clube   |   doar   |   idiomas
O direito de formar cartéis

O princípio básico de uma economia de livre mercado é que todas as trocas serão voluntárias, i.e., cada agente poderá decidir o que comprar ou vender livre de impedimentos como ameaça ou uso de violência. Com esta premissa em mente, o economista Rothbard desenvolve em Man, Economy and State uma defesa do direito de se criar cartéis. Caso os acordos de cooperação entre firmas sejam totalmente voluntários, este tipo de organização não estaria ferindo o princípio de livre mercado. Rothbard argumenta ainda que dificilmente esses cartéis sobrevivem se forem ineficientes do ponto de vista da satisfação da demanda dos consumidores.

Conforme ele explica, se os consumidores realmente se opusessem às ações de cartel, considerando que as trocas resultantes delas fossem prejudiciais, eles poderiam boicotar os cartéis de forma a tornar a curva de demanda de seus produtos elástica, ou seja, sensível aos preços de mercado. Ninguém é obrigado a consumir determinados produtos, e há um preço em que certamente é preferível abdicar do consumo ou procurar substitutos. Claro que os consumidores sempre preferem um preço menor. Mas Rothbard pergunta: Isso quer dizer que o preço ideal é zero, ou perto de zero, para todos os bens, porque isso representaria o mais elevado grau de sacrifício dos produtores aos desejos dos consumidores? Enquanto consumidor, todos preferem sempre o menor preço para suas compras; e enquanto produtor, todos preferem o maior preço para suas vendas. Existem apenas duas formas de resolver esse dilema: através do livre mercado, onde os preços são determinados livremente pelos indivíduos; ou pela intervenção violenta no mercado, ignorando os direitos de propriedade.

Sendo o cartel uma formação voluntária, não há porque classificá-lo, portanto, como imoral. Tampouco é possível afirmar a priori que seu resultado será prejudicial aos consumidores. Mesmo no caso extremo onde há restrição de oferta, quando um cartel chega a queimar parte de seu estoque para elevar os preços, pode-se argumentar que os consumidores permanecem livres para evitar tal ato, bastando para tanto comprar o produto no preço ofertado. Se os consumidores realmente desejam evitar o ato, eles podem praticar a filantropia por conta própria, comprando o estoque e distribuindo. Se não o fazem, é porque julgam que seus recursos escassos possuem destino melhor, e continuam, portanto, mais satisfeitos mesmo com a queima do estoque. Aliás, a queima de estoque nesse caso não é tão diferente de uma indústria que mantém suas máquinas ociosas, deixando de produzir no total de sua capacidade.

Sempre que se fala em cartel supõe-se algum tipo de conspiração. Mas Rothbard afirma que existe, na verdade, uma co-operação para elevar a renda dos produtores. Sendo assim, não haveria uma diferença essencial entre um cartel e uma corporação comum ou uma parceria. Uma grande fusão, de fato, é apenas um cartel permanente. Por outro lado, um cartel que mantém por acordo voluntário a identidade separada de cada firma é sempre mais transitório. Em muitos casos, um cartel pode ser considerado uma tentativa na direção de uma fusão permanente.

Alguns criticam os cartéis com base no seu tamanho. Mas como Rothbard diz, não há meios precisos de se determinar um tamanho ótimo de uma firma em qualquer indústria. A função dos empresários será justamente projetar a demanda futura e os custos de produção, e aqueles mais bem-sucedidos irão permanecer no mercado. O prejuízo será o alerta de que o empresário está falhando em sua tarefa de atender a demanda dos consumidores de forma eficiente. Portanto, somente o livre mercado poderá responder qual o tamanho ótimo de uma firma, através do mecanismo de tentativa e erro. Nenhum economista pode calcular ex ante qual seria o tamanho adequado de uma empresa de forma a maximizar a satisfação dos consumidores. Somente estes podem dizer isso através de suas livres escolhas. Logo, não há garantia alguma de que um cartel, ou um grupo de empresas cooperando, será menos eficiente que inúmeras pequenas empresas isoladas. O único jeito de descobrir isso é permitindo o livre funcionamento do mercado, incluindo a liberdade de se unir para cooperar com outras firmas.

