clube   |   doar   |   idiomas
Odiando os políticos, amando o estado - o paradoxo de Garschagen e a Uber

Em seu excelente livro Pare de Acreditar no Governo – Por Que os Brasileiros Não Confiam nos Políticos e Amam o Estado (Record, 2015), o cientista político Bruno Garschagen, membro deste Instituto, destrincha em 320 páginas muito bem escritas o paradoxo sugerido pelo feliz título da obra.

Trata-se, a meu ver, de uma leitura indispensável para quem pretende entender o comportamento dos brasileiros quando se trata de assuntos políticos.

Além disso, fornece um poderoso arsenal de argumentos que os defensores das liberdades individuais podem utilizar contra os que idolatram o estado, ou que dele esperam que faça chover o maná, ou que acreditem nas ditas "soluções políticas" para os problemas sociais.

Bruno percorre a história do Brasil, desde que Cabral aqui chegou até os dias atuais da presidente que famosamente declarou, em apenas mais uma demonstração de destrambelho, que a mandioca foi uma grande conquista da civilização... Ave disparate!

Logo no início, o livro lembra-nos que, já em nosso primeiro documento oficial, a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel I de Portugal, nosso mais antigo postulante à Academia Brasileira de Letras já aproveitava para pedir um emprego — uma boquinha — ao soberano, bem como para solicitar favores especiais para seu genro, no que inaugurou também, usando a mesma pena e tinta, o nepotismo, que é outra de nossas características.

De fato, o brasileiro, em sua grande maioria, odeia os políticos, mas ama apaixonadamente o estado, o que comprova que podemos ser definidos como um povo paradoxal. Experimente puxar assunto de política com um brasileiro característico, com um motorista de táxi, por exemplo. Com probabilidade praticamente igual a um, ele lhe dirá que não acredita em nenhum político, mas emendará de primeira que não adianta trocá-los, porque tudo vai continuar como antes no quartel de Abrantes. Alguns ainda arrematarão, quase rangendo os dentes: "O que o Brasil precisa é de um Fidel Castro". Ave non sense!

Segundo o próprio Bruno:

No fundo, quando você está imerso em uma sociedade em que as instituições políticas, em que todo o debate político, em que toda a conversa em termos de política, gira em torno de "o que o governo deve fazer" — e dificilmente se faz o questionamento sobre o que o governo não deve fazer —, é natural que você tenha uma relação com o estado de extrema dependência, mesmo quando não precisa ou não depende diretamente dele.

Fica essa mentalidade de que o estado deve fazer tudo — ou, no mínimo, apenas um pouco menos do que tudo.

Ontem mesmo, no taxi que me transportou até a Universidade, resolvi provocar o homem do volante, perguntando-lhe, logo no início da viagem:

— "O que você acha da Uber? Tenho amigos que usam sempre e dizem que é muito bom".

Para que fui fazer isso? O sujeito passou os dez minutos seguintes dissecando pretensos argumentos contra o serviço que, na pior das hipóteses, representa mais uma opção para o consumidor.

Foi um desfile de falácias, que me fizeram lembrar o livro do Bruno, que li há cerca de um mês. Lembrei-me também do famoso artigo de Bastiat, A Petição dos Fabricantes de Velas. Disse-me o motorista:

— "Se eu fosse o senhor, não usaria o Uber, porque é perigoso", ao que retruquei:

— "Mas perigoso por quê"?

Respondeu-me, virando ligeiramente o rosto e roçando a cabeça na bandeira do Flamengo (argh) pendurada no retrovisor:

— "Esses motoristas não têm a licença que o estado dá para podermos transportar pessoas".

E emendou a bola de primeira, no canto e rasteira:

— "O senhor não vai ter nenhuma segurança de que o cara do Uber não é um bandido. Eu paguei muito caro por uma autonomia, cumpro todos os requisitos da Prefeitura e comigo ou com outro taxista o senhor pode viajar tranquilo".

Evidentemente, fiz de conta que concordava e encerrei o assunto, mas não sem antes perguntar o que ele achava das vans. Obviamente, foi outro desfilar de ataques.

Ninguém gosta de competidores, naturalmente, e isso não é uma característica do brasileiro, é dos seres humanos. É natural, é da condição humana.

Como disse Fernando Ulrich:

Todos somos, em princípio, a favor da livre concorrência. Quem não quer ter ao seu dispor diversas opções de pães, bebidas, vestimentas, restaurantes, carros, telefones, enfim, de qualquer produto ou serviço ofertado no mercado? Quem seria contra isso?

