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O mito do “milagre econômico de esquerda” em Portugal
O atual governo de esquerda português manteve e até mesmo aprofundou a austeridade

De 21 de junho de 2011 a 26 de novembro de 2015, Portugal foi governado pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, do Partido Social-Democrata. Em Portugal, o Partido Social-Democrata é considerado de direita.

Sob os social-democratas, políticas de austeridade — no caso, corte de gastos e aumento de impostos — foram implantadas. Vários indicadores melhoraram, sendo o principal deles a forte queda nas taxas de juros de longo prazo, que desabaram de astronômicos 15% para irrisórios 2,5%.

A economia, após três anos de recessão — 2011, 2012 e 2013 — voltou a crescer em 2014 e 2015.

No dia 26 de novembro de 2015, António Luís Santos da Costa, do Partido Socialista, se tornou o novo primeiro-ministro. Desde então, ele se tornou o novo — e único — bibelô das esquerdas mundiais, que não se cansam de repetir que a atual coalizão de esquerda que governa Portugal está obtendo resultados espetaculares em termos de crescimento econômico, criação de emprego e redução do déficit fiscal após haver abandonado a insuportável austeridade imposta pela Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI).

Qual o problema com esta narrativa? Simples: ela é completamente mentirosa. O atual governo de esquerda de Portugal não só não abandonou as políticas de austeridade, como ainda as aprofundou em alguns aspectos.

Portugal, mais austeridade que na Espanha

Como dito, a coalizão de esquerda liderada por António Costa começou a governar Portugal em 26 de novembro de 2015. Para agradar à sua base eleitoral, suas primeiras medidas realmente implicaram a reversão de algumas reformas recomendadas pela Troika: a jornada de trabalho dos funcionários públicos foi reduzida de volta para 35 horas semanais [quando funcionários públicos trabalham menos, a economia produz mais], as aposentadorias voltaram a ser reajustadas pelo índice de preços, algumas privatizações foram paralisadas e o salário mínimo foi aumentado em 5% em 2016 e mais 5% em 2017 (o atual e já reajustado salário mínimo português, de 649 euros, é 21% menor que o espanhol).

Só que nada disso significa uma reversão das políticas de austeridade.

Para começar, os gastos públicos do governo português encolheram nada menos que 9% sob o governo de Passos Coelho, de 2010 ao final de 2015. Em 2016, já sob António Costa, mantiveram-se absolutamente estáveis (e isso em termos nominais; mas dado que a inflação de preços foi de 2%, então houve uma redução de gastos em termos reais).

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Gráfico 1: evolução dos gastos governamentais em Portugal

Vale ressaltar: não foi uma mera "redução na taxa de crescimento", como fazem em vários outros países. Foi corte de gastos, mesmo. Se um corte de 9% nos gastos do governo não é mais considerado austeridade, então a esquerda ficou moderada.

Como consequência deste brutal corte de gastos, o déficit do governo, que estava em astronômicos 11,1% do PIB, caiu para míseros 4,4% do PIB sob Passos Coelho. Já o socialista António Costa aprofundou ainda mais a redução do déficit, levando-o para míseros 2%.

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Gráfico 2: evolução do déficit público em Portugal

Em decorrência da redução dos gastos do governo e do acentuado encolhimento dos déficits, as taxas de juros de longo prazo (determinadas pelo mercado e essenciais para que haja investimentos produtivos em vez de especulativos) desabaram:

portugal-government-bond-yield.png

Gráfico 3: evolução dos juros dos títulos de 10 anos em Portugal

Para efeitos comparativos, peguemos um país semelhante: a Espanha.

Durante este mesmo período, o governo espanhol cortou gastos até o final de 2012, voltando a aumentá-los a partir dali. Do início de 2013 até hoje, o governo espanhol — sob o comando do "direitista" Mariano Rajoy — já aumentou seus gastos em mais de 10%.

spain-government-spending.png

Gráfico 4: evolução dos gastos governamentais na Espanha

 

O déficit do governo espanhol também caiu, mas bem menos que o do governo português.

spain-government-budget.png

Gráfico 5: evolução do déficit público na Espanha

 

Como consequência, os juros de longo prazo da Espanha — um país muito mais rico que Portugal — é apenas 1,46 ponto percentual menor, sendo que sua queda também foi bem menos acentuada.

spain-government-bond-yield.png

Gráfico 6: evolução dos juros dos títulos de 10 anos em Portugal

Consequentemente, quando se afirma — corretamente — que Portugal reduziu, em 2016, seu déficit público para menos que 3% pela primeira vez desde a crise econômica de 2008 (gráfico 2), vale ressaltar que isso ocorreu inteiramente por meio do corte de gastos.

