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A mágica da Universidade Mises

Dedico este artigo à memória do estudante libertário John David Fernandez, que infelizmente não tive a oportunidade de conhecer, mas que marcou a vida das pessoas que o conheceram. J.D., como era conhecido, foi a primeira pessoa a escrever um artigo sobre a experiência do Mises University, no qual me inspirei para redigir este. J.D. viveu pouco, mas viveu como um homem livre.

Agradeço a Deus pela dádiva de ter conhecido o movimento libertário.

Agradeço aos meus pais por terem me presenteado com esta linda viagem ao Alabama e Geórgia.

E agradeço ao professor Nelson Cantarino, de História Econômica e das Organizações, pela carta de recomendação. Sei que ele não concorda com uma única palavra deste artigo, mas defende até a morte o direito que tenho de dizê-las. Eu também não concordo com uma só opinião dele, mas o admiro pelo ambiente acadêmico de debates e honestidade intelectual que ele propicia em suas aulas.

Introdução: o que é o Mises University e qual a sua importância?

Fazer um curso de economia em plenas férias escolares é algo que, alguns anos atrás, soaria para mim como insanidade.

Economia? Aquelas gigantescas séries de índices, números, e gráficos arbitrariamente despejados por "experts" tentando matematizar as interações humanas, apenas para serem contraditados dias depois pelos fatos observados?  Por que alguém em sã consciência escolheria estudar esta (para usar um termo de Thomas Carlyle) "ciência sombria", sem serventia alguma?

Por muito tempo, mantive este sentimento de desconfiança em relação à ciência econômica.  Isto só mudou quando entrei na faculdade de administração e estudei as disciplinas de microeconomia e macroeconomia curriculares.  E então a desconfiança se transformou em ódio.

Nada daquilo fazia sentido. A ortodoxia mainstream que me foi lecionada não possuía nenhum embasamento epistemológico, nenhuma sustentação empírica, nenhuma consistência lógica.  Pior: possuía graves implicações éticas. Repleta de falsas premissas, falácias utilitaristas e conclusões coletivistas, a doutrina econômica que atualmente prevalece no meio acadêmico me assustou a ponto desenvolver em mim uma rejeição à economia.

Não havia relação entre uma aula e outra ou entre uma disciplina e outra, nem tampouco uma capacidade dos modelos estudados em explicar algum aspecto do mundo real. Eu decorava as fórmulas para passar nas provas, esquecendo-as tão logo entregava a avaliação ao professor. Como resumiu Cristiano Chiocca, era uma "completa conversa de loucos travestida de ciência."

Francis Bacon, em Novum Organum Scientiarum, descreve os falsos ídolos que impedem o homem de adquirir o verdadeiro conhecimento. O filósofo destaca os "ídolos do teatro" (idola theatri) como os mais perigosos.  São representações da realidade que nada possuem de reais, mas que gozam de ampla aceitação devido à sua natureza dogmática. É o caso dos sofismas econômicos ministrados nos cursos superiores do mundo inteiro. São absorvidos sem o devido questionamento, mas não consistem na verdadeira ciência econômica e sim em um disfarce teatral.

Então eu não odiava economia, e sim aquela farsa. A verdadeira ciência econômica me era desconhecida.

Em Living the Truth, o filósofo Josef Pieper afirma que algo é bom se estiver de acordo com a realidade, e que é necessário que a nossa cognição seja capaz de alcançar a essência das coisas. Através dos meus amigos do Instituto Mises Brasil, conheci a única escola econômica consistente com a realidade: a Escola Austríaca de Economia. Maravilhado pelo contato com a essência da economia, nela me aprofundei e percebi quão boa ela é.

Embora não se trate de um campo normativo, seu conhecimento leva qualquer pessoa de caráter e bom senso a conclusões éticas. Sua divulgação poderá libertar a humanidade de séculos de mentiras goebellianas contadas pelo establishment político e contribuir para o fim da tirania estatal.

O que há alguns anos me pareceria insanidade se tornou uma das melhores decisões que eu já tomei. Viajei quase 8000 km até a sede do Mises Institute em Auburn, Alabama, EUA, para estudar economia (dentre outros campos do conhecimento) no curso de uma semana do Mises University.

Trata-se de um curso de escola austríaca de economia e de ciências sociais sob uma abordagem libertária, abrangendo temas como ciência política, ética, história e sociologia. Além das aulas regulares, o aluno pode participar de atividades complementares como filmes, palestras de convidados e eventos sociais.  Ao final do curso, os estudantes podem realizar uma prova escrita opcional para testar seus conhecimentos.  Aqueles que são aprovados podem fazer o Mündliche Prüfung, um rigoroso exame oral. Destes, alguns se classificam para uma etapa final, da qual emergem os três primeiros colocados que ganharão prêmios em dinheiro, oferecidos por doadores do instituto.

A maioria das aulas é disponibilizada online aqui, aqui e através do curso Virtual Mises University, oferecido pelo Mises Academy.

Como disse John David Fernandez, o Mises University é como uma mini-universidade. A admissão se dá mediante uma aplicação para processo seletivo. Há bibliotecas das quais se pode pegar livros emprestados, dentre muitos outros recursos. Há alunos que são summer fellows envolvidos em projetos de pesquisa e que, juntamente com acadêmicos na função de observadores, frequentam os cursos avançados para pós-graduandos.

Os estudantes costumam se instalar no Cambridge Dorm, um alojamento estudantil da Universidade de Auburn que aprimora imensamente nossa capacidade de valorizar a cama e o quarto que temos em casa. É possível, no entanto, se hospedar no Auburn University Hotel, a poucas dezenas de metros de distância.

O credenciamento aconteceu na tarde do dia 20 de Julho, em um Domingo. Após o jantar no próprio instituto, os alunos se reuniram no Wolfe Hall, um grande salão com bancadas e cadeiras cujas paredes mal aparecem por trás das imponentes estantes de livros. E não são livros de autoajuda ou de esoterismo, mas tratados adensados de alguns dos maiores intelectuais da Terra. Alguns deles emprestam seu nome àquela atmosfera acadêmica, escrito em alto relevo na parte mais alta das paredes.

Jeff Deist, o atual presidente do Mises Institute, abriu o evento, destacando a presença de alunos oriundos das mais diversas instituições de ensino, especialmente aquela de maior relevância e desempenho de elite: o homeschooling.

De fato, ser educado em casa é uma dádiva e não vale a pena sequer ir até a esquina para sofrer lavagem cerebral nos campos de doutrinação que as escolas e faculdades do mundo inteiro se tornaram.

Por outro lado, é compensador viajar ao Alabama para se aprimorar no Mises University, onde é possível experimentar um pouco do que a instituição universitária foi na sua origem medieval: um local de livre debate de ideias onde se cultiva aquilo que o Cardeal Newman chama de "hábito filosófico da mente".

