O legado cultural e espiritual da inflação monetária

A noção de que a inflação é um fenômeno nocivo é bastante comum na ciência econômica.  Porém, a maioria dos livros-texto subestima a extensão desse mal, pois todos eles definem inflação muito limitadamente como sendo uma duradoura redução no poder de compra do dinheiro.  Ademais, eles prestam escassa atenção às formas concretas de inflação.  Para compreendermos a natureza destruidora da inflação em sua totalidade, é necessário termos em mente que ela se origina de uma violação das regras fundamentais da sociedade.

Inflação é o que ocorre quando as pessoas aumentam a oferta monetária por meio de fraude, imposição ou quebra de contrato.  Invariavelmente, ela gera três conseqüências características: (1) ela beneficia os perpetradores à custa de todos os outros usuários do dinheiro; (2) ela permite a acumulação de dívidas além do nível que as dívidas poderiam atingir no livre mercado; e (3) ela reduz o poder de compra do dinheiro para um nível menor do que aquele que prevaleceria no livre mercado.

Embora essas três consequências sejam ruins o bastante, as coisas ficam muito piores quando a inflação é estimulada e promovida pelo estado (inflação por decreto).  A inflação criada pelo governo é contínua, e, como resultado, podemos observar a formação de instituições e hábitos especificamente criados pela inflação.  Assim, a inflação monetária criada monopolisticamente pelo governo gera uma mácula cultural e espiritual na sociedade humana.  A seguir, vamos analisar mais detidamente alguns aspectos desse legado.

I. Governo hipercentralizado

A inflação beneficia o governo que a controla, não apenas em detrimento da população como um todo, mas também em detrimento de todos os governos secundários e terciários.  É um fato bem conhecido que os reis europeus, durante a ascensão dos estados-nação nos séculos XVII e XVIII, esmagaram os principais vestígios de poder intermediário.  As nações democráticas dos séculos XIX e XX completaram a centralização de poder que havia começado sob os reis.  A força motriz econômica desse processo foi a inflação, a qual, naquele momento, já estava inteiramente nas mãos do aparato do poder central.  Mais do que qualquer outra razão econômica, a inflação tornou o estado-nação irresistível.  E, assim, ela contribuiu, indiretamente ao menos, para a popularidade das ideologias nacionalistas, as quais no século XX levaram a uma frenética veneração do estado-nação.

A inflação estimula o crescimento dos governos centrais.  Ela permite que esses governos cresçam para muito além do que poderiam crescer em uma sociedade livre.  E ela permite que eles monopolizem determinadas funções em uma escala que não ocorreria em um ambiente em que o dinheiro fosse produzido pelo livre mercado.  Isso ocorre à custa de todas as formas de governo intermediário, e, é claro, à custa da sociedade civil como um todo.  A centralização do poder estimulada pela inflação transforma o cidadão médio cada vez mais em um átomo socialmente isolado.  Todas as suas relações sociais tornam-se controladas pelo estado central, o qual também passa a fornecer a maioria dos serviços que antes eram ofertados por outras entidades sociais, como a família, as igrejas e o governo local.  Ao mesmo tempo, a direção central do aparato estatal torna-se cada vez mais distante da vida diária de seus protegidos.

II. O efeito da inflação monetária sobre as empresas

A inflação produzida pelo governo gera um impacto profundo sobre as finanças corporativas.  Ela torna os passivos (dívidas) mais baratos do que seriam em um livre mercado.  Isso estimula empreendedores a financiar suas empreitadas por meio da obtenção de empréstimos, e não por meio do patrimônio próprio (o capital trazido à empresa pelos seus proprietários).

Em um sistema de livre mercado de produção monetária, os bancos concederiam empréstimos apenas como intermediários financeiros.  Isto é, eles poderiam emprestar somente aquela quantia de dinheiro que eles próprios houvessem poupado ou que outras pessoas houvessem poupado e emprestado aos bancos.  Os bancos obviamente seriam livres para conceder empréstimos sob os termos (juros, valores, duração) que quisessem; porém, seria suicídio oferecer termos melhores do que aqueles que seus próprios depositantes (credores) lhe oferecessem.  Por exemplo, se um banco recebe de um poupador um depósito que rende juros de 5%, seria irracional emprestar esse dinheiro a 4%.  Donde se conclui que, em um livre mercado, um serviço bancário lucrativo está restrito a limites bastante estreitos, os quais por sua vez são determinados pelos poupadores.  Não seria possível um banco permanecer no mercado e ao mesmo tempo oferecer termos melhores do que os dos poupadores.

Porém, o sistema bancário de reservas fracionárias é capaz de fazer justamente isso.  Dado que estes bancos podem criar dinheiro a um custo virtualmente zero, eles podem conceder empréstimos a taxas que são menores do que aquelas que prevaleceriam de outro modo.  E, desse modo, os beneficiários irão financiar por meio do endividamento alguns empreendimentos que eles de outra forma teriam financiado com seu próprio dinheiro, ou que eles sequer teriam empreendido.

É óbvio que serão poucas as empresas capazes de resistir a tais ofertas.  A concorrência é feroz na maioria dos setores econômicos, e as empresas têm de aproveitar as melhores ofertas disponíveis, caso contrário elas perderão aquela "vantagem competitiva" que pode ser decisiva para os lucros e também para sua mera sobrevivência.  A inflação monetária torna as empresas mais dependentes dos bancos do que elas seriam caso contrário.  Ela cria um maior poder de decisão central e uma maior hierarquia do que existiria no livre mercado.  O empreendedor que opera com 10% de capital próprio e 90% de dívida já deixou de ser um empreendedor genuíno.  Seus credores (normalmente bancos) são os verdadeiros empreendedores que tomam todas as decisões essenciais.  Ele foi transformado em um relativamente bem pago executivo — um gerente.

Desta forma, a inflação monetária reduz o número de empreendedores genuínos — homens independentes que operam com seu próprio dinheiro.  Tais homens ainda existem em uma quantidade incrivelmente alta, mas eles somente conseguem sobreviver porque seu talento superior é comparável à situação financeira inferior com a qual eles têm de lidar.  Eles precisam ser mais inovadores e trabalhar mais que seus concorrentes.  Eles sabem o preço da independência e estão dispostos a pagá-lo.  Normalmente eles são mais apegados aos negócios da família e se importam mais com seus empregados do que os outros fantoches dos banqueiros.

Dado que o crédito fácil decorrente da inflação monetária possibilita uma grande vantagem financeira, ele acaba por estimular comportamentos imprudentes da parte dos executivos das empresas.  Isso é principalmente válido para os gerentes de grandes empresas que possuem acesso fácil ao mercado de capitais.  Sua imprudência é frequentemente confundida com criatividade e inovação.