Em 2015, o gasto público de todos os níveis de governo de Portugal foi de 48,3% do PIB ao passo que as receitas totais foram de 44% do PIB. Resultado: um déficit equivalente a 4,4% do PIB (déficit este que já era substantivamente menor que o de 7,2% de 2014). Em 2016, sob o governo socialista, as receitas do governo caíram de 44% do PIB para 43,1%, de modo que todo o ajuste, em 2016, se deu por meio do gasto, o qual caiu de 48,3% do PIB para 45,1% do PIB.

portugal-government-spending-to-gdp.png

Gráfico 7: gastos governamentais em Portugal (todos os níveis de governo) em relação ao PIB

Um gasto público de 45,1% do PIB é o nível mais baixo desde 2007.

Ou seja, o "superkeynesiano" e "anti-austeridade" governo de esquerda de Portugal reduziu o tamanho do setor estatal em relação à economia portuguesa ao nível mais baixo em uma década.

Entendido tudo isso, a única argumentação possível seria dizer que esta grande contenção do gasto público não afetou o dinamismo da economia porque o governo luso sabe da importância de se impulsionar a recuperação econômica com aumentos do investimento público. Mas nem isso: o investimento público em Portugal caiu sob o governo socialista. Foi de 2,3% do PIB em 2015 para 1,5% do PIB em 2016, o nível mais baixo desde 1995 (início da série histórica). Com efeito, o investimento público em Portugal, em 2016, foi menor que o espanhol.

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Gráfico 8: taxa de investimentos públicos em relação em PIB em Portugal (linha vermelha) e na Espanha (linha preta)

Em definitivo, o governo português "de esquerda" simplesmente manteve e, em alguns casos, até mesmo aprofundou em 2016 a austeridade de seu antecessor Pedro Passos Coelho.

Por que então este governo está sendo louvado pela esquerda como "anti-austeridade"? Majoritariamente, por causa da retórica: havia alguns cortes de gastos adicionais programados pelo governo Passos Coelho que o atual governo não implantou (em cujo caso a austeridade seria ainda maior). Mas isso de modo significa uma "rebeldia anti-austeridade".

No mais, o número de empregados já vinha crescendo desde 2013, não havendo qualquer alteração significativa a partir de 2016.

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Gráfico 9: evolução no número de pessoas empregadas em Portugal

Igualmente, o número de desempregados também vinha caindo continuamente desde 2013.

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Gráfico 10: evolução no número de pessoas desempregadas em Portugal


Finalmente, o ritmo de queda do desemprego apenas manteve a tendência já iniciada em 2013.

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Gráfico 11: evolução da taxa de desemprego em Portugal

Conclusão

Definitivamente, Portugal não é nenhum exemplo de políticas anti-austeridade e de rebeldia à Troika.

Que a esquerda esteja recorrendo a Portugal como exemplo prático de sua agenda econômica é um grande mistério.

É claro que o atual governo pode realmente vir a adotar, no futuro, uma agenda econômica realmente de esquerda, passando a aumentar os gastos e o intervencionismo. Isso é algo impossível de prever. Porém, até agora, isso não foi feito.

O que é certo é que, até o momento, utilizar Portugal de 2016 como exemplo de êxito de políticas anti-austeridade e expansionistas de esquerda é uma grande burla intelectual.

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Leia também:

O exemplo irlandês - como a redução dos gastos do governo impulsionou o crescimento da economia

11 votos

autor

Juan Ramón Rallo
é diretor do Instituto Juan de Mariana e professor associado de economia aplicada na Universidad Rey Juan Carlos, em Madri.  É o autor do livro Los Errores de la Vieja Economía.


  • baked georgia  08/06/2017 16:12
    é interessante a situação na grécia: o partido de esquerda radical (no próprio nome) fez mais austeridade do que qualquer governo anterior.
    um jornal português tinha comentado o porquê disso: com o controle que eles tem dos sindicatos, mídia, ong's, etc eles conseguem fazer frear quaisquer manifestações mais radicais contra si.


    isso se vê em outros países também, claro hehehe
  • Savalas  08/06/2017 16:20
    O problema da Grécia é a economia completamente amarrada, dominada por poderosos sindicatos tanto do setor privado quanto do setor público.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2017
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2031
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2132
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2134
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2137
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2140
  • Lel  08/06/2017 16:14
    Quando a realidade econômica aperta, não há ideologia que resista.