Não há doutrinação. Os professores apenas fornecem substrato teórico para que os alunos escolham sua própria convicção, como Otto Maria Carpeaux dizia ser o papel de uma universidade.

O aprendizado é mútuo. As diferenças brutais entre as credenciais acadêmicas dos senior fellows e dos estudantes colegiais não impedem que estes tenham suas ideias debatidas, consideradas ou que até consigam mudar o ponto de vista de um docente.

Os alunos aprendem uns com os outros. Minha colega Maureen Barahona, médica, explicou-me fatos interessantíssimos sobre regulação no setor de saúde.

Acostumado a ver estudantes reclamando da carga de leitura? No Mises University você os verá pedindo sugestões de autores e procurando os professores para autografar livros recém comprados.

Os docentes, por sua vez, são extremamente prestativos em tirar dúvidas dos alunos, e até mesmo em ajudá-los com projetos de pesquisa. O professor Robert Murphy, por exemplo, me enviou um valioso material para a minha pesquisa sobre como uma sociedade libertária evitaria a formação de novos estados.

Naquele que eu chamei de Dia Zero, o professor Thomas Woods proferiu a palestra de abertura, chamada "O Papel da Economia Austríaca no Movimento de Liberdade".  Sintetizando de forma brilhante a simbiose entre a ética libertária e a sólida ciência econômica, Woods ressaltou o fato de a escola austríaca ter conquistado praticamente toda a atenção dos movimentos de liberdade ao redor do mundo. Afirmou também que o Mises University é sua semana favorita. Não demorei muito para entender o motivo.

Aspectos acadêmicos: como é o curso?

O curso é uma ode ao conhecimento. Os alunos anotam não apenas o conteúdo ensinado, mas também os inúmeros insights que florescem nas mentes fertilizadas pelos debates e reflexões.

Os 15 professores (Tom Woods, Andrew Napolitano, Walter Block, Thomas DiLorenzo, Lucas Engelhardt, Roger Garrison, David Gordon, Jeffrey Herbener, Robert Higgs, Guido Hülsmann, Peter Klein, Bob Murphy, Joe Salerno, Timothy Terrell e Mark Thornton) ofereceram mais de 60 aulas de 1 hora de duração cada. Os alunos cursam 37 delas, sendo 19 disciplinas comuns e 18 eletivas.

As disciplinas comuns introduzem o aluno aos conceitos fundamentais da economia.  Logo no primeiro dia (segunda-feira) os estudantes foram familiarizados com a metodologia e a história da Escola Austríaca, com a teoria austríaca do capital, e com os conceitos de valor subjetivo, preços e dinheiro.

Destaco uma aula de David Gordon chamada "Praxeologia, a Método da Ciência Econômica". Em meio às suas piadas, como direi?, tradicionalistas (muitos já as decoraram), o professor apresentou uma fascinante introdução ao estudo lógico da ação humana: a praxeologia, a ciência da ação humana, da qual a economia é um ramo.  Ela parte do axioma da ação humana, segundo o qual o homem age, e de alguns poucos postulados.  A partir disto, a praxeologia deduz logicamente princípios apriorísticos, ou seja, que não podem ser falseados por análises empíricas.  É assim que o verdadeiro conhecimento econômico é adquirido.

E temos uma evidência empírica disto: o professor Gordon adquiriu tanto conhecimento que se tornou uma enciclopédia humana, uma walkingpedia. Pergunte-lhe algum conceito e ele te dirá a nota de rodapé onde ele é citado.

Ao longo do curso, os alunos estudaram aplicações e implicações da praxeologia embasadas por fatos históricos. A impossibilidade do cálculo econômico sob o socialismo, a economia bancária, e a dinâmica dos ciclos econômicos foram alguns dos temas abordados.

As disciplinas eletivas cobriram uma ampla gama de assuntos em diferentes campos da ciência. Muitas vezes elas eram lecionadas no mesmo horário, em salas distintas. E como era difícil escolher qual assistir! Aprender mais sobre a história dos padrões monetários com Joseph Salerno ou reforçar meus argumentos anti-protecionistas com Mark Thornton?

Houve, contudo, uma decisão fácil e definitivamente acertada: inscrever-me no curso especial "A Constituição Americana e o Livre Mercado", ministrado pelo Juiz Andrew Napolitano, um dos grandes nomes do libertarianismo mundial. Possui uma oratória digna de Demóstenes e atualmente é analista sênior de assuntos jurídicos da Fox News.

Para ser aceito no curso é necessário fazer uma aplicação para um processo seletivo específico e se comprometer a frequentar todas as nove aulas.

Durante as aulas comparamos a terminologia jusnaturalista da Declaração de Independência com o positivismo que permeia a Constituição. Analisamos as diversas maneiras por meio das quais o estado interpreta o texto constitucional em proveito da própria expansão. Estudamos casos famosos, muitos dos quais estabeleceram uma perigosa jurisprudência contrária a liberdade e ao livre mercado.

E tudo isto por meio do método socrático, no qual o professor dialoga com o aluno incitando-o à reflexão. Ao ouvirmos o juiz dizer nosso nome, levantávamos como em um tribunal.  Éramos então questionados ou convidados a expor uma opinião a respeito de um caso. Algumas vezes outro estudante discordava e a sala de aula se transformava na Suprema Corte.

Foi neste ambiente verdadeiramente acadêmico que concluímos, por exemplo, pela invalidade processual da tributação. Diferente daquela falácia nebulosa do contrato social que o seu professor de direito lhe fez engolir em sua faculdade mainstream?

Por falar em mainstream, devo ressaltar que as vertentes econômicas ortodoxas foram amplamente cobertas durante o curso. Enquanto as instituições de ensino convencionais omitem a existência da Escola Austríaca por desconhecimento ou por medo, os professores do Mises University expõem constantemente a teoria mainstream de maneira intelectualmente honesta.

Em algumas ocasiões, ideias keynesianas e monetaristas eram apresentadas a título de curiosidade ou de comparação. Soavam como piadas! Em outras, o objetivo era refutá-la diretamente. Na palestra "Uma Crítica Austríaca à Economia Mainstream" o professor Block o fez sem piedade. Aliás, nem mesmo os triângulos macroeconômicos do professor Garrison foram poupados da fúria blockeana! (sim, austríacos também têm suas desavenças internas).

Os cursos convencionais de economia, direito, ciência política e de outras humanidades sofrem de um assustador grau de compartimentação acadêmica. Não há relação epistemológica entre as disciplinas ministradas e não é raro elas se contradizerem. Algumas vezes isto ocorre na mesma aula, como quando um professor afirmou, corretamente, que comparações interpessoais de utilidade são impossíveis; mas minutos depois começou a igualar funções matemáticas de utilidade para justificar impostos.