O economista Joseph Schumpeter memoravelmente caracterizou o sistema bancário de reservas fracionárias como sendo um tipo de força impulsora do desenvolvimento econômico inovador, uma vez que ele fornece dinheiro adicional para empreendedores com grandes ideias.

É concebível imaginar que em alguns casos esse sistema tenha tido esse papel, porém as chances estão majoritariamente do outro lado.  Como regra geral, qualquer produto novo e qualquer profunda inovação nas organizações empreendedoriais representam uma ameaça aos bancos, pois estes já estão expressivamente investidos em empresas já estabelecidas, as quais produzem os produtos de sempre e utilizam as velhas formas de organização.  Eles têm, portanto, todos os incentivos para impedir qualquer inovação — recusando-se a financiá-la — ou para espalhar essas novas ideias aos seus parceiros no mundo corporativo.

Assim, o sistema bancário de reservas fracionárias torna os negócios mais conservadores do que seriam caso contrário.  Ele beneficia as empresas já estabelecidas à custa de inovadores recém-chegados.  É muito mais provável que um projeto inovador venha de empreendedores independentes, principalmente se a tributação da renda for baixa.

III. O jugo da dívida

Algumas das considerações acima também são válidas fora do mundo empreendedorial.  A inflação monetária possibilita crédito fácil não apenas para governos e empresas, mas também para indivíduos.  O simples fato de que tais créditos são oferecidos já é o suficiente para incitar algumas pessoas a se endividarem, algo que não fariam normalmente.  Porém, o crédito fácil torna-se praticamente irresistível quando vem acoplado a outra típica consequência da inflação monetária: o aumento constante dos preços.  Ao passo em que nos tempos passados um aumento dos preços era algo dificilmente perceptível, nos dias atuais todos os cidadãos do mundo ocidental já se acostumaram a esse fenômeno.  Em países como Turquia e Brasil, onde o aumento de preços já chegou a taxas anuais de 80 a 100%, mesmo as pessoas mais jovens já chegaram a vivenciá-lo pessoalmente.

Tais condições impõem uma penalidade severa sobre a poupança mantida em espécie.  Antigamente, a poupança era tipicamente feita na forma do entesouramento de moedas de ouro e prata.  É verdade que tal ato de entesouramento não propiciava nenhuma receita — o metal era "estéril" — e que quem praticava tal ato não podia ser considerado um rentista.  Porém, em todos os outros aspectos, o entesouramento do dinheiro era uma forma confiável e efetiva de poupança.  O poder de compra da moeda não se evaporava em poucas décadas, e em épocas de crescimento econômico ela até mesmo ganhava poder de compra.

Mais importante ainda, elas eram extremamente adequadas para as pessoas comuns.  Carpinteiros, pedreiros, alfaiates e agricultores normalmente não são observadores muito astutos do mercado internacional de capitais.  Colocar algumas moedas de ouro debaixo do travesseiro ou dentro de um cofre foi um ato que lhes poupou várias noites de insônia, e os deixaram independentes de intermediários financeiros.

Agora compare esse cenário antigo com nossa atual situação.  O contraste não poderia ser mais absoluto.  Seria algo completamente inútil guardar cédulas de dinheiro em casa, visando à aposentadoria.  Um homem com seus 30 anos de idade, que esteja planejando se aposentar daqui a 30 anos, precisa levar em conta uma depreciação monetária na ordem de 3 a 5% ao ano.  Isto é, ele precisa poupar de 3 a 5 unidades monetárias hoje para poder ter o poder de compra de uma unidade atual quando ele se aposentar.  E isso sendo bastante otimista.

Disso se conclui que a estratégia racional de poupança para ele seria se endividar com o intuito de comprar ativos cujos preços aumentariam com a inflação.  Isso é exatamente o que ocorre hoje na maioria dos países ocidentais.  Tão logo as pessoas arrumam um emprego e, com isso, uma fonte de renda parcialmente estável, eles se endividam para comprar uma casa — ao passo que seus avôs ainda seguiam a rotina de primeiro acumular poupança durante trinta anos para só então comprar seu primeiro imóvel com dinheiro próprio.  Desnecessário dizer que este último sempre foi o procedimento cristão.  Não carta de São Paulo aos Romanos (13:8), lemos: "A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco; porque aquele que ama o seu próximo cumpriu toda a lei."

As coisas não são muito melhores para aqueles que já acumularam alguma riqueza.  É verdade que a inflação não os obriga a se endividar; porém, em todo caso, ela os priva da possibilidade de manter suas poupanças em dinheiro.  Os idosos que vivem de pensões, as viúvas e os tutores de órfãos precisam investir seu dinheiro no mercado financeiro, pois, caso contrário, seu poder de compra irá se perder diariamente.  Assim, eles se tornam dependentes dos intermediadores financeiros e, consequentemente, do comportamento dos preços das ações e dos títulos.

Com tudo isso, torna-se claro que tal situação é amplamente favorável para aqueles que ganham a vida no mercado financeiro.  Corretores, analistas, bancos, empresas hipotecárias e outros "players" têm motivos para ser gratos a esse constante declínio do poder de compra do dinheiro sob um ambiente de inflação monetária.  Porém, seria tal arranjo também benéfico para o cidadão comum?  De certa forma, suas dívidas e seu maior investimento no mercado financeiro são benéficos para ele, dado nosso atual regime inflacionário.

Quando o aumento no nível de preços é perene, a dívida privada é para ele a melhor estratégia disponível.  Porém, é claro, isso significa que, não fosse o intervencionismo governamental no sistema monetário, outras estratégias seriam superiores.  A existência de bancos centrais e de dinheiro de papel faz com que as estratégias financeiras baseadas no endividamento sejam mais atrativas do que estratégias baseadas no acúmulo de poupança própria.

Não é exagero dizer que, por meio de sua política monetária, os governos ocidentais empurraram seus cidadãos para uma situação de dependência financeira completamente desconhecida para as gerações anteriores.  Já em 1931, o papa Pio XI declarou:

É algo manifesto como, nos nossos tempos, não só se concentram riquezas, mas também acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo econômico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, os quais administram de acordo com seu próprio prazer e vontade arbitrária.

Este despotismo vem sendo exercido mais impetuosamente  por aqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e manipulam de tal maneira a alma da mesma, que ninguém pode respirar sem sua licença.[1]

É de se imaginar que vocabulário Pio XI teria utilizado para descrever nossa atual situação.  A justificativa corrente para o atual arranjo monetário é que ele supostamente estimula o desenvolvimento industrial.  O dinheiro que antigamente era entesourado não era apenas estéril, segundo tal teoria; era na realidade algo prejudicial do ponto de vista econômico, pois tal atitude privava as empresas dos meios de pagamento necessários para os investimentos.  Sendo assim, a função da inflação monetária seria a de fornecer tais meios.

