Consumidores não provocam recessões

Há pelo menos uma coisa extremamente positiva nas colunas de Paul Krugman no The New York Times: quando um economista austríaco quiser explicar para alguém como a ciência econômica convencional causa destruição em massa, ele poderá sempre contar com Krugman, que inevitavelmente estará fornecendo um exemplo de maneira clara e concisa. Isso é ótimo porque nos poupa muito trabalho, já que não precisaremos primeiro descrever a argumentação para depois derrubá-la.

Até mesmo o leitor ocasional da imprensa financeira sabe que ela é dominada pelo pensamento keynesiano "do lado da demanda". Por exemplo, ainda no início do ano, durante o debate sobre o pacote de estímulo do governo americano — aquele que consistia na devolução de parte do dinheiro de impostos para que os cidadãos pudessem gastar mais —, a principal preocupação dos keynesianos e monetaristas era que os contribuintes resolvessem utilizar parte desse reembolso para pagar as faturas do cartão de crédito, ao invés de torrarem tudo nos shopping centers, como esses economistas queriam. Porem, ao leitor nunca foi dada uma explicação meticulosa e clara da visão de mundo que gera essas noções malucas.

Entra em cena Paul Krugman. Em um recente artigo, "Quando os Consumidores se Rendem", o mais recente ganhador do Nobel finalmente esclarece qual a metodologia por trás dessa loucura. Vamos então aproveitar essa oportunidade para mostrar por que esse foco no gasto do consumidor não só é errôneo, como também é totalmente perigoso.

"O paradoxo da poupança"

Krugman primeiro nos informa das (supostamente) más notícias: "A capitulação dos consumidores americanos, há muito temida, enfim chegou... [O] gasto real com consumo caiu a uma taxa anual de 3,1 por cento no último trimestre; o gasto real em bens duráveis (coisas como carros e TVs) caiu a uma taxa anual de 14 por cento".

Paremos aqui por um momento. Muitos economistas de esquerda — inclusive Krugman — viviam nos avisando, durante anos, que o déficit comercial americano estava muito alto, e que a taxa de poupança do país estava muito baixa. Portanto, seria o caso de alguém pensar que uma queda nos gastos com consumo seria uma coisa boa. Bem, parece que não funciona bem assim: Krugman nos informa que "o momento escolhido para essa nova sobriedade foi completamente infeliz.... Os consumidores estão cortando gastos exatamente quando a economia americana caiu numa armadilha da liquidez".

E agora vem a teoria por trás de todas essas ponderações. De acordo com Krugman,

[U]m dos pontos altos do semestre, se você é um professor de macroeconomia introdutória, ocorre quando você explica como a virtude individual pode ser um vício público; como que as tentativas dos consumidores de fazer a coisa certa — ou seja, poupar mais — pode acabar fazendo com que todos piorem. A questão é que se os consumidores cortam seus gastos, e nada entra para substituir esses gastos, a economia irá cair numa recessão, reduzindo a renda de cada um.

Na realidade, a renda dos consumidores pode até cair mais do que seus gastos, o que significa, portanto, que sua tentativa de poupar foi um tiro que saiu pela culatra — uma possibilidade conhecida como o paradoxo da poupança.

Por onde começar?

A questão mais central da ciência econômica — voltando a uma época ainda anterior à metáfora de Adam Smith sobre a "mão invisível", a pelo menos até o livro de Bernard Mandeville, a Fábula das Abelhas, de 1732 — é que, em um sistema baseado na propriedade privada, os vícios privados podem ser aproveitados em benefício de todo o público. Mais especificamente, uma economia de mercado faz com que os gananciosos homens de negócio tenham de ficar acordados a noite toda pensando num jeito melhor de satisfazer seus clientes.

Além dessa verdade (que foi descoberta recentemente (em termos relativos) na história humana), as pessoas sempre souberam que um indivíduo sábio se abstém do consumo quando quer acumular poupança. A razão por que os humanos do século XXI são tão fantasticamente ricos comparados àqueles do século XI não é meramente por uma questão de inovação tecnológica. É também o resultado do crescente estoque de máquinas, ferramentas e equipamentos (isto é, "bens de capital") que veio sendo transmitido de geração para geração. "Todo mundo sabe" que a parcimônia leva à prosperidade, ao passo que a gastança pródiga leva à ruína. Há até uma passagem famosa na Bíblia sobre esse tópico.

É verdadeiramente chocante saber que Krugman não apenas ensina a seus alunos o exato oposto — a saber, que as virtudes privadas geram vícios públicos, e que poupar empobrece a todos da comunidade —, mas também se regozija com a sua demonstração. Felizmente para o bem da sanidade, é muito fácil expor suas falácias.