No Mises University, ao contrário, os princípios estudados se relacionam entre si e com os fatos históricos. A análise do professor DiLorenzo refutando o conceito de monopólio natural é sustentada pelas exposição da natureza do empreendedorismo, na aula do professor Klein.  Os argumentos do professor Terrell demolindo a ideia de que o capitalismo perverte a cultura e a moralidade são complementados pela interessantíssima palestra de Guido Hülsmann a respeito de como a moeda fiduciária provoca degradação cultural e moral.

Foi, aliás, em outra aula do professor Hülsmann que eu entendi a essência, a simplicidade e a beleza do mercado financeiro e seu papel em uma sociedade livre. Nas aulas de finanças da faculdade nos é apresentada uma enxurrada de modelos matemáticos com fórmulas gigantescas que, além de não guardarem relação alguma com o mundo real e de terem falhado miseravelmente em Wall Street, são chatos demais! Muito diferente da útil e agradável abordagem praxeológica de Hülsmann.

E enquanto os comuns dos mortais estiverem entusiasmados com o boom econômico causado pela expansão artificial de crédito, aqueles que assistiram à aula "Previsão e o Ciclo Econômico" de Mark Thornton saberão que a euforia é apenas um sintoma da proximidade da depressão. Terão assim uma chance de se precaverem.

Apesar de a minha posição anarcocapitalista ser anterior ao Mises University, imagino que dificilmente algum resquício de estatismo sobreviveria ao curso. Timothy Terrell e Peter Klein demonstram a superioridade do livre mercado nos setores ambiental e de pesquisa científica, respectivamente. Já Robert Murphy explorou a essência da teoria anarquista em uma análise da produção privada de justiça, segurança e defesa militar.

Se você assistir a essa aula e ainda achar que o estado é superior em prover segurança e paz, pense outra vez enquanto assiste à espetacular palestra proferida pelo professor Robert Higgs durante o curso. Aprenda como o estado se alimenta da guerra enquanto a financia através de meios fraudulentos e de roubo.

Recomendo aos futuros alunos do Mises University que não percam as aulas opcionais. Uma delas foi uma emocionante palestra do convidado especial Gary North. O professor falou sobre as possibilidades da carreira acadêmica no âmbito da tradição austrolibertária, ressaltando que a qualidade dos trabalhos produzidos prepondera sobre a quantidade. E finalizou com a ideia de que, mesmo que sigamos outra profissão, não podemos ignorar o nosso chamado, ou seja, a missão para a qual somos destinados. Para nós, esta missão inclui a difusão e fortalecimento dos ideais de liberdade.

Finalmente, há os painéis com os docentes, um de teoria (mais filosófico) e outro de procedimentos (mais aplicado). Os professores debatem questões formuladas pelos alunos.

O curso do Mises University ensina a questionar. Quando aquele seu livro didático mainstream da faculdade afirmar que existem bens públicos (aqueles que, supostamente, o livre mercado não poderia prover), lembre-se:  o empreendedorismo humano sempre encontra uma solução lucrativa para atender às necessidades das outras pessoas de maneira voluntária. É por isso que alguns são empreendedores e outros são escritores de livros didáticos furados.

Isento de hipocrisia politicamente correta, o curso ensina que ganhar dinheiro (claro que de forma honesta) é bom.

Talvez a maior lição do curso tenha sido um comentário do Juiz Napolitano.  Um homem honrado é fiel aos seus princípios. Em uma terra livre, ele morrerá fiel aos seus princípios em uma cama, cercado pelos seus familiares, incluindo netos e bisnetos. Em uma terra sem liberdade ele morrerá fiel aos seus princípios fuzilado em praça pública. 

Neste curso aprendemos que preservar a liberdade é preservar a vida.

A experiência do Mises University: como é estar lá?

Adentrar as paredes do Mises Institute pela primeira vez é uma experiência memorável. Os nossos heróis intelectuais estão ali. E à disposição dos alunos. (Para ter uma ideia do que isso significa para um libertário, imagine um fã de heavy metal em um curso musical ministrado presencialmente por astros como Ritchie Blackmore, Ozzy Osbourne e Eric Adams).

A decoração clássica combinada com as imponentes fileiras de livros da Biblioteca Murray N. Rothbard confere uma otimista sensação de triunfo da civilização sobre a barbárie.

Em uma grande e impecavelmente organizada mesa de madeira próxima à entrada os alunos apanham guias do evento, material de anotação e um crachá com nome (muito útil para saber como se escreve o nome daquele seu novo amigo polonês).

Nele consta também o nome do seu padrinho, ou seja, a pessoa que pagou pelo seu curso. São doadores do Mises Institute que permitem que este sonho se realize, e que sequer conhecem os estudantes.

Pouco mais adiante, como se a estupefação de caminhar entre gigantes não fosse suficiente, erguem-se as estantes da livraria repletas de joias do austrolibertarianismo. Consumi como um keynesiano, a ponto de ter que comprar uma segunda mala para acomodar os livros. Havia também camisetas, souvenires e pôsteres à venda.

O gerente da livraria, Brandon Hill, tão prestativo quanto conhecedor da Escola Austríaca, está sempre disposto a lhe ajudar a encontrar aquele livro que você queria para surrar seu professor socialista (você pode interpretar esta frase literalmente também, visto que alguns livros têm mais de 1000 páginas).

Minutos após a chegada, conheci pessoalmente meu amigo do facebook, Guilherme Benezra, também libertário. Neste mesmo dia eu reencontraria o editor da Revista do IMB Alex Catharino e faria inúmeros novos amigos e contatos.

Foi então que percebi que o Mises University é mais que um curso de Escola Austríaca e teoria libertária. É uma oportunidade única de conversar pessoalmente com liberais e libertários do mundo inteiro, cultivar amizades, fortalecer o networking libertário mundial e, é claro, se divertir.

Um dos meus professores da faculdade disse que eu só me tornei um libertário por viver no Brasil, e que se eu tivesse nascido em um país rico eu sequer saberia quem foi Ludwig von Mises. Como ele explicaria o fato de haver alunos libertários dos EUA, Dinamarca, Reino Unido, Alemanha, Suécia, Canadá, Israel, Singapura, Suíça, República Checa, França e Holanda no Mises University, além de outros 14 países?

A explicação foi dada pelo próprio Mises e está exposta no balcão da livraria: "Tanto a força quanto o dinheiro são impotentes contra ideias."

O desejo de ser livre permanece vivo nos indivíduos enquanto neles houver algum resquício de natureza humana, independentemente das circunstâncias.  Eventualmente, um contato ainda que breve com ideias de liberdade, aliado à reflexão crítica, pode transformar esta chama tênue em um incêndio indomável. Quando uma pessoa tem a felicidade de passar por esse processo, não há propaganda estatal, ilusão coletiva, nem censura ou ameaça capaz de matar este ideal.

