escravidão e a violência no quotidiano. É isso mesmo?

Responder
Luis Fintelman 26/06/2011 23:54:04

Eu não entendi exatamente o que você disse, mas se for o que eu entendi, a resposta é esta: se você quer se desvencilhar de seus opressores, vá lá e tente, mas saiba que sempre haverão opressores, não é humanamente possível criar um sistema imune a isto.

É por isto que na teoria sou anarquista, mas na prática sou conservador: não sei se vale a pena lutar por uma causa impossível de ser ganha.

Responder
Rafael 03/07/2011 22:13:11

Hipócrita

Responder
rafael 04/07/2011 00:54:32

se o seu raciocinio estiver correto, pq então não vemos vários estados surgindo a cada dia? pq ñ surgem estados concorrentes? pq o Brasil não cria outro estado e se divide em dois, tres, quatro?

dizer que anarquismo não se mantem seguindo sempre para uma democracia por exemplo pra mim é o mesmo que dizer que democracia não se mantem e tem que seguir sempre para um totalitarismo, o que não acho que seja verdade.

Responder
Erik Frederico Alves Cenaqui 03/07/2011 13:51:42

Considero este um dos textos mais sofisticados do site porque aborda uma questão que pessoas de boa vontade podem pensar.\r
\r
Não há como em uma sociedade baseada unicamente na propriedade privada e trocas voluntárias se tornar tirânica porque não existiriam MEIOS FISICOS para isso ocorrer.\r
\r
Os meios físicos para se efetivar a tirania estão todos dentro do estado.\r
\r
"Em uma sociedade sem estado, os déspotas não assumiriam o controle?"\r
\r
Resposta: Os déspotas assimiriam o controle de uma sociedade sem estado criando um estado.\r
\r
Infelizmente eu percebo que no Brasil o debate de idéias é feito de forma desonesta e cretina. As causas são tratadas como consequências, as consequências são tratadas como causas.\r
\r
Responde-se questões que nunca forma levantadas, foge-se do tema, dentre outros.\r
\r
Bom texto do site.\r
\r
Abraços\r
\r

Responder
Paulo Sergio 18/12/2011 03:00:11

'Para que o argumento "os déspotas vão assumir o controle!" seja válido, o estatista teria de arfirmar que uma dada comunidade seria ordeira sob um governo e que essa mesma comunidade iria se esfarelar em guerras contínuas sem'

E as favelas do rio de janeiro? Eram essa briga de gangues eterna antes do Brizola falar que a polícia não era pra entrar lá? E agora com as UPPS não melhorou tudo? Tanto que até os imóveis por perto estão se valorizando?

Responder
Renato 23/10/2012 15:09:12

"...há um fato bastante inconveniente: nunca houve na história a formação voluntária e espontânea de um estado. As pessoas que se estabeleciam em determinadas áreas e regiões jamais se preocupavam em definir quem elas iriam escolher para mandar em tudo dali em diante."\r
\r
Vejamos, talvez ele esteja pensando em imigrantes que chegaram à América do Norte e foram estabelecendo suas plantações. Visto que tinham uma tecnologia superior à dos índios, estes os temiam. Mas mesmo esses colonizadores, que muitas vezes vinham apenas com suas famílias, geralmente faziam amizade e acordos com tribos indigenas, às quais ajudavam contra outras tribos invasoras, e das quais tinham apoio reciprocramente.\r
\r
Ocorre que essas tribos tinham seus governos (chefias monopolísticas). Esses colonizadores, embora muitas vezes fossem eles mesmos sem governo sobre sí, buscavam, conforme seus próprios interesses, acordos com grupos, e esses grupos (fossem vilas e cidades de brancos, fossem tribos de índios) tinham governo, que tinha o monopólio da chefia sobre a segurança (ainda que cada homem estavesse armado e também cuidasse de sua própria segurança). Portanto, o que geralmente acontecia é que os indivíduos e famílias que não estavam subordinados a algum governo, se garantiam em parte pela associação com grupos que tinham governo. A idéia de um passado idílico em que o governo não teve parte na segurança das pessoas é uma ficção, a não ser que se pense em pessoas ou famílias relativamente isoladas, que pouco contato tinham com terceiros e que, por alguma razão não precisassem do apoio de grupos para sua segurança. Os grupos sistematicamente tinham governos, que organizavam a segurança e a justiça.

Responder
Andre Cavalcante 23/10/2012 21:41:31

Renato,

Já foi discutido isso aqui antes.

Quando você trata tribos e um "governo" na tribo, há um bocado de diferença do estado moderno.