O enganoso modelo do "fluxo circular"

De forma resumida, o problema com a análise keynesiana de Krugman é que ela é estática, o que significa que ela não leva em consideração a passagem do tempo, e consequentemente é incapaz de abordar a estrutura do capital de uma economia moderna. O "diagrama do fluxo circular" ilustra a maneira como Krugman vê a economia:

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Assim, durante uma recessão, Krugman acha que (por alguma razão) os consumidores ficam esquisitos, perdem o bom senso e começam a gastar menos. Isso reduz as receitas obtidas pelas empresas com a venda de bens e serviços. E isso significa que as empresas passam a ter menos dinheiro para gastar com fatores de produção (recursos naturais, horas de trabalho e bens de capital). Isso significa que a renda obtida pelos proprietários desses itens — isto é, por todos na economia — inevitavelmente cai. E com uma renda menor, as pessoas — em  seus papéis de consumidores — não podem mais gastar com bens e serviços da maneira como gastavam antes, o que faz com que as receitas das empresas caiam ainda mais. E por aí vai até que a economia de mercado se afunde em uma grande depressão. Repetindo: Krugman acredita que o livre mercado não é capaz de resolver esse problema porque os indivíduos racionalmente reagem ao início de uma crise aumentando seu efetivo em caixa (isto é, eles passam a poupar mais, retendo mais o dinheiro que possuem), o que só faz piorar a crise.

De acordo com Krugman, para a economia sair desse círculo vicioso, o governo deve persuadir os consumidores a voltar a gastar mais. Para atingir esse intento, o governo pode cortar a taxa de juros ou fazer programas de devolução de dinheiro de impostos. Mas, algumas vezes (como na atual situação), esses remédios são insuficientes, e então passa a ser função dos políticos virarem adultos e começarem a gastar dezenas de bilhões de dinheiro emprestado. Apenas isso poderá dar um Ctrl-Alt-Del na economia, que voltará a ter um crescimento sustentável.

Há tantas falhas e falácias nesse pensamento krugmaniano que é difícil saber por onde começar. Primeiramente, se a gastança estatal pode turbinar as receitas de todas as empresas, o que fará aumentar a renda nacional, o que irá permitir mais expansões dos negócios, etc. etc., então por que utilizar essa técnica apenas durante recessões? Por que não recomendar que o governo esteja sempre praticando déficits orçamentários, para assim poder criar empregos e aumentar o PIB?

"Bem", diriam os keynesianos, "em uma situação de pleno emprego, um estímulo à demanda agregada não faria com que as empresas contratassem mais trabalhadores. Uma nova demanda por produtos ou serviços a essa altura serviria apenas para aumentar os preços, e não para aumentar o produto real".

Ah, agora estamos chegando a algum lugar. Com toda essa conversa sobre gastos do consumidor e renda nacional, havíamos nos esquecido de que a produção deve ocorrer antes de as pessoas poderem consumir alguma coisa. Não importa quantas cédulas de dinheiro haja na sua carteira, você não pode "demandar" um aparelho de TV a menos que a loja de fato tenha uma unidade na prateleira. Retrocedendo uma etapa, não importa quantos consumidores estejam fazendo fila na porta da loja, o gerente só poderá abastecer suas prateleiras com aparelhos de TV se o fabricante já as tiver produzido anteriormente. E, é claro, o fabricante só poderá atingir esse objetivo se ele encontrar mão-de-obra suficiente, bem como os componentes necessários para se fabricar as TVs. E isso independe da quantidade de dinheiro que o gerente da loja lhe ofereça. Cédulas de dinheiro, por si só, não criam os insumos — e nem a qualificação — necessários para a fabricação de bens de capital.

Agora podemos ver por que o diagrama de fluxo circular acima é um modelo bem enganador da economia. Ele nos faz pensar que a produção de bens de consumo final pode imediatamente aumentar e cair de acordo com o "gasto". Essa estrutura seria válida caso não houvesse bens de capital, o que significa que todos os bens de consumo e serviços seriam produzidos imediatamente, como se os trabalhadores fossem capazes de pegar os bens da natureza e os transformar imediatamente em bens de consumo final.

Por exemplo, em uma economia composta de massagistas e malabaristas, o diagrama do fluxo circular poderia ser útil. Se alguém quisesse uma massagem e tivesse o dinheiro, o massagista poderia prontamente iniciar o trabalho. A única restrição física sobre a produção do "setor massagista" seria o número de massagistas e o fato de que eles precisam dormir em algum momento. Além do insumo "mão-de-obra", o único outro item envolvido é uma mesa de massagem, mas a mesma mesa pode ser utilizada na produção de milhares de massagens antes de precisar ser trocada.

