clube   |   doar   |   idiomas
Uma característica crucial para o enriquecimento de qualquer economia: a confiança

Francis Fukuyama ficou famoso em 1988 por causa da publicação de seu livro O Fim da História.  A tese que ele defendia era tola e simplória: a democracia liberal havia derrotado todos os sistemas e, dali em diante, passaria a ser o arranjo preponderante e superior a todos os outros.  Isso se comprovou uma óbvia inverdade.  Pense no Islã.  Pense na política burocrática reinante na China.  Pense em Hong Kong e em Cingapura, que não têm democracia — ao menos, não no estilo defendido por Fukuyama.

À época, o livro recebeu uma estrondosa publicidade.  Hoje, ele raramente é citado.  Nunca entendi por que esse livro foi levado a sério.  No entanto, durante um bom tempo, várias pessoas o levaram a sério.

Em 1995, Fukuyama publicou outro livro: Confiança.  A publicidade recebida por este livro foi ínfima.  Mas o livro é excelente.  Digo mais: é um dos mais importantes livros já escritos sobre economia e ordem social.

Neste livro, Fukuyama analisa os efeitos da confiança sobre uma sociedade.  Ele concentra sua análise nos Estados Unidos, no Japão, na China e no sul da Itália, onde praticamente não há confiança nenhuma em nada e ninguém confia em ninguém.  Ato contínuo, ele analisa como a presença ou a ausência da confiança pode se tornar uma fonte de ordem social, de crescimento econômico e de aumento da produtividade geral. 

Ele descobriu, de maneira nada surpreendente, que os EUA, até aproximadamente 1960, possuíam uma enorme vantagem competitiva em relação ao resto do mundo por causa do alto nível de confiança que seus habitantes tinham em relação aos seus conterrâneos.  À medida que a confiança foi declinando, a taxa de crescimento econômico também declinou.  Concomitantemente ao declínio na confiança houve um aumento no número de advogados.

Uma das sociedades menos produtivas de toda a Europa Ocidental é a do sul da Itália.  Ele atribui isso à falta de confiança que reina na região.  Esse é um dos motivos pelos quais as sociedades secretas, especialmente a Máfia, têm tanta influência no sul da Itália: tais organizações provêm um mínimo de ordem social para seus membros, e a população em geral não oferece muita resistência à existência destas organizações.

A seção sobre a China é a mais interessante.  Fukuyama diz que os chineses apresentam um grande nível de confiança, mas somente em relação às suas famílias.  Isso faz com que seja muito difícil para empresas chinesas concorrerem com pequenos empreendimentos geridos por famílias ou com pequenos empreendimentos que tenham conexões familiares.  Faz com que seja mais difícil criar grandes empresas.  E faz com que seja ainda mais difícil levantar fundos e conseguir capital para financiar essas grandes empresas.

Já o Japão está em um meio-termo entre os EUA e a China.  No Japão, ao contrário da China, há mais confiança em organizações que não estejam ligadas a famílias.  No entanto, os grandes conglomerados japoneses possuem em suas raízes um pequeno número de famílias japonesas.

Em seu livro, Fukuyama dizia acreditar que as corporações japonesas poderiam concorrer no mercado internacional de maneira mais efetiva do que as empresas chinesas porque os japoneses podiam contratar as melhores pessoas, muito embora suas empresas não apresentassem conexões familiares.  Os japoneses também seriam capazes de conseguir dinheiro para investimentos mais facilmente do que as empresas chinesas.

Se olharmos o que ocorreu ao longo das últimas décadas, creio que essa tese se comprovou.  Empresas chinesas demonstraram uma maior tendência de serem mais intimamente associadas ao governo chinês.  O estado tem sido a fonte de financiamento das empresas chinesas.  O sistema bancário está mais intimamente ligado ao estado na China do que nas nações ocidentais.

