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Sobre a crise de 1929 e a Grande Depressão - esclarecendo causa e consequência
Como pode uma simples queda na Bolsa de Valores gerar mais de 15 anos de depressão econômica?

Nota do Editor

Este Instituto é pródigo em artigos detalhados sobre a Grande Depressão (confira a lista completa ao final deste artigo). Temos inclusive um livro extremamente detalhado a respeito.

No entanto, vários leitores sempre nos pediram para apresentarmos um artigo sucinto que condensasse os principais aspectos do crash de 1929 e a subsequente Grande Depressão que teria sido supostamente gerada por esse crash.

Aqui vai, portanto, um artigo bastante sucinto, porém completo, sobre o tema.

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No ano de 1921, houve uma profunda depressão na economia americana. O desemprego saltou de 5 para quase 12%. A economia se contraiu em incríveis 17% e os preços desabaram mais de 10%.

O que fez o governo americano à época, liderado pelo presidente Warren G. Harding?

De um lado, ele permitiu que os salários caíssem livremente, de modo a acompanharem os preços em queda. Isso fez com que os custos de produção das empresas rapidamente se estabilizassem. Harding, ao contrário dos presidentes de hoje, em momento algum disse que a queda dos salários seria ruim para a economia.

De outro, ele cortou profundamente os gastos do governo (em incríveis 50%), diminuiu o imposto de renda para todas as classes sociais e, de quebra, ainda reduziu a dívida do governo americano em 33%.

Por sua vez, o Federal Reserve — o Banco Central americano — nenhuma iniciativa tomou para contrabalançar a crise. Quando ele reduziu os juros de 6% para 5%, a depressão já havia acabado.

A liberdade de ajuste de preços e salários, em conjunto com a redução do fardo do estado sobre a economia privada, fez com que aquela profunda depressão de 1921 estivesse já totalmente superada em 1923.

Hoje, são raros os livros de história que sequer a mencionam. É como se ela não houvesse existido. O fato de o governo americano nada ter feito para contrabalançá-la — e por isso mesmo ela ter sido rapidamente solucionada pelo livre mercado — certamente é algo que abala a crença dos intervencionistas. Por isso mesmo sua diligência em escondê-la. Pode-se dizer que a depressão de 1921 foi a última na qual um governo não se intrometeu. Por isso mesmo, foi também a mais rápida.

Para quebrar esse silêncio, o economista James Grant, um dos mais respeitados economistas dos EUA e do mundo, escreveu um livro inteiro dedicado a esse assunto

A robusta recuperação da economia americana em 1923 deu início aquele período de prosperidade que se tornou conhecido como "os loucos anos 20".

Mas aí a história foi diferente.

Durante o resto da década 1920, o Banco Central americano reverteu sua postura até então conservadora e adotou uma política monetária muito mais expansionista: em 1920, os juros estavam em 6% ao ano. Ao final de 1927, eles já haviam caído para 3,5%. Uma redução de 42%.

Essa política monetária expansionista foi a principal responsável por sustentar a febre especulativa dos "loucos anos 20". A contínua criação de dinheiro pelo Federal Reserve permitia que os bancos concedessem, de forma contínua e aparentemente sem limites, empréstimos fartos e baratos para especuladores, os quais utilizavam esse dinheiro barato para comprar ações e, em seguida, revendê-las a preços muito maiores. A expansão monetária feita pelo Fed garantia que os preços das ações subissem continuamente. (Tudo isso está documentado em detalhes neste livro).

Vale ressaltar que é impossível preços de ativos subirem continuamente sem que esteja havendo uma grande expansão monetária, que dê sustentação a esse processo de alta nos preços. Sem expansão monetária é impossível preços subirem eternamente. E quem controla o processo de expansão monetária de um país é o seu Banco Central.

E assim foram os loucos anos 1920.

Até que, em fevereiro de 1928, o Fed, assustado com toda aquela febre especulativa, reverteu sua postura e, contrariamente às expectativas, começou a subir os juros. E o fez por três vezes seguidas. Em um período de 5 meses, ele elevou os juros de 3,50% para 5%. Pode parecer pouco, mas esse aumento de 43% em 5 meses bastou para interromper toda a farra especulativa.

Com o crédito mais caro, os especuladores começaram a ter dificuldades em auferir lucros em suas ações. Pegar dinheiro emprestado para comprar ações (um processo conhecido como "alavancagem") tornou-se 43% mais caro em 5 meses. Com menos empréstimos sendo tomados, a quantidade de dinheiro na economia parou de aumentar. (De novo, todas essas estatísticas estão documentadas neste livro). Com essa interrupção no crescimento da quantidade de dinheiro na economia, a própria atividade especulativa perdeu a potência. Os preços das ações pararam de subir.

Uma correção na bolsa de valores era inevitável.

O empurrão

E essa correção veio, mas de uma maneira inusitada.

No dia 29 de outubro de 1929, já com praticamente toda a atividade especulativa paralisada, a bolsa de valores americana desabou 12% em um único dia. Esse fenômeno, que ficou conhecido como a "terça-feira negra", é do conhecimento de todos. Mas o que não é muito bem conhecido é o que realmente precipitou essa correção tão súbita e tão substantiva.

Sim, a política monetária do Fed — que subitamente reverteu quase uma década de expansão monetária e dinheiro barato — criou as bases para que essa correção ocorresse, mas houve um outro detalhe: a história já revelou que, naquele dia 29 de outubro, correu a notícia de que o então presidente Herbert Hoover iria implantar a Tarifa Smoot-Hawley, que elevaria as tarifas de importação de mais de 20 mil produtos a níveis jamais vistos na história. Alem de encarecer substantivamente as importações, isso geraria uma guerra comercial e representaria um golpe fatal ao livre comércio.

Imediatamente os preços das ações das empresas desabaram.

Sobre essa tarifa, Thomas Lamont, alto executivo do J.P. Morgan, disse que "Eu quase me prostrei de joelhos perante Hoover para implorar que ele vetasse a asinina tarifa Smoot-Hawley". Já o presidente da GM européia, Graeme K. Howard, enviou um telegrama a Washington alertando que a aprovação da Smoot-Hawley levaria "à mais severa depressão jamais vivenciada pelo mundo".

Os mercados nunca precificam o presente; eles sempre miram o futuro. Os preços presentes são apenas os preços futuros descontados. Uma legislação criada para reduzir o comércio global inevitavelmente afetaria os mercados e os preços das ações das empresas. Com um comércio global muito mais restringido, os lucros das empresas exportadoras e importadoras seriam severamente afetados. A Bolsa de Valores apenas antecipou essa queda.

Uma queda na Bolsa gera uma depressão de 15 anos?

Até aqui a narrativa é bastante convencional. Quedas abruptas e inesperadas na Bolsa de Valores estão longe de ser um fato atípico. Isso já havia acontecido em 1920. E voltaria a acontecer novamente em 1987 — uma queda, aliás, muito maior, de 22%.

Por que nenhuma dessas duas quedas gerou uma grande depressão? Por que apenas a queda de 1929 teve esse potencial?

Essa é a pergunta que tem de ser respondida.

Para isso, entra em cena Herbert Hoover.

Pesquisas históricas conduzidas sem paixões ideológicas e sem panfletagens políticas revelam o básico: Herbert Hoover sempre fora um político incessantemente intervencionista.

Hoover, um homem bem intencionado e de instintos apurados, havia sido um bem-sucedido engenheiro de minas antes de entrar para o setor público. Por ser muito intelectualmente capacitado, ele acreditava que praticamente tudo podia ser manipulado e controlado como se fosse um projeto de engenharia. Essa sua filosofia foi trazida à tona durante o crash da bolsa em 1929.

Para começar, Hoover era abertamente contrário ao livre mercado. E por um motivo: ele sabia, corretamente, que uma livre concorrência desregulamentada forçaria as empresas a reduzir seus preços. Tendo sido ele próprio um homem da iniciativa privada, ele via uma queda de preços como algo inerentemente ruim. Pior: ele acreditava que preços menores levavam a salários menores.

Em novembro de 1929, pouco depois da queda da bolsa, Hoover convocou uma reunião com os presidentes das principais indústrias americanas. Henry Ford, da Ford Motor Company; Alfred Sloan, da GM; e Pierre Dupont, da Dupont Chemicals, lideraram o grupo que se encontrou com Hoover.

O presidente, então, impôs algumas diretivas sem precedentes: 1) Apesar da economia fraca e abalada pela queda da Bolsa e pelo fim da atividade especulativa (vale relembrar que especular na bolsa havia se tornado uma febre entre os americanos de todas as classes durante quase toda a ultima década), salários não deveriam em hipótese alguma ser reduzidos; 2) As demissões deveriam ser evitadas ao máximo. Se a empresa realmente tivesse de reduzir mão-de-obra, que o fizesse por meio da redução da carga horária — ou seja, dois trabalhadores deveriam, cada um, trabalhar apenas meio expediente, ou apenas dia sim, dia não.

Em troca da manutenção dos empregos e da não-redução dos salários, Hoover prometeu aos industriais que ele convenceria trabalhadores e sindicatos a não fazerem greves e a não exigirem benefícios e pagamentos adicionais.

E ele cumpriu a promessa. Os trabalhadores não fizeram greves. E as indústrias não reduziram os salários. Com efeito, Henry Ford chegou a aumentar os salários como um gesto de solidariedade.

O engenheiro Hoover, ao que tudo indicava, havia conseguido engenheirar a solução perfeita. Só que ela não funcionou.

Com o Fed tendo subido os juros e parado de expandir a oferta monetária, pessoas que haviam pedido empréstimos para especular com ações não mais conseguiam revender suas ações a preços maiores e, consequentemente, não mais conseguiam quitar suas dívidas. Elas começaram a dar calotes nos bancos. Os bancos então começaram a restringir empréstimos e a pedir a quitação de empréstimos pendentes.  As pessoas se assustaram com a situação e correram para sacar seu dinheiro dos bancos.  

Como os bancos praticam reservas fracionárias, isso gerou uma série de falências bancárias.  Essas falências bancárias geraram uma forte contração na oferta monetária — consequentemente, uma recessão.  

Tal recessão não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários — exatamente como havia feito em 1921 —, de modo que estes se adequassem à nova realidade da oferta monetária. Mas Hoover não permitiu que isso acontecesse.

Consequentemente, com essa ampla deflação monetária, foi impossível conter a queda dos preços. Em 1930 e 1931, os preços dos produtos industriais caíram. As pessoas simplesmente não tinham dinheiro para comprar bens ou para investir nas empresas.

E, para piorar tudo, a tarifa Smoot-Hawley de fato foi aprovada em 1930. Com as maiores tarifas de importação da história, não apenas as empresas e os cidadãos americanos não mais conseguiam importar bens baratos — uma extrema necessidade em um ambiente em que a quantidade de dinheiro na economia estava diminuindo —, como também os parceiros comerciais dos EUA retaliaram impondo pesadas tarifas sobre os produtos americanos.

Todo o comércio global foi paralisado.

Com as exportações americanas reduzidas à metade, os preços dos produtos industriais americanos desabaram.

Mas os salários — por causa da imposição do governo — continuaram sem ser reduzidos. Ou seja, receitas em queda e custos congelados. A consequência? Várias indústrias foram à falência.

À medida que a Depressão foi se aprofundando, a indústria pediu a Hoover permissão para finalmente reduzir os salários. Mas Hoover se recusou. "Se reduzirem os salários, os sindicatos farão um inferno", dizia ele.

Mas ao final de 1931, com a economia em frangalhos, a indústria rompeu o acordo com Hoover e finalmente reduziu os salários. Porém, como apenas reduzir os salários não adiantava, ela também começou a demitir em massa.

Mas já era tarde demais para interromper a queda livre. Falências geravam mais falências. O desemprego pulou de 3,2% em 1929 para 23,6% em 1932.

Hoover tentou contrabalançar a situação aumentando vastamente os gastos governamentais, apresentando um programa de nove metas estatais que incluíam grandes obras públicas, como a Represa Hoover. Ele aumentou os gastos do governo em quase 50% em termos nominais (e 87% em termos reais, considerando-se a deflação da época). Não satisfeito, elevou a alíquota máxima do imposto de renda de 25% para 63%.

Hoover implantou tudo aquilo que ele, como um engenheiro, imaginou que traria a economia de volta à prosperidade. Ele só não fez exatamente aquilo que seria o certo: deixar o livre mercado curar a situação, exatamente como em 1921.

Uma recessão que não deveria durar mais do que dois anos se transformou em uma depressão que durou 15 anos.

E ainda há quem diga que Herbert Hoover foi um adepto inflexível do laissez-faire.