    Acredito que a Grécia, mais cedo ou mais tarde, irá fazer a mesma coisa.
  • Nordestino Arretado  08/06/2017 16:43
    Olá amigos, sei que o que eu irei propôr não tem nada a ver com o artigo em questão, mas gostaria que alguém me apontasse os erros nos argumentos expostos pelo cidadão no vídeo abaixo, sob a perspectiva econômica:



  • Pobre Paulista  08/06/2017 18:49
    Parei de ler no "Nióbio"
  • anônimo  08/06/2017 19:53
    Acho que vale a pena ver até o fim pra saber se realmente é verdade. Não sei se o Brasil aumentando muito a produção de Nióbio teria demanda suficiente pra este aumento de PIB. Não sei o quão necessário este minério é.
  • Nordestino Arretado  08/06/2017 19:46
    Esse tal nióbio virou mote de campanha para os supostos direitistas e conservadores brasileiros, defensores de Bolsonaro, Olavo de Carvalho e etc. Neste vídeo o sujeito chega a fazer um cálculo que, com exploração total do mineral, chega a pôr o PIB do país no primeiro lugar do ranking.
  • Tiago  08/06/2017 20:06
    Até o ultranacionalista do Ciro Gomes já disse que esse negócio de nióbio não é nada disso do que falam. Não há nenhuma fonte que constate a veracidade de que o Brasil detém 98% das reservas mundiais. E a mina de Araxá é propriedade da família Moreira Salles. Se o nióbio é realmente esse bilhete premiado, então os Moreira Salles são imbecis que odeiam dinheiro: poderiam concessionar suas minas para todo o resto do mundo e encher o rabo de dinheiro. Por que não estão fazendo isso?
  • Fernando Pessoa  08/06/2017 22:39
    Impressionante como essa bobagem neocon chegou até aqui no IMB. Pelo visto, qualquer que seja o próximo presidente, teremos mais um maluco intervencionista com a economia à beira do precipício.
  • Nordestino Arretado  09/06/2017 01:00
    Gostaria de ouvir a opinião do Leandro sobre esse vídeo do nióbio.
  • Marcio Nossa  09/06/2017 15:43
    Esse cidadão acredita que a terra é plana, e grande parte avanço cientifico é falso porque ele não tem capacidades cognitivas para entender. Esse cidadão não merece credibilidade nenhuma.
  • Sam Spade  09/06/2017 20:19
    Nióbio, mais um fetiche brasileiro...
    https://youtu.be/hFK82MFq27Y

  • João  10/06/2017 00:03
    O PIB não mede riqueza/wealth (estoque, reserva), e sim renda/income (fluxo, produção).

    Caso contrário a Venezuela, que tem uma reserva comprovada de 300 bilhões de barris de petróleo (a US$ 50 cada barril), teria um PIB per capita de US$ 500.000.

    Mas se for viável para o Brasil tirar 2.8 bilhões de nióbio do chão em um período e o preço se manter exatamente no patamar que ele falou, vai fundo. Só não sei o que aconteceria com um país que num dado período tem 37% da produção mundial e no período seguinte deixa de ter (porque as reservas acabariam).

  • Douglas  11/06/2017 03:25
    A maior parte do que ele falou é verdade, mas o preço do Nióbio é parecido com o do Ferro.

    Ou seja:
    1º) não adianta ter "todo o Nióbio do mundo" se é uma commodity que não se sabe pedir o preço que "nos tornariam ricos" (nunca entendi essa lógica nacionalista de que exportações torna os cidadãos comuns mais ricos).
    2º) se pedir um valor elevado que "nos tornariam ricos", é facílimo os países que importam Nióbio trocar por outro minério (esse deve ser um dos motivos que o Nióbio não seja valioso).