O problema surge quando a concorrência bate à nossa porta, "roubando-nos" potenciais clientes. Aí tudo muda de figura. A partir desse momento, a concorrência passa a ser negativa, nociva e contrária ao "bem público". [...]

A concorrência incomoda. A concorrência amedronta.

Mas o que nos caracteriza como povo é que a imensa maioria de nós acredita piamente que uma licença concedida por algum órgão estatal pode ser sinônimo de segurança de qualquer coisa.

Aquele motorista não é capaz de entender que sua luta e a de seus companheiros de profissão deveria ser contra as licenças, as vistorias, as mil exigências (como a do certificado de dedetização, por exemplo), as taxas cobradas para aferição do taxímetro, a fixação do valor das tarifas pelo estado etc.

É o estado quem o está sujeitando a esta situação de servidão, e ele parece não se dar conta disso. Ao contrário: continua vendo o estado como seu único salvador.

No mais, ele e seus colegas creem piamente que o fato de serem "legalizados" os torna mais confiáveis do que os motoristas da Uber, que usam carros particulares para transportar pessoas voluntariamente e cobram por esse serviço.

Ora pois, assim como as licenças de táxi, o estado também nos fornece segurança.  E é exatamente por isso que andamos e vivemos alarmados, como estamos andando e vivendo atualmente, presos em nossas próprias casas e com medo de sair às ruas.  Por isso, não creio que o argumento das licenças emitidas pelo estado seja muito persuasivo...

E os políticos, sempre espertos, para assegurarem votos de taxistas, estão continuamente se esforçando para proibir a Uber em várias cidades, proibição que certamente logo se estenderá a várias outras cidades. E também não é preciso ser um gênio para antecipar que o passo seguinte dos sugadores oficiais de nossas rendas será o de "regularizar" o Uber, mediante a cobrança de "módicas" licenças e a imposição de mil exigências, tal como aconteceu com as vans nos anos 90.

É certo que esse caso de revolta dos taxistas contra a Uber não é privilégio dos brasileiros, já que na Europa aconteceu o mesmo em várias cidades. Claro! O estado, nos quatro cantos do mundo, é um ladravaz voraz, insaciável e incansável. O que diferencia os taxistas brasileiros é que, além da natural aversão à competição, eles realmente acreditam que, por terem pago todas as taxas, licenças e emolumentos — ou seja, andando "legalizados" — eles adquirem um salvo conduto contra a concorrência.

Tenho para mim que, tal como no caso do Bitcoin e demais moedas digitais, o estado não terá como controlar o Uber, a não ser que chegue ao ponto de nos proibir de transportar quem desejarmos em nossos próprios carros. Mas é revoltante.

O caso dos ônibus é outro exemplo dessa intromissão consentida (e até desejada pelo brasileiro típico) do estado na vida dos cidadãos. Por que não terminar com o monopólio sobre as linhas que ele confere a empresas que lhe abarrotam os cofres, especialmente em épocas de campanha? Por que não deixar a competição entre empresas funcionar e, assim, atender melhor aos usuários?

Mas os brasileiros, mesmo quando saem às ruas para protestar, dirigem seus protestos contra as empresas de ônibus, porque os serviços são precários e caros, mas pedem soluções a quem? Ao estado! Ave cegueira! Nem de longe percebem que, se os serviços são ruins e caros, a culpa é desse mesmo estado a quem recorrem e que se locupleta com a concessão de monopólios legais, sem pensar minimamente nos consumidores.

O consumidor, no caso, o usuário, seja do Uber, seja do transporte público, seja de qualquer serviço em que o estado ponha suas garras, que se dane!

E essa situação vai prevalecer enquanto os brasileiros continuarem acreditando que, com novos políticos (que eles mesmos dizem não existirem) no poder, tudo vai melhorar. É o paradoxo de Garschagen.

Eu quero ter o direito de usar o serviço de transporte que escolher. E você? Vai continuar se comportando como um cordeirinho?


3 votos

autor

Ubiratan Jorge Iorio
é economista, Diretor Acadêmico do IMB e Professor Associado de Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Visite seu website.