A ausência de instituições formais pode ser observada quase que em sua integralidade na República Popular da China, onde a ideologia maoísta foi a grande responsável pelo atraso na introdução de instituições "burguesas", como o direito comercial.  Até o presente momento, empreendedores na China têm de enfrentar um ambiente jurídico extremamente arbitrário, no qual os direitos de propriedade são tênues, os níveis de tributação são variáveis e mudam de acordo com as vontades de cada governo provincial, e o suborno é a rotina quando se lida com funcionários do governo. (p. 330)

Empresas chinesas têm sido bem-sucedidas em exportar bens manufaturados.  E continuará sendo assim por um bom tempo, pois o governo mercantilista está declaradamente comprometido em manter a moeda desvalorizada para seguir estimulando as exportações, mesmo que à custa do bem-estar de todo o resto da população.  A economia chinesa funciona mais na base do "quem você conhece" do que na base do "o que você sabe fazer". 

Meu palpite é que as empresas chinesas serão menos eficazes no setor de serviços do que no setor industrial, pois a confiança dos chineses não vai além das ligações familiares.  E é aí que surge o problema: à medida que uma nação enriquece, o setor de serviços ganha mais importância.  A tendência da economia é diminuir a importância do setor industrial e aumentar a participação do setor de serviços.  Isso será um grande fator restringente sobre o desenvolvimento da economia chinesa.

Fukuyama também escreveu o seguinte:

Um estado liberal é, em última instância, um estado limitado; um estado em que a atividade do governo é estritamente delimitada pela esfera da liberdade individual.  Se tal sociedade não se degenerar no caos ou se tornar ingovernável, ela será capaz de apresentar uma autonomia governamental em todos os níveis de organização social.  A sobrevivência de tal sistema dependerá não somente da lei, mas também do autocontrole e do comedimento dos indivíduos.  Se eles não forem capazes de apresentar uma coesão em prol de um propósito comum; se eles não forem tolerantes e respeitosos em relação aos conterrâneos, ou não respeitarem as leis que eles próprios criaram para si mesmos, uma agência com grande poder coercivo terá de ser criada para manter cada indivíduo na linha. 

Por outro lado, um arranjo sem estado pode funcionar em uma sociedade que apresente um grau extraordinariamente alto de sociabilidade espontânea; uma sociedade na qual o comedimento, a temperança e o comportamento baseado em normas fluam naturalmente do cerne desta sociedade, sem ter de ser trazido de fora. 

Um país com um capital social baixo não apenas é mais propenso a ter empresas pequenas, fracas e ineficientes, como também sofrerá mais com a corrupção generalizada de seus funcionários públicos e com uma administração pública ineficaz.  Tal situação é dolorosamente evidente na Itália, onde, à medida que se sai do norte e do centro do país em direção ao sul, percebe-se uma relação direta entre atomização social e corrupção (pp. 357-58).

Creio que a teorização acima é correta.  Ela é perceptível em todos os países que enriqueceram.  Além dos EUA, pense na Suíça, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia.  Pesquise o nível de confiança vigente nestes países.  Pesquise como sua população interage entre si.  Pesquise o grau de burocracia exigido para se fechar um negócio.  Depois, faça o mesmo para os países da América Latina e da África.

____________________________________

Leia também:

Sociedades pobres e sociedades ricas - o que faz a diferença


0 votos

autor

Gary North
, ex-membro adjunto do Mises Institute, é o autor de vários livros sobre economia, ética e história. Visite seu website

  • anonimo  31/03/2014 13:15
    Em resumo: o Brasil está no fundo do poço e continuará por um bom tempo...
  • Paulo  31/03/2014 13:27
    É isso! Confiança. Então agora ficou claro porque o Brasil jamais "irá pra frente"! O brasileiros se odeiam.
  • anonimo 2   31/03/2014 13:50
    "Além dos EUA, pense na Suíça, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia. Pesquise o nível de confiança vigente nestes países. Pesquise como sua população interage entre si. Pesquise o grau de burocracia exigido para se fechar um negócio. Depois, faça o mesmo para os países da América Latina e da África."