Mas as coisas são diferentes com a maioria dos bens e serviços produzidos em uma economia moderna. Em quase todos os setores, os trabalhadores se apresentam no local de trabalho e utilizam ferramentas e equipamentos que ampliam enormemente sua produtividade. Ademais, a esmagadora maioria dos trabalhadores não utiliza suas ferramentas diretamente nos recursos naturais em estado bruto. Ao invés disso, eles utilizam suas ferramentas para transformar os materiais que lhe são enviados por outras empresas.

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  Há tantas falhas e falácias nesse pensamento krugmaniano que é difícil saber por onde começar.


Seria interessante retroceder uma etapa e considerar o que acontece diariamente no mercado mundial. Há bilhões de seres humanos espalhados pelo planeta. Alguns trabalham em plataformas de petróleo, extraindo vários barris da commodity. Outros trabalham na agricultura, plantando e colhendo trigo. Outros mais trabalham em navios petroleiros ou dirigem carretas, transportando as matérias primas (ou os produtos já acabados) para os mais diferentes lugares. Como consumidores, vemos apenas a ponta final de uma estrutura de produção que pode ter começado muitos anos antes. Os bens finais que você compra na loja são feitos de componentes que provavelmente passaram por várias mãos diferentes, em dezenas de países, antes de tudo ser combinado num só item que você coloca no seu carrinho de supermercado.

Uma vez que entendemos a assombrosa complexidade do verdadeiro "problema econômico" — como que toda essa entrelaçada atividade humana é coordenada de modo a fazer a produção fluir suave e previsivelmente —, podemos ver a absurdidade das receitas keynesianas que exigem gastança pura e simples. Durante uma recessão, não é verdade que toda a produção em todos os setores irá cair exatamente na mesma percentagem. Pelo contrário, alguns setores encolhem mais do que outros. Isso ocorre porque alguns setores sofreram prejuízos enormes e precisam liberar uma parte (ou o todo) de seus trabalhadores e recursos para setores mais lucrativos. Esse rearranjo leva tempo, principalmente porque alguns bens intermediários críticos precisam ser produzidos para que as operações mais ao final da estrutura de produção possam recomeçar. (Nesse artigo, eu conto uma rápida história descrevendo esse processo para uma hipotética ilha de 100 pessoas.)

Os keynesianos estão certos quando dizem que, em uma situação de "pleno emprego", suas propostas não farão com que sejam construídas mais TVs e mais caminhões para desafogar a linha de montagem. Mas mesmo em uma situação de desemprego maciço, as soluções keynesianas não ajudam. Para enfatizar: simplesmente não é possível aumentar do nada a atividade de todos os setores em, digamos, 1%, de modo a elevar o produto novamente aos níveis pré-recessão; isso é fisicamente impossível, pois, não importa quanto dinheiro os consumidores joguem na economia, a Ford só vai conseguir produzir 1.000 Rangers a mais se ela comprar 4.000 pneus específicos a mais. E o produtor de pneus, por sua vez, só será capaz de atender as encomendas da Ford se puder comprar a quantidade necessária de borracha extra. E o produtor de borracha só vai atender as encomendas se.... e por aí vai.

Quando a recessão é resultado de um boom artificial induzido pelo banco central (como ocorreu na recente bolha imobiliária), o declínio econômico é um período de reajustamento, que é quando os recursos que foram mal alocados são canalizados de volta para usos mais apropriados, consistentes com as preferências do consumidor e com a realidade tecnológica. Quando o governo intervém, tentando impedir esse reajustamento, ele acaba simplesmente mantendo essa distribuição insustentável dos recursos escassos. Os gargalos passam a ser freqüentes nas milhões de diferentes estruturas por onde "escorre" o fluxo de recursos naturais, que vão desde inúmeras mãos de trabalhadores até as prateleiras das lojas.

Não há nada de paradoxal quanto à poupança

Para finalizar, seria útil esclarecer exatamente o que acontece em uma economia de mercado quando os consumidores decidem poupar mais da sua renda. A primeira coisa a ser percebida é que as pessoas não decidem se vão "gastar" ou não; elas decidem se vão gastar no presente ou no futuro. Por exemplo, imagine que milhares de casais vivendo em uma grande cidade decidam, num belo dia, parar com suas saídas semanais para jantar em restaurantes com o intuito de poupar dinheiro para um cruzeiro de verão. À primeira vista, parece que isso iria afetar a economia. Afinal, os restaurantes locais irão ver suas vendas caírem, o que fará com que eles comprem menos itens de seus fornecedores e demitam alguns empregados. Os fornecedores e trabalhadores, consequentemente, terão menos renda pra gastar, o que afetará as vendas em outros setores também.