  • Fabio  06/04/2016 15:15
    Excelente artigo, na minha cidade acho que não tem uber, quase não tem taxi, mas acompanho o face do partido novo e ontem um rapaz que se diz filiado ao novo e taxista também fez uns comentários muito parecidos com o seu relato de critica ao uber. O que eu disse o problema não é o Uber e sim o Estado que tem uma enormidade de taxas que faz com que o seu serviço fique mais caro. Aí foi cutucar onça com vara curta ! Não parou de falar... Falou inclusive do custo e o preço que segundo ele abaixo do custo de manutenção dos carros! Respondi a ele que se o Uber estava praticando preços muito baixos e que não haveria viabilidade econômica não deveria se importar porque não havendo viabilidade logos eles quebrariam. Agora se houvesse viabilidade econômica ele deveria mudar ou para o uber ou fazer qualquer outra coisa pois, senão ele seria um datilógrafo. Parou de reclamar...
  • Mônica Fuchshuber  06/04/2016 15:58
    O povo brasileiro adora uma teta, uma mamata. E isso, só o Estado pode lhe proporcionar.
  • Bruno Vivas  06/04/2016 16:35
    Fantástico artigo. Bruno Garschagen fez uma análise primorosa dessa nossa aparente contradição, e chega a entristecer quando constatamos o pouco que evoluímos. Vou dar alguns exemplos bem banais:

    1) a lei que determina o aviso na porta do elevador: Essa deveria ir para o Guiness como uma das piores leis já editadas. Afixa-se na porta de cada elevador um aviso para avisar que você tem que olhar para ver se ele está ali. Detalhe que o Estado impõe como deve ser a frase, com um português horrível: "verifique se O MESMO encontra-se..."


    2)a lei que proíbe celulares em bancos: basta uma nova modalidade de crime (as 'saidinhas de banco') que o Estado já tolhe uma liberdade de todos os cidadãos. Detalhe que a lei é antiga, e não proíbe o uso de aplicativos como whatsapp.

    3) a lei que proíbe que se encha de combustível outras embalagens que não a oficial, regulamentada. Alguns casos de incêndios criminosos e... prejudica-se toda a sociedade.

    4) a lei que proíbe a venda de buzinas. Algumas mortes por uso INADEQUADO de um produto, e lá vem o Estado te azucrinar. Não sei como ainda não pensaram na possibilidade de proibirem o trânsito de veículos, em virtude das mortes por acidentes automobilísticos, e estabelecerem que o deslocamento em rodovias será feito exclusivamente pelo Estado.

    Acho que vamos ter que evoluir ainda uns 50 anos para evitar esse tipo de coisa.
  • Viking  06/04/2016 16:51
    O caso dos ônibus é perfeitamente ilustrado pela situação que aconteceu no Piaui, recentemente.
    Vejam:
    piauiliberal.blogspot.com/2016/01/logo-abaixo-de-educacao-em-termos-de.html
  • Renan  06/04/2016 17:03
    E Que nem a questão do desarmamento. Quem não confia no estado e tem medo dos bandidos não deveria defender desarmamento civil visto que isso monopoliza a força nas mãos do estado e dos bandidos.
  • Felippe  06/04/2016 17:12
    Fiquei com uma dúvida. Essa lei que protege e torna exclusivo o transporte coletivo municipal é uma lei federal, estadual ou municipal?
    Onde deveria começar a nossa luta para mudar isso? Na câmara de vereadores, assembléia legislativa ou congresso?
  • Lucas Braga dos Santos  07/04/2016 00:07
    Há casos e casos. Cada região tem a sua lei. Em Recife, é estadual, por que abrange toda a região metropolitana. Em outros lugares, é municipal.
  • Renato  06/04/2016 17:36
    Não adianta reclamar dos políticos enquanto ainda existir a classe política.

    Se queremos ficar livres dessa corja temos que aos poucos alertar a todos sobre como é danoso para o bolso das pessoas e para os cofres do país a existência dessa classe parasitária chamada político.

    Em artigos anteriores eu percebi o aumento dos interessados que gostaram da minha ideia de criar um grupo para essa finalidade: A ELIMINAÇÃO DOS POLÍTICOS COMO CLASSE.

    Eu já expus aqui um principio de como iniciaríamos essa empreitada:

    Criaríamos um empreendimento para a função de alerta aos empreendedores. Sejam eles pequenos, médios ou grandes empreendedores.

    Um grupo poderia ser criado, mostrando o nosso cartão de visita, para fazer o trabalho de divulgação entre os empresários. Assim que contratados, de comum acordo com os mesmos (troca voluntária), estabeleceríamos um preço razoável para começar a imprimir cartilhas explicando as pessoas, dentro do estabelecimento do contratante, se assim esse desejar, mais principalmente nas ruas.

    Poderíamos também criar grupos de associados para que cada vez mais a mensagem de anti-políticos ganhasse mais força através de palestras e encontros.

    Mostraríamos aos poucos para as pessoas que pagar impostos é uma falácia. Só serve para sustentar a classe política...e também mostraríamos a existência de moedas digitais, como o bitcoin, por exemplo, para o empresário e para as pessoas comuns.