Conclusão

Ao contrário do senso comum ensinado nas escolas e universidades, uma queda no valor das ações na bolsa (que foi o que aconteceu em 1929) por si só não gera depressão.  Em 1987, por exemplo, a bolsa americana caiu 22% e não houve depressão. 

O crash da bolsa de Nova York em outubro de 1929 teve suas origens na expansão do crédito feita pelo Federal Reserve em concerto com o sistema bancário de reservas fracionárias ao longo de toda a década de 1920.  Tal expansão gerou um boom sem precedentes no mercado de ações, levando a uma euforia especulativa generalizada.  Quando a expansão do crédito foi interrompida em decorrência de pressões inflacionárias, a euforia foi abruptamente interrompida, e deu-se início ao processo de correção.

A Grande Depressão, na verdade, não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários (exatamente como havia feito na depressão de 1921, que foi ainda mais intensa, mas que durou menos de um ano justamente porque o governo permitiu que o mercado se ajustasse). 

Porém, o governo fez exatamente o contrário: além de aumentar impostos e gastos, ele também implantou políticas de controle de preços, controle de salários, aumento de tarifas de importação (que chegou ao maior nível da história), aumento dos gastos do governo, e aumento de impostos. Para piorar: ele estimulou uma arregimentação sindical de modo a impedir que as empresas baixassem seus preços. 

Em 1933, entrou em cena Franklin Delano Roosevelt, que simplesmente deu continuidade às políticas intervencionistas de Hoover, inacreditavelmente prolongando a Depressão até 1946.

Um simples crash da bolsa de valores foi amplificado pelas políticas intervencionistas e totalitárias do governo, gerando uma depressão que durou 15 anos e que só foi resolvida quando o governo encolheu, em 1946. 

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Leituras complementares e obrigatórias:

What - or Who - Started the Great Depression? (Trabalho acadêmico)

New Deal policies and the persistence of the Great Depression (Trabalho acadêmico)

1920 - a última depressão na qual um governo não se intrometeu foi também a mais rápida 

Um conto de duas grandes depressões

Quer saber tudo sobre a Grande Depressão americana? Leia mais este lançamento do IMB

O New Deal ridicularizado (novamente) 

Como Franklin Roosevelt piorou a Depressão 

A Grande Depressão - uma análise das causas e consequências 

Herbert Hoover e George W. Bush: intervencionistas que amplificaram recessões (1ª Parte) 

A teoria austríaca dos ciclos econômicos e as causas da Grande Depressão

Um governo em dieta - quando os gastos realmente foram cortados  

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Lee Ohanian é professor de economia da UCLA.

Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil. 


14 votos

autor

Diversos Autores

  • Marcelo  27/12/2016 14:06
    Estudar a história da economia junto com a história dos fatos é muito mais legal.

    Mais artigos assim!
  • Acionista25  27/12/2016 14:23
    Parabéns a toda equipe do IMB!Interessante!Qual seria então a solução para a atual crise do Brasil?Confesso que não entendo essa pressão da sociedade em geral querendo que o governo haja, quando o que vocês aconselham é justamente o contrário.Sei que libertários não veem o PIB como uma medida real da economia e criticam o crescimento via consumo, mas como sair dessa armadilha, se 60% do PIB é consumo,e até um leigo como eu vai dizer que este é o caminho para crescer?O que de acordo com a realidade brasileira poderíamos fazer para crescermos de forma sustentável?
  • anônimo  27/12/2016 15:05
    A estabilidade só pode vir com orçamento base zero nos governos, currency board na política monetária, alíquota única nos impostos para evitar lobistas tributários, etc.

    O problema é que a estabilidade não permite flexibilidade. Uma coisa é inversamente proporcional a outra.

    A estabilidade no Brasil é quase impossível, porque o governo não vai estabilizar o câmbio, não vai acabar com os lobistas tributários, não vai gastar apenas o que arrecada, não vai parar de criar dinheiro, o governo não vai parar de pagar juros aos bancos, etc.

    Enfim, a última coisa que o Brasil vai ter é estabilidade.
  • 4lex5andro  28/12/2016 03:47
    Estabilidade pra que se tem as agências protegendo seus associados tal qual um clube fechado.

    Os planos de telefonia serão reajustados no início de 2017: https://tecnoblog.net/205342/planos-celular-mais-caros-2017-icms/
  • Elmiro Neto   27/12/2016 14:28
    Historicamente, o país mais próximo do minarquismo puro (estado minimo) foi os Estados Unidos durante o período de 1780 até 1913. Durante este período, os Estados Unidos se transformaram de uma economia rural e primitiva, que possuía menos de 1% do volume da produção global, para o país mais rico e industrializado do mundo, com um terço da produção industrial global. Foi a politica do estado mínimo que transformou os EUA em uma potência econômica e industrializada.
  • Magno  27/12/2016 14:35
    E mais importante de tudo: moeda forte e estável, sem a qual não há investimentos produtivos voltados para o longo prazo.
  • ed  27/12/2016 15:17
    Isso.

    Mas é interessante notar como um minarquismo gerou o governo mais poderoso do mundo. Há artigos aqui que falam sobre isso.

    É até possível argumentar que um governo minarquista PODE SER mais perigoso que um governo inchado logo de cara. Venezuela e cuba podem acabar com a sua população mas não podem fazer muito em termos globais. Já o FED pode prejudicar seriamente bilhões de pessoas ao redor do globo.
  • Felipe  27/12/2016 16:17
    Apesar de os EUA terem iniciado com um governo relativamente enxuto, não considero como um exemplo muito bom de minarquia. Isso porque a constituição americana (até onde sei, não sou um especialista) não continha dispositivos para limitar o crescimento do governo.

    Acredito que uma minarquia constitucional poderia ser manter assim por muito tempo. Mas nada muda o fato de que "o preço da liberdade é a vigilância eterna".
  • Murdoch  28/12/2016 00:28
    A constituição suíça não permite o Estado crescer sem um referendo popular, aliás, atualmente é o menor Estado do mundo. A população vota em termos de aumento de gastos e diminuição dos mesmos, lembro de uma situação em que a Suíça queria comprar caças Gripen, mas o referendo popular disse não. Em 1991, votaram para limitar o teto da dívida pública, e começou a fazer efeito em 2001, acho que a dívida era de 53%, com essa iniciativa chegou a 35%.
    Pegarei a parte do livro de Paulo Rabello de Castro - O mito do governo grátis, fala especificamente sobre isso: "Devido ao aumento incomum da dívida pública nos anos 1990, o
    Parlamento suíço e, subsequentemente, a população, por referendo, aprovaram
    um mecanismo inédito para reduzir a dívida a partir de 2001. Foi aprovado o
    chamado "freio ao endividamento", que reforçou o princípio constitucional que
    obriga o financiamento de gastos principalmente por meio de receitas fiscais, e
    não com aumento da dívida pública. Há exceções para casos emergenciais –
    como o auxílio ao setor bancário na crise causada pela falência do Lehman
    Brothers. O "freio" entra em vigor sempre que a dívida atinge o teto calculado
    anualmente. Esse "freio da dívida", relativo às finanças públicas, passou a
    vigorar em 2003. Uma década depois, o montante das dívidas do governo – que
    subira a patamares ameaçadores nos anos 1900 até o início de 2000 – foi
    reduzido em CHF$ 20 bilhões, tendo como referência o pico atingido em 2005.
    A relação da dívida com o PIB caiu de 53% para 37%, entre 2005 e o fim de
    2012."

  • Yuri  28/12/2016 01:35
    Não concordo Felipe. A constituição ter algum artigo limitando o tamanho do governo ajuda mas não resolve. Constituições podem ser mudadas ou substituídas.

    O país foi sim uma minarquia por seus fatos e não por seu arcabouço jurídico.
  • Felipe  28/12/2016 13:24
    Constituições podem ser mudadas ou substituídas.
    Sim. Mas mudar, por exemplo, uma cláusula pétrea de uma constituição não é algo simples. Uma nova constituição teria que ser refeita, e o trabalho político para isso seria gigantesco. Por isso uma constituição com cláusulas pétreas limitando o tamanho do governo e as áreas em que ele pode intervir faria muita diferença. Mas concordo com você, tudo pode ser mudado. E por isso a eterna vigilância.

    O país foi sim uma minarquia por seus fatos e não por seu arcabouço jurídico.
    Sim, e aí está o problema... Porque muitos dizem "os EUA iniciaram como minarquia e transformaram-se no maior governo do mundo, logo toda minarquia vai virar estado máximo". Talvez a história teria sido outra se o arcabouço jurídico fosse diferente.
  • Stalin  27/12/2016 15:03
    Discordo. Foi a ganância de todos os capitalistas irresponsáveis ao mesmo que causou a Crise de 29.

    Refutei o IMB.
  • Zé da Moita  27/12/2016 15:54
    culpa das zelite
  • Rafa  27/12/2016 16:34
    Em apenas uma frase! É um "jênio"...
  • Oneide teixeira  27/12/2016 15:06
    Tem que considerar o "Dust Bowl" como fator de piora na já ruim situação americana.
    Dust Bowl é um fenômeno climático que gerou quebras de safras no meio oeste.
  • matheus  27/12/2016 15:14
    e onde entra a crise de super produção do modelo fordista?
  • Tulio  27/12/2016 15:55
    Nunca houve.

    Aliás, queria muito entender que tipo de "crise" é essa gerada por excesso de oferta. Normalmente, "crise" significa privação e escassez. Dizer que excesso de oferta é "crise" é algo cômico.

    Qual a lógica? "Puxa, estamos com excesso de bens à nossa disposição. Não só não há escassez nenhuma, como há uma fartura de comodidades à nossa disposição. Crise intolerável!"
  • Vitor  27/12/2016 16:26
    Exatamente isto. E não é algo muito novo esta discussão. Como já dizia Bastiat, em 1845: "O que é preferível para o homem e para a sociedade, abundância ou escassez?

    'O quê!' o povo talvez exclame. 'Como pode haver qualquer dúvida sobre isto? Alguém alguma vez sugeriu, ou é possível sustentar, que escassez é a base do bem-estar do homem?'

    Sim, isso foi sugerido; sim, isto tem sido sustentado e é sustentado todo dia, e eu não hesito em dizer que a teoria da escassez é de longe a mais popular das teorias. É o destino de discussões, artigos de jornais, livros e discursos políticos; e, estranho como isso possa parecer, é certo que a economia política não terá completado sua função e cumprido sua função prática até que seja estabelecido como incontestável esta simples proposição: 'Riqueza consiste na abundância de commodities'

    Por acaso não ouvimos todos os dias: 'Estrangeiros irão nos inundar com seus produtos'? Então, o povo teme abundância.

    M. de Saint-Cricq por acaso não disse: 'Há superprodução'? Então, ele temia abundância.[...]"
  • matheus  30/12/2016 04:22
    quando a mercadoria não se converte em mais dinheiro gera crise?
  • anônimo  27/12/2016 15:37
    Será que o povo aguenta essas medidas abaixo ?

    - Orçamento base zero
    - Currency board na política monetária
    - Reduzir para 5% o imposto de renda, herança e lucro
    - Imposto indireto único com uma alíquota única para tudo que é consumido
    - Acabar com restrições burocráticas de importação
    - Impor um limite de 6 meses para reclamações trabalhistas
    - Acabar com restrições a terceirização
    - Vender todas as estatais


    A tendência é que os juros sejam reduzidos, as pessoas sejam contratadas como PJ, a inflação vai ser zero, milhares de pessoas irão abrir empresas, milhares de investidores estrangeiros irão investir no país, etc.

    Eu acho que não adianta ir pelo brutalismo contra o estado. A melhor forma é ir criando medidas que causem desinteresse pelo estado.
  • Capitalista Keynes  27/12/2016 16:06
    Gostei da redução do Imposto de Renda para 5%.....27,5% é pra matar.....cara que imposto mais cretino esse.
  • anônimo  27/12/2016 17:29
    Legal que você gostou !

    As empresas que entram no Simples podem pagar até 27,5%. As empresas que não entram no Simples podem pagar até 36%.

    O problema é que orçamento base zero e currency board são as últimas coisas que um keynesiano pediria na vida.


  • Capitalista Keynes  28/12/2016 11:41
    Por isso só citei a imposto de renda.....se não tivesse que pagar escola privada pro meu filho ,segurança privada no meu prédio e plano de saúde privado....não me importaria com os 27,5%.

    Mas o orçamento base zero também gosto apesar de quase impraticável (duvido que todos os ministérios irão esmiuçar cada item que irão gastar, seu custo unitário ,quantidade e a justificativa, UTOPIA em termos de Brasil claro.....pegam o ano anterior e jogam um tanto em cima).......agora o currency board no Brasil não funcionará, sofrerá ataques especulativos a toda hora...muito instável.
  • Hanke  28/12/2016 12:20
    É impossível haver um ataque especulativo a um Currency Board. Por definição.