Entretanto, desde que os empreendedores envolvidos na indústria de cruzeiros navais antecipem o eventual aumento na demanda por seus serviços, eles irão contrabalancear exatamente os efeitos citados acima ao contratarem mais trabalhadores e outros itens para se prepararem para os atarefados meses de verão. A nova poupança acumulada (que antes era gasta em restaurantes) leva a uma diminuição da taxa de juros, o que talvez permita às operadoras de cruzeiros contraírem mais empréstimos para pagar por um navio adicional. Portanto, a decisão de poupar mais não reduziu a renda ou o emprego total, uma vez que todos se ajustaram aos novos padrões de gastos. E não seria diferente em qualquer outro cenário, como um em que milhares de pessoas se tornam adeptas de uma vida saudável e decidem gastar seu dinheiro em vegetais ao invés de em fast food.

Por outro lado, é verdade que, nas circunstâncias do atual pânico financeiro, os gastos com consumo caíram por causa do temor e da insegurança, e não por causa de alguma alteração fundamental no timing do consumo. Mas, ainda assim, a questão permanece a mesma: as pessoas reduzem o atual nível de consumo com a intenção de poderem "gastar dinheiro" no futuro. A diferença entre a nossa atual situação e a história do cruzeiro relatada acima é apenas que as pessoas nesse momento não estão muito certas sobre quando, e nem com o quê, irão gastar essa poupança extra.

Todavia, a melhor solução ainda é impedir o governo de se intrometer e deixar que as pessoas encontrem a solução dos problemas voluntariamente. A incerteza não é falsa; as pessoas realmente não sabem o que irá acontecer no mês seguinte. Nessa situação, é totalmente apropriado que a economia pare de produzir tantos iPods e outros objetos afins, permitindo que haja um acúmulo temporário dos recursos utilizados na produção desses itens não essenciais.

O que é especialmente irônico em tudo isso é que, mesmo em seus próprios termos, as recomendações de Krugman não fazem sentido. Quer dizer, mesmo se ignorarmos todos os reais ajustes físicos que devem acontecer para se reformar a economia à luz do insustentável boom imobiliário, ainda seria o caso de se defender que o governo não faça nada. Se a atual crise de fato fosse, em grande medida, o resultado de um pânico irracional e de um entesouramento, então um ativismo governamental iria apenas deixar as pessoas mais incertas sobre o futuro. Em particular, ninguém faz qualquer idéia do que a dupla Paulson & Bernanke irá anunciar amanhã em relação a empresas financeiras e hipotecas. Se a intenção é tranqüilizar os consumidores de que tudo está normal, por que querer ressuscitar as ferramentas do manual de estratégias do New Deal?

Há mais uma contradição que deveríamos mencionar. A essência do paradoxo da poupança e da armadilha da liquidez é a percepção de que as empresas não irão expandir suas operações se não houver demanda para seus produtos. Mas se Krugman e outros keynesianos são capazes de ver que a interrupção do consumo é apenas temporária, então os empresários do setor também o são. E para aqueles setores em que a interrupção dos gastos não é temporária — por exemplo, construtores da casas atualmente estão tendo vendas muito baixas, e isso não se deve a um entesouramento irracional da parte dos consumidores —, então os gastos do governo com o intuito de "preencher o vazio" somente irão deturpar as coisas ainda mais.

Uma produção sustentável de longo prazo é aquela em que os produtos das empresas emergem do fluxo de produção exatamente quando os consumidores querem comprá-los. Os preços de mercado e o sistema de lucros e prejuízos fornecem a melhor maneira de permitir que os empresários façam essas previsões. Se o governo começar a comprar, digamos, máquinas de fotocópia, mesmo que não precise delas, isso pode de fato criar empregos temporários em algumas empresas, mas os proprietários sabem que não podem confiar nessa demanda porque ela está sujeita a caprichos políticos. Portanto, os esforços do governo irão apenas confundir os empresários que estão tentando configurar sua capacidade produtiva para atender a demanda futura.

Conclusão

Em sua discussão sobre o "paradoxo da poupança", Paul Krugman comprova que ele não é um economista — ou, pelo menos, não é um muito bom. Suas recomendações políticas são baseadas em um modelo keynesiano em que não se considera o tempo e nem a estrutura do capital de uma produção. As recessões são, na realidade, causadas por desarranjos nessa estrutura inacreditavelmente complexa — desarranjos esses causados pela intervenção governamental, principalmente na área monetária —, e é necessário haver um período de produção abaixo do normal para que essa estrutura se conserte a si própria. E o que é mais importante: os consumidores estão fazendo a coisa certa quando aumentam sua poupança durante uma recessão. Se acabar com uma recessão fosse tão simples quanto colocar as pessoas para gastar, então recessões não seriam algo tão recorrente.