Ao longo daquela curta porém intensa semana vivemos momentos inesquecíveis. Embora tenhamos aprendido muito nas aulas, era fora delas que as experiências mais emblemáticas, informações mais inusitadas e piadas mais espirituosas eram encontradas. Era um brinde à ordem espontânea.

Naquele ambiente mágico, alguns padrões sociais se alteram, tal qual ocorre com alguns padrões da física em um buraco negro. Usar uma camiseta do economista francês Robert Turgot (1727 – 1781) ou um moletom estampado com gráficos comparando as teorias austríaca e keynesiana dos ciclos econômicos torna você um descolado. E se você disser que não é anarquista as pessoas olharão com estranheza.  Lá você encontra meninas bonitinhas lendo textos de epistemologia praxeológica e de política monetária. E quando você lhes conta uma piada de keynesiano elas não só entendem como riem.

Seja na rodinha de piadas politicamente incorretas com Tom Woods e Jörg Guido Hülsmann no lobby do Auburn University Hotel, seja acessando uma rede sem fio de um aluno chamada NSA Surveillance nos corredores do alojamento, é fácil notar o aguçado e peculiar senso de humor naquelas paragens.

Certa vez almoçamos na mesa da entrada com Walter Block e quase nos esquecemos de voltar à sala de aula. Perdíamos a noção do tempo enquanto debatíamos com ele as mais profundas implicações da teoria libertária, tais como contratos implícitos e a (falta de) ética das reservas fracionárias. Onde quer que houvesse uma janela de tempo, lá estava Block cercado de estudantes entusiasmados, explorando as mais intrigantes questões.

Na terça-feira, todos os alunos e professores se reuniram no anfiteatro externo para a tradicional foto oficial. Com sua forma semicircular e bancadas de tijolos em degraus ao longo do declive, o local lembra mesmo um anfiteatro da Grécia Antiga. Para além do último degrau estende-se um verdejante gramado com mesas e cadeiras, emoldurado por arbustos e flores. O "filósofo em meditação" de Rembrandt, que deve ter passado muito tempo enfurnado, iria gostar muito de sentar ali para relaxar e apreciar as discussões ao entardecer.

E as pessoas incorporaram a maneira rothbardiana de encarar a noite: como uma criança. Alguns desafiavam Tom Woods para uma partida de xadrez. Outros apreciavam um show de jazz no restaurante do hotel. Havia também as sessões de filme nas salas do alojamento, ou de jogos de tabuleiro. E havia, como não poderia deixar de ser, os baladeiros. Raros eram os seguidores do Professor Garrison, que iam dormir cedo.

Na quinta-feira à noite alunos e professores foram a um bar com karaokê, onde os libertários mostraram que sua gama de talentos não se limita às ciências sociais. Não faltaram alunos dançarinos, roqueiros e cantores country. Mas o grande número da noite foi o Professor Robert Murphy cantando Margaritaville e outros sucessos.

Dois alunos se destacaram de forma especial no curso: Andrew Widener e Guilherme Benezra. Widener estava dando muito trabalho ao Professor Woods, exímio enxadrista acostumado a aplicar rápidos massacres contra seus oponentes.  Por causa disso o programa do curso foi alterado. A partida de xadrez oficial da semana, marcada para as 18:45 da quinta-feira, seria originalmente um duelo entre Woods e Walter Block. Passou a ser um embate entre Woods e Widener. E o aluno venceu, refutando qualquer falácia de apelo à autoridade!

Benezra conseguiu uma façanha ainda mais notável. Fez o circunspecto Professor Joseph Salerno rir! Alguns dizem que foi uma ocorrência inédita.

Na tarde de sábado houve o jantar da premiação, onde foram anunciados os alunos aprovados no Mündliche Prüfung, os aprovados com honras (dentre os quais este que vos escreve, modéstia a parte) e os três alunos que receberam os prêmios em dinheiro: Edgar Duarte Aguilar, Matei Apavaloaei e Kyle Marchini 

MU WOODS 2.jpgTive a honra de sentar com James Herring, que se tornou libertário na década de 1980 após ler alguns artigos de Lew Rockwell, e hoje é um dos doadores do Mises Institute. Notem na história deste homem a importância da divulgação das ideias de liberdade.

Conforme o evento ia se aproximando do fim, uma saudade antecipada começava a se agigantar. As pessoas já ensaiavam as despedidas quando Tom Woods comentou conosco sobre a "depressão pós-Mises University" que o acomete todo ano. Respondi-lhe com o mesmo comentário que dirigi ao Juiz Napolitano: "alegremo-nos, pois aconteceu".

Woods estava com a camiseta mais descolada de todas, estampada com a foto de Joseph Salerno e sua frase-bordão: "That's Unbelievable!" (Isto é inacreditável). É a melhor maneira de resumir o que é a experiência do Mises University. Inacreditável.


1 voto

autor

Paulo Kogos
é um anarcocapitalista anti-político. Estuda administração no Insper e escreve para o blog Livre & Liberdade e no seu blog pessoal.

  • Lucas C  18/08/2014 11:39
    Parabéns, Paulo.
    Acho que você soube transmitir a alegria e o valor do ambiente. Bateu aquela inveja! Quem sabe um dia?
    Agora uma pergunta: caso você tenha filhos, pratica o homeschooling?
    Talvez eu não esteja num estado anárquico evoluído o bastante para ser capaz de enfrentar isso com a minha própria prole ainda.
    O pessoal do Mises Institutes mundo afora conversa sobre escolas primárias libertárias?

    Abraço.
  • Paulo Kogos  18/08/2014 18:56
    obrigado Lucas

    acredito que o fato de não termos uma sociedade anarquista é mais um motivo para evitar ao maximo as escolas convencionais, e assim, livrar as crianças da doutrinação estatista

    os libertários discutem muito o homeschooling e material online, ferramentas pra autodidatas etc

    sugiro esse podcast do Cleber Nunes
    www.mises.org.br/FileUp.aspx?id=240

    e este site do Projeto School Sucks
    schoolsucksproject.com/
  • Pedro Ivo  18/08/2014 14:27
    Paulo Kogos,