    Aos poucos vamos tirar essa mentalidade estatal da cabeça das pessoas.

    Como eu sou da CIDADE do Rio de Janeiro, ficaria melhor que pessoas daqui entrassem em contato comigo.

    Trabalharíamos como se fossemos "fantasmas". O investimento seria feito diretamente com empresários que assim solicitasse nosso serviço.

    É claro que esse grupo crescendo vamos criar e ter contato com pessoas de outros estados e até mesmo em nações estrangeiras.

    Para os interessados meu email NOVO é galenoeu@gmail.com
  • Vinicius   06/04/2016 17:52
    Se por acaso for possível , explique pra mim um pouco melhor sobre alertar os empreendedores? Obs: Não estou discordando do que escreveu só me interessei um pouco pelo assunto
  • Admirador do Viking  06/04/2016 19:09
    Esse artigo parece ter sido escrito para vc, Renato!
  • Viking  07/04/2016 10:25
    Ganhei um fã????
  • Renato  07/04/2016 17:52
    Admirador do Viking, até parece que eu amo o estado.
  • vander  07/04/2016 23:51
    Bom artigo. É preciso também ver que o homem da rua fala aquilo que ele ouve o tempo todo. E como vivemos em tempo de socialismo e intervencionismo, estas ideias por si só exóticas e contraditórias, não deixariam de estar refletidas no seu linguajar, afinal de conta as massas não pensam por si só e tendem sempre a seguir as lideranças. E se é assim,porque não o seu falatório também?
    As coisas se dão, como disse Mises, da seguinte maneira. Como poucos tem a capacidade de pensamento próprio, como os filósofos, estes formulam o pensamento, as teorias, as doutrinas. Os intelectuais capturam este pensamento, esta ideologia e a esmiúçam e a difundem. Como onda em um lago, elas alcançam todos os rincões da sociedade. É quando então produzem um ambiente cultural que se dá o nome de opinião publica. Todos passam a agir, a pensar e a falar a mesma coisa, mesmo que de maneira diferente.
    Agora some a isso o fato de que as pessoas estão por demais ocupadas no seu dia a dia na luta pela sobrevivência que se acham impossibilitado de examinar mais atentamente o cipoal de coisas que lhes afetam a vida que só resta agir de modo prático ou pragmáticos diriam alguns.
    Não é sem razão que o pensamento das massas sejam toscos e contraditórios.
    Mudar este estado de coisa é sempre uma tarefa de qualquer pessoa se coloca quando percebe que tudo está errado. O difícil é perceber que esta ideologia só pode ser mudada se mudar o modo de pensar da intelectualidade, a mesma que captura a doutrina formulada pelos filósofos e as difundem repetindo à demência. Esta camada intelectual que é responsável pelo modo de pensar que ouvimos do taxista, do quitandeiro, do feirante, do trabalhador e até do próprio empresário.O conteúdo de tudo que se fala e ouve por parte da população é obra dos intelectuais. O homem da rua tem uma ideia por demais simples do que venha ser capitalismo, socialismo e etc., e se tiver.
    Culpar políticos não atinge o alvo também além de ser um exercício perigoso. Os políticos são como homens de negócios. Os homens de negócio tem que agradar os consumidores senão sofrem prejuízos. Os políticos tem que atender os eleitores. Se contraria perde o voto e a eleição. Não é culpa dos políticos se as massas estão corrompidas e viciadas. Estes são frutos da ideologia que os intelectuais capturaram e a difundem esmiuçando e popularizando. São essas ideias que tem que ser combatidas. O capitalismo tem um arsenal de ideias que desmontam este pensamento. Mas não é fácil manuseá-lo. Há que estudar primeiro.
  • Andre Henrique  06/04/2016 19:50
    O ser humano é, em sua maioria burro, mas o brasileiro aperfeiçoou essa "arte".
  • lysm  06/04/2016 20:55
    mas as licenças do estado no caso das vans no rj não torna o serviço um pouco mais seguro obrigando as mesmas a serem mais limpas, seguras e etc?
    sou novato por aqui e na vida(só tenho 16 anos) e quero esclarecimento sobre essa duvida por favor pessoal
  • Juan Domingues  06/04/2016 23:44
    Vou tentar não complicar muito.
    Toda e qualquer regulamentação proposta pelo governo sempre vem travestida de boas intenções. Eles vão dizer: "Vamos monitorar e garantir a boa qualidade do produto ou serviço." É sempre assim, e é assim porque, se você vai tomar o dinheiro dos outros à força (impostos), você precisa pelo menos fingir ter boas intenções, caso contrário ninguém te daria o dinheiro. Em outras palavras, se você roubar R$ 10 de uma pessoa e sair correndo sem dar explicação nenhuma, essa pessoa vai ficar brava com você pois a violência cometida é bastante visível. Entretanto, se você vier, pegar R$ 10 da pessoa e der uma desculpa qualquer, do tipo fazer justiça social, investir no bem comum, etc, e que apesar de lhe roubarem 10, vão te voltar 5 em produtos e serviços quaisqueres, você ainda vai ficar desconfortável, mas como apelaram para sua emoção e empatia, você (e seus vizinhos) acaba cedendo mais fácil a essa violência. O que não a torna, entretanto, menos violênta. Essa é uma interpretação resumida do motivo moral pelo qual a regulamentação imposta é imoral - ela vem dos governantes, os governantes são sustentados com dinheiro pego a força (roubo), e roubo é roubo. As boas intenções, verdadeiras ou falsas, não justificam a agressão inicial. Os fins não justificam os meios. Ou roubar é errado ou não é.