    Fiquei com a sensação de inversão de causa e consequência. A América Latina e a África são atrasados porque tem alta burocracia, e não o contrário. Se a causa da alta burocracia fosse o atraso econômico, então deveríamos começar com um Estado grande e diminuir a medida em que crescemos economicamente. Mas as evidências mostram que a existência em si da burocracia é que impede o crescimento dos países.

    Segundo ponto, concordo intuitivamente que a confiança social pode reduzir custos da economia na medida em que empresas não precisem gastar dinheiro além do necessário em um sistema burocrático grande. Mas o que faz uma sociedade ter mais ou menos confiança do que outras, alguém aborda esse tema?
  • Magno  31/03/2014 14:16
    "A América Latina e a África são atrasados porque tem alta burocracia, e não o contrário."

    Frase inócua e de generalização incorreta.

    Em primeiro lugar, o texto em momento algum -- ao contrário do que você infere -- diz que "o atraso gera burocracia". A abordagem do texto é toda sobre a ausência de confiança e os impactos dessa ausência no desenvolvimento. O texto aborda a questão da "confiança" como propulsora do dinamismo. Só isso.

    As causas do atraso de um país são inúmeras. Já a existência da burocracia tem como uma de suas causas precípuas a falta de confiança entre as pessoas. A burocracia de fato gera atraso e subdesenvolvimento, mas ela não é a única causadora destes males.

    "Se a causa da alta burocracia fosse o atraso econômico,"

    De novo: em momento algum o texto sequer alude a isso. O texto em momento algum fala que atraso econômico gera burocracia. O que gera atraso e burocracia é a falta de confiança entre as pessoas. E a burocracia gerada tende a perpetuar o atraso econômico. Você, de fato, inverteu causa e consequência.

    "então deveríamos começar com um Estado grande e diminuir a medida em que crescemos economicamente."

    Hein?!

    "Mas as evidências mostram que a existência em si da burocracia é que impede o crescimento dos países."

    Também. Mas não é só a burocracia. Leia o texto linkado ao final do artigo.
  • Mr. Magoo  31/03/2014 15:03
    Respeito!
  • Ismael  01/04/2014 05:04
    Não diria que a 'confiança social' seja um motor primário para o desenvolvimento de sociedades, ainda que possamos verificar toda sua importância nas interações de grupos humanos.
    Afirmo isso quando indignado com a fantasiosa obra da dédaca de '80 lançada pelo alemão Erich vonDäniken (Eram os deuses Astronautas?)teorizando sobre a possibilidade de os antigos egípcios terem tido contato com extraterrestres, daí a exuberância da cultura. E é uma pura bobagem quando está explícito a necessária criatividade em alocar recursos numa região geograficamente penosa. As cheias do Nilo que proporcionavam escassez ou abundância de alimentos funcionava em ciclos, ato contínuo foi desenvolver conhecimentos sobre este ciclo e então ao longo de milênios só poderiam alcançar um patamar tecnológico admirável.
    Esta escassez daquele grupo ao longo do Nilo provavelmente foi agravada por terem um deserto hostil ao lado, de outro as aguas do mediterrâneo, e de resto regiões já ocupadas por outros grupos que não iriam querer perder seus espaços sem a eminência de conflitos, ou seja, ou se usava a criatividade para aproveitarem melhor os recursos do Nilo ou morriam.
    Usar a criatividade para realocar recursos, significa sair da zona de comodismo, significa causar alterações dentro de um grupo e pode ser que tiveram suas desavenças, mas daí sim, a confiança social intrínseca falou mais alto.
    Analogicamente podemos observar o indígena brasileiro na era pré-colombiana, num vastíssimo território de floresta tropical, clima bom, fartura de recursos, ausência de conflitos por espaços físicos, ato contínuo comodismo total - Para quê a necessidade da criatividade para a locar recursos? Os níveis da confiança social nas interações destes grupos talvez tendessem mais para a desconfiança, já que nômades, quando se esgotavam recursos numa área deslocavam-se para outra desocupada, ou seja, sem se misturarem muito.
    Assim nada de extraterrestres iluminando egípcios, mas sim a pura alocação de recursos assegurada pela mútua confiança social, e daí a análise de que esta confiança advém da situação extrema que um grupo se sente enclausurado num espaço geográfico de escassez de recursos.
    Aproveitando tópico citado aqui neste artigo, para quem já teve oportunidade de estudar o idioma japonês, ja deve ter percebido como por vezes chega a ser ridículo para nós ocidentais as diversas estruturas gramaticais daquele idioma para se manter o respeito nos diálogos nivelando pelas idades e pelas posições sociais. Não é àtoa ou desproposital esta organização, ela advém do aspecto físico do Japão, é uma ilha cercada por um oceano hostil e ainda por cima sobre placas tectônicas em atividade, ou seja, se um grupo social tem de viver neste espaço, então faz se necessário o respeito máximo ao próximo refletindo na linguagem, afim de se evitar qualquer conflito que pode ser fatal para todos.
    Por isso está de parabéns Hans Hermann Hoppe, e o Mises por nos brindar com seus artigos tratando da tendência para a secessão européia, como observaremos logo mais o referendo de Veneza. Espaços geograficamente pequenos sempre se irá brilhar a criatividade em gerir cada vez melhor os recursos, e os resultados da implementação mútua diretamente relacionados com a confiança social.
  • JP  31/03/2014 14:23
    Quais livros de Fukuyama são bons e quais são ruins?
  • anonimo 2  31/03/2014 14:31
    Magno.