    como faço para te contatar e pegar o material que o Murphy te passou sobre sociedades libertarias evitarem novos estados?
  • Paulo Kogos  18/08/2014 18:56
    paulokogos@gmail.com ou facebook (Paulo Kogos)
  • André Luiz S. C. Ramos  18/08/2014 14:31
    Paulinho,
    eu fui em 2012 com os amigos Daniel Marchi, Tullio Bertini, Thiago Guterres e Gabriel Oliva (que também foi aprovado com honras, como você).
    Foi realmente a melhor experiência acadêmica da minha vida!
    Só acho que faltou você mencionar a melhor coisa da semana do Mises University: o show da banda anarquista Fly by Radio, no SkyBar, na sexta-feira à noite. A vocalista dá show em todos os sentidos, o guitarrista toca como poucos, e o repertório é simplesmente sensacional: só rock'n roll de primeiríssima qualidade! Quando eles tocam "sweet home, Alabama", o público dá uma improvisada bem interessante no refrão. Será que esse ano não teve o show? Ou teve e você não compareceu pra ficar estudando pro teste?
    Abraço.
  • Paulo Kogos  18/08/2014 19:07
    André, esse show não teve! vou ter que voltar lá ano que vem hehe
  • Daniel Marchi  18/08/2014 19:49
    A Universidade Mises tem um problema sério: dá vontade de voltar todo ano.
  • Típico Filósofo  18/08/2014 15:42
    As federais brasileiras também gozam de tal liberdade:

    Eleger Marx ou Bakunin, Stalin ou Trotsky, maoismo ou leninismo; estratégia gramsciana ou levante armado, bebedeira ou fumaça para aliviar o comprometimento social; tarifas protecionistas, real desvalorizado ou os dois; feminismo por patrocínio estatal ou por reserva de mercado estatal, socialismo utópico ou socialismo científico, tomada dos meios de produção imediata ou gradual, 15% ou 20% do PIB à educação - que será de Paulo Freire ou de seus intérpretes.

    Fazer greve em setembro ou outubro, vestir camisa vermelha com símbolo do Che Guevara ou de militantes e intelectuais menos conhecidos; carga tributária adicional ou inflação adicional, culpar o capitalismo pela corrupção em um instituto público sem quaisquer motivos financeiros para querer detê-la ou culpar a falta da educação supramencionada; culpar os EUA ou o capital internacional em geral; PSOL, PSTU, PCO, PCdoB ou PT; fazer campanha da DCE contra o aparato corporativista dos empresários que nem sabem dos nossos rituais de ódio mensais ou simplesmente fazer contatos; vestir sutiã ou vestido na próxima manifestação e por aí vai.

    Dado o arranjo acima, somente um indivíduo incapacitado pela classe em que nasceu não veria a liberdade de escolha e permanecer ileso em escolher ter a perna ou o braço chicoteado para começar uma sessão de tortura.
  • Alexandre M. R. Filho  18/08/2014 16:52
    Quem é Eric Adams?
  • Leandro Koller  18/08/2014 19:40
    Ahhhhh...

    Isto tem alguma coisa a ver com a sua inatividade nas redes sociais?
    haha :)
  • Marcelo L.  18/08/2014 19:48
    Paulo, em qual mês ocorre essa semana no Mises University e qual foi o é custo mais ou menos?

    Obrigado e parabéns pela experiência.
  • Paulo Kogos  19/08/2014 01:22
    costuma ser entre junho e agosto, geralmente em julho

    alem da pessagem vc vai gastar com hospedagem (65 dolares p/noite no alojamento, e entre 170 e 190 no hotel)

    eh o único custo q vc vai ter além da passagem
  • Elias  19/08/2014 12:22
    No mises.org já tem a data do Mises University 2015: 19 a 25 de julho.
  • Paulo h  18/08/2014 19:49

    O maior problema de alguns austríacos é praticamente rejeitar modelos matemáticos como a Teoria dos Jogos. Mesmo que a praxeologia seja válida, eu não consigo enxergar como ela possa fazer um trabalho tão desenvolvido sobre ciências sociais como a Elinor Ostrom fez sobre os commons usando game theory, por exemplo.
  • Diego  19/08/2014 11:56
    Concordo plenamente com o Paulo h, os libertário falam da matemática como se ela fosse oposta a lógica formal, quando na verdade ela é a mais pura lógica. O grande problema consiste em traduzir de forma coerente os problemas da vida real para a linguagem matemática, que permite o uso de um arcabouço que vem se desenvolvendo a milênios pela humanidade e uma vez obtidos os resultados, traduzi-los novamente para a linguagem comum. Admito que falta critério a muitos economistas no uso de técnicas econométricas pode manchar o uso das mesmas, mas é perceptível que elas permitem extrair padrões e informações valiosas para a análise que de outra forma nunca seriam perceptíveis. Também percebo em alguns libertários uma dificuldade em compreender os métodos, uma vez que seu custo de entrada é altíssimo, mais uma vez dominados estes são de profunda utilidade prática.
  • Jece  19/08/2014 13:01
    Essa de que rejeitamos porque não entendemos não cola. Uma simples pesquisa sobre a formação de alguns dos principais libertários mostra que há até phd em matemática.

    Exemplo brasileiro:

    mises.org.br/Article.aspx?id=1627

    Tente outra vez.
  • Diego  19/08/2014 14:52
    Calma Jece, o que não faltam também são marxistas matemáticos... não falei de forma genérica! De maneira geral a escola austríaca é muito mais vendável do que a economia mais ortodoxa, minha crítica não se dirige aos que sabem e mesmo assim rejeitam, esses tem suas fundamentações próprias e sim aos que repudiam as técnicas quantitativas sem sequer se dar ao trabalho de conhecê-las, ouvindo uma crítica aqui acolá de seus congêneres. É a mesma coisa de você falar mal do comunismo e nunca ter lido algo a respeito. Mais uma vez digo que essa não é uma definição genérica, não se aplica de forma alguma a todos, mas certamente não são raras as cabeças em que essa carapuça cabe...
  • Daniel  19/08/2014 19:16
    Essa pegadinha do "só é consistente se tiver matemática" é velha hein...

    Os modelos matemáticos são belíssimos, no séc. XX tiveram um incrível desenvolvimento etc e tal. Eles só tem um probleminha. São incapazes de refletir a ação humana nos mercados, a criatividade empresarial, a dinâmica do sistema de preços, o aprendizado diário de todos os agentes.

    Economistas matemáticos se escondem atrás do biombo de suas técnicas avançadas, de suas enormes bases de dados, de seus softwares de última geração. Não deixa de ser uma forma muito sofisticada de NÃO ENTENDER a economia do mundo real, dos indivíduos reais.

    De qualquer forma os estatistas e engenheiros sociais agradecem os serviços prestados pelos economistas matemáticos (e econometristas) desde 1900 e bolinha.