    A menos, é claro, que o arranjo não seja um Currency Board genuíno, mas sim uma gambiarra.
  • Capitalista Keynes  28/12/2016 13:20
    Sim...mas é que conheci o modelo "gambiarra- board" Argentino....tenho medo que o nosso seja assim também.
  • igor  27/12/2016 15:47
    Bom artigo. Mas fiquei com uma dúvida:

    Nos tempos do colégio um professor disse que o que salvou/recuperou a economia americana foi a segunda guerra mundial. E o artigo disse que a crise se prolongou até 1946. Então a segunda guerra também piorou a economia americana?
  • Martins  27/12/2016 16:39
    Se o seu professor disse que foi a Segunda Guerra quem acabou com a Depressão, ele está metade correto: ele ao menos reconhece, corretamente, que o New Deal foi um fracasso.

    De fato, quando mais de 10 milhões de homens saudáveis e capacitados foram recrutados para as forças armadas, o desemprego deixou de ser um problema econômico. Foi assim que a Segunda Guerra resolveu o problema da depressão americana: ela matou todos os desempregados.

    Se guerras resolvessem recessões econômicas, então tudo o que os governos deveriam fazer tão logo entrassem em recessões é colocar toda a população para construir tanques, submarinos e caças, e então destruir todos eles para em seguido reconstruí-los novamente.

    Sério, isso é algo que cria riqueza para a população? Isso é algo que atende às demandas da população por bens e serviços?

    Se guerra resolvesse problemas econômicos, então os países do Oriente Médio seriam potências econômicas. Palestina, Irã, Paquistão e Iraque seriam as maiores economias do mundo.

    É inacreditável como falácias econômicas pueris conseguem perdurar.

    O que resolveu a grande depressão foi exatamente o encolhimento, ainda que forçado, do governo americano no pós-guerra: gastos, déficits e endividamento foram forçados a encolher num ritmo jamais antes visto. E, com o encolhimento do governo, o fardo estatal sobre a economia privada foi acentuadamente reduzido. Com menos governo, o setor privado finalmente pôde voltar a crescer, algo que não ocorria desde 1928.

    Artigo inteiro sobre isso, retirado da lista recomendada ao final do artigo acima:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=849
  • igor  27/12/2016 17:50
    Obrigado! Imagina quantos alunos sao enganados bovinamente por dia nos colégios e faculdades...
  • Marcelo Yared  11/03/2017 19:24
    Sem entrar no mérito da discussão, apenas uma correção a bem da verdade: A Segunda Guerra Mundial não matou todos os desempregados americanos. As baixas americanas no conflito foram em torno de 400.000. As influências das guerras na economia durante e pós os conflitos creio sejam bastante complexas e diferentes para cada evento. Abraço,
  • Guilherme  27/12/2016 16:40
    Também nunca entendi como é possível crer que guerras e destruição de capital geram crescimento econômico. Gostaria de ver uma única teoria a respeito...
  • Lel  27/12/2016 15:56
    Excelente texto.
  • anônimo  27/12/2016 16:42
    Há pouco descobri essa página que foca em desconstruir o pensamento liberal, em especial a Escola Austríaca. Há textos que buscam refutar Rothbard, Mises, Bawerk, Menger, a Praxeologia etc. Os textos são escritos por economistas de cunho marxista que, ao contrário da maioria, são bem elaborados, com dados, fontes e pesquisas como referência. É complicado para um não especialista (como eu) identificar de bate pronto onde estão as incoerências das análises.

    Leandro e demais experts que tiverem interesse em avaliar o conteúdo , segue link de um dos textos que tenta desmontar justamente a análise austríaca da cride de 29:

    https://www.facebook.com/CPLBrasil/posts/180858365721287:0

    Eis um trecho do artigo:

    "Pelo lado dos EUA, a atuação diplomática política-econômica para equalização monetária internacional se deu no bojo da recuperação de um breve período de recessão entre janeiro de 1920 a julho de 1921, quando, no âmbito interno lidaram e superaram a recessão com as seguintes medidas: cortes da taxa de desconto por parte do Federal Reserve (indo de 7% em janeiro de 1920 a 4% em junho de 1921) triplicando seu estoque de títulos do governo em operações de compra a mercado aberto; concessão de crédito agrícola, estimulando também assim o mercado internacional; financiamento da exportação por parte da organização estatal War Finance Corporation em 1921, e financiamento de obras públicas via um déficit limitado.
    Desta forma todavia se verifica, ao contrário do que o descaratismo destes liberais apresentam, de 1920 até 1940, a inflação acumulada nos EUA só caía. (ver GRÁFICO 1 e 2 nos comentários)"


  • Leandro  27/12/2016 17:08
    Já refutados no presente artigo.

    Aliás, sobre a depressão de 1921, eles dizem que:

    "[...]no bojo da recuperação de um breve período de recessão entre janeiro de 1920 a julho de 1921, quando, no âmbito interno lidaram e superaram a recessão com as seguintes medidas: cortes da taxa de desconto por parte do Federal Reserve (indo de 7% em janeiro de 1920 a 4% em junho de 1921)"

    Isso é uma afirmação patentemente falsa, como comprovam os próprios dados do Fed. Em junho de 1921, a taxa de redesconto era de 6% (e não de 4%).

    E, ao final de 1921, ela foi reduzida para 5% (e não para 4%).

    Ela só foi reduzida para 4% em meados de 1924 (e não em junho de 1921, como disseram esses marxistas).

    Pode conferir tudo aqui, no gráfico do próprio Fed:

    https://fred.stlouisfed.org/graph/fredgraph.png?g=cdSb


    Para piorar, eles dizem que a recessão de 1921 foi curada por meio de um "déficit limitado". Onde houve esse déficit?

    Eis o gráfico do orçamento americano:

    https://fred.stlouisfed.org/graph/fredgraph.png?g=cdX5

    Houve déficits apenas durante a Primeira Guerra Mundial (até 1918). A partir de 1920, superávits. Aliás, a depressão de 1921 foi combatida com superávits. O governo Harding é odiado pela esquerda justamente porque combateu uma depressão produzindo superávits orçamentários

    Resumo da história: essa gente está lhe enganando. Porém, o que seria dos marxistas sem a recorrência às mentiras?
  • Vitor  27/12/2016 18:26
    Leandro, fazendo uma pesquisa bem simples sobre o assunto, apenas para conferir as informações, acabei chegando nesta publicação do Federal Reserve. Na página 439-442, há a tabela a respeito do "Discount Rate on Eligible Paper", de 1914-1941.
    Antes de tudo, eu tenho uma dúvida. O gráfico que você usa do FRED, utiliza apenas os termos "Discount Rates", então, eu gostaria de saber, há alguma diferença?

    Apenas para simplificar, na página 422 há isso sobre o assunto: "Discount rates. One of the principal objects of the Federal Reserve Act was to afford member banks a means of rediscounting short-term commercial and agricultural paper. Discount
    rates on eligible paper established by the Federal Reserve Banks, as reviewed and determined by the Board of Governors, are an important instrument of Federal Reserve credit policy.
    In the early years of the System the Federal Reserve Banks established a variety of rates, differing with various classes of paper and various maturities; for a relatively short period —April 1920-July 1921—some of the Reserve Banks had graduated or progressive rates based on the amount of accommodation extended to the borrowing bank. The tendency, however, was toward a simplification of the rate structure. Early in 1920 a single rate prevailed at each Federal Reserve Bank for discounts of and advances secured by eligible commercial, agricultural, or industrial paper of all maturities, and beginning with various dates in 1921, a single discount rate applied at each Federal Reserve Bank for all discounts and advances to member banks.
    For the period prior to 1921, when a multiplicity of rates prevailed, Table 115 shows only discount rates on paper of a single class and maturity—usually the type of paper and maturity for which the rate was lowest. [...] The various rates which applied during this early period to different classes of paper and different maturities appear in a publication of the Federal Reserve Board, Discount Rates of the Federal Reserve Banks, 1914-1921.
    "

    Caso não haja nenhuma diferença entre Discount Rates e Discount Rates on Eligible Papers e considerando a parte que destaquei a tabela diz que, em 26 de janeiro, de 12 Federal Banks, para 8 deles , o valor era 6%; para 2, 5%; para 1, 5.5%; e para 1, 4.75%. O que dá para tirar uma média de 5.6875%.

    Já em 30 de julho de 1921, para 7 Federal Banks, o valor era 6%; para 4 5.5%; e para 1, 6.5%. O que dá parar tirar uma média de 5.875%.

    E isso é, lembrando que, eles dão preferência nos dados para os menores valores. De onde os colegas tiraram 4% em julho de 1921, é um mistério para mim.


  • Leandro  27/12/2016 20:48
    Pois é.

    O mecanismo do redesconto era, antes da criação da mesa de open market, o principal mecanismo de política monetária utilizado pelos Bancos Centrais mundiais, especialmente o Fed.

    Por meio desse mecanismo, os bancos ofereciam papeis comerciais ao Fed e este os comprava a um valor descontado (daí o nome de redesconto).

    Sendo mais específico, pessoas e empresas ofereciam papeis comerciais (duplicatas) aos bancos, que então compravam esses papeis (a um preço descontado de acordo com a taxa de juros). Ato contínuo, caso precisassem de liquidez, os bancos ofereciam essas duplicatas ao Fed, que as comprava a uma taxa de desconto (determinada por ele próprio).

    Numa data futura predeterminada, o Fed devolveria esses papeis aos bancos mediante a devolução do dinheiro destes para o Fed (esse é o acordo de recompra, ou "repurchase agreement", ou simplesmente "repo").

    Na prática, porém, esses papeis iam sendo rolados eternamente, de modo que a expansão monetária ocorrida (quando os bancos compravam as duplicatas das pessoas e empresas) jamais era revertida.

    Muito obrigado por trazer esse complemento sensacional e, assim, demonstrar a impostura dessa gente.

    Grande abraço!
  • David Ribeiro  03/01/2017 17:29
    Leandro porque vocês do Instituto Mises Brasil não Enterram logo aquela página com suas falácias, mentiras e supostas refutações às teorias sobre a Escola Austríaca, eles realmente estam dispostos ao debate e acho interessante que vocês desmintam logo eles, os textos que eles colocam são de linguagem muito complexa e são extensos o que dá a impressão de que eles estam falando a verdade e também eles possuem fontes e dados próprios, eles são Socialistas-cientificos mas pelo menos procuram atacar as ideias e não as pessoas, o que me impressiona é eles abertamente defenderem socialismo.
  • República de Curitiba  27/12/2016 17:23
    Para mim ainda não é claro onde ocorreria o momento de ruptura caso o FED não intervisse.

    Nesse caso de 29, o Ciclo iniciou-se com a própria ação do FED em tentar corrigir o erro que estava cometendo, com o reajuste da meta da taxa de juros.

    Mas, e se o FED não mexesse? Quando a economia daria sinais de estouro da bolha?

    Pelo que entendo até o momento dos Austríacos, ocorreria no momento em que as empresas notassem que seus estoques não seriam consumidos - o que causaria a interrupção da farra até a quebra.
    Entretanto, nesse período, os índices de Inflação se mantiveram estáveis, a economia crescia mas não a níveis absurdos (pib 4,5% a.a, per capita também em crescimento), a dívida pública do governo vinha se reduzindo.
    Então, apesar da queda das taxas de juros e do disparo da Oferta Monetária, a Economia não dava sinais de quebra.


    Então, não fica claro pra mim o "susto" do FED para aumentar a taxa de juros.
  • Leandro  27/12/2016 18:03
    Estava no próprio comportamento da economia (recomenda-se a leitura do livro indicado, o que pode ser feito gratuitamente pelo site).

    Os preços das ações estavam subindo de maneira completamente desarrazoada. As ações da General Electric, por exemplo, haviam triplicado em apenas um ano.

    Em 1928, as 1.200 empresas listadas na Bolsa pagavam dividendos de 3,4 bilhões de dólares. Para a época, uma fábula.

    Motoristas de caminhão e garçons ganhavam, só em dividendos, mais que o seu salário mensal. O famoso escritor F. Scott Fitzgerald dizia à época que tinha certeza de que os garçons que o serviam -- ou que deixavam de servi-lo -- eram muito mais ricos do que ele.

    Todos os grandes transatlânticos tinham seus mini-escritórios de investimento para que os passageiros se mantivessem informados sobre os movimentos da bolsa. Centenas de pessoas compraram ações da Seabord Air pensando ser uma companhia aérea. Era uma empresa ferroviária.

