Os três tipos de regimes cambiais existentes - e qual seria o mais adequado para o Brasil

A taxa de câmbio, ao lado da taxa de juros, é um dos principais preços de toda a economia.  A taxa de câmbio é o preço da moeda de um país em termos de todas as outras moedas do mundo.

Grosso modo, a taxa de câmbio representa, em tempo real, a razão entre os preços gerais vigentes em dois países distintos.

Sendo assim, se um país, por exemplo, tem uma taxa de câmbio que se mantém inalterada em relação ao franco suíço, isso significa que sua moeda se mantém tão forte quanto o franco suíço. Significa que sua moeda mantém o mesmo poder de compra do franco suíço. Por definição, é impossível este país vivenciar uma hiperinflação (a menos, é claro, que o franco suíço entre em processo de hiperinflação).

É exatamente por isso que todos os planos de estabilização econômica — países que estão vivenciando um processo de hiperinflação e querem retornar à normalidade — necessariamente passam por alterações no regime cambial adotado.

Ainda mais importante: no atual mundo globalizado em que vivemos, a taxa de câmbio é muito mais efetiva em determinar a inflação de preços do que as taxas de juros.  A taxa de câmbio afeta praticamente todos os preços da economia, desde alimentos e remédios até móveis (que são fabricados com commodities transacionadas em dólar), utensílios domésticos (desde panelas de aço a aparelhos eletroeletrônicos), gasolina (o petróleo é cotado em dólar) e eletroeletrônicos, passando por pequenas empresas que utilizam produtos importados (uma simples firma que utiliza computadores e precisa continuamente comprar peças de reposição) até grandes indústrias que necessitam de importar máquinas e matérias-primas de várias partes do mundo.

Igualmente, a taxa de câmbio é crucial para o crescimento de uma economia.  Uma taxa de câmbio estável pode gerar um prolongado período de crescimento econômico, ao passo que uma taxa de câmbio instável é capaz de reverter qualquer processo de crescimento.

Existem três tipos de regimes cambiais: taxa de câmbio flutuante, taxa de câmbio fixa e taxa de câmbio atrelada.  Cada uma dessas taxas possui características diferentes e gera resultados distintos.

Taxa de câmbio flutuante

A taxa de câmbio flutuante é a taxa vigente na maioria dos países do mundo (majoritariamente em sua versão de "flutuação suja").  Mesmo os países que utilizam o euro possuem uma taxa de câmbio flutuante em relação a todos os outros países que não utilizam o euro.

Nesse regime cambial, o Banco Central estipula apenas a política monetária, ou seja, ele controla a taxa básica de juros e a base monetária.  O Banco Central não possui nenhuma política cambial explícita. 

A taxa de câmbio varia diariamente ao sabor da oferta de moeda estrangeira, da demanda de estrangeiros pela moeda nacional e, principalmente, da percepção dos investidores estrangeiros e dos especuladores quanto à situação econômica e política do país.

Nesse arranjo, a taxa de câmbio é um preço formado instantaneamente pela interação voluntária de bilhões de agentes econômicos ao redor do mundo.  Se esses bilhões de agentes econômicos acreditam que a inflação de preços em um determinado país será baixa ou que sua situação política e economia é boa, sua moeda irá se valorizar em relação às outras.  Se eles acreditam que a inflação está alta ou que ela será alta, ou que a situação política e econômica do país está ruim, sua moeda irá se desvalorizar em relação às outras.

Sob um arranjo de taxa de câmbio flutuante, não há crises no balanço de pagamentos e, em tese, um país não precisa deter reservas internacionais.  Caso haja uma fuga de capitais estrangeiros — causada, por exemplo, por uma deterioração da economia ou da situação política do país —, a taxa de câmbio imediatamente se desvaloriza e isso, em teoria, tende a estancar importações, estimular exportações e baratear investimentos em portfólio (por exemplo, compra de ações, de debêntures e títulos do governo) para estrangeiros, fazendo com que o capital estrangeiro retorne.

Isso tudo apenas na teoria.

A prática, no entanto, mostra que taxas de câmbio flutuante não funcionam bem para países ainda em desenvolvimento que possuem um longo histórico de instabilidade monetária ou política, e cujo Banco Central não é visto como confiável.  Nestes países, a qualquer sinal de novas instabilidades, a taxa de câmbio não flutua; ela afunda. 

E junto com a taxa de câmbio vão a inflação de preços e a queda no padrão de vida dos cidadãos. 

Nem mesmo exportações são estimuladas, pois a inflação de preços resultante da disparada cambial afeta severamente os custos do setor industrial, que tem também de importar vários insumos e maquinários de qualidade (ver todos os detalhes sobre isso neste artigo).  Consequentemente, não apenas os preços dos produtos fabricados sobem (pois os custos de produção subiram), como também a qualidade se deteriora (por agora utilizarem menos insumos importados), o que não ajuda a aumentar as exportações.

E, além de nem sempre estimular exportações, a desvalorização da taxa de câmbio também não traz nenhuma garantia de que os investidores estrangeiros trarão de volta seus capitais para o país com o intuito de adquirir ações e papeis agora mais baratos em moeda estrangeira.  Caso a instabilidade política e econômica seja grande, simplesmente não haverá motivos para eles se arriscarem tanto e investir dinheiro no país. 

Consequentemente, a taxa de câmbio irá se desvalorizar ainda mais. 

Essa nova desvalorização deixará investidores estrangeiros ainda mais arredios, pois ela afeta totalmente qualquer chance de algum retorno positivo em suas eventuais aplicações no país.

Essa perspectiva de perda real de dinheiro para os investidores estrangeiros tende a reforçar ainda mais o ritmo da desvalorização da taxa de câmbio.  No extremo, um país pode entrar em hiperinflação em decorrência das contínuas desvalorizações cambiais geradas por instabilidades políticas e econômicas, como aconteceu com a Indonésia em 1998.

Em um regime de câmbio flutuante, instabilidades políticas e econômicas são imediatamente transferidas para a taxa de câmbio, intensificando ainda mais os desarranjos da economia.

Para piorar, nesse cenário de desvalorização cambial, a única maneira de o Banco Central manter a inflação de preços relativamente tolerável é gerando uma brutal recessão (por meio de juros crescentes) que eleve acentuadamente o desemprego, reduza salários e acabe com a demanda.

Apenas com recessão, desemprego e queda na renda podem os preços se manter relativamente estáveis em um cenário de rápida desvalorização cambial.  Apenas essa conjunção de fatores pode impedir um grande repasse cambial aos preços.

Obviamente, nesse cenário, as empresas e os empreendedores ficam asfixiados.  Eles pagam cada vez mais caro pelas importações, mas não podem repassar esses custos para os preços.  Consequentemente, eles vão se tornando cada vez mais descapitalizados, o que afeta sua capacidade de investimento e de contratação de mão-de-obra.

Em suma, uma taxa de câmbio flutuante funciona bem para economias já desenvolvidas e estáveis, e pode também funcionar bem para países ainda em desenvolvimento que usufruem grande estabilidade política.

Mas seu histórico para países em desenvolvimento e que não usufruem estabilidades políticas e econômicas não é dos melhores. 

Taxa de câmbio fixa

Sob um arranjo de taxa de câmbio fixa, a taxa de câmbio, obviamente, tem de ser estritamente imutável ao longo do tempo

É comum confundir taxa de câmbio fixa com taxa de câmbio atrelada.  Na taxa de câmbio atrelada, que foi a que vigorou no Brasil durante os anos de 1995 a 1998, a taxa de câmbio varia diariamente, só que dentro de bandas estritamente determinadas pelo Banco Central.  Tal arranjo, que será estudado mais abaixo, é inerentemente instável, ao contrário da taxa de câmbio fixa.

Um arranjo de taxa de câmbio fixa dificilmente pode ser implantado por um Banco Central, pois a função clássica de um Banco Central é estipular juros e manipular a base monetária. 

Um arranjo de câmbio fixo só pode funcionar bem por meio de um Currency Board.

O que é um Currency Board

Um Currency Board — que pode ser traduzido como Agência de Conversão ou Caixa de Conversão — já vigorou no Brasil no período de 1906 a 1920 (mais detalhes sobre isso abaixo).  Trata-se de um dos arranjos monetários mais antigos e tradicionais do mundo, perdendo apenas para o padrão-ouro. Aliás, era comum que o país que adotasse o padrão-ouro o fizesse por meio de um Currency Board (como ocorreu com o Brasil no período supracitado).  

O Currency Board nada mais é do que, como o próprio nome em português deixa claro, uma agência de conversão de moeda, cuja única função é converter a moeda nacional em uma moeda estrangeira específica (chamada de moeda-âncora), e vice-versa, a uma taxa de câmbio fixa e imutável.

O Currency Board é meramente uma agência de conversão, e funciona literalmente como se fosse uma casa de câmbio.  Ele não faz política monetária, ele não regula bancos, ele não controla juros, ele não cria moeda para comprar títulos do governo ou papeis de empresas nacionais.  Ele só cria cédulas e moedas metálicas quando recebe em contrapartida a moeda-âncora.

Nesse arranjo, juros, base monetária e crédito variam estritamente ao sabor do mercado.  Não há nenhuma política monetária.  A política monetária fica no piloto automático. 

O princípio de operação de um Currency Board é bastante simples e, quando obedecido ortodoxamente, muito eficaz.  O Currency Board é o arranjo que se implanta quando se quer adotar uma genuína "âncora cambial", o que faz com que a moeda de um país se torne um mero substituto de uma moeda estrangeira.  A única função de um Currency Board é trocar moeda nacional (que ele próprio emite) por moeda estrangeira, e vice versa, a uma taxa fixa

Caso um país adote o dólar como moeda-âncora, o Currency Board tem a função de trocar, sem custo e sem demora, a moeda nacional pelo dólar à taxa de câmbio fixada.

Para funcionar assim, o Currency Board, por definição, tem de manter reservas internacionais em um volume que seja igual ou maior do que a base monetária da moeda nacional. 

Sob este arranjo, quando um empreendedor exporta produtos, ele recebe como pagamento uma moeda estrangeira — no caso, o dólar.  Ato contínuo, o Currency Board emite moeda nacional a uma taxa de câmbio fixa em relação ao dólar (aumentando a base monetária) e envia o montante para o banco deste exportador (e o banco, obviamente, acrescentará os dígitos eletrônicos na conta desse exportador).  Os dólares ficam com o Currency Board. 

Inversamente, quando um empreendedor importa produtos, a moeda nacional é trocada por dólares a uma taxa fixa no Currency Board: o Currency Board fica com a moeda nacional (o banco envia as cédulas para o Currency Board, contraindo a base monetária) e o Currency Board envia os dólares (na forma de dígitos eletrônicos) para a conta do exportador estrangeiro. 

Note que, sob um Currency Board, a variação da base monetária é completamente passiva.  Ela aumenta e diminui estritamente de acordo com a entrada e saída de moeda estrangeira.  O Currency Board não faz política monetária.  Ele não pode criar moeda nacional e injetá-la na economia em troca de um ativo qualquer.  Ele só pode emitir moeda nacional se receber um valor equivalente em moeda estrangeira. 

Sob este regime de câmbio estritamente fixo e de política monetária totalmente passiva, quando há um superávit no balanço de pagamentos, a base monetária se expande e os bancos ficam com mais reservas.  Isso gera uma redução nos juros e, consequentemente, uma expansão no crédito e uma elevação nos preços.  Ato contínuo, as importações aumentam e tende a haver uma saída de capital especulativo do país (por causa da redução dos juros), o que gera uma saída de reservas do país.  Essa saída de reservas reduz a base monetária (mas não necessariamente a oferta monetária, pois os bancos continuam operando normalmente com reservas fracionárias).  Os juros sobem, isso atrai capital estrangeiro (e a economia se desacelera) e o balanço de pagamentos volta ao equilíbrio. 

Esse arranjo funciona exatamente como funcionaria um padrão-ouro, com uma moeda estrangeira fazendo o papel do ouro.  (Com o tempo, o balanço de pagamentos tende ao equilíbrio, de forma que tais flutuações econômicas sejam mínimas.)

Ou seja, em vez de haver um Banco Central manipulando juros e base monetária com o intuito (impossível) de fazer uma "sintonia fina" na economia, em um arranjo de Currency Board juros, base monetária e crédito são determinados pelas forças de mercado.

A estrutura de um Currency Board

O Currency Board é um empreendimento de baixíssimo custo, o qual pode (aliás, deve) ser feito pela iniciativa privada, sem nenhuma participação do estado.

Por definição, um Currency Board investe apenas em ativos de alta liquidez no país da moeda-âncora.  Ele não adquire nenhum ativo do país em que opera — pois, para fazer isso, ele teria de criar reais para comprar ativos, mas ele só pode criar reais se receber em contra-partida a moeda-âncora. 

No balancete do Currency Board, os passivos são as cédulas e moedas metálicas que ele emite, e os ativos são aplicações de alta liquidez feitas na moeda-âncora.

Por exemplo, um Currency Board que utiliza o dólar como moeda-âncora, teria em seus ativos aplicações em título do governo americano ou empréstimos no mercado interbancário americano ou mesmo no mercado interbancário de Londres.  Um Currency Board que utiliza o ouro como moeda-âncora teria em seus ativos empréstimos no mercado de ouro de Londres e Zurique.

E os passivos seriam exclusivamente os reais que ele emitiria a cada recebimento de dólar ou ouro. Seu custo real seria apenas o de trocar cédulas gastas e rasgadas por cédulas novas.

Ou seja, é um empreendimento de baixíssimo custo e não retira um único centavo dos pagadores de impostos.

Para garantir que o Currency Board seja imune aos governos dos países em desenvolvimento, recomenda-se que ele tenha sua sede na Suíça, estando sujeito às leis suíças e a uma auditoria suíça (com filiais nas principais capitais do Brasil, é claro). O governo do país em desenvolvimento nada poderia fazer contra ele (como, por exemplo, obrigá-lo a criar moeda para financiar seus déficits). Caso fizesse algo, seria uma agressão internacional, pois estaria atacando uma instituição suíça.

Implantando um Currency Board

Por si só, o processo de implantação de um Currency Board é extremamente simples e rápido, podendo ser feito em um dia.  O único desafio é estipular qual será a taxa de câmbio.  Para isso, deve-se adotar o seguinte procedimento:

a) Anuncia-se para o mundo todo que na data X — por exemplo, dia 1 de dezembro daqui a dois meses — o país adotará um Currency Board estritamente ortodoxo, com suas leis estabelecidas na Suíça, e à taxa de câmbio vigente no dia último dia útil anterior. (Foi exatamente assim que foi feito com o Plano Real).

b) Após o anúncio, libera-se absolutamente todo o mercado de câmbio. Não deve haver nenhuma restrição à entrada e à saída de capitais. Nenhum imposto, nenhum IOF, nenhum tipo de controle de capital. O objetivo é ter um mercado cambial plenamente livre, justamente para que ele informe o real valor da sua moeda.

c) Dois meses é tempo mais do que suficiente (na verdade, não precisa de mais do que um) para se estabelecer uma "verdade cambial".

d) Caso o plano seja crível, e os investidores e especuladores estrangeiros realmente acreditem na seriedade da proposta, a tendência é que o câmbio se aprecie até a data da adoção do câmbio fixo (medida essa essencial para a atual situação brasileira). Vale ressaltar que investidores e especuladores estrangeiros ganham com uma moeda que está se apreciando, de modo que eles próprios irão se encarregar de fazer essa apreciação.

e) Ou seja, paradoxalmente, para se adotar um câmbio fixo, é necessário deixá-lo flutuar livremente por algum tempo.

f) A taxa de câmbio é muito influenciada pela confiança no governo e nas políticas futuras, e o simples anúncio da implantação de Currency Board sério e ortodoxo já faria o câmbio se valorizar fortemente.  Em meados de 1998, quando a Indonésia vivenciava uma grande turbulência em decorrência de uma crise econômica e das tentativas do governo americano de depor o ditador Suharto — o que fez com que a taxa de câmbio disparasse, colocando o país à beira de uma hiperinflação —, um simples boato de que o país estava estudando implantar um Currency Board fez com que a rúpia se valorizasse 16% em um único dia.

g) Detalhes sobre o processo de dissolução do Banco Central, bem como o cancelamento dos títulos do Tesouro que estão em sua posse (o que reduziria a dívida pública em aproximadamente R$ 1 trilhão) estão fora do escopo deste artigo.  Basta dizer que os atuais prédios do Banco Central (sede em Brasília e suas sucursais nas outras nove capitais) podem ser integralmente transferidos à empresa que gerenciará o Currency Board, bem como a totalidade de suas reservas internacionais (as quais também podem ser convertidas gradualmente em ouro).  As cédulas e moedas metálicas de reais existentes se tornam um passivo do Currency Board.  Pode-se também colocar na cláusula de contrato que os lucros do Currency Board obtidos com esse excesso de reservas internacionais — que superam em muito a base monetária — podem ser revertidos para o Tesouro com a condição de que este utilize o dinheiro para amortizar a dívida.

As liberdades permitidas por um Currency Board

Imagine que a moeda-âncora seja o dólar.  Como funcionaria o Currency Board?

a) Um exportador vende soja e recebe US$ 1.000 — na prática, ele se torna proprietário de uma conta no exterior no valor de US$ 1.000;

b) Ele agora tem três opções: 1) ele pode manter os US$ 1.000 nessa conta estrangeira durante o período de tempo que ele quiser; 2) ele pode vender esses US$ 1.000 para qualquer banco; 3) ele pode entregar esses US$ 1.000 para o Currency Board e receber reais em troca (o CB irá enviar as cédulas para o banco desse exportador).

c) Caso opte pela opção 2, o banco ficará com os US$ 1.000, e criará reais na conta do exportador.  Ato contínuo, o banco pode optar por ficar com os US$ 1.000 aplicados lá fora ou trocá-los por reais no Currency Board, ganhando cédulas de reais.

d) Caso opte pela opção 3, o Currency Board simplesmente enviará as cédulas de reais para o banco do exportador e este acrescentará dígitos eletrônicos na conta bancária do exportador.

Agora imagine que a moeda-âncora seja o ouro.  Nesse caso, vale enfatizar que a taxa de câmbio fixa é aquela entre reais e ouro.  A taxa de câmbio entre real e dólar é flutuante e varia de acordo com o câmbio entre dólar e ouro.  Como funcionaria?  Da mesma maneira:

a') Um exportador vende soja e recebe US$ 1.000 (na prática, ele se torna proprietário de uma conta no exterior no valor de US$ 1.000);

b') Ele agora tem três opções: 1) ele pode manter os US$ 1.000 nessa conta durante o período de tempo que ele quiser; 2) ele pode vendê-los para qualquer banco no Brasil em troca de reais à cotação do dia; 3) ele pode vendê-los por ouro e então trocar por reais no Currency Board.

c') Caso opte pela opção 2, o banco ficará com os US$ 1.000, e criará reais na conta do exportador à taxa de câmbio do dia.  Ato contínuo, o banco pode optar por ficar com os US$ 1.000 aplicados lá fora ou trocá-los por ouro, revender o ouro ao Currency Board e ganhar reservas em reais (a taxa de câmbio entre ouro e reais é fixa).

d') Caso opte pela opção 3, o Currency Board simplesmente enviará as cédulas de reais para o banco do exportador e este acrescentará dígitos eletrônicos na conta bancária do exportador.

Mas é no processo de importação que o Currency Board se revela essencial.  Com um Currency Board, nunca há risco de não se poder importar. 

No processo de importação tradicional, o importador tem de conseguir alguém disposto a vender moeda estrangeira em troca da moeda nacional.  Caso ninguém esteja disposto a isso (como está acontecendo na Venezuela neste momento; e em menor grau na Argentina), simplesmente não há importação.

Já com um Currency Board, a moeda nacional se torna automaticamente conversível.  Não há risco de ela não ser aceita e de ela não conseguir comprar bens estrangeiros.

Com um Currency Board, basta o importador vender seus reais para o CB. Ele conseguirá dólares (ou ouro) em troca e então poderá trocar esses dólares (ou ouro) por qualquer moeda estrangeira que queira, podendo então fazer sua importação.

As vantagens de um Currency Board

1) Uma das grandes atratividades de um Currency Board é que, como dito logo acima, ele gera conversibilidade imediata para a moeda nacional. 

Conversibilidade, em termos bem práticos, é quando um pipoqueiro tem liberdade para trocar reais por dólares (ou outra moeda estrangeira) em qualquer banco.  Conversibilidade é quando você tem liberdade para converter reais em libras e aplicar no mercado interbancário de Londres.  Atualmente, apenas fundos de investimento que operam volumosas quantias têm essa autorização.

Aqui no Brasil, você não pode chegar a um banco ou a uma casa de câmbio e trocar reais por moeda estrangeira na quantia que quiser.  No máximo, você consegue trocar uns R$ 3.000 por alguns dólares em uma casa de câmbio, mas pagando o valor do dólar turismo, IOF e outras taxas.  Acima de determinado valor, o governo exige que você se justifique, mostrando uma passagem aérea.  Isso não é conversibilidade.

Já sob um Currency Board, uma moeda estraçalhada se transforma em uma moeda confiável, conversível e demandada.  Do dia para a noite. Por isso que os países da ex-URSS que adotaram esse sistema (Estônia, Letônia, Lituânia e, em menor escala, Bulgária) prosperaram.

2) Um Currency Board gera estabilidade de longo prazo para os investimentos (os investidores sabem exatamente qual será o valor da moeda nos anos vindouros), acaba com as especulações e retira completamente das autoridades políticas do país a capacidade de fazer política monetária — e, consequentemente, de desvalorizar a moeda, o que afeta sensivelmente a taxa de retorno dos investidores estrangeiros.

O Currency Board gera confiança imediata na moeda doméstica justamente porque ele mantém reservas internacionais em um volume igual ou maior que a base monetária da moeda nacional (no caso do Brasil, que tem US$ 370 bilhões em reservas, há dólares de sobra).  Em teoria, quando a operação do Currency Board é obedecida ortodoxamente, ataques especulativos não geram resultados — afinal, seria impossível exaurir as reservas internacionais (a base monetária teria de ser toda mandada pra fora, algo por definição impossível). 

Essa é a principal atratividade do sistema: ele gera segurança aos investidores estrangeiros, que deixam de temer uma súbita desvalorização da moeda nacional, o que causaria enorme prejuízo para eles quando fossem repatriar seus lucros.

3) Além de estabilizar a moeda, um Currency Board impõe forçosamente uma disciplina às políticas fiscais do governo. 

Por exemplo, mesmo sendo um país notoriamente formado por políticos corruptos, o governo da Bulgária, cujo Banco Central opera de acordo com princípios de Currency Board, reduziu sua dívida de 80% do PIB para apenas 30% do PIB.  O governo da Bulgária é um dos menos endividados da Europa. 

Já o governo da Estônia, outro país que adotou um Currency Board (ancorado ao marco alemão), é um dos menos endividados do mundo.  Antes da crise financeira mundial, a dívida do governo era de meros 4% do PIB.

E o motivo é óbvio: dado que um Currency Board não pode manipular juros e base monetária, todo e qualquer déficit orçamentário do governo gera aumento de juros: afinal, o governo tem de tomar empréstimos para se financiar, e dado que não há um Banco Central para dar dinheiro ao bancos e aumentar as reservas bancárias, os empréstimos contraídos pelo governo reduzem a oferta de crédito para o setor privado, gerando um imediato aumento dos juros.  Consequentemente, o governo tem de manter seu orçamento equilibrado, caso contrário asfixiará a economia.

4) Um Currency Board também impõe forçosamente uma disciplina ao sistema bancário.

Havendo um Banco Central, que sempre atuou como o "emprestador de última instância", este sempre estará pronto para socorrer todo e qualquer banco que apresente dificuldades.  A função precípua de um Banco Central é, ao contrário do que dizem os manuais de macroeconomia, proteger o cartel dos bancos, evitando que eles passem por qualquer tipo de dificuldade.

Já em um arranjo de Currency Board, se um banco emprestar muito e se tornar muito alavancado, ele precisará de mais reservas bancárias.  Como o Currency Board não pode simplesmente imprimir dinheiro para capitalizar este banco, nem emprestar dinheiro para ele, e nem comprar ativos dele (como faz o Banco Central), tal banco tem três opções:

a) Recorre ao mercado interbancário — onde os juros agora são livres e não são manipulados por um Banco Central — para pedir reservas emprestadas para outro banco;

b) Eleva os juros que ele paga para seus correntistas (como forma de atrair novos depósitos, e também de dissuadir que seus correntistas saquem dinheiro);

c) Atrai dólares de investidores estrangeiros (os quais, estes sim, podem ser levados ao Currency Board e convertidos em moeda nacional).

Agora, caso todos os bancos estejam alavancados — o que seria raro em um cenário no qual não há um emprestador de última instância, mas que pode acontecer —, sobram apenas as opções b e c.

Ou seja, em um cenário de Currency Board, os bancos têm necessariamente de ser mais prudentes, e podem inclusive remunerar melhor seus correntistas, pois não há tabelamento de juros (como há em um cenário com Banco Central).

O Currency Board, a hiperinflação e os juros

Um Currency Board não apenas é o arranjo mais eficiente para se aniquilar rapidamente uma hiperinflação e uma instabilidade cambial, como também é o arranjo que realiza tal feito com o mínimo de efeitos colaterais: ele aniquila uma hiperinflação e uma instabilidade sem deixar de herança juros estratosféricos, como ocorreu no Brasil (que adotou um sistema de câmbio atrelado, como será visto mais abaixo).  Um país que adota um Currency Board passa a operar com juros semelhantes aos juros vigentes no país emissor da moeda utilizada como âncora.

O melhor exemplo histórico deste fenômeno é fornecido pela Bulgária.  Em 1996, sucessivas trapalhadas econômicas fizeram com que o país decretasse moratória em sua dívida externa.  Em 1997, o país entrou em hiperinflação e vários protestos nas ruas quase levaram o país a uma revolução social.

Em março de 1997, o país apresentava uma inflação anual de 2.019%.  A legislação para a transformação do Banco Central em um Currency Board foi então apresentada.  No dia 1º de julho de 1997, o "Currency Board" búlgaro, que teria marcos alemães como reserva, foi criado.  Em um ano e meio, a inflação de preços acumulada em 12 meses caiu de 2.000% para 1,4%.

bulgaria-inflation-cpi.png Gráfico 1: taxa de inflação de preços na Bulgária, janeiro de 1997 a dezembro de 1998

Ainda mais espantosa foi a queda dos juros do mercado interbancário (equivalente à nossa SELIC): de 555% no auge da hiperinflação para apenas 3,56% no mesmo mês em que o Currency Board passou a operar.

bulgaria-interbank-rate.png

Gráfico 2: taxa de juros do mercado interbancário na Bulgária, janeiro de 1997 a janeiro de 1998.

A Bulgária foi apenas o mais extremo dos exemplos.  Mas todos os outros países que também adotaram versões próprias de Currency Board — Hong Kong (ancorado ao dólar americano), Estônia, Letônia e Lituânia (ancorados ao marco alemão), e a Argentina — vivenciaram este mesmo fenômeno: queda abrupta na inflação de preços e, principalmente, drástica redução nas taxas de juros, que caíram para apenas um dígito.

E isso vale ser ressaltado: com a exceção de Hong Kong, todos os países acima citados estavam na mais completa baderna.  Não obstante, a transformação de seu Banco Central em um "Currency Board" (coloco entre aspas porque Currency Board genuíno não pode ser um Banco Central) logrou fazer com que suas economias — até então completamente bagunçadas — se tornassem repentinamente civilizadas, com inflação de preços e taxas de juros iguais às de países desenvolvidos. 

Alguns mitos sobre a Argentina

É comum os críticos atribuírem o colapso econômico argentino em 2002 (narrado em detalhes cronológicos neste artigo) ao pseudo-Currency Board adotado pelo país no período de 1991 a 2001.  Nada mais falso e mentiroso.

Em primeiro lugar, nunca houve um Currency Board genuíno na Argentina; o Banco Central argentino, por estar com muitas reservas em dólares, passou a operar como se fosse um Currency Board, mas apenas no quesito câmbio fixo.

De início, os resultados foram impressionantes.  A inflação de preços, que havia sido de 1.344% em 1990, caiu para 84% em 1991, para 17,5% em 1992, para 7,4% em 1993, para 3,9% em 1994, para 1,6% em 1995 e, de 1996 até o final de 2001, a média foi de praticamente 0%.