A experiência, contudo, mostra que o cartel é uma forma inerentemente instável de operação. Se a união de um grupo de empresas se mostrar eficiente no atendimento da demanda, ou seja, rentável para cada membro do cartel, então ele irá naturalmente levar a uma fusão. Por outro lado, se a ação conjunta se mostrar um fracasso, ou seja, apresentar prejuízo para seus membros, as firmas insatisfeitas irão abandonar o cartel. As cotas definidas dentro do cartel serão sempre arbitrárias, e sempre poderão ser questionadas por seus membros. Os mais eficientes dentro do cartel terão um forte incentivo a abandonar o grupo, pois estão sendo limitados pela ineficiência alheia. Eles poderiam estar ganhando fatia de mercado caso abandonassem o cartel. E há ainda outra força ameaçando constantemente o cartel, que vem de fora. Se o cartel consegue retornos "artificialmente" elevados por conta da restrição da produção, nada impede que produtores de fora entrem no mercado e tirem vantagem desses lucros extraordinários.

Alguém pode perguntar: O que impede então a formação de Um Grande Cartel? Na verdade, o próprio mercado impõe um limite ao tamanho da firma, por causa do problema de cálculo econômico. Para calcular os lucros e prejuízos de cada setor, a firma deve poder comparar suas operações internas com os mercados externos para cada dos vários fatores intermediários de produção. Quando esses mercados somem, sendo absorvidos dentro da empresa, o cálculo econômico desaparece, e não há como alocar racionalmente os recursos escassos para as áreas específicas. O Grande Cartel não teria como evitar grandes prejuízos. Por isso mesmo essa nunca seria uma escolha voluntária no livre mercado. O socialismo, no fundo, seria equivalente a este Grande Cartel, organizado e controlado compulsoriamente pelo Estado. O fato de que Um Grande Cartel nunca foi formado voluntariamente e que ele precisa de coerção do Estado para ser formado demonstra que ele não poderia ser o método mais eficiente para satisfazer as demandas dos consumidores.

Por fim, o fato de que o termo cartel desperta tanta reação negativa pode ter explicação em sua origem, já que no passado um monopólio ou cartel era garantido como um privilégio especial do Estado, reservando uma determinada área de produção para um grupo particular. A entrada de novos concorrentes era proibida pelo governo. No caso brasileiro, a Petrobrás foi um exemplo claro de um monopólio possível apenas pelo decreto estatal, e não por uma maior eficiência da empresa vis-à-vis as concorrentes. O mais famoso cartel do mundo, a OPEP, segue o mesmo caso. Ele é garantido pelos governos autoritários dos países produtores de petróleo, basicamente do Oriente Médio. Mas este tipo de cartel não tem nenhuma relação com o livre mercado. Pelo contrário: ele é fruto justamente da intervenção no mercado.    

PS: Existem inúmeros exemplos de cartéis no mercado, e pode-se notar que os problemas surgem normalmente quando o governo impede a livre concorrência. A Ordem dos Advogados do Brasil é um caso típico de cartel, e não haveria problema algum nisso, caso houvesse liberdade no mercado. O perigo aparece quando o governo garante o monopólio legal da OAB, impedindo o funcionamento do livre mercado. Os sindicatos trabalhistas são também cartéis onde os trabalhadores se unem para garantir um poder de barganha maior frente ao empregador. O problema está na coerção que tais sindicatos fazem contra os não-membros, que aceitariam trabalhar com menos regalias. Quando tais sindicatos impedem através da ameaça violenta a livre competição, eles estão prejudicando os trabalhadores de forma geral. Novamente, a solução justa e eficiente está no livre mercado.  

__________________________________________________________

 

Veja também: Tributação X Regulamentação - O que é pior?

 

0 votos

autor

Rodrigo Constantino
é formado em Economia pela PUC-RJ e tem MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, primeiro como analista de empresas, depois como gestor de recursos. É autor de cinco livros: "Prisioneiros da Liberdade", "Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT", "Egoísmo Racional: O Individualismo de Ayn Rand", "Uma Luz na Escuridão" e "Economia do Indivíduo - o legado da Escola Austríaca".


  • mcmoraes  15/06/2010 19:32
    Constantino disse: "O que impede então a formação de Um Grande Cartel? ... o próprio mercado..., por causa do problema de cálculo econômico. Para calcular os lucros e prejuízos de cada setor, a firma deve poder comparar suas operações internas com os mercados externos para cada dos vários fatores intermediários de produção. Quando esses mercados somem, sendo absorvidos dentro da empresa, o cálculo econômico desaparece, e não há como alocar racionalmente os recursos escassos para as áreas específicas ... O socialismo, no fundo, seria equivalente a este Grande Cartel, organizado e controlado compulsoriamente pelo Estado."

