A coragem se dá por meio do empreendedorismo
por , sábado, 30 de novembro de 2013

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destaque_3318.jpgE se o Brasil começasse a levar a sério o Dia do Empreendedor? É o 5 de outubro, data da aprovação do Estatuto Nacional da Microempresa e Empresa de Pequeno Porte, que não importa agora. Importa celebrar aquelas pessoas que estão abrindo novos caminhos sem a certeza de que alguém irá segui-las, celebrar quem está apostando alto em projetos que acabarão abandonados, superados ou copiados. Vamos celebrar as futuras falências, o fracasso iminente.

Nassim Taleb escreve em Antifragile a mensagem que deveria acompanhar a celebração de um Dia do Empreendedor:

A maioria de vocês irá fracassar, acabarão desrespeitados, empobrecidos, mas nós somos gratos pelos riscos que estão tomando e pelos sacrifícios que vocês estão fazendo para o crescimento econômico do planeta e para tirar os demais da pobreza. Vocês são a fonte da nossa antifragilidade. Nossa nação agradece a vocês.

Por que comemorar o fracasso, e não apenas o sucesso? Porque a estrada do sucesso futuro é pavimentada com as ruínas dos fracassos passados. A falência cumpre na economia o papel que a falsificação de hipóteses cumpre na ciência experimental. "Alguém que não encontrou uma coisa está fornecendo conhecimento aos demais", diz Taleb, "conhecimento do melhor tipo, aquele da ausência (do que não funciona)."

Cada vez que você entra em um restaurante bom, que lhe agrada, lembre do outro empreendedor, que naufragou com seu outro restaurante menos agradável, mas que ajudou o processo de aprendizado de todo o setor de alimentação. Se o setor de restaurantes parece imune a crises, agradeça ao fato de ser um setor de maior rotatividade, com alto índice de falências. A fragilidade de cada estabelecimento deixa mais robusto o setor como um todo.

Enquanto cada empreendedor caminha com prudência em sua luta por sobreviver, a sociedade se beneficia de quem está mais disposto a correr altos riscos. Para que haja mais empreendedores com maior ousadia, precisamos elevar moralmente o status da atividade empresarial. Continua Taleb:

A fim de progredir, a sociedade moderna deveria tratar empreendedores arruinados da mesma maneira que honramos soldados mortos, talvez não com tanta honra, mas usando exatamente a mesma lógica.

Não é difícil encontrar empreendedores arruinados. Cerca de metade das empresas no Brasil não consegue sobreviver mais de três anos. Apenas uma minoria atravessa a marca dos cinco anos com vida. Como já disse em outro lugar, para abrir uma empresa no Brasil, gasta-se 152 dias com a obtenção de todas as licenças, inspeções e registros necessários. Leva-se quatro anos para fechá-la. No mesmo período, é possível abrir e fechar 7 empresas em Cingapura.

Até quando os empreendedores vencem no mercado, seu sucesso pode ser logo perturbado pelo que Werner Sombart e Joseph Schumpeter chamavam de destruição criadora. A próxima inovação pode sepultar a anterior. Deirdre McCloskey dá um exemplo:

Pense nas mais recentes cadeiras de praia, dobráveis e de lona, antes vendidas por U$40 e que agora custam U$6. Elas levaram à falência companhias que faziam as cadeiras de alumínio mais antigas. Por sua vez essas levaram à falência as velhas cadeiras dobráveis de madeira, que por sua vez levou à falência as ainda mais antigas cadeiras de madeira não dobráveis.

As pequenas grandes maravilhas do mundo contemporâneo foram trazidas por empreendedores. Foram eles que fizeram com que o smartphone que você tem no bolso (ou que está usando para ler esse texto) tenha uma capacidade de processamento superior a todo o projeto Apolo no ano em que o homem foi à lua.

Também foi o empreendedorismo que ajudou a cortar a pobreza mundial pela metade nas duas últimas décadas. E os pobres não apenas enriquecem como objetos do empreendedorismo alheio. Eles abandonam o poço da pobreza pela escalada do empreendedorismo próprio — especialmente quem estava amarrado ao fundo, como os Dalit, a casta dos "intocáveis" na Índia.

New York Times relata a transformação dos intocáveis. Estagnados em meio a preconceito social e político histórico, os Dalit nasciam pobres e morriam sem esperança de mobilidade social. A constituição indiana "relegou os Dalit à base da pirâmide social e os condenava a empregos de baixo status, como barbearia e trabalhos com couro". Nas salas de aula, as crianças Dalit tinham que se sentar no chão. Os pais não podiam ir ao mesmo templo ou beber da mesma água das castas superiores.

Até que algo aconteceu. Os Dalit começaram a "combater o sistema de castas com o capitalismo." Com a abertura comercial indiana em curso há mais de vinte anos, os intocáveis aproveitaram a oportunidade para abrir suas próprias empresas e contratar funcionários da sua própria casta. Formaram sua própria câmara de comércio e indústria,

Um próspero centro de líderes empresariais que ignoram por completo a intervenção do governo, realizando contato diretamente com candidatos qualificados e preenchendo ordens de compra de outras empresas Dalit.

Resultado? A diferença salarial entre os intocáveis e as outras classes caiu de 36% em 1983 para 21% em 2011, "menor que a diferença salarial entre trabalhadores brancos e negros nos Estados Unidos. A desigualdade educacional caiu pela metade."

A ascensão econômica traz ascensão social. Ashok Khade, um empresário Dalit, ainda se lembra de como era a vida antes do capitalismo, apesar de hoje ser recebido com saudação pelos líderes locais quando chega de BMW prata em sua vila natal.