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SOBRE O AUTOR

Robert P. Murphy

é Ph.D em economia pela New York University, economista do Institute for Energy Research, um scholar adjunto do Mises Institute, membro docente da Mises University e autor do livro The Politically Incorrect Guide to Capitalism, além dos guias de estudo para as obras Ação Humana e Man, Economy, and State with Power and Market.  É também dono do blog Free Advice.




"Por exemplo, o relativo à questão estrutural, que devido ao orçamento praticamente ser engessado pelos gastos com servidores, aposentados e pensionistas, tem-se muita dificuldade em fazer qualquer redução ou enxugamento da máquina estatal."

Na verdade, isso foi abordado no artigo.

O fato é: durante a expansão do crédito, quando a quantidade de dinheiro na economia aumentava continuamente, a arrecadação dos governos estaduais não parava de subir. Consequentemente, os governadores não paravam de criar novos gastos. Era uma farra que foi vista como perpétua.

Agora que o crédito secou, a oferta monetária estancou e a economia degringolou (com o fechamento de várias empresas), o aumento previsto das receitas não ocorreu. Na verdade, pelos motivos explicados no artigo, as receitas estão caindo. Mas os gastos contratados continuaram subindo.

Gastos em ascensão e receitas caindo -- é claro que a conta não vai fechar.

O RJ teve o problema adicional da lambança feita na Petrobras, o que reduziu bastante as receitas do estado com a extração de petróleo. Mas, mesmo que a Petrobras estivesse supimpa, a situação do estado continuaria calamitosa. Um pouquinho melhor do que é hoje, mas calamitosa.

Lição: é impossível brigar contra as leis da economia.

"a partir de 2009, os estados puderam voltar a se endividar. [...] Aí os estados passaram a se financiar, ou a financiar seus investimentos, através de endividamento e não de a partir de suas receitas. E mais com o dado de que o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, assinou (uma a uma) autorizações de crédito pra estados e municípios que tinham classificação de crédito C e D."

Como você corretamente colocou, os estados eram avalizados pelo governo federal. Eles só podiam pedir emprestado se o governo federal fosse o fiador do empréstimo.

Vale ressaltar que esses empréstimos aos estados são efetuados pelos bancos estatais (com a garantia do governo federal). E esse foi exatamente o tema do artigo.

Esses empréstimos dos bancos estatais direcionados aos governos estaduais também permitiram que eles inchassem suas folhas de pagamento, mas sem qualquer garantia de que as receitas futuras continuariam cobrindo esse aumento de gastos.

Como a realidade se encarregou de mostrar, isso não ocorreu.

No final, tudo passa pelos bancos estatais e sua expansão do crédito de acordo com critérios políticos.

Obrigado pelas palavras e grande abraço!
Posso me meter nessa contenda.

Roberto, analisei o nexo temporal de necessidade x invenção dos medicamentos e diria que sim, Thiago está correto.

E pensando sobre isso, a necessidade antes da criação engloba tudo aquilo que escapa a ação humana e interfere em nossas vidas, como doenças, mudanças climáticas e a gênese química e biológica. Porém o cerne da Lei de Say não é o apriorismo da criação como antecedente da necessidade, mas sim de como o mercado valora a criação, e se por essa valoração intrínseca ela se perpetua ou não através do tempo. Mas vamos voltar ao exemplo do Thiago.

Por exemplo, se analisarmos técnicas de irrigação em uma biosfera árida, e existem centenas delas. A partir daqui conseguimos estabelecer o cenário de solo árido (criado por... enfim eu acredito em Deus, mas quem quiser acredite no ocaso), a necessidade subjetiva de irrigação para agricultura, e a ação humana, que irá mover recursos escassos para ali produzir, calculando custos e impondo preços, e em contrapartida novamente a ação humana, que irá verificar se esses custos são viáveis, comprando ou não os frutos daquela terra.

Com isso conseguimos estabelecer um nexo causal entre a necessidade primeira e a criação posterior, onde o agente primário criador daquele cenário árido não está entre nós. Não sabemos o por quê de ser árido. O criador desse quadro não o vendeu para nós, logo esse agente não busca o mesmo resultado que nós - o lucro. Só nós, o solo e a oportunidade subjetiva de aproveita-lo para produzir e prosperar.

O mesmo paralelo podemos estabelecer entre a doença e a medicina, onde nós somos o terreno criado pelo agente oculto, e neste terreno habitam doenças causadoras de distúrbios (também criadas pelo mesmo agente).