Para um país que havia se acostumado a ter uma inflação de preços média maior do que 250% de 1970 até 1990, e que havia vivenciado valores de até 20.000% em 1990, a queda de preços foi extremamente rápida.

Já o governo conseguiu baixar o gasto público de 35,6% do PIB em 1989 para 27% do PIB em 1995.  Igualmente, o déficit fiscal saiu de 7,6% do PIB em 1989 para 2,3% em 1990 e, de 1991 até o final de 1994, ficou próximo de 0%.

As taxas de juros, que chegaram a 1.500% em 1990, caíram para um intervalo entre 5% e 9%.

O principal efeito desta política de abolição da inflação e de redução do estado foi a perceptível queda nos índices de pobreza.  Em outubro de 1989, o percentual de pessoas abaixo da linha de pobreza em Buenos Aires e adjacências era de 47,3%.  Em maio de 1994, tal valor já havia caído para 16,1%.

Porém, com o passar do tempo, sendo a Argentina a Argentina, o governo foi adulterando o funcionamento do Currency Board — que nada mais era do que seu próprio Banco Central atuando como Currency Board —, e isso realmente foi fatal em termos de confiança dos investidores estrangeiros.

Por exemplo, o governo determinou, contrariamente a como seria um Currency Board tradicional, que o Banco Central poderia comprar títulos do governo e poderia fazer injeções de dinheiro no mercado interbancário. Isso vai totalmente contra ao funcionamento de um Currency Board, que não apenas não cria dinheiro para intervir no mercado interbancário, como também só pode ter como ativos títulos denominados na moeda-âncora, e nunca na moeda nacional.

Depois — tudo isso está narrado em detalhes aqui —, o governo alterou a âncora.  Em vez de apenas em dólar, a âncora passou a ser em relação a uma cesta formada por dólar e euro, na proporção de 50% para cada.  Neste arranjo, o peso flutuaria dentro de uma banda definida pelo valor do dólar e do euro.  Se o euro estivesse valendo menos que o dólar (como estava na época), o peso se desvalorizaria até ficar em paridade com o euro.  Se o euro passasse a valer mais que o dólar, o peso voltaria a ficar em paridade com o dólar.  A intenção deste arranjo era a de sempre: estimular as exportações.

Posteriormente, o governo adotou um regime de câmbio preferencial para as exportações — o que na prática significava que agora o câmbio teria duas taxas paralelas. 

Todas essas medidas eram totalmente contrárias ao funcionamento de um regime de conversibilidade e à ortodoxia de um Currency Board.  As medidas deixaram óbvio que o governo estava totalmente propenso a alterar o regime de conversibilidade, algo que poderia ocorrer a qualquer momento. 

A consequência foi uma feroz fuga de capitais e ataques especulativos, o que levou o governo a abandonar de vez o regime de câmbio fixo e adotar o câmbio flutuante. 

Aí, sim, a tragédia se consumou.  Ao adotar o câmbio flutuante, o dólar saltou de 1 para 4 pesos e a taxa de inflação de preços, que havia sido de 0% nos últimos 6 anos, disparou para 40%.  E, para completar, o governo não só instituiu um corralito que simplesmente proibiu as pessoas de utilizar o dinheiro que tinham nos bancos, como ainda converteu compulsoriamente em pesos os dólares que os argentinos tinham nos bancos a uma taxa de 1,40 peso por dólar, sendo que o dólar havia ido para quase 4 pesos.

Não bastasse o dinheiro confiscado, a desvalorização cambial fez com que tudo encarecesse, gerando a inflação de 40%.  Todos os importados se tornaram virtualmente inacessíveis.  Pouco dinheiro e moeda sem nenhum poder de compra.

Ainda mais impressionante foi a evolução — ou, mais apropriadamente, a involução — da porcentagem de pessoas abaixo da linha de pobreza na grande Buenos Aires.  Uma cifra que chegou a ser de 16,1% em maio de 1994 saltou para 54,3% em outubro de 2002, um valor ainda maior do que o do ano de 1989 (47,3%), quando o país vivia sob hiperinflação.  Em nível nacional, a pobreza chegou a 57,5% da população, a indigência a 27,5% e o desemprego a 21,5%, todos níveis recordes para o país.

Ou seja, não foi o regime de câmbio fixo o culpado pelo colapso econômico argentino; foi o governo que destruiu o regime de conversibilidade e, consequentemente, levou o país para o buraco.

O regime cambial argentino funcionou perfeitamente — até que o governo argentino resolveu destruí-lo, o que, aí sim, gerou os problemas.

O governo destruiu a lei de conversibilidade justamente porque ela o amarrava, disciplinando seus gastos e sua expansão. Como consequência, imediatamente após a destruição da conversibilidade, a Argentina mergulhou no caos, na miséria e na depressão.

Ou seja, um sistema foi implantado, funcionou como o esperado, o governo não gostou (porque o sistema lhe amarrava), destruiu o sistema, o país mergulhou no caos como consequência disso, e aí algumas pessoas dizem que a culpa de tudo é do sistema que foi destruído. Beira o surreal.

O Currency Board no Brasil

O Brasil operou um Currency Board no início de 1906 a 1920, durante um de nossos efêmeros experimentos com o padrão-ouro. 

As fotos abaixo mostram duas cédulas emitidas pela Caixa de Conversão que operava no Brasil à época:

Conto_de_Réis_caixa_de_conversão.jpg

Na parte inferior da cédulo está escrito que "A Caixa de Conversão pagará ao portador, à vista, no Rio de Janeiro, a importância deste bilhete em ouro."

Eis outra cédula:

cdulas-do-brasil-10-638.jpg

Segundo Gustavo Franco, que não é muito fã nem de Currency Boards nem de padrão-ouro:

De uma maneira geral, de 1906 até as vésperas da Primeira Guerra, o país viveu em ritmo de abundância cambial e de crédito. O programa de valorização e a Caixa de Conversão resultaram em maior disponibilidade de divisas, inclusive para a importação de equipamentos pela indústria, e os embarques de café aumentavam sem prejudicar os preços.

De 1911 a 1913, o valor dos embarques de café foi o dobro do observado nos três anos anteriores e o triplo do valor dos anos desfavoráveis, de 1902 e 1904. Até 1908, os preços do café efetivamente não recuam, e a partir de 1909 aumentam significativamente.

[...]

A trajetória da economia nos anos que se seguem é de vigorosa expansão.

Já uma fonte de esquerda também admite que foi justamente durante esse período que o país vivenciou um grande período de prosperidade:

No terreno econômico pode-se observar a eclosão de um espírito que se não era novo, se mantivera na sombra ou em plano secundário no Império: a ânsia de enriquecimento, de prosperidade material que na Monarquia não era tido como um ideal legítimo e plenamente reconhecido. 

O novo regime fez despontar o homem de negócios, isto é, o indivíduo inteiramente voltado para o objetivo de enriquecer. A transformação foi tão brusca que classes e indivíduos dos mais representativos da Monarquia, antes ocupados unicamente com política e funções similares, que no máximo se preocupavam com suas propriedades rurais, se tornaram ativos especuladores e negocistas, com o total consentimento de todos.

As atividades brasileiras foram estimuladas por finanças internacionais mais multiformes e ativas que as inversões esporádicas de capital que antes se fazia, mas que passaram a ter participação efetiva, constante e crescente em diversos setores que ofereciam oportunidades de bons negócios. A produção cafeeira, a grande atividade econômica do país, foi naturalmente atingida e em torno dela se travou uma luta internacional, boa parte dos fundos necessários ao estabelecimento das plantações e custeio da produção foi proveniente dos bancos ingleses e franceses, ou então de casas exportadoras estrangeiras ou financiadas com capitais estrangeiros.

O Brasil tornou-se neste momento um dos grandes produtores mundiais de matérias-primas e gêneros tropicais e ao café foi acrescentada na lista dos grandes produtos exportáveis, a borracha, que chegou quase a emparelhar-se a ele, o cacau, o mate, o fumo. A produção de gêneros de consumo interno, no entanto, diminuiu e se tornou cada vez mais insuficiente para as necessidades do país obrigando a importar do estrangeiro a maior parte até dos mais vulgares artigos de alimentação. As exportações maciças compensavam estas grandes e indispensáveis importações levando os saldos comerciais a patamares apreciáveis.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e a abolição da Caixa de Conversão, houve vários desarranjos, e a inflação de preços, até então imperceptível, passou a crescer 8% ao ano.  E então a coisa degringolou.

Taxa de câmbio atrelada

Uma taxa de câmbio atrelada é aquela que tenta ser fixa e flutuante ao mesmo tempo — e obviamente não consegue ser nenhuma das duas. 

Na prática, uma taxa de câmbio atrelada ocorre quando o Banco Central faz intervenções diárias no mercado cambial para manter a moeda nacional flutuando dentre de bandas arbitrariamente determinadas pelo próprio Banco Central.

Ao contrário do que é dito até hoje com muita frequência, o Plano Real nunca se baseou um uma "âncora cambial" ou em um "câmbio fixo".  Desde que o real foi introduzido no dia 1º de julho de 1994, o câmbio nunca foi fixo, nem sequer por um dia.  O Brasil adotou o regime de "câmbio atrelado ao dólar".  Neste sistema, o Banco Central faz intervenções diárias no mercado de câmbio (comprando ou vendendo dólares) com o intuito de manter a cotação do dólar próxima a um valor por ele estipulado.

Veja a evolução da taxa de câmbio de julho de 1994 até dezembro de 1998, último mês antes da alteração do regime cambial.

brazil-currency.png

Gráfico 3: evolução da taxa de câmbio durante a primeira fase do real, julho de 1994 a dezembro de 1998

O principal problema em se utilizar um câmbio atrelado é que há uma contradição entre a política monetária e a política cambial.  Com uma taxa de câmbio fixa — no caso, um Currency Board —, não há política monetária; as variações no balanço de pagamento determinam as variações da base monetária da economia.  Com uma taxa de câmbio flutuante, não há política cambial; o Banco Central se preocupa apenas em fazer política monetária. 

Já com um câmbio atrelado, o Banco Central tenta fazer as duas coisas ao mesmo tempo: determinar uma política monetária e uma política cambial, sendo que ambas são mutuamente excludentes, impossíveis de serem efetuadas simultaneamente. 

Inevitavelmente, a política cambial acaba entrando em choque com a política monetária, e os ataques especulativos são a consequência inevitável. 

Quando se trabalha com um câmbio atrelado, o Banco Central tem de, diariamente, fazer intervenções no mercado de câmbio para fazer com que o dólar fique próximo à cotação determinada pelo Banco Central.  Sendo assim, quando ocorre uma entrada "excessiva" de dólares no país, há uma tendência de apreciação do câmbio.  Para evitar isso, o Banco Central compra estes dólares criando reais, o que gera um aumento da base monetária.  Ato contínuo, para evitar este súbito aumento da base monetária, o Banco Central vende títulos públicos para retirar da economia os reais que ele próprio acabou de criar quando fez a conversão de dólares para real (esse processo é tecnicamente chamado de "esterilização").

Já quando ocorre uma saída de dólares, o fenômeno inverso é observado: há uma tendência de depreciação do câmbio devido à maior procura por dólares.  Para evitar isso, o Banco Central vende dólares para satisfazer esse aumento da demanda por dólares.  Essa venda de dólares pelo Banco Central gera uma redução da base monetária.  Para evitar essa redução, algo que tende a gerar uma recessão, o Banco Central cria reais e compra títulos públicos em posse dos bancos.

Ou seja, neste arranjo, ao contrário de um Currency Board, há um total descasamento entre a variação da base monetária e a variação das reservas internacionais.  Quando há uma saída de capitais, as reservas tendem a cair — pois o Banco Central faz de tudo para segurar o câmbio — ao passo que a base monetária tende a subir (pois o Banco Central também faz política monetária). 

Sendo assim, para evitar que as reservas caiam muito além da base monetária, o Banco Central tem de manter juros bastante altos para continuamente atrair dólares

Observe que este comportamento ativo do Banco Central é totalmente distinto do comportamento de um Currency Board, que permite que a base monetária varie automaticamente de acordo com o saldo do balanço de pagamentos.

E é exatamente por isso que a opção por um regime de câmbio atrelado custa caro: como o regime não inspira confiança nos investidores internacionais — pois uma desvalorização pode ocorrer a qualquer momento — e dada a contínua necessidade de estar sempre atraindo dólares para manter as reservas internacionais em níveis minimamente confortáveis para manter o câmbio dentro do intervalo especificado pelo Banco Central, as taxas de juros têm de ser bastante elevadas

Esse foi o modelo escolhido pelo Brasil, e esses foram os juros colhidos. O gráfico abaixo mostra a evolução da SELIC de agosto de 1994 até o março de 1999.  Compare com os juros da Bulgária no gráfico 2, e com os da Argentina aqui.

cewolf.png

Gráfico 4: evolução dos juros do mercado interbancário brasileiro (taxa SELIC), de agosto de 1994 a março de 1999.

O que vale ser ressaltado é que esta postura do Banco Central — de ficar vendendo e comprando dólares para manter o câmbio dentro de um intervalo especificado e de ficar arbitrando juros para atrair dólares para fechar o balanço de pagamentos — gera um descasamento entre a quantidade de dólares nas reservas internacionais e a base monetária do país: haverá um momento em que a quantidade de dólares nas reservas internacionais será bem menor do que a base monetária. 

Quando isto ocorre, é apenas uma questão de tempo para que os especuladores descubram esta contradição entre política cambial e política monetária e forcem uma desvalorização da moeda — ou a imposição de controle de capitais.

Este tipo de ataque especulativo varreu a América Latina e o sudeste asiático ao longo da década de 1990.  A crise do México em 1994, a crise asiática em 1997 e 1998 (Tailândia, Taiwan, Indonésia, Malásia, Filipinas — apenas Hong Kong e seu Currency Board escaparam), o colapso do rublo em 1998a crise do real em janeiro de 1999 e a crise da Argentina em dezembro de 2001 (cujo pseudo-Currency Board havia sido praticamente abolido em junho daquele ano) — todas ocorreram de acordo com este mecanismo. 

Com efeito, até mesmo o ataque perpetrado por George Soros à libra esterlina em 1992 se deu por causa deste arranjo, uma vez que o Banco Central da Inglaterra vinha mantendo a libra atrelada ao marco alemão.

Por outro lado, no caso do arranjo brasileiro, houve um fator positivo: o comportamento da inflação de preços.  Com uma taxa de câmbio estável (em uma época em que o dólar era mundialmente forte) e com o Banco Central tendo de manter a expansão monetária contida e a taxa de juros alta para evitar uma súbita desvalorização do real perante o dólar, a inflação de preços apresentou um continuado declínio.  Não tão súbito quanto o da Bulgária e da Argentina, mas ainda assim substancial.

cewolf (1).png

Gráfico 6: evolução da inflação de preços acumulada em 12 meses durante a primeira fase do real, junho de 1995 a dezembro de 1998

Conclusão

Um câmbio flutuante funciona muito bem para países de economia desenvolvida e com grande estabilidade política.  Mas seu histórico para países que têm de lidar com governos bagunçados e imprevisíveis não é animador.  Nesse arranjo, o câmbio não flutua; ele afunda.

Um câmbio atrelado é utilizado quando o Banco Central quer controlar a inflação majoritariamente por meio do câmbio, mas sem abrir mão de fazer política monetária.  Tal arranjo é totalmente instável e sujeito a ataques especulativos.  Todos os países em desenvolvimento que adotaram esse arranjo — embora tenham sido bem sucedidos em controlar a inflação de preços — quedaram vítimas de ataques especulativos, e o arranjo se esfacelou.

Já um câmbio fixo não funciona quando há um Banco Central no comando e este está sujeito a pressões políticas, como ilustra bem o caso argentino.

A opção mais vantajosa — e de longe — para um país em desenvolvimento e com um governo bagunçado seria a adoção de um Currency Board privado com sede na Suíça, seguindo os passos delineados no artigo.  No mínimo, a moeda voltaria a inspirar confiança, e a inflação de preços e as taxas de juros cairiam a níveis próximos dos vigentes no país da moeda-âncora. 

No caso específico do Brasil, a opção pelo Currency Board é ainda mais premente.

Na nossa atual situação — de descontrole fiscal, taxa de câmbio instável e inflação de preços perto de 10% —, novas elevações graduais na taxa básica de juros não apenas não gerarão efeitos sobre a inflação de preços (majoritariamente causada pela forte desvalorização cambial e pelos reajustes de preços administrados pelo governo), como também podem até acabar estimulando ainda mais a carestia. 

O grande problema é que um aumento de juros tende a gerar um ciclo vicioso: a subida dos juros encarece o serviço da dívida (como há emissões quase que diárias de títulos, quanto maiores os juros, maior o serviço da dívida a ser paga sobre esses novos títulos emitidos); consequentemente, o Tesouro tem de se endividar (lançar mais títulos) apenas para pagar o serviço da dívida; consequentemente, a dívida do governo aumenta; consequentemente, a relação dívida/PIB, já alta, se deteriora ainda mais; consequentemente, o risco-país aumenta e o grau de investimento da Moody's e da Fitch ficam ainda mais em risco.  E tudo isso gera ainda mais desvalorização cambial, o que pressiona ainda mais inflação de preços.

Conclusão: elevar juros tendo uma política fiscal frouxa e trabalhando com câmbio flutuante é quase um suicídio.  Daí a premência de um Currency Board.  Um Currency Board resolve três problemas de uma só vez: câmbio, juros e inflação de preços.  E, de quebra, ainda pode aumentar a confiança dos investidores estrangeiros, estimulando-os a trazer para cá o seu capital produtivo, algo de que o país tão desesperadoramente precisa.

Liberar a circulação de moedas estrangeiras em paralelo à moeda nacional — que agora estaria ancorada ao dólar ou ao ouro por meio do Currency Board — melhoraria ainda mais a situação.  Essa liberação de moedas estrangeiras facilitaria enormemente os investimentos estrangeiros. 

Não há recuperação e crescimento econômico sem investimentos.  E como no Brasil o investimento está em queda livre e as empresas estão ou arredias ou descapitalizadas, por causa do cenário de destruição criado pelo governo, a salvação terá de vir do investimento estrangeiro.  E isso passa pelo regime cambial.

________________________________________________________

Leandro Roque, editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil. 

Steve Hanke, professor de Economia Aplicada e co-diretor do Institute for Applied Economics, Global Health, and the Study of Business Enterprise da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, EUA.  O Professor Hanke também é membro sênior do Cato Institute em Washington, D.C.; professor eminente da Universitas Pelita Harapan em Jacarta, Indonésia; conselheiro sênior do Instituto Internacional de Pesquisa Monetária da Universidade da China, em Pequim; conselheiro especial do Center for Financial Stability, de Nova York; membro do Comitê Consultivo Internacional do Banco Central do Kuwait; membro do Conselho Consultivo Financeiro dos Emirados Árabes Unidos; e articulista da Revista Globe Asia.


2 votos

SOBRE O AUTOR

Diversos Autores


O estado matou a liberdade dos açougues em prol dos empresários corporativistas

Há dez anos havia uma predominância muito maior de açougues de bairro. Eram comércios na maioria das vezes confiáveis e a procedência das carnes normalmente não era tão duvidosa quanto a vendida no supermercado.

Geralmente os donos desses açougues eram pais de família que manipulavam a carne com certo rigor, contratavam gente da vizinhança pra dar aquela força no comércio, faziam o bom e velho fiado pra quem não podia pagar na hora, enfim, era um tempo onde havia maior proximidade entre os produtos de consumo e o consumidor.

Mas eis que apareceu o governo e suas "bondades". E aí o açougueiro foi para o abismo com uma série de taxações, regulações, decretos, portarias, leis inúteis, legislações pesadas e tudo o mais necessário para acabar com um negócio promissor e confiável sob a desculpa de proteger os clientes daquele "malvadão" que – absurdo! – quer trabalhar e lucrar com o comércio de carnes.

E são tantas regras "protecionistas" que, sabendo da impossibilidade dos donos em cumpri-las de forma plena, os fiscais do governo se aproveitam da situação para caçar "irregularidades" como "a cor da parede", pedindo aquele salário mínimo para assinar o alvará de funcionamento.

Enquanto isso, o estado isentou as grandes empresas de impostos e multas sempre que possível, bem como das regras sanitárias que o açougueiro da esquina tem que cumprir. Enquanto o dono do açougue do bairro era impedido de obter uma mísera linha de crédito para investir em seu negócio, o governo fornecia uma gorda verba para as grandes empresas por meio do BNDES.

E veio o período maquiavélico de "aos amigos os favores, aos inimigos a lei", onde não há nada que impeça as grandes empresas. As dívidas caíam de 1 bilhão para 320 milhões, a "fiscalização" sanitária se tornou aliada e o Ministério da Agricultura passou a conceder seus selos livremente para os amigos do governo. Claro que isso teve um custo, pago com aquela verba pra campanha eleitoral para "resolver" tudo.

E o resultado não poderia ser diferente: nos baseando na confiança em um selo estatal e no sorriso técnico do Tony Ramos afirmando que "carne confiável tem nome!".

O corporativismo, ou seja, a aliança entre estado e grandes empresários, nos trouxe resultados deploráveis. Mas o malvado continua sendo o seu José da esquina, aquele que queria vender suas carnes e terminou fechando por excesso de burocracia estatal. Enquanto isso, os corporativistas da JBS, BRF e companhia cairão no esquecimento em breve.

O corporativismo brasileiro é um desastre sem fim.
Prezado Paulo, você reclama que teve emprego e salário, mas não ganhava tanto quanto os funcionários mais antigos e experientes. Você foi contratado a um salário menor e achou isso injusto. Queria já chegar ganhando o mesmo tanto que funcionários melhores e mais experientes, que já estavam lá há anos. É isso mesmo?

Não posso acreditar.

Outra coisa: você teve salário e emprego (e ainda teve plano de saúde!) graças à possibilidade de terceirização. E se fosse proibida a contratação de terceirizados? Será que você teria tido esse emprego e esse salário? Será que você sequer teria tido essa chance?

Desculpe, mas parece que você está cuspindo no prato que comeu. Você teve emprego e renda (e plano de saúde!) graças a uma liberdade de contrato, e agora vem dizer que essa liberdade foi ruim para você? Bom mesmo seria se o mercado de trabalho fosse restrito. Aí sim você já seria contratado como presidente...

É interessante como você parte do princípio de que o mundo não só lhe deve emprego e renda (e plano de saúde!), como ainda lhe deve um emprego extremamente bem-remunerado imediatamente após a contratação (você já quer entrar ganhando o mesmo tanto que os funcionários mais antigos e experientes).

De fato, ainda estamos deitados em berço esplêndido. Aqui todo mundo só quer saber de direitos.


P.S.: ainda no aguardo de você responder à pergunta do Leandro (a que aparentemente te deixou assim tão zangado): a terceirização nada mais é do que permitir que uma pessoa tenha maior liberdade para contratar outra pessoa para fazer um trabalho. Só isso. Qual exatamente seria um argumento racional e respeitável contra esse acordo voluntário e livremente firmado entre duas partes?
Esse comentário não faz o menor sentido. Vc usa a linguagem jurídica e estatal para condenar pessoas, mas sem nenhum processo. Ter um cargo publico não pode ser crime no regime atual. Se vc se revelasse seria claramente processado por calunia e difamação. Pois não crime sem lei que o prescreva. Que é isso? Os libertários querem se unir aos marxistas para ditar regras de moral ao mundo. A existência de um aparato que extorque e atrapalha o desenvolvimento da população, pode ser imoral mas não pode ser considerado crime no sistema atual. Tente convocar uma assembleia constituinte libertaria e acabe com o sistema atual e talvez no seupais seja crime. Como podemos responder por crimes, contra uma legislação ideológica que ignoramos, que não aprendemos nem em casa e nem na mídia. Embora os recursos da receita federal sejam usados de ma fé, isso não faz da sua existência um crime. Antes de tudo existe um regulamento, produzido pelo consentimento da sociedade que prevê a existência daquele órgão. Pelo seu ponto de vista todas as pessoas são criminosas porque o estado não tributa tudo, mas regulamenta tudo. Então para ser um libertário coerente eu teria que cancelar meu CPF, abrir mão de todo beneficio estatal que veio parar nas minhas mão, mesmo sem que eu ferisse ninguém, renunciar minha cidadania brasileira, o que mais. Resumindo ter pessoas que respeitem os direitos civis e as liberdades individuais dentro do estado, é bem melhor do que ficar se gabando e massageando o próprio ego dizendo pra todo mundo, olha só nós estamos certo, todos vocês são ladroes, sem fazer nada pela liberdade.
Se há custos trabalhistas artificialmente altos e estes puderem ser reduzidos, então eles serão reduzidos.

Se uma empresa opera com custos trabalhistas artificialmente altos -- por imposição do governo -- e estes custos podem ser reduzidos -- porque há outros trabalhadores dispostos a fazer mais por menos --, então eles serão reduzidos.

Se a empresa não fizer isso, então ela estará -- por definição -- operando de forma ineficiente. Ele não durará muito. Com efeito, essa empresa só irá durar se operar com uma reserva de mercado garantida pelo governo. Aí sim. Excetuando-se isso, ela estará queimando capital e comprometendo sua capacidade de investimento e expansão no futuro. Será rapidamente abarcada pela concorrência.

No mais, é interessante notar que as pessoas querem livre concorrência para tudo e todos, menos para elas próprias. Todos nós queremos competição entre empresas para que haja produtos melhores e preços menores, mas não queremos competição para o nosso emprego. Quando a concorrência chega até nós, queremos que políticos criem leis que garantam nossa estabilidade. Agora, querem até proibir empresas de contratar outras pessoas que não nós mesmos. Há totalitarismo maior do que esse?

Vale ressaltar o óbvio: essa lei da terceirização nada mais é do que uma permissão para que uma pessoa tenha maior liberdade para contratar outra pessoa para fazer um trabalho. Só isso. Qual exatamente -- por favor, me digam -- seria um argumento racional e respeitável contra esse acordo voluntário e livremente firmado entre duas partes?
Ei, Marcelo Siva, quer falar de escravidão? Vamos lá (aliás, é hora de você começar a responder perguntas, como todos fizeram com as suas):

Quem é que adota políticas -- como déficits orçamentários e expansão do crédito via bancos estatais -- que destroem o poder de compra do dinheiro, perpetuando a pobreza dos mais pobres?

Quem é que, além de destruir o poder de compra do dinheiro -- gerando inflação de preços -- ainda impõe tarifas protecionistas para proteger o grande baronato industrial, com isso impedindo duplamente que os mais pobres possam adquirir produtos baratos do exterior?

Quem é que, ao estimular a expansão do crédito imobiliário via bancos estatais, encarece artificialmente os preços das moradias e joga os pobres para barracões, favelas e outras áreas com poucas expectativas de vida?

Quem é que impede que os moradores de favelas obtenham títulos de propriedade, os quais poderiam ser utilizados como garantia para a obtenção de crédito, com o qual poderiam abrir pequenas empresas, fornecer empregos e, de forma geral, se integrar ao sistema produtivo?

Quem é que tributa absolutamente tudo o que é vendido na economia, e com isso abocanha grande parte da renda dos pobres?

Quem é que, por meio de agências reguladoras, carteliza o mercado interno, protege grandes empresários contra a concorrência externa e, com isso, impede que haja preços baixos e produtos de qualidade no mercado, prejudicando principalmente os mais pobres?

Quem é que cria encargos sociais e trabalhistas que encarecem artificialmente e mão-de-obra e, com isso, gera desemprego, estimula a informalidade e impede que os salários sejam maiores?

Quem é que confisca uma fatia do salário do trabalhador apenas para que, no futuro, quando este trabalhador estiver em situação ruim, ele receba essa fatia que lhe foi roubada de volta (e totalmente desvalorizada pela inflação)?

No aguardo das suas respostas.

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2383

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • jackson  02/10/2015 11:20
    Algum abençoado, por favor, encontra o email do Joaquim Levy e faz ele ler esse texto 10x, até ele entender e implantar o CB aqui!!


    porem, o unico CB que está mais facil de ocorrer aqui é o Circuit Break no IBOV...
  • Bruno  02/10/2015 22:54
    Leandro, muito obrigado pelo artigo e pelas respotas.