    MAIS MISES, MENOS WALRAS
  • Diego  19/08/2014 23:28
    Daniel, em momento algum falei que a matemática é condição necessária a consistência de um argumento, só ressaltei que é uma ferramenta com grande utilidade prática, em especial a estatística que ajuda a extrair dos dados informações que não são evidentes. Desculpe, mas sua posição parece preconceituosa... todo modelo matemático é derivado de um modelo mental lógico, vale ressaltar que, em regra, estes modelos são usados para analisar situações bem específicas e que a extrapolação dessas conclusões para casos diversos, onde as premissas não são verdadeiras, não são válidas. Reconheço que alguns economistas fazem uso indiscriminado ou descuidado dos mesmos. Enfim, não planejo com esse post convencer ninguém, fiz apenas um inocente comentário e sem saber toquei a ferida de alguns...
  • Silvio  20/08/2014 15:37
    Mas como confiar em modelos matemáticos se a base da economia é o valor e o valor é algo subjetivo, ou seja, não necessariamente lógico?
  • Henrique Barcelos  20/08/2014 16:30
    Um dia resolvi pegar um livro de teoria dos jogos na biblioteca da universidade. Li um pouco e desisti.

    Todas as premissas partem do princípio de que todo ser humano age de forma "lógica", apresentam a "forma ótima" de se sair bem em um "jogo", mas raríssimas são as pessoas que põem em prática esse tipo de coisa. No final, a maioria das pessoas age de acordo com a vontade própria, sem um pensamento analítico por traz, o que torna o escopo de aplicação da teoria dos jogos muito limitado para ser expandido para toda a economia.
  • Diego  21/08/2014 00:30
    Henrique, ninguém pressupõe que os indivíduos conhecem o modelo e o utilizam na tomada de decisões, o modelo só assume que os indivíduos sabem o que é melhor para se dada as informações de que dispõe e daí a dedução é puramente lógica. Sem assumir a racionalidade, o que implicaria que os indivíduos agem de forma puramente aleatória, é impossível fazer qualquer inferência sobre o comportamento deles! Mas se você parar para pensar, é bem razoável que os indivíduos tomam suas decisões visando o melhor para se, e assim fazem a melhor jogada se esta estiver disponível. A metáfora do jogo é utilizada para situações que envolvem interação estratégica, ou seja, que a ação de um indivíduo afeta ou é afetada pelas ações dos demais. Veja também que esses modelos que você começou a ler são os mais simples, que assumem hipóteses mais fortes, isso é uma questão pedagógica partir do simples para o complicado.
  • Felipe  29/01/2015 03:43
    Olá, Diego. Eu sou matemático.

    A teoria dos jogos é consistente e perfeitamente aplicável, o problema reside no fato de que sabemos que:

    1-Existe uma decisão que posso tomar agora que é especialmente para mim, extremamente benéfica.

    2-Existe outra decisão que posso tomar agora que é benéfica para mim e para outra pessoa.

    3-Existe outra decisão que posso tomar agora que é benéfica para mim, para outra pessoa e, em presença de fatores terceiros, para outra pessoa também.

    Etc..

    A questão de um (na verdade de vários, rs) milhões é: que decisão é essa?

    Essa pergunta é extremamente fácil de responder em um horizonte de eventos relativamente simples, geralmente discreto, que a matemática computacional abstrai para resolver esses problemas. Para uma simulação do mundo real ela é impraticável. No mais ela praticamente ignora que pessoas diferentes possuem habilidades e vontades diferentes. Se alguém te ordenasse que se tornar lixeiro seria bom para você e para o resto da comunidade você iria aceitar de bom grado? Eu não

    Tome como exemplo: em uma certa vila pode ser considerado benéfico para os agentes ativos e passivos que o agente A se torne médico e o agente B se torne professor. No entanto, o agente A pode não ter a mínima vontade, vocação ou habilidade inata para ser médico, o mesmo pode acontecer com o agente B. Além disso, a vila está conectada ao mundo, na falta de um médico local, um médico forasteiro pode ser contratado, o que muda completamente a configuração do sistema dinâmico e da tomada de decisões ótima de cada vilão.
  • anônimo  23/08/2015 14:25
    'Olá, Diego. Eu sou matemático.'
    Muito prazer, eu sou capricórnio.
  • Diego  20/08/2014 23:33
    Olá Silvio, para isso foi criado o conceito de utilidade que é uma medida implícita, não mensurável. A teoria microeconômica tem como mérito assumir apenas a racionalidade (completude e transitividade), assim seguir por duas abordagens: O Axioma da Preferência Revelada, que assume menos ainda, ou a Abordagem das Curvas de Indiferença onde se supõe ainda a continuidade e concavidade das funções. Essas são as hipóteses básicas dos primeiros modelos, mas isso foi aprimorado com modelos que envolvem incerteza ou que relaxam alguma dessas hipóteses. Emfim, exitem formas bastante engenhosas de abordar esse tema, sem precisar observar o valor diretamente.
  • Daniel  21/08/2014 18:51
    Sem dúvida, Diego, tais modelos são bastante sofisticados e apresentam muitas variações. São irretocáveis em termos de cálculo matemático. Só não dizem respeito à ação humana.
  • Diego  22/08/2014 17:33
    Daniel, não perderei essa chance de beber de sua enorme sapiência, poderia me dizer o que o faz pensar assim??? E se isso é verdade, porque muitas das conclusões destes modelos corroboram com muitos pensamentos desenvolvidos pela escola austríaca? Para criticar um modelo você deve olhar para suas hipóteses e para o que ele se propõe a explicar, a maioria dos modelos microeconômicos faz suposições relativamente simples como a de que os indivíduos sabem ordenar suas preferências, em outras palavras que eles podem comparar bens e decidir qual o que lhe gera mais satisfação. Outra suposição razoável no ambiente de consumo é que as preferências são transitivas: a>b e b>c => a>c é uma suposição lógica. E quanto sua crítica anterior de que os modelos "São incapazes de refletir a ação humana nos mercados, a criatividade empresarial, a dinâmica do sistema de preços, o aprendizado diário de todos os agentes", tudo o que você falou já foi estudado por meio de modelagem matemática, com uma série de insights fundamentais para o desenvolvimento da ciência. Quem espera um descrição totalmente fiel e geral da realidade por meio de equações provavelmente baterá a cara na parede, mas se limitar seu estudo a situações rotineiras que mostram certa frequência e estabilidade certamente pode-se extrair informações valiosíssimas usando o ferramental matemático.
  • Antônio  30/08/2014 00:33
    O Diego disse:
    "a maioria dos modelos microeconômicos faz suposições relativamente simples como a de que os indivíduos sabem ordenar suas preferências, em outras palavras que eles podem comparar bens e decidir qual o que lhe gera mais satisfação. Outra suposição razoável no ambiente de consumo é que as preferências são transitivas: a>b e b>c => a>c é uma suposição lógica"

    Só para te mostrar como que isso pode ser muito bonito de se ouvir, mas muito fraco na prática:

    Quanto à capacidade de ordenação: caso tenhamos informação perfeita sobre os bens (abstração teórica que "mata" a ação humana incerta), ok, vale a teoria. Mas e se não houver? E qual a teoria que garantirá a completude da informação disponível das coisas? "Dado um conjunto de informação" esse negócio pode até funcionar, mas onde exatamente está escrito em pedra que a informação não se altera? Você consegue, honestamente, criar um modelo realmente significativo sobre algo incerto??? A econometria pega o histórico e vê padrões. Nada de errado em usar isso para descrever o que aconteceu, mas se for para prever algo, como você lidará com eventos incertos (que não podem ter probabilidade definida a priori). Como exemplo: como você poderia prever, por qualquer método econométrico, quando seria desenvolvido máquinas colheitadeiras em meados do século XIX? Você realmente acha isso possível? Se acha, por quê você não vê professores de estatística bilionários? Eles não poderiam prever a explosão do valor de mercado da Google, por exemplo?