    O exemplo do Nióbio, mesmo que ele fosse tão valioso quanto ouro ou petróleo, é mais um argumento contra a prática de deixar a maior parte das terras do território brasileiro nas mãos de políticos, de empresas amiguinhas e do Estado. Deve-se privatizar absolutamente tudo, mesmo que as privatizações sejam porcas como as feitas por FHC e Yeltsin.
  • Marcos Martinelli  03/09/2017 16:32
    O nióbio, esclarecendo os mitos:

    https://youtu.be/_bpvRjd1u00
  • Observador  08/06/2017 17:07
    Tudo isso apenas ajuda a comprovar aquilo que foi dito neste artigo:

    Governos de esquerda que adotam reformas liberais

    Reformas impopulares -- mesmo que seja apenas a manutenção delas -- só conseguem prosperar tranquilamente em governos de esquerda, pois estes não sofrem oposição nem de sindicatos, nem de funcionários públicos e nem da mídia progressista. Ao contrário, aliás: até conseguem ganhar o apoio destas.
  • Mario Soares  08/06/2017 17:12
    Também convém ressaltar que o crescimento em 2016, primeiro ano do governo socialista, foi pior que o de 2015.

    www.dinheirovivo.pt/economia/ine-confirma-pib-de-portugal-cresceu-15-em-2015/

    www.jornaldenegocios.pt/economia/conjuntura/detalhe/economia-portuguesa-cresceu-14-em-2016

    Realmente, nada nessa fuzarca feita pela esquerda mundial em relação a Portugal pára em pé.
  • Jorge Gaspar  08/06/2017 17:22
    Já aqui falei por duas vezes sobre a situação cá em Portugal. A situação não é boa. Em 2016 já com governo de esquerda a dívida aumentou, os juros da dívida a 10 anos aumentaram, o crescimento económico diminuiu e a redução do défice foi menor que nos anos anteriores. Apenas em relação á redução da taxa de desemprego os resultados foram semelhantes aos do governo anterior.

    E o défice reduziu-se com governo de esquerda apesar de terem devolvido os cortes que tinham sido feitos aos funcionários públicos pelo governo anterior e reduziu-se porque o investimento por parte do estado foi o menor em muitos muitos anos.

    Para além disso tivemos num passado recente um governo de esquerda que conseguiu enganar todas as agencias estatísticas e económicas internacionais em relação ao défice em mais de 5 pontos percentuais. Acho provável que de alguma forma tenha acontecido novamente.

    Mas escrevo este comentário para dizer que é absolutamente fantástico que um governo que tem um ano cívil que é pior em praticamente todos os dados que o ano cívil anterior quando existia outro governo tenha feito pouca coisa de diferente, e num caso, dizem que existe um fracasso dos austeritários radicais e noutro um sucesso dos progressistas.

    António Costa não só não descobriu a pólvora como apenas descobriu a forma de travar a recuperação que estava a ocorrer na economia Portuguesa. Para os esquerdistas é a prova de que estão certos. É preciso ser-se mais burro que um calhau. E eles são

    Mais: o governo anterior reduziu o défice de 11.2% para 2.8% (expresso.sapo.pt/economia/2016-04-21-Eurostat-sem-ajudas-ao-sector-financeiro-defice-de-2015-ficava-em-28). Quando o Costa chega ao poder em 2015 sai num canal de tv Portuguesa a notícia que o banco Banif está falido. Os clientes começam a tirar dinheiro do banco e em menos de uma semana Costa vende o Banif aos Espanhóis do Santander. Nesse acordo fica estabelecido que o governo Português assume parte do passivo do Banif. No futuro saber-se-há exactamente que negociata foi aquela. Um banco que estava em dificuldade como practicamente todos os bancos Portugueses desde a crise, fecha menos de uma semana depois de uma notícia duvidosa e quando um novo governo tinha assumido funções ainda há pouco.

    Isto para dizer que na realidade o défice, sem medidas extraordinárias e desnecessárias, foi em 2015 de 2.8%. Significa isto que o governo anterior reduziu o défice a uma média de 2.1% ao ano (sendo que nos dois primeiros anos o conseguiu durante uma recessão). O actual governo terá reduzido o défice em 2016 em 0.7 pp. (Num ano de crescimento económico). Quem é que é absolutamente maravilhoso a reduzir o défice? o actual governo claro. Para além disso, o aumento considerável da dívida pública faz me crer que o défice de 2016 é inventado. Mas quem sou eu para contrariar os génios do Eurostat.

    Falta dizer que o ano de 2016 foi dos anos mais austeritários de sempre no que diz respeito ao investimento público. Investimento esse que terá de ser concretizado mais cedo ou mais tarde. Ou isso ou vão começar a reduzir funcionários públicos ou ainda vão diminuir mais o pouco trabalho que fazem.

    Por último, como já disse anteriormente, apenas na queda da taxa de desemprego este governo conseguiu em 2016 ter numeros idénticos ou até mais expressivos. Mas a taxa de desemprego já vinha a cair desde 2013 de um máximo de 17.5% para os 11.9% no fim do mandato do anterior governo.