    Agora que "me caiu a ficha", me espanto de nunca ter pensado que o Socialismo, na verdade, É um grande cartel.
  • msant  11/11/2011 15:13
    Algumas coisas que não ficaram claras para mim quanto ao "direito de formar cárteis":\r
    \r
    É afirmado no texto que "Se o cartel consegue retornos artificialmente elevados por conta da restrição da produção, nada impede que produtores de fora entrem no mercado..." No artigo, afima-se também que basta que os participantes aceitem o cartel voluntariamente para ele ser legítimo, entretanto o cartel pode ser voluntário com os que estão dentro, mas o que impede que seja violento ou que adote medidas anti-concorrenciais para impedir a entrada de novos concorrentes, visando manter a fatia de mercado dos que já participam do cartel?\r
    \r
    A livre-concorrência não é benéfica para os consumidores?? Se existe um cartel, mesmo que seja voluntário, isso não estará diminuindo a livre-concorrência?\r
    \r
    Quando se explica a origem da palavra cartel, afirma-se que surgiu quando se reservava uma determinada área para um grupo particular e isso era organizado pelo Estado, sendo assim, era intervenção. Mas se for organizado pelo mercado tudo bem? \r
    Eu não entendo qual o objetivo de organizar um cartel voluntário, se for apenas para reservar uma área para cada grupo e não tiver aumento de preços, aumento nos lucros. Por que o empresário abriria mão de concorrer pela fatia do mercado do concorrente? Seria só para ter sua área protegida e o concorrente não tentar abocanhar a sua fatia? Isso não é simplesmente comodismo e aversão a procura de inovações que possam melhorar seu processo ou sua logística, a fim de que você possa concorrer de igual para igual na área do concorrente e ainda manter a sua área? Nesse caso, não seria melhor para o consumidor a livre-concorrência? A divisão de áreas não seria prejudial aos consumidores, pois diminuiria a oferta de produtos? \r
    \r
    Quando ocorre fusão de empresas, argumenta-se que os consumidores podem ter vantagens econômicas devido à economia de escala. Mas num cartel cada agente continua com a mesma produção e com os mesmos custos. Não ficou claro no texto que tipo de vantagens um cartel pode trazer para os consumidores.
  • Leandro  11/11/2011 15:39

    Prezado msant, as suas perguntas em si só já demonstram por que é impossível um cartel voluntário durar em um mercado genuinamente livre. Sempre que houver formação de cartel e elevação de preços, haverá incentivos para que

    1) um membro do grupo saia do cartel, reduza seus preços e roube clientes de seus concorrentes, aumentando seu volume de vendas e consequentemente seu lucro; ou

    2) um empreendedor de fora chegue, pratique preços marginalmente menores, e com isso tome clientela dos cartelistas e obtenha portentosos lucros.

    Um cartel só é duradouro quando conta com a proteção do governo, seja por meio de regulamentações que impõem barreiras à entrada da concorrência no mercado, seja por meio de altos tributos que impedem que novas empresas surjam e cresçam.

    Apenas olhe ao seu redor. Todos os cartéis e oligopólios da atualidade se dão em setores altamente regulados pelo governo.

    E quando não era assim, o que ocorria? Quando o governo não tinha ainda poderes para se intrometer, havia formação de cartel entre os poderosos? Havia "exploração"? Não. O que ocorria era isso.

    Grande abraço!
  • msant  11/11/2011 16:04
    Hummm, então talvez esse não fosse o melhor título para o artigo... (mas também não cheguei a pensar em outro para sugerir...) porque, nesse caso, na prática, com a lentidão compartilhada pelo judiciário e pela polícia na investigação da existência de cartéis, quando se suspeitar que está tendo um cartel em um setor não muito regulamentado, ele já vai estar com o pé na cova ou até já terá terminado, visto que só duram os cartéis de setores muito regulados pelo governo(e eu acredito que cartéis desse tipo não são bem vistos pela escola austríaca).\r
    Obrigada pela atenção. Um abraço.
  • Cedric  19/11/2011 01:27
    "Quando tais sindicatos impedem através da ameaça violenta a livre competição"