    Imaginei um cenário e não consegui vislumbrar o desenrolar da situação. Para efeitos de simplificação, imagine a seguinte situação. O Brasil possui apenas uma empresa, a Petrobras. Para financiar seus projetos de exploração, a empresa capta dívida no exterior, traz o dinheiro para o Brasil (aumentando a base monetária) e investe na exploração. Com o passar dos anos, a empresa passa a exportar e trazer mais dinheiro, aumentando ainda mais a base monetária do país. Como o Brasil possui uma única empresa, todos os outros bens que não são petróleo são importados. Esses bens são imporatados utilizando a base monetária superavitária gerada pela Petrobras. Se por qualquer motivo o preço do petróleo cair 90% no mercado internacional, a Petrobrás será obrigada a transformar reais em USD para honrar os compromissos com os credores, já que nesse preço ela não conseguirá gerar lucros. Essa conversão reduzirá a base monetária do país, podendo chegar a um ponto que não haja mais reais para se importar bens necessários diariamente. Na teoria econonômica, essa necessidade atraria capital para o país para ser investido em fábrica de pães, papel higiênico etc mas uma queda rápida de 90% no preço do petróleo inviabilizaria uma rápida construção desses ativos. O que acontece num cenário desses?

    Obrigado novamente
  • Leandro  03/10/2015 02:21
    "O Brasil possui apenas uma empresa, a Petrobras."

    Ok. Mas isso é o de menos. O que importa é que toda a população tem dinheiro, certo? E provavelmente o CB foi introduzido quando todas as pessoas já tinham dinheiro, certo? E os dólares existentes nas reservas do CB cobrem todo o dinheiro físico que essas pessoas possuem, certo?

    Prossigamos.

    "Para financiar seus projetos de exploração, a empresa capta dívida no exterior, traz o dinheiro para o Brasil (aumentando a base monetária) e investe na exploração."

    Ok. Até aqui, isso serviu para aumentar ainda mais a base monetária. E tal dinheiro, obviamente, vai parar no bolso de várias pessoas que não são da Petrobras.

    "Com o passar dos anos, a empresa passa a exportar e trazer mais dinheiro, aumentando ainda mais a base monetária do país."

    Beleza. Mais uma fonte de aumento da base monetária, e mais dinheiro indo pro bolso de outras pessoas que não são da Petrobras. Até aqui, no seu exemplo, a base monetária aumentou em decorrência tanto de exportações quanto de emissão de dívida.

    "Como o Brasil possui uma única empresa, todos os outros bens que não são petróleo são importados."

    Certo.

    "Esses bens são importados utilizando a base monetária superavitária gerada pela Petrobras."

    Houve um grande salto de lógica aqui. Você está partindo do princípio de que todo o dinheiro existente na economia se deveu à Petrobras. Bom, isso não faz nenhum sentido. Para se instalar um Currency Board é necessário já haver grandes reservas internacionais acumuladas. E essas reservas lastreiam um dinheiro que está em posse de toda a população, e não apenas da Petrobras. Por isso aquelas minhas três primeiras perguntas pra você.

    Mas ok, prossigamos.

    "Se por qualquer motivo o preço do petróleo cair 90% no mercado internacional, a Petrobrás será obrigada a transformar reais em USD para honrar os compromissos com os credores, já que nesse preço ela não conseguirá gerar lucros. Essa conversão reduzirá a base monetária do país, podendo chegar a um ponto que não haja mais reais para se importar bens necessários diariamente."

    Aqui houve outro salto. Segundo sua própria construção, os dólares advêm tanto de exportação quanto de captação de dívida. Ora, se a empresa -- por algum motivo insólito -- resolve quitar todas as suas dívidas justamente no pior momento do mercado, isso, na pior das hipóteses, acabará apenas com aqueles reais gerados pelos dólares conseguidos via endividamento. Mas ainda há os reais gerados com dólares das exportações e ainda há todos os reais em posse do resto da população.

    Ou seja, não tem disso de "chegar a um ponto que não haja mais reais para se importar bens necessários diariamente".

    Mas há outro ponto ainda mais importante: quando a Petrobras for quitar sua dívida, seu banco nem precisa de acionar o Currency Board. Ele pode proceder exatamente como se faz hoje: encontrar algum estrangeiro que esteja disposto a fazer uma troca de propriedade de contas bancárias. O estrangeiro passa a titularidade da sua conta em NY para a Petrobras, e a Petrobras passa a titularidade da sua conta em reais no Brasil para esse estrangeiro ganhar com juros.

    Pronto, o problema da Petrobras foi resolvido sem que tenha havido um único centavo de decréscimo na base monetária.

    Vale ressaltar que este último arranjo é exatamente como se faz hoje, com a única diferença que, hoje, para seduzir o estrangeiro, você tem de ofertar sua conta em reais bem baratinha, ao passo que nesse arranjo de Currency Board você não é humilhado assim.

    E é exatamente assim que a esmagadora maioria das remessas de dinheiro seria resolvida também em um arranjo de Currency Board. Não muda quase nada. Muda apenas o fato de o câmbio ser fixo.

    No que mais, no extremo do extremo, o banco da Petrobras pode de fato acionar o CB. Isso não seria nem lógico nem sensato, pois o banco pode não estar em posse do equivalente em cédulas de reais para entregá-la ao CB. Caso o banco não as tenha, ele terá de consegui-las (seja de outros bancos, seja de seus próprios correntistas). Isso é mais um argumento que explica por que os bancos seriam mais comedidos em sua expansão do crédito.

    Em suma, realmente não muda quase nada em relação a como já é hoje. Apenas o valor do câmbio.
  • Gustavio  05/10/2015 04:14
    Bruno, considere que cada família seja um país. Imagine que você trabalhe vendendo um único produto. Por exemplo, cenouras que você plante numa horta em seu quintal. Você fatura mensalmente 1000 reais com a venda de sua produção. E com este dinheiro, satisfaz todas as suas necessidades importando bens de outras famílias. Caso o preço internacional da cenoura seja reduzido em 90%, seu faturamento diminuirá para 100 reais mensais. O que acontece? Você torna-se estupendamente pobre de uma hora para outra e terá algumas alternativas a seu dispor: reduzir seus gastos, endividar-se, utilizar sua poupança, vender seus bens para outras famílias [ou seja, pessoas de outros países] ou tornar-se autossuficiente, isto é, passar a produzir internamente seus próprios bens. É exatamente isso o que aconteceria.
  • Rosa Monteiro  26/11/2015 19:59
    Descobri este site hoje, por acaso; Acredito que nunca me deparei com um acaso tão feliz e produtivo. Passei horas e horas completamente abstraída do mundo embevecida com os excelentes artigos publicados, cada um melhor que o outro.
    Parabéns, estou realmente encantada com o site e com os materiais postados; Acho que se eu continuar a ler tudo, até o final deste ano acabarei me tornando Phd na solução de vários problemas mundiais (rs).
    Agradeço pela grande generosidade no compartilhamento do conhecimento: É assim que se reconhecem grandes mentes e grandes corações.
    No momento, não posso contribuir com seu site, porque não sou uma pessoa de muitos recursos e este foi um ano bem ruim para mim; tenho certeza que com a graça de Deus o será e tão logo me seja possível vou fazer algumas doações para que vocês possam continuar prestando este trabalho sempre.
    Muito obrigada!
  • Anonimo  26/11/2015 21:37
    Pois é, depois q vc sai da matrix o mundo todo muda.
    E vc vai ver que não são só soluções, vc também vai entender quem é que vive falando que está te ajudando mas só te ferra: governos + bancos.
  • Fernando  02/10/2015 11:51
    Sou bem ignorante no assunto, mas tenho duas dúvidas:

    1) Digamos que tenhamos um Currency Board e o Real seja convertido em Dólar na taxa fixa definida. Caso o Dólar comece a se depreciar perante, por exemplo, o Euro (digamos que os EUA entram numa guerra no Oriente Médio e a UE fica de fora), o Real vai junto? O Real continuaria tendo uma "conversão flutuante" com as outras moedas?

    2) O valor de conversão é fixado no início do Currency Board, e não pode ser alterado nunca? Não existe uma "revisão" a cada X tempo para analisar?

  • cmr  02/10/2015 15:00
    Acrescentando a minha dúvida a discussão:
    Não seria melhor ancorar esse tal de "currency board" em moedas mais estáveis, como por exemplo, franco suíço ou yene japonês ?.
    Euros e dólares eu vejo, dentro de minha ignorância, como moedas tão especulativas que não devem ser a melhor opção em termos de estabilidade.
  • Leandro  02/10/2015 15:44
    Pode, também. Só não estou muito certo se um país pequeno como a Suíça teria moeda o suficiente para ancorar a base monetária de um país enorme como o Brasil.
  • Claucio Xavier  02/10/2015 20:21
    E haveria ouro/prata suficiente para a economia brasileira?
  • Leandro  02/10/2015 20:39
    Não entendi.

    Não haverá ouro circulando na economia. Ninguém fará pagamentos com ouro. O ouro está aplicado nos mercados de Londres e Zurique, assim como os dólares também estão neste mercado e em títulos do governo americano.

    Não é necessário haver dólares ou ouro físico circulando. Isso é imaterial.

    Há simplesmente um papel-moeda definido em termos de ouro (por exemplo, R$ 120 é igual a um grama de ouro) e há uma agência de conversão cujos ativos (aplicados nos mercados de Londres e Zurique) são suficientes para cobrir toda a base monetária.

    Dado que o Banco Central tem hoje US$ 370 bilhões de reservas, e dado que a base monetária é de R$ 230 bilhões, há dólares (e, logo, ouro) para cobrir a base monetária umas 6 vezes.
  • Andre Fernandes  02/10/2015 15:00
    Fernando,

    Longe de ser um especialista, mas tentando ajudar um pouco...

    "1) Digamos que tenhamos um Currency Board e o Real seja convertido em Dólar na taxa fixa definida. Caso o Dólar comece a se depreciar perante, por exemplo, o Euro (digamos que os EUA entram numa guerra no Oriente Médio e a UE fica de fora), o Real vai junto? O Real continuaria tendo uma "conversão flutuante" com as outras moedas?"

    - Sim, continuamos com cotação flutuante em relação a qualquer moeda que não seja a âncora, portanto se o dólar se depreciar frente ao Euro, franco suíço, libra ou qualquer outra moeda o real seguirá o mesmo caminho.

    "2) O valor de conversão é fixado no início do Currency Board, e não pode ser alterado nunca? Não existe uma "revisão" a cada X tempo para analisar? "

    - Seguindo a lógica de funcionamento do CB, se para cada dólar que entrar na economia brasileira o CB trocar pela mesma quantidade em real então a cotação não deveria ser alterada nunca. Se levarmos em conta, ainda, que segundo o texto seria melhor o CB ser privado e protegido de influências políticas então não deveria haver motivo para mudar a cotação.


    Pelo que entendo é isso, mas peço que alguém me corrija caso esteja errado. Espero ter ajudado.

    Abraços

  • Leandro  02/10/2015 15:42
    1) Sim. Mas nada impede que você crie uma cláusula no Currency Board especificando que ele pode alterar a moeda-âncora caso esta se torne fraca. Isso está explicitado na literatura sobre o assunto. Todos os países da ex-URSS que adotaram um CB trocaram a âncora, do marco alemão para o euro. Cingapura, quando ainda operava um CB, trocou a âncora da libra para o dólar.

    Isso está previsto na literatura.

    Agora, caso o dólar se desvalorize ligeiramente, não haverá pressão nenhuma para uma alteração de âncora (por exemplo, para o mais sólido franco suíço). Várias pessoas do setor exportador de produtos primários irão até gostar.


    2) De maneira nenhuma. Isso geraria grandes incertezas, pois estaria concedendo poderes arbitrários para quem tem única e exclusivamente a função de trocar moedas.

    Imagine que o Banco Central diga que, de tempos em tempos, vamos definir quantos centavos formam 1 real. Isso seria bom
  • Rhyan  02/10/2015 18:25
    O sistema de reservas fracionárias não poderia criar problemas para o currency board?
  • Leandro  02/10/2015 18:49
    Em absoluto. Não tem como. Tudo o que o CB faz é emitir cédulas e moedas metálicas em estrita consonância com a entrada de moeda estrangeira (a moeda-âncora). Ponto.

    Sendo assim, para cada cédula de real que ele criou e que está em circulação há um correspondente dólar (ou franco, ou ouro etc.) em seus ativos. Logo, no extremo, caso absolutamente todas as cédulas de reais sejam apresentadas para restituição, o CB terá o exato equivalente em dólar (ou em franco, ou em ouro etc.).

    O CB só é obrigado a restituir cédulas, e não meios fiduciários criados por bancos.

    O máximo que pode acontecer a um CB é ele restituir em dólar todas as cédulas de reais que ele criou. Nesse ponto, ele fica com zero de ativos (está com zero de dólares) e com zero de passivos (todos os reais que criou estão consigo). Essa situação perdura até que alguém porventura venha trocar dólares por reais.


    P.S. 1: agora, falando mais tecnicamente, o que pode acontecer é vários bancos pedirem para o CB lhes vender dólares na forma de dígitos eletrônicos (que sempre estão em contas no exterior) e não lhe repassarem as cédulas de reais equivalentes, dando assim um calote no CB.

    Se isso acontecer, tais bancos terão de, de alguma maneira, restituir essas cédulas de reais ao CB, pois tais cédulas existem e estão circulando na economia (se não existissem, o CB não mais teria ativos em dólar). Os bancos, para conseguir estas cédulas que estão na economia, certamente terão de atiçar seus proprietários, por exemplo, ofertando juros altos nos depósitos bancários.

    Isso é o máximo que pode acontecer de ruim.


    P.S.2: obviamente, estou desconsiderando arranjos heterodoxos em que o CB é na verdade um Banco Central que finge ser um CB ao mesmo tempo em que expande a base monetária sem um concomitante aumento das reservas internacionais. Aí, nesse caso sim a situação se complica, pois as reservas podem se exaurir por completo.
  • Enrico  03/10/2015 02:16
    1) Esse mesmo efeito negativo que ocorre com o aumento do câmbio em regime flutuante não ocorreria em um CB na forma de saída de capitais na mesma intensidade?

    2) Em caso de quebra generalizada em que não haja entrada de dólares e aumento de juros não surtam efeito, os bancos simplesmente diriam "Desculpe, mas seu dinheiro sumiu!"?
  • Leandro  03/10/2015 02:54
    "Esse mesmo efeito negativo que ocorre com o aumento do câmbio em regime flutuante não ocorreria em um CB na forma de saída de capitais na mesma intensidade?"

    Caso haja uma súbita fuga de capitais, a base monetária irá se contrair. Isso fará com que os juros do interbancário subam. E isso fará com que os juros dos depósitos bancários subam.

    Isso tende a trazer de volta esse capital que fugiu, pois os juros aqui estarão bem maiores que no país da moeda-âncora e sem que haja nenhum risco de desvalorização cambial.

    Ou seja, para um estrangeiro, é ganhar ou ganhar.

    (Obviamente, estou partindo do princípio que o Currency Board funciona exatamente como o descrito no artigo, imune a pressões do governo. Caso a construção seja outra, caso o CB possa sofrer interferência do governo, aí não há nada garantido. No mínimo, não haverá mais a certeza de que não ocorrerão desvalorizações, o que pode inibir completamente o retorno do capital estrangeiro.)


    "Em caso de quebra generalizada em que não haja entrada de dólares e aumento de juros não surtam efeito, os bancos simplesmente diriam "Desculpe, mas seu dinheiro sumiu!""

    Defina quebra bancária generalizada. É necessário saber exatamente de qual cenário se trata.

    Em uma quebra bancária apocalíptica -- cujo cenário eu não consigo imaginar, mas estou inventando aqui apenas em prol do debate --, o que some é o dinheiro eletrônico criado pelas reservas fracionárias. Isso não é responsabilidade do Currency Board. O CB é responsável pelas cédulas e moedas metálicas da economia. E só. Bancos quebrados estão fora da alçada do CB.

    E vale lembrar que, no atual arranjo de Banco Central, este também não garante restituição em caso de quebras bancárias generalizadas. Ele garante restituição de até R$ 250 mil, para alguns tipos de depósito, e para quebras bancárias individuais. Se todo o sistema for para o saco -- e eu realmente não consigo visualizar isso --, o Banco Centra nada pode fazer.


    P.S.: vale ressaltar que bancos também têm reservas em moeda estrangeira. Tais reservas ficam aplicadas em bancos no exterior. Nada impede que, no extremo, eles vendam essas reservas em troca de reais. Para você ter uma ideia, neste exato momento, os bancos têm R$ 329 bilhões em ativos estrangeiros. Isso é uma vez e meia maior que a base monetária.

    P.S.2: veja a minha resposta lá em cima para o leitor Bruno (o segundo comentário desta seção), que também vai nessa linha.
  • Tannhauser  02/10/2015 12:33
    Leandro,

    pensei em outra alternativa, gostaria da sua opinião:

    o Governo criaria uma nova Moeda – o Veras (V$) – e manteria o Real, teríamos assim duas moedas oficiais: o Real e o Veras.

    O Real seria usado para pagar a dívida pública a vencer e o Veras poderia utilizar o câmbio fixo sugerido por você.

    Aos poucos, com a arrumação da casa através da emissão de mais Reais, o Governo poderia ir abandonando o Real, conforme a dívida fosse paga.
  • Henrique Zucatelli  02/10/2015 16:31
    Interessante seu ponto de vista, mas isso não iria gerar ainda mais passivo, e paralelamente gerar duas taxas de cambio, como ocorreu com a Argentina?
  • Edujatahy  02/10/2015 12:57
    Muito bom artigo.
    Fica claro as vantagens indiscutíveis de um arranjo com Currency Board.
    Parabenizo o Leandro pelo esforço contínuo em querer propagar esta idéia. Quem sabe ela comece a entrar no mainstream.

    Vejo que o Currency Board é o caminho mais rápido e efetivo para sairmos desta crise.
  • Felix  02/10/2015 13:06
    Vamos sonhar um pouco com o Currency Board,
    quem sabe um dia após uma bagunça colossal esta seja a última opção
  • Ricardo  02/10/2015 13:17
    Leandro, na sua opinião, qual seria o efeito da adoção de um CB nas contas do governo brasileiro, no momento atual?
  • Leandro  02/10/2015 15:49
    Aumentaria ainda mais a urgência das reformas e do corte de gastos. Caso contrário, os juros ficariam altos (embora bem menores que os atuais).
  • Luis  04/10/2015 01:29
    No caso brasileiro, os juros seriam menores que hoje com o governo deficitário porque a inflação se reduziria muito com currency board e haveria valorização de títulos públicos e privados denominado em reais. Portanto, dado a mentalidade política reinante, não há risco de postergar as esperadas reformas?
  • Thiago Teixeira  04/10/2015 20:07
    Ou seja, não há a menor possibilidade de a atual administração escolher esse caminho.
  • Mário  02/10/2015 13:26
    Mais um excepcional artigo do Von Mises. Parabéns Leandro e Steve!
  • Andre Fernandes  02/10/2015 13:40
    Leandro,

    Artigo muito útil e que eu precisava pra entender melhor as opções possíveis!

    Uma dúvida que tive lendo um artigo no spotniks e comentário de um leitor do mesmo artigo.

    Ele afirmou, categoricamente, que é impossível qualquer país zerar a sua dívida interna ou ficaria sem moeda disponível para circulação. Isso faz sentido?

    Se não me engano nossa dívida interna gira em torno de R$ 2,5 tri, certo? Nosso M1 gira em torno de R$ 2,1 tri de acordo com o link abaixo. Me corrija se estiver viajando, por favor.

    pt.tradingeconomics.com/brazil/money-supply-m2

    Analisando superficialmente até poderia fazer algum sentido caso o governo fosse pagar toda a dívida utilizando o dinheiro disponível internamente sem incorrer em novas emissões de títulos. Mas não podemos imaginar que o governo faria captação de capital estrangeiro (pode ser via venda de ativos públicos por exemplo) e com isso pagar os portadores de títulos? E mais, com essa injeção de grana nosso M1 subiria e teríamos mais inflação?

    Isso sem considerar que os títulos em poder de outras instituições públicas (cerca de R$ 1 tri eu acho) seriam ignorados, reduzindo o valor a pagar da nossa dívida ficando inferior ao M1...

    Abraços
  • Leandro  02/10/2015 16:14
    Sim. No atual sistema monetário e bancário, o dinheiro surge por meio de dívida. Para o Banco Central criar reservas bancárias, ele compra títulos públicos em posse dos bancos. E para os bancos comprarem esses títulos públicos do Tesouro, eles criam dinheiro.

    Todo título do Tesouro que existe gerou em contrapartida uma criação de dinheiro. O dinheiro foi criado ao comprar esse título público.

    E o mesmo ocorre quando bancos fazem empréstimos para pessoas e empresas. Eles criam dinheiro quando essas pessoas se endividam.

    Portanto, sim, no nosso atual sistema monetário e bancário, o dinheiro surge por meio de dívida.

    O Currency Board corrige a primeira parte dessa distorção. O dinheiro só é criado em troca de outra moeda e não em troca de dívida. Quando havia o padrão-ouro, o dinheiro também não era dívida. Hoje é. O Currency Board tenta resgatar essa tradição.

    Se o governo quitar toda a sua dívida que está em posse do sistema bancário, sim, o dinheiro desaparece (na prática, saem da economia e vão para as reservas dos bancos). No entanto, nada impede que o sistema bancário volte a emprestar esse dinheiro novamente para terceiros. De modo que, não, a quitação da dívida do governo (algo que nunca irá acontecer, obviamente) não é problema nenhum. Mas também isso nunca irá acontecer.
  • Vitor  04/01/2016 15:46
    Leandro,

    Não enxergo como fazer a fixação do câmbio para manter essa taxa de conversão do currency board. Quando você menciona um "estado de equilíbrio" após não intervenção estatal em determinado período, me parece que você está fixando todo o futuro em uma fotografia do mercado em dado momento. Isso me parece equivocado. Para que isso fosse razoável, a amostra deveria ser maior para uma regressão confiável e ainda assim acho ruim.

    Outra coisa que me soa estranho é que ao fazer currency board com dólar, me parece o mesmo que substituir o banco central brasileiro pelo americano. Se tivesse como (e eu não sei se tem), seria mais fácil então adotarmos o dólar como moeda oficial, trazermos para cá os principais bancos americanos e abertura total de mercado com os EUA. Os preços brasileiros se ajustariam aos americanos rapidamente e os bancos americanos avaliariam o risco de criação de moeda de acordo com o mercado. Acho essa solução ruim, e ao meu ver a diferença disso para um currency board é que no CB a moeda é estrangeira mas o risco fica no país. Além do mais, o problema da reserva fracionária não seria resolvido, apenas substituído por instituições mais competentes (talvez).

    Ao meu ver o melhor modelo é o câmbio flutuante sim. É ruim o câmbio "despencar"? Sim. Mas o mercado brasileiro tem que buscar alternativas para isso. Somos muito dependentes de commodities, temos baixa competitividade em quase tudo e instituições fracas (principalmente as instituições políticas com graves problemas de corrupção).
  • Leandro  04/01/2016 17:07
    "Quando você menciona um "estado de equilíbrio" após não intervenção estatal em determinado período, me parece que você está fixando todo o futuro em uma fotografia do mercado em dado momento."

    Não entendi.

    "Isso me parece equivocado. Para que isso fosse razoável, a amostra deveria ser maior para uma regressão confiável e ainda assim acho ruim."

    Sigo sem entender.

    "Outra coisa que me soa estranho é que ao fazer currency board com dólar, me parece o mesmo que substituir o banco central brasileiro pelo americano."

    Correto.

    "Se tivesse como (e eu não sei se tem), seria mais fácil então adotarmos o dólar como moeda oficial, trazermos para cá os principais bancos americanos e abertura total de mercado com os EUA. Os preços brasileiros se ajustariam aos americanos rapidamente e os bancos americanos avaliariam o risco de criação de moeda de acordo com o mercado."

    Por mim, fechou. Defendi isso neste artigo, só que sem abolir o real:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2089

    "Acho essa solução ruim, e ao meu ver a diferença disso para um currency board é que no CB a moeda é estrangeira mas o risco fica no país."

    "Além do mais, o problema da reserva fracionária não seria resolvido, apenas substituído por instituições mais competentes (talvez)."

    O presente artigo não tem a ambição de fazer reformas abrangentes do sistema bancário. Seu intuito é única e exclusivamente falar sobre regimes cambiais e apontar uma solução imediata, efetiva e não-pirotécnica para a atual recessão.

    Eis um artigo que discute em detalhes a reforma domsistema bancário:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1553

    "Ao meu ver o melhor modelo é o câmbio flutuante sim."

    Estamos vivenciando isso em todo o seu esplendor.

    "É ruim o câmbio "despencar"? Sim. Mas o mercado brasileiro tem que buscar alternativas para isso. Somos muito dependentes de commodities, temos baixa competitividade em quase tudo e instituições fracas (principalmente as instituições políticas com graves problemas de corrupção)."

    Aí lascou tudo. Todos esses problemas que você elencou possuem solução de longuíssimo prazo (sendo extremamente otimista, uns 10 anos). Você sugere que, nesse ínterim (de novo, estou considerando um período de tempo extremamente otimista), deixemos a moeda derreter e, consequentemente, o padrão de vida da população ir para as calendas? Não é muito esperto.

    No mínimo, você está criando o cenário para uma grande inquietação social, do tipo que pode levar a extrema-esquerda para o poder.

    A única coisa que pode impedir que o câmbio desabe neste cenário que você descreveu é uma Selic permanentemente alta, algo contrário a qualquer melhora na competitividade e à substituição das commodities.

    Com moeda não se brinca e não se inventa (lembrando que câmbio flutuante é uma invenção extremadamente nova, datando de 1971, e sempre com idas e vindas). A força da moeda dita todo o padrão de vida da população.
  • Marcelio  02/10/2015 13:41
    Acho que um Currency Board nunca será implantado aqui se depender dos nossos políticos.
  • Livio Luiz Soares de Oliveira  02/10/2015 14:06
    Leandro, tenho uma pergunta: a questão de não adotar um currency board, em um país em desenvolvimento e sem disciplina fiscal, como o Brasil, é mais política, tendo em vista a relativa perda de soberania do país; ou econômica, tendo a vista a perda de receitas governamentais decorrentes da política monetária pelo banco central, como a seigniorage e o imposto inflacionário? Ou são ambos os motivos que contam?
  • Leandro  02/10/2015 16:22
    Creio que seja mais política. Afinal, um Currency Board estatal também traria muita seigniorage. No que mais, como comentei neste podcast, o governo realmente ganha dinheiro é com a expansão do crédito dos bancos. Eles aumentam a quantidade de dinheiro na economia e isso aumenta as receitas tributárias do governo. E isso continua sob um Currency Board.
  • Livio Luiz Soares de Oliveira  02/10/2015 19:22
    Grato pelo esclarecimento Leandro! Não tinha me dado conta de que ainda existem seigniorage sob um CB. No entanto, é evidente que, com a queda da inflação sob um CB, o governo perderia a receita do imposto inflacionário. Certamente, governos irresponsáveis, como o a atual que desgoverna o Brasil, não querem abrir mão de jeito nenhum de impostos. Muito menos do imposto inflacionário, que é arrecadado de toda a população sem precisar ser votado no Congresso.
  • Vinicius  02/10/2015 14:08
    Caso o nosso Gran Haiti aqui adotasse o currency board privado suiço auditado, esse aumento de juros por causa do déficit nominal. como o mercado precificaria esta tragedia?

    "O resultado nominal, que inclui o resultado primário e os juros nominais apropriados, foi deficitário em R$57 bilhões em agosto. No ano, o deficit nominal totalizou R$339,4 bilhões, comparativamente a deficit de R$155,1 bilhões no mesmo período de 2014. No acumulado em doze meses, o resultado nominal registrou deficit de R$528,3 bilhões (9,21% do PIB), elevando-se 0,40 p.p. do PIB em relação ao valor registrado no mês anterior."

    Como foi nos países bálticos e na Bulgária?
    Se o governo brasileiro perder a habilidade de imprimir dinheiro para honrar os pagamentos de seus títulos, vão valer menos que pó, pressionará ainda mais os juros?

    É mais fácil ocorrer alguma guerra civil antes dos esquerdistas perdulários no poder aceitarem tal arranjo
  • Leandro  02/10/2015 16:34
    "Se o governo brasileiro perder a habilidade de imprimir dinheiro para honrar os pagamentos de seus títulos, vão valer menos que pó, pressionará ainda mais os juros?"

    Ao contrário: é exatamente por perder a capacidade de imprimir dinheiro para honrar os pagamentos de seus título, que os juros irão cair.

    Atualmente, enquanto o governo americano paga 1,96% em seus títulos de 10 anos, o avacalhado governo da Itália paga apenas 1,64% em seus títulos de 10 anos. A Espanha paga 1,78%. A Alemanha, obviamente, paga 0,51%.

    Vale também lembrar que, oficialmente, é proibido o Banco Central financiar diretamente o Tesouro. Isso é proibido pela Lei de Responsabilidade Fiscal, e é justamente um desrespeito a essa lei que fará os títulos valerem pó.

    Aliás, já estão valendo pó hoje: uma LTN com vencimento em janeiro de 2018 está pagando 15,72%. E isso em um mundo em que os países desenvolvidos nem mais se lembram do que é juros. Essa nossa "autonomia monetária" custa muito caro.
  • Pedro Tavares  02/10/2015 14:09
    Leandro caso o Currency Board fosse implantado aqui, qual moeda seria mais segura de se atrelar? Pensei no Dólar mas como os EUA tão desandando rumo ao inchaço talvez não seja a melhor opção, teria outra moeda melhor? Como o Franco Suíço por exemplo?
  • Ali Baba  02/10/2015 14:56
    @Pedro Tavares 02/10/2015 14:09:54

    Não sou o Leandro, mas aqui vai a minha contribuição:

    Leandro caso o Currency Board fosse implantado aqui, qual moeda seria mais segura de se atrelar?

    Na minha opinião, a moeda mais segura é o ouro. Qualquer outra moeda fiduciária levaria a duas consequências: (1) sujeito a política do país emissor (qqer política de país desenvolvido é melhor que a nossa, então não é um grande problema); (2) sujeito a liquidez da moeda emissora.

    Somente o ouro é líquido e está relativamente imune a políticas.

    No entanto, qualquer moeda forte no mundo hoje (dólar, dólar canadense, francos suiços, libras, euros, yenes) pode servir de lastro e seria muito melhor do que a política bananense.

    Pensei no Dólar mas como os EUA tão desandando rumo ao inchaço talvez não seja a melhor opção, teria outra moeda melhor?

    Inchaço? Por pior que a economia dos EUA venha a se tornar, o inchaço deles é o menor dos problemas a considerar... ainda mais se comparado com o inchaço tupiniquim. Quisera eu viver numa economia com o "inchaço" norte-americano...

    Como o Franco Suíço por exemplo?

    Entra no problema da liquidez. Lembre que os reais seriam criados com a obtenção de reservas na moeda-âncora. A moeda de facto das transações internacionais é o dólar. Fazer um CB atrelado ao Franco Suiço coloca uma taxa de cambio a mais (USD/CHF) na jogada. Dá mais trabalho e pode reduzir o lucro do CB... mas tirando o problema da liquidez, qqer CB com moeda forte seria MUITO melhor do que o que temos hoje.
  • Pedro Tavares  02/10/2015 15:52
    Entendi, então no caso de moeda fiduciária o melhor seria o Dólar mesmo, e o ouro como moeda não-fiduciária.


    Eu realmente gostaria de ver o Real valorizado, impressionante como a moeda afeta a nossa qualidade de vida.
  • Matheus  02/10/2015 14:43
    Valeu, Leandro. Senti que esse artigo foi escolhido após as várias perguntas que fiz sobre o assunto.
  • Bruno Cezar Ferreira Tomaz  02/10/2015 14:49
    Bom dia!

    Excelente artigo e muito obrigado por expor esses conhecimentos. Quem me dera eu tivesse conhecido o Mises a alguns anos atrás (cabeça de moleque que estudou no ensino público/marxista é triste... :P).

    Tenho duas perguntas:

    1 )existe alguma desvantagem no Currency Board? Algum ponto fraco na visão do próprio escritor ou algum ataque concreto sobre o sistema?

    Eu também acredito no Currency Board, mas não tenho conhecimentos técnicos na área e ainda tenho essa curiosidade.

    2) Existe alguma faculdade de economia brasileira que tenha escola austríaca em seu curriculum?
    Não tenho dinheiro pra começar o curso, então iria estudar durante os próximos dois anos para tentar uma bolsa em uma faculdade. Bem, USP eu já sei que não quero. hahahaha

    Muito obrigado mesmo pelos artigos, traduções e pelo trabalho.
  • Leandro  02/10/2015 16:39
    Bom, eu não classificaria isso como uma desvantagem, mas, para um país em desenvolvimento, não há como abandonar um Currency Board de maneira indolor. A tendência é que haja uma disparada (tecnicamente chamada de "overshoot") da taxa de câmbio, gerando efeitos semelhantes ao da Argentina.
  • Bruno Cezar Ferreira Tomaz  02/10/2015 20:08
    Leandro, faltou a parte da faculdade. ^^

    Não tô afim de ir pra faculdade, ficar quatro anos estudando pra escutar Keynes na orelha todo esse tempo.

    Falar um pouco OK, mas existem outras abordagens econômicas, não?
  • Leandro  02/10/2015 20:23
    Eu juro que não consigo entender o que ainda leva alguém a fazer faculdade de economia.

    Mesmo que a faculdade fosse estupenda, ainda assim não faria nenhum sentido, pois, dado que economia é uma matéria teórica, você tem acesso a todas as informações, sobre tudo, na internet. Você não precisa de doutrinadores lhe dizendo o quanto Keynes era maravilhoso e quão humanista era Marx.

    Agora, se formos colocar nessa equação a qualidade dos cursos de economia no Brasil...

    Porém, se a sua opção por faculdade é definitiva, e você quer algo ligado à economia, então faça contabilidade. Economista que não sabe nem o básico de contabilidade é que mais tem por aí. E a contabilidade é ainda mais poderosa que a economia para ajudar a entender ciclos econômicos.
  • Bruno Cezar Ferreira Tomaz  02/10/2015 20:30
    Exatamente por não entender que eu fiquei nessa dúvida da faculdade :P

    Obrigado pela orientação ^^
  • Zé Dendágua  02/10/2015 15:01
    O Currency Board seria então uma espécie de bala de prata? Um almoço grátis (exceto para o Estado)? Não haveria consequências não previstas pelo artigo em um primeiro momento?

    Se só o Estado "perde", existe algum vislumbre de que um CB autêntico venha a ser implantado no Brasil, tendo o Estado como o temos agora?

    Se o Estado perde, o que fez com que o próprio Estado o tenha adotado em alguns países da ex-URSS? Qual foi a condição que levou tais estados a adotar uma medida anti Estado?
    Dá para recriarmos tais condições? Estamos caminhando para elas? Há algo mais que possamos fazer?
  • Leandro  02/10/2015 15:35
    "Um almoço grátis (exceto para o Estado)?"

    Não tem nada de almoço grátis. Ele utiliza reservas internacionais, as quais foram acumuladas pelo Banco Central à custa do suor e dos impostos da população. A atual manutenção dessas reservas custa caríssimo para os brasileiros e não há benefício nenhum. Com um CB, elas finalmente passariam a ser utilizadas em proveito do povo.

    Estaríamos apenas comendo o almoço que nós mesmos levamos anos preparando.

    "Não haveria consequências não previstas pelo artigo em um primeiro momento?"

    Dê um exemplo.

    O que pode haver é exportador de matéria-prima gemendo, pois queria câmbio continuamente desvalorizado. Como ele não depende muito de maquinário importado e trabalha com mão-de-obra barata, ele realmente não terá muito a ganhar.

    O que também pode acontecer -- mas isso foi mencionado no artigo -- é o governo se recusar a equilibrar suas finanças, e com isso fazer com que os juros fiquem continuamente altos. Ou seja, na pior das hipóteses, ficamos com os juros atuais, mas com poder de compra e moeda conversível.

    "Se só o Estado "perde", existe algum vislumbre de que um CB autêntico venha a ser implantado no Brasil, tendo o Estado como o temos agora?"

    Apenas se o governo estiver no desespero completo.

    "Se o Estado perde, o que fez com que o próprio Estado o tenha adotado em alguns países da ex-URSS?"

    Aí cabem algumas colocações.

    Os estados bálticos das ex-repúblicas soviéticas -- como foi o caso da Estônia -- eram majoritariamente formados por rebeldes anti-comunistas que queriam um pouco mais de liberdade (e eram uns dos mais anti-Rússia de toda a URSS). Eles queriam se livrar do rublo russo a todo custo. Era uma questão de orgulho próprio.

    No que mais, o rublo não tinha valor nenhum. Se não houvesse tal reforma monetária, essas pessoas simplesmente não teriam nem como comer. E nenhum estrangeiro iria investir ali. Imagine que alguns departamento da Venezuela se tornem independentes. Eles vão utilizar o Bolívar venezuelano? Se sim, vão morrer de fome.

    No que mais, vale a pena ler a história dessas repúblicas. A Lituânia, por exemplo, bateu cabeça com um Banco Central e com uma taxa de juros flutuante por vários. Foi só quando os burocratas perceberam que não havia solução, que eles passaram a funcionar como um Currency Board.

    "Qual foi a condição que levou tais estados a adotar uma medida anti Estado?"

    As supracitadas.

    "Dá para recriarmos tais condições? Estamos caminhando para elas? Há algo mais que possamos fazer?"

    Acho que não. Vamos continuar exatamente como estamos. Com tendência de ligeira piora.
  • Alguem  02/10/2015 15:44
    Excelente artigo, uma verdadeira aula.

    Me bateu uma curiosidade, por acaso em Cuba utiliza Currency Board? Afinal qual o Regime Cambial utilizado em Cuba?

    Pela minha pesquisa, eles utilizam Uma moeda fixada a uma taxa quase equivalente ao dólar.
    Se isso for Currency Board, porque eles não são prósperos?

    Fonte: economia.estadao.com.br/noticias/geral,cuba-anuncia-que-reforma-no-sistema-cambial-do-pais,168122e
  • Leandro  02/10/2015 16:00
    Não. Cuba tem Banco Central.

    Só que, assim como na Venezuela, há duas taxas de câmbio: a que vale para o povo e a que vale para a elite. A elite -- membros do partido e empresários do setor de turismo que são amigos dos Castro -- utiliza uma moeda que o Banco Central cubano troca por dólar na taxa de 1 por 1, o que garante o conforto dessa gente.

    Tal moeda praticamente não circula na economia, pois "corre o risco" de ir parar nas mãos do povo, e isso é proibido. O povo cubano pode apenas utilizar tem uma moeda que vale 5 centavos de dólar.

    Não estou a par do volume de reservas internacionais do Banco Central cubano, mas é bem provável que sejam grandes por causa das exportações de charuto e açúcar do país e por causa de todo o turismo.

    Obrigado pelas palavras e grande abraço!
  • Felipe  02/10/2015 15:54
    Muito bom Leandro, valeu apena gastar quase uma hora do meu horário de almoço rs.

    Até gostei da ideia de implantar um currency Board com sede na Suiça, mas nós sabemos o escarcéu que seria por parte da mídia e dos tais movimentos sociais.
  • anônimo  02/10/2015 16:04
    *valeu a pena
  • Henrique Zucatelli  02/10/2015 16:27
    Leandro, que espetacular artigo, é um verdadeiro paper que deve ser usado como a tábua de salvação econômica para esse país.

    É disso que eu estava falando no outro artigo. Sobre como podemos sair dessa, e como as coisas podem ser melhores sob a ótica liberal para todos- povo, exportadores, importadores etc.

    Sabia que vocês do IMB iam começar com chave de ouro.

    Agora uma pergunta: pelo o que eu entendi, sob o arranjo de CB, as casas de câmbio perderiam suas funções, pois ninguém mais iria querer trocar moeda perdendo dinheiro, nem na compra nem na venda certo? Como que essas empresas poderiam lucrar em um arranjo desses? Não que eu me preocupe com isso, mas é mais curiosidade econômica.

  • Leandro  02/10/2015 16:52
    "pelo o que eu entendi, sob o arranjo de CB, as casas de câmbio perderiam suas funções, pois ninguém mais iria querer trocar moeda perdendo dinheiro, nem na compra nem na venda certo?"

    Bom, nada impede que casas de câmbio continuem existindo para trocar a moeda nacional por várias outras moedas do mundo. Mas certamente as taxas de lucro delas -- e, vale ressaltar, que tal mercado é extremamente regulado pelo governo e, por isso mesmo, totalmente cartelizado -- iriam cair. E eu digo que isso seria ótimo. Quem ganha dinheiro com um cartel mantido pelo estado não merece esse dinheiro.

    Igualmente, pessoas que hoje gastam suas energias intelectuais fazendo investimentos especulativos apenas para proteger o poder de compra da moeda poderiam agora finalmente se concentrar em afazeres mais produtivos.

    Não obstante, qualquer um continuaria livre para fazer seus hedges caso imagine que a moeda-âncora não irá permanecer forte.

    Obrigado pelas palavras e grande abraço!
  • Henrique Zucatelli  02/10/2015 20:46
    Eu que agradeço pela sabedoria dividida comigo e nossos consortes.

    Abraços,
  • Thiago Teixeira  03/10/2015 05:17
    Estou me filiando ao NOVO e vou repassar essas sugestões. Isso ainda vai acontecer no Brasil. (Bem, tenhamos esperança)

    Queria repetir uma pergunta feita ali em cima:
    1) Poderíamos usar outra moeda que não o dólar?
    Entendo que o glorioso franco suíço é inviável,
    Muito poucas cédulas disponíveis para um país bem maior que o deles.
    Bem, no momento, só vislumbro o euro como candidato. Mesmo que não tenhamos tantos euros assim de reserva.
    O processo de troca dos dólares por euros em escala tão grande até poderia gerar uma imensa distorção cambial, não?
    Bem, eu perguntei e eu mesmo comecei a responder, mas repito o foco da pergunta: daria certo adotarmos o euro como ancora de um Currency Board? Melhor que o dólar?

    2) Entendo que esse arranjo não é o melhor na visão do Mises, da EA, mas que apenas é o melhor possível para um país periférico.
    E para um país protagonista, como Suíça, RU, Japão, ou mesmo os EUA?
    Qual seria a sugestão "melhor possível" da EA?
    Congelamento de base monetária? Expansão fixa baixa como a do Iene nos anos 90/2000?
    Fim dos BCs?

    3) A questão da transição dos títulos do tesouro foi deliberadamente contornada. Como seria?
    Sinto que não dá para responder aqui na seção de comentários.
    Vem artigo sobre isso em breve?

    4) Qual sua opinião, Leandro, sobre os cursos de administração?
    Tendo a respeitar bastante o administrador.
  • Leandro  03/10/2015 13:35
    1) Não vejo grandes vantagens no euro em relação ao dólar.

    2) Mises não apenas defendia o Currency Board, como também o recomendava. Em seus ensaios na década de 1920, ela já recomendava o sistema para acabar com a hiperinflação da Alemanha e da Áustria. Já em seu livro "The Theory of Money and Credit", na edição lançada na década de 1950, nos capítulos finais ele recomenda a adoção de Currency Boards para todos os países saem desenvolvimento.

    No entanto, o artigo definitivo sobre este tema, que esclarece de fato a posição de Mises, é este, o qual eu reputo como sendo um dos melhores e mais completos artigos deste site:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1330

    3) A questão dos títulos do Tesouro é a mais simples e menos importante. Os títulos em posse dos bancos, das empresas e das pessoas físicas continuam rigorosamente como estão. Os títulos em posse do Banco Central (que será extinto) são cancelados. O Banco Central utiliza esses títulos em sua posse para fazer política monetária. Como isso não mais irá acontecer, tais títulos podem ser perfeitamente cancelados. Isso não prejudicará ninguém.

    4) Faça contabilidade, como já comentei aqui mesmo nesta seção dê comentários.
  • Thiago Teixeira  04/10/2015 20:02
    Artigo top do de Soto, hein?
    E o Ulrich citado como referencia bibliografica... Parabens!

    Mas Leandro, não existe um temor pela "moeda única mundial"? E a experiencia do Euro funcionando, e especulando um cenário com fixação do cambio sucessivamente entre todas as moedas (dolar-euro, libra-euro, franco-euro... Ops, o franco já foi!), não facilitaria enormemente este caminho? Bem, por um lado pode-se optar pelo caminho do lastro em ouro, mas pode-se desviar o caminho para o desastre da moeda única monopolística.

    A única forma que vejo de não se tomar o caminho da moeda única é a atrelagem ao ouro ocorrer ANTES das sucessivas fixações cambiais.
    Um paliativo é a extinção dos Bancos Centrais e das políticas de expansão monetária.

    2) Ainda careço de uma análise mais aprofundada sobre o dólar.

    1) Após a leitura do de Soto, minha simpatia pelo currency board real-euro aumentou...
  • Thiago Teixeira  05/10/2015 21:28
    Desculpa insistir, mas queria uma resposta para essa pergunta, achei bem instigante.
    (O risco de sucessivas fixações culminarem na moeda única mundial, fiduciária)
  • Guilherme  05/10/2015 22:05
    Em primeiro lugar, já vivemos em um mundo de quase-moeda única, que é o dólar. Nenhum Banco Central permite que sua moeda se valorize demasiadamente em relação ao dólar. E quando o dólar se valoriza muito, como está ocorrendo atualmente, todas as outras economias sofrem de carestia.

    Em segundo lugar, caso esteja havendo uma corrida rumo a uma moeda única -- algo bastante distante do cenário atual -- qualquer país que ancorar sua moeda ao ouro ou liberar o Bitcoin terá um grande diferencial.
  • Thiago Teixeira  06/10/2015 19:49
    Discordo. Há flutuação suficiente entre as moedas para causar fortes emoções...

    E um ambiente de moeda fiduciária única é diferente: imagine que o umndo se restrinja à zona do euro; aí imagine os franceses dando as cartas no BCE. Manipulacao de juro daqui, expansao de crédito dali, titulos de divida pública acolá... inflação em todo lugar... Se o presidente do BCE levasse um chifre, no dia seguinte a torneira fecharia... E sem ter para onde correr (talvez commodities, isso se a regulacao estatal não tiver impedido...)

    Bem, deixa eu deixar de ser chato. O arranjo proposto no artigo prevê ausencia de bancos centrais.
  • Frederico  02/10/2015 16:54
    "Um país que adota um Currency Board passa a operar com juros semelhantes aos juros vigentes no país emissor da moeda utilizada como âncora."

    Minha dúvida: o país emissor da moeda forte, consequentemente terá algum benefício em sua economia?
  • Leandro  02/10/2015 17:07
    Sim, relações comerciais muito mais volumosas, uma vez que agora a moeda seria "a mesma" e seria trocada sem burocracias. Mercados exportadores e importadores mais dinâmicos e menos amarrados por taxas de câmbio flutuante.

    Vale enfatizar que um sistema de câmbio flutuante é, por definição, um sistema de "quase-escambo". Taxas de câmbio flutuantes introduzem complicações e incertezas indesejadas nos mercados internacionais, obstruindo o livre comércio, e principalmente os investimentos. (O investidor torna-se muito mais um especulador do que propriamente um investidor).

    Imagine se houvesse uma taxa de câmbio flexível entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro? Ou entre Bahia e Santa Catarina? Isso seria um incentivo ao livre comércio entre os estados ou uma barreira?

    Se os estados adotassem câmbios flexíveis entre si, os efeitos seriam desastrosos para o comércio, com cada estado fazendo guerra cambial e impondo várias tarifas protecionistas. Ainda bem que não é assim.

    Não faz sentido -- a menos para protecionistas inveterados, é claro -- defender câmbio flutuante entre países, mas "câmbio fixo" entre estados, cidades e bairros.
  • Eduardo Moreira  02/10/2015 17:02
    Leandro o que vc acha da opinião dessa economista?

    Brasil deve abandonar metas de inflação e adotar banda cambial flutuante, diz analista

    O Brasil deveria abandonar temporariamente o sistema de metas de inflação e adotar um regime de banda cambial flutuante (crawling band), segundo a pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional Monica Baumgarten de Bolle.

    Em artigo divulgado no blog do instituto, ela afirma que o País vive uma situação de dominância fiscal e que nesse contexto é preciso abandonar temporariamente o sistema de metas de inflação e reinstituir um regime cambial de bandas flutuantes, que serviria por um período como uma âncora nominal, já que a política monetária se tornou ineficaz para combater a inflação.

    "Com as grandes reservas internacionais do Brasil, essa estratégia pode comprar ao governo o tempo suficiente para formular um plano fiscal adequado, que aborde e elimine a dominância fiscal nos próximos dois anos", afirma Monica.

    Segundo a economista, se o Brasil mantiver as políticas atuais, os modelos econômicos sugerem que o Banco Central precisaria elevar a Selic, já que as expectativas de inflação não se estabilizaram e estão longe do centro da meta, de 4,5%. "Entretanto, se o BC elevar os juros em 200 ou 300 pontos-base, a conta de juros e o déficit nominal sairiam de controle". Para ela, isso destruiria a sustentabilidade fiscal, produzindo novas turbulências nos mercados de câmbio.

    Essa fragilidade do câmbio, por sua vez, mais do que ofuscaria os efeitos deflacionários da recessão, deixando o País na pior situação possível: uma forte contração da atividade com alta inflação. "O PIB brasileiro encolheu 3% no segundo trimestre de 2015, enquanto a inflação está rodando a 9,5%. Por todos os parâmetros, o País já está nessa situação", alega.

    Ao mesmo tempo, tentar reduzir os juros no contexto atual só aumentaria a turbulência entre os investidores, levando a um retorno da estrutura macroeconômica disfuncional da década de 1980 e início dos anos 1990. "Um governo que criou a dominância fiscal não pode ser encarregado de resolvê-la com a adoção de políticas que prejudicariam ainda mais a reputação do BC", diz Monica.

    Em último caso, se o abandono do sistema de metas de inflação e a adoção do regime cambial de bandas flutuantes falhar, a pesquisadora afirma que o Brasil poderia ser obrigado a recorrer a controles de capital. Para ela, o País ainda tem condições de evitar se transformar em uma Argentina, com uma combinação perversa de dominância fiscal, inflação elevada, fuga de investidores e controles de capital. "Esta janela, no entanto, está se fechando rapidamente".
  • Leandro  02/10/2015 17:08
    Ela dá dois passos na direção correta -- mostra entender que câmbio é mais importante do que juros para controlar carestia, e também que com um câmbio desabando não há como evitar carestia --, mas em seguida cai no velho erro de defender câmbio atrelado.

    Embora o câmbio atrelado seja (muito) mais eficaz do que o câmbio flutuante no controle da inflação, tal arranjo não impede os mesmos problemas que ela diz querer combater: juros altos e dominância fiscal.
  • Luis  04/10/2015 02:00
    Para que dar dois passos se o correto é dar três, ou seja, por que não vai direto para o câmbio fixo em vez do atrelado?
  • Rodrigo Pereira Herrmann  02/10/2015 17:10
    Leandro-futuro-ministro-do-bacen,

    considerando o pouco espaço que restaria aos bancos para aumentar a quantidade de dinheiro na economia (mesmo mantido o sistema de rf), seria possível estimar uma taxa de inflação caso adotássemos tal arranjo no Br?
  • Leandro  02/10/2015 18:16
    "considerando o pouco espaço que restaria aos bancos para aumentar a quantidade de dinheiro na economia (mesmo mantido o sistema de rf), seria possível estimar uma taxa de inflação caso adotássemos tal arranjo no Br?"

    Não creio ser verdade a afirmação de que haveria "pouco espaço". O crédito poderia ser igual ou maior ao que é hoje, pois o influxo de investimento externo neste novo cenário seria alto.

    No entanto, como já dito em outras ocasiões, a questão das expectativas é um componente crucial na formação da inflação de preços.

    Se as pessoas passam a acreditar no novo sistema monetário, vêem que ele é solido, e que a taxa de câmbio veio para ficar, as expectativas inflacionárias desabam. Ato contínuo, os formadores de preços -- dentistas, advogados, indústria, comércio -- incorporam essa expectativa de que a moeda deixará de ser um problema e, consequentemente, parem de reajustar seus preços baseando-se nessas expectativas.

    Observe que, como mostra o último gráfico do artigo, quando não havia regime de metas de inflação e o Banco Central não vinha a público dizer qual era a inflação que ele estava perseguindo, a inflação de preços desabou. Hoje, o próprio Banco Central, ao sair anunciando que quer 4,5% ao ano mas que tolera até 6,50%, colabora enormemente para a inflação. Ele próprio altera as expectativas para pior.
  • Renan Kruger  02/10/2015 17:28
    No caso do Currency Board, quando as reservas estrangeiras caírem, como retirar moeda de circulação? e como controlar para que os bancos não gerem mais moedas através de empréstimos?
  • Leandro  02/10/2015 18:16
    "quando as reservas estrangeiras caírem,"

    Aí a base monetária caiu junto. Automaticamente. Sem exceção.

    "e como controlar para que os bancos não gerem mais moedas através de empréstimos?"

    Eles próprios não terão por que fazer isso, pois sabem que não mais há emprestador de última instância. Em todo caso, o artigo abordou exatamente esse cenário no item 4 da seção "As vantagens de um Currency Board". Caso alguns bancos se entusiasmem, eles ainda podem recorrer ao interbancário, podem elevar os juros pagos aos seus correntistas, atraindo inclusive capital externo. Isso é totalmente corriqueiro.
  • Henrique  02/10/2015 17:28
    Elejamos o Leandro presidente vitalício do Currency Board brasileiro com sede na suiça!
  • Leandro  02/10/2015 18:15
    Aí eu renuncio no dia seguinte, pois o tédio seria absoluto.

    Ao contrário do presidente de um Banco Central, que acorda e vai dormir pensando em quais as novas gracinhas que ele pode inventar pra interferir na economia, um CEO de um Currency Board não tem absolutamente nada para fazer.

    Na estrutura de um Currency Board há apenas:

    a) uns dois ou três caras encarregados de fazer investimentos sensatos com a moeda-âncora (tipo, em qual papel americano de alta liquidez eles vão aplicar os dólares das reservas, ou para quem vão emprestar ouro no mercado de Zurique);

    b) mais uns cinco ou seis para: fazer a transferência de papel-moeda para um determinado banco cujo cliente exportou um produto; e receber papel-moeda dos bancos cujos clientes são importadores. Só que, como esse tipo de operação ocorre às centenas por segundo, e no geral tende a se equilibrar, é bem provável que o CB e os bancos façam esse "arranjo de balancete" apenas uma vez por mês, em vésperas de feriado.

    c) mais uns três para fazer a impressão papel-moeda.

    Dado que algumas coisas podem ser terceirizadas, não é necessário um Currency Board não necessita de uma equipe de mais do que 15 pessoas.

  • Renato  02/10/2015 17:58
    "Imposto ninguém quer, ninguém gosta. Todo mundo prefere não pagar imposto. Mas vai ser necessário. A dificuldade agora é que as pessoas não estão acreditando que mesmo dando imposto vai dar certo."


    A frase acima é de Fernando Henrique Cardoso, e não é diferente de nenhum político no Brasil e no mundo.

    Se nós queremos acabar com essa classe teremos que agir com aqueles que mais são prejudicados por essa classe nojenta e cínica que é a classe política.

    Quem são aqueles a quem me refiro?

    A classe empreendedora, a classe empresarial .

    Por isso pergunto outra vez:

    Quem está disposto a formar um grupo para começar a mostrar para os empresários, comerciantes, empreendedores,...a pagar menos impostos até com o tempo deixar de pagar todo e qualquer tipo de imposto?

    Agiremos de comum acordo com os empresários que solicitarem o nosso serviço por um preço razoável para aos poucos passarmos para as pessoas de que a classe política é a maior responsável pelo atraso econômico, intelectual, criativo, etc etc etc do Brasil.

    Quem topa começar a colocar em pratica essa ideia?
  • Dede  22/01/2016 13:40
    A ideia é nobre, o problema é o alcance. Seria necessário uma mobilização muito grande para ter algum resultado. São milhões de pequenos empreendedores, uma ação dessas exigiria muitos recursos para atingir um percentual bom de empreendedores.
  • Henrique  02/10/2015 18:22
    Outra excelente conseqüencia do Currency Board é que, com a inflação controlada, políticos não teriam desculpas para anualmente aprovar altíssimos aumentos para sí próprios e funcionários públicos. Se bem que eles sempre arrumam uma ou outra desculpa esfarrapada.
  • Régis Figueiredo  02/10/2015 18:57
    Desculpem a ignorância, pois sou apenas um entusiasta de economia, mas como funcionaria um Currency Board com três moedas? Para exemplo, usem por favor o Brasil com CB que opere com Real, Dólar e Euro. Como seria definida a paridade entre as três moedas?
  • Leandro  02/10/2015 19:01
    Não existe isso. É impossível você fazer A ser igual a B e a C, sendo que B e C são diferentes e variam constantemente.

    A pode ser igual ou a B ou a C, mas não pode ser igual a B e C ao mesmo tempo.
  • Régis Figueiredo  02/10/2015 19:58
    Então, como seria a relação das duas moedas (euro e dólar) com o real para nós brasileiros? Teria-se que haver um CB para cuidar do dólar e outro para cuidar do euro?
  • Paciente  02/10/2015 20:09
    Não. O câmbio fixo é apenas em relação a uma moeda forte. Em relação a todas as outras, a moeda nacional irá flutuar, só que agora a flutuação será a mesma daquela moeda à qual a moeda na nacional está ancorada.

    Por exemplo, se você se ancorar o real ao dólar, a taxa de câmbio do real em relação ao dólar será fixa. O real flutuará em relação a todas as outras moedas, só que tal flutuação será agora idêntica à do dólar.
  • Matheus  04/10/2015 15:09
    Mas tem uma "modalidade" que funciona com uma cesta de diferentes moedas, não?
  • Yonatan Mozzini  02/10/2015 19:24
    Leandro, ótimo artigo, como sempre.

    Uma ideia alternativa que eu tenho -- e que talvez eu coloque na minha monografia que é sobre um modelo de currency board ao Brasil -- quanto à escolha do câmbio nominal, é fixá-lo através do câmbio real, caso o dólar fosse usado como âncora.

    A cotação do câmbio real teórico entre o Brasil e os Estados Unidos, levando em conta o índice de preços ao consumidor de ambos os países desde a implantação do real, é atualmente cerca de R$ 3,15. Mas como o Brasil em junho de 1994 (imediatamente antes de implantar o real) vivia em hiperinflação, infere-se que, devido à baixa demanda internacional pela moeda brasileira, o câmbio real estivesse claramente depreciado no momento em que o real foi implantado.

    Nesse caso, ao invés de deixar o câmbio flutuar por um certo período de tempo, também poderia fixá-lo por lei a uma taxa que colocasse diretamente o câmbio real e, consequentemente, nas taxas de juros e de inflação dos Estados Unidos. Caso seja comprovado ou inferido que a simples existência de uma hiperinflação é capaz de depreciar em, por exemplo, 20% o câmbio real de uma moeda, a cotação escolhida teria de ser cerca de R$ 2,60 por dólar.

    Isso, em minha opinião, poderia evitar inconvenientes períodos de alta inflação ou deflação durante o ajuste do câmbio real mais adequado, caso a taxa de câmbio que o mercado escolhesse em dois meses – conforme você mencionou -- ainda estivesse altamente valorizada ou desvalorizada.

    Você também consideraria essa metodologia viável?

    Obrigado e abraço!
  • Leandro  02/10/2015 20:13
    Eu até entendo -- e concordo com -- a metodologia, mas ela não é à prova de erros. Confiar cegamente em dois índices falhos, como IPCA e CPI, para tomar uma decisão crucial dessas não é o ideal.

    É melhor confiar mais no mercado, que é a interação voluntária e diária de bilhões de pessoas, para estabelecer esse preço. É bem menos arbitrário, muito menos intervencionista e não passa aquela ideia de que já se está começando algo com uma canetada.
  • Clovismr  02/10/2015 19:44
    A proposta é muito interessante.
    No entretanto acho que no Brasil o buraco é muito mas muito mais embaixo.
    1 - Como seria calculado o preço da moeda ancora?
    Média do período deixado para que o mercado defina?
    Pergunto por que se for em uma data específica (última data/negócio - por exemplo) pode se ter ação de players poderosos distorcendo tudo a seu favor. Caso seja um preço médio do período, deveria-se levar em conta o volume de negócios? Uma média ponderada? Excluiria-se pontos fora da curva?

    2 - Sou a favor de uma moeda forte, e por moeda forte entendo uma que seja estável ao longo do tempo, não necessariamente uma moeda forte frente a outra/outras apenas. Na situação ideal, um valor que reflita a situação do país. Mas creio q seja impossível. Falo isso por que como ficaria um CB sem levarmos em conta a situação tributária/trabalhista do Brasil e toda dificuldade pra se tocar um negócios com uma "penca" de regulamentações, leis, e de quebra um Judiciário prá lá de parcial e praticamente falido se não já não o estiver? Os peqnos empresários seriam as primeiras vítimas dependendo do valor definido.
    Resumindo, sou cético em relação às verdadeiras alternativas. Aquelas que de fato possam deixar para o contribuinte um pouco de seu suor.

    Por outro lado, adoraria ver a moeda longe das mãos de tecnocratas/políticos e exportadores de todo tipo. Ou seja, longe das mãos da meia dúzia de sempre.
    Mas não julgo necessário abrir mão da soberania do CB, seria perfeitamente possível dentro de nossas próprias leis. Até por que, essa de transferir pra Suíça toda jurisdição, não passaria nem em sonho. Desculpe a franqueza mas é o q acho.
  • Auxiliar  02/10/2015 19:57
    1) Explicitado no artigo. Valor de fechamento do dia útil anterior. Todos os programas de estabilização da economia fizeram isso.

    2) Não entendi nada. Você está dizendo que defende moeda estável mas que acha que isso é impossível por causa de algumas características do Brasil, e que por causa dessas características o ideal é deixar tudo como está, com uma moeda sem força nenhuma?
  • Mr Citan  02/10/2015 19:45
    O Conto de Réis no período do Império do Brasil (mais precisamente no 2º Reinaldo) também não funcionava nos moldes do Currrency Board?
    Pois as notas emitidas eram conversíveis em ouro.

    Não sei se entra na questão do Currency Board, mas vale lembrar também dos títulos no começo do Encilhamento, feito no mesmo período do Império, que eram bilhetes conversíveis em ouro.
    O Visconde de Ouro Preto pretendia criar um Banco Central privado, nos moldes europeus, que seria o regulador da liquidez destes bilhetes. Infelizmente houve o golpe da república de 1889, que brecou esta iniciativa.

    Após o golpe da república de 1889, através de um decreto de 17/01/1890, Rui Barbosa mudou o lastro destes bilhetes para Apólices da Dívida Pública, com a justificativa de impulsionar a indústria, agricultura e comércio.

    Isto causou uma explosão destes bilhetes, ocasionando uma demasia monetária, e a primeira bolha do Brasil. Por fim houve uma desvalorização no qual estes bilhetes foram transformados em moeda podre.
  • Clovismr  02/10/2015 20:33
    Auxiliar,

    O meu maior receio não é em relação aos grandes. Pra esses regulamentações, leis trabalhistas e tudo mais é muito bom, dificulta entrada/formação de concorrentes. O meu receio é de fato em relação aos pequenos/médios. Uma moeda forte facilitaria entrada de concorrentes importados (eu aprovo) mas com condições muito desiguais no que se refere a carga tributária e trabalhista. Não considero leal, já vi esse filme antes, peqnos não suportando concorrência externa devido fatores exclusivamente internos contra os quais nada podiam fazer. Não sou contra concorrência, de forma alguma, mas pense no caso de um médio fabricante de quadros de bicicletas que de uma hora pra outra vê o dolar a 2,50 e a concorrência chegando nos portos com uma carga tributária/trabalhista infinitamente menor.
    Os exemplos citados tratam-se de países que estavam literalmente no sal, ex repúblicas soviéticas de peqno porte, muito diferente de nós que tinham muito pouco ou nada a perder.Na primeira e única experiência brasileira de CB/padrão ouro citado no texto, o país era essencialmente agrícola, portanto não fazia diferença pra pior, muito pelo contrário - como se observou depois. Atualmente, por mais que nossa situação seja horrível, há de se ponderar como fazer, pois pode haver sim muito a perder.
  • Auxiliar  02/10/2015 20:50
    Entendi.

    Você está dizendo que, embora a vida de milhões de pessoas irá melhorar sobejamente com uma moeda forte e estável, o sujeito que fabrica quadros de bicicleta perderá sua reserva de mercado, a qual se mantém justamente por causa da moeda desvalorizada.

    Sendo assim, para mantermos a reserva de mercado desse cidadão e protegê-lo do perigo da eficiência externa, temos de manter a economia fechada, a moeda destruída e o comércio proibido apenas para que este cidadão mantenha sua fatia de mercado.

    É isso mesmo? Por essa lógica, no que dependesse de você, automóveis seriam proibidos por acabar com o setor de charretes; computadores seriam proibidos por acabar com o setor de máquinas de escrever; e lâmpadas elétrica seriam proibidas para dizimar o setor de velas.

    Em vez de defender reservas de mercado e de proibir as pessoas de comprar o que elas querem e de quem elas quiserem, por que você não agita para o governo reduzir a carga tributária, os encargos sociais e trabalhistas, e toda a burocracia para que possam surgir milhares de outros fabricantes de quadros de bicicleta, esse produto tão crucial que merece até que se destrua uma moeda por ele?
  • Henrique Zucatelli  02/10/2015 20:54
    Leandro, aproveitando o tópico sobre câmbio - meu favorito disparado: existiria uma opção de implantação da CB, onde ao invés da taxa ser determinada pelo mercado, ser fixada baseando-se na propoção de PIB com o país de moeda-âncora?

    Por exemplo, fôssemos ancorar o real ao dólar, o PIB americano é 10x maior que o brasileiro (acho que atualmente é até 11x). Implanta-se a CB com todas as regras supracitadas, e uma vez por ano, a resultante do PIB desses dois países seria a taxa para aquele ano.

    Isso seria efetivo? Já ocorreu algo assim na história? Estou ficando louco?
  • Clovismr  02/10/2015 20:54
    Completamdo,
    Auxiliar,
    Meu receio não é em relação a uma moeda estável, e sim a uma moeda estável mas muito valorizada perante o dolar. Aí é que o bicho pega, eu acho. Moeda estável é desejo de todos. Entendo que extremos seriam danosos, tanto subvalorizada como supervalorizada.
  • Guilherme  02/10/2015 22:36
    Uma moeda com um poder de compra crescente é "danoso"?! Como assim? Você poder comprar cada vez mais com a mesma quantidade de dinheiro é "danoso"? Se o dinheiro é capaz de comprar cada vez mais bens e serviços, isso é ruim?!

    Se você pensa isso, então, por favor, seja coerente, e jamais aceite qualquer proposta de aumento salarial, pois a lógica é idêntica.

    Aliás, pela sua lógica, a Suíça deve ter sumido do mapa: em 1971, um dólar custava 4 francos suíços. Em 2011, custava 0,71 franco. A moeda suíça se valorizou continuamente. Segundo a sua lógica, os suíços devem ter se afundado na pobreza.

    Mas adivinhe só? Eles ficaram mais ricos do que nunca.

    Entenda uma coisa, cidadão:

    Moeda forte em casa significa que a população está com grande poder de compra. Neste cenário, investir nesse país é muito mais negócio para qualquer investidor. Para quem você prefere investir: para uma população com alto poder de compra ou para uma população de moeda fraquíssima, como aconteceu com o Zimbábue na década de 2000?

  • Alexandre  02/10/2015 21:39
    Nesse arranjo de CB o Banco Central não tem como financiar os gastos do governo imprimindo moeda (que gera inflação). Apenas quem se beneficia disso é o BC que emite a moeda-âncora. No meu entendimento, um país adotar um CB seria o mesmo que continuar com a moeda nacional em câmbio flutuante e manter a base monetária sempre constante. No primeiro caso, somos prejudicados com a inflação do país emissor da moeda-âncora, que afeta o país que adotou o CB e todos seus cidadãos. No segundo caso, a moeda ganha valor com o tempo (deflação), por ter base monetária constante e haver produção. Considerando isso, é muito mais simples, eficiente e vantajoso manter a base monetária constante em vez de adotar um CB.
  • Leandro  02/10/2015 22:26
    "Nesse arranjo de CB o Banco Central não tem como financiar os gastos do governo imprimindo moeda (que gera inflação)."

    Não tem Banco Central.

    "Apenas quem se beneficia disso é o BC que emite a moeda-âncora."

    Generalização tosca e sem sentido. "Apenas".

    "No meu entendimento, um país adotar um CB seria o mesmo que continuar com a moeda nacional em câmbio flutuante e manter a base monetária sempre constante."

    Nada a ver. Aliás, o arranjo é exatamente o oposto: câmbio fixo e base monetária flutuante.

    "No primeiro caso, somos prejudicados com a inflação do país emissor da moeda-âncora, que afeta o país que adotou o CB e todos seus cidadãos."

    Correto. Muito embora, para um brasileiro, acostumado às depredações do seu governo e do seu Banco Central, é praticamente impossível escolher uma âncora de um país desenvolvido que seja pior.

    "No segundo caso, a moeda ganha valor com o tempo (deflação), por ter base monetária constante e haver produção."

    Isso não é garantido. Se por algum motivo o arranjo não inspirar confiança, ou os políticos do país forem ao estilo dos nossos, os investidores estrangeiros não terão interesse na moeda do país, a taxa de câmbio pode disparar e gerar carestia.

    "Considerando isso, é muito mais simples, eficiente e vantajoso manter a base monetária constante em vez de adotar um CB."

    Há várias considerações aqui.

    A primeira é a que eu acabei de mencionar ali em cima. Se o arranjo não inspirar confiança ou for bagunçado, a disparada na taxa de câmbio irá liquidar o arranjo. Ter um estoque fixo de dinheiro não é garantia de nada se esse dinheiro não inspirar confiança nenhuma.

    Em segundo lugar, um arranjo de base monetária fixa, embora eu tenha simpatias por ele, é anti-natural. Se o estado de São Paulo vende mais para a Bahia do que compra dela, a base monetária do estado aumento. Como você sugere impedir isso?

    Igualmente, em um padrão-ouro, se um país vende mais do que compra, entra mais ouro e a base monetária aumenta. Como você sugere impedir isso?

    Em um ambiente de liberdade, eu deveria poder utilizar a moeda estrangeira que eu quiser. Isso aumenta a base monetária, pois a moeda vem de fora. Como impedir isso sem ser por meio do totalitarismo? O governo sairia confiscando as moedas?

    Por último, se a base monetária é fixa, quem ficará com a função de criar dinheiro para substituir as cédulas já gastas e danificadas? Se houver alguma autoridade com esse intuito, o que a impedirá de recorrer a este recurso para financiar o governo?
  • Numismático  03/10/2015 01:40
    Por último, se a base monetária é fixa, quem ficará com a função de criar dinheiro para substituir as cédulas já gastas e danificadas?

    E o que impede a adoção de uma moeda puramente eletrônica?
  • renan merlin  02/10/2015 22:18
    Eu prefiro varias moedas privadas concorrendo no livre mercado
  • Alexandre  02/10/2015 23:40
    Obrigado pela resposta e me desculpe pelas generalizações, eu acabo fazendo isso pra resumir. No caso do estado de São Paulo vender mais para a Bahia a base monetária do primeiro aumentaria, e a do segundo diminuiria, mas a base monetária do país ficaria constante.

    No caso de um país em padrão-ouro a base monetária realmente tem que aumentar porque uma nota de dinheiro com certo valor de face equivale a uma quantidade fixa de ouro. Porém, para um câmbio flutuante, um país vender mais que compra iria valorizar a moeda deste em relação à moeda dos importadores. Mesmo que esse país venda mais que compre pra sempre, sua moeda nunca vai sair toda do país, porque ela fica cada vez mais valorizada.

    Meu ponto principal é que com um CB não existe a possibilidade de o governo se financiar por meio da inflação, ou quem usa esse dinheiro novo primeiro. Por isso, o governo teria que ser mais eficiente nos seus gastos. Com uma moeda com base monetária fixa a situação é parecida, com a vantagem do país não estar submetido a inflação do país da moeda âncora.

    Toda moeda precisa de confiança pra ter valor, afinal alguém tem que demandar por ela. Se com essa moeda se pode comprar qualquer coisa dentro deste país, que está bem politicamente, as pessoas produzindo, e o governo com as contas ajustadas, a confiança é consequência.

    Em relação a última pergunta, eu estava pensando mais no nosso atual arranjo (uso apenas do Real para compras e vendas em território brasileiro), não que eu concorde que deva ser assim, mas isso já é outra discussão. No caso a moeda estrangeira que entrasse teria que ser convertida em Real, que tende a valorizá-la. O aumento da base monetária seria em valor, em vez de um aumento nominal.

    Em relação à última pergunta, teria que haver uma instituição para substituir essas cédulas já gastas e alguma autoridade poderia se aproveitar disso para financiar o governo. Mas mesmo que um país adote um CB, o que garante que alguma autoridade também não vá mudar esse arranjo para financiar o governo, como fez a Argentina?

    Gostaria de parabenizá-los pelo site, tenho lido bastantes artigos e comentários e aprendido muito. Abraço!
  • João Batista  03/10/2015 00:47
    Excelente artigo.
  • Típico Universitário  03/10/2015 01:15
    Ninguém come dólar. O Brasil precisa se livrar dos rentistas e entesouradores. Ninguém come câmbio, não faz sentido fazer política cambial só pra coxinha ir comer little coxinity em Miami e produtor rural comprar insumo barato do exterior ao invés de comprar dos trabalhadores honrados da indústria paulista que desprezam a competição predatória e dumping violento; e por isso mesmo apelam para que os vendedores estrangeiros sejam expulsos do mercado.

    Toda essa crise cambial e fiscal é herança maldita da lei de responsabilidade fiscal e do PSDB.

    Solução para o Brasil:

    Juro baixo, atividade compromissada, inflação em 100% ao ano, poupança vazia, almoço de papel, dólar desvalorizado e coxinha assando.

    Coxinha: E o câmbio?
    Ministro da Fazenda redistribuída pelo INCRA: Já ouviu falar do bambu?

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk'
  • Guilherme  03/10/2015 03:26
    É possível fazer qualquer política cambial se a política monetária for completamente passiva? Por exemplo, um sistema de câmbio atrelado onde as variações dos juros ocorrem a todo momento, para que o dólar(ou qualquer outra moeda) se mantenha numa banda de variação pré-definida, dispensando assim a intervenção direta no mercado de câmbio através da venda/compra da moeda. Neste sistema o controle da taxa de câmbio se daria exclusivamente através dos juros(SELIC), mas o valor da SELIC não seria estipulado, pois a variável a ser controlada é o câmbio. Isto é possível?
  • Thiago Teixeira  03/10/2015 05:22
    Ah, queria deixar duas sugestoes para o site:

    1) Seção para iniciantes, com seleção de artigos cruciais para entender o cerne da EA.

    2) Fórum, para debate sobre os temas.

    Se quiserem eu ajudo dizendo quais artigos eu contumo indicar para os faixas brancas.
  • caio cesar tourinho  03/10/2015 10:04
    De fato, a política de Levy, do câmbio flutuante está afundando o Brasil, servindo apenas para dar lucro ao seu patrão, Bradesco; vide o lucro que teve este primeiro semestre, superior ao ano passado. Concordo com os autores que o caminho mais adequado é o Currency Board, ancorado numa moeda como o dólar, utilizando suas reservas internacionais para lastreá-lo. Parabéns aos autores!!
  • renato  03/10/2015 10:25
    Não, não, não! O dinheiro precisa ser flexível porque nós somos inflexíveis.

    O brasileiro prefere queimar o país do que sofrer a humilhação de uma redução nominal em salários / pensões, e ainda tem a cultura do "reajuste" para complicar. Por exemplo, FHC é odiado até hoje por não ter aumentado os salários dos marajás o suficiente.

    Tentar impôr liberalismo e moeda forte em uma cultura despreparada é o erro clássico dos anos 90. Isso GARANTE a falência do Estado (se for democrático, ao menos) e um exército de funcionários públicos ressentidos jurando ódio ao "neoliberalismo".

    O Instituto Mises está agindo com eficiência na luta cultural. Quem muda a cultura muda as regras do jogo.

    Mas no terreno da práxis aqui e agora, o melhor para o liberalismo seria um pseudo-"desenvolvimentismo" (com administradores competentes) para dar a todo mundo a sensação de estar ganhando, mas cultivando a economia de livre mercado por debaixo do pano. Como um Lula, só que ao contrário.
  • Rodrigo Pereira Herrmann  03/10/2015 16:58
    O Brasil só tem uma alternativa diante dessa situação fiscal. Só uma.

    É preciso vender todos ativos da União (que inclui privatizar todas estatais). Tudo.

    Isso quita parte da dívida e a recoloca em novos termos. Passo seguinte é cortar a administração direta pela metade, reduzindo drasticamente ministérios e cargos em comissão. Ato contínuo, implante-se o amado CB, numa taxa fixa de 3,00 (não precisa ser os atuais 4,00. temos reservas em quantidade suficiente pra cobrir inclusive o M1). Feito isso, proceda-se com as reformas estruturais do Estado (previdenciária e tributária).

    Sendo isso apenas um sonho, o que teremos é um governo acelerando rumo ao socialismo bolivariano (não haverá impeachment, anota aí). O governo emitirá ainda mais dívida pra pagar o rombo fiscal impagável. Os juros subirão, a despeito do idiota do Tombaço. Isso resultará em uma mega estagflação, a despeito dos altos juros. O câmbio despencará, a indústria será coisa do passado, e o brasil voltará aos tempos da colônia (exportando pau-brasil e açucar).
  • Tio Patinhas  03/10/2015 21:26
    Boa tarde.

    No final do texto fala-se em permitir a circulação de outras moedas, mas no caso do CB lastreado em ouro, isso não faria com que a moeda sumisse e fosse substituída pelas outras moedas?

    Quero dizer, suponho que a moeda lastreada em ouro seja melhor quando comparada ao dolar, não entraria naquele caso em que a moeda ruim substitui a boa?

    Obrigado.
  • Leandro  04/10/2015 05:33
    Não. Moeda ruim tomar o lugar da moeda boa só ocorre quando o governo impõe arbitrariamente uma paridade entre duas moedas totalmente distintas. Esta é a Lei de Gresham.

    Tal lei diz que, se o governo estipular artificialmente uma taxa de câmbio fixa entre duas moedas concorrentes, a moeda ruim irá retirar de circulação a moeda boa. Isso ocorre porque a moeda ruim, em decorrência da imposição artificial de uma taxa de câmbio, se torna sobrevalorizada, ao passo que a moeda boa, também por causa dessa taxa de câmbio artificial, se torna subvalorizada.

    Na prática, é como se o governo da Suíça decretasse uma taxa de câmbio fixa entre o franco e o real, e o real se tornasse moeda de curso legal na Suíça. Os suíços passariam a entesourar o franco e utilizariam o real para transações correntes e corriqueiras.
  • dúvidas...  04/10/2015 01:41
    Aos colegas com conhecimento tecnico, seguem 2 dúvidas:

    1. pronto! o Brasil adotou o padrão-ouro. A economia cresce de maneira saudável, porém, a produção de ouro mundial cresce em ritmo inferior à nosso crescimento econômico. Isto geraria uma valorização do ouro no mercado internacional e por consequencia da moeda brasileira? Em paralelo, levaria a uma queda no valor nos preços dos produtos localmente?


    2. Seria possível estabelecer um padrão ouro vinculado a uma cesta de commodities (e/ou outros ativos)? Exemplo, R$ 100,00 = 01 grama de ouro = 1 tonelada de soja (no dia X). O banco comercial receberia o depósito, na paridade R$ 100,00 = 01 grama de ouro e o transformaria em um ativo a ser selecionado (dentre vários) cujo os valores são flutuantes no mercado nacional e internacional. Ao final do dia/semana/mês o banco faria o fechamento para certificar que os depósitos x ativos estão equilibrados. Desta maneira, teríamos uma vinculação ao padrão ouro mas não restringido à produção física do mesmo?

    Agradeço as análise e comentários.
  • Ali Baba  04/10/2015 11:40
    @dúvidas... 04/10/2015 01:41:16

    1. pronto! o Brasil adotou o padrão-ouro. A economia cresce de maneira saudável, porém, a produção de ouro mundial cresce em ritmo inferior à nosso crescimento econômico. Isto geraria uma valorização do ouro no mercado internacional e por consequencia da moeda brasileira?

    Sim e não.

    A valorização do ouro depende da demanda pelo ouro e não do nosso crescimento econômico. Se a produção de ouro mundial é suficiente para atender a demanda por ouro mundial, o preço não varia (ou varia muito pouco, com tendência a uma média que não varia).

    Se o ouro tiver uma demanda mais alta, nossa moeda também terá uma demanda mais alta (uma vez que são sinônimos), o que faria ela se valorizar.

    Se nossa economia cresce mas a demanda por ouro permanece estável, o que ocorre é deflação: a moeda se valoriza e os bens que ela compra reduzem o preço. Que maravilha comprar uma coca-cola hoje a 5 reais e amanhã a 4 reais, não?

    Em paralelo, levaria a uma queda no valor nos preços dos produtos localmente?

    Exato. Mas isso depende de crescimento da economia com demanda estável por ouro. Se a demanda por ouro cai e a economia cresce, essa deflação pode ser menor ou não existir (no caso de uma coisa compensar a outra).

    [i]2. Seria possível estabelecer um padrão ouro vinculado a uma cesta de commodities (e/ou outros ativos)? Exemplo, R$ 100,00 = 01 grama de ouro = 1 tonelada de soja (no dia X). O banco comercial receberia o depósito, na paridade R$ 100,00 = 01 grama de ouro e o transformaria em um ativo a ser selecionado (dentre vários) cujo os valores são flutuantes no mercado nacional e internacional. Ao final do dia/semana/mês o banco faria o fechamento para certificar que os depósitos x ativos estão equilibrados. Desta maneira, teríamos uma vinculação ao padrão ouro mas não restringido à produção física do mesmo?[i]

    O brasileiro é mesmo profuso em heterodoxias...

    Você já está fixando um preço (Real = Ouro) o resto que flutue! Ficar inventando jabuticabas só inclui complexidade onde ela não existe. E se houver uma quebra na produção de soja?

    Entendo que você está preocupado com a produção de ouro... qualquer variação nessa geraria uma variação no valor do Real. Mas veja que ao incluir outra mercadoria em uma "cesta", você não está reduzindo esse risco e sim o aumentando. Agora, a variação do Real pode sofrer com a produção do ouro E com a produção da soja, obtendo exatamente o efeito oposto ao que você deseja.

    Vamos parar com as jabuticabas! Já tivemos muitas delas nos anos 80 e 90... o suficiente para aprender a evitá-las.

    Agradeço as análise e comentários.
  • dúvidas  04/10/2015 19:12
    tks, Ali Baba!
  • x  04/10/2015 01:48
    Qual as consequências da taxa selic mais baixa do que a prevista pelo mercado?
  • Leandro  04/10/2015 05:35
    Expectativas de inflação mais altas e crédito mais farto.
  • x  05/10/2015 13:47
    Pq lendro? vc tem algum artigo que esplique passo a passo, as consequencias do mercado esperar pela alta da selic e ela nao acontecer?

    e porque o governo dos EUA ''gostaria'' de ver uma taxa de inflacao maior do que a que vem ocorrendo para almentar os juros?

    obrigado
  • Leandro  05/10/2015 14:21
    Sim, trata-se de uma questão de expectativas inflacionárias.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2155

    Sobre o governo americano, eles não estão fazendo nada mais do que seguir a ortodoxia keynesiana, de que um pouco mais de inflação gera um pouco mais de crescimento, ortodoxia esta que foi um dos pilares da Nova Matriz Econômica. Pelo visto, os americanos estão um tantinho distraídos em relação ao que se passa ao sul da fronteira: o Brasil tem hoje inflação de preços de quase 10% e economia encolhendo 3%, algo que, segundo o manual keynesiano, seria uma impossibilidade prática.
  • x  05/10/2015 15:57
    qual o regime que funciona hoje na suíça? a suíça ja teve regime de cambio fixo ou atrelado?

    e quanto a argentina, qual o regime em vigor nos dias de hoje?
  • IRCR  04/10/2015 04:09
    Leandro,

    Qual é a sua visão sobre essa proposta ?

    economia.estadao.com.br/noticias/geral,a-gente-pode-ir-rapido-para-inflacao-de-20,1774000

    Acho que micro desvalorizações como foi em 95-98 algo bem bizarro.
  • Leandro  04/10/2015 05:42
    Já comentado aqui mesmo nesta seção (leitor Eduardo Moreira).

    Ela dá dois passos na direção correta -- mostra entender que câmbio é mais importante do que juros para controlar carestia, e também que com um câmbio desabando não há como evitar carestia --, mas em seguida cai no velho erro de defender câmbio atrelado.

    Embora o câmbio atrelado seja (muito) mais eficaz do que o câmbio flutuante no controle da inflação, tal arranjo não impede os mesmos problemas que ela diz querer combater: juros altos e dominância fiscal.
  • Ali Baba  04/10/2015 12:24
    Leandro,

    Como já escrevi (inclusive nessa seção de comentários), ficaria imensamente satisfeito com um CB ancorado em dólar americano. Independentemente do que pensemos sobre o dólar, isso seria muitas vezes melhor do que a política que temos hoje. Então é aquela coisa de escolher uma mau menor.

    Você deve ter visto nessa seção de comentários (e em virtualmente todos os seus artigos em que propõe um CB com dólar) uma preocupação geral do tipo "mas isso não é mais do mesmo". Me parece que "moeda fiduciária" é algo em que as pessoas não acreditam mais como uma categoria... Nem todas as moedas fiduciárias são iguais, como sabemos, mas as pessoas (me parece) têm uma tendência a preferir a própria moeda à uma âncora com outra moeda... talvez um nacionalismo ou outro sentimento semelhante explique esse fenômeno contraditório.

    Pensando nisso e, como assíduo leitor do ZeroHedge, gostaria dos seus comentários acerca desse artigo: www.zerohedge.com/news/2015-10-04/how-bad-can-get-and-how-fast

    O Real implode antes do Dólar implodir, mas não é o caso de pensar que a crise é muito mais profunda e nenhuma moeda fiduciária está livre do que está por vir? Fico pensando se não é isso que está por trás de fenômenos como o Bitcoin... Será que, como um todo, a humanidade não está perdendo a fé em moedas fiduciárias?
  • Marcos  04/10/2015 14:29
    Você pode ancorar no ouro, como o artigo também sugere. Sem problemas.
  • Ali Baba  04/10/2015 17:31
    @Marcos 04/10/2015 14:29:47

    Você pode ancorar no ouro, como o artigo também sugere. Sem problemas.

    Sim, sim. Mas temos de pensar em ser práticos e rápidos. Um CB com dólar é muito rápido e fácil de implementar, uma vez que temos reservas em dólar... já reservas em ouro... Faz tempo que não temos.

    Por isso a pergunta: será que não chegaremos logo a conclusão coletiva de que moedas fiduciárias não prestam? Como escrevi: o Real (como está) implode antes do Dólar... e é justamente sobre isso que pedi a opinião do Leandro: o Tyler Durden está muito louco naquele artigo?
  • Alvaro  04/10/2015 13:59
    Leandro,tenho 3 perguntas.
    1- Esse atual quadro seria um quadro de dominância fiscal?
    2- As reservas elevadas hj deixam o brasil de certa forma meio que imune à ataques especulativos. Mas até que ponto isso será sustentável (há um consenso teórico de um mínimo de reservas necessário para fugir de um ataque?).
    3- E a última pergunta: digamos,em um caso hipotético, que todos países do mundo adontem um regime de currency board com ancoragem em mais de um moeda estrangeira dentro do território nacional. Esse tipo de arranjo econômico não seria mais estável em termos de comércio internacional do que a adoção de um bitcoin? Estava pensando nisso, pq,se os mecanismos de funcionamento do bitcoin visa imitar as variações do ouro, tenho receio de que no futuro o bitcoin possa variar bruscamente como o ouro variou esse ano.
  • Alvaro  04/10/2015 20:32
    Opa, currency board não. Nem pode. BC com adoção de mais de uma moeda*
    Reformulando a pergunta 3:
    - E a última pergunta: digamos,em um caso hipotético, que todos países do mundo adontem um regime de banco central com adoção de mais de um moeda estrangeira dentro do território nacional. Esse tipo de arranjo econômico não seria mais estável em termos de comércio internacional do que a adoção de um bitcoin? Aliás, não seria mais estável do que o próprio currency board? Estava pensando nisso, pq,se os mecanismos de funcionamento do bitcoin visa imitar as variações do ouro, tenho receio de que no futuro o bitcoin possa variar bruscamente como o ouro variou esse ano.
  • Leandro  05/10/2015 00:10
    1 - Também. Mas isso não pode ser desculpa para não se adotar políticas anti-inflacionárias mais rigorosas;

    2 - Há muito espaço. Muito mesmo. Afinal, a política de acúmulo de reservas começou no final de 1991. Já é hora de nos beneficiarmos dela.

    3 - Sou um ardoroso defensor da livre circulação de moedas estrangeiras. O mundo ideal, aliás, seria ancorar o real ao ouro por meio de um Currency Board e liberar a circulação de moedas estrangeiras. Não havendo esta opção, liberar a circulação de moedas estrangeiras com o intuito de obrigar o Banco Central a ser mais prudente e responsável já seria excelente. Agora, em épocas de forte instabilidade cambial, um Currency Board -- nem que seja ancorado ao dólar -- se torna uma opção quase que obrigatória para voltar de imediato à estabilidade econômica.
  • Lucas Braga  05/10/2015 11:55
    Leandro, li em algum artigo daqui - isso se li certo, e não lembro qual artigo é - sobre Singapura ter (ou já ter tido) sua moeda lastreada numa cesta de outras moedas, procede?

    Sendo assim, esse modelo de lastro em várias moedas poderia valer para o Brasil, ou para nós, o ideal é apostar tudo em uma moeda só?
  • Leandro  05/10/2015 13:58
    "li em algum artigo daqui - isso se li certo, e não lembro qual artigo é - sobre Singapura ter (ou já ter tido) sua moeda lastreada numa cesta de outras moedas, procede?"

    Você deve ter lido aqui ou ouvido aqui.

    O dólar de Cingapura nasceu ancorado à libra esterlina, depois passou para o dólar americano, e hoje é atrelado a uma cesta de moedas.


    "Sendo assim, esse modelo de lastro em várias moedas poderia valer para o Brasil, ou para nós, o ideal é apostar tudo em uma moeda só?"

    O câmbio atrelado (a uma cesta de moedas) de Cingapura é provavelmente único no mundo, e o governo pode se dar a esse luxo porque a economia é altamente produtiva, há fartas reservas internacionais (decorrente, aliás, da alta produtividade da economia) e moeda é historicamente confiável (o que desestimula ataques especulativos típicos desse arranjo cambial). Não sei se poderia ser algo duradouro no Brasil.
  • Rodrigo  04/10/2015 14:48
    Dá no mesmo currency board ou dolarizada a economia.
  • Tiago Moraes  04/10/2015 17:18
    A Mônica Baumgarten falou sobre isso em uma entrevista no Estadão. Basicamente, ela defendeu que a única saída agora, para o processo de dominância fiscal, é recomeçar da estaca zero. Adotando o mesmo sistema de âncora cambial do plano Real original, aproveitando o bom saldo em reservas internacionais que temos. Nesse período, o governo promove o ajuste fiscal o mais rápido possível, conduz as reformas desindexadoras (principalmente na previdência) e retornamos ao sistema de metas de inflação. Quando o jornalista a perguntou sobre quanto tempo seria necessário para manter esse processo, ele respondeu com uma síntese do que diz esse artigo. O sistema de âncora cambial é instável e tende ao colapso no médio e longo-prazo. Então o governo teria que agir rápido.
  • Alvaro  04/10/2015 20:14
    Eu vi isso. Na prática, o que ela propõe é contraproducente. Pq o governo já abandonou o regime de metas,é como se já estivesse num regime de câmbio atrelado com as sucessivas operações de swaps cambiais e já está torrando as reservas (já torrou mais de 100 bi,se não me engano). Ao invés de ser um bom plano, isso se revela ser péssimo. E péssimo pq dá tempo pra o governo continuar sem realizar as reformas,já que o câmbio não despenca ainda mais (apesar da queda expressiva) com essas intervenções cambiais, mascarando o verdadeiro estado de descalabro da economia. Se o câmbio não tivesse nenhum tipo de intervenção, a queda abrupta fatalmente levaria o governo a, perdoe a expressão, botar pra fuder na selic e realizar reformas urgentes. Com essa história de abandonar as metas, como ela propõe, o governo, sem credibilidade pra realizar reformas, fica paralisado...e consumindo as reservas enquanto isso...
  • Rodrigo Pereira Herrmann  04/10/2015 23:28
    Operações de swap não mexem com as Reservas, por se tratar de operações de troca de taxa liquidadas financeiramente em reais. Os investidores se comprometem a entregar a variação do DI e o BCB a entregar variação do dólar + cupom cambial.

    O BCB mexe nas Reservas quando vende a moeda no mercado à vista, coisa que não tem adotado faz algum tempo, e que agora especula-se poderá fazer.

  • Pobre Paulista  04/10/2015 21:55
    Sim, basta depositarmos toda a nossa fé na boa vontade dos nossos governantes que tudo vai dar certo.
  • PedroF  04/10/2015 17:42
    Caro Leandro,
    Voce esta sempre se superando. As criticas que tenho lido sobre o CB eh que ele soseria eficaz para pequenas economias (tipo Letonia, Estonia etc.) Eh sempre observado que nao ha registro de uma grande economia adotar um CB. Ha meu ver, o Sistema Ouro nao passa de um CB, o que rebateria o argumento. Como inegavelmente voce eh um estudioso e entusista do tema (para mim, explicou bem, em memoravel artigo, as causas do fracasso do CB argentine) o que voce acha desse argumento? Ja houve uma grande economia sujeita ao Sistema? Em caso negativo, nao seria pouco cautelar adotar um CB numa eonomia grande como a do Brasil?
  • Leandro  04/10/2015 23:59
    Que tal a China? De 1995 a 2005 -- justamente o período de sua maior expansão econômica --, a China operou um regime cambial extremamente semelhante a um Currency Board, sendo que logo em seguida adotou um regime no qual o câmbio apenas se valorizava em relação ao dólar, o qual representa o melhor dos mundos.

    De resto, você próprio já deu a resposta.

    Todas as grandes economias não apenas já estiveram no padrão-ouro clássico (que nada mais era do que um gigantesco esquema de Currency Board), como todas as grandes economias também já estiveram no padrão-dólar (de 1945 a 1971), o qual, por sua vez, era ligado ao ouro. Tal esquema também era semelhante a um Currency Board, embora bem mais heterodoxo.

    Em termos de controle da inflação, tal regime foi um grande sucesso. Foi justamente a partir de 1971, com a abolição do que restava do padrão-ouro, que a coisa degringolou.

    No que mais, economias grandes não precisam de Currency Board justamente porque já são ricas e estabilizadas, não sofrem de instabilidade política e não têm problemas inflacionários graves. Não faria sentido, por exemplo, a Suíça ancorar o franco ao dólar ou ao iene. Mas faria muito sentido, por exemplo, a Índia adotar um.
  • IRCR  05/10/2015 03:46
    Leandro,

    -Vc concordaria se HK abolisse sua CB, considerando que já um lugar desenvolvido ?


    -Um arranjo com o Real lastreado em uma cesta de moedas, por exemplo, 50% dólar, 10% franco, 10% dólar Singapura, 10% libra, 10% dólar NZ e 10% ouro. Seria em tese viável para o atual cenário brasileiro ?

    -Haveria outro arranjo de cesta melhor ?

    -Seria possível desabar com a inflação e juros nesse arranjo ?

    -Considerando um "hipotético" colapso do dólar, esse arranjo não teria a vantagem de ter os outros 50% lastreado nas outras moedas, fazendo com o real não vá para o buraco tb junto com o dólar ?
  • Leandro  05/10/2015 14:04
    "li em algum artigo daqui - isso se li certo, e não lembro qual artigo é - sobre Singapura ter (ou já ter tido) sua moeda lastreada numa cesta de outras moedas, procede?"

    Você deve ter lido aqui ou ouvido aqui.

    O dólar de Cingapura nasceu ancorado à libra esterlina, depois passou para o dólar americano, e hoje é atrelado a uma cesta de moedas.

    "Sendo assim, esse modelo de lastro em várias moedas poderia valer para o Brasil, ou para nós, o ideal é apostar tudo em uma moeda só?"

    O câmbio atrelado (a uma cesta de moedas) de Cingapura é provavelmente único no mundo, e o governo pode se dar a esse luxo porque a economia é altamente produtiva, há fartas reservas internacionais (decorrente, aliás, da alta produtividade da economia) e moeda é historicamente confiável (o que desestimula ataques especulativos típicos desse arranjo cambial). Não sei se poderia ser algo duradouro no Brasil.

    "Vc concordaria se HK abolisse sua CB, considerando que já um lugar desenvolvido?"

    Se a abolição levar a uma apreciação da moeda local, então isso seria benéfico. Como não há garantias de que isso irá acontecer, manter o regime atual -- o qual vem funcionando muito bem -- é o mais indicado.

    "Um arranjo com o Real lastreado em uma cesta de moedas, por exemplo, 50% dólar, 10% franco, 10% dólar Singapura, 10% libra, 10% dólar NZ e 10% ouro. Seria em tese viável para o atual cenário brasileiro ?"

    Não visualizo. Para tal arranjo se manter sem ataques especulativos, a economia tem de ser altamente produtiva, tem de haver fartas reservas internacionais (isso nós temos) e a moeda o governo têm de ser historicamente confiável (dispenso-me de comentar essa parte). Não sei se poderia ser algo duradouro no Brasil.

    "Haveria outro arranjo de cesta melhor ?"

    Não sei. Esse é um cenário que não visualizo como possível no longo prazo, a menos que haja uma mudança conjuntural na política e estrutural na economia.

    "Seria possível desabar com a inflação e juros nesse arranjo ?"

    Sim, desde que as condições acima sejam atendidas, o que não é o caso do Brasil.

    "Considerando um "hipotético" colapso do dólar, esse arranjo não teria a vantagem de ter os outros 50% lastreado nas outras moedas, fazendo com o real não vá para o buraco tb junto com o dólar ?"

    Sim, e Cingapura se beneficia disso. Mas eles podem se dar a esse luxo porque a economia é altamente produtiva, há fartas reservas internacionais (decorrente, aliás, da alta produtividade da economia) e a moeda e governo são historicamente confiável (o que desestimula ataques especulativos típicos desse arranjo cambial). Não sei se poderia ser algo duradouro no Brasil.
  • Tiago silva  05/10/2015 10:48
    Leandro,na minha modesta opinião,há um grande problema com currency board,você fica acumulando dólares,reais e outras moedas-papel,logo aí isso é um grande problema,nós austro-libetários sabemos que uma grande crise financeira está vindo aí.

    Leandro,eu sei que você sonha COM UM CURRENCY BORRD,mas o padrão ouro na minha modesta opinião,tem mais utilidade.Tem grandes vantagens a nível da inflação ou mesmo deflação,sem contar com as facilidades de comércio mundial,e o facto de ser um activo físico.

    Eu sei que já fiz esta pergunta,mas vou insistir maias uma vez,previdência privada não estimularia a poupança,necessária para investimentos.


    Desde já obrigado Leandro pela atenção,abraço.
  • Leandro  05/10/2015 13:38

    Ué, mas o padrão-ouro nada mais é do que um Currency Board cujas reservas são o ouro (como explicado em mais detalhes no artigo). Não faz sentido se dizer contra um Currency Board mas a favor do padrão-ouro.

    "previdência privada não estimularia a poupança,necessária para investimentos."

    Sim, mas, no atual arranjo, ela própria pode ser dizimada pela corrosão do poder de compra da moeda gerada pelas políticas do governo.
  • Mohamed Attcka Todomundo  05/10/2015 13:40
    leandro, ate hoje ñ estava totalmente claro p/ mim pq o BC ñ pode ao mesmo tempo manter a estabilidade da moeda e fazer politica monetaria. eu entendia en termos gerais, mas ñ era capaz de raciocinar, de jeito + passo a passo, o pq. valew pelo texto
  • Tiago silva  05/10/2015 14:14
    Leandro a minha questão tem a ver,com ouro porque é um activo físico.

    Quanto a previdência seria como no Chile,mas algo diferente,totalmemte livre de qualquer restrição ou regulamentação.
  • Daniel Moreno  05/10/2015 14:32
    Artigos como este são um antídoto à burrice e ao proselitismo reinantes nos cadernos de economia dos jornais brasileiros.
  • Trader Carioca  05/10/2015 15:04
    Obra prima. Parabéns.
  • Vinícius Oliveira  05/10/2015 16:28
    Boa tarde,

    Gostaria de parabenizá-los pelo excelente artigo.
    Sou leitor do IMB e aprendo muito sobre o funcionamento da economia de livre mercado aqui.

    Porém sobre o CB eu tenho uma pergunta. A elevação da Base Monetária dependeria exclusivamente das exportações ?
    Economias que geram valor baseado no mercado inteiro, produzindo bens que são vendidos dentro do próprio país sem exportá-los não poderiam aumentar sua base monetária ?
    Isso porque teoricamente o lastro da moeda hoje é sua própria economia e quando mais riqueza é gerada, mas a base monetária aumento (na teoria).

    Se eu gero muito riqueza interna, aumento drasticamente as importações mandando dólares para o exterior em troca de matéria prima e maquinário , a Base monetária não iria cair demais? Não haveria ultra valorização da moeda fazendo com que a mesma, se tornado muito escassa, prejudicasse investimentos e o comércio ?

    É uma pergunta bem básica, mas realmente é uma parte que tenho dificuldades para entender..

    Obrigado.
  • Leandro  05/10/2015 21:05
    "A elevação da Base Monetária dependeria exclusivamente das exportações ?"

    De toda e qualquer entrada de capital estrangeiro, seja via exportações, seja via investimento estrangeiro direto, seja via remessas, seja via aquisição de papeis por estrangeiros.

    "Economias que geram valor baseado no mercado inteiro, produzindo bens que são vendidos dentro do próprio país sem exportá-los não poderiam aumentar sua base monetária ? "Isso porque teoricamente o lastro da moeda hoje é sua própria economia e quando mais riqueza é gerada, mas a base monetária aumento (na teoria)."

    Na verdade, não. O atual lastro da base monetária são os título do governo. Pura e simplesmente isso. O Banco Central expande a base monetária comprando título públicos que estão em posse dos bancos (e os bancos, por sua vez, compraram esses títulos em leilões do Tesouro, criando moeda do nada).

    Adicionalmente, os bancos também criam moeda (no caso, dinheiro eletrônico) sempre que emprestam para pessoas e empresas.

    Sob um arranjo de Currency Board, as duas últimas características (bancos criarem dinheiro eletrônico para comprar título do governo e para emprestar para pessoas e empresas) não são alteradas. Já a base monetária, em vez de se expandir via títulos públicos, passa a depender da entrada de capital estrangeiro. Ou seja, em vez de ela ser lastreada em dívida pública, ela se torna inteiramente lastreada em comércio, investimento e aplicação direta em papeis.


    "Se eu gero muito riqueza interna, aumento drasticamente as importações mandando dólares para o exterior em troca de matéria prima e maquinário , a Base monetária não iria cair demais?"

    Se você gera muita riqueza interna, irá chover investidor estrangeiro trazendo seu capital pra cá, seja para fazer investimentos diretos (quem não quer investir para uma população que cria muita riqueza?), seja para comprar ações e viver de dividendos, seja para comprar papeis de empresas, seja até mesmo para comprar título do governo.

    Essa, aliás, é a primeira vez que vejo alguém dizendo que uma economia rica e pujante gerará fuga de capitais. Isso não faz muito sentido econômico.

    "Não haveria ultra valorização da moeda fazendo com que a mesma, se tornado muito escassa, prejudicasse investimentos e o comércio?"

    Essa é outra confusão básica: não existe moeda sobrevalorizada ou subvalorizada em um regime de Currency Board. Se você inicialmente escolhe uma taxa de câmbio "sobrevalorizada", haverá uma grande saída de dólares na forma de importação. Consequentemente, haverá contração da base monetária e um pressão baixista nos preços. Mesmo que não haja deflação, o simples fato de que a inflação de preços no país da moeda-âncora inevitavelmente será maior do que no país do Currency Board fará com que o câmbio real volte ao seu valor correto. O inverso ocorre para a eventual escolha de um valor subvalorizado.

    Outra coisa: moeda eventualmente sobrevalorizada não afeta investimento estrangeiro; ao contrário, aliás. Se a moeda está sobrevalorizada, o poder de compra da população está alto. E investir para uma população cujo poder de compra está alto é um ótimo negócio.

    Imaginar que haverá aumento das importações é perfeitamente compreensível. Agora, dizer que haverá queda do investimento (tanto doméstico quanto estrangeiro) não faz sentido.
  • Vinicius Oliveira  06/10/2015 16:47
    Leandro, muito obrigado pela resposta.

    Ficou mais claro o funcionamento do CB.

    Vlw!
  • Thiago Teixeira  05/10/2015 19:51
    Entendi uma coisa esses dias: se o FHC tivesse alternado o cambio para um CB ortodoxo antes de as reservas se esvairem, aquele solavanco durante a eleicao do Lula nao teria ocorrido, mas também o Brasil não surfaria na onda da baixa do dólar na década passada.
    Bem, a sugestão do Leandro foi bem marota, de converter o cambio para CB quando ele estava em uns 2,40, já sob a Dilma; evitaria esta atual depreciação cambial.
    Mas ainda dá tempo, né? Só não tem é disposicao política; aliás, nem há tanto entendimento nem aceitação da populacao a esse respeito...
  • Leandro  05/10/2015 20:38
    Exatamente sobre esse assunto da adoção de um Currency Board em 1999, coloquei um "easter egg" bem no meio do artigo: este link.

    O que está escrito nele? Isto:

    "On August 28, 1998, Michel Camdessus announced that the IMF would give Russia the green light if it chose to adopt a currency board. This was followed on January 16, 1999 with a little-known meeting in Camdessus' office at the IMF headquarters in Washington, D.C. The assembled group included IMF top brass, Brazil's Finance Minister Pedro Malan, and the central bank's Director of Monetary Policy Francisco Lopes. It was at that meeting that Camdessus suggested that Brazil adopt a currency board."

    Ou seja, um Currency Board foi sugerido a Malan e a Chico Lopes como solução para conter a crise cambial de 1999. Ambos declinaram. Como consequência, o Brasil ficou estagnado de 1999 a 2004, e só voltou a crescer porque o dólar declinou em decorrência da invasão do Iraque.
  • Thiago Teixeira  05/10/2015 21:24
    Boa. Tinha lido em algum artigo voce lamentando esse declinio.
    Teve também um artigo em que voce sugeriu que o Brasil adotasse o Currency Board, "em tempo real", acho que já era sob Dilma.
    E agora também.
    Bem, é sempre uma boa opção.
  • anônimo  05/10/2015 21:59
    Leandro, fico com receio de perguntar por parecer por demais idiota, e ainda mais por que não consegui a resposta por eu mesmo ...rsrs:
    em um CB, como ficariam as emissões de títulos pelo governo? Elas deixariam de existir?
  • Leandro  05/10/2015 22:11
    Uai, continuariam com exatamente o mesmo mecanismo: o Tesouro emite, os bancos compram.

    A única diferença é que agora não haverá um Banco Central manipulando juros para facilitar a vida do governo. Se o governo apresentar altos déficits, os juros subirão.
  • Clovismr  05/10/2015 22:14
    Desculpem, a pergunta sobre emissão de títulos foi minha. Não posto como anônimo, é q esqueci de colocar nome e e-mail.
  • Clovismr  05/10/2015 22:39
    Deixe eu "ver" se entendi: o CB traria o fortalecimento/estabilidade da moeda e tiraria do governo o poder de emití-la, ou colocaria regras rígidas que não permitiriam que se criasse dinheiro do nada. Até aí ok.
    Mas esse mesmo governo ainda tem uma janela pra usar e fazer a expansão da moeda além do CB, não? Basta endividar sempre que o CB não permitir que tome atitudes que gostaria de tomar, e só os juros poderia frear essa prática, é isso?
    Pergunto por que se em dado momento o governo resolve "incentivar" determinado setor - como tem sido corriqueiro, e não tem reservas suficientes, lança títulos e pronto. Depois empresta pra esse setor a juros subsidiados via BNDES. Esse mecanismo não seria alcançado pelo CB, é isso? Não seria uma forma de criar dinheiro disfarçada? Também através de dívida?

    Obs: é mineiro? "uai" ...rsrs.
  • Leandro  05/10/2015 23:24
    "Basta endividar sempre que o CB não permitir que tome atitudes que gostaria de tomar, e só os juros poderia frear essa prática, é isso?"

    Isso não ocorre impunemente. Dado que um Currency Board não pode manipular juros e base monetária, todo e qualquer endividamento do governo gera aumento de juros: afinal, o governo, ao tomar empréstimos do sistema bancário -- e dado que não há um Banco Central para dar dinheiro aos bancos e aumentar as reservas bancárias -- causará um imediato aumento dos juros. Os empréstimos contraídos pelo governo reduzem a oferta de crédito para o setor privado, gerando um imediato aumento dos juros. Consequentemente, o governo tem de manter seu orçamento equilibrado, caso contrário asfixiará a economia.

    "Pergunto por que se em dado momento o governo resolve "incentivar" determinado setor - como tem sido corriqueiro, e não tem reservas suficientes, lança títulos e pronto."

    Aí os juros explodem e a economia entra em recessão. Conseqüentemente, aquilo que era para ser um estímulo, virá um empecilho.

    "Depois empresta pra esse setor a juros subsidiados via BNDES."

    Aí ele estaria enxugando gelo. Ao mesmo tempo em que o BNDES estaria emprestando a juros subsidiados, o resto do sistema bancário -- inclusive os bancos estatais -- estariam emprestando a juros altos.

    "Esse mecanismo não seria alcançado pelo CB, é isso?"

    Começou a entender por que um arranjo de CB não é amigo dos governos?
  • Zé Mário  06/10/2015 02:40
    Leandro, quando vc disse "uma LTN com vencimento em janeiro de 2018 está pagando 15,72%."
    Esses 15% são líquidos reais ??? , ou seja, já descontado impostos, taxas e inflação ?
  • Leandro  06/10/2015 12:05
    Não, é a taxa de juros nominal anual (que está acima da Selic, que está em 14,25%). Pode conferir, diariamente, a cotação aqui:

    www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro-direto-precos-e-taxas-dos-titulos
  • Clovismr  06/10/2015 11:35
    "Começou a entender por que um arranjo de CB não é amigo dos governos?"

    Essa é a característica do mecanismo q mais me atrai...rsrsr
    Obrigado pela paciência, Leandro.
  • Raphael  06/10/2015 14:41
    Olá Leandro,

    Excelente texto!

    as minhas dúvidas são as seguintes:
    1ª) caso um país como o Brasil adotasse o CB e apresentasse continuamente deficit nas transações corrente, o que ocorreria com a taxa de juros?
    2ª) caso a taxa de juros subisse, essa precisaria manter-se continuamente elevada para equilibrar a base monetária ao estimular a entrada de capital externo?
    3ª) No caso chines no período citado (1995 a 2005) teria ocorrido o oposto? um aumento no saldo da Balança de Pagamentos chines levando a uma queda na taxa de juros?

    Grato pela atenção.

  • Leandro  06/10/2015 16:22
    "caso um país como o Brasil adotasse o CB e apresentasse continuamente deficit nas transações corrente, o que ocorreria com a taxa de juros?"

    Inconcluso. O que interessa é o balanço de pagamentos e não as transações correntes. As transações correntes podem ser deficitárias, mas se a conta de capital pode apresentar um saldo.

    "caso a taxa de juros subisse, essa precisaria manter-se continuamente elevada para equilibrar a base monetária ao estimular a entrada de capital externo?"

    Não entendi. O que seria "equilibrar a base monetária"?

    "No caso chines no período citado (1995 a 2005) teria ocorrido o oposto? um aumento no saldo da Balança de Pagamentos chines levando a uma queda na taxa de juros?"

    Isso de fato aconteceu.
  • Raphael  07/10/2015 02:32
    Acho que me expressei errado;
    O que gostaria de saber é se seria possível uma balança de pagamentos continuamente deficitária, acarretando uma taxa de juros elevada? Essa manutenção da taxa de juros elevada seria prejudicial para a economia?

    Muito obrigado.
  • Leandro  07/10/2015 03:45
    Não visualizo.

    Sendo o Currency Board ortodoxo, os investidores e especuladores estrangeiros sabem que não há absolutamente nenhuma chance de desvalorização cambial.

    Sendo assim, qualquer aumento de juros neste país, por menor que seja (por exemplo, um ponto percentual acima dos juros praticados nos EUA), já será o suficiente para fazer com que estas pessoas tirem dinheiro de aplicações nos EUA e levem esse dinheiro para o país do Currency Board. É dinheiro fácil, garantido e com risco (de desvalorização cambial) zero.

    Logo, é impensável este cenário de juros permanentemente altos apenas para estancar uma contínua saída de capitais.

    Por outro lado, tal cenário é perfeitamente possível em arranjos heterodoxos, no qual um Banco Central opera como se fosse um Currency Board. Aí sim há um risco real e imediato de súbita desvalorização da moeda, o que pode afugentar investidores estrangeiros. Nesse caso, pode não haver elevação de juros que seja suficiente para atraí-los de volta.
  • Thiago Teixeira  07/10/2015 06:13
    "Sendo assim, qualquer aumento de juros neste país, por menor que seja (por exemplo, um ponto percentual acima dos juros praticados nos EUA), já será o suficiente para fazer com que estas pessoas tirem dinheiro de aplicações nos EUA e levem esse dinheiro para o país do Currency Board."

    Qualquer aumento de juros onde? Bancos privados? Títulos da dívida pública?
    A emissão de títulos da dívida pública não inflaciona artificialmente a base monetária?
  • Leandro  07/10/2015 11:48
    "Qualquer aumento de juros onde?"

    No mercado interbancário em decorrência da contração monetária gerada por uma saída de capitais.

    A pergunta do Raphael foi sobre o que ocorreria caso houvesse um déficit contínuo no balanço de pagamentos. Minha resposta foi que, num arranjo de CB ortodoxo, no qual não há nenhum risco de desvalorização, um déficit no balanço de pagamentos gera contração da base monetária, o que leva um aumento automático de juros no mercado interbancário. Esse aumento de juros no mercado interbancário, por menor que seja, já bastará para trazer os capitais estrangeiros de volta, pelos motivos acima mencionados.

    Esse é o funcionamento básico de um Currency Board e foi exaustivamente explicado ao longo do texto.
  • Thiago Teixeira  07/10/2015 13:34
    Ahhh...
    Esse ponto eu tinha entendido, ajei aqui pensando em outras coisas.
    Valeu!

    Em relação ao endividamento, sem BC fica complicado o governo emitir Títulos do Tesouro sem estourar o Orçamento, não é?
    Aliás, esse mercado de Títulos fica bem restrito no Currency Board Ortodoxo, não é?
    A Estônia, p ex, tem uma dívida exígua.

    Dá para classificá-la como um CB ortodoxo?
  • Ali Baba  06/10/2015 15:42
    Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e a abolição da Caixa de Conversão, houve vários desarranjos, e a inflação de preços, até então imperceptível, passou a crescer 8% ao ano. E então a coisa degringolou.

    O que houve com a caixa de conversão? Algum motivo alegado para ela ter acabado ou podemos inferir que o governo simplesmente queria liberdade para monetizar a dívida e a aboliu?
  • Salles  06/10/2015 16:29
    Foi extinta pelo governo e incorporada à Caixa de Amortização, que viria a se tornar o Banco Central.

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Caixa_de_Amortiza%C3%A7%C3%A3o
  • Ali Baba  07/10/2015 12:04
    @Salles 06/10/2015 16:29:03

    Foi extinta pelo governo e incorporada à Caixa de Amortização, que viria a se tornar o Banco Central.

    Sim. Também sei pesquisar na Wikipedia :-)

    A pergunta foi por quê?.
  • Fabio Bastos  06/10/2015 16:07
    Texto excelente. Leandro por favor me tire uma pequena dúvida. No exemplo citado o Currency Board negociaria a moeda com valor de venda e compra semelhante? Ou na prática haveria diferença entre o valor de venda e de compra como ocorre como câmbio de qualquer moeda? É que no texto o exemplo foi de um valor único. Seria assim na prática? Grato pela atenção.
  • Leandro  06/10/2015 16:37
    Valor idêntico para compra e venda.

    Aliás, o verbo "negociar" não é correto. A Caixa de Conversão não negocia; ela apenas converte. Pura e simplesmente isso.

    Assim como 60 segundos = 1 minuto e 1 jarda = 2,54 centímetros, a moeda nacional se torna uma mera substituta da moeda estrangeira, a um valor definido, fixo e imutável. Tal valor não é "negociado" diariamente; ele é apenas convertido.
  • Leandro  07/10/2015 11:49
    Correção óbvia: uma polegada, e não uma jarda, é igual a 2,54 centímetros.
  • rlpda  06/10/2015 19:17
    Sem querer ser chato mas já sendo... Mises ensina que não existe tal coisa como nível de preços, pois preços num mercado não são como água numa piscina, portanto não atingem o mesmo nível ao mesmo tempo.
    A frase do início do artigo: "A taxa de câmbio entre dois países é igual à razão de seus níveis de preços relativos." poderia (deveria) ser melhorada pois não quer dizer nada. Seria melhor citar indíces relativos como o big mac, por exemplo.
    Não invalida o conteúdo do artigo, mas alguém mais chato que eu pararia de ler por aí...
  • vitor  07/10/2015 18:07
    Leandro,

    Nesse aritigo, www.mises.org.br/Article.aspx?id=1087, voce diz que a alta inflação resulta em um cambio desfavorável, porem o cambio desfavoravel nao é uma das causas da inflacao?
  • Leandro  07/10/2015 20:16
    Ambos.

    Em algumas ocasiões, a expansão inflacionária do crédito leva à desvalorização cambial. Em outras, a desvalorização cambial (gerada por instabilidades políticas) gera a inflação de preços. E em outras, acontecem as duas ao mesmo tempo.
  • Pepe Pereira  09/10/2015 19:55
    Só não entendi bem por quê o currency board teria que ter sede noutro país. Sendo privado, já não seria suficiente para garantir a independência e sua imunidade quanto à políticas monetárias?
    Longe do país, não haveria o risco de o país estrangeiro ou mesmo a instituição privada (currency board) confiscar os dólares brasileiros? O artigo diz que a instituição privada currency board deveria aplicar as reservas em dólar em investimentos. Primeiro: quem daria autorização para que o CB realizasse esses investimentos. Segundo: todo investimento traz riscos, se num desses, o CB escolhesse um investimento ruim e perdesse quantidade significativa da moeda-âncora, quem responderia? Não seria muito poder dado a um grupo privado, o de controlar todo o valor da moeda nacional?
    Será que num Estado realmente federalista, onde os governos estaduais tivessem total autonomia em relação à Brasília, não seria a solução fazer um rodízio de sedes entre os estados?
  • Leandro  09/10/2015 20:32
    "Só não entendi bem por quê o currency board teria que ter sede noutro país. Sendo privado, já não seria suficiente para garantir a independência e sua imunidade quanto à políticas monetárias?"

    Qual empresa privada no Brasil está realmente imune ao governo? Qual empresa privada no Brasil consegue se manter livre da sanha estatal?

    Há várias empresas privadas no Brasil que não possuem nenhuma independência em relação ao governo. E não necessariamente por causa delas, mas sim porque o governo sempre se intromete. O que lhe faz pensar que justamente no gerenciamento da moeda o governo iria se restringir e se conter? Basta um simples projeto de lei de um deputadinho qualquer, e tudo vai para as calendas.

    Se há uma área da economia que realmente tem de estar completamente blindada do governo é a moeda. Não há setor mais crucial do que este. Sem moeda, não há economia. Não há saúde, não há educação, não há segurança, não há infraestrutura. A moeda é o sangue da economia; se ela for destruída, todo o organismo morre.

    "Longe do país, não haveria o risco de o país estrangeiro ou mesmo a instituição privada (currency board) confiscar os dólares brasileiros?"

    Essa frase denota um grave desconhecimento a respeito do que é um Currency Board.

    Para começar, os dólares são dígitos eletrônicos em contas bancárias americanas. Eles não são e nem nunca foram dos brasileiros. Os dólares são tão brasileiros quanto o petróleo. Sendo assim, não há como um governo estrangeiro confiscar dígitos eletrônicos que estão em posse de bancos americanos. Nem mesmo o governo suíço teria meios para fazer isso.

    No que mais, os dólares são ativos do Currency Board. Não tem como ele confiscar um ativo que já é dele.

    "O artigo diz que a instituição privada currency board deveria aplicar as reservas em dólar em investimentos."

    As reservas já são em dólares. Não tem como aplicar dólares em dólares. Não faz sentido isso.

    E o artigo não diz que o Currency Board "deveria" aplicar. O artigo apenas explica que é assim que funciona um Currency Board. Um artigo sobre a lei da gravidade não diz como a gravidade "deveria" funcionar. Ele apenas explica como ela funciona.

    Há uma grande diferença entre dizer como algo deveria ser e explicar como funciona algo que já existe. Currency Board não é invenção minha. É algo que sempre existiu (é a instituição monetária mais antiga do mundo), e cujo funcionamento apenas foi explicado no artigo.

    "Primeiro: quem daria autorização para que o CB realizasse esses investimentos."

    Pergunta descabida. Vou tentar de novo: o CB tem bilhões de dólares em ativos. Ele tem apenas uma obrigação estatutária: converter moeda nacional em dólar (e vice-versa) sempre que demandado, sem demora e sem cobrar por isso.

    Ponto. Só isso e apenas isso. Todo o resto decorre disso.

    Ele não tem interesse em criar cédulas de reais para comprar títulos do governo, pois as cédulas de reais criadas são um passivo para um CB. Ele não ganha absolutamente nada se criar cédulas sem contrapartida em dólares. Ao contrário, ele se estrepa, pois ele estaria aumentando seu passivo sem um simultâneo aumento no ativo. Os próprios títulos do governo que ele compraria seriam pagos em cédulas de reais que ele próprio criou. Ou seja, na melhor das hipóteses ele ficaria no zero a zero.

    O que o CB faria com esses bilhões de dólares em ativos? O que ele quisesse, desde que, repetindo, ele fosse capaz de honrar seu único compromisso, que é o de restituir reais em dólar a qualquer momento, sem custo e sem demora.

    Ele tem total liberdade para investir os dólares dele no que quiser.

    "todo investimento traz riscos, se num desses, o CB escolhesse um investimento ruim e perdesse quantidade significativa da moeda-âncora, quem responderia?"

    A própria instituição, de acordo com as leis da Suíça. Entendeu agora a outra importância de se ter uma sede na Suíça?

    "Não seria muito poder dado a um grupo privado, o de controlar todo o valor da moeda nacional?"

    Pela enésima vez: esse grupo não "controla todo o valor da moeda nacional". Quem realmente faz isso é o atual Banco Central (e que trabalho espetacular esses patriotas estatais estão fazendo, não?).

    Esse grupo meramente está obrigado, por estatuto, a converter uma moeda na outra a uma taxa fixa que nem sequer será definida por eles (como explicado no artigo). Não tem nada de "controlar o valor da moeda nacional" aí. O CB é meramente uma casa de câmbio que troca dólar por real (e vice-versa) a uma taxa fixa e imutável. O CB não tem o poder -- ao contrário de um Banco Central -- de alterar o valor da moeda nacional.

    "Será que num Estado realmente federalista, onde os governos estaduais tivessem total autonomia em relação à Brasília, não seria a solução fazer um rodízio de sedes entre os estados?"

    A cada mudança de sede haveria novas incertezas. E, de resto, nada impede que o governo federal -- que ainda detém a jurisdição do território nacional -- decrete uma medida executiva contra o CB.
  • Pepe Pereira  13/10/2015 15:25
    Ok. Obrigado pelas resposta.
    Realmente, não tenho formação em economia, como acredito ser a maioria que aqui comenta. Estou aqui pra aprender, ou pelo menos entender o vosso ponto de vista. O artigo propõe-se a dissertar sobre um assunto que até então desconhecia completamente. Não sou inimigo - nem seguidor -, apenas simpatizante. Portanto, um pouco de calma faz-se necessário no tom das respostas.
    Confesso que ainda não compreendi perfeitamente. Porém não insistirei porque não senti um tom camarada na resposta anterior. Deixo uma dica. Algo como um documentário, mais prático do que teórico, poderia dirimir todas as dúvidas.
  • Marcos Rocha  13/10/2015 16:05
    Prezado Pepe, desculpe-me a intromissão, mas onde exatamente não houve "um tom camarada na resposta anterior"? Tipo, o cara respondeu, e de maneira completa, a absolutamente tudo o que você perguntou -- e o fez até desnecessariamente, pois tudo o que você perguntou já havia sido respondido no artigo --, e você ainda reclama que não houve confetes e tapete vermelho? Menos, meu caro.

    Se você ao menos tivesse se dado ao trabalho de ler a seção de comentários, teria visto que todas as suas perguntas já foram respondidas e tudo aquilo que foi abordado no artigo foi expandido. Agora, se você não teve o interesse de ler antes de perguntar, então você não pode reclamar de não ter recebido cortesia de hotel 5 estrelas ao repetir perguntas já feitas nesta mesma seção.
  • Schneider  15/10/2015 06:58
    Leandro,

    Excelente artigo, muito esclarecedor.

    Eu só fiquei com uma dúvida, que para mim é fundamental. Procurei pela resposta nos comentários mas também não encontrei, então segue:

    Afirmou-se que o ideal é que o CB seja um ente privado (claro, para não sofrer influência política, vide Argentina).

    Mas da onde vem o lucro dessa empresa?
    Todas as transações teriam uma taxa de pagamento ao CB?
    E mais... como se daria o investimento nessa empresa?

    Pode parecer uma pergunta esdrúxula para os mais "letrados", mas eu não consegui visualizar como seria a operação "mercantil" do CB.

    Se a função dele é dispor de ativos equivalentes à base monetária, como que ele pagaria os lucros aos acionistas sem desestabilizar o arranjo.

    Aguardo ansioso por esclarecimentos!

    Muito obrigado,

    Abraço!
  • Leandro  15/10/2015 11:37
    "Mas da onde vem o lucro dessa empresa?"

    O lucro vem da diferença entre as receitas obtidas com os ativos e as despesas operacionais.

    Ativos: dólares ou ouro qualquer que seja a moeda-âncora escolhida.

    Receitas com ativos: a moeda estrangeira é aplicada em títulos seguros e de alta liquidez. No caso do ouro, este pode ser aplicado (utilizado para empréstimos) nos mercados de Londres e Zurique.

    Passivo: cédulas criadas.

    Custo do passivo: custo de produzir estas cédulas e substituir as danificadas (custos irrisórios).

    "Todas as transações teriam uma taxa de pagamento ao CB?"

    Em absoluto. Não pode haver taxas.

    "Procurei pela resposta nos comentários mas também não encontrei"

    Pô, tinha sim, tanto no artigo quanto nos comentários. Apenas dê um "CTRL + F" e escreva "Zurique" para você ver.

    Grande abraço e obrigado pelas palavras!
  • Ali Baba  15/10/2015 11:55
    Olá Leandro,

    Receitas com ativos: a moeda estrangeira é aplicada em títulos seguros e de alta liquidez. No caso do ouro, este pode ser aplicado (utilizado para empréstimos) nos mercados de Londres e Zurique.

    Esse lucro ou "receitas com ativos" é o que chamam de "senhoriagem"? Ou a senhoriagem é a parcela do lucro que é paga ao governo pelo CB?

    []s

    Pablo
  • Leandro  15/10/2015 12:41
    Primeira opção.
  • Pobre Paulista  15/10/2015 12:49
    Se os ativos estiverem investidos, eles não estão disponíveis para serem sacados, certo? Isso não equivale a uma alavancagem? Não é exatamente o que os bancos fazem com o dinheiro depositado?
  • Leandro  15/10/2015 14:36
    "Se os ativos estiverem investidos, eles não estão disponíveis para serem sacados, certo?"

    Como dito, tem de ser de papeis de alta liquidez.

    O CB pode fazer o que quiser com seus ativos, desde que sempre honre sua obrigação de restituir -- sob demanda e sem demora -- cédulas de moeda nacional pela moeda-âncora.

    Caberá ao CB estimar o volume de moeda-âncora a ser deixada em espécie e o volume a ser mantido aplicado em contas em bancos estrangeiros.

    Na prática, no entanto, o que aconteceria é aquele cenário descrito na seção "As liberdades permitidas por um Currency Board": o que realmente será demando por exportadores, importadores e investidores estrangeiros é a propriedade das contas em dólares nos bancos estrangeiros, cabendo aos bancos nacionais entregar (ou receber) o equivalente em cédulas nacionais criadas pelo CB.

    A necessidade de um CB manter cédulas de dólares em caixa é mínima.
  • Angelo T.  16/10/2015 23:36
    Excelente artigo!
  • Hugo  17/10/2015 01:14
    Leandro como os bancos determinam o nível de reservas bancárias adequado num arranjo de currency board ortodoxo,já que neste arranjo não há regulação de depósitos compulsórios por parte de um BACEN?
  • Leandro  17/10/2015 01:50
    Eles são livres para manter em caixa o valor que quiserem; eles próprios estimam esse valor de acordo com a demanda dos correntistas.

    Vale lembrar que o compulsório é um instrumento que, na prática, já se revelou pra lá de inócuo. Tanto é que as principais economias do mundo ou já o aboliram ou o reduziram a valores ínfimos. Na Austrália, na Nova Zelândia, no Canadá, no Reino Unido e na Suécia, ele foi abolido. Na zona do euro, ele é de 1%. Na Suíça, ele é de 2,50%. Veja a lista aqui.

    Se você for fluente em inglês, essa monografia do Banco da Inglaterra explica bem por que o compulsório se tornou inócuo.
  • Marcos  17/10/2015 02:17
    Parece que a galera de Mato Grosso concorda com esse artigo, pelo menos no que tange ao ouro: a corrida ao ouro lá está a pleno vapor.

    Tem nêgo que já arrumou 80 kg de ouro em 20 dias. Isso dá mais de R$ 11 milhões.

    g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2015/10/garimpo-da-nova-serra-pelada-tem-comercio-de-ferramentas-e-comida.html
  • Vinicius  17/10/2015 03:07
    São imagens lindas da livre iniciativa se organizando, investindo, trabalhando e prosperando.

    Pena que o estado cancerígeno brasileiro já usou seu braço justicialista para acabar com a esperança e prosperidade alheia.
  • Gabriel  18/10/2015 22:46
    Ótimo artigo como sempre, só os artigos de economia do IMB já valem mais que a grande maioria dos cursos de economia ofertados no pais.

    Mas quanto ao currency board, qual o objetivo de se manter a taxa de câmbio fixa? Fazer com que ao invés do cambio desvalorizar a taxa de juros aumente?
  • Auxiliar  18/10/2015 23:42
    Puxa vida, essa pergunta é séria mesmo? O cara escreve um artigo de quase 8 mil palavras falando exatamente sobre isso, e você ainda pergunta exatamente sobre o tema do artigo?

    Câmbio fixo = arranjo mais eficiente para se domar a inflação de preços sem recorrer a juros altos.

    Juros altos é consequência direta do câmbio flutuante. Com câmbio flutuante, a inflação de preços dispara, e isso necessitasse juros altos para gerar um recessão, pois é só uma recessão que pode conter a escalada de preços quando o câmbio dispara.

    Portanto, câmbio fixo é igual a inflação baixa e juros baixos. Câmbio flutuante é igual a inflação alta e juros altos.
  • Gabriel  19/10/2015 03:40
    A minha pergunta foi mais no sentido de que, em havendo uma grande instabilidade no pais e ocorrendo muitas trocas de reais por dólares (para se tirar o dinheiro daqui), isso não jogaria lá embaixo a base monetária (disparando os juros) e gerando uma deflação?

    Não seria melhor utilizar uma taxa de câmbio flutuante extinguindo o poder do Banco Central criar moeda (algo que também deve ocorrer em um currency board)? Até porque, pelo menos segundo os princípios que norteiam toda a teoria austríaca de economia, não seria o mais correto deixar a taxa de câmbio flutuar conforme as pessoas vão interagindo?

    A diferença não seria que instabilidade politica e econômica, em um currency board, afetariam a base monetária (e consequentemente os juros), ao passo que, com taxa de câmbio flutuante, isso refletiria no valor da própria moeda nacional?
  • Leandro  19/10/2015 11:59
    Em um arranjo de Currency Board ortodoxo, os investidores e especuladores estrangeiros sabem que não há absolutamente nenhuma chance de desvalorização cambial.

    Sendo assim, qualquer aumento de juros neste país, por menor que seja (por exemplo, um ponto percentual acima dos juros praticados nos EUA), já será o suficiente para fazer com que estas pessoas tirem dinheiro de aplicações nos EUA e levem esse dinheiro para o país do Currency Board. É dinheiro fácil, garantido e com risco (de desvalorização cambial) zero.

    Logo, é impensável este cenário de juros permanentemente altos apenas para estancar uma contínua saída de capitais.

    (Por outro lado, tal cenário é perfeitamente possível em arranjos heterodoxos, no qual um Banco Central opera como se fosse um Currency Board. Aí sim há um risco real e imediato de súbita desvalorização da moeda, o que pode afugentar investidores estrangeiros. Nesse caso, pode não haver elevação de juros que seja suficiente para atraí-los de volta.)

    Por tudo isso, em um arranjo de CB ortodoxo, no qual não há nenhum risco de desvalorização, uma fuga de capitais gera contração da base monetária, o que leva um aumento automático de juros no mercado interbancário. Esse aumento de juros no mercado interbancário, por menor que seja, já bastará para trazer os capitais estrangeiros de volta, pelos motivos acima mencionados.

    De resto, você está dizendo que é preferível ter uma moeda cujo poder de compra flutue ao sabor das circunstâncias políticas?!

    Sob um Currency Board ortodoxo, uma instabilidade política gera, no máximo, elevações temporais na taxa de juros (elevações essas que, sob nenhuma hipótese seriam maiores que as atuais taxas de juros vigentes sob câmbio flutuante).

    Já sob taxas de juros flutuantes, instabilidades políticas fazem o câmbio ir de 2,20 para 4 em poucos meses. Isso é preferível? Por quê? Deixar o poder de compra da moeda ao sabor de caprichos políticos é preferível a pequenas elevações temporárias da taxa de juros?

    Queria um argumento para isso.
  • Thiago Teixeira  19/10/2015 13:58
    Leandro, você tinha me indicado um artigo do Hanke, a respeito de preço do petróleo em dólar, mas uma outra coisa que ele escreveu me chamou atenção: ele não tem uma rejeição absoluta pelo câmbio flutuante puro. Ele concorda bem com você em relação ao câmbio fixo puro (bom), e ao câmbio atrelado (péssimo).

    Juntei aqui com um outro artigo do de Soto, em que ele defende um modelo de reforma bancária monetarizando as reservas bancárias depois proibindo o sistema fracionário (menos radical que vocêm, que defende que os bancos sejam liquidados e passados títulos aos correntistas, hehehe), e, o que vem ao caso, ele defende um modelo de atuação na base monetária (portanto, cambio variável), com inflação contante mínima (estourando, uns 2%aa), sem banco central. (Sendo esse modelo apenas uma transição para um sistema de moeda privada, ancorada em ouro, esse então o modelo definitivo almejado.) (Modelo esse que você mesmo já disse que concorda ser o superior)

    Enfim, colocando numa lista decrescente, do melhor para o pior, penso que fica assim:
    1) Moedas privadas (ouro, outros metais preciosos, criptomoedas)
    2) Moeda fiduciária no modelo do de Soto, bem feito; só para os fortes; único bom modelo fiduciário para os EUA
    3) Moeda fiduciária no seu modelo (Currency board); único bom modelo fiduciário bom para país bagunçado (como o Brasil)
    3.1) Ancorado no Euro
    3.2) Ancorado no Dólar
    4) Moeda fiduciária com câmbio atrelado "pato" (quer fazer de tudo, nadar, andar e voar, e não faz nada que preste) (explicando, mexer em base monetária, câmbio e taxa de juros ao mesmo tempo)

    Alguma discordancia em relação a essa lista? Algo a acrescentar?

    _______________________________________


    Pensando no modelo de transição do de Soto, atentei para um detalhe: caso vários países/zonas monetárias resolvessem adotá-lo ao mesmo tempo, e caso a taxa de inflação estipulada (e cumprida) fosse a mesma, com o tempo a taxa de câmbio ficaria constante. Mas ainda assim, isso guardaria diferenças em relação ao sistema de cambio fixo, não é?

    _______________________________________

    Uma dúvida: por que um país que adota o câmbio flutuante precisa manter reserva cambial?

    _______________________________________

    Sobre a discussão que tivemos há uns dias sobre preço do petróleo vestus taxa de cambio efetiva do dólar, uma dúvida: essa taxa é traçada levando em conta as outras moedas da cesta do SDR (FMI)?

    Caso seja assim, naturalmente a queda de outras moedas que se relacionam fortemente com o petróleo levará matematicamente ao aumento da taxa de cambio efetiva.
  • Leandro  19/10/2015 16:18
    "ele não tem uma rejeição absoluta pelo câmbio flutuante puro. Ele concorda bem com você em relação ao câmbio fixo puro (bom), e ao câmbio atrelado (péssimo)."

    Ele concorda integralmente com o artigo: câmbio flutuante funciona bem para economias já desenvolvidas, mas é péssimo para economias em desenvolvimento. Pode ir direto à fonte:

    "While both floating and fixed rates are equally desirable in principle, it must be stressed that floating rates, unlike fixed rates, do not perform well in developing countries because those countries usually have weak monetary authorities and histories of monetary instability. Indeed, currencies in developing countries rarely float on a sea of tranquility."

    "Juntei aqui com um outro artigo do de Soto, em que ele defende um modelo de reforma bancária monetarizando as reservas bancárias depois proibindo o sistema fracionário (menos radical que vocêm, que defende que os bancos sejam liquidados e passados títulos aos correntistas, hehehe)"

    Ué, eu não defendo isso não. Tanto é que comentei abertamente sobre isso na seção de comentários deste artigo, no qual alguns leitores defendiam que o governo desse o calote em seus título, e eu expliquei que, se ele fizesse isso, todo o sistema bancário entraria em colapso. No atual arranjo monetário e bancário em que vivemos, se os bancos falirem, o dinheiro some. E se o dinheiro sumir vai acontecer exatamente isso aqui.

    E complementei dizendo que: "Quem defende o calote, tem antes de apresentar um plano de reestruturação do sistema bancário (o próprio sistema do de Soto seria ótimo). Ou então -- o que seria mais fácil -- o uso de moedas estrangeiras por meio de bancos no estrangeiro já teria de estar liberado no país. Então, só então, é possível defender algum calote."

    De resto, neste antigo artigo de 2011 (e creio que é a ele que você está se referindo), escrevi o que poderia ser feito após uma quebra bancária generalizada. Isso é bem diferente.

    No entanto, a reforma proposta pelo de Soto é de fato mais tranquila e bem mais politicamente aceitável.

    "Enfim, colocando numa lista decrescente, do melhor para o pior, penso que fica assim:
    1) Moedas privadas (ouro, outros metais preciosos, criptomoedas)
    2) Moeda fiduciária no modelo do de Soto, bem feito; só para os fortes; único bom modelo fiduciário para os EUA
    3) Moeda fiduciária no seu modelo (Currency board); único bom modelo fiduciário bom para país bagunçado (como o Brasil)
    3.1) Ancorado no Euro
    3.2) Ancorado no Dólar
    4) Moeda fiduciária com câmbio atrelado "pato" (quer fazer de tudo, nadar, andar e voar, e não faz nada que preste) (explicando, mexer em base monetária, câmbio e taxa de juros ao mesmo tempo)

    Alguma discordancia em relação a essa lista? Algo a acrescentar?"


    Considerando que o arranjo 1) seria, na prática, um Currency Board ancorado ao ouro, discordância nenhuma.

    Obs: Dado que 1 grama de ouro vale hoje R$ 147, desnecessário dizer que não haveria moedas de ouro em circulação, pois seu valor seria imenso. Daí o único arranjo possível envolvendo o ouro é um Currency Board ancorado em ouro.

    "Pensando no modelo de transição do de Soto, atentei para um detalhe: caso vários países/zonas monetárias resolvessem adotá-lo ao mesmo tempo, e caso a taxa de inflação estipulada (e cumprida) fosse a mesma, com o tempo a taxa de câmbio ficaria constante. Mas ainda assim, isso guardaria diferenças em relação ao sistema de cambio fixo, não é?"

    Sim. De minha parte, não creio que, mesmo neste arranjo, as taxas de câmbio ficariam constantes. Eles continuariam flutuando ao sabor do cenário político de cada país.

    "Uma dúvida: por que um país que adota o câmbio flutuante precisa manter reserva cambial?"

    Na verdade, não precisa. Quem diz que precisa é porque pretende utilizar as reservas exatamente para combater efeitos nefastos decorrente do câmbio flutuante -- o que representa uma admissão tácita das falhas deste arranjo.

    "Sobre a discussão que tivemos há uns dias sobre preço do petróleo vestus taxa de cambio efetiva do dólar, uma dúvida: essa taxa é traçada levando em conta as outras moedas da cesta do SDR (FMI)?"

    Não sei o que seria "taxa de câmbio efetiva do dólar".

    "Caso seja assim, naturalmente a queda de outras moedas que se relacionam fortemente com o petróleo levará matematicamente ao aumento da taxa de cambio efetiva."

    Fiquei na mesma, até porque a única moeda que se relaciona com o petróleo é o dólar. Todos os países da OPEP utilizam o dólar em suas vendas. Há até um artigo exclusivamente sobre isso.
  • Gabriel  19/10/2015 16:34
    Bom eu não estou tentando fazer uma de advogado do diabo, até me parece que o curency board seja mais benéfico que uma taxa de cambio flutuante. Mas pelos princípios que norteiam todo o pensamento da escola austríaca (pelo menos na minha concepção) tinha me parecido num primeiro momento que manter a taxa de câmbio flutuante seria algo mais "natural".

    Porem para os fins do curency board essa taxa de cambio fixa passa a ser algo secundário, uma vez que o real objetivo é dolarizar a economia (pelo menos em termos práticos), o valor (ou a taxa real/dólar) em si não é muito importante, oque importa mesmo é o fato de que um valor X de reais representam um valor Y de dólares, assim o cambio fixo permite que qualquer pessoa saiba exatamente qual o poder de compra daqueles X reais. Inclusive talvez até para se viajar ao exterior possa levar reais, pois os comerciantes do outro pais já sabem de ante mão quantos dólares vão conseguir (ou euros, pois os reais na prática são dólar).

    Mas, agora sim fazendo uma de advogado do diabo (rsrsrsrs), respondendo a pergunta, primeiro que no meu ponto de vista o poder de compra (na taxa de câmbio flutuante) iria variar de acordo com o mercado, agora se o mercado responde de uma maneira ou outra a instabilidades politicas isso já é outra questão, o fato é que o câmbio vai variar conforme o mercado, até porque também não haveria um Banco Central fazendo politica monetária (o governo não vai valorizar/desvalorizar a moeda).

    Eu não sei qual seria o reflexo se a instabilidade politica que jogasse o dólar a 4 reais ocorresse em um sistema de curency board, mas o fato é que em uma taxa de câmbio flutuante o cambio iria afundar e em um curency board os juros iriam disparar, e o ajuste "natural" em um sistema curency board você explicou, agora falta na taxa de câmbio flutuante.

    Nesta última, pelo menos na minha visão, caso o cambio afundasse isso iria desestimular demais as importações e iria estimular as exportações (independente disso ser bom ou ruim, analisando apenas causa e efeito), também tornaria investir no pais mais barato para investidores estrangeiros, o que tenderia a retornar o sistema ao equilíbrio.

    Parece que no final de tudo enquanto um gera aumento da taxa de juros o outro gera perda do poder de compra (e inflação).

    Mas por favor me corrija se eu tiver dito alguma besteira, até porque não sou economista mas sim apenas um assíduo leitor do site.
  • Leandro  19/10/2015 17:52
    "Mas pelos princípios que norteiam todo o pensamento da escola austríaca (pelo menos na minha concepção) tinha me parecido num primeiro momento que manter a taxa de câmbio flutuante seria algo mais "natural"."

    Não, não é.

    Um sistema de câmbio flutuante é, por definição, um sistema de "quase-escambo". Taxas de câmbio flutuantes introduzem complicações e incertezas indesejadas nos mercados internacionais, obstruindo o livre comércio, e principalmente os investimentos. (O investidor torna-se muito mais um especulador do que propriamente um investidor).

    Imagine se houvesse uma taxa de câmbio flexível entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro? Ou entre Bahia e Santa Catarina? Isso seria um incentivo ao livre comércio entre os estados ou uma barreira?

    Se os estados adotassem câmbios flexíveis entre si, os efeitos seriam desastrosos para o comércio, com cada estado fazendo guerra cambial e impondo várias tarifas protecionistas. Ainda bem que não é assim.

    Não faz sentido -- a menos para protecionistas inveterados, é claro -- defender câmbio flutuante entre países, mas "câmbio fixo" entre estados, cidades e bairros.

    Mises não apenas defendia o Currency Board, como também o recomendava. Em seus ensaios na década de 1920, ela já recomendava o sistema para acabar com a hiperinflação da Alemanha e da Áustria. Já em seu livro "The Theory of Money and Credit", na edição lançada na década de 1950, nos capítulos finais ele recomenda a adoção de Currency Boards para todos os países saem desenvolvimento.

    No entanto, o artigo definitivo sobre este tema, que esclarece de fato a posição de Mises, é este, o qual eu reputo como sendo um dos melhores e mais completos artigos deste site:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1330

    "Mas, agora sim fazendo uma de advogado do diabo (rsrsrsrs), respondendo a pergunta, primeiro que no meu ponto de vista o poder de compra (na taxa de câmbio flutuante) iria variar de acordo com o mercado, agora se o mercado responde de uma maneira ou outra a instabilidades politicas isso já é outra questão, o fato é que o câmbio vai variar conforme o mercado, até porque também não haveria um Banco Central fazendo politica monetária (o governo não vai valorizar/desvalorizar a moeda)."

    Isso é contradição. A taxa de câmbio vai variar de acordo com o mercado justamente porque há um Banco Central fazendo política monetária (a qual perdeu credibilidade perante os agentes econômicos), há um governo fazendo uma política fiscal esbanjadora, e ambos esses fatores estão ao sabor de eventuais tensões políticas, completando o caldo.

    Sim, o mercado irá punir isso tudo. Mas isso é apenas uma consequência, assim como a febre é consequência de uma infecção. Sendo assim, você tem de extirpar a infecção, e não amaldiçoar a alta temperatura do corpo. Na economia, o que é possível fazer é blindar a moeda ao máximo possível do governo, de crises políticas e de bancos centrais. Para fazer os dois primeiros, um Currency Board ancorado a uma moeda historicamente forte já faz o serviço. Para fazer os três, um CB ancorado ao ouro é imbatível.

    "mas o fato é que em uma taxa de câmbio flutuante o cambio iria afundar e em um curency board os juros iriam disparar".

    Várias suposições erradas tanto teoricamente quanto empiricamente.

    Em primeiro lugar, você faz parecer que os juros não disparariam em um arranjo de câmbio flutuante. Ora, estamos vendo na prática que não foi isso o que ocorreu. A SELIC foi de 7,25% para 14,25% em dois anos. E mesmo os juros que não são controlados pelo Banco Central, como os juros dos títulos de 10 anos, pularam de 9,11% para 16%.

    Já sob um Currency Board ortodoxo, dificilmente haveria tamanha subida, e pelos motivos já explicados acima.

    Em segundo lugar, você dá a entender que o pior que pode haver no câmbio flutuante é uma forte desvalorização, ignorando que esta forte desvalorização é justamente o que irá levar a uma disparada dos juros -- caso contrário, há o risco de hiperinflação e de total destruição do poder de compra da moeda.

    Comparado a isso, o que seria os juros subirem de uma taxa próxima à vigente no país da moeda-âncora para uma taxa 3 pontos percentuais mais alta? Esse é o pior dos cenários sob um arranjo de Currency Board ortodoxo.

    "[No câmbio flutuante], pelo menos na minha visão, caso o cambio afundasse isso iria desestimular demais as importações e iria estimular as exportações (independente disso ser bom ou ruim, analisando apenas causa e efeito), também tornaria investir no pais mais barato para investidores estrangeiros, o que tenderia a retornar o sistema ao equilíbrio."

    A teoria convencional diz isso mesmo. O diabo é que isso nunca se concretiza na prática. E por um motivo muito simples, já diversas vezes explicado neste site: se a taxa de câmbio afunda, não apenas todos os custos de produção aumentam, como também todo o custo de vida. A renda real das pessoas desaba (diacho , você não está vivendo atualmente no Brasil?).

    Nesse cenário, por que investidores estrangeiros achariam barato investir no Brasil? Por que seria atraente investir em um país de economia desestabilizada, população com renda em queda, e carestia crescente?

    Por essa sua lógica, se é bom investir em um país desarrumado, então seria péssimo investir em um país de economia estabilizada, população com renda crescente, e custos de produção previsíveis e estáveis.

    Faz sentido?

    Entenda isso: moeda forte em casa significa que a população está com grande poder de compra. Neste cenário, investir nesse país é muito mais negócio para qualquer investidor. Para quem você prefere investir: para uma população com alto poder de compra ou para uma população de moeda fraquíssima, como aconteceu com o Zimbábue na década de 2000?
  • Gabriel  19/10/2015 22:13
    Quanto ao primeiro parágrafo meu que você transcreveu: Realmente esse é um tema que eu nunca tinha visto ser analisado em um artigo mais profundo aqui no IMB, com certeza eu vou ler o que você postou, parece ser muito bom.

    Quanto ao segundo parágrafo meu que você transcreveu: Parece que houve uma pequena confusão, pois eu parti da premissa que não haveria um Banco Central fazendo política monetária, e nesse cenário me parece que oque eu disse não possui nenhuma contradição, pois sem ninguém controlando a politica monetária num sistema de câmbio flutuante ele vai variar conforme a interação entre as pessoas, aliás vendo novamente o artigo é isso que ele diz no terceiro parágrafo da parte que trata do câmbio flutuante. Você parece ter analisado oque eu disse partindo da premissa de que o Banco Central estaria lá financiando o Governo (indiretamente), fazendo politica monetária e etc...

    Quanto ao terceiro parágrafo meu que você transcreveu: Aqui me parece que você partiu da mesma premissa (equivocada) que a de cima, pois eu parto do pressuposto que não haveria um Banco Central fazendo politica monetária. Apesar que, de fato, eu omiti que a taxa de juros seria influenciada em uma desvalorização cambial, mas isso se daria mais por causa da expectativa de inflação, e não por desajustes causados pelo Governo, e eu acredito que seria algo bem menor do que em um currency board que passasse pela mesma situação (apesar que eu confesso que não sei quantificar a influência da expectativa de inflação na taxa de juros). Mas enfim, no caso do Brasil que você mencionou há um Governo com um Banco Central intervindo, tem também a dificuldade que o Governo veio tendo em rolar a dívida. Enfim, não dá pra botar isso na conta da desvalorização cambial.

    Quanto ao quarto parágrafo meu que você transcreveu: apesar de eu ter citado os investimentos, o principal seria mesmo importação/exportação, no caso dos investimentos até poderia ser verdade na hipótese do pais demonstrar que está passando por reformas estruturais e etc... para garantir um terreno fértil para o desenvolvimento, mas isso não é regra.
  • Thiago Teixeira  19/10/2015 18:58
    Valeu pelas respostas, Leandro!

    Sobre tua proposta de reforma bancária, eu realmente tinha entendido mal, achei que voce defendi que fosse declarada a falencia dos bancos que operam com reservas fracionarias (ou seja, todos!), separado conta-corrente e papeis de investimentos. Mas você disse que era o que se de ia fazer DEPOIS da quebra. Foi mal.
    Já em relação aos títulos da dívida, entendi direito, você não defende calote. O único "calote" que não faria a menor diferença seria seria o cancelamento dos títulos do Tesouro em posse do BACEN.

    Sobre o currency board ancorado no ouro, 100%, só é possível se as reservas de ouro crescerem mais rapido que a expansao da base monetaria, ou, melhor ainda, se a base monetaria retrair e a reserva de ouro aumentar. Algum país conseguiria fazer isso hoje?
    Ah, e no item 1), eu quis me referir mesmo ao modelo ideal austriaco, descentralizado, privado, sem moeda fiduciaria.

    Viajando um pouquinho, as lições que eu tiro do Bitcoin são que o que uma moeda precisa é: efeito de rede, expansão monetária previsível e finita (o que promove confiabilidade). Isso infelizmente o ouro perdeu um pouco. E felizmente podemos notar que as moedas fiduciárias podem utilizar dos mesmos princípios e se perpetuar; afinal, há ouro suficiente que cubra a estúpida expansão monetária que houve no século XX? (O Ulrich é que gosta mais dessa parte, né, sei que vocé um pouco mais cético em relacao à derrocada do ouro)

    Sobre o cenario de vários países convergindo pro modelo do de Soto, de fato desprezei o potencial de os políticos causarem oscilacoes no humor dos investidores, a tendencia de fixação "voluntária" do cambio não tem como se concretizar (o potencial dos políticos não é desprezível...)

    Sobre a "taxa de cambio efetiva do dólar", foi a melhor tradução para portugues que encontrei daquele parametro que voce usou no grafico; em ingles é "wheigtened alguma coisa"

    Gabriel, olhe a situação dos europeus... Especialmente Portugal e Irlanda; de algum modo, tambem a Alemanha; estão com moeda forte e a economia vai bem, obrigado. Descobriram só agora o german way of currency, implantado por Adenauer e Erhard na década de 50 na Alemanha Ocidental... (Discípulos de Eucken, que conviveu com Mises na Mont Pelerin Society, e inspirou-se nele para considercaoes sobre controle inflacionario)
  • Thiago Teixeira  20/10/2015 01:11
    Era sobre o "Trade weighted US Dolar Index"; vi aqui que nao tem nada a ver com a SDR do FMI. O Trade... é formado por 20 moedas com as quais os EUA fazem 90% do seu comércio mundial.

    O SDR do FMI está no centro de uma polêmica da China para fazer parte da cesta. Atualmente tem apenas 4 moedas, e a China reicindica que o Renmibi passe a compô-la. A recusa é vista por teóricos da conspiração como mecanismo de resistencia dos EUA contra o crescimento da influencia da China; mas há a a fundamentação verdadeira de que o Renmibi não é uma moeda livre, e os movimentos de manipulacao cambial desse ano favoreceram essa tese.
    Bem, argumento pró-aceitacao do Renmibi é seu mega volume já espontaneamente utilizado nas reservas cambiais internacionais. E a Russia entra secundariamente nessa tentativa de fortalecimento da China, está tentando "desdolarizar" a economia; estão forjando uma forte aliança, super "do bem"...

    Esse movimento geopolítico da China envolve também outro ponto: reserva em ouro; eles estão ampliando bastante. Mas não apenas eles; li algo sobre o Novo Dinar Iraquiano. Envolve Síria, já havia algo relativo à Líbia de Khadafi, os conspiracionistas dizem que essa é a real causa das invasoes do Oriente Médio pelo complexo "sionista".

    Prezado Leandro,
    se não for muita folga, gostaria de "encomendar" para você artigos sobre esses três temas (TWUDI, SDR, NEWD; ah, e sobre as moviemtacoes geopolíticas-monetárias da China; 4 entao, hehehh); já li a respeito em fontes duvidosas, queria agora me informar a respeito sob a luz da mais forte teoria economica.
  • Marcelo  19/10/2015 21:39
    Uma coisa não ficou muito clara: Como um Banco Central consegue reservas internacionais? Criando moeda nacional e comprando moeda estrangeira no mercado de câmbio? Criando reservas bancárias e comprando moeda estrangeira dos bancos?

    De qualquer forma, o ato de adquirir reservas internacionais eleva artificialmente a cotação da moeda estrangeira e deprecia a moeda nacional?
  • Guimarães  19/10/2015 22:10
    "Como um Banco Central consegue reservas internacionais? Criando moeda nacional e comprando moeda estrangeira no mercado de câmbio? Criando reservas bancárias e comprando moeda estrangeira dos bancos?"

    Ambas as maneiras.

    "De qualquer forma, o ato de adquirir reservas internacionais eleva artificialmente a cotação da moeda estrangeira e deprecia a moeda nacional?"

    No curto prazo, sim. No longo prazo, o que define a cotação do câmbio a diferença do poder de compra entre as duas moedas.
  • Andre  20/10/2015 05:59
    CB realmente é uma otima saída para segurar a inflacao e criar um ambiente economico positivo para investidores.
    O proximo passo de adotar um CB seria substituir a moeda? Como faz Montenegro.
    Qual é o ponto negativo de adotar uma moeda forte de outro pais no lugar de uma moeda nacional? Somente a questao de ter trocados e moedas por exemplo?
  • Thales  22/10/2015 14:31
    Olá

    Hoje saiu a notícia que o COPOM resolveu mandar a taxa de juros em 14,25%.

    Ouvi um comentário no rádio, sobre como o BC "pretende", a partir de agora, admitir que a inflação já ultrapassou a meta (chegando a mais de 10% em algumas cidades) e que não tentará intervir tanto de maneira a tentar controlá-la no chamado "plano de horizonte econômico" (transcrevo da maneira como entendi a notícia).

    Minha pergunta: Do ponto de vista do liberalismo, essa suposta "liberação" do BC quanto à tentativa de controle da inflação, ou seja, reconhecendo que a mesma já ultrapassou o teto e "deixando rolar" seria benéfico?
  • Ali Baba  27/10/2015 09:55
    @Thales 22/10/2015 14:31:28

    Minha pergunta: Do ponto de vista do liberalismo, essa suposta "liberação" do BC quanto à tentativa de controle da inflação, ou seja, reconhecendo que a mesma já ultrapassou o teto e "deixando rolar" seria benéfico?

    Não seria nada benéfico. Mas seria honesto.

    A inflação de preços é apenas um dos reflexos maiores do desarranjo estrutural de uma economia (o outro é o câmbio e eles são interligados). Especificamente, a inflação de preços ocorre quando há uma inflação monetária (mais dinheiro sendo produzido, o que antigamente era gerado por impressão direta, hoje é gerado pela emissão de dívida) e quando essa é percebida pelos agentes econômicos. Alguns chamam isso de "expectativa de inflação": ou seja, o mercado espera uma inflação mais alta, ato contínuo ela se torna mais alta.

    Ao "liberar" a inflação, sem quaisquer outras medidas associadas, o BC entregou os pontos na guerra das expectativas. Só que o nosso BC é modelado para mexer em taxa de juros com o objetivo de manter a inflação sob controle. Ao entregar os pontos, o BC deixou de cumprir sua meta, e ao continuar existindo, os agentes se perguntam qual será a próxima maquinação do BC. Muito melhor seria ser extinto, ou convertido em Currency Board, ou mesmo abandonar a política de juros e se concentrar no câmbio (já que não é muito inteligente fazer as duas coisas ao mesmo tempo). Mas não, o BC tinha de inventar mais uma jabuticaba.
  • Wilson Mota  22/10/2015 19:12
    Tenho uma dúvida : Qual o provável comportamento da inflação e do desemprego Se o governo
    brasileiro usasse o Euro

    para moeda âncora depositado no Banco Central Europeu e, colocasse em circulação no Brasil para

    cada Euro dois reais em circulação (forçado a manter déficit orçamentário zero). Qual o prováve comportamento da inflação e do desemprego ?
  • Rodrigo Pereira Herrmann  24/10/2015 14:52
    Leandro,

    Quando possível, para fazer o contraponto, poderia ler e comentar o que segue? obrigado.

    gustibuseconomia.com/2015/10/18/concorrencia-de-moedas-hayekiana-funciona/
  • Leandro  27/10/2015 02:35
    Confesso que não entendi muito bem. Ele postou uma gravura que fala abertamente sobre "competição por emissão". Mas a teoria hayekiana não fala de "competição por emissão", mas sim de "competição por estabilidade" ou "competição por poder de compra", que é o exato oposto de competição por emissão.

    O conteúdo matemático da figura -- correto em si -- nada tem a ver com a teoria hayekiana. Acho que o blogueiro se embananou completamente nessa.
  • Henrique  17/11/2015 13:27
    Leandro, algumas dúvidas:


    "2) Um Currency Board gera estabilidade de longo prazo para os investimentos (os investidores sabem exatamente qual será o valor da moeda nos anos vindouros), acaba com as especulações e retira completamente das autoridades políticas do país a capacidade de fazer política monetária"

    No caso de um currency board fixando o preço em relação ao ouro isso possivelmente não continuaria valendo.

    Suponhamos que o Brasil seja o único país do mundo a fixar sua moeda em relação ao ouro. Entretanto, o ouro já não é mais o ativo mais líquido do mundo, ele perde nesse quesito para o dólar, para o euro, talvez até para a libra esterlina.

    Nesse contexto, como o preço do ouro flutua livremente perante o dólar, isso não geraria um problema parecido (embora em menor proporção) com o que estamos vivendo hoje, visto que desde 2011 o ouro vale cada vez menos em dólar?

    Ou seja, talvez a melhor escolha para âncora da moeda sob um currency board não seja uma commodity, e sim o ativo mais líquido disponível.

    É claro que se pegarmos um horizonte maior, de 20 ou 30 anos, o ouro se valorizou perante a todas as moedas, mas se tivéssemos adotado o padrão ouro em 2011, o real teria perdido 19% do seu valor em relação ao dólar desde então.

    Vamos ignorar o fato de que o real de fato de desvalorizou muito mais que isso desde então, visto que se nem todos os economistas nacionais leram Bastiat e não conseguiriam enxergar "o que não se vê" caso o currency board áureo tivesse sido instaurado. Essa desvalorzação não serviria de argumento aos detratores do câmbio fixo: "olhem só, vocês disseram que o currency board iria estabilizar o câmbio, mas desde que criaram essa porcaria, a moeda perdeu 19% do valor".

    Claro que seria um argumento contraditório, visto que essa galera costuma defender um câmbio desvalorizado e deveriam ficar felizes, mas já conhecida a baixeza no debate econômico brasileiro, eu já não duvidaria de mais nada.

    A questão permanece: é melhor se fixar à moeda mais líquida ou à mais estável?

    --------

    "O Currency Board gera confiança imediata na moeda doméstica justamente porque ele mantém reservas internacionais em um volume igual ou maior que a base monetária da moeda nacional (no caso do Brasil, que tem US$ 370 bilhões em reservas[...]"

    Qual é o custo de se manter essas reservas? Em quanto isso onera o orçamento?

    Grato.
  • Leandro  17/11/2015 15:53
    "Suponhamos que o Brasil seja o único país do mundo a fixar sua moeda em relação ao ouro. Entretanto, o ouro já não é mais o ativo mais líquido do mundo, ele perde nesse quesito para o dólar, para o euro, talvez até para a libra esterlina."

    Errado. O ouro é tão líquido quanto. A liquidez do mercado de ouro é total. Desconfio que seja até mais líquido que o do euro, mas não tenho como provar isso.

    "Nesse contexto, como o preço do ouro flutua livremente perante o dólar, isso não geraria um problema parecido (embora em menor proporção) com o que estamos vivendo hoje, visto que desde 2011 o ouro vale cada vez menos em dólar?"

    Utilizando intervalos de tempo arbitrários, sou capaz de "provar" que o real é das moedas mais fortes do mundo. O que interessa é o longo prazo, não curtos intervalos de tempo. Sim, o ouro se desvalorizou perante o dólar desde agosto de 2011, mas isso ocorreu após o mais longo período de valorização do ouro perante o dólar da história do mundo.

    Em 2000, uma onça de ouro custava aproximadamente US$ 300. Em agosto de 2011, beliscou os US$ 1.900. Hoje, está próximo de US$ 1.100.

    Qual é a tendência de longo prazo?

    "Ou seja, talvez a melhor escolha para âncora da moeda sob um currency board não seja uma commodity, e sim o ativo mais líquido disponível."

    Tipo qual? O dólar? Ok, mas aí você cai vítima do seu próprio raciocínio: em outubro de 2002, o dólar beliscou R$ 3,99. Em julho de 2011 já havia caído para R$ 1,56.

    Ou seja, se tivéssemos fixado o real em dólar em 2002, teríamos vivenciado uma inflação de preços ainda maior neste período.

    "É claro que se pegarmos um horizonte maior, de 20 ou 30 anos, o ouro se valorizou perante a todas as moedas,"

    E esse é exatamente o ponto a ser feito.

    "mas se tivéssemos adotado o padrão ouro em 2011, o real teria perdido 19% do seu valor em relação ao dólar desde então."

    O mesmíssimo raciocínio vale para o dólar no período 2002 a 2011.

    "Essa desvalorzação não serviria de argumento aos detratores do câmbio fixo: "olhem só, vocês disseram que o currency board iria estabilizar o câmbio, mas desde que criaram essa porcaria, a moeda perdeu 19% do valor"."

    Daí a sensatez de se saber quando fixar. O ideal, ao contrário do que se imagina, é fixar exatamente quando a moeda-âncora está fraca, pois a tendência, dali pra frente, é de fortalecimento contínuo.

    No caso Brasil, o ideal teria sido fixar em julho de 2011, quando o dólar estava no ápice da fraqueza. Mas se tivesse sido fixado em qualquer ponto de 2012 ou até mesmo de 2013, ainda teria sido muito bom.

    Já um grande erro teria sido fixar quando o dólar chegou a R$ 4,24 em setembro, pois aí a fixação teria ocorrido exatamente no auge da moeda, sendo que, dali em diante, a única tendência dela seria de queda (ou seja, de enfraquecimento).

    Em suma, tudo depende do bom senso de saber quando fixar. E justamente por isso -- como explicado no artigo -- a literatura do Currency Board sugere um prazo de alguns meses, após o anúncio da intenção da adoção de um CB, para esperar a estabilização da moeda

    "A questão permanece: é melhor se fixar à moeda mais líquida ou à mais estável?"

    Ambas. E, historicamente (pelo menos até hoje), o ouro é a única commodity que sempre apresentou ambas essas características.

    "Qual é o custo de se manter essas reservas? Em quanto isso onera o orçamento?

    Após adotado o Currency Board nenhuma. O custo está na acumulação destas reservas enquanto ainda operamos sob um Banco Central. O custo é, de maneira resumida, a diferença entre a SELIC brasileira e a SELIC americana.
  • Henrique  18/11/2015 16:17
    Perfeito, Leandro.
    Grato pelos esclarecimentos.

    Quanto à pergunta do custo das reservas, foi pensando no cenário atual, sob o reinado de um Banco Central.

    Você salientou que a manutenção da reservas não possui nenhum custo, apenas a aquisição.

    Mas, dado que os títulos com liquidez governo dos EUA que o Bacen adquire possuem validade, existe algum custo (além do de oportunidade) para que se faça a "rolagem" dessas reservas? Ou esses 370 bilhões em reservas internacionais, se mantidos constantes, não oneram os cofres públicos?
  • Leandro  18/11/2015 17:58
    Com calma. A minha resposta sobre custos tinha em vista o Banco Central. Sob este arranjo, há sim custos de manutenção.

    O BC cria reais e compra dólares. Os reais criados expandem as reservas bancárias, o que gera uma pressão baixista na Selic. Ato contínuo, para manter a Selic no lugar, o BC vende títulos do Tesouro para o sistema bancário, retirando reais do mercado interbancário e, desta forma, mantendo a Selic no lugar.

    Ou seja, títulos públicos que até então estavam em posse do BC, podendo ser rolados tranquilamente, agora estão em posse dos bancos (ou de pessoas físicas ou de empresas), que exigem juros e amortização em dia.

    Esse é o custo.

    Por outro lado, os juros que o BC aufere sobre os títulos públicos americanos são ínfimos (em torno de 0,15% ao ano).

    Ou seja, as reservas internacionais mantidas pelo BC oneram os cofres na exata proporção em que o Tesouro tem de pagar juros sobre os títulos públicos em posse do sistema bancário, e as receitas auferidas pelo BC (que são repassadas ao Tesouro) são ínfimas.