    Mas agora vem a parte mais engraçada sobre o emprego : Com este governo houve um aumento brutal de pessoas a ganhar salário mínimo. Neste momento 1 milhão de pessoas ganha esse mesmo salário mínimo. 1 em cada 4 trabalhadores por conta de outrém. Isto num país cheio de licenciados.

    A situação em Portugal é má porque Portugal está muito longe do que por aqui se defende e isso indepentemente das forças políticas que estão governo. Agora, como houve uma recuperaçãozita (que começou com o governo anterior, e que até teve crescimento económico superior ao actual ), Portugal já é um caso de sucesso. Não é verdade e o futuro encarregar-se-há de provar que infelizmente estou certo
  • Bruno  08/06/2017 19:53
    Sem contar que o tal António Costa está no governo não tem nem um ano. Não tem como nada do que ele tenha feito ou deixado de fazer receber o mérito / culpa pela situação do país.
  • Helder Ferreira  08/06/2017 18:32
    Também há que levar em conta a teoria dos ciclos, que ajuda a explicar este crescimento económico e a queda do desemprego.

    Em situações de recessão e de austeridade (quando a política orçamental é pro-cíclica, ao invés de anti-cíclica, como deveria acontecer), há por norma uma reorientação dos fatores produtivos para setores onde haja mais vantagens comparativas, designadamente em bens transacionáveis. Que foi o que aconteceu: gerou-se desemprego, por força de crescimento económico negativo, e houve uma parte dessa massa empregada que deslocou para outros setores, maioritariamente exportadores.

    Com a recuperação da procura externa (que é, regra geral, o primeiro passo para a recuperação), o setor exportador acaba por prosperar e assim cresce o país.

    Com o tempo, devido ao lag temporal que as variáveis macroeconómicas, como o desemprego, levam a reagir aos efeitos positivos, a economia acaba por crescer.

    Porém, olhando para os ciclos económicos, verifica-se que este CE tem uma grande componente de variabilidade conjuntural, designadamente um grande crescimento do emprego, que tem sido o principal motor do crescimento do PIB. Ou seja, não há uma alteração das condições fundamentais da economia portuguesa, como uma melhoria da produtividade. Há sim algumas reformas feitas no mercado laboral, no sentido de o flexibilizar, que continuam a dar sinais de terem sido bem feitas.
    E assim cresce Portugal, com uns a reclamar a si os louros do trabalho desenvolvido por outros, ignorando que está quase tudo igual e que se desaproveitou o tempo de política monetária acomodatícia do BCE, que devia servir essencialmente para reformar PT a sério, ao invés de se cometer os mesmos erros de antes.
  • Andre Cavalcante  08/06/2017 19:17
    Só uma dúvida? Como é possível uma inflação em euros em Portugal? Há um BC local que cria euros? De onde vem a inflação em Portugal?
  • Leandro  08/06/2017 19:43
    Há quatro maneiras:

    1) Empréstimos bancários para pessoas e empresas;

    2) Déficits do governo;

    3) Superávit na balança comercial e de serviços em relação ao resto da zona do euro; e

    4) Investimento estrangeiro direto e em portfólio oriundo de outros países da zona do euro.


    Nos itens 1 e 2, o Banco Central Europeu agirá como qualquer outro BC do mundo: suprindo reservas ao sistema bancário para que a taxa de juros do interbancário não saia do lugar.

    Já os itens 3 e 4 são uma peculiaridade da zona do euro, e obviamente valem apenas para euros oriundos de outros países da zona do euro.
  • Fernando Pessoa  08/06/2017 22:48
    Leandro, no padrão ouro, como os países lidavam com uma balança comercial positiva? Perguntando melhor, uma massiva entrada de ouro não aumentaria a inflação daquele país? E isso não causaria problemas?
  • Leandro  09/06/2017 00:21
    O ajuste era automático. Saldo na balança comercial gerava aumento na oferta monetária, redução nos juros e aumento de preços. Consequentemente, havia saída de capitais (por causa da redução dos juros) e aumento das importações (por causa dos maiores preços).

    Isso gerava redução na oferta monetária e consequentemente aumento dos juros e redução dos preços. Aí então ocorria o inverso: aumentava o influxo de capital (por causa do aumento dos juros) e aumentava as exportações (por causa dos preços menores).