    Literalmente todos os cidadãos comuns estavam acompanhando a bolsa. Era só investir para, no dia seguinte, ver quanto já havia ganhado.

    Houve também, em paralelo a tudo isso, uma bolha imobiliária na Flórida, causada pela expansão do crédito facilitada pelo Fed.

    Havia sinais claros e explícitos de que tudo aquilo era um esquema de pirâmide, mantido exclusivamente pela expansão monetária, e que não tinha como durar para sempre. Tudo acabaria tão logo a expansão monetária acabasse.

    E foi isso que aconteceu. O Fed quis interromper a bolha e conseguiu.

    Agora, sejamos justos: não tinha como ele saber que as consequências de tudo isso seriam as políticas intervencionistas de Hoover e Roosevelt. Por si só, interromper uma febre especulativa, embora possa gerar um reajuste de curto prazo (recessão), não irá necessariamente causar uma prolongada depressão.

    Para isso, é necessária uma maciça intervenção estatal.
  • República de Curitiba  27/12/2016 18:39
    Leandro,

    Havia sinais claros e explícitos de que tudo aquilo era um esquema de pirâmide, mantido exclusivamente pela expansão monetária, e que não tinha como durar para sempre. Tudo acabaria tão logo a expansão monetária acabasse.

    Não tenho nenhuma objeção. Ganhar sem produzir o equivalente em troca não tem como dar certo.

    Mas, deixe-me tentar deixar minha ignorância mais explícita: Minha dúvida é em relação ao ponto de quebra. A faísca que faria essa bolha estourar.

    Tentando criar uma sequencia de fatos, entendo que a bolha poderia se dar por dois motivos:
    1. A expansão monetária, aliada a produção robusta da indústria, tornarem os movimentos da economia insustentáveis devido a uma falsa ilusão de não haver escassez, ocasionando a quebra de oferta x demanda devido a erro de alocação de recursos, desencadeando uma freada na produção e a consequente queda no preço de ações;

    2. A grande oferta de recursos, aliada a uma inexistente demanda para estes, jogar os preços para baixo, gerando deflação econômica, falências de empresas que estimaram errado o futuro, recessão econômica e consequente queda no preço das ações;


    Correto?

    PS: Obrigado pela indicação do livro.
  • Leandro  28/12/2016 00:25
    Seus dois itens estão corretos, mas a questão é entender o que levaria a eles.

    Como a expansão no crédito foi causada por uma redução artificial dos juros e não por um aumento na poupança (isto é, pela abstenção do consumo), isso significa que não houve uma liberação de recursos de um setor para ser utilizado em outro setor. Aí começam os problemas.

    Mais dinheiro entrando economia via financiamentos para investimentos faz aumentar a demanda por mão-de-obra na indústria e na construção civil, mas ao mesmo tempo os setores de serviço e comércio continuam precisando de mão-de-obra e recursos, pois não houve aumento na poupança (abstenção de consumo). Assim, começa a haver uma batalha por mão-de-obra e por recursos.

    Houvesse poupança genuína, a mão-de-obra de um setor seria liberada para outro setor, e os recursos mais demandados por um setor seriam liberados para outros setores. Mas como não há poupança, esses fatores de produção começam a ser disputados via aumentos salariais e aumentos de preços.

    Assim, ao mesmo tempo em que uma construtora passa a demandar mais engenheiros, arquitetos, mestres-de-obras, corretores, vendedores, relações públicas etc., os setores de serviço e comércio continuam demandando com a mesma intensidade esses profissionais, pois as pessoas não estão poupando, o que significa que o consumo segue aquecido em todos os setores — a redução dos juros, como dito, não veio da poupança, mas sim da manipulação do governo.

    O desemprego cai e os preços e os salários sobem.

    Enquanto estiver havendo essa expansão do dinheiro e do crédito, mas os preços continuarem contidos — subindo a um ritmo moderado —, os números positivos da economia irão durar. A demanda por bens e serviços irá continuar em alta. Os estoques das empresas serão prontamente vendidos. Apartamentos continuarão sendo vendidos na planta. Novos empreendimentos continuarão sendo iniciados. Carros zero continuarão sendo vendidos aceleradamente. Novos restaurantes e novas lojas continuarão sendo abertos. Os preços e os lucros continuarão subindo. Trabalhadores continuarão encontrando empregos a salários nominais cada vez maiores.

    No entanto, tal expansão econômica não pode durar. Em algum momento, essa expansão monetária começará a provocar um aumento generalizado nos preços. Quando a carestia estiver incomodando, os juros irão subir, encarecendo novos empréstimos. A expansão do crédito irá se desacelerar.

    Mesmo que o Banco Central continuasse injetando dinheiro indefinidamente, uma hora os bancos teriam de aumentar os juros dos seus empréstimos, pois a expansão monetária estaria provocando um inevitável aumento de preços. Assim, se os bancos não aumentassem os juros cobrados, eles simplesmente receberiam — no momento da quitação do empréstimo — um dinheiro com um poder de compra menor do que o que esperavam receber quando concederam o empréstimo.

    Ou seja, nem mesmo um Banco Central proativo e determinado a manter a expansão do crédito indefinidamente pode impedir que o momento da correção chegue.
  • República de Curitiba  28/12/2016 11:48
    Leandro,

    Obrigado. Discurso harmônico e lógico como de praxe.

  • República de Curitiba  27/12/2016 18:43
    Ah, detalhe:
    Coloquei essa situação porque quero simular uma situação em que a expansão monetária NÃO cesse.
  • Andre Mello  27/12/2016 19:19
    Ora, se políticos vivem de crise, que interesse teriam em resolver alguma coisa? É muito simples!
  • anônimo  27/12/2016 20:13
    ...


  • Carlos Lima  27/12/2016 20:28
    Eu tentei ver os nomes dos autores desse excelente artigo mas não consegui. Parabéns a todos, mas... seria possível nominá-los, por gentileza?
  • Auxiliar  27/12/2016 20:50
    Ao final do artigo, imediatamente abaixo da lista de recomendações de leitura.
  • Um Cão  27/12/2016 23:25
    Artigo muito bom, um resumo muito bem elaborado. Obrigado aos autores e editores
  • anônimo  28/12/2016 00:36
    O Brasil está quase chegando nos 17% de recessão da crise de1929.

    Essa farra do crédito para comprar coisas supervalorizadas pelo protecionismo é bizarro.

    É engraçado ver gente acreditando em protecionismo e moeda desvalorizada.

    Se existe inflação, o maior problema vai ocorrer na construção civil, máquinas, bens duráveis, etc; porque os juros aumentam e comprometem os financiamentos. Isso ocorre, porque o custo de vida mensal fica mais caro.

    O país só melhora quando o poder de compra aumenta. Isso é o que permite ter financiamentos mais seguros. Pagar caro em despezas diárias como roupas, comida, transporte, energia, não evoluiu país nenhum no mundo.

    Produzir bugigangas não vai desenvolver o país.

    Os financiamentos deveriam ser usados para a construção civil e máquinas, e não para comprar geladeiras, televisão, etc.

    É bizarro ter farra de crédito pra comprar geladeiras, lava roupas, etc.
  • LEO2CBH  28/12/2016 01:11
    A explicação está muito boa. Mas Eu tenho uma dúvida e é a seguinte: ao que me consta, os EUA estava presos ao Padrão-Ouro. Foi em 1933 que eles fizeram uma desvalorização, ao subir a cotação da Onça-Troy. Bem, se estavam presos pelo Ouro, segundo a teoria monetária da macroeconomia padrão, supõe-se que a conta de crédito interno estava trancada; logo, a base monetária do país (como um passivo do FED) fora lançada contra o ouro (ou contra os haveres indexados ao preço do ouro). Isso significa que os EUA acumularam suas reservas de ouro durante a década de 20!? Houvera uma "enxurrada" do metal amarela em direção aos EUA por aqueles tempos; do que "inflara" o tamanho da base pelo incremento do lastro e, via multiplicador monetário, a "moeda de alta potência" (agregado monetário M1, M2, etc)!?

    Eu também quero saber se, caso a hipótese acima lançada for correta, por quê o FED não conseguiu "esterilizar" a "enxurrada" de ouro? Ele teria como fazer isso? Desde já, Obrigado.
  • Mateus  28/12/2016 15:36
    De fato, como efetuar uma grande expansão monetária estando atrelado ao padrão ouro?
  • Acácio  28/12/2016 16:40
    Com a criação do Fed, em 1913, os EUA deixaram de ter um padrão-ouro genuíno. Ainda havia um padrão-ouro na teoria, mas não na prática.

    Antes de 1913, os bancos tinham de manter ouro em suas reservas e tinham de restituir em ouro toda e qualquer cédula de dinheiro apresentado.

    A partir de 1914, todo o ouro foi concentrado no Fed, de modo que os bancos não mais tinham de restituir em ouro as cédulas apresentadas. Caso alguém quisesse restituir suas cédulas em ouro, o banco teria de entrar em contato com o Fed. Na prática, tudo podia ser protelado.

    Isso permitiu uma grande expansão monetária não lastreada em ouro.

    Não foi à toa que, em 1933, em decorrência de toda essa expansão, Roosevelt não apenas desvalorizou o dólar em relação ao ouro como ainda tornou proibido, por lei, que cidadãos americanos portassem ouro de toda e qualquer espécie.
  • LEO2CBH  28/12/2016 18:51
    Então podemos afirmar que eles praticaram um "currency board" na forma "De Jure" e não "De Facto". Mas será que o FED já conhecia os instrumentos de política monetária? Isso me parece um "salto no escuro". Por que correr riscos (suponho que o abandono do Padrão-Ouro trará incertezas)? Seria preferível o "piloto automático" de política monetária propiciado pelo Padrão-Ouro. Ou seja, uma "política monetária endógena".

    Bem, então isto está abrindo um precedente perigoso, a saber: o fato do "currency board" poder ser "simulado". É como se um "governo cafajeste" pensasse: vou "fingir" que o regime do Padrão-Ouro "está valendo"! Ele anuncia ao público que "está valendo" mas, por debaixo dos panos, agirá como forma de inviabilizá-lo.

    Isso me parece o que modernamente o texto de macro designa por "inconsistência dinâmica da política monetária". Ou seja, quando o banco central anuncia uma meta de inflação baixa, os "trouxas acreditam nela", mas no fundo o "bonitão" está expandido a liquidez sob o "véu de segredo" (ou enquanto as expectativas não forem "revisadas") como forma de manter o desemprego baixo até que o "governo vigente" obtenha a vitória na releição.
    Posteriormente, ele (o banco central) tratará de tomar as medidas de "ajuste" como forma de "desinflar a bolha" e, assim, manter de certa "credibilidade". No texto de macro, de fato, há uma parte que infere acerca deste precedente por meio do chamado "ciclo político dos negócios". E o enfrentamento deste mal, dizem eles, viria pelo decreto de "independência do banco central".

    O problema é que os governos costumam subverter o conhecimento econômico. O BCE, por exemplo, se diz "independente" mas o Mário só faz inflar bolhas! O BACEN brasileiro nasceu independente (com o Dênio Nogueira), mas daí o Costa e Silva resolveu acabar com a "independência" quando dissera que "o guardião de moeda era ele".

    São os políticos: a culpa é toda deles! Para eles não interessa a lógica econômica. Só estarão dispostos a obedecê-la minimamente quando os custos de subvertê-la se fizerem muito maiores do que os eventuais benefícios. Mas a experiência mostra que este "aprendizado" não é algo muito simples de ser efetivamente internalizado - e está aí o Brasil de exemplo! E enquanto o aprendizado não vier, as gerações irão "pagando o pato" pelas "desventuras" dos que se dizem "iluminados".
  • anônimo  15/01/2017 20:35
    entao o retorno do padrao-ouro defendido por Ron Paul em nada melhoraria os problemas?
  • LEO2CBH  12/02/2017 21:47
    Bem, está claro que adotar o "currency-board" (ou "a caixa-conversão") como política econômica não será lá uma medida muito complexa para o Banco Central proceder: bastará que ele anuncie que não mais irá descontar os haveres financeiros, sejam eles das quaisquer origens e espécies, junto ao mercado aberto (o "Open Market"). Os banco privados não terão mais um "emprestador de último recurso" que, eventualmente, os salve de uma eventual bancarrota. Logo, eles ficarão por sua própria conta e risco junto ao "sistema de fracionado das reservas"! É bastante provável que, sem o "salvador", eles tenham problemas de longo prazo.