Entretanto, o entesouramento do dinheiro não possui nenhuma implicação macroeconômica negativa.  Tal atitude definitivamente não reprime os investimentos industriais.  O entesouramento aumenta o poder de compra do dinheiro e, consequentemente, dá um maior "peso" às unidades monetárias que permanecem em circulação.  Todos os bens e serviços continuam podendo ser comprados, e todos os investimentos viáveis podem ser feitos com as unidades monetárias remanescentes.  O fato fundamental e inegável é que a inflação monetária não faz surgir nenhum recurso adicional.  O fato de você imprimir dinheiro não faz com que novos bens apareçam.  A inflação meramente provoca uma alteração na alocação dos recursos já existentes.  Estes deixam de ir para empresas geridas por empreendedores que operam com seu próprio dinheiro, sendo desviados para aquelas empresas financiadas com fartos créditos bancários.

O efeito líquido do recente surto de endividamento pessoal é, portanto, o de jogar populações inteiras na dependência financeira.  As implicações morais são claras.  O acúmulo de dívidas é incompatível com a independência financeira, e isso tende a enfraquecer a autossuficiência em todas as outras esferas.  O indivíduo oprimido por dívidas acaba, no final, adotando o hábito de recorrer a terceiros em busca de ajuda, ao invés de se tornar uma âncora econômica e moral para sua família e para todas as pessoas que o cercam.  A sobriedade e a independência de julgamento são substituídas pela submissão e pela auto-ilusão. 

E quando, como ocorre em muitos casos, as famílias não mais conseguem arcar com todo seu endividamento?  O resultado é o desespero — ou, ao contrário, o desprezo por todos os padrões de sanidade financeira.

IV. Alguns ferimentos espirituais provocados pela inflação monetária

A inflação monetária reduz constantemente o poder de compra do dinheiro.  Em algum grau, é possível para as pessoas protegerem sua poupança contra esse fenômeno, mas isso requer um completo conhecimento de estratégias financeiras, tempo disponível para supervisionar constantemente seus investimentos e uma boa dose de sorte.  As pessoas que não possuem um desses ingredientes irão provavelmente perder uma parte substancial de seus ativos.  A poupança de toda uma vida normalmente desaparece por completo durante os primeiros anos da aposentadoria.  A consequência é o desespero e a erradicação dos padrões morais e sociais.  Porém, seria errado inferir que a inflação produz esse efeito principalmente nos mais idosos.  Como observou Thomas Woods:

Esses efeitos são "especialmente fortes entre os jovens.  Eles aprendem a viver pensando apenas no presente e desdenham daqueles que tentam ensiná-los 'coisas antiquadas como moralidade e parcimônia.'  A inflação, desta forma, estimula uma mentalidade de gratificação imediata que está em completo desacordo com a disciplina e a eterna perspectiva requeridas para se exercer os princípios da intendência bíblica — como investimentos de longo prazo para o benefício de gerações futuras."[2]

Mesmo aqueles cidadãos abençoados com o conhecimento, o tempo e a sorte para proteger o capital de sua poupança não são capazes de se esquivar dos impactos perniciosos da inflação, pois eles têm de adotar hábitos que estão em desacordo com a saúde moral e espiritual.  A inflação os obriga a gastar muito mais tempo pensando no seu dinheiro do que seria necessário na ausência dela.  Como já dito, a maneira antiga de os cidadãos comuns pouparam era acumulando dinheiro dentro de casa.  Sob um ambiente de inflação monetária como o atual, essa estratégia é suicida.  Eles precisam investir em ativos cujos valores crescem com a inflação; e a maneira mais prática de se fazer isso é comprando ações e títulos.  Porém, isso demanda várias horas dedicadas ao estudo, à comparação e à seleção dos papeis adequados.  E isso os obriga a estarem sempre vigilantes e preocupados com seu dinheiro, para o resto de suas vidas.  Eles precisam estar sempre seguindo o noticiário financeiro e monitorando os preços das ações no mercado financeiro.

Similarmente, as pessoas tenderão a prolongar a fase de suas vidas na qual elas se esforçam para ganhar dinheiro.  E, ao escolher suas profissões, elas darão uma ênfase relativamente maior nos retornos monetários do que em qualquer outro critério.  Por exemplo, alguns daqueles que teriam maior propensão à jardinagem irão abandonar essa vocação e procurar um emprego industrial, pois este oferece maiores retornos financeiros no longo prazo.  E mais pessoas irão aceitar empregos distantes de suas casas apenas pelo fato de estes permitirem a elas ganharem um dinheiro extra — algo que não ocorreria com tanta frequência em um sistema monetário natural.

A dimensão espiritual desses hábitos induzidos pela inflação parece ser óbvia.  Questões monetárias e financeiras passam a ter um papel exagerado na vida de um homem.  A inflação torna a sociedade materialista.  As pessoas cada vez mais se esforçam para obter dinheiro à custa da felicidade pessoal.  A mobilidade geográfica induzida pela inflação enfraquece artificialmente os laços familiares.  Muitos daqueles que tendem a ser gananciosos, invejosos e mesquinhos tornam-se vítimas do pecado.  Mesmo aqueles que não possuem tal propensão serão expostos a tentações que não sentiriam caso contrário.  E como os caprichos do mercado financeiro também fornecem uma desculpa perfeita para o uso excessivamente sovina do dinheiro, doações para instituições de caridade tendem a declinar.

E há o fato de que a inflação perene tende a deteriorar a qualidade dos produtos.  Todo vendedor sabe que é difícil vender o mesmo produto físico a um preço maior do que aquele vigente nos anos anteriores.  Porém, aumentos nos preços são inevitáveis quando a oferta monetária está em crescimento contínuo.  Sendo assim, o que os vendedores fazem?  Em muitos casos, a salvação vem por meio da inovação tecnológica, a qual permite um modo de produção mais barato do produto, desta forma neutralizando ou até mesmo compensando em demasia a influência da inflação.  Isso ocorre, por exemplo, na indústria de computadores e de equipamentos construídos com uma grande quantidade de insumos de tecnologia da informação.

Porém, em outras indústrias, o progresso tecnológico possui um papel muito menor.  Aqui, os vendedores lidam com o problema acima mencionado.  Consequentemente, eles fabricam um produto de qualidade inferior e o vendem com o mesmo nome, junto com os eufemismos que se tornaram costumeiros no marketing comercial.  Por exemplo, eles podem ofertar aos seus consumidores café "light" e vegetais "não condimentados" — o que pode ser traduzido como café ralo e vegetais que já perderam todos os resquícios de sabor.  Podem também oferecer os mesmos produtos em menores quantidade e tamanho. 