'Esse é um período de ouro para os Dalit', diz Chandra Bhan Prasad, pesquisadora e ativista Dalit que hoje defende o capitalismo entre os intocáveis. 'Por causa da nova economia de mercado, a sinalização material está substituindo a sinalização social. Os Dalit já podem comprar sua posição na economia de mercado. A Índia está passando de uma sociedade de castas para uma sociedade de classe.'

(Fazemos filmes de atletas em provas de superação e de artistas psicologicamente torturados. Mas não celebramos o suficiente nossos empreendedores. Pense nas novelas. Quantos vilões eram empreendedores? E quantos heróis?)

Os pobres brasileiros podem exercitar a mesma coragem dos intocáveis indianos se suas oportunidades econômicas forem ampliadas. Devemos diminuir o custo de abrir e operar uma empresa para que o caminho do empreendedorismo esteja aberto à base da nossa pirâmide social. Muitos irão fracassar. Por isso é importante honrar cada tentativa. Outros irão ter sucesso, e servirão de exemplo para novas gerações:




Diogo Costa é presidente do Instituto Ordem Livre e professor do curso de Relações Internacionais do Ibmec-MG. Trabalhou com pesquisa em políticas públicas para o Cato Institute e para a Atlas Economic Research Foundation em Washington DC. Seus artigos já apareceram em publicações diversas, como O Globo, Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Diogo é Bacharel em Direito pela Universidade Católica de Petrópolis e Mestre em Ciência Política pela Columbia University de Nova York.  Seu blog: http://www.capitalismoparaospobres.com


20 comentários
20 comentários
Andre 30/11/2013 14:43:33

Esse pipoqueiro é um ótimo empreendedor!

Responder
Paulo Henrique 30/11/2013 17:11:51


Pipoqueiro opressor dono dos meios de produção.. rsrsrs

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Típico Filósofo 30/11/2013 18:14:01

Pasmo fico.

Em apenas 6 minutos de vídeo, o pipoqueiro violou no mínimo 14 leis passadas ano passado pela câmara dos vereadores visando proteger o consumidor da busca irrefreada por lucro das oligarquias pipoqueiras. Além disso, apoiado pelo operador da mídia neoliberal burguesa que o entrevistou, visou perpetuar seu domínio sobre os meios de produção ao alienar seus auxiliares da real estrutura produtiva - nem mesmo os mostrou no vídeo.
(É óbvio que ele possui funcionários. Se não os tivesse, como auferiria lucro/mais-valia? Qualquer adolescente brasileiro bem educado sabe que é impossível haver lucro sem exploração)
--------
Sobre o mercado causar uma união pragmática entre indivíduos diferentes e assim gerar transformações sociais naturais, trata-se, na verdade, de uma abominação dialética; a luta de classes e o ódio justificado são as únicas interações possíveis na humanidade. Todas as outras relações entre homens são alienação.

Outro exemplo de empreendedorismo: (Inicia com um final feliz e termina mal)

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Julio Heitor 01/12/2013 15:49:03

Filósofo,

você acabou de dar a maior contribuição para este site. O vídeo é impressionante! Parabéns pelo ótimo trabalho que tem feito aqui no site!

Abraços!

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Eduardo Bellani 01/12/2013 19:49:30

No tempo 02:11, vemos claramente o cidadão incorrendo no crime de trabalho infantil. Pena que o estado social ilumidado não conseguiu subjugar o cidadão e preservar a criança de ter sua mais valia explorada por tal inescrupuloso pai.

To aprendendo com o filósofo, obrigado mestre.

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Típico Filósofo 01/12/2013 21:43:27

Precisa análise, Eduardo.

Sob uma perspectiva marxista, serve de perfeita justificativa para a recuperação financeira do capitalista: sem capacidade de explorar o proletariado, optou por retirar a mais-valia do próprio filho (cujo legítimo lugar é em uma escola pública de qualidade para que aprenda sobre justiça social e consciência de classe) para manter de pé sua ganância inescrupulosa por lucro. E pior: Após anos de alienação, o próprio rapaz torna-se ele mesmo um burguês, traindo sua classe em prol da manutenção da lógica capitalista de produção.

Trata-se de uma das histórias que melhor explana os horrores do capitalismo.

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Emerson Luis, um Psicologo 02/12/2013 13:59:03


Muito bem pensado, Típico Filósofo. Se o governo não acabar com a exploração capitalista que este pipoqueiro está fazendo (utilizando regulamentações e impostos), esperamos que passem alguns black blocs e façam o serviço, tudo com a aprovação dos artistas e intelectuais que se importam com o povo do alto de seus apartamentos duplex de cobertura ou do interior de seus carros de luxo.

Quanto aos intocáveis da Índia, só falta alguém dizer que o capitalismo fez mais por eles do que a Madre Tereza&CIA e todas as iniciativas socialistas. Que abursdo!

* * *

Responder
Lucas 08/01/2015 18:10:35

Caso alguém se interesse: https://www.youtube.com/watch?v=2QhGO8IkhQk

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Mauricio. 30/11/2013 15:48:29

O blog do Diogo tem um conteúdo excelente e uma linguagem extremamente acessível para todos. Leio sempre.

Responder
Lucas Fernando 30/11/2013 17:38:02

Eu fico me perguntando, quem é o verdadeiro empreendedor ?? O Valdir pipoqueiro ou o fanfarrão Eike Batista ?? 19 bilhões em subsídios dados ao grupo X, que afundou na lama junto com as empresas que o formavam, e enquanto isso os Valdir´s da vida lutando um dia de cada vez tentando manter seus pequenos negócios, sonhando um dia crescer e ter o que Eike Fanfarão Batista teve, com muito mais lobby do que esforço e trