
Ser anarcocapitalista? Significa ser insensato.
"...O anarquista, porém, se engana ao supor que todo mundo, sem exceção, desejará observar tais regras voluntariamente. Há dispépticos que, embora saibam muito bem que ceder ao prazer de certos alimentos significa sofrer dores fortes, quase insuportáveis mais tarde, não obstante, são incapazes de evitar o prazer e o delicioso prato. Ora, as inter-relações da vida em sociedade não são fáceis de delinear, como os efeitos psicológicos da comida, nem mesmo as consequências ocorrem tão rapidamente e, acima de tudo, tão palpáveis para o causador do mal. É, pois, possível supor-se que, sem cairmos no terreno do absurdo, a despeito de tudo isso, todo indivíduo em uma sociedade anarquista terá maior descortino e força de vontade do que um dispéptico? Em uma sociedade anarquista, estará descartada, totalmente, a possibilidade de que alguém possa, negligentemente, atirar um fósforo aceso e iniciar um incêndio ou, em um momento de raiva, ciúme ou vingança, infligir danos a seu compatriota? O anarquista compreende mal a verdadeira natureza do homem. O anarquismo somente seria praticável, num mundo de anjos e santos.
O Liberalismo não é anarquismo, nem tem, absolutamente, nada a ver com anarquismo. O liberal compreende perfeitamente que, sem recurso da coerção, a existência da sociedade correria perigo e que, por trás das regras de conduta, cuja observância é necessária para assegurar a cooperação humana pacifica, deve pairar a ameaça da força, se todo o edifício da sociedade não deve ficar à mercê de qualquer de seus membros. Alguém tem de estar em condições de exigir da pessoa que não respeita a vida, a saúde, a liberdade pessoal ou a propriedade privada de outros, que obedeça às regras da vida em sociedade. É esta a função que a doutrina liberal atribui ao estado: a proteção à propriedade, a liberdade e a paz." (Liberalismo, pg 38) Responder
Comentar sobre anarcocapitalismo sem conhecer o assunto? Significa fazer papel de ignorante. O que Mises critica não é o anarcocapitalismo, e sim um anarquismo ingênuo:
"O anarquismo de Rothbard não era do tipo de anarquismo que seu professor e mentor Mises havia rejeitado por ser extremamente ingênuo, claro. "Os anarquistas," escreveu Mises,
afirmam que uma ordem social na qual ninguém tivesse privilégios às custas de seus concidadãos poderia existir sem necessidade de qualquer compulsão ou coerção para impedir ações prejudiciais à sociedade... Os anarquistas deixam de perceber o fato inegável de que algumas pessoas são muito limitadas intelectualmente ou muito fracas para se ajustar espontaneamente às condições da vida social... Uma sociedade anarquista estaria à mercê de qualquer indivíduo. A sociedade não pode existir sem que a maioria das pessoas esteja disposta a impedir, pela ameaça ou pela ação violenta, que minorias venham a destruir a ordem social.[10]
De fato, Rothbard concordou sinceramente com Mises que sem recorrer à compulsão, a existência da sociedade estaria ameaçada e que por trás de regras de conduta, cujas observâncias são necessárias para assegurar a cooperação pacífica entre os homens, deve haver a ameaça da força, caso contrário toda a estrutura da sociedade fica à mercê de qualquer um de seus membros. Deve-se estar na posição de compelir uma pessoa que não respeite as vidas, saúde, liberdade pessoal ou propriedade privada dos outros a se sujeitar às regras da vida em sociedade. [11]
Particularmente inspirado pelos teóricos políticos anarquistas do século XIX, Lysander Spooner e Benjamin Tucker e pelo economista belga Gustave de Molinari, desde o início o anarquismo de Rothbard tomou como certo que sempre existirão assassinos, ladrões, matadores etc., e que a vida em sociedade seria impossível se eles não fossem punidos através da força física. Como um reflexo deste realismo fundamental - anti-utopismo - de seu anarquismo de propriedade privada, Rothbard diferentemente da maioria dos filósofos políticos contemporâneos, concedeu importância central ao tema da punição. Para ele, propriedade privada e o direito de defesa física eram indissociáveis. Ninguém pode dizer-se proprietário de alguma coisa se a ele não for permitido defender sua propriedade através de violência física contra possíveis invasores e invasões. "Seria," pergunta Rothbard, "permitido a alguém 'fazer justiça com as próprias mãos'? Seria permitido à vítima, ou a um amigo da vítima, cobrar justiça pessoalmente do criminoso?" e ele responde, "é claro que Sim, já que todos os direitos de punição derivam dos direitos de autodefesa da vítima." (pág. 154). Portanto, a questão não é se o mal e a agressão existem, e sim como lidar justa e eficientemente com suas existências, e é apenas na resposta a essa questão que Rothbard chega a conclusões que o qualificam como um anarquista.
A resposta liberal-clássica, da Declaração de Independência americana à Mises, era atribuir a indispensável tarefa de proteger a vida, liberdade e propriedade ao governo, como sua única função. Rothbard rejeitou esta conclusão como um non sequitur (já que o governo era definido por seus poderes de taxar e de supremo juiz [monopólio territorial de jurisdição]). Posse de propriedade privada, sendo resultado de atos de apropriação original, produção ou troca do anterior para o próximo proprietário, implica no direito de jurisdição exclusiva do proprietário em relação à sua propriedade. Na verdade, o único propósito da propriedade privada é estabelecer domínios de exclusiva jurisdição delimitados fisicamente (assim como evitar possíveis conflitos referentes ao uso de recursos escassos). É impossível que um possuidor de propriedade privada possa renunciar a seu direito de suprema jurisdição e de defesa física de sua propriedade à alguma outra pessoa - a não ser que ele tenha vendido ou transferido sua propriedade (neste caso alguma outra pessoa teria exclusiva jurisdição sobre ela). Ou seja, até que algo tenha sido abandonado, seu proprietário deve ser considerado detentor destes direitos. No que diz respeito a relação com terceiros, todo possuidor de propriedade pode ainda participar das vantagens da divisão do trabalho, da busca de melhorias e da proteção aperfeiçoada de seus direitos imutáveis através da cooperação com outros proprietários e suas propriedades. Todo possuidor de propriedade pode vender para, comprar de, ou adquirir de outra maneira, de qualquer outro, qualquer coisa relativa à proteção suplementar da propriedade, bem como produtos e serviços de segurança. Ainda, todo possuidor de propriedade pode também interromper unilateralmente, a qualquer momento, quaisquer dessas cooperações com terceiros ou alterar suas próprias associações. Por isso, para satisfazer a demanda por proteção e segurança entre possuidores de propriedade privada, é admissível e possível que existirão especialistas ou agências fornecendo proteção, seguros e serviços de arbitragem por uma remuneração, para compradores ou não compradores, de forma voluntária. No entanto, é inadmissível para tais firmas ou agências compelirem alguém a se dirigir exclusivamente a ela para proteção, ou impedir qualquer outra agência de, da mesma maneira, oferecer serviços de proteção; ou seja, nenhuma agência de proteção pode ser financiada por impostos ou ser isentada da competição ("livre concorrência").
Em evidente contraste, um monopólio territorial de proteção e jurisdição - um estado - apoia-se desde o início em um ato inadmissível de expropriação, e assegura ao monopolista e seus agentes uma licença para promover expropriações (taxação). Isto implica que todo possuidor de propriedade fica proibido de interromper sua relação com seu suposto protetor, e que ninguém, à exceção do monopolista, pode exercer suprema jurisdição sobre sua propriedade. Mais especificamente, todos (exceto o monopolista) perdem seu direito à proteção física e à defesa contra possíveis invasões para o estado e deste modo ficam indefesos vis-à-vis às ações de seu alegado protetor. Consequentemente, o preço da justiça e da proteção tem um aumento contínuo e a qualidade da justiça e da proteção cai continuamente. Uma agência de proteção financiada por impostos é uma contradição em termos - "um protetor invasivo" - que, se permitido, resulta em mais impostos e ainda menos proteção. Igualmente, a existência de um monopólio judicial leva à uma constante deterioração da justiça. Porque se não se pode recorrer à justiça a não ser através do estado e de seus tribunais e juízes, a justiça será constantemente corrompida em favor do estado, até que a ideia de leis de conduta humana imutáveis finalmente desapareça e seja substituída pela ideia da lei como uma legislação positiva criada pelo estado. Baseado nestas análises, Rothbard considerou a solução liberal-clássica ao fundamental problema humano da proteção - de um estado mínimo ou vigia-noturno, ou governo "limitado constitucionalmente" - como uma ideia extremamente ingênua e confusa. Todo estado mínimo tem a tendência inerente a tornar-se um estado máximo, uma vez que ao permitir-se à uma agência coletar qualquer imposto, por menor que seja ou para qualquer propósito, esta tenderá naturalmente a aplicar os rendimentos de seu imposto atual na coleta de futuros impostos ainda maiores, para os mesmos e/ou outros propósitos. Semelhantemente, uma vez que uma agência possua qualquer monopólio judiciário, ela tenderá naturalmente a servir-se de sua posição privilegiada para uma nova expansão de sua extensão de jurisdição. Constituições, no fim das contas, são constituições estatais, e eventuais limitações que possam conter - o que é ou não constitucional - são julgadas pelos tribunais e juízes estatais. Portanto, não existe outra maneira possível de se limitar o poder do estado a não ser eliminando-se o estado completamente e, em conformidade com a justiça e os ensinamentos da ciência econômica, estabelecendo um mercado livre de serviços de proteção e segurança." (A Ética da Liberdade, Introdução) Responder
Mises acreditava que o Estado deveria existir, assim como impostos ( baixos ).\r Discordava tanto da anarquia "ingênua" quanto do anarcocapitalismo, visto que ambos pregam a abolição do Estado.\r \r "Governo, como tal, não só não é um mal, mas é a instituição mais necessária e benéfica, pois sem ele nenhuma cooperação social duradoura e nenhuma civilização poderia ser desenvolvida e preservada. É um meio de lidar com uma imperfeição inerente de muitos, talvez da maioria das pessoas. [...] Não é o Estado um mal, mas as deficiências da mente humana e do caráter que exigem imperativamente a operação de um poder de polícia. Governo e Estado nunca podem ser perfeitos, porque eles devem a sua razão de ser à imperfeição do homem e pode alcançar seu fim, a eliminação do impulso inato do homem para a violência, só pelo recurso à violência, a mesma coisa que eles são chamados a evitar . [...] O principal problema político é como evitar que o poder de polícia de tornar-se tirânico. Este é o significado de todas as lutas pela liberdade."\r Ludwig von Mises.\r \r \r "Tributação é uma questão de economia de mercado. É uma das características da economia de mercado que o governo não interferir com os fenômenos mercado e seu aparato técnico ser tão pequeno que a sua manutenção absorve apenas uma fração modesta do total da soma dos rendimentos do cidadão. Então os impostos são um instrumento adequado para fornecer os fundos necessários para o governo."\r Ludwig von Mises. Responder
Em uma sociedade anarquista, estará descartada, totalmente, a possibilidade de que alguém possa, negligentemente, atirar um fósforo aceso e iniciar um incêndio ou, em um momento de raiva, ciúme ou vingança, infligir danos a seu compatriota?\r \r Esta possibilidade esta totalmente descartada hoje? Acho que nao. Nao eh o que eu vejo, todos os dias, no jornal. Responder
Eu n conheço muito bem o anarquismo, muito menos o libertarianismo (se é que são coisas distintas). Aprendi na academia que as pessoas abdicaram de parte da sua autonomia para que houvesse uma entidade capaz de dar ordem às coisas, ao menos de forma a permitir que o homem não seja o lobo do homem... para evitar que o homem destrua a si mesmo ao destruir os outros! Neste sentido eu vivi acreditando que seria necessário a figura do Estado para que pudesse organizar a sociedade de tal forma que ela possa existir. Esta função talvez pudesse ser feita por entidades privadas, contanto que houvesse uma aceitabilidade da população para que assim fosse: um contrato social privado (não sei se estou falando besteira, pois estou divagando livremente). No caso destas funções serem exercidas pelo Estado, para que uma pessoa não seja poderosa ao ponto de cometer excessos indefinidamente, esta representação será escolhida democraticamente pela sociedade e terá prazo determinado! Ao terminar o prazo. Valeria lembrar que o poder não é do governante, e sim do povo! O governante só o representa! (pena que ninguém parece ter noção disto) No caso do poder ficar na mão da iniciativa privada, mudaria em que? Seria uma troca de um monopólio por outro? O poder seria indeterminado no tempo? Haveriam muitas "justiças" e "polícias" paralelas? Acho que termos um Estado é uma forma de simplificar o modelo! A sociedade seria algo muito complexa se não houvesse o Estado! Eu acho que o Estado limita as liberdades, nos Estados socialistas ou totalitários invadem até o pensamento e a forma de expressar, concordo que os impostos são atos violentos, concordo que a obrigatoriedade de votar e de se vacinar também (apesar de que neste último caso, eu faço vistas grossas ao Estado Babá, rs)!
Eu não estou convencido de que a gente deveria lutar para que não houvesse Estado. O que difere os anarquistas nos comunistas é que para ser os comunistas para se alcançar este estado de sociedade sem Estado, deveria passar pela fase socialista vinda através de revolução e expropriação. E no caso dos anarquistas, viriam através da consciência de que o indivíduo é dono de si e de seus desejos não cabendo à ninguém ou instituição intervir em sua liberdade! Neste caso, prefiro o anarquista... E MUITO! Porém, acho que poderíamos ser suficientemente felizes com o estado mínimo. Eu não sou adepto do Estado nulo, mas eu também sou mais liberal do que o liberalista clássico, que dizia que o Estado tem por funções clássicas o provento da educação, saúde, justiça, segurança, relações exteriores e defesa (Roberto Campos), eu tiraria educação e Saúde da função do Estado, por acreditar que liberalizando a universalização com um certo grau de qualidade poderia ser possível! A preocupação maior seria o de fomentar o crescimento para se aumentar o nível de emprego! Porém, conviveria muito bem num país em que o Estado propusesse oferecer educação e saúde, mas... um estado forte, como este que temos? DEUS ME LIVRE! Pagamos caro... a sociedade está sendo excluída do consumo! Não só o consumo de carros e iPads, mas educação, saúde e remédios...
Viajei um pouco... desculpe por qualquer loucura... mas me propus viajar livremente! Responder
1)E quem vigia as polícias privadas? Os consumidores? Os consumidores não ligam se a empresa que traz petróleo pra eles polui o mar, não ligam quando resolvem comprar produtos piratas de um camelô (produtos com copyright) e muitos outros exemplos...
2) Suponha que o sr A acuse o srB de roubar sua propriedade, e daí vai pra casa do sr B com a sua polícia privada.Chegando lá o sr B fala que não roubou nada, e tem a pp dele a postos.O que acontece depois? obs: possíveis respostas: as pp teriam acordos pra impedir conflitos entre elas. Então elas são inúteis.
3)Quando um minarquista fala que 'não daria certo', ele não está comentando o mérito de se aquilo é mais ou menos justo comparado com uma utopia feita de santos.O que ele está falando é que, enquanto as pessoas não forem santas, é melhor ter uma solução mais ou menos do que solução nenhuma. Responder
Vou tentar responder aos teus comentarios adotando uma perspectiva libertaria - nao significa que eu endosse completamente os argumentos.\r \r "Os consumidores não ligam se a empresa que traz petróleo pra eles polui o mar, não ligam quando resolvem comprar produtos piratas de um camelô (produtos com copyright)\r e muitos outros exemplos..."\r \r O problema da poluicao nao eh do consumidor - eh de quem polui e do proprietario da area poluida. Num mundo libertario "radical", ate o mar seria privatizado, e quem poluisse teria que pagar uma indenizacao ao dono daquela area do mar.\r \r Quanto aos produtos de camelo, a maioria dos libertarios com quem eu ja interagi acham que as leis de copyright deveriam ser abolidas.\r \r "obs: possíveis respostas: as pp teriam acordos pra impedir conflitos entre elas.\r Então elas são inúteis."\r \r Se a policia que voce contratou entrou num acordo com outra policia, voce eh, em tese, livre para sair desse contrato e procurar outra empresa de defesa. Da mesma forma, se hoje voce procurar um advogado para te defender numa causa qualquer e ele recomendar que voce aceite termos com os quais voce nao esta de acordo, voce simplesmente troca de advogado.\r \r "ele não está comentando o mérito de se aquilo é mais ou menos justo comparado com uma utopia feita de santos.O que ele está falando é que, enquanto as pessoas não forem santas, é melhor ter uma solução mais ou menos do que solução nenhuma."\r \r O seculo XX foi o seculo mais sangrento na historia: genocidios a torto e a direito, guerras em escala global, conflitos armados por recursos naturais que nem sao tao escassos assim. E ao mesmo tempo, foi o seculo de maior concentracao de poder na mao de poucos soberanos. Enquanto na Europa, na Africa e na Asia voce tinha varias centenas de reis, imperadores, principes e sultoes, no seculo XX o numero de entidades nacionais independentes foi reduzido para menos de duzentos. Nao me parece que os dois faos sejam mera coincidencia.\r \r Como diria o Patri Friedman - let a thousand nations blossom. Responder
Os consumidores não ligam se a empresa que traz petróleo pra eles polui o mar, não ligam quando resolvem comprar produtos piratas de um camelô (produtos com copyright) E por que deveriam? Só porque você deseja isso? Responder
O ANARCOCAPITALISMO É LIBERTÁRIO?
Por David Friedman
Um homem que quer proteção irá demitir patrulheiros que perdem seu tempo assediando minorias. (...) Nenhum policial privado jamais passou horas a fio espionando um banheiro público na esperança de prender pervertidos.
WILLIAM WOOLDRIDGE
Eu descrevi como um sistema privado de tribunais e polícia pode funcionar, mas não as leis que este produziria e faria valer; discuti instituições, não resultados. É por isso que usei o termo anarcocapitalista, que descreve as instituições, em vez de libertário. Ainda está para se provado que essas instituições produzirão uma sociedade libertária, uma sociedade em que cada pessoa é livre para fazer o que bem entender consigo e sua propriedade desde que não use nenhuma das duas para iniciar a força contra outros.
Sob certas circunstâncias, elas não irão. Se quase todos acreditarem piamente que o vício em heroína é tão horrível que não deve ser permitido em qualquer lugar e sob quaisquer circunstâncias, instituições anarcocapitalistas produzirão leis contra a heroína. As leis são produzidas para um mercado e é isso que o mercado quer.
Mas as demandas no mercado são em dólares, não votos. A legalidade da heroína não será determinada por quantos são contra ou a favor dela, mas pelo custo que cada lado está disposto a incorrer de forma a ter o que deseja. Pessoas que querem controlar a vida dos quase nunca estão dispostas a pagar pelo privilégio; em geral, elas esperam ser pagas pelos 'serviços' que prestam às vítimas. E os 'contemplados', sejam por leis contra as drogas, leis contra a pornografia ou leis contra o sexo, sofrem muito mais com a opressão que o prazer derivado pelos opressores. Eles estão dispostos a pagar um preço muito mais alto para serem deixados em paz do que qualquer um está disposto a pagar para mexer com eles. Por essa razão, as leis de uma sociedade anarcocapitalista devem ter uma forte tendência à liberdade.
Assim, o puritanismo compulsório dos 'crimes sem vítima' seria muito mais raro sob o anarcocapitalismo do que sob instituições políticas. Podemos ter alguma ideia de quão raro se considerarmos os custos que tais leis agora impõem às suas vítimas e o valor de tais leis para quem as apoia. Se o valor de uma lei para os apoiadores é menor que o custo para as vítimas, essa lei, pela lógica do artigo anterior, não sobreviverá numa sociedade anarcocapitalista.
Os viciados em heroína pagam mais de $2 bilhões por ano por heroína. Se a heroína fosse legal, seu custo seria muito baixo. Quase todos os $2 bilhões gastos com heroína hoje são o custo da lei, não do vício; os viciados pagam custos adicionais na forma de encarceramento, overdose causada pelo baixo controle de qualidade típico de produtos ilegais e outros efeitos colaterais das leis contra heroína. Logo, os viciados em heroína estariam dispostos, se necessário, a bancar um custo de $2 bilhões ou mais de forma a manter a droga legal. Os não-viciados precisariam de cerca de dez dólares per capita ou quarenta dólares por família, por ano, para bancar a proibição.
Se a escolha tivesse que ser feita na base de um tudo-ou-nada, a opinião pública é tão forte contra a heroína que as pessoas estariam dispostas a arcar com esse custo. Mas uma das vantagens de um sistema de mercado de leis é sua habilidade de adequar o produto, geograficamente ou de outras formas, para os clientes. Se o maior retorno vem de ter heroína ilegal em alguns lugares e legal em outros, esse será o resultado.
A maior parte da população vive em áreas onde com poucos viciados em heroína. Para essas pessoas, o custo de fazer da heroína ilegal na região seria muito pequeno; não haveria ninguém do outro lado se oferecendo para legalizá-la, exceto talvez uns poucos viciados novaiorquinos que gostariam de passar as férias fora da cidade grande e levar seu vício junto. Nessas áreas, as agências de proteção aceitariam agências de arbitragem que veem o uso ou venda de heroína como um crime. Mas as pessoas que moram nessas áreas teriam pouco a ganhar se pagassem um preço muito mais alto para proibir a heroína em Nova Iorque também.
Isso nos deixa com 8 milhões de novaiorquinos não-viciados contra 100,000 viciados, elevando o custo de manter a heroína ilegal em Nova Iorque para os não-viciados para mais de $100 por ano por pessoa. Prevejo que, se instituições anarcocapitalistas surgissem neste país amanhã, a heroína seria legal em Nova Iorque e ilegal na maioria dos outros lugares. A maconha seria legal em quase todo o país.
A essa altura o leitor pode estar ficando confuso. É natural; estou descrevendo a legislação em termos econômicos e você está acostumado a pensar nela em termos políticos. Quando falo sobre pagar por uma lei ou outra, não quero dizer que teremos uma legislatura que literalmente leiloa leis. Quero dizer o desejo de cada pessoa pelo tipo de leis que ela acredita estará refletido nos diferentes preços que ela está disposta a pagar à agência de proteção de acordo com a qualidade do serviço que esta pode prestar em obter a lei que o cliente deseja. Esse conjunto de 'demandas' por leis será reconciliado através do tipo de barganha descrita no capítulo anterior. O processo é análogo à forma que você e eu 'competimos' para que um pedaço privado de terra seja utilizado da forma que queremos. Nossas demandas pela comida que pode ser cultivada nela, pelos prédios que podem ser construídos, possíveis usos recreativos ou seja lá o que for, determinam como ela acabará sendo utilizada.
O que eu venho dizendo é que, assim como o mercado aloca recursos para produzir drogas ilegais em resposta à demanda daqueles que querem usá-las, o mercado tornaria o uso dessas drogas legal em resposta à mesma demanda. A questão óbvia é por que o argumento não se sustenta para tornar o assassinato legal. A resposta é que assassinato fere alguém, e para a vítima é muito mais valioso não ser baleada do que é para o assassino atirar nela. Eu tenho uma demanda por uma lei que diz que você não pode me matar. 'Crimes sem vítimas' não ferem ninguém, exceto no sentido vago de gerar uma indignação moral em pessoas que se aborrecem pelos pecados dos vizinhos. Há pouca demanda no mercado por leis contra eles.
O mesmo efeito geográfico que descrevi para leis contra as drogas também se aplicaria a outras leis. Sob as instituições atuais, as áreas sobre as quais leis se aplicam são determinadas por acidentes históricos. Se a maioria da população de um estado apoia um tipo de lei, todos mundo nesse estado é regido por ela. Sob o anarcocapitalismo, na medida do possível, todos teriam sua própria lei. A diversidade jurídica não pode ser ilimitada, já que a mesma lei deve cobrir ambas partes de uma disputa. Mas é possível haver uma diversidade muito maior que o nosso sistema atual permite. Quando a maioria e a minoria, ou as minorias, estão geograficamente separadas, a maioria está preocupada principalmente em ter as leis que deseja para si; é apenas o nosso sistema político que impõe essas leis à minoria também.
A essa altura do argumento, a questão das pessoas pobres muitas vezes é levantada. Como os dólares votam, os pobres não saem perdendo?
Sim e não. Quanto mais dinheiro está disposto a pagar por proteção, maior a qualidadeque você pode obter e mais você consegue definir os detalhes da lei como quer. Essa é a situação atual, como todos sabem. Nosso sistema político de polícia e tribunais presta um serviço muito melhor para aqueles com a rendas maiores. Aqui como em outros lugares, o mercado não trará igualdade, mas vai melhorar significativamente a situação dos pobres.
Por quê? Porque o mercado permite que as pessoas concentrem seus recursos naquilo que é mais importante para elas. Eu discuti esse ponto mais cedo, no contexto do homem pobre que ao comprar uma necessidade oferece mais que o homem rico que quer o mesmo bem como luxo. A proteção contra o crime não é um luxo.
Atualmente, os gastos governamentais com polícia e tribunais custam cerca de quarenta dólares por ano por pessoa. De acordo com a lei de Friedman, isso quer dizer que proteção particular da mesma qualidade média custaria cerca de vinte dólares. Muitos habitantes do gueto ficariam maravilhados em pagar vinte dólares por ano se realmente recebessem proteção em troca; muitos são roubados em mais que esse valor todo ano como resultado da péssima proteção que recebem do sistema gerenciado pelo governo. Eles ficariam ainda mais felizes se ao mesmo tempo fossem aliviados dos impostos que pagam pela proteção que a polícia do governo não fornece.
Apesar de mitos populares sobre o capitalismo oprimir os pobres, os pobres estão em pior situação naqueles serviços fornecidas pelo governo, como educação, proteção policial e justiça. O gueto tem mais bons carros do que boas escolas. Colocar a proteção no mercado significaria uma proteção melhor para os pobres, não pior. Responder
E se existirem coisas que são inerentemente coletivas? Responder
Artigo muito bom...
Recentemente li um livro do Meira Penna, e ele como minarquista, ataca algumas ideias anarcocapitalistas... É bacana para contrastar... Responder
Oras, qualquer que seja o caso, para se chegar ao anarcocapitalismo de maneira pacífica é preciso passar pela minarquia. O nó já está feito. Você pode cortá-lo fora de uma vez ou desamarrá-lo com cuidado. As consequências serão completamente diferentes.
Chegar ao anarcocapitalismo, partindo de um Estado-Social, sem passar por um Estado mínimo, com certeza só geraria o caos. Provavelmente a sociedade iria clamar bovinamente por mais Estado se por acaso, do dia pra noite, houvesse uma revolução anarcocapitalista. No mínimo, se re-organizariam em feudos ou comunidades, o que pode até parecer bom, mas provavelmente seria feito após alguns episódios grotescos típicos do ser humano.
Sendo assim, acho que o certo seria, a princípio, que os anarcocapitalistas prestassem mais atenção para a minarquia. Diminuir o poder do Estado e aumentar o do indivíduo gradativamente. Depois que engrenar, a gravidade cuidará do resto. Responder
Fernando, O que você sugere? A abolição imediata do Estado? Responder
Hoje nós temos 2 minarquias no mundo. Pode-se ver empiricamente que o modelo funciona. Responder
Vcs tão ligados que no âmbito internacional existe anarquia, né?
Se o Brasil e a Argentina celebram um tratado e uma das partes não cumpre, não há governo supranacional que a faça cumprir.
Mesmo assim, é difícil nego pedir um estado mundial.
Então porque a turma não acredita na anarquia em nivel regional ou individual? Vai entender... Responder
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