    Infelizmente esse é o grande problema. Por exemplo, se um dono de posto não aceitar um preço imposto pelo cartel, num instante aparece um motoqueiro armado pra fazer ameaças. =/
  • anônimo  20/01/2016 22:20
    Isso ninguém responde
  • Logan  13/03/2012 22:57
    "O problema está na coerção que tais sindicatos fazem contra os não-membros, que aceitariam trabalhar com menos regalias. Quando tais sindicatos impedem através da ameaça violenta a livre competição, eles estão prejudicando os trabalhadores de forma geral. Novamente, a solução justa e eficiente está no livre mercado."

    Livre mercado então quer dizer que um grande player (no caso, o sindicato) não tem o direito de usar seu poder econômico para subjugar a concorrência (não-membros)? Afinal, a ameaça violenta nesse caso só tem sucesso graças ao poder econômico do sindicato (os não-membros, desestruturados e sem recursos, não teriam esperança de lutar contra tal iniciativa).

    Sinto muito, mas nesse caso a ameaça violenta pode ser efetuada com impunidade e, como esse desbalanço de poder vem diretamente de uma concentração de recursos, isso me parece perfeitamente dentro da lógica econômica (quem tem mais, pode mais). Tal situação só poderia ser impedida com a... tchan-tchan-tchan-tchaaaaaan... intervenção estatal. E agora, como fica o livre mercado nessa? Teria ele que ser salvo pelo estado?? Heresia!!
  • Leandro  14/03/2012 05:02
    "Livre mercado então quer dizer que um grande player (no caso, o sindicato) não tem o direito de usar seu poder econômico para subjugar a concorrência (não-membros)?"

    Desde que por métodos não violentos e não coercivos. Os funcionários de restaurante têm o direito de falar mal de seus concorrentes, mas eles não podem invadir o estabelecimento de seus concorrentes e impedi-los de trabalhar. E é exatamente isso que sindicatos fazem. Se as pessoas não querem trabalhar a um determinado salário, isso é um direito delas. Agora, o que elas não podem fazer é encampar e inutilizar a propriedade alheio, impedindo que os meios de produção sejam utilizados. Isso é agressão e desrespeito à propriedade, e não há absolutamente nada de errado em utilizar a polícia (já que o estado detém o monopólio da segurança) pra colocar a borracha pra cantar no lombo desses vândalos.

    "Afinal, a ameaça violenta nesse caso só tem sucesso graças ao poder econômico do sindicato (os não-membros, desestruturados e sem recursos, não teriam esperança de lutar contra tal iniciativa)."

    A violência dos sindicatos só tem sucesso porque sindicatos são instituições cuja existência e cujos métodos são defendidos pelo governo. Sindicatos são instituições que gozam do privilégio de poder agredir contra a propriedade alheia sem ser punidos. Ao passo que uma quadrilha que invade um prédio tende a ser condenada, sindicalistas grevistas que invadem uma fábrica e impedem seu funcionamento normal são protegidos pelo governo.

    "Sinto muito, mas nesse caso a ameaça violenta pode ser efetuada com impunidade e, como esse desbalanço de poder vem diretamente de uma concentração de recursos, isso me parece perfeitamente dentro da lógica econômica (quem tem mais, pode mais). Tal situação só poderia ser impedida com a... tchan-tchan-tchan-tchaaaaaan... intervenção estatal. E agora, como fica o livre mercado nessa? Teria ele que ser salvo pelo estado?? Heresia!!"

    Não entendi absolutamente nada desta lógica. Conclusão completamente desconexa e sem nenhum sentido. Perfeito exemplo de non sequitur
  • Logan  14/03/2012 15:01
    "Desde que por métodos não violentos e não coercivos. Os funcionários de restaurante têm o direito de falar mal de seus concorrentes, mas eles não podem invadir o estabelecimento de seus concorrentes e impedi-los de trabalhar."

    Claro, um player com muito poder econômico não vai usar de todos os meios a seu alcance (dumping, coação, ações violentas) para esmagar a concorrência. Porque você acha isso muito, muito feio de se fazer.

    "A violência dos sindicatos só tem sucesso porque sindicatos são instituições cuja existência e cujos métodos são defendidos pelo governo. Sindicatos são instituições que gozam do privilégio de poder agredir contra a propriedade alheia sem ser punidos."