Deteriorações similares podem ser observadas na indústria de construção civil.  Países flagelados pela inflação parecem ter sempre uma maior proporção de casas e ruas em constante necessidade de reparos.

Em ambientes assim, as pessoas desenvolvem uma atitude mais desleixada em relação às palavras que utilizam.  Se tudo realmente for aquilo de que passou a ser chamado, então é difícil explicar a diferença entre verdade e mentira.  A inflação incita as pessoas a mentirem sobre seus produtos, e a inflação perene estimula o hábito de mentir rotineiramente.  Este autor já argumentou em outros trabalhos que as mentiras rotineiras possuem um papel importante no sistema bancário de reservas fracionárias, a instituição fundamental do sistema monetário inflacionário.  A inflação monetária parece difundir esse hábito como um câncer para todo o resto da economia.

V. Sufocando a chama

Na maioria dos países, o crescimento do estado assistencialista tem sido financiado por meio do acúmulo da dívida pública em uma escala que seria impensável sem o advento do dinheiro de papel.  Uma rápida olhada no histórico mostra que o crescimento exponencial do estado assistencialista, que na Europa começou no início da década de 1970, progrediu pari passu com a explosão da dívida pública.  É amplamente sabido que tal acontecimento tem sido um grande fator no declínio da família.  Porém, é normalmente negligenciado o fato de que a principal causa desse declínio é a inflação monetária.  De maneira lenta, porém resoluta, a inflação perene destroi a família, sufocando a chama da moral cristã.

A família cristã é a mais importante "produtora" de um determinado tipo de moral.  A vida familiar só é possível se todos os membros forem seguidores de determinadas normas, tais como a legitimidade da autoridade, a união heterossexual entre homem e mulher, e a proibição do incesto. 

E as famílias cristãs se baseiam em normas adicionais, como o amor entre o homem e a mulher e o amor do casal pelos seus filhos, o respeito dos filhos pelos pais, a realidade do Deus Triuno e Uno, a verdade da fé cristã etc.  Os pais constantemente repetem, enfatizam e vivem essas normas.  Essa experiência diária faz com todos os membros da família aceitem essas normas como sendo o estado normal das coisas.  Consequentemente, na esfera social mais ampla, tais pessoas também agirão de acordo com essas normas, seja em relações comerciais, seja em clubes, seja na política.

Amigos e inimigos da família cristã tradicional concordam com esses fatos.  Dentre outras coisas, é exatamente porque os cristãos reconhecem a efetividade da família no estabelecimento de normas sociais, que eles se esforçam para protegê-la.  E é exatamente por essa mesma razão que os defensores da licenciosidade moral tentam destruí-la.  O estado assistencialista tem sido sua ferramenta preferida nos últimos 30 anos.

Atualmente, o estado assistencialista fornece um grande número de serviços que, em outras épocas, eram todos eles ofertados pelas próprias famílias (e os quais, podemos supor, ainda seriam fornecidos em grande escala pelas famílias caso o estado assistencialista deixasse de existir).  Educação dos mais novos, cuidado pelos mais velhos e doentes, ajuda em momentos de emergência — todos estes serviços foram hoje efetivamente "terceirizados" para o estado.  As famílias foram degradadas e rebaixadas a pequenas unidades de produção que compartilham entre si as contas da casa, os carros, a geladeira e, obviamente, os impostos.  O estado assistencialista, financiado por impostos, fornecerá a educação e os serviços médicos.

Em vários países, as famílias podem hoje deduzir do imposto de renda gastos com saúde privada educação privada.  Porém, e ironicamente (ou talvez não tão ironicamente assim), essa medida reforçou a erosão da família.  Por exemplo, recentes cláusulas do código tributário dos EUA permitem que o orçamento familiar aumente por meio destas deduções — mas somente se os serviços dedutíveis não forem ofertados autonomamente em casa, mas sim comprados de terceiros.

De um ponto de vista econômico, esse arranjo é um total desperdício de dinheiro.  O fato é que o estado assistencialista é ineficiente; ele fornece serviços comparativamente ruins a custos comparativamente maiores.  Não precisamos nos estender muito fazendo comentários sobre a incapacidade das agências estatais em oferecer o tipo de assistência emocional e espiritual que emerge apenas da caridade.  A compaixão não pode ser comprada.  Porém, o estado assistencialista também é ineficiente em termos puramente econômicos.  Ele opera por meio de grandes burocracias e é, desta forma, responsável pela falta de incentivos e critérios econômicos que impedem o desperdício de dinheiro.  Nas palavras do papa João Paulo II:

Ao intervir diretamente e privando a sociedade de sua responsabilidade, o estado assistencialista provoca a perda de energias humanas e um aumento exagerado das agências estatais, as quais são dominadas mais por lógicas burocráticas do que pela preocupação em servir os usuários, fazendo com que haja um acréscimo enorme das despesas.  Com efeito, parece conhecer melhor as necessidades e ser mais capaz de satisfazê-las quem está mais próximo dos necessitados.  Adicionalmente, vale ressaltar que certos tipos de necessidades requerem respostas que não sejam apenas materiais, mas que sejam capazes de compreender a mais profunda necessidade humana.[3]

Todos sabem disso por experiência prática, e vários estudos científicos chegam à mesma conclusão.  É exatamente pelo fato de o estado assistencialista ser um arranjo econômico ineficiente, que ele depende exclusivamente de impostos.  Se o estado assistencialista tivesse de concorrer com as famílias em termos iguais, ele jamais duraria muito tempo.  Ele só expulsou do "mercado assistencial" a família e as caridades privadas porque as pessoas são obrigadas a pagar por ele de um jeito ou de outro.  Elas são obrigadas a pagar impostos, e elas não podem impedir o governo de se endividar cada vez mais — medida essa que absorve o capital que de outra forma seria utilizado para a produção de bens e serviços distintos.

O excessivo tamanho do estado assistencialista dos dias atuais representa um ataque total e direto à moral cristã.  Mas ele também enfraquece essa moral por vias indiretas, a mais notável dela sendo o subsídio de maus exemplos morais.  O fato é que alguns "estilos de vida" alternativos carregam consigo grandes riscos econômicos, tendendo portanto a serem mais custosos que os tradicionais arranjos familiares.  O estado assistencialista socializa os custos de tais comportamentos, dando-lhes uma proeminência muito maior do que teriam em uma sociedade livre. 