    Independentemente de toda a questão moral, entretanto, há ainda a questão econômica. O problema dessa medida governamental (e de qualquer outra ação ou inação humana) é que há aquilo que se vê, e aquilo que não se vê. Ao se restringir a circulação de veículos de passageiros e ao se imporem regras e regulamentações, o governante está, na prática, criando incentivos no mercado que vão facilitar a vida daquelas empresas que podem se adaptar mais facilmente as regras e dificultando a vida das demais competidoras. Na prática, o governo mesmo cria um oligopólio, na medida em que empresas e empreendedores autônomos menores não conseguem obter essas licenças ou se adequar a todas as exigências. O oligopólio possui menor concorrência, e a menor concorrência fatalmente resultará em um serviço mais escasso, mais caro e pior no longo prazo. Veja bem, ele pode até ser melhor no curto prazo, mas certamente será mais caro e mais escasso (menos disponível) no curto, médio e longo prazo.
    Imagine uma cidade na qual todos os 50 ônibus e vans tem poltronas de plástico e mal estado de conservação e que, por exemplo, o prefeito baixar uma lei dizendo que todos os ônibus da cidade tenham ar condicionado, poltronas macias tipo leito e serviço de bordo. O consumidor desavisado vai dizer "Que maravilha não é mesmo?" Entretanto o efeito prático de tal medida trará será o de limitar o número de empresas que tenham em sua frota algo capaz de atender tais regras. Talvez a maior empresa do mercado consiga comprar um, dois ônibus com essa configuração. As outras empresas, por não terem condição de atender a demanda, resolvem simplesmente mudar de ramo ou ir para outra cidade. E então você tem a pior situação possível para quem deveria importar desde o princípio: o consumidor, visto que agora ele tem apenas 2 ônibus que demoram 2 horas para passar e fazem apenas dois itinerários, além de custarem muito mais caro, sendo que antes, no ambiente desregulamentado, eles tinham 50 opções a um preço menor. Esse é o problema de regulamentações em geral, elas tendem a reduzir a concorrência, gerando redução da disponibilidade do produto/serviço e aumento de preços (a oferta cai, a demanda continua a mesma, o preço sobe). Por isso que grandes empresas de ônibus frequentemente, elas mesmas, financiam campanhas de prefeitos Brasil afora. Parece um contrasenso, mas não é: elas estão apenas querendo usar as armas do Estado para garantir seu monopólio.
    O que interessa para o consumidor, no seu exemplo dos transportes, é ir do ponto A ao ponto B. Se tem ou não ar condicionado, se vai apertado ou se vai com espaço de sobra, se vai pagar em dinheiro ou com cartão, se o veículo é 2016 ou 1996, se tem Wi-Fi ou não, isso tudo é secundário. E o próprio livre mercado se encarrega de oferecer diversas opções, para todos os gostos e bolsos. Assim como você pode comprar um telefone chinês de marca desconhecida por US$ 50 ou um iPhone por US$ 650 (e ambos terão qualidades bastante diferentes), a mesma lógica se aplica a qualquer mercado.
    O usuário de uma van "clandestina" pode reclamar do conforto, da condição do carro, mas ele certamente gosta do preço e da existência daquele serviço. Se o governo interferir para "tentar melhorar", o que pode acontecer é que o prestador atual simplesmente saia do negócio. E quem antes tinha transporte ruim, agora não tem transporte nenhum (ou tem, mas mais caro). Esse é um outro lado nefasto de regulamentações: elas tendem a afetar principalmente aqueles que mais precisam do produto ou serviço e tem menor capacidade financeira: os mais pobres. Um aumento de 50 centavos na passagem para pagar por um veículo "com Wi-Fi, registrado, mais novo e seguro exigido pela prefeitura" não faz muita diferença para quem vive no centro, mas para quem vive na periferia e precisa ficar 2 horas em um ônibus pode ser a diferença entre ter mais carne ou mais ovo no prato no final do mês.
    Então meu caro Lysm, muito cuidado ao tentar imaginar o que é melhor para os outros. Cada um sabe de suas necessidades.
    Talvez o carioca pobre prefira chegar mais rápido em casa ou no trabalho do que ter que esperar mais tempo e pagar mais por uma van "legalizada". Quem deve tomar essa decisão é ele mesmo, não algum burocrata que ganha dinheiro extraído à força dos outros.
  • Edujatahy  07/04/2016 01:08
    Ótimo comentário Juan.
  • lysm  07/04/2016 19:20
    vlw kara
  • lysm  07/04/2016 19:27
    o liberalismo é a pura observação lógica das atividades da sociedade e por isso é bem mais correto que qualquer outra ideologia, ela abre seus olhos perante ao mundo e te desafogando do mar da ignorância(socialismo).
    obrigado pela explicação juan, e rumo a um brasil libertário!!!!!!!
  • Alexandre Goncalves  14/04/2016 18:21
    Bem didático.
  • Rodrigo Vaz  06/04/2016 23:23
    Excelente artigo, professor Ubiratan. O seu livro "Economia e Liberdade" me influenciou a entrar no movimento libertário. Obrigado.
  • Anderson  07/04/2016 01:55
    Pergunta: se abrissemos o país e colocassesmos o padrão-ouro puro, e nossa indústria desaparecesse, não ficariamos mais pobres? Não é a indústria a grande geradora de riqueza? e a doença holandesa? só tenho essa dúvida.
  • Ernesto Mello  07/04/2016 02:10
    O Uber é saudado como exemplo de livre mercado, mas devemos esperar a concorrência se tornar efetiva. Caso contrário, será mais um monopólio/oligopólio.
  • Anderson  07/04/2016 04:14
    Valeu. Mas tinha outra dúvida: li os artigos sobre privatização de ruas e rios e não entendi. as ruas e rios seriam propriedade de um só ou de seus moradores anexados a elas? Se fosse de um só, como se daria a concorrência?
  • Luiz  07/04/2016 19:06
    Eu não sou um bandido pois cumpro todas as exigências dos bandidos (políticos).
  • Francisco Seixas  08/04/2016 02:26
    No caso dos táxis o resultado nefasto da interferência estatal fica patente pelo fato de que o que deveria ser apenas um serviço de transporte passa a ser também um mercado de balcão para o efeito colateral gerado pela regulamentação, a licença se transforma num ativo financeiro.

    Não é difícil de imaginar um motorista que tenha "acumulado" algumas licenças, ao se dar conta da valorização de seu ativo, decidir reduzir suas horas de trabalho, ou até mesmo parar, já que pode ganhar muito mais negociando as licenças.

    Mas ao que parece ninguém se dá conta desse absurdo e ridículo desvio de finalidade que a intervenção estatal produziu.

  • Emerson Luis  08/04/2016 10:34

    "Mas os brasileiros, mesmo quando saem às ruas para protestar, dirigem seus protestos contra as empresas de ônibus, porque os serviços são precários e caros, mas pedem soluções a quem? Ao estado!"

    Vale lembrar que os protestos de 2013 foram iniciados por militantes da extrema esquerda que queriam desestabilizar o governo estadual de SP, que eles tentaram repetir o feito e não conseguiram e que a maioria desses militantes são jovens de altos níveis de renda que só andam de carrão, entediados com seu conforto ocioso e deslumbrados com o socialismo.

    * * *
  • MarcioAB  17/05/2016 02:08
    O estado é a cola que nos mantem unidos.

    No momento que nos unimos, perdemos liberdade e ganhamos força.
    Aqueles que não tem força perdem a liberdade.
    Ou seja, liberdade é algo muito raro.

    Sou 100% pelo estado-minimo, mas reconheço que é dificil.
    Ao reduzir o tamanho do estado a cola desaparece e surgem rachaduras e separações, o que pode ser bom ou ruim. Na duvida, a maioria tem medo de um estado-minimo.
  • Pessimista  17/05/2016 12:58
    Estado é desunião.