Apriorísticamente desde quando nascemos existe a necessidade primária de solução, ou o resultado é muitas vezes a morte. A partir dessas quase infinitas necessidades, profissionais de todas as partes do mundo criam desde os primórdios da nossa espécie técnicas e substâncias para, se não possível resolver, mitigar a necessidade trazendo conforto ao doente.

Nesse emaranhado de técnicas foram se perpetuando as mais eficientes E mais econômicas, tanto ao doente quanto ao profissional. Novamente conseguimos enxergar o nexo causal, onde a ação humana só existe após a doença, e com ela cessada, a ação humana também cessa. Sendo mais lúdico, remonto as palavras do Mestre: "Os sãos não precisam de médico".

Para concluir, os homens que estão a frente de seu tempo são aqueles que não somente criam antes da necessidade, basicamente inventando-a (afinal, quem diria como um Iphone é útil sem saber que ele existe?), mas aqueles que conseguem lidar com a necessidade criada pelo agente oculto de forma mais efetiva que seus pares, em menos tempo, e de forma mais econômica.

Obrigado por quem leu até aqui.
Leandro, me referi que em um período ou em uma ''reforma'' anunciada, seria mais racional seguir essa ordem..

E mais, eu disse:

''Eu entendo que cortar as tarifas e permitir importar carro usado, iria de fato ser positivo, ao mesmo tempo aumentaria o desemprego substancialmente nessa grave recessão e pior: O desemprego iria continuar se o empreendedorismo continuasse como esta''

Ai que ta, mesmo sobrando dinheiro para as pessoas consumirem, investirem, pouparem e empreenderem, nessa recessão e nessa burocracia asfixiante o efeito não seria tão significante, imagine nesse cenário nacional onde empreender é coisa pra maluco, uma recessão tremenda, um governo intervindo mais novamente e etc, como que poupança vai surgir, consumo, empréstimo, renda....
Repito, você esta completamente correto sobre esses efeitos lindos, só que isso em um país fora de recessão e um pouquinho mais livre... Não vejo que esses feitos aconteceriam no Brasil nesse caos atual, uma economia que no ranking de liberdade economica fica junto a países socialistas....Entende?

Sera mesmo que os resultados seriam significantes?
Essa a questão sobre ''a situação atual''.

Mas você fez eu perceber um ponto que eu antes não havia pensado, muito obrigado!

''A única maneira garantida de fazer reformas é havendo uma "ameaça" concreta e imediata. No Brasil, sempre foi assim.

Por outro lado, ficar empurrando a situação com a barriga, à espera do surgimento de uma "vontade política" para fazer uma mudança que não é urgente (e não será urgente enquanto não houver livre comércio) é garantia de imobilismo.''

Ainda acho essa ameaça utópico aqui, porque:
Que político estaria disposto a abrir a economia mas continuar engessando a economia nacional? Uma contradição pura, se algum burocrata eleito tiver disposto a abrir a economia, muito provável que ele também estará disposto a facilitar o comercio nacional. Nunca vi um exemplo de um cara que chegou e falou ''temos que abrir a economia pro mundo, mas devemos criar toda dificuldade para as pessoas empreenderem''
Ele nunca daria esse tiro no pé e criar essa ameaça que você falou, até porque mesmo que fizesse, os empresários chorariam pela volta da reserva de mercado porque é caro a produção aqui e o burocrata voltaria a estaca zero...

Por outro lado você exagerou um pouco sob minha colocação:

''Essa ideia de que primeiro temos de esperar o governo ter a iniciativa de arrumar a casa para então, só então, conceder a liberdade para o indivíduo poder comprar o que ele quiser de quem ele quiser é inerentemente totalitária''

Acho que o que der pra fazer primeiro que faça, não acho que devemos esperar o governo arrumar pra então abrir.
No meu comentário eu também quis dizer que se algum presidente estivesse disposto a fazer uma reforma pró-mercado, que então fosse assim, acredito que seria mais eficiente e com menos ''choro'' assim. Você sabe, Argentina, Brasil e afins são países inviáveis, você quer fazer reforma trabalhista nego chora, reforma da previdência nego chora.... Imagine o que os empresários brasileiros não iriam fazer quando soubessem que um presidente esta disposto a destruir as reservas de mercado amanha....
Eu acho que ''politicamente'' também seria mais eficiente do jeito que eu falei...

Agora se tivermos a oportunidade de acabar com as reservas de mercado amanha, antes de qualquer outra reforma, que ACABE!. Seria uma conquista e um passo rumo a liberdade e por isso os resultados não importariam, eu questionei a significancia desses resultados no Brasil de hoje, não acredito que seria como você disse por causa do nosso desastre e dessa economia estatal. Nunca que vou ser contra esse passo, no máximo como eu falei, em uma reforma liberal geral eu iria ''adia-la por um ano''.
Principalmente olhando mais pra realidade ''Política'' e como o País e seu povo é.