Em vez de gerar uma penalidade econômica, o assistencialismo pode na verdade prover vantagens econômicas aos seus recebedores, pois ele os dispensa dos custos da vida familiar (por exemplo, os custos associados à criação de filhos).  Com o sustento do estado assistencialista, os assistidos podem então fazer escárnio da moral conservadora, rotulando-a como sendo algum tipo de superstição que não tem nenhum impacto na vida real.  A dimensão espiritual parece clara: o estado assistencialista sistematicamente expõe as pessoas à tentação de acreditarem que não existe absolutamente nenhum preceito moral que já foi testado e aprovado pelo tempo.

Permita-me enfatizar aqui que o objetivo das observações anteriores não foi atacar os serviços assistencialistas, os quais são na verdade um componente essencial das sociedades cristãs.  Antes, o ponto é que a inflação monetária destrói o controle democrático sobre a oferta desses serviços; que isso invariavelmente leva a um crescimento excessivo do estado assistencialista e a várias formas de assistencialismo; e que isso, por sua vez, não é algo inócuo ao caráter moral e espiritual da população.

As considerações acima não são de maneira alguma um relato completo e profundo do legado cultural e espiritual da inflação monetária.  Porém, elas devem ser suficientes para comprovar o ponto principal: a inflação monetária é uma usina geradora de destruição social, econômica, cultural e espiritual.

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Notas

[1] Pio XI, Quadragesimo Anno (1931), §§ 105, 106. Ver também Deuteronômio 28: 12, 43-44.

[2] Thomas Woods, "Money and Morality: The Christian Moral Tradition and the Best Monetary Regime," Religion & Liberty, vol. 13, no. 5 (Set./Out. 2003).  O autor cita Ludwig von Mises.

[3] João Paulo II, Centesimus Annus, § 48.

 

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SOBRE O AUTOR

Jörg Guido Hülsmann
é membro sênior do Mises Institute e autor de Mises: The Last Knight of Liberalism e e The Ethics of Money Production.  Ele leciona na França, na Université d'Angers.



Henrique Zucatelli
Bom dia
Sei que ter capital, fundos, poupança é importante mas:
Será que os consumidores quererão os meus produtos e serviços.
Se ninguém se interessar em comprar meus produto ou serviço que eu estou vendendo?
Se surgir uma oportunidade de negócios vou perder?
Meus concorrentes oferecerem melhores produtos e serviços que eu vou ter que aprimorar meus produtos ou serviços senão vou pra falência.
Isso estou vendo do lado do produtor, fornecedor de produtos e serviços.
Do lado do consumidor:
Será que preciso desse produto ou serviço?
Se preciso vou pagar a vista ou a prazo?
Caso eu compre à vista vou ter de poupar para adquirir o produto ou serviço que quero.
Caso eu compre à prazo vou ter de calcular quanto do meu ganho posso desprender para gastar.
Qual é melhor comprar a prazos curtos ou longos?
E finamente o que não se deve fazer:
Vou tomar empréstimo para comprar bens de consumo.
Vou compra itens no cartão de débito\crédito mesmo que não tenha fundos para cobrir o mesmo.
Vou Tomar empréstimo para pagar o cartão.
Isso do lado do consumidor.
Do lado do produtor\finacista e fornecedor de serviços:
Vou produzir itens em grande quantidade, mesmo que não consiga vender tudo.
Vou me associar a políticos para que tenha venda cativa de produtos e serviços para o governo cobrando acima do mercado e oferecendo produtos e serviços ruis
Vou toma empréstimo do governo para especular a compra e venda de empresas, mesmo que não entenda o que elas produzem ou serviço que elas oferecem.
Criarei lobis junto ao governo para que os meus interesses sejam atendidos.
Se falir terei AMIGOS no governo e me dá uma mãozinha.

O item 4 é contraditório com o item 10.
O professor Mueller tem uma visão um tanto equivocada com respeito à lógica.
Tanto a lógica aristotélica, quanto a lógica simbólica, incluindo a teoria dos conjuntos, são sistemas de ordenação argumentativa orientados na direção dedutiva nos quais a inferência está ligada necessariamente às premissas.
Para que o valor seja logicamente subjetivo, temos que incluir o valor campo dos objetos predicados por subjetivo.
Ora, vejam:
Para que isso ocorra, temos de recorrer às definições desses termos, pensando no método geométrico, as definições deveriam anteceder às teses, não estar incluídas nelas. Se ocorrer essa inversão lógica, o argumento é falacioso, chamada de Petição de Princípio (vide ORGANON - Aristóteles; COPY - Manual de Lógica; pesquisem sobre método geométrico)
Além disso, para que não haja inconsistência entre os itens 4 e 8 o trabalho deveria ter sido definido, tal como o valor o foi, como subjetivo. Senão o item 8 cria uma ambiguidade na passagem (por si só) que, do ponto de vista lógico, é um condicionante. Sem tal definição, o valor parece ter uma parte subjetiva e outra objetiva e, pior ainda, somente o condicionante do valor parece ser subjetivo. Se o trabalho não for caracterizado como subjetivo, o valor é efetivado objetivamente e, portanto, é objetivo.

Uma reordenação não viciada desses itens deve começar supondo o item 4, isto é, ser uma hipótese (eliminação do item 10). Posteriormente, definir o trabalho ou, por extensão ampliativa, incluir o trabalho no item 4.
"Se "4" e o trabalho for subjetivo, então "1""2""3""5""6""7""8""9""

Outro problema, mais grave, é usar o termo subjetivo e, por extensão, objetivo como predicados lógicos, i. é., características de coisas. A distinção entre subjetivo e objetivo é maior, isto é, anterior no processo de conhecimento, do que aquilo sobre o qual a lógica trata: as relações entre enunciados. Digamos, em termos mais simples, subjetivo não é uma característica de coisas, mas de afirmações, frases (vide POPPER - Lógica da Pesquisa Científica; RUSSELL & WHITEHEAD - Principia Mathematica; TARSKI - A Concepção Semântica da Verdade). Para incluir subjetivo e objetivo no vocabulário é necessário realizar uma metalinguagem que, por definição, exigirá a suspensão e a revalidação das definições. Dizer o por que tais definições devem ser aceitas.

A tentativa de criar leis em uma ciência que sejam a priori não funcionou nem na Física (vide KANT - Crítica da Razão Pura), mesmo na matemática (vide o embate entre FREGE e HILBERT) a tentativa foi, em parte, frustrada. Esse tipo de posição, chamada de Fundacionista, é uma visão, sinto informar, ultrapassada. A exigência de indicações empíricas e construções não totalizantes é regra fundamental para alcançar qualquer teoria saudável no pensamento científico atual.