    Daí que a base monetária irá flutuar segundo o saldo do balanço de pagamentos (porque junto das aplicações do banqueiro central só existirá uma conta em "volume relevante": tratar-se-á das "reservas internacionais", cujo nível oscila segundo o saldo externo da economia).

    E, logo, logo, por arbitragem, os privados irão encontrar a taxa de câmbio de referência (supor-se-á que não existem "controles para o capital": ou seja, os agentes domésticos estarão livres para negociarem quaisquer haveres emitidos aqui ou no exterior).
    A teoria diz que, quando essa taxa for encontrada, os rendimentos dos portfólios domésticos e estrangeiros igualar-se-ão e, assim, automaticamente, emergirá o preço do câmbio que fará o rebalanço desses portfólios. A partir daí o banco central passará a defender daquela taxa lá [que encontrar-se-á pré-fixada, (...) daí por diante (...)].

    A médio longo prazo valerá da "regra de bolso", a saber: se o balanço de pagamento acumula de saldos positivos, a base monetária doméstica inflará, os preços internos crescerão acima dos externos e a competitividade achar-se-á recortada (aqui estamos supondo que não há restrições de compra pela parte dos importadores: tarifas e cotas).
    O consequente aumento das importações (do que recortará o volume da base pelo fato da demanda de divisa superar a oferta) trará o balanço de pagamentos para o reequilíbrio. O efeito dos saldos negativos do balanço de pagamentos é, pois, simétrico: o recorte da base monetária acarretará numa deflação que, a sua vez, aumentará a competitividade e saneará as contas externas.

    Com esse sistema o banco central abdica-se de alterar o nível da base pela operações de "Open": isso será feito endogenamente, pelo mecanismo acima descrito. É por isso que, num "padrão-ouro", a moeda é "endógena"!

    Agora suponha que o banco central quebre a "regra de bolso": ele esterilizará a saída das reservas; ou seja, reporá a liquidez doméstica como forma de sustentar incólume (intacto) o patamar da base (que deveria ter sido recortada pela falta de competitividade). E como ele, o banqueiro central, o faria? Simples: basta ele dizer ao mercado interbancário que continuará descontando títulos junto ao "Open' mas, tão somente, descontará os haveres domésticos que estiverem indexados ao preço do ouro! E lembre-se: ele prometeu o honrar a taxa cambial fixa do "currency-board".

    É aqui onde é possível detectar uma "brecha" e, de fato, antes mesmo do colapso do padrão-ouro na Inglaterra, sabe-se que o banco central de lá descontava papéis nominados em libras esterlinas (e que estavam atreladas ao preço do metal amarelo).

    Portanto, é possível sim "burlar" a "regra de bolso"! Por que eles a "burlam"!? Por que eles tentarão manter esse recurso aí "por debaixo dos panos"!? Na realidade, eles nunca estão dispostos a encarar uma deflação (que pela simetria sempre ocorrerá como um mecanismo natural de correção do desequilíbrio externo) porque ela fará por sobrecarregar os custos das dívidas do governo, das corporações conchavadas com o governo, das obrigações dos agentes econômicos que interpelam os créditos subsidiados ao governo.

    Ron Paul quer o fechamento do Banco Central; ele não aceita, sequer, a "câmara de compensação para as moedas domésticas redimidas em divisas" num sistema "caixa-conversão". Isso porque a "câmara", fácil, fácil, poderá se transformada num "banco central" se aquele expediente lá estiver sendo executado "por debaixo dos panos".

    Não sei o porquê mas lembrei-me da "conta-movimento" entre o BACEN e o Banco do Brasil (extinta em 1986). [ôps, digo (...) Eu sei do porquê sim!] Todos sabemos!





  • Leandro  13/02/2017 11:20
    Não, não é possível haver um Currency Board operado por um Banco Central. Não de forma duradoura. A existência e a função de um Banco Central são a própria negação de um Currency Board. Ambos são como água e vinho.

    Para haver um Currency Board genuíno, o Banco Central tem de ser abolido.

    Entenda por quê:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2196
  • LEO2CBH  13/02/2017 22:48
    Pois é Leandro, exatamente (...), a longo prazo não é possível ["(...). Não de forma duradora"]! ~

    Disto porque, a curto prazo, ter-se-á uma "inconsistência dinâmica" que, logicamente, não poderá durar por muito tempo. "Não é possível, pois, enganar pessoas inteligentes indefinidamente" (dizem os teóricos da "Expectativas Racionais"). De fato, com o passo do tempo eles, os indivíduos, aprenderão (...). E quanto mais racionais o forem no uso das respectivas informações, tão mais rápido o aprendizado será! A própria evidência terminará por confessar-lhes da verdade; ou seja, daquela "burla" lá!

    Esse artigo aí é legal! A explanação sobre o motivo do sistema de "currency" do peso argentino ter entrado em colapso encaixa-se, perfeitamente, dentro do imbróglio aqui levantado. O texto do artigo é claro numa conclusão:

    "Ou seja, um sistema foi implantado, funcionou como o esperado, o governo não gostou (porque o sistema lhe amarrava), destruiu o sistema, o país mergulhou no caos como consequência disso, e aí algumas pessoas dizem que a culpa de tudo é do sistema que foi destruído. Beira o surreal".

    Os manuais de macro não expõe esse debate de uma forma clara. E os textos de economia internacional optam por atacar uma eventual adoção do "currency" [chamam-no de "relíquia bárbara"]: partem da hipótese de que os preços não caem na mesma velocidade com que sobem, por causa das rigidezes junto ao mercado de trabalho (como há uma estrutura de contratos prévia, ela manterá a memória da indexação).

    Quando o "currency", pelo recolhimento da base, detona de uma deflação, os preços cairão lentamente por debaixo das expectativas (estas, previamente celebradas nos contratos). A rigidez à baixa transforma a deflação em recessão! Ou seja, num sistema de "currency", se caso houver uma "cultura" de indexação prévia (justamente pelos abusos passados de um governo), colocar da inflação efetiva abaixo da esperada imporá de um grande interlúdio recessivo.

    O Brasil (...) uma notória economia indexada, viu-se obrigado a indexar todos os preços (como forma de sincronizá-los) antes de adotar aquela taxa de câmbio "semi-fixa" em 1994. Foi uma forma extremamente inteligente, que eles engenharam, como forma de não enfrentar o interlúdio recessivo. Foi a famosa URV, baseado na ideia da "moeda de valor constante" do Hjalmar Schacht (no fim da hiperinflação alemã). E não há nenhum texto de macro que mencione isto! O Brasil é um caso estranhíssimo: a estrutura dos contratos, ao contrário dos demais casos hiperinflacionários, não fora consumida porque a "correção monetária" a abarcou desde 1983.

    Um outro problema, que os textos apontam, tem haver com o fato da base monetária oscilar segundo do saldo externo da economia. Se caso destas oscilações forem fortes, elas transmitirão dos efeitos destas oscilações; agravando o ciclo de hiato do produto. Uma vez que os capitais internacionais são plenamente móveis e se caso houver dos "choques de oferta", a flutuação da base importá de uma "randomização desconfortável". Isso explica o motivo do Friedman ter isso um adepto das taxas de câmbio flutuantes. E, logicamente, para ele, a base monetária deverá ser "exogenamente" determinada.

    Estas foram as críticas ao "currency-board" que encontrei (apesar de desconhecer dos estudos empíricos que as confirme)! E mesmo essa hipótese ai de "preços rígidos, bem ao gosto dos neokeynesianos, já não está completamente amparada.

    Eles vêem esse sistema (o "currency") num contexto para "programas de estabilização". A longo prazo, depois que a estabilização for alcançada, eles tentarão "desamarrar as mãos". Sempre o fazem! O fazem porque pretendem gerir a moeda: sempre!

  • Vitor  14/02/2017 09:07
    Prezado LEO2CBH,

    Você realmente acabou tocando em um ponto muito importante, que na primeira metade do século XX acabou sendo um impactante fator para o abandonamento do padrão-ouro: a rigidez dos preços.

    Para se ter uma ideia teórica sobre o problema disto, eu recomendaria muito o livro de Henry Hazlitt, Failure of the 'New Economics' que, apesar de ser uma crítica capítulo por capítulo do Magnum Opus de Keynes, também fornece uma boa explicação de porquê suas soluções, mesmo quando certas, logo acabam sendo ineficientes, pois apenas funcionam temporariamente. Justamente por causa de rigidez do preço. Em especial, do preço do salário. Assumindo que nós dois falamos a mesma língua, eu gostaria de te apresentar o grande presidente Herbert Hoover, e alguns de seus mais importantes discursos:

    Annual Message to Congress on the State of the Union
    December 3, 1929


    General Economic Situation

    "The sudden threat of unemployment and especially the recollection of the economic consequences of previous crashes under a much less secured financial system created unwarranted pessimism and fear. It was recalled that past storms of similar character had resulted in retrenchment of construction, reduction of wages, and laying off of workers. The natural result was the tendency of business agencies throughout the country to pause in their plans and proposals for continuation and extension of their businesses, and this hesitation unchecked could in itself intensify into a depression with widespread unemployment and suffering.

    I have, therefore, instituted systematic, voluntary measures of cooperation with the business institutions and with State and municipal authorities to make certain that fundamental businesses of the country shall continue as usual, that wages and therefore consuming power shall not be reduced, and that a special effort shall be made to expand construction work in order to assist in equalizing other deficits in employment. Due to the enlarged sense of cooperation and responsibility which has grown in the business world during the past few years the response has been remarkable and satisfactory. We have canvassed the Federal Government and instituted measures of prudent expansion in such work that should be helpful, and upon which the different departments will make some early recommendations to Congress.

    I am convinced that through these measures we have reestablished confidence. Wages should remain stable. A very large degree of industrial unemployment and suffering which would otherwise have occurred has been prevented. Agricultural prices have reflected the returning confidence. The measures taken must be vigorously pursued until normal conditions are restored."

    Qual é o resultado inevitável de salários (lembrando que salário não é nada diferente de um preço qualquer) sendo mantido artificialmente acima de um "nível de mercado", "nível de equilíbrio"? Como qualquer pessoa poderia apontar, uma queda na sua demanda. No caso de salários, isso se torna desemprego.

    The Tariff

    The special session of Congress was called to expedite the fulfillment of party pledges of agricultural relief and the tariff. The pledge of farm relief has been carried out. At that time I stated the principles upon which I believed action should be taken in respect to the tariff:

    "An effective tariff upon agricultural products, that will compensate the farmer's higher costs and higher standards of living, has a dual purpose. Such a tariff not only protects the farmer in our domestic market but it also stimulates him to diversify his crops and to grow products that he could not otherwise produce, and thus lessens his dependence upon exports to foreign markets. The great expansion of production abroad under the conditions I have mentioned renders foreign competition in our export markets increasingly serious. It seems but natural, therefore, that the American farmer, having been greatly handicapped in his foreign market by such competition from the younger expanding countries, should ask that foreign access to our domestic market should be regulated by taking into account the differences in our costs of production.

    "In considering the tariff for other industries than agriculture, we find that there have been economic shifts necessitating a readjustment of some of the tariff schedules. Seven years of experience under the tariff bill enacted in 1922 have demonstrated the wisdom of Congress in the enactment of that measure. On the whole it has worked well. In the main our wages have been maintained at high levels; our exports and imports have steadily increased; with some exceptions our manufacturing industries have been prosperous. Nevertheless, economic changes have taken place during that time which have placed certain domestic products at a disadvantage and new industries have come into being, all of which create the necessity for some limited changes in the schedules and in the administrative clauses of the laws as written in 1922.

    Em primeiro lugar, qual seria o motivo de que esses produtos não eram produzidos antes da tarifa? Qual seria o motivo de que o produtor apenas conseguiu diversificar sua produção por causa de uma tarifa? Produzir o que ele não produziria sem a tarifa? O motivo é óbvio para qualquer um: não era um empreendimento lucrativo. Não havia demanda para isto se tornar um empreendimento lucrativo. Os custos excediam em muito a demanda.

    E, mais uma vez, vemos que o objetivo econômico de Hoover sempre foi manter salários artificialmente altos para "não haver perda do poder de compra", em um cenário onde preços de commodities estavam continuamente em queda. Uma piada.

    Annual Message to the Congress on the State of the Union.
    December 2, 1930


    Economic Situation

    "Other deep-seated causes have been in action, however, chiefly the world-wide overproduction beyond even the demand of prosperous times for such important basic commodities as wheat, rubber, coffee, sugar, copper, silver, zinc, to some extent cotton, and other raw materials. The cumulative effects of demoralizing price falls of these important commodities in the process of adjustment of production to world consumption have produced financial crises in many countries and have diminished the buying power of these countries for imported goods to a degree which extended the difficulties farther afield by creating unemployment in all the industrial nations."