    Vou discordar completamente do seu raciocínio.

    Eu disse que no último parágrafo do texto fiquei com a sensação de inversão da causalidade. Obviamente atraso econômico de qualquer nação não é uma questão simplória em que você aponta uma causa, resolve e o milagre acontece. EM RELAÇÃO AO TEMA do texto, confiança, burocracia, o último parágrafo me passou a idéia de que a AM e África são burocráticos porque são atrasados. Em relação a burocracia, o funcionamento é o oposto. É a burocracia que causa o atraso, portanto eles são atrasados porque são burocráticos.

    Depois fiz uma suposição para ilustrar o raciocínio, que você claramente não entendeu na sua pressa de ler e responder. Vou repetir o argumento pelo absurdo. Por favor não corte frases na vírgula e sempre leve junto o contexto inteiro: "Se a causa da alta burocracia fosse o atraso econômico, então deveríamos começar com um Estado grande e diminuir a medida em que crescemos economicamente.". Se é o atraso que faz um país ser burocrático, então os países se tornariam menos burocráticos conforme crescem. É isso que vemos no mundo? Não! Vemos primeiro a burocracia aumentar e depois afetar o crescimento dos países negativamente. Se um país pobre é burocrático, certamente isso vai travar o seu crescimento. Reduzir a burocracia o faria crescer. Segundo o último parágrafo do texto, DE ACORDO COM O QUE EU INTERPRETEI, seria correto esperar o crescimento economico ocorrer para só então reduzir a burocracia. Inversão de idéias como eu já havia escrito anteriormente.

    Uma crítica construtiva a todos, sem querer aqui eu me colocar como senhor da verdade, longe disso. Sou só mais um aprendendo com todos. Mas no geral percebo que as pessoas que comentam aqui periodicamente e com seriedade sempre chegam com duas pedras em mãos. Leem os comentários com pressa e pouca preocupação em entender o que foi dito. Olha o tamanho da confusão que ocorreu aqui. Erro meu de não ter sido claro, erro de outros por não lerem com calma.

    Abraços.
  • Maurício  31/03/2014 16:57
    "EM RELAÇÃO AO TEMA do texto, confiança, burocracia, o último parágrafo me passou a idéia de que a AM e África são burocráticos porque são atrasados."