Uma coisa é cessão de poder dentro de uma pequena comunidade, de comum acordo. Outra muito diferente é a mesma cessão de poder sem acordo nenhum, por coerção. Note que a definição atual (e a usada na maioria dos textos do site) não é simplesmente ser o monopolista da segurança e justiça, mas igualmente, usar de métodos coercivos para manter esse monopólio. E, mais uma vez, não era SEMPRE um monopólio, pois havia um para as questões religiosas, um para as questões administrativas e mais um que só era chamado em caso de guerras. Isso nas tribos já mais ou menos complexas. Andando um pouco mais pra trás, a coisa começa apenas pelos agrupamentos familiares, ou seja, clãs, em que o pai, ou o mais velho, tem efetivamente as características do tomador de decisão e justiça de última instância. Mas aí não dá pra falar em comunidade, pois um clã familiar é muito mais próximo de uma experiência anárquica (do ponto de vista do conjunto de clãs em um território) do que de um governo. Internamente em um clã, este líder se comporta como um pai em uma família moderna, ou seja, ele tem a última palavra pois É o seu território.

Um exemplo mais moderno, um condomínio também tem um "governo" sob a sua definição, mas não é um governo no sentido que não há coerção, não há tributação e, efetivamente, as pessoas são contribuintes e, dependendo das cláusulas de formação do condomínio, pode haver mesmo a seção individual.

Responder
Felipe 23/10/2012 16:42:04

Levando em consideração:
"...há um fato bastante inconveniente: nunca houve na história a formação voluntária e espontânea de um estado. As pessoas que se estabeleciam em determinadas áreas e regiões jamais se preocupavam em definir quem elas iriam escolher para mandar em tudo dali em diante."

"Lembre-se: essas seriam organizações admitidamente criminosas; ao contrário da prefeitura de Nova York, não haveria apoio ideológico a essas gangues."


Essas partes não estão em contradição?
As gangues não tem apoio ideológico do mesmo modo que as tribos/comunidades que escravizaram as outras para a construção dos impérios e posteriormente estados, e isso não impediu a criação dos mesmo (como dito no primeiro trecho).
Se isso aconteceu amplamente na antiguidade porque não aconteceria denovo?

Responder
Emerson Luis, um Psicologo 13/02/2014 19:24:10


Em uma sociedade mais livre, haveria troca de informações que afetariam reputações (que seria algo valiosíssimo) e equilíbrios de força, produzindo assim mecanismos de autocorreção social.

* * *

Responder
Gil Leça 21/06/2014 00:49:46

Eu acho que os anarquistas já escutaram isso mais de um milhão de vezes, mas eu não resisto a colocar mais uma vez aquela frase do Churchil: "A democracia é o pior sistema político que existe... fora todos os outros que são tentados de tempos em tempos".
O que ele quiz dizer é que, ao contrário do que vocês afirmam, os gorvernos surgiram sim de forma espontânea em todos os lugares onde houveram grupos humanos. De índios aborígenes a esquimós sempre houve alguma forma de contrato social que dizia mais ou menos o seguinte "Siga as regras dos líderes e poderá aproveitar as vantagens de viver com a gente. Quebre as regras e será punido ou expulso". E a vida era significantemente melhor numa sociedade sob condução de uma boa liderança do que no "estado de natureza". O problema é que boas lideranças não duram para sempre. E foi isso que a democracia tenta resover.
Outra objeção ao anarco-capitalista: Da mesma forma que os comunistas afirmam que o verdadeiro comunismo nunca foi tentado, sem chegar nunca a um acordo de como ele deveria ser, os anarco-capitalistas afirmam que não sabem como a coisa vai funcionar exatamente, mas que é o único futuro de paz prolongada. (isso os comunistas também afirmam, né?). Mas assim como o comunismo erra ao não considerar aspectos fundamentais da psique humana (quem vai se esforçar para qualquer coisa em um lugar com o lema "de todos conforme sua possibilidade para todos conforme sua necessidade), também o fazem os anarco-capitalistas ao desconsiderar a não-uniformidade de características tais como honestidade e agressividade nas pessoas que terão de ser coagidos de alguma forma não-institucional a cumprirem contratos, não roubar, não matar, etc.

Responder
Pedro 21/06/2014 12:55:19

Comparar anarquismo com comunismo é dose.

Compare os estados mais próximos da anarquia (Hong Kong) com os estados mais próximos do comunismo (Cuba) para ver como sua comparação é improcedente.

Responder
Carlos Prado 21/06/2014 13:43:56

Com ou sem governo eles estão tentando assumir o controle. Só que no governo já se tem a estrutura de repressão prontinha para se tomar e o pessoal já está inclinado (até por bom senso) a aceitar tal governo e quem o controle. Já sem o governo não é simplesmente ir dizendo que é o novo estado e que todos devem se submeter a ele. As pessoas quererão e poderão se defender quanto a isto, será necessário uma aceitação pacifica. E não sei quantos poderão financiar uma guerra contra todos para poder então tomar as riquezas destas pessoas.

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