    Engraçado que tenha havido "superprodução" e "falta de demanda" coincidentemente após uma tarifa foi imposta para aumentar produção interna e diminuir consumo de produtos vendidos por nações estrangeiras. Estranho, também, que esta mesma tarifa sofreu de retaliações mundo a fora, fazendo o mesmo em uma escala global. E quem poderia prever que isto teria causado uma depressão?!

    "Economic depression can not be cured by legislative action or executive pronouncement. Economic wounds must be healed by the action of the cells of the economic body--the producers and consumers themselves. Recovery can be expedited and its effects mitigated by cooperative action. That cooperation requires that every individual should sustain faith and courage; that each should maintain his self-reliance; that each and every one should search for methods of improving his business or service; that the vast majority whose income is unimpaired should not hoard out of fear but should pursue their normal living and recreations; that each should seek to assist his neighbors who may be less fortunate; that each industry should assist its own employees; that each community and each State should assume its full responsibilities for organization of employment and relief of distress with that sturdiness and independence which built a great Nation.

    Our people are responding to these impulses in remarkable degree. The best contribution of government lies in encouragement of this voluntary cooperation in the community. The Government, National, State, and local, can join with the community in such programs and do its part. A year ago I, together with other officers of the Government, initiated extensive cooperative measures throughout the country.

    The first of these measures was an agreement of leading employers to maintain the standards of wages and of labor leaders to use their influence against strife. In a large sense these undertakings have been adhered to and we have not witnessed the usual reductions of wages which have always heretofore marked depressions. The index of union wage scales shows them to be today fully up to the level of any of the previous three years. In consequence the buying power of the country has been much larger than would otherwise have been the case. Of equal importance the Nation has had unusual peace in industry and freedom from the public disorder which has characterized previous depressions.

    The second direction of cooperation has been that our governments, National, State, and local, the industries and business so distribute employment as to give work to the maximum number of employees.

    The third direction of cooperation has been to maintain and even extend construction work and betterments in anticipation of the future. It has been the universal experience in previous depressions that public works and private construction have fallen off rapidly with the general tide of depression. On this occasion, however, the increased authorization and generous appropriations by the Congress and the action of States and municipalities have resulted in the expansion of public construction to an amount even above that in the most prosperous years. In addition the cooperation of public utilities, railways, and other large organizations has been generously given in construction and betterment work in anticipation of future need."

    Imagino que a grande imagem de Hoover como um liberal tenha vindo desta primeira parte acima. Quem dera ele realmente tivesse colocado seus esforços onde sua boca estava. Mas, basta ler as próximas linhas que ele mesmo mostra que não acreditava no que disse no primeiro parágrafo.

    Mais uma vez, vemos a genial ideia de Hoover: manter o poder de compra artificialmente alto, o que significado um aumento de demanda, em um período onde a produção está continuamente caindo e preços também. Como esta demanda artificial será paga, no médio/longo prazo, se os preços (que é de onde vem o dinheiro para o produtor pagar por salários de forma estável)* estão em queda? E qual será o resultado, no curto prazo, de uma demanda estável ou em ascensão, em tempos onde a produção está em queda? Não acho que preciso dar respostas para que leitores deste Instituto saibam a resposta.

    Logo em seguida, a função do governo é atuar com uma meta de pleno emprego. Por que estas pessoas não conseguiam emprego sem a ajuda do Estado? Bem, novamente, dispensa-se comentários.

    Durante todo o discurso de Hoover, uma coisa fica clara para mim. Ou ele é um dos homens com discursos mais contraditórios que eu já vi, ou ele é um mentiroso profissional. Basta ver que, neste único discurso de 1930, ele o abre dizendo que uma das grandes causas da depressão é atribuída à uma "superprodução". Em seguida, ele segue com medidas que tornam a demanda atual artificial e insustentável no médio/longo prazo, e em criar empreendimentos pelo qual nunca houveram uma demanda genuína, simplesmente para fornecer pleno emprego, para que haja ainda mais daquela demanda artificial. Como esta demanda não é genuína, estas medidas são insustentáveis, e mesmo que funcionassem no curto prazo, seria apenas para não deixar que as coisas sejam tão ruins quanto seriam sem a intervenção do Estado, com o custo de que estas medidas de agora são insustentáveis, e gerarão um efeito ainda mais negativo no futuro.

    Apesar de que há mais dois discursos como estes de Hoover, eu escolherei não comentá-los, pois se tratam, basicamente, de divulgações de medidas para combater o desemprego, criado pela inflexibilidade de sindicatos em diminuir salários e por medidas anteriores de seu Governo de manter salários artificialmente elevados. O médio/longo prazo havia batido à porta.

    *Sim, eu sei que os salários são na verdades pagos com antecipação da venda do produto, porém, para que isto continue acontecendo de forma contínua é necessário que o empregador consiga vender seus produtos para pagar também de forma contínua pelos salários de seus empregados, por isso "para o produtor pagar por salários de forma estável de forma estável".

  • LEO2CBH  14/02/2017 17:33
    Gostei da sua fonte!

    Concordo que, quando vige um sistema de "currency", as políticas salarias e tarifárias gerarão das "disfuncionalidades" e, por tanto, elas deverão ser completamente abolidas. Estas citações aí dizem justamente o contrário: a instituição das tarifas e dos salários como "profilaxias" visando-se "ocupar da capacidade ociosa". Isto é, pois, um disparate!

    Mas, ainda sim, os "iluminados" vendem destas ideias (...) Por quê!?

    Em se tratando de políticos, na realidade eles estão vendendo aos incautos eleitores o discurso de uma "lebre" desfaçada de "coelho (ou gato)". Aliás, a prática costumeira deles é essa mesmo! Na realidade, manter dos salários nominais por cima dos níveis de produtividade marginal é uma forma de garantir a cota dos sindicatos (cuja função consiste um monopolizar a oferta de trabalho). Instituir das tarifas é uma forma de transferir o "excedente dos consumidores" incautos aos grupos empresariais que, a sua vez, financiam as campanhas deles (e que, logicamente, não gostam dos concorrentes externos "abocanhando as fatias dos seus respectivos mercados domésticos").

    Essa de "colocar o custo marginal por cima do preço de demanda" é regra "fatal" seguida por eles. É exatamente dessa forma que a sociedade "banca a fanfarra deles" (...) e alguém terá que colocar a grana, não é mesmo!? Por isso mesmo os políticos querem "regular os mercados".

    A artimanha deles consiste em fazer com que eles [os leitores] "coloquem a grana, mas sem terem da menor noção de que o fazem". Isto é, pois, a arte da política! Eles estão lá para instituírem das "reservas de mercado" para os "apadrinhados" que os financiam (...) e, assim, os políticos gozarão de uma "sobre-vida" (...) é exatamente o que eles objetivam: o Poder Perpétuo!

    Os Manuais tomam essas rigidezes como algo intrínseco (...) alto inerente (...). Eles as vêem como daquilo que é gerado pelas próprias relações entre os agentes econômicos que otimizam dos seus próprios interesses. É uma posição, ao mesmo tempo, resignada pela existência dos chamados "mercados incompletos".

    Um Manual de "micro" levanta destes problemas aí quando descobre-se a desobediência do chamado "segundo teorema do bem-estar". A partir daí ele se afasta da chamada "teoria da troca-pura", em que o preço relativo já não é mais um sinalizador eficiente (ou suficiente). Em seguida, eles levantam uma série de questões no âmbito das externalidades, da assimetria de informações, etc. Aliás, via de regra, o último capítulo do livro de "micro" discorre acerca das "informações assimétricas" (é a existência dela que permite a manipulação das expectativas do mercado). Assim, naturalmente, elas [as regras!] poderão interferir na estrutura contratual (ou no ritmo da "indexação").

    Antes, é possível compreender a emergência dos "mercados oligopólicos": quando a escala de produção, que minimiza o custo unitário, é realizada por um estoque de capital acumulado tal que elimina a concorrência pelo aviltado custo da sua respectiva instalação: daí que os produtores ganham poder de Markup!
    Via de regra (desconsiderando-se a "regulação" governamental) o "aparecimento desta escala (ou monopólio natural)" se dá pela inovação que, a sua vez, faz por rebaixar o custo relativo: inclusive, essa é a "brecha" que permite a teoria do "crescimento endógeno" de Paul Romer. Este, a sua vez, é um importante modelo que explica a inovação numa estrutura "concorrencial imperfeita". Disto porque, somente com o Markup, será possível custear o elevado custo do P&D.
    Mas é claro: a longo prazo o Markup acabará chamado a atenção dos concorrentes e eles farão "de um todo" como forma de obter daquela escala cara lá (que a própria concorrência, pela sua obtenção, fará por rebaixar o custo-insumo da sua respectiva instalação), do que tratará de eliminar a posição de "quase-monopólio" do produtor. Daí parecerão das estruturas oligopólicas, os "acordos de bigode" (cartéis), etc. E cabe destacar que a regulação governamental tem servido mais como um impeditivo aos novos concorrentes: estas tem servido mais como mais uma "barreira à entrada". E quando os "iluminados" cismam com uma "política industrial", paradoxalmente, eles tão somente agirão no sentido de "levantar das novas barreiras". Chega a ser surreal, (...) mas explicável!

    Isso também tem tudo haver com as deformidades das linhas de custo (curvas de "isoquanta mal comportadas") que não estarão devidamente associadas à utilidade ordinal dos consumidores (...) junto ao "equilíbrio walrasiano". É a partir daqui que as análises de "economia da feira-livre" já não mais referendará todos os aspectos da "estrutura concorrencial dos mercados". Os preços relativos deixam de ser "sinalizadores puros".

    Alias: disso me fez lembrar da Oferta Agregada de Lucas (o Robert "Bob" Lucas de Chicago), ou ainda, da "curva de Phillips à lá "Expectativas Racionais". O Lucas construiu um modelo em que os agentes econômicos conseguem extrair o "ruído" do sinal de preços. O ruído é tudo aquilo que fará com que os preços não sejam sinalizadores puros. É, pois, uma "disfunção".
    E se essa disfunção aí existir, será possível manejar os instrumentos de política econômica da forma como os keynesianos pretendem, visando-se "ocupar da capacidade"! Mas, é claro, lá no modelo de Lucas das disfunções não poderão existir a prazos mais alargados por conta, justamente, da racionalidade dos agentes econômicos. Aliás, ao meter-se a "esperança matemática" na equação de oferta dele (que é uma projeção ortogonal) a disfunção desaparecerá.

    Se essa hipótese dele, da racionalidade, não for referendada continuamente, daí que será possível associá-la aos problemas de assimetria (ou da "indexação truncada"). É por isso que, tão logo, estarão os "iluminados" aconselhando uma "regulaçãozinha" como forma de saná-los (o malfadado "controle de preços" dos heterodoxos).
    Mas é claro: estes são "problemas estruturais" (dizem os macroeconomistas): o governo só fará por agravá-los! Bem (...), pelo menos eles são honestos ao reconhecer [(...) ôps, digo: "os ortodoxos" são um pouco mais "honestos", não "os heterodoxos tupiniquins"!].

    A bem da verdade, colocar-se-á dos problemas dos quais você elenca no âmbito das "externalidades": você indaga acerca de onde estão os benefícios que a "regulação" governamental gerará para os eleitores. Assim como você, Eu também tenho extrema dificuldade em visualizá-los. Na minha mais sincera opinião, a "democracia" me cheira a engodo.
    E os governos deverão, mesmo (...), ocupar-se daquelas funções elencadas pelo Adam Smith já em 1776. Ele deverá cuidar da produção dos "bens públicos" (saneamento, segurança jurídica, "monopólio do terror", defesa nacional, infra-estrutura social - "donde" incluir-se-á da "educação básica"). Deverá restringir-se ao fornecimento deles; da melhor forma de otimizar o uso dos impostos que, por si sós, geram do "peso morto" ao bem-estar dos contribuintes!

    (...) Daí que debatem o problema do "rent seeking" sem muita paixão [alguns poucos colocam essas questões mencionadas aí (...) no primeiro e no segundo parágrafo, talvez (...) justamente por terem daquele receito por numa eventual abertura da "caixa de pandora"]. Quando se faz dessa "abertura" aí, as pilastras sob das quais assentar-se-á os postulados deles (dos pré-kenesianos mercantilistas, keynesianos, pós-keynesianos, neokeynesianos) começaram a vibrar.
    Por isso mesmo, por exemplo, o Hayek não é explorado (ou aprofundado) pela "economia política" lecionada na Academia! Quando o citam, o fazem "telegraficamente" numa cadeira de História do Pensamento Econômico. Lecioná-lo em Economia Política (...) nem pensar!