    Pois eu entendi justamente o contrário: AM e África são atrasados porque sua população não tem confiança nem nas instituições e nem nas pessoas. E isso gera burocracia.

    Creio que foi isso também que o Magno entendeu.

    Sobre "tacar pedras" -- uma postura que repudio --, vale notar que isso só acontece com quem tenta desvirtuar algo que foi dito num artigo. Não que eu aprove, mas tenho a honestidade de ser justo e dizer que tal atitude só ocorre nestas circunstâncias.
  • Jeferson  01/04/2014 14:22
    Mentira. Sempre que alguém fala alguma coisa que pareça defender uma idéia diferente das expostas, mesmo que seja por clara ignorância e com o desejo de aprender, SEMPRE, repito SEMPRE tem pelo menos um comentarista com uma pedras em cada mão pra "responder atenciosamente". E é assim que esperam propagar as idéias libertárias...

    Confesso que às vezes as pessoas pedem esse tipo de resposta, mas acho que isso só é válido quando é alguém que claramente está tentando subverter as idéias expostas e levar a coisa pro lado oposto, principalmente quando é alguém que insistentemente vem fazendo isso. Com esse tipo de gente, não há como ser respeitoso.
  • Victor  31/03/2014 14:41
    "Meu palpite é que as empresas chinesas serão menos eficazes no setor de serviços do que no setor industrial, pois a confiança dos chineses ("NÃO")vai além das ligações familiares."

    Ótimo texto! por acaso, no trecho acima não teria um "não" a ser incluído?
  • Diones Reis  31/03/2014 15:15
    No que diz respeito a serviços, posso dizer por experiência própria que o Japão está muito a frente dos EUA.

    Na minha última visita a Tokyo, é inevitável o uso do transporte coletivo (metrô e trem), a não ser que a pessoa seja endinheirada para pagar o taxi, como não é o meu caso. :-)

    Para quem não sabe, a tarifação acontece por estações.
    Ou seja, se a pessoa vai de uma estação A para B, tem uma tarifa X. Da estação A para C, uma tarifa Y, e assim por diante.

    Pois bem, na minha experiência, comprei um bilhete, que para o meu trajeto mais longo, custou-me 800 ienes.
    É necessário manter o bilhete até o fim do trajeto, para no desembarque, precisar pagar a diferença se acontecer uma alteração no trajeto, por exemplo.

    O problema é que eu perdi o bilhete, e como um turista gaijin, sem falar o japonês direito, como desembarcar?

    Fui ao posto de atendimento da estação, e expliquei através do inglês, de algumas palavras em japonês e do mapa ferroviário, que eu perdi o bilhete, e que tinha vindo da estação A.
    Fui cobrado por um novo bilhete, ou seja, o mesmo preço que tinha pago, e pude inserir o bilhete na catraca e desembarcar.

    Aonde quero chegar com isto?

    É que, a confiança do agente ferroviário para comigo foi a tal ponto que, se eu quisesse ter dado uma de picareta, eu poderia ter falado que eu tinha embarcado numa estação mais próxima , e consequentemente ter pago um novo bilhete com uma tarifa mais barata.

    E é por esta experiência, que eu penso que vamos demorar e muito para ter um nível de negócios ao mesmo estilo que o d Japão.
  • Alfredo  31/03/2014 15:35
    Isso não é nada. Nos países teutônicos não há catracas nas estações de metrô. Você só compra ticket só se for honesto. Se quiser andar de metrô de graça, você anda. Desnecessário dizer que (quase) todo mundo paga pelo ticket. Quem não paga ou é turista ou é imigrante.
  • Rene  31/03/2014 16:18
    Lembra daquelas máquinas automáticas de jornal, onde a pessoa insere o valor do jornal e a máquina abre. Aí, a pessoa pega UM jornal e fecha a máquina. Se as pessoas tivessem o hábito de pegar mais de um jornal, ou de deixar a máquina aberta para outros pegarem jornais de graça, as próprias empresas que vendem jornais teriam abolido este sistema.