    Quanto à transitividade: ela não vale sempre, pois a valoração humana é subjetiva.
    Imagine a seguinte situação: você ganhou 2 prêmios, trata-se de 1)um sorteio com 100% de chance ganhar uma viagem para uma dentre 10 cidades, o sorteio será tal que a chance de cada cidade é de 10% e 2) uma única revista turística de uma das dez cidades. Você é obrigado a escolher a revista antes.
    E aí? Será que o desconhecimento do futuro afeta sua escolha? Se você ganhar uma passagem para a cidade A, você vai querer receber a revista turística da cidade B? E se a cidade A for a pior cidade do mundo e a cidade B for a melhor? Você vai querer ficar passando vontade ou vai simplesmente preferir nem ver a revista para não passar vontade? Entre a viagem, a revista e o nada; se você for obrigado a escolher 2, nesse ambiente de informação com probabilidades determidadas, você saberia posicionar a priori qual a melhor ordem que vai lhe gerar a melhor satisfação marginal (a marginal, não a média, afinal preços não são definidos pela média)? Ainda estamos no terreno probabilístico, do risco. Você consegue imaginar quando ainda há eventos incertos?


    Prever eventos incertos é impossível. Daí a impossibilidade de prever eventos econômicos, pois estes são uma reunião de ações humanas incertas... Ache uma solução pra isso e por favor nos instrua a respeito. Já até coloquei aqui para me avisar no e-mail comentários desse texto. No aguardo.
  • Diego  30/08/2014 16:42
    Olá caro "anônimo"! Vejo que você fez o dever de casa e tal. Mas, sim! Todas as suas críticas já foram absorvidas pela teoria a pelo menos uns 60 anos. Quando você critica a restrição do conjunto de informações, dizendo que elas são multáveis e assim não poderíamos em um modelo absorver esse tipo de mudança. Bem, perceba que as informações importantes para a valoração da maioria dos bens ou são fixas em um intervalo curto de tempo ou, se variáveis, são tão indispensáveis que o indivíduo não tomaria a decisão de consumo, por exemplo, sem atualizá-las. Deixe-me ilustrar, sabemos que o preço é um sintetizador de informações, contém informações dos custos de produção, das características do mercado (oferta e demanda), custos de logística, tributos, etc. sendo assim, é impensável supor uma situação de compra em que não se fale de preços.

    Seguindo em sua argumentação, você comete um erro tosco de confundir teoria microeconômica com econometria, em quanto a primeira tenta explicar a realidade através da dedução lógica, a segunda é uma mera ferramenta que tenta testar a teoria. E mais uma vez reitero que estatística não é mágica, ela aponta o caminho, traz a tona informações contidas nos dados que não são facilmente perceptíveis, mas é apenas uma ferramenta analítica.

    Quanto a transitividade, você percebe o quão esdrúxulo é o seu exemplo?! Um fraca adaptação do Paradoxo de Machina (1987)... Novamente, quando se trata de um modelo, eles tentam reproduzir uma filete da realidade, cujas conclusões são aplicáveis nos contextos onde foram introduzidos, eventualmente existirão casos extremos onde o modelo falha, mas normalmente estão fora do contexto original. No caso do seu exemplo, ele não contradiz diretamente a transitividade, na verdade, ele contradiz o Axioma da Independência que é um condicionante para expandir a transitividade a ambientes com incerteza. Lembre-se que a teoria básica do consumidor é estática e sem incerteza, o que se aplica em muitos casos do cotidiano, mas não a todos! Teorias mais completas foram desenvolvidas para o estudo da incerteza, mas não a clássica teoria do consumidor a qual eu havia me referido em outros post.

  • Antonio  30/08/2014 19:09
    Não entendi este argumento.

    "Deixe-me ilustrar, sabemos que o preço é um sintetizador de informações, contém informações dos custos de produção, das características do mercado (oferta e demanda), custos de logística, tributos, etc. sendo assim, é impensável supor uma situação de compra em que não se fale de preços."

    Parece que você só introduziu a questão e esqueceu de apresentar um caso prático.

    Eu não entendi a conexão entre alguma coisa ter preço com o problema da informação.

    Uma máquina que faz máquina de escrever tinha preço antes da popularização dos computadores e nem por isso os projetos de fabricação de máquina de escrever foram viáveis. Eu até posso estar errado, mas isso tudo me parece o ato de recortar a realidade para fazer valer a teoria. Eu nem acho isso errado para fatos passados, mas para previsão, sinceramente, eu não consigo ver como prever um evento incerto (por exemplo o nível em que ocorrerá a popularização dos computadores para verificar a viabilidade de se produzir máquinas de escrever, isso sem mencionar o custo de pesquisa exigido para isso)

    Ai depois você diz:


    "Seguindo em sua argumentação, você comete um erro tosco de confundir teoria microeconômica com econometria, em quanto a primeira tenta explicar a realidade através da dedução lógica, a segunda é uma mera ferramenta que tenta testar a teoria. E mais uma vez reitero que estatística não é mágica, ela aponta o caminho, traz a tona informações contidas nos dados que não são facilmente perceptíveis, mas é apenas uma ferramenta analítica."

    Bom, você já ouviu falar correlação espúria e nos testes de significância das variáveis (já não lembro mais os nomes).
    Você sabe que o máximo que a estatística (viável economicamente) pode te dar é um resultado provável. Como que o provável prova o certo? Ainda mais com os problemas que eu apontei? Tanto é verdade que a própria estatística utiliza métodos para a incorporação de dados mais recentes para aprimorar previsões. Eu gostaria que você definisse melhor o domínio de validade da estatística para a economia para discutirmos coisas concretas... O que são exatamente essas "situações rotineiras que mostram certa frequência e estabilidade" em que "certamente pode-se extrair informações valiosíssimas usando o ferramental matemático"???