    Meu amigo, não sei de onde você tirou isso, mas sindicatos não estão acima da lei e do estado de direito. As suas alegações de que "sindicatos são protegidos pelo governo" e por isso podem tomar ações violentas não têm qualquer base. Quer entender por que realmente sindicatos e outras corporações ficam impunes por suas ações?

    O poder de jure para o exercício impune (ainda que monitorado pelas instituições republicanas) da violência é um monopólio do estado. Mas o poder de facto para tal exercício está, adicionalmente, nas mãos de quem detém o poder econômico e político necessário.

    Não é necessário o apoio do governo para que um cartel prejudicial ao mercado se sustente. Basta que seu poder econômico seja tão maior que o dos possíveis concorrentes, que tal cartel gozará de dominância total nesse mercado, sem relação com sua eficiência ou suas qualidades. Simplesmente porque ninguém pode tirá-lo de lá.

    Acho que não é demais lembrar que muito poder econômico compra poder político. E o que a soma de poder econômico + poder político lhe garante?

    Pronto, explicação dada. Mas achei estranho ter de ensinar a um liberal que são as leis do mercado e a natureza humana, e não o ordenamento jurídico, que dão a palavra final. Esse não é o seu sermão?
  • Leandro  14/03/2012 15:27
    "Claro, um player com muito poder econômico não vai usar de todos os meios a seu alcance (dumping, coação, ações violentas) para esmagar a concorrência. Porque você acha isso muito, muito feio de se fazer."

    Dumping não tem nada a ver com coação e nem com ações violentas. Vender a preços baixos não é violência alguma, e não tem nada de agressão e coerção. Se dois pipoqueiros, um próximo do outro, começam a fazer disputa de preços para atrair clientes, algum deles está praticando ações violentas ou coerção?

    O simples fato de você igualar disputa de preços a coação e ação violenta já o desclassificariam de pronto para qualquer debate sério sobre o assunto.

    "Meu amigo, não sei de onde você tirou isso, mas sindicatos não estão acima da lei e do estado de direito. As suas alegações de que "sindicatos são protegidos pelo governo" e por isso podem tomar ações violentas não têm qualquer base."

    Não mesmo? Em que país? Aqui no Brasil, grevistas podem ocupar uma fábrica ou impedir que aviões decolem. E nada acontece com eles. Isso não entra na categoria impunidade? Pessoas impedindo entidades privadas de utilizar seus meios de produção (sua propriedade) não seria violência? O que o estado, "que não protege sindicatos", fez para impedir agressão? Aliás, nem precisamos ficar na seara privada. O mesmo ocorre com funcionários públicos grevistas. Professores que fazem greve e impedem colegas de dar aula. Isso não seria uma violência?

    Coincidentemente, só este ano, já ocorreram várias greves e os baderneiros não foram punidos. Vou lhe fornecer apenas o exemplo mais recente. Em Belo Horizonte, motoristas e cobradores de ônibus estão em greve. Se não quiserem trabalhar, é direito deles. Mas podem eles impedir violentamente outros colegas que querem trabalhar de fazê-lo? Veja aqui (seção depredação) uma notícia de vandalismo e de violência praticada por sindicalistas contra motoristas que estavam trabalhando e principalmente contra passageiros que nada tinham a ver com a situação. Ninguém foi punido.

    Logo, de que país você está teclando?

    "O poder de jure para o exercício impune (ainda que monitorado pelas instituições republicanas) da violência é um monopólio do estado. Mas o poder de facto para tal exercício está, adicionalmente, nas mãos de quem detém o poder econômico e político necessário. Não é necessário o apoio do governo para que um cartel prejudicial ao mercado se sustente. Basta que seu poder econômico seja tão maior que o dos possíveis concorrentes, que tal cartel gozará de dominância total nesse mercado, sem relação com sua eficiência ou suas qualidades. Simplesmente porque ninguém pode tirá-lo de lá."

    Aqui você mudou completamente de assunto e voltou a demonstrar avassaladora ignorância econômica ao dizer que um "cartel voluntário" seria violência. Por quê? Qual a agressão física que um cartel faz? Por que é que uma empresa que domina um mercado está necessariamente praticando violência? Como?