    Aqui em Curitiba, a prefeitura teve a ideia da Tuboteca: Uma estante com livros onde os usuários podem pegar um livro, lê-lo e devolver em qualquer outro tubo que possua uma Tuboteca. Por estatísticas da própria URBS, somente 20% dos livros pegos são devolvidos. Coisas pequenas como esta demonstram muito do caráter do país.
  • Guilherme  31/03/2014 23:18
    Menção honrosa também aos postos de gasolina, em que não há frentistas (algo que, no Brasil, por causa de uma regulamentação estatal, é obrigatório). Você pára seu carro em uma bomba, abastece livremente, e então, só então, vai lá dentro do estabelecimento pagar. Qualquer um que quiser sair sem pagar, o faz sem problemas.

    Isso seria inconcebível aqui no Brasil.
  • Jeferson  01/04/2014 14:33
    Já tem um modelo melhor, em que você pré-paga o quanto quer abastecer, tal qual uma máquina de refrigerantes/lanches. Isso dispensa até o serviço do caixa.
  • Leonardo Faccioni  31/03/2014 15:16
    O mote do artigo recorda-me um dos primeiros tomos notáveis que pude desfrutar em defesa das liberdades -- e que ainda hoje guardo como um de seus mais bem pensados postulados: "A Sociedade de Confiança", de Alain Peyrefitte. Recordação de minha primeira participação junto ao Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, aos tempos em que o evento fazia jus ao título, quando encontrar tais publicações equivalia a deparar-se com o pote d'ouro no fim do arco-íris.
  • Gustavo Sauer  31/03/2014 17:05
    Acredito este fator cultural da confiança explicar parte das diferenças econômicas entre o norte o sul do brasil.
  • Emerson Luis, um Psicologo  31/03/2014 17:22

    A confiança é parte do óleo que permite às engrenagens dos relacionamentos humanos funcionar. Todas as nossas interações envolvem algum grau de confiança, que é como o dinheiro: podemos fazer "depósitos" ou "saques", receber ou pagar "juros", emprestar ou tomar emprestada (a metáfora não é minha, deve ser de Stephen Covey).

    Sobre o primeiro livro:

    "A tese que ele defendia era tola e simplória: a democracia liberal havia derrotado todos os sistemas e, dali em diante, passaria a ser o arranjo preponderante e superior a todos os outros."

    Ele defendeu que a democracia liberal teve uma vitória moral, tanto teórica quanto prática, sendo o melhor sistema de governo que o ser humano pode elaborar. Até mesmo um um sistema anarcocapitalista só funcionaria bem se seguisse essa linha filosófica. Fukuyama não disse que o mundo todo se tornaria liberal nem que não poderia haver retrocessos. Uma das ameaças que ele apontou foi justamente a social-democracia e o "estado de bem-estar social".

    Portanto, o livro é sensato e esclarecedor. Hoje ele é menos citado porque a maioria acredita que o estado de bem-estar social é a solução mágica dos nossos problemas.

    * * *
  • Nilo BP  01/04/2014 03:07
    Artigo na mosca. Só faltou lembrar que o caráter, fonte da confiança, depende da importância que cada um dá às suas próprias ações.

    Por exemplo, o estereótipo do brasileiro "ishperrto" tem como justificativa para seus feitos lamentáveis a crença de que "todo mundo faz, então eu fazer também não tem problema". Para uma sociedade se manter próspera e estável, um dos requisitos é que cada indivíduo se responsabilize pelas suas ações.

    E ninguém é capaz de se policiar por todos os lados, o tempo todo. O enforcement de certo e errado através da pressão social é necessário. Por isso a ascensão do politicamente correto, do "não julgue", da culpa coletiva são acontecimentos agourentos para a civilização ocidental.
  • Marconi  01/04/2014 11:45
    Pra ter confiança, é preciso um estado pequeno, limitado constitucionalmente e eficiente.
  • Heisenberg  01/04/2014 14:48
    Me pergunto por que preciso de um Cartório para dizer que minha assinatura, ou a assinatura de alguém é autêntica. Por que é público? HAHAHAHAH Piada.