    Os Manuais de "macro" alertam pela futura validação daquela "plena flexibilidade para preços e salários". Mas daí vem toda aquela parafernália keynesiana que, para funcionar a curto médio prazo (no sentido de "ocupar a capacidade"), só o fará mediate da "institucionalização" das rigidezes. E estas, como já sabemos, são dos "empecilhos" para uma acumulação de capital (...). Eles dizem que as rigidezes são estruturais: vai muito mais além dessa questão aí dos governos tomarem as rendas dos incautos, via impostos ou por meio das tarifas alfandegárias [que são "políticas de preços mínimos", nada mais do que isto!].

    As políticas macroeconômicas sempre imputarão dos respectivos custos a prazos alargados: elas "são muito bacanas" quando instrumentadas, mas só "funcionam" (se é que "funcionam" mesmo!) quando existe dessas tais "disfunções". As rigidezes funcionam para eles como uma "justa desculpa": com elas e por meio da moeda, eles ganham da capacidade de interferir junto aos preços relativos. E se, de fato, serão capazes disto, automaticamente alterarão a posição das dotações dos agentes econômicos incautos. É aqui "donde" está o verdadeiro Poder que eles almejam!

    Alegam que os agentes econômicos não possuem da "economia de tempo" necessária como forma de sincronizarem os preços relativos; logo, invariavelmente, estão submetidos a uma "ilusão monetária". Esta é a explicação do Friendman e do Edmund Phelps.

    Os neokeynesianos, por exemplo, dizem que a elasticidade-preço do "menu dos custos", a curtíssimo prazo, é muito grande; logo, os produtores tão somente procederão com os "reajustes" no passo alargado do tempo, quando a elasticidade diminui (a teoria de Mankiw para as rigidezes de oferta agregada com explicação "micro"). Dizem também que, [(...) mas isto é fato!], numa estrutura "não-concorrencial" há de capacidade ociosa. Será, pois, mais um estímulo para os "sábios governantes" incendiarem das "bolhas".

    Da última desculpa deles para a rigidez contratual (ou salarial) dar-se-á por meio da "teoria dos jogos": o equilíbrio de Nash é aquele sob do qual o salário estará por cima do "paretiano". Neste o benefício é, de fato, maior! Mas, agindo racionalmente, eles convergirão dentro daquela célula análoga ao resultado do jogo "dilema dos prisioneiros". O último desenvolvimento da teoria do menu dos custos encontrou de um resultado análogo quando se aplica a roupagem da "teoria dos jogos" no modelo concorrencial de preços atribuído a Bertrand.

    Estas são as explicações do "mainstream" para o "problema das rigidezes". Bem, são as que Eu conheço! Mas Eu irei procurar mais informações nessa literatura aí que você me indicou. Desde já, Obrigado!




  • Maxwell  28/12/2016 04:37
    O autor do artigo, em sua explicação, simplesmente ignora que os Estados Unidos se tornaram credores de alguns dos países que participaram da Primeira Guerra Mundial. Não apenas credores, mas se tornaram fornecedores de bens de consumo. Ignora o impacto da introdução da linha de montagem na produção industrial americana, assim como a implantação do Taylorismo, que permitiu a especialização do trabalho e consequentemente a padronização das funções, o que gerou aumentos de produtividade.

    Sem esses fatores, você perde parte do entendimento sobre a crise de 1929.
  • James Clerk  28/12/2016 11:22
    Legal, gênio.

    Agora, explique, por favor, a um mundo estupefato: o que exatamente isso tem a ver com todo o resto?

    Estaria você dizendo que a Grande Depressão foi causada pelo fato de os EUA terem se tornado credores do resto do mundo?!

    Estaria você dizendo que a Grande Depressão foi causada pelo fato de ter havido um aumento da especialização da mão-de-obra?!

    Ou estaria você simplesmente desesperado por ver tudo aquilo em que você acreditou desde a oitava série sendo refutado?

    É cada coitado que desaba por aqui...
  • anônimo  28/12/2016 05:12
    Quando achava que já tinha visto de tudo, me é apresentado a "melhor" explicação sobre o que causou a queda da bolsa em 1929:

    "Para se ter uma idéia, foi um longo período de deflação, com queda nos preços dos produtos agrícolas, que provocou a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, e a conseqüente crise econômica que atingiu todo o mundo."

    super.abril.com.br/comportamento/se-inflacao-e-ruim-deflacao-e-melhor/
  • Bernardo  28/12/2016 10:33
    O mais triste de tudo é saber que nas escolas ensinam algo totalmente diferente. Uma rápida pesquisa na internet ja demostra isso, como por exemplo esse site www.infoescola.com/historia/crise-de-1929-grande-depressao
    A menos de um ano não me passava pela cabeça qualquer que fosse o motivo das crises economicas senão as ensinadas no meu ensino medio. IMB me fez abrir a cabeça e enxergar que realmente nós apenas aprendemos historia se formos atras da verdade ao inves de apenas aceitarmos o que nos impoem
  • Rene  28/12/2016 12:22
    Neste artigo que vc citou de exemplo, encontramos esta pérola que demonstra inacreditável domínio da língua portuguesa:

    - Livre Mercado: cada empresário fazia o que queria e ninguém se metia.

  • Josue Reis  28/12/2016 11:47
    Qual foi a causa da depressão de 1921?
  • Historiador Honesto  28/12/2016 12:33
    Com o fim da Primeira Guerra Mundial em 1918, houve uma desmobilização da economia americana. Vários setores voltados para o esforço de guerra -- produzindo armamentos -- foram liberados e começaram a redirecionar suas linhas de produção para atender às demandas do consumidor. Isso causou um grande rearranjo em toda a economia americana.

    Igualmente, vários soldados voltaram para casa, aumentando a mão-de-obra disponível.

    O então presidente Wilson tentou mitigar os efeitos desse rearranjo econômico com mais gastos estatais, mais endividamento e mais impostos (a alíquota máxima do imposto de renda foi elevada de 7% para 73%). Inevitavelmente, a recessão explodiu. (Os gastos do governo durante a presidência de Wilson foram simplesmente multiplicados por 20)
  • Marcelo  28/12/2016 12:36
    Esta página do Instituto Mises faz mais pelo ensino de Economia que todas as faculdades de economia do País....parabéns....
  • marcela costa  28/12/2016 13:19
    O azar do Brasil foi não ter adotado em 1994, o currency board no lugar do plano real.Caso tivesse feito,as crises asiática e russa não teriam surtido efeito no fim da década de 90.O governo FHC teria sido mais popular,pois os juros e o desemprego certamente não teriam disparado.Os investidores internacionais e nacionais teriam confiança no Brasil.E por fim o Lula não teria sido eleito em 2002.As privatizações teriam seguido em frente e o Brasil teria crescido bem mais do que cresceu no governo Lula.E o pior de tudo é que o currency board já foi uma vez adotado no Brasil no início do século xx,o que prova que isso não é utopia ou quimera.Como o poder de compra do brasileiro é 27% do poder de compra dos americanos,o certo seria adotar um currency board com 1 dólar valendo 3,70 reais,afinal como todos sabemos é o poder de compra que define o preço da moeda.
  • anônimo  29/12/2016 02:00
    Eu ainda tenho dúvidas sobre o currency board.

    O CB muda muito a economia. Não é só virar a chave. O corrency board pode ser excelente, porque direciona a economia para construção civil e indústria pesada, retirando a mão de obra que produz bugigangas e outras tranqueiras. Mas, isso leva um pouco de tempo. Isso depende do intervalo de aumento do poder de compra, até as pessoas poderem comprar casas, prédios, e coisas que realmente mudam o país.

    Também Não é fácil ir contra o interesse de centenas de empresários que vivem sob o guada-chuva estatal. Eles se acostumaram com a burocracia e preferem ficar nessa cobertura. Os caras morrem de medo dos gringos !!! Tem proteção até no mercado de cerveja.

    Antes de implantar o currency board, o ideal é ter uma economia competitiva. Não tem como competir com chineses pagando 22% de imposto de renda, irlandeses pagando 12% sob lucro e renda, e até com os 10% dos paraguaios. Imagina a Petrobras competindo com a petrolífera de Cingapura pagando 17% de imposto de renda ? A produção nacional de gasolina vai acabar.

    Só podemos competir com os argentinos, que cobram 36% de imposto sob o lucro das empresas. Seria uma aventura querer competir nesse modelo atual. Por mais que o preço de insumos importados sejam reduzidos com o CB, o custo final do produto brasileir ainda é alto.

    Enfim, implantar uma política monetária não é só virar a chave.
  • Alves  29/12/2016 02:13
    Prezado, não entendi muito bem o seu ponto. Você está dizendo que algo positivo não poderia ser implantado porque contrariaria muitos interesses retrógrados e protecionistas?

    Ora, mas isso não seria exatamente um motivo para se implantar esse modelo?!

    Eis como fazer:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2196
  • anônimo  29/12/2016 02:44
    Sim, a mudança sempre vai sofrer tentativas de bloqueio dos empresários. Eles sempre vão querer mais facilidades e mais protecionismo.

    A única forma de conseguir apoio dos empresários, é facilitando o trabalho deles como uma moeda de troca. Atropelar todo mundo não vai dar certo.

    Quando falam de 1 dólar igual a 1 real, eu só consigo lembrar do Gustavo Franco no governo FHC.

    Eu tinha uns 18 anos no governo FHC, e acompanhei o massacre da mídia contra a recessão e contra o Gustavo Franco. Até eles inventarem esse câmbio hiper-flutuante.



  • End the FED  29/12/2016 21:31
    Eu sou totalmente favorável ao Currency Board, porém é preciso que haja alguma possibilidade de fazer as reformas necessárias para poder institui-lo, sob pena de ocorrer no Brasil o que aconteceu na Argentina.

    Porque se o Brasil passasse a adotar o sistema de Currency Board sem controlar os gastos do Governo muito provavelmente a coisa iria sair do controle.

    Mas sem dúvida que o Currency Board quando adotado de maneira ortodoxa é disparado o melhor sistema.
  • anônimo  29/12/2016 02:30
    Outra coisa, se você quer poder de compra, o certo é o CB com 1 dólar igual 1 real.
  • Victor Hugo  28/12/2016 21:17
    Não entendo como os governos criam e fazem medidas expansionistas se na época não era moeda sem lastro?
    Alguem poderia me falar o mecanismo na epoca e se isso teve alugm efeito rebota na inflação?
  • Ana de Souza  29/12/2016 19:46
    Realmente interessante o artigo. As causas de um evento tão importante como esse são bastante complexas e todo o cenário deve ser considerado antes de definir uma resposta concreta.

    Quando estudamos este acontecimento na escola, os aspectos econômicos não nos são mostrados com clareza (e creio que alunos de colégio não compreenderiam as informações em sua totalidade). O ensinamento básico faz parecer que o problema foi a falta de noção de quais seriam os melhores investimentos da época. Contudo, o que vemos é que o momento foi marcado por uma série de fatores econômicos, políticos e sociais bastante complexos e muito mais profundos.
  • Murdoch  30/12/2016 23:15
    Leandro, qual a parte não contada que os protecionistas não contam que os EUA cresceram com protecionismo?
  • Leandro  30/12/2016 23:55
    Não sei se entendi muito bem a sua pergunta.

    O crescimento e a industrialização dos EUA começaram na década de 1820 com as ferrovias com locomotivas a vapor. E então vieram as estradas macadamizadas, assim chamadas em homenagem ao engenheiro escocês John Loudon McAdam. Depois surgiram as ceifadeiras, criadas por Cyrus McCormick, e as siderúrgicas, criadas por Andrew Carnegie.

    Tudo isso antes de 1860 (quando realmente houve elevação das tarifas de importação, que foi o estopim da Guerra Civil).

    Os estados americanos que mais se enriqueceram durante esse período anterior a 1860 foram os do nordeste. E o motivo é simples: os grandes industriais europeus aportaram lá, na Nova Inglaterra. Esse é um fenômeno que simplesmente não pode ser ignorado em qualquer análise econômica minimamente séria.

    E aí houve o inevitável: regiões industrializadas sempre viram protecionistas. Em 1860, o Congresso aprovou a Morrill Tariff, que elevou enormemente as tarifas sobre importações para proteger as indústrias do norte bem como seus altos salários, prejudicando severamente os estados do sul, que agora tinham de arcar com os altos custos de importação, mas que não tinham como repassar estes altos custos para seus preços, pois vendiam três quartos da sua produção para o mercado mundial. Vestuário, equipamentos agrícolas, maquinários e vários outros itens ficaram extremamente caros de se obter. O sul queria livre comércio porque também era a única maneira de exportar sua produção.