    Isso ocorria diariamente, de modo que sempre havia uma tendência ao equilíbrio.
  • Fernando Pessoa  10/06/2017 06:44
    Obrigado.
  • António Coutinho  08/06/2017 19:52
    Cá em Portugal tanto reclamavam contra as medidas do governo anterior mas acabaram por manter uma grande parte delas, incluindo a reforma do mercado de trabalho, feita em 2012 (no sentido da liberalização)
  • Clério Lauschner  08/06/2017 20:08
    Nenhum mistério. Da mesma forma, agora que a economia está quebrada no Brasil, a culpa, segundo eles, é toda do Temer.
  • Mauro  08/06/2017 19:55
    Funciona assim: a esquerda lá fez tudo ao contrário do que pregava. Aí deu certo.
  • Lel  11/06/2017 22:15
    Normal.

    www.ilisp.org/noticias/desarmamentista-marcelo-freixo-psol-conta-com-dez-homens-armados-como-segurancas/
  • Prefiro Zurique  09/06/2017 00:38
    Off

    Bom dia, tarde ou noite, a todos do IMB. Desculpem-me a ignorância, mas o que são os Acordos da Basiléia e quais são seus efeitos? Por que eles são tão ruins?
  • Luciano A.  09/06/2017 00:52
    Pelo visto, Portugal padece do mesmo mal que Brasil, a social-democracia é chamada de "direita". Uma lástima...
  • Leonardo  09/06/2017 05:54
    Meu professor disse que a Grécia ainda está em crise porque aplicou austeridade e que a Islândia saiu rápido da crise com intervenção estatal na economia.

    Um amigo meu de esquerda também me mandou isso: brasil.elpais.com/brasil/2015/02/18/economia/1424281414_946592.html

    Qual o erro nesses argumentos de esquerda?

    Agradeço se o Leandro ou qualquer um que saiba puder responder.

  • Leonardo  09/06/2017 16:40
    Valeu!
  • Vaclav  09/06/2017 12:16
    Excelente artigo. Uma correcção vinda de Portugal: o défice de 2015 foi de 4,4% porque o governo das esquerdas, em Dezembro, estoirou quase 3 mil milhões para salvar um banco privado, recusando investimento privado. Ficará como dívida futura para o Estado. A Comissão Europeia (que está com problemas relacionados com o Brexit, terrorismo ou imigração) tem permitido e sustentado tudo e mais alguma coisa a Portugal, porque não pode arranjar aqui mais um problema, por enquanto.

    Se forem estudar os indicadores como a produtividade (a descer) e a dívida pública (a subir a olhos vistos) perceberão como eles estão a hipotecar as contas futuras do país e a aproximar-se da quarta bancarrota (até agora, desde 1974, três bancarrota nacionais, sempre com os socialistas no poder). Enquanto isso, os transportes estão cada vez pior e os preços dos bens a aumentar. Apenas há dinheiro para sindicatos e clientela deste governo, que eram quem estava sempre na rua em manifestações.

    A imprensa portuguesa esconde-o porque tradicionalmente é de esquerda (para viver nas saias do Estado, ou seja, dinheiro dos contribuintes) e têm que aguentar este governo até 2018, quando será nomeado um novo Procurador-Geral da República. A actual, nomeada por Passos Coelho em 2012, tem promovido a investigação de casos de corrupção. Com os anteriores, os processos eram bloqueados e os corruptos (maioritariamente de esquerda) ficavam impunes...
  • wanda  09/06/2017 13:14
    www.jornaldenegocios.pt/economia/financas-publicas/detalhe/divida-publica-sobe-para-2474-mil-milhoes-de-euros-em-abril

    O BCE está ativo no mercado, sem esta liquidez muitos países estariam com grande dificuldade, com estado, famílias e empresas altamente endividados, isto sem contar a taxa de juro 0%.
    O BCE aceita dívida portuguesa, porque tem uma agência de rating chamada DBRS que mantém o país acima de lixo.

    Esta semana tivemos um evento importante, o Santander comprou o Banco Popular (era o sexto maior da Espanha) por 1€, sim UM EURO, segundo o BCE o banco estava com problemas, então está foi a melhor opção e foi um "sucesso", uma venda relâmpago, tem um artigo interessante no zerohedge ,
    www.zerohedge.com/news/2017-06-08/how-bail-out-becomes-bail

    Com os chamados "estímulos" tudo vai sendo mascarado, algumas cidades são literalmente um canteiro de obras, logo terão muitas inaugurações para a massa ficar distraída...

    Quando os "estímulos" forem retirados, vamos ver qual a rentabilidade das megalomanias.
  • Luiz  09/06/2017 23:29
    É aquele velho ditado popular "quando a maré baixa é que nós vemos quem estava nadando pelado".
  • Mister M  09/06/2017 18:16
    Poderiam me explicar em que sentido foi utilizado a frase "a jornada de trabalho dos funcionários públicos foi reduzida de volta para 35 horas semanais [quando funcionários públicos trabalham menos, a economia produz mais]"?

    Concordo que o governo não produz nada de bom, mas uma redução na jornada de trabalho não iria atravancar ainda mais o sistema? Por exemplo, imagina como seria o Brasil se os cartórios funcionassem só das 9h às 12h?

    Ou, no caso, a redução da carga de trabalho veio acompanhada de redução de salário (deixando mais dinheiro disponível para os setores produtivos da economia?)
  • Senhor Y  09/06/2017 19:01
    Quanto menos funça trabalha, menor a burocratização da economia, menor o esbulho, menor o extorsionismo, menor a encheção de saco.

    Imagina se fiscal alfandegário trabalhasse duas horas por dia? Haveria livre comércio pleno. Imagina se fiscal do Ministério do Trabalho trabalhasse meia hora por dia? A liberdade de empreender seria plena. Imagina se fiscal do meio ambiente trabalhasse 20 minutos por dia? Haveria alimentos fartos e baratos para todos. Imagina se burocratas em geral não trabalhassem? Toda a população seria empreendedora e consequentemente bem mais rica.

    O governo português está corretíssimo em reduzir a jornada da funçaiada.
  • Fernando Esteves de Matos  09/06/2017 18:37
    O sucesso do governo da esquerda chama-se pós-verdade.
  • Luiz  09/06/2017 23:24
    Seria esse governo português uma espécie de Lula 2003-2006 (até enquanto o Palocci esteve na Fazenda)?
  • Eudes  10/06/2017 03:17
    Por enquanto, sim. A conferir o futuro.
  • Rebeco  12/06/2017 17:37
    Acho que vou fundar um partido de esquerda, com o símbolo da estrelinha vermelha e quando chegar ao poder vou implementar um livre-mercado e corte severo de gastos.

    Assim a mídia vai puxar meu saco, vou atrair apoio dos esquerdistas das universidades e os sindicatos não vão encher meu saco com a demissão de funcionários públicos.
  • Tulio  12/06/2017 17:47
    E o pior é que é bem por aí mesmo, viu?
  • Tenente Murphy  13/06/2017 20:56
    Não entendi o seguinte trecho:

    "a jornada de trabalho dos funcionários públicos foi reduzida de volta para 35 horas semanais [quando funcionários públicos trabalham menos, a economia produz mais],"


    Diminuição de carga horária de servidores seja por diminuir salário ou diminuir burocracia melhora a economia. Mas o texto não deixou claro a que se refere, e em alguns casos diminuir funcionalismo não diminui, antes aumenta a burocracia, pois ela se acumula. Afinal, o que reduz burocracia são leis menos burocráticas, se mantivermos as leis atuais e diminuirmos a jornada de trabalho, o serviço se acumulará, vide o judiciário brasileiro, que está sobrecarregado seja por excesso de leis e burocracia seja pela consequência disso, a falta de mão de obra para acompanhar toda essa quantidade de leis.

    Então prá mim esse ponto está nebuloso. Se alguém puder me ajudar...

    Obrigado.
  • Senhor Y  13/06/2017 21:42
    Quanto menos funça trabalha, menor a burocratização da economia, menor o esbulho, menor o extorsionismo, menor a encheção de saco.

    Imagina se fiscal alfandegário trabalhasse duas horas por dia? Haveria livre comércio pleno. Imagina se fiscal do Ministério do Trabalho trabalhasse meia hora por dia? A liberdade de empreender seria plena. Imagina se fiscal do meio ambiente trabalhasse 20 minutos por dia? Haveria alimentos fartos e baratos para todos. Imagina se burocratas em geral não trabalhassem? Toda a população seria empreendedora e consequentemente bem mais rica.

    O governo português está corretíssimo em reduzir a jornada da funçaiada.
  • Tenente Murphy  13/06/2017 23:28
    Não concordo. Se o funça trabalha menos ao invés de diminuir a burocracia ela se acumula, porque enquanto não mudarem as leis o cidadão é obrigado a cumprir a lei. O exemplo do Judiciário é a melhor prova disso, porque a baixa quantidade de juizes ao invés de diminuir os processos, os acumula gerando lentidão e mais burocracia ainda.
  • Rogério  14/06/2017 00:44
    "Se o funça trabalha menos ao invés de diminuir a burocracia ela se acumula"

    Papelada acumulada e não resolvida é muito melhor do que papelada não acumulada e autuações e multas em dia. Se a papelada se acumulou é sinal de que o burocrata está inoperante. E sempre que um burocrata está inoperante, a economia está funcionando mais livremente.

    "porque enquanto não mudarem as leis o cidadão é obrigado a cumprir a lei".

    As leis que são éticas e morais independem de papelada acumulada. Toda a papelada acumulada se refere a multas, autuações, regulações e intimações trabalhistas.

    Se funça trabalhando fosse coisa boa, então Cuba, Coreia do Norte e URSS seriam potências econômicas invejáveis.

    "O exemplo do Judiciário é a melhor prova disso, porque a baixa quantidade de juizes ao invés de diminuir os processos, os acumula gerando lentidão e mais burocracia ainda"

    O judiciário só atua para ferrar o empreendedor. As poucas coisas boas que ele faz podem ser perfeitamente resolvidas por câmaras de arbitragens privadas. Ou seja, quando a morosidade do judiciário atrapalha, isso só ocorre porque ele possui um monopólio estatal.
  • Tenente Murphy  14/06/2017 01:35
    "Papelada acumulada e não resolvida é muito melhor do que papelada não acumulada e autuações e multas em dia. Se a papelada se acumulou é sinal de que o burocrata está inoperante. E sempre que um burocrata está inoperante, a economia está funcionando mais livremente."

    Concordo, mas na prática não funciona assim. Quando um burocrata fica inoperante na prática quem se ferra é o cidadão, porque fica de mãos atadas. Imagine abrir uma empresa com os burocratas inoperantes. Você iria para uma fila de espera enorme, o que engessaria ainda mais a economia.

    "As leis que são éticas e morais independem de papelada acumulada. Toda a papelada acumulada se refere a multas, autuações, regulações e intimações trabalhistas."

    Concordo, mas o governo está pouco se lixando para ética e moral, e sim para a letra da lei.

    "Se funça trabalhando fosse coisa boa, então Cuba, Coreia do Norte e URSS seriam potências econômicas invejáveis."

    Concordo, mas funça não trabalhar SEM mudar a legislação não altera em nada a vida prática, só atrapalha mais.

    "O judiciário só atua para ferrar o empreendedor. As poucas coisas boas que ele faz podem ser perfeitamente resolvidas por câmaras de arbitragens privadas. Ou seja, quando a morosidade do judiciário atrapalha, isso só ocorre porque ele possui um monopólio estatal. "

    Eu concordo, mas o que vocês não entenderam é que apesar de concordar com vocês eu pontuei que menor jornada de trabalho sem diminuir as leis burocráticas vai engessar a economia. Temos de diminuir o funcionalismo SIM, porém fazer isso diminuindo as leis e regulações e não simplesmente diminuindo a jornada deles.
  • Emerson Luis  16/07/2017 22:10

    "Que a esquerda esteja recorrendo a Portugal como exemplo prático de sua agenda econômica é um grande mistério."

    Discordo que seja um grande mistério: dizer isso e fazer aquilo faz parte integrante do modus operandi da esquerda. A única dúvida é o quanto desse discurso é autoengano e o quanto dele é ludibriação.

    Resposta: quanto mais alto na hierarquia esquerdista um militante está, menor o seu grau de autoengano e maior o grau de mentira profissional.

    * * *
  • Paulo Costa  17/07/2017 11:47
    Alguns dos doutos comentadores aqui vive em Portugal para testemunhar o que realmente se passa na primeira pessoa? Algum douto comentador vai negar que foram devolvidos os impostos extraordinarios cobrados pelos fascistas aos trabalhadores portugueses?
    Pois vou contar um segredo, eu TRABALHO em Portugal, e o novo governo fez com que grande parte do meu salario deixasse de SER ROUBADO..!
    Ide mas é trabalhar e deixar de escrever MENTIRAS!
    MENTIROSOS! ALDRABÕES!
  • Rui  17/07/2017 12:33
    Ué, você está dizendo que o novo governo reduziu impostos?! Nossa, mas que esquerda sensacional! Uma esquerda que reduz impostos eu também quero para mim.

    Ah, sim, por favor aponte onde o artigo disse o contrário. (A austeridade citada diz respeito a corte de gastos e de investimentos).

    Pelo visto, o verdadeiro aldrabão (intelectual) é você.


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