''Não faz sentido combater estas monstruosidades criando novas monstruosidades. Não faz sentido tolher os consumidores ou impor tarifas de importação para compensar a existência de impostos, de burocracia e de regulamentações sobre as indústrias. Isso é querer apagar o fogo com gasolina. ''

Não tem lógica mesmo, nesse seu comentário brilhante você respondeu como se eu fosse um protecionista, o que não é o caso kkk.
Eu apenas levantei a reflexão que: Se tivesse um cara do IMB na presidência, com carta branca pra fazer o que quiser, acho que seguir a ''ordem'' que eu disse seria mais racional, politicamente mais viável (daria pra conter melhor o choro) e por ai vai...

Nesse seu trecho, você não esta me contra-argumentando e sim um protecionista que eu não presenciei..kkkk

Novamente, não defendo o protecionismo de maneira alguma, só disse que em uma reforma austríaca no Brasil, as tarifas de importação deveriam ser extintas depois de certas reformas(não demoraria, seria uma das prioridades sim).
E questionei a significancia dos efeitos sob nossa situação atual.
Se esse fosse o tema do referendo amanha, eu votaria contra?
Obvio que não, independente de qualquer coisa....

Foi isso que eu quis passar....

tudo de bom e Grande Abraço!
Sim. A sorte é que, na prática, elas não são impingidas. Há tantos requisitos que têm de ser encontrados para que tais restrições sejam impingidas que, na prática, isso não ocorre.

https://www.hoganlovells.com/~/media/hogan-lovells/pdf/publication/competition-law-in-singapore--jan-2015_pdf.pdf

Aliás, veja que interessante: o caso mais famoso em que essa medida foi aplicada foi quando a CCS (Competition Commission of Singapore) multou 10 financistas por eles terem pressionado uma empresa a retirar uma oferta do mercado.

Ou seja, o governo, uma vez que ele existe, atuou exatamente naquela que é a sua função clássica: coibir a coerção a terceiros inocentes. No caso, coibiu uma pressão que estava sendo feita a uma empresa que estava vendendo produtos (seguro de vida) mais baratos.

www.channelnewsasia.com/news/business/singapore/10-financial-advisers/2611160.html

Eu quero.
Opa, eu também tenho correlações irrefutáveis!

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i.imgur.com/xqOt9mP.png

Caso queira mais é só pedir!


P.S.: ah, só para você não mais ser flagrado como desinformado, os irmãos Koch financiam o Cato Institute, que é inimigo figadal do Mises Institute. Os Koch desprezam o Mises Institute e seus integrantes. E o Mises brasileiro sobrevive das doações de voluntários, como você. Faça a sua parte!

www.mises.org.br/Donate.aspx
Sim e não.

De fato, se todo o crédito fosse para consumo -- uma coisa irreal, pois o crédito para consumo é o mais caro e arriscado --, o efeito imediato seria o aumento dos preços dos bens e serviços. Muitas pessoas estariam repentinamente consumindo mais (maior demanda) sem que tivesse havido qualquer aumento na oferta.

Só que tal aumento de preços mandaria um sinal claro para empreendedores: tais setores estão vivenciando aumento da demanda; ampliem a oferta daqueles bens e serviços e lucrem com isso.

Ato contínuo, a estrutura de produção da economia será rearranjada de modo a satisfazer essa nova demanda impulsionada pelo crédito.

Mas aí, em algum momento futuro, acontecerá o inevitável: se essas pessoas estão se endividando para consumir, como elas manterão sua renda futura para continuar consumindo? A única maneira de aumentar a renda permanentemente é produzindo mais, e não se endividando mais.

Tão logo a expansão do crédito acabar, e as pessoas estiverem muito endividadas (e tendo de quitar essas dívidas), não mais haverá demanda para aqueles bens e serviços. Consequentemente, os empreendedores que decidiram investir na ampliação daqueles setores rapidamente descobrirão que estão sem demanda. Com efeito, nunca houve demanda verdadeira por seus produtos. Houve apenas demanda artificial e passageira.

É aí que começa a recessão: quando vários investimentos errados (para os quais nunca houve demanda verdadeira) são descobertos e precisam ser liquidados.

E de nada adiantará o estado tentar estimular artificialmente a demanda para dar sobrevida a esses investimentos errados. Aliás, isso só piorará a situação.