    Consequentemente, os estados do sul se rebelaram e quiseram se separar da federação. Aí deu-se origem àquela maravilha que foi a Guerra Civil Americana, com 600.000 mortos.

    (Recomendo este texto a respeito, que faz uma ótima compilação destes eventos.)

    Com a vitória do norte, tarifas protecionistas foram implantadas que vigoraram até o ano de 1900, caindo a partir dali).

    Como consequência dessa imposição tarifária e da destruição do livre comércio, o sul empobreceu (e, até hoje, é mais pobre do que o norte).

    Tarifas fizeram exatamente o que prometiam: protegeram (de 1865 a 1900) aquelas indústrias do nordeste americano que já estavam estabelecidas, e empobreceram o resto do país. E, de quebra, mataram 600.000 civis em uma guerra.


    Alguns detalhes:

    1) Até 1913, a única forma de o governo federal americano se financiar (a única forma que era permitida pela Constituição) era por meio de tarifas de importação. Ou seja,toda a carga tributária federal se resumia a tarifas de importação.

    2) A Morrill Tariff elevou progressivamente a tarifa de importação de 15% em 1860 para 44% em 1870. Foi uma década perdida para os EUA.

    A partir de 1870 a tarifa voltou a cair, chegando a 27% em 1880, a 15% em 1910 e a 7,7% em 1917.

    E vale um adendo importante: como os preços só caíam por causa da moeda forte (os EUA viviam o padrão-ouro), os preços nominais dos produtos importados também só caíam. Logo, os custos nominais dessas tarifas -- que já eram decrescentes -- caíam ainda mais.

    3) É de crucial importância distinguir entre tarifas de importação com intuito protecionista e tarifas de importação com intuito arrecadatório. Uma é o exato oposto da outra.

    Uma tarifa com intuito protecionista é imposta exatamente para impedir que as pessoas importem. Se ela realmente lograr tal objetivo, a receita do governo será zero. Óbvio. Se o intuito do governo é desestimular as pessoas de importar -- e se as pessoas realmente não importarem --, então a arrecadação do governo com essa tarifa será zero. E ele não ligará, pois era isso o que ele queria.

    Já uma tarifa com intuito arracadatório existe, ao contrário, para trazer o máximo possível de receita para o governo. Ela não está ali para impedir as pessoas de importar; ao contrário, o governo está torcendo para que as pessoas importem o máximo possível, pois só assim ele terá muitas receitas. E se o governo exagerar na tarifa, então ela vira meramente protecionista, e a arrecadação do governo tenderá a zero -- exatamente o contrário do que ele almejava.

    Por uma questão de lógica simples, sabendo que o governo americano da época sobrevivia exclusivamente com as receitas dessas tarifas, então a conclusão lógica é que, à época (antes de 1860 e pós-1870), elas não tinham caráter protecionista. Se tivessem, o governo não teria receita.

    As tarifas de importação do governo Sarney e do governo Dilma, por exemplo, eram meramente protecionistas. Já as americanas eram arrecadatórias.

    E, ainda assim, eram mais baixas que as nossas atuais.

    4) Os EUA cresceram porque havia ampla liberdade de empreendimento e o governo federal era mínimo (excetuando o período Lincoln). Não havia regulamentações (ao menos, não como as de hoje), e o governo federal coletava impostos unicamente via tarifas sobre importados, pois esta era a única maneira permitida pela constituição.

    Excetuando-se o período da Guerra Civil, os EUA cresceram de 1820 a 1929. E, até 1913, como não havia um Fed, era um crescimento com queda de preços.

    Livre mercado e moeda-forte. Combinação que jamais deu errado.
  • Murdoch  31/12/2016 00:26
    É justamente essa tarifa de importação que venho me deparando.
    O que eles não contam é a diminuição da tarifa de importação a partir de 1870 chegando a 7,7% em 1917, era nesse ponto em que eu não encontrava informações, e foi o período que os EUA mais cresceu.

    Por ora, obrigado pela informação, e feliz ano novo para você, a equipe IMB e todos os leitores do site.
  • Pedro  31/12/2016 16:59
    Artigo essencial e serve como ponto de partida pra entender a crise de 1929.

    Além de resumir o básico das causas e consequências, indica uma lista generosa de bibliografia.

    Parabéns mais uma vez ao IMB.

    Contem com minha contribuição mensal para manter o instituto.

    E que em 2017 o IMB continue publicando, divulgando e ensinando a escola austriaca.
  • OFF  02/01/2017 06:37
    Qual é o melhor país para depositar a maior parte do meu Patrimônio?
  • Andre  02/01/2017 11:58
    Suíça.
  • OFF  03/01/2017 08:00
    Singapura e Paraguai também são uma boa?
  • Emerson Luis  08/01/2017 23:58

    O presidente Warren G. Harding devia ter sido seguidor de Lao Tsé, fundador do taoísmo. Ele ensinou que um dos princípios da sabedoria é o "agir pelo não agir", ou seja, a minimizar as ações e (principalmente) a deixar de agir em desarmonia com as leis naturais.

    "O taoismo é uma tradição que, dialogando com seu tradicional contraste, o confucionismo, modelou a vida chinesa por mais de 2 000 anos. O taoismo enfatiza a espontaneidade ou liberdade da manipulação sociocultural pelas instituições, linguagem e práticas culturais. Manifesta o anarquismo - defendendo essencialmente a ideia de que não precisamos de nenhuma orientação centralizada. Espécies naturais seguem caminhos apropriados a elas e os seres humanos são uma espécie natural. Seguimos todos por processos de aquisição de diferentes normas e orientações da sociedade, mas poderíamos viver em paz mesmo se não procurássemos unificar todas estas formas naturais de ser."

    Ok, eu sei que provavelmente Harding nunca estudou taoísmo. Mas que lembra, lembra.

    * * *
  • Leo Nonato   11/03/2017 17:02
    Belíssimo post!
  • Rafael  13/03/2017 14:18

    Achei o artigo interessante, porém algo me chama atenção. Nenhum comentário ao nível de dívida privada no sistema na época. Segundo alguns gráficos que já vi (exemplo o gráfico nessa matéria: https://www.forbes.com/sites/stevekeen/2016/11/09/to-make-america-great-again-write-off-the-private-debt/#3ff920aa73f8 - não tenho expertise para concordar com o autor quanto ao write off the dívida privada, me interessa o gráfico de Dívida/PIB apenas) o nível de dívida/PIB na época não tem paralelos a não ser hoje. Dessa forma a crise de 1921 teria ocorrido também com um nível de divida/PIB bem menor. Note que se trata de dívida privada (segundo um artigo entitulado "The Great Leveraging" do NBER a dívida privada é um indicador antecedente de crise melhor do que dívida pública).

    Nessa linha a explicação de Irving Fisher em seu artigo "The Debt-Deflation Theory of Great Depressions" - 1933 me parece das melhores e a maneira como os neoclássicos ignoram essa explicação está entre as coisas que mais desprezo no universo da ciência (exemplo o Bernanke nos "essays from the great depression").

    Pelo que entendo, nosso sistema monetário, através das reservas fraccionais, cria o principal de uma nova dívida do nada, porém não cria o juros para pagar essa dívida. Esse juros teria que vir de duas formas, ou um aumento contínuo e provavelmente insustentável na velocidade do dinheiro (até meio fantasiosa essa opção me parece) ou uma expansão contínua das dívidas para o que principal criado do nada das dívidas novas sejam os juros das dívidas velhas. Esse sistema não tem estado de equilíbrio, ou cresce de maneira exponencial ou colapsa de maneira desordenada.

    Dito isso me parece que sempre que o nível de dívida privada atinge patamares que não se sustentam nem com juros a zero o mercado vem abaixo e inúmeras falências de empresas e reciclagem na força de trabalho é inevitável, com ou sem a intervenção do governo. O que o autor teria a dizer quanto a essa questão da tendência natural da dívida crescer mais que o PIB até o ponto de ser necessário um ano do jubileu (de perdão de dívidas) que segundo o Ray Dalio, gestor do Bridge Water, consta até no velho testamento?
  • Leandro  13/03/2017 15:15
    Sim, estou bem familiarizado com os escritos de Steve Keen e sua defesa do "jubileu da dívida". Gosto muito de suas críticas à economia neoclássica (algo que a Escola Austríaca compartilha inteiramente com ele). Dito isso, eis algumas considerações:

    1) A dívida nada mais é do que o outro lado da expansão do crédito. Se pessoas e empresas estão tomando crédito, então, por definição, elas estão se endividando.

    Consequentemente, falar sobre expansão do crédito é absolutamente a mesma coisa que falar sobre expansão do endividamento. Não existe crédito sem dívida. Todo crédito gera uma dívida. Toda dívida surge com um crédito.

    2) Logo, falar sobre expansão do crédito (que foi exatamente o que o artigo fez) é exatamente o mesmo que falar sobre expansão da dívida privada. Por definição.

    3) Consequentemente, se a dívida privada chegou a níveis insanos ao final da década de 1920, isso ocorreu exatamente porque houve uma insana expansão do crédito naquele mesmo período. Exatamente como explica o artigo.

    Entendido isso, vamos aos pontos mais específicos:

    4) Os ciclos econômicos ocorrem independentemente do nível dívida/PIB. A recessão é uma consequência inevitável da expansão do crédito. Toda expansão do crédito, ao chegar ao fim, gera uma recessão. Sem exceções.

    5) A duração e a intensidade desta recessão dependerão, primeiramente, do quão intensa foi a expansão do crédito. Quanto mais tempo durou a expansão do crédito e quanto mais farta foi essa expansão, maiores foram as distorções na economia e maior será o tempo necessário para a correção.

    6) Quanto mais o governo intervir nesse processo de correção, mais tempo levará para a economia ser consertada (como mostra o artigo, uma recessão que começou no final de 1929 só acabou em 1946, tamanha foi a intervenção do governo no processo de correção.

    7) Agora vamos especificamente ao seu ponto: o tamanho da dívida privada em relação ao PIB -- e este é o ponto importante -- definirá o tamanho da desalavancagem necessária para se corrigir a economia e se retomar o crescimento. Se a dívida/PIB é de ínfimos 10%, por exemplo, então a desalavancagem necessária será praticamente nula, e a retomada econômica será rápida. Já se a dívida é de 200% do PIB, aí você pode ter a certeza de que a desalavancagem será bem demorada (e muito mais dolorosa).

    8) No entanto, tudo isso é apenas uma consequência da expansão do crédito farto e barato. Esta é a causa que tem de ser entendida e combatida: a expansão do crédito facilitada pelo governo, que manipulou os juros e os reduziu artificialmente, incentivando o endividamento e punindo a poupança. Toda a causa do desarranjo começa aí. Níveis altos de dívida/PIB são apenas uma consequência da expansão do crédito, a qual foi estimulada pelo governo (que é quem estipula a taxa básica de juros).

    9) Tendo agora entendido tudo, fica a pergunta: "jubileu da dívida" resolve? Steve Keen sugere que o Banco Central imprima dinheiro e o repasse diretamente para os devedores, os quais estariam então obrigados a quitar suas dívidas com o sistema bancário.

    O problema, no entanto, é: e o risco moral? Se eu sei que posso me endividar à vontade -- pois, no final, o governo irá me socorrer --, que incentivo eu tenho para ser poupador e empreendedor? Mais ainda: e aqueles que tiveram uma vida inteira de prudência e frugalidade e, por isso, não contraíram dividas? Estes serão os verdadeiros punidos, pois, enquanto eles se privaram de vários prazeres, os hedonistas foram à forra e, agora, estão sendo socorridos pelo governo. No final, hedonistas e poupadores estarão na mesma posição. Isso é imoral e anti-ético.

    Finalmente, após esse jubileu da dívida, o que exatamente irá impedir que todo o ciclo se reinicie e gere os mesmíssimos problemas?

    Isso nunca foi respondido.

    Não me entenda mal: dado que sou um crítico de todo o processo da expansão do crédito gerado pelo governo e pelo sistema bancário de reservas fracionárias, não sou contra uma medida que leve a fim deste arranjo. Só que o jubileu da dívida não apenas não faz isso, como ainda faz tudo errado:parodiando os personagens do famoso faroeste de Clint Eastwood, o jubileu da dívida pune os bons (os poupadores e os frugais), premia os feios (hedonistas e gastadores) e socorre os maus (os bancos, até então insolventes por causa das dívidas não-quitadas, serão instantaneamente socorridos pelo jubileu).

    Quer uma solução prática e factível? Foi explicada neste artigo:

    Propostas para uma reforma bancária completa e estabilizadora


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