    Não é a toa que toda essa burocacia dos cartórios é uma fonte de atraso e corrupção.

    Inexiste confiança para fechar um negócio neste país. O Brasil, com sua escola portuguesa cartorária, prejudica a celeridade das ações humanas e o progresso inerente a qualquer sociedade livre. O que esta nação está longe de ser.
  • Drplease  02/04/2014 08:43
    Em que você baseia seu argumento de que "A economia chinesa funciona mais na base do "quem você conhece" do que na base do "o que você sabe fazer"."
  • Dr. No  02/04/2014 10:45
    Explicado explicitamente no artigo.

    O mercantilismo aberto do governo chinês (que adota políticas que privilegiam o setor exportador), o fato de as empresas chinesas demonstraram uma maior tendência de serem mais intimamente associadas ao governo chinês, o fato de o estado ser a fonte de financiamento das empresas chinesas, e o fato de o sistema bancário estar mais intimamente ligado ao estado na China do que nas nações ocidentais.

    Mais atenção à leitura.
  • Gunnar  03/04/2014 17:43
    Eu costumo atrelar confiança à honestidade. Acredito que uma não existe sem a outra. Isso posto, concordo que confiança e honestidade favorecem grandemente o êxito econômico, por dois principais motivos: (1) economia com eliminação de riscos e (2) fortalecimento do tecido econômico. Tentarei explicar ambos com um exemplo simples e real.

    (1) Eliminação de riscos
    Morei, por algum tempo, em um apartamento alugado diretamente junto ao proprietário, que era um padre. Por algum motivo, ele viu em mim uma pessoa honesta (e eu nele) e dessa forma , julgamos satisfatório fazer um contrato de gaveta. De cara economizamos tempo, energia e dinheiro com os trâmites burocráticos tradicionais. A flexibilidade de lidar com uma pessoa honesta faz com que os pequenos distúrbios cotidianos do inquilinato (obras, pagamentos, questões de condomínio) se resolvam da forma mais simples, econômica e rápida possível, e sempre com vantagem para ambos.

    (2)
    Da mesma forma, tenho já há algum um pintor/faz-tudo de confiança, o qual recomendei ao padre, para fazer a pintura quando da entrega do apartamento. Apesar de sua igreja estar em obras, e já ter contratado muitos pintores, ele não conseguia encontrar um que fosse de confiança. Gostou tanto do senhor que recomendei que o contratou também para fazer a reforma inteira do apartamento, e pouco depois, para pintar a igreja. Agradecido pela indicação lucrativa, o pintor fez os dois próximos serviços para os quais o chamei sem cobrar. Nessa simples situação, a confiança e honestidade dos "players" possibilitou um grande ganho mútuo para todos: eu resolvi a questão da pintura do apartamento e de bônus ganhei dois serviços; o Padre encontrou um pintor para o apartamento e, de bônus, alguém para fazer as demais obras; o pintor conseguiu um serviço por indicação e, de bônus, serviço extra.

    Por fim, acredito que a desonestidade é miopia social (ou burrice mesmo). Abusar da confiança só confere alguma vantagem ao desonesto à curto prazo. O comportamento de roubar mais de um jornal da máquina automática só levaria a uma elevação dos custos do jornal e possivelmente, à eliminação dessa cômoda tecnologia, piorando a vida inclusive de quem roubou.

    A questão que explica a existência mesma da honestidade e da confiança, no entanto, é mais complexa. Por hora, acredito que é algo cultural. Quanto à discussão mais acima sobre o "ovo e a galinha", a burocracia e a confiança, não vejo um como necessariamente prescedente do outro, mas ambos como necessariamente interligados e consequentes de uma certa cultura que, por qual motivo seja, aposta na desonestidade endêmica, apesar dos altos custos econômicos e socias desse arranjo.


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.