    Nos afasta de outras sociedades por meio de barreiras alfandegarias e controle de imigração, cria guerra e divisões com outras sociedades, cria sugadores de impostos, cria privilegiados e desfavorecidos dentro da sociedade, e por ai vai.

    A forma como o estado uni é apenas compulsória, instável e criadora de conflitos.

    A melhor forma de unir as pessoas é por meios de instituições não políticas (igreja, casamento, clubes, escolas, empresas e etc.) e comércio.
  • MarcioAB  17/05/2016 18:20
    Ok, mas mesmo com essas instituições que voce menciona (otimas), não tem como NÃO ter uma outra instituição basica que funcione como uma base comum para seus "associados". Eu gostaria que essa instituição basica fosse a menor possivel. Agora vamos complicar um pouco: Os estados do sul vão realizar um plebiscito agora em Outubro, perguntando para seus "habitantes" se eles querem continuar "associados" ao Brasil ou cair fora. Digamos eles queiram cair fora. Como pensa um liberal sobre a "perda" desse pedação de terra ? Para os socialistas nem precisa perguntar, pois eles querem que o mundo seja uma coisa só, mas ... e os liberais ? Liberam ?
    (obs: eu libero )
  • Silva  17/05/2016 18:44
    Acho que você chegou a este site agora:

    www.mises.org.br/Subject.aspx?id=48
  • MarcioAB  17/05/2016 19:39
    Vero. Obrigado pelo link (bom material).


  • Andre  17/05/2016 20:30
    Como pretende deixar o estado mínimo mínimo quando algum socialista maluco vence as eleições "democraticamente"? Por força da lei que os próprios socialistas agora terão em suas mãos?
    Muito cuidado ao abordar a defesa do estado mínimo se esquecendo que temos uns Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Rafael Caldera, Kirchner, Evo Morales, Bernie Sanders, Luiz Inácio, Dilma Roussef, Michele Bachelet, Tabo MBeki, Poroshencko, Tsipras e outros (vou me limitar aos anos 2000) prontos para arregaçar as instituições estatais, implodir a economia local, aparelhar o estado à seu favor, vender o céu e entregar o inferno.
    O melhor meio de proteger a liberdade da sociedade é não criar um protetor com poderes maiores que a própria sociedade.
  • MarcioAB  17/05/2016 22:27
    Se o estado é minimo, não adianta um socialista maluco "ganhar" o estado pois ele não vai fazer muito estrago. Se não existe nenhuma empresa estatal, não tem cabide para oferecer. Se entradas e saidas ja estão comprometidas (com o basico), não tem como desviar. Esse socialista maluco vai preferir explorar em outro lugar.
  • vander  18/05/2016 11:31
    MarcioAB, vc se aproxima do ponto correto. O termo "Estado Mínimo" é que não faz sentido, pois o Estado tem FUNÇÃO e não é passível de ter um tamanho, uma dimensão pre estabelecida. O Estado tem por função proteger os agentes econômicos que são os indivíduos. Quem regula a economia são os consumidores, ou seja, os individuos nesta condição, nos. Esta regulagem é feita através do sistema de preço que transmite aos agentes econômicos o que os consumidores querem pelo menor preço, qualidade e quantidade. Se consomem pode determinar seu sucesso. Se não, o fracasso. as informações do preço obrigam os agentes a se ajustarem ao mercado senão terão que ir platantar batatas. Deixar o governo regular a economia significa que terá que regular os que fazem a "economia", os que produzem bens e riquezas, os indivíduos. Ai a democracia, o seu corolário vai perdendo força até desaparecer.Se ao Estado é entregue o poder de regular a economia, o consumidor perde a supremacia que é transferida ao político e a seu incansável auxiliar, o burocrata. Se tirar o poder do Estado de regular a economia, os políticos perdem poder sobre os indivíduos e terão que restringir suas ações às questões de Estado, na manutenção da paz, na administração da justiça e promover o aparelho da força com leis que combata aqueles que sabotam o livre funcionamento do mercado. O problema do Estado é um problema de econômico que tem implicações políticas, éticas e até religiosa. Mas essas são sempre secundárias. A principal é não permitir o Estado exercer qualquer atividade econômica mesmo porque ele pertence ao reina das despesas. Dizer que o governo tem que "investir" é um contrassenso que ouvimos todos os dias na TV. Deixar o governo regular a economia é a cerne do nosso problema.
  • MarcioAB  18/05/2016 14:01
    "estado minimo" significa a menor estrutura para executar as minimas funções prioritarias a uma comunidade.
    E quais são essas minimas funções prioritarias a uma comunidade ?
    Como estamos numa democracia, precisamos seleciona-las democraticamente (por votação).
    Digamos que se parta de uma lista com 200 opções (democraticamente aberta para revisão, inclusão, etc).
    Libera para votação e temos uma primeira avaliaçao das funções que aquela comunidade considera prioritaria.
    Em seguida vamos quantificar (aproximadamente) o custo de cada uma dessas funções prioritarias, da maior para a menor.
    Vamos somando os valores e ai vem o meu ponto do "estado minimo": Onde paramos ?
    Obviamente é necessario haver uma linha de corte e a principio eu sugiro algo como 10% do PIB dessa comunidade.