Se um empreendedor investiu em algo para o qual não havia demanda genuína, ele fez um erro de cálculo. Ele imobilizou capital em investimentos que ninguém realmente demandou. Na prática, ele destruiu capital e riqueza. Cimentos, vergalhões, tijolos, britas, areia, azulejos e vários outros recursos escassos foram imobilizados em algo inútil. A sociedade está mais pobre em decorrência desse investimento errôneo. Recursos escassos foram desperdiçados.

O governo querer estimular o consumo de algo para o qual nunca houve demanda natural irá apenas prolongar o processo de destruição de riqueza.

O que realmente deve ser feito é permitir a liquidação desse investimento errôneo. O empreendedor que errou em seu cálculo empreendedorial -- e que, no mundo real, provavelmente estará endividado e sem receita -- deve vender (a um preço de desconto, obviamente) todo o seu projeto para outro empreendedor que esteja mais em linha com as demandas dos consumidores.

Este outro empreendedor -- que está voluntariamente comprando esse projeto -- terá de dar a ele um direcionamento mais em linha com os reais desejos dos consumidores.


Traduzindo tudo: a recessão nada mais é do que um processo em que investimentos errôneos -- feitos em massa por causa da manipulação dos juros feita pelo Banco Central -- são revelados e, consequentemente, rearranjados e direcionados para fins mais de acordo com os reais desejos dos consumidores.

A economia entra em recessão exatamente porque os fatores de produção foram mal direcionados e os investimentos foram errados.

Nesse cenário, expandir o crédito e tentar criar demanda para esses investimentos errôneos irá apenas prolongar esse cenário de desarranjo, destruindo capital e tornando a recessão (correção da economia) ainda mais profunda no futuro. E com o agravante de que os consumidores e empresários estarão agora bem mais endividados, em um cenário de inflação em alta -- por causa da expansão do crédito -- e sem perspectiva de renda.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Pedro Ivo  13/04/2012 08:55
    O link 'Rangers' não está conduzindo a sítio algum.

  • Gustavo  08/05/2013 03:10
    Seria correto então dizer que quando muitos poupam os preços dos materiais e serviços tendem a cair, fazendo com que a aquisição e acúmulo de bens de capital se torne mais barata, incentivando o investimento e aumentando a produção e disponibilidade de bens no futuro?

    Por outro lado se a população está consumindo muito os preços dos serviços e matérias-primas sobem, fazendo com que investir em bens de capital seja muito caro e portanto desestimulado, diminuindo a capacidade de produção futura?
  • Leandro  08/05/2013 03:29
    Correto quanto ao primeiro parágrafo. Já o segundo não é tão simples assim. Normalmente, o que possibilita essa explosão no consumo é um aumento da oferta monetária (gerada pela expansão do crédito). E uma expansão no crédito tende a elevar os preços dos bens de capital, o que estimula investimentos maciços neste setor. Porém, tal setor entrará em crise tão logo a expansão do crédito arrefecer em decorrência da inflação.

    Bom exemplo prático disso está ocorrendo neste exato momento no Brasil. Veja na segundo tabela a queda de 6,7% na produção de bens de capital acumulada em 12 meses.

    saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?view=noticia&id=1&busca=1&idnoticia=2369
  • Angelo Viacava  08/05/2013 10:50
    Leandro:

    Um pouco de psicologia social barata, se me permite: mesmo que uma população tivesse forte em si um comportamento poupador, a expansão do crédito geraria o mesmo estrago econômico? Ou não ocorreria? É realmente irresistível o apelo ao consumismo fomentado pela expansão de crédito na mesma intensidade em todas as sociedades do mundo? Uns resistem mais que outros?
  • Leandro  08/05/2013 11:57
    Se a população é fortemente poupadora, então, por definição, a expansão do crédito seria mínima. Afinal, quem poupa não pega empréstimo. E os poucos que pegassem empréstimo para empreender, assim que seus projetos ficassem prontos, haveria demanda para eles (justamente porque a população poupou).

    Não haveria todo aquele processo de descoordenação na economia gerado pela expansão fiduciária do crédito, expansão essa que estimula ao mesmo tempo consumismo e investimento, elevando preços e salários e descambando em recessão e rearranjo da economia.
  • Emerson Luis, um Psicologo  22/12/2013 13:14


    É revelador o título do artigo do Paul Krugman: "Quando os Consumidores se Rendem". Como assim "se rendem"? Transmite um paternalismo e uma arrogância gigantescas. Subentende que o consumidor é um mentecapto sem direito à autonomia que precisa ser rendido para agir da forma "certa" (ou seja, a forma prescrita por Krugman).

    * * *
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  15/03/2015 15:46
    Enquanto a poupança for negligenciada e o crédito exaltado, o país não sairá da crise.


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