PS. Desculpem-me o tecnicismo, não tenho o hábito de escrever para leigos. Devo melhorar nesse aspecto.
Bom dia Vladimir, como vai?

Que bom que começou a entender o começo da história. Agora falta a outra metade.

Não tem como prevermos a inovação. Pode parecer pleonasmo, mas inovar é fazer o novo, algo que ninguém fez até hoje. E isso pode dar certo (ou não). Claro que quando pensamos em inovações sempre vem a mente exemplos de sucesso como Apple, Microsoft, Ford e outros. Mas nos esquecemos que estes foram os vencedores. Em seus respectivos momentos, existiram dezenas (ou até centenas) de concorrentes brigando para saber quem iria se perpetuar, e a maioria caiu no caminho, foi absorvida ou simplesmente esquecida.

Se quiser entender mais como funcionam todos esses sentimentos de um grande inventor nos primórdios de sua carreira, recomendo que leia um livro muito bom (meu de cabeceira) do próprio Henry Ford- Os princípios da prosperidade . Tenho um exemplar da primeira edição, com o autógrafo do tradutor, ninguém menos que Monteiro Lobato. É um tesouro que guardo com muito carinho.

Voltando ao assunto, como toda inovação é nova (!), precisará de uma dose maciça de confiança de quem produz, aliado ao fato de que são recursos direcionados a esse projeto, com pouca ou nenhuma certeza de que irá dar certo. Repito à exaustão: quando olhamos invenções consagradas damos um valor a elas que não existia na época.

Justamente por esse princípio, é necessária a existência de poupança para financiar esses projetos. Sem poupança, sem inovação, por melhor que seja a ideia. Se tiver interesse nesse assunto, recomendo um ótimo livro de Peter Schiff - Como a economia cresce, e por que ela quebra .

Inclusive está a venda aqui no IMB:
www.mises.org.br/Product.aspx?id=55 .

Para finalizar, é melhor entender um pouco mais sobre como funciona o socialismo, e porque ele está sempre fadado ao fracasso. Como bem ilustra a Venezuela, os defensores do socialismo desconhecem uma lei básica da economia

Um grande abraço, e ótima semana para ti.










"só consigo comprar um IPhone por 'apenas' R$ 2000,00 porque ele é produzido aos milhões. Caso grande parte da população deixasse de comprar IPhone essa economia seria menos efetiva e com certeza cada IPhone custaria mais para ser produzido. Exemplo canônico: quase ninguém compra uma Ferrari e isso não faz ela ser mais barata, muito pelo contrário, ela seria muito mais barata se todo mundo comprasse uma: seria produzida na China e se chamaria Jac. :D"

Existem duas maneiras de um produto baratear, isto é produzir em larga escala com preços reduzidos ou produzir em larga escala com preços reduzidos e não houver demanda para tal produção, isso significa que pessoas estão se abstendo do consumo ou estão em crise. Portanto, as pessoas que pouparam ontem, hoje podem estar consumindo Iphones e ferraris ou investindo em bens de capital e assim aumentando ainda mais a abundância dos produtos.
Essa situação da demanda aconteceu recentemente com o consumo reduzindo e os preços acompanhando essa redução do consumo praticando menores preços.

"Além da economia de escala existe outro fator que você desconsiderou, as indústrias de bens não são facilmente reconfiguradas para produzir bens para as quais não foram inicialmente projetadas."

Para produzir bens tem que haver capital e o último advém de poupança. Contudo, para haver poupança para a população, os impostos sempre terão que ser baixos e isso possibilitaria empresas de várias partes do mundo vir produzir aqui pelas novas medidas do governo. As indústrias vindas do exterior automaticamente estaria trazendo seu conhecimento e técnicas para tal trabalho, isso significa que o país poderá produzir bens que não eram bons. Essa situação ocorreu na Coreia do Sul, Hong Kong, Taiwan, Japão e Singapura.
Coreia do Sul não tinha LG, SAMSUNG e Hyundai, e em pouco tempo pelos investimentos estrangeiros obteve conhecimento necessário para produzir o que não sabiam, produtos de alta tecnologia e carros.
Hong Kong seria tecnologia.
Taiwan idem de Hong Kong.
Japão acho que seria o setor automobilístico.
Singapura seria produtos de alta tecnologia.
Até tempo atrás não eram bons no que fazem hoje, e em pouco tempo conseguiram a façanha de realizarem tal ato.


ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Anderson Bortolai  07/01/2014 13:26
    Um dos artigos mais esclarecedores e profundos que já li a respeito do tema.

    Realmente, merece profunda reflexão.
  • Marcos  07/01/2014 13:27
    Termos um exemplo formidável de aplicação desse texto aqui no Brasil. Com o bolsa família, várias adolescentes pobres engravidam com o simples propósito de auferir ganhos as custas dos pagadores de impostos. Isso é um sinal claríssimo de degradação moral, pois contribui para a desagregação da família, mercantilização do papel materno (mães que vêem o filho apenas como uma "mina de ouro" e não como alguém por quem devem se sacrificar e proteger), péssima educação das crianças, iniciação sexual precoce, promoção de um comportamento sexual promíscuo, cultura da malandragem, indolência e do jeitinho (é impressionante o número de maracutaias que são feitas por conta da inexistência de fiscalização em relação as bolsas).

    Pior, tem sido construída toda uma cultura de dependência em relação ao governo, em substituição aos valores da dignidade do trabalho e do empreendedorismo. Todo mundo tem "direito" a ganhar seu dinheirinho, como se o governo fosse uma fonte infinita de recursos. Trabalhar que é bom ninguém quer, afinal quem trabalha é pouco mais que um escravo que tem que pagar a conta disso tudo. As pessoas perdem sua individualidade, retornam a condição de um bebê que precisa dos pais para suprir suas necessidades.
  • Carlos Santos  07/01/2014 13:41
    Acho que você não está ciente do valor que é pago pelo programa Bolsa-Família e acredita que é grande coisa. Pois então eu te informo que os valores variam entre R$ 22 a R$ 200 e a média é de R$ 97. Não acho que esses valores incentivem adolescentes pobres a engravidarem simplesmente para receber o benefício já que o custo para se manter uma criança é muito maior.

    "Pior, tem sido construída toda uma cultura de dependência em relação ao governo ..."

    Nisso você está certo. Todos estão loucos para arrumarem uma desculpa qualquer para não trabalhar e assim descolar algum benefíciozinho do INSS. Medidas assistencialistas do governo incentivam o parasitismo, sim, mas depende do valor que é pago e também não creio que isso se aplique às classes mais pobres.