    Ou seja, 90% do que essa comunidade produz É DELA.
    E 10% é usado para montar uma pequena estrutura para suprir um pequeno numero de funções prioritarias democraticamente elencadas.

    Sobre suas 2 funções prioritarias que um estado NÃO poderia exercer (regular a economina e exercer atividade economica), pode ser que de alguma forma elas apareçam democraticamente no topo das funções prioritarias. Paciencia, a maturidade democratica das comunidades deve variar muito. O importante é que as comunidades não entrem em conflito belico e que seja permitido a livre mudança de uma comunidade para outra.
  • Pobre Paulista  18/05/2016 12:53
    Por "Estado Mínimo" entende-se um estado cuja função é basicamente manter um exército, para defesa externa, um poder judiciário, como sendo o poder moderador supremo, e um poder executivo e legislativo enxutos com o propósito somente de gerir o estado e cobrar os impostos dos cidadãos. Em outras palavras, um estado com o papel de proteção dos indivíduos mas sem o papel de "promover o bem estar social".

    Veja aqui porquê esse arranjo não funciona.
  • MarcioAB  18/05/2016 20:06
    Desculpe, mas esse artigo é bem estranho. O resumo desse artigo pode ser:

    A experiencia mostra que se houver um limite CONSTITUCIONAL, esse limite sera desrespeitado.

    Ok. Mas ai é uma questão disciplinar, ou seja, de falta de enforcement policial autonomo.
    Basta um complemento na LRF da Constituição que diga: Se a arrecadação for superior a 10% do PIB, o presidente vai para a cadeia. E é fundamental a execução sumaria dessa lei. Grande chance da arrecadação ficar no maximo em 9%, só para garantir.
  • vander  18/05/2016 20:22
    Sem a mudança da mentalidade da maioria da população em direção a esta diretriz, sem que ela se convença que esta é a mais sensata atitude não tem como funcionar. Não é como nas ciências da natureza e no dia a dia das pessoas. Quando Bill Gates começou a fazer seu computador todo mundo achou que ele era louco. Depois que ele trouxe o invento à luz todo mundo quer comprar um. Na vida social que depende de convencimento da maioria isto não acontece nem que a vaca tussa. Não adianta fazer "arranjo democrático" com pessoas que estão empanturradas de socialismo e querem a Estado papai noel. Quem deseja mudar o estado atual, que é o socialismo e intervencionismo,em direção de uma sociedade libertária ou liberal da tradição clássica terá que empreender não um "arranjo democrático" mais uma defesa dos princípios da filosofia do livre mercado. É difícil todo mundo sabe e leva tempo mudar uma mentalidade. Mas foi assim que os socialistas fizeram. Eles não fizeram arranjos de natureza nenhuma, ele foram fazendo a cabeça das pessoas através de publicações, discussões, encontros, seminários debates e etc., até que mudaram a mentalidade das pessoas que até ao final do século XIX ainda seguiam as diretrizes liberais. O mesmo tem que ser feito. Primeiro mudar as ideias que hoje refletem o socialismo e o intervencionismo com as ideias do capitalismo que passa em outras coisas pelo Estado mínimo restrito as funções de segurança se abstendo da intervenção na area da economia, que é a area da atuação dos indivíduos.Esta mudança não é mecânica.Requer a filosofia,a história e principalmente o conhecimento da economia subjetiva.
  • Wesley  17/05/2016 03:25
    Já vi ótimos comentários do FHC dessa mentalidade do brasileiro. Ele disse que na época da hiperinflação a população gostava do controle de preços do governo. Segundo ele, a população gosta quando o governo intervêm e administra os preços. Ele tem toda a razão. O brasileiro gosta que o governo intervenha na sua vida. O fato de que há no inconsciente coletivo nacional a crença de que virá um salvador que resolverá os nossos problemas. Não é atoa que as pessoas gostam de populistas e corruptos, visto que votam em qualquer um que lhe prometa uma teta estatal.


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.