    Na sequência:
    "Quanto a transitividade, você percebe o quão esdrúxulo é o seu exemplo?! Um fraca adaptação do Paradoxo de Machina (1987)... Novamente, quando se trata de um modelo, eles tentam reproduzir uma filete da realidade, cujas conclusões são aplicáveis nos contextos onde foram introduzidos, eventualmente existirão casos extremos onde o modelo falha, mas normalmente estão fora do contexto original."

    O que você está dizendo é que toda regra tem exceção. Mas e se a regra for a geração da exceção? Sabemos que a diversificação de produtos e serviços em economias saudáveis é um componente crucial do mercado como um todo. Basta você comparar a produção comunista (baixíssima diversidade) com a produção capitalista (alta diversidade). A diversificação, por sua vez, é um dos inúmeros modos de adicionar incerteza no processo de mercado, até porque a realidade tá se lixando para as nossas tentativas de entendê-la. Nesse contexto em que as atividades mais rentáveis (busca de nichos de mercado e até a criação de segmentos econômicos inteiros) são simultaneamente a forma normal dos mercados funcionarem e geradores de incerteza, você acha realmente possível prever algo de útil nessas circunstâncias? Se sim, por favor me explique ("como se eu tivesse 6 anos ajudaria" :) ). Eu sinceramente não vejo saída nisso.


    Seguindo:
    "Lembre-se que a teoria básica do consumidor é estática e sem incerteza, o que se aplica em muitos casos do cotidiano, mas não a todos!"

    Bom, se a questão é resolver modelos com hipóteses pré-definidas, realmente eu não conheço nada melhor que a Matemática. A estatística pode ter seu papel sim nesse contexto. Eu só acho que a realidade está tão além dos modelos que já vi que simplesmente não consigo dar credibilidade a algo exclusivamente fundamentado em estatística.


    Por fim, você já deve ter percebido que eu não sou tão hostil a opiniões contrárias e procuro realmente aprender com os outros. Eu só preciso de provas materiais da eficácia das teorias por outros levantada. É justo isso, não?
    E particularmente sou um fã da área de exatas. É a área que melhor tenho desempenho.
    Aguardo suas considerações.





  • Marcos  30/08/2014 20:47
    Sobre os preços transportarem informação, sugiro este artigo:

    mises.org.pt/posts/artigos/a-importancia-do-mecanismo-de-precos/

    O resto de sua postarem confesso que não tive a paciência de ler. Sua formatação não ajudou.
  • anônimo  20/08/2014 15:58
    Queria fazer dois breves comentários a um belo parágrafo desse excelente artigo que me deixou tocado:

    "O desejo de ser livre permanece vivo nos indivíduos enquanto neles houver algum resquício de natureza humana, independentemente das circunstâncias".

    Se é assim (e acredito que seja assim mesmo), então vivo rodeado de pessoas não humanas, pois raríssimas são aqueles do meu convívio que vêem a liberdade como algo bom e desejável. Às vezes tenho a impressão de que vivo num presídio e meus demais colegas de carceragem foram institucionalizados.


    "Eventualmente, um contato ainda que breve com ideias de liberdade, aliado à reflexão crítica, pode transformar esta chama tênue em um incêndio indomável. Quando uma pessoa tem a felicidade de passar por esse processo, não há propaganda estatal, ilusão coletiva, nem censura ou ameaça capaz de matar este ideal".

    De fato, o sentimento de felicidade que se tem ao abraçar a liberdade e se ver finalmente livre da lavagem cerebral imposta toda uma vida é incrível. Lamento profundamente pelas pessoas que vão viver toda uma vida sem conhecer o sentimento de ser livre por causa do amor irracional que têm pelas suas correntes.
  • rawk  10/09/2014 20:52
    "Não há doutrinação. Os professores apenas fornecem substrato teórico para que os alunos escolham sua própria convicção"

    Essa passagem me chocou. Não há doutrinação? Pela amostra aqui no mises.br, juraria que fosse o inverso. É díficil ler um artigo sequer aqui no Mises sem encontrar um forte viés ideológico.
  • rawk  10/09/2014 20:42
    O problema é que os austríacos fazem parecer com que ser libertário = aceitar a escola austríaca. Pelo contrário. Libertarianismo não necessariamente implica adesão ao pensamento econômico austríaco. Existem vários economistas não-austríacos no espectro libertário. Libertarianismo é uma filosofia política. Economics é outra coisa.
  • Fabiano  18/08/2014 23:02
    Muito bacana seu relato. Fiquei com muita vontade de ir. Quem sabe um dia!
  • Henrique  20/08/2014 00:24
    Como eu faço para conseguir uma oportunidade dessa também?
  • Carlos Marcelo  21/08/2014 00:11
    Kogos, qual a lógica do professor que disse que vc é libertário pq é brasileiro? O que tem a ver ser de um país desenvolvido com não conhecer Mises?
  • anônimo  21/08/2014 09:32
    A lógica deve ser atribuir os atos de um governo autoritário e corrupto (o brasileiro) à simples existência de governo.Sendo que nos países ricos a vida já seria satisfatória e vc estaria mais preocupado em administrar sua empresa do que com o governo ser assim ou assado
  • Mr. M  28/08/2014 21:46
    Caro Paulo Kogos,
    Que experiência magnífica! Será que um dia eu vou poder ter uma experiência dessas? Obrigado por compartilhá-la!
    Se não fosse por você, não teria me tornado um libertário: seu artigo sobre a verdadeira face de Mandela, que me trouxe para o site, começou tudo. Lhe sou muito grato.
    Um abraço.
  • Emerson Luis, um Psicologo  31/08/2014 20:03

    Muito interessante! Alguém podia fazer um documentário sobre esse evento!

    * * *
  • MarceloLR  29/01/2015 01:55
    Sou de Goiânia-GO, fiz 20 anos recentemente, infelizmente não pude começar a faculdade ainda, os motivos foram a minha indecisão sobre qual curso fazer e o fato de eu não ter me preparado o bastante(sou meio procrastinador). Ainda ano passado tomei minha decisão, quero me formar em direito e economia.
    No 2º semestre de 2013 comecei a conhecer as ideias libertárias, através dos vídeos do Portal Libertarianismo minha mente se abriu e a vontade de aprender mais sobre Escola Austríaca aumentou. Sei q não será na faculdade q terei um contato maior com a Escola Austríaca, mas farei o possível para divulgá-la.
    Espero, daqui poucos anos, ter a mesma experiência q o Paulo Kogos teve na Mises University.
  • anônimo  23/08/2015 18:14
    Direito e economia, dois cursos inúteis.A não ser que vc queira ser um parasita público, talvez assim direito sirva pra alguma coisa.
  • anonimo  23/08/2015 02:23
    The question is: Who cares?


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