    Essas pessoas realmente precisam de ajuda mas que seja dada sem coerção e por aqueles que realmente queiram ajudar por meio de doações ou trabalho voluntário. O que não dá é dizer que todas as pessoas tem o 'direito' a cinco refeições diárias, agasalhos, saúde, educação, transporte e lazer e o estado (que nada produz) tem o 'dever' de prover tudo.
  • Eduardo  07/01/2014 13:45
    Carlos Santos,

    a esmola é um pouco maior do que isso, a média das estados vai de R$117 a R$175 por família.

    E agora tem o tal do brasil carinhoso que garante renda mínima de R$70/mês por pessoa, pra famílias com crianças de 0 a 7 anos. Sem falar em bolsas estaduais e municipais.

    Isso é sim um estímulo, não pense no seu padrão de vida, mas no de uma pessoa pobre. Converse com uma adolescente grávida num hospital público e ouvirá várias contarem que engravidaram pelo sonho de ser mãe, ou de poder "prender o seu homem". Ganhando uma graninha a mais então...

    O estado assistencialista incentiva demais os comportamentos irresponsáveis e a falta de planejamento:

    Quer sair de casa ou mudar de cidade/bairro e não tem onde morar? Tome uma casa (ou invada um terreno e faça a sua).

    Foi demitido? Tome um seguro desemprego.

    Não tem dinheiro? Tome uma bolsa família.

    As contas de luz, gás etc são altas? Tome uma tarifa social.

    Ficou doente? Vá a um hospital público.

    Teve filho? Tome mais uma bolsa, e use nossas escolas e creches.

    Ficou velho e quer parar de trabalhar, mas nunca juntou dinheiro? Tome uma previdência pública.

    etc
    etc

    Enfim, não se preocupe com nada, que alguém irá pagar tudo para você.

    Já cansei de ouvir estórias de como as pessoas pararam de trabalhar depois que criaram todas essas bolsas, ou que só aceitam trabalhar um ou dois dias por semana. Isso aqui mesmo no RJ.
  • Jeferson  07/01/2014 18:33
    E eu já ouvi pior. Já ouvi criança dizer que não quer ser nada quando crescer. Quando eu perguntei "como assim, nada?", ela respondeu "quero viver de bolsa família, igual a minha mãe". Até matar os sonhos das crianças essa merda mata.
  • Emerson Luis, um Psicologo  07/01/2014 19:34

    Na região Sudeste e Sul, R$100 pode ser pouco para a maioria das pessoas, mas no Nordeste os preços são menores e essa quantia é razoável. Mesmo nos Estados mais ricos, pessoas pobres são tentadas a viver de bolsas.

    Inflação contínua gera cultura inflacionária (e vice-versa), que corrompe o caráter das pessoas.

    Comparem a declaração do Karol Wojtyla com as declarações pró-intervencionismo do Jorge Bergoglio.

    * * *
  • Rodrigo  07/01/2014 13:30
    Fico pensando se não foram os anos de inflação que ajudaram a criar ou reforçar essa nossa cultura do "levar vantagem em tudo" a cultura do esperto, que sempre se dá bem as custas dos outros. Você tem alguma opinião sobre isso?

    abraços
  • Lopes  07/01/2014 14:27
    A "cultura do jeitinho" é simplesmente inerente às sociedades onde há uma enorme presença do estado e é necessário que o indivíduo detenha contatos influentes para que possa sobreviver. Por exemplo, quando abordado por um policial malicioso que o intimida por não apresentar um documento que leva um dia inteiro de trabalho de espera no DETRAN para sair e ainda mais para chegar ao cidadão (pior ainda se houver greve nos correios), é sempre válido ligar para seu irmão "Papa Mike" (expressão local para membro da corporação) que esteja em posição mais alta na hierarquia policial e que possa salvá-lo em tal situação. O que você faria sem seu irmão caso o policial danificasse seu carro propositalmente, afinal? Abriria um pedido na corregedoria estadual que levaria anos de dor de cabeça e trabalho, terminaria em uma sindicância medíocre e finalmente arquivado por falta de evidências? Chamaria a polícia?

    Basta uma breve análise sobre a lista dos 50 países considerados os mais corruptos do mundo para rapidamente deduzir que todos apresentam intervenção estatal em todos os setores, aproximando-se de simplesmente impedir o sucesso de operações privadas sem a ajuda de um financiamento paralelo. Comerciantes de carros independentes, por exemplo, quão impossível e doloroso seria seu trabalho apenas aguardando vistorias estatais (terríveis, por sinal, dado que não protegem o comprador de nenhuma forma dado o desinteresse praxeológico dos reguladores. Já refutando o popular livro "O Mercado dos Limões".) sem um auxílio financeiro ou "de amizade" para que pudessem comprar e vender veículos? Ainda mais quando concessionárias já estabelecidas como as da Volkswagen são capazes de ter seus vendedores comerciando veículos usados muito rapidamente e quase "caindo aos pedaços" aos compradores incautos?

    Fala-se em demasia do "jeitinho brasileiro", como se fosse uma exclusividade de nossa cultura. Aqueles que já foram à Índia, Paraguai ou Venezuela estão cientes que nestes países há um "jeitinho" ainda mais imprescindível para a vida do cidadão comum que aquele do brasileiro. Mas sim, há uma relação entre inflação e o "Jeitinho", afinal, no que consiste a inflação senão em um processo onde aqueles que recebem o dinheiro estatal primeiro (e em grande liquidez) enriquecem enquanto todos os outros empobrecem? Lembra-lo-ei do BANERJ e BANESP, bancos estaduais horrendos que assiduamente concediam empréstimos de alta liquidez sem nenhum retorno a empresários amigos do estado e tinham de ser salvos pela impressora do BACEN, elevando ainda mais a inflação na união.

    O Brasil, assim como muitos outros países pobres, é uma nação onde o auto-emprego (cujo índice brasileiro é talvez o 3º maior do mundo, se não me falha a memória), a ilegalidade, a informalidade e o empreendedorismo são a única saída para o cidadão comum que é incapaz de conseguir emprego devido à legislação trabalhista e à situação fiscal em geral. É mister notar que para a exercer boa parte das atividades supra-mencionadas, o cidadão precisará recorrer à corrupção para superar a intragável intervenção governamental.
  • João  07/01/2014 13:47
    A inflação é a melhor amiga do governo e da cultura assistencialista. Sem inflação o governo não teria o poder que tem hoje no mundo ocidental, e a cultura assistencialista não existiria ou seria muito mais restrita.

    O que me deixa triste é que a população (não só do Brasil diga-se de passagem) é ignorante nesse sentido e, pior ainda, ignorante por opção. Quase ninguém quer saber "desse papo chato".