    No mais, fica a pergunta. Cite-me um único cartel no Brasil que não dependa da proteção do estado. Isto é, cite-me um cartel formado em um mercado livre, sem barreiras à entrada. Um cartel formado em um setor no qual não operam agências reguladoras e não há nenhum tipo de barreira à entrada criada pelo estado. Só um já está de bom tamanho.

    "Acho que não é demais lembrar que muito poder econômico compra poder político. E o que a soma de poder econômico + poder político lhe garante?"

    Ué, agora você acabou de concordar comigo acima. Cartel e poderio econômico descomunal só existem quando há conluio entre empresas e estados. Mas, ora, este é exatamente o tipo de arranjo econômico que este site mais abomina (depois do socialismo). O estado impedir uma empresa de entrar num mercado apenas para proteger outra empresa que já está neste mercado, isto sim é um ato de violência e coerção.

    Não entendi você nessa. Aliás, não entendi em nada.

    "Pronto, explicação dada."

    Qual? Onde? Sobre o quê?

    "Mas achei estranho ter de ensinar a um liberal que são as leis do mercado e a natureza humana, e não o ordenamento jurídico, que dão a palavra final. Esse não é o seu sermão?"

    Se, para você,

    leis de mercado = conluio entre empresas e governos;

    ou

    concorrência de preços = violência;

    e que o primeiro item não tem nada a ver com o ordenamento jurídico (que permite esse tipo de coisa), então, se eu fosse você, não me aventuraria no ramo dos sermões. Você falaria sozinho.

    Abraços!
  • Aline Coelho  31/03/2013 19:19
    Se o cartel é proibido por lei,é fiscalizado(talvez sem muita competência), como que ele continua acontecendo, e porque é tão difícil provar sua existência?
  • Nobre causídico  31/03/2013 22:09
    Incrível. Você respondeu sua própria pergunta, Aline Coelho!

    Você acertou quando disse "Fiscalização e lei". Para que surja um cartel, basta que a entrada de competidores em um determinado setor seja bloqueada. Compare a situação das telecomunicações em dois cenários:
    Um de cartel graças à formação de um oligopólio.
    www.youtube.com/watch?v=_pQh9oiGR00&list=LLSmL9PvTJvJ9UcnqCAcNi9A
    Um onde não houve a formação de oligopólio e o mercado seguiu quase completamente livre.
    www.youtube.com/watch?v=cmyPDjJ4l7o
  • Alexandre  06/08/2013 18:04
    Leandro,

    com esse escândalo do metrô, que tal um texto sobre misturando-o com a temática deste artigo?

    Abração!!
  • Leandro  06/08/2013 18:39
    Prezado Alexandre, a temática deste artigo não cabe na atual questão do metrô porque este artigo fala de um arranjo em que o estado não intervém para dar privilégios, ao passo que o caso do metrô é um explícito exemplo de arranjo corporativista, em que estado e grandes empresas participam de um mesmo arranjo. Como este site já demonstrou 17.437 vezes, tal tipo de arranjo -- em que estado e grandes empresas fazem conluio -- é inevitavelmente tendente à corrupção e aos conchavos. Confesso não entender a azáfama que estão fazendo com este caso do metrô de São Paulo, dado que tal tipo de coisa é "descoberta" todos os anos no Brasil. Vide o metrô de Salvador, por exemplo, que não fica pronto nunca.

    Em minha singela opinião, o atual escândalo da Siemens é apenas mais uma comprovação prática da superioridade do arranjo defendido no artigo linkado abaixo, artigo que infelizmente foi mal compreendido por alguns leitores. Vale a leitura:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1614

    Sobre PPPs, recomendo este artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=265

    Abraços!
  • Emerson Luis, um Psicologo  18/01/2014 21:57

    Como já comentado, um cartel só se tornaria eticamente errado se houver (1) coerção dos membros uns sobre os outros e sobre os clientes ou (2) coerção estatal.

    Curioso que o governo proíba cartéis e seja ele mesmo o grande possibilitador de cartéis. Por qual critério objetivo eles definem o que exatamente é proibido? No fim das contas, os critérios são subjetivos. Ou pior: inescrupulosos.

    * * *
  • Drplease  27/03/2014 11:21
    Pessoal alguém viu a cartelização que as grandes empresas(Google e Apple) tinham como objetivo manter os preços dos funcinários baixos:
    exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/jobs-escreveu-ao-saber-que-demitiu-funcionaria-do-google


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.