    O povo gosta de receber "something for nothing". Mas logo vão descobrir que essa brincadeira custa cara, esse sistema está em vias de cair de podre. Comprem OURO.
  • Pedro Valadares  07/01/2014 13:48
    É impressionante como um país que já sofreu com inflação de 100%/mês possa estar embarcando na mesma canoa furada.

    O governo está tomando todas as medidas possíveis para aumentar a inflação: crédito artificialmente barato, aumento da dívida pública, corte do rendimento da poupança, diminuição do superávit primário, desvalorização artificial do Real, barreiras contra importações...

    O que mais falta?

    Aqui fica minha pergunta. Todo sistema político pautado pela lógica eleitoral incentiva os governantes da vez a buscar soluções falsas, que passam a falsa impressão de bem-estar, mas que na verdade deterioram a economia. Então, é possível inferir que o sistema democrático é incompatível com o livre mercado?
  • anônimo  07/01/2014 13:55
    Corretíssimo. Parabéns por ter usado a lógica e concluído aquele óbvio que vários intelectuais conservadores atuais não conseguem ver. O próprio Marx já dizia: a democracia é um caminho indispensável para a implantação do socialismo.

    Artigos recomendados:

    www.mises.org.br/Subject.aspx?id=11
  • Eduardo  07/01/2014 13:59
    Sim.

    Como coloca Hoppe, "Um-homem-um-voto combinado com passe livre pra entrar no governo implica que cada indivíduo e sua propriedade estão disponíveis pra serem tomados por todo o resto dos indivíduos".

    O livre mercado é compatível com direitos de propriedade privada. Já a democracia é o oposto polar.

    Como coloca John Wenders, "Existe uma diferença entre democracia e liberdade. Liberdade não é medida pela habilidade de votar. Liberdade é medida pela gama de coisas nas quais não votamos. A liberdade deve ser protegida da democracia."

    A liberdade de um mercado é justamente medida pelos direitos de propriedade privada, e por tudo que não está disponível aos votos alheios.

    Desde coisas simples como poder individualmente escolher a cor do seu carro. Uma democracia votaria em uma cor pra impôr a todos os outros.
  • Andre Canine  07/01/2014 14:08
    artigo excelente. parabéns
  • César Rios  07/01/2014 16:37
    Grande artigo, entendi muita coisa que antes eu sempre ficava na dúvida. Agora tenho muita coisa pra pensar e praticar.
  • zanforlin  07/01/2014 19:24
    Leandro, parabéns pela escolha da matéria e grato por traduzi-la para nós.
    As consequências da inflação são aqui analisadas com a maestria da urdidura de um tapete Isfahan, ponto a ponto, unindo seda e lã em desenhos incrivelmente complexos e belos. O autor aborda a inflação de maneira raramente holística.
    Parabéns de novo.
  • Gredson  07/01/2014 23:58
    Excelente artigo, mal começou o ano, e já estou achando que esse será o melhor do ano rsrsrs. tem alguns tópicos que eu achei bastante interessante e gostaria de comentar.

    Um homem com seus 30 anos de idade, que esteja planejando se aposentar daqui a 30 anos, precisa levar em conta uma depreciação monetária na ordem de 3 a 5% ao ano. Isto é, ele precisa poupar de 3 a 5 unidades monetárias hoje para poder ter o poder de compra de uma unidade atual quando ele se aposentar.
    ---------------------------------------
    O bitcoin não pode ser uma solução para este problema?



    A sobriedade e a independência de julgamento são substituídas pela submissão e pela auto-ilusão. E quando, como ocorre em muitos casos, as famílias não mais conseguem arcar com todo seu endividamento? O resultado é o desespero — ou, ao contrário, o desprezo por todos os padrões de sanidade financeira.
    ----------------------------------------
    Meu pai passa exatamente por esta situação. ele meio que pegou ódio do dinheiro e entrou em depressão. Uma fuga para ele, tem sido se aproximar da religião.
  • Lopes  08/01/2014 01:48
    É angustiante. É uma sensação de fracasso e impotência que toma qualquer indivíduo durante o endividamento. E aqueles que sucumbem ao próprio fatalismo terminam ainda pior. A família sofre pois pais dedicados enxergam na melhora de suas condições de vida uma imagem de glória e superação de um abismo. O medo de voltar ao passado de maior pobreza é simplesmente assustador por si próprio.
  • Poupança  08/01/2014 14:15
    Leandro, existe algum índice econômico verdadeiro que indique se uma população é poupadora ou consumidora?
  • Poupanca  08/01/2014 14:32
    Seria a taxa de poupança?
  • Leandro  08/01/2014 14:32
    Existe apenas uma tabela do Banco Mundial que é igual a PIB - consumo total + transferências líquidas. Tudo em porcentagem do PIB.

    data.worldbank.org/indicator/NY.GNS.ICTR.ZS
  • Poupador  08/01/2014 22:30
    Excelente artigo!
    Apesar de não ser cristão, reconheço que a inflação causa efeitos não virtuosos nas pessoas e na sociedade (bagunça é tudo!).
    Me pergunto quando as pessoas vão abrir os olhos!
    Inflação forte causa revoluções, já a inflação como a que temos hoje no Brasil é silenciosa porém, penso que muito mais perniciosa.
    E assim vamos caminhando, no caminho da servidão (ou no caminho para o aeroporto, pegar o primeiro avião pra Hong-Kong!)
  • Samuel   09/01/2014 02:20
    Estou me interessando pela escola austriaca e por almejar trabalhar no mercado financeiro me veio uma duvida. Qual seria as vantagens e utilidades da escola austriaca na hora de escolher os investimentos ?
  • Rômulo  09/01/2014 13:02
    Exatamente como diz o artigo:

    Inflação eleva "maquiagem" de produtos

    A alta da inflação intensificou a prática de empresas de reduzir o peso ou o volume dos produtos sem a diminuição proporcional do preço, muitas vezes sem informar o consumidor de forma clara (a chamada "maquiagem")

    www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me2204201103.htm
  • Rômulo  09/01/2014 13:05
    Juro baixo é promessa que não se cumpriu

    Apesar de ter salário de R$ 5,2 mil, Reis só pode usar R$ 600 por mês. O resto vai para os credores. Superendividado, o servidor, que trabalha há duas décadas no governo do Distrito Federal se arrepende dos empréstimos que fez. "Errei porque, quando a situação apertou, quis resolver tudo no banco." No fim de 2012, Reis tentou renegociar sua dívida. A cada tentativa, aumentavam o número de parcelas e o valor final a ser pago.

    br.financas.yahoo.com/noticias/juro-baixo-%C3%A9-promessa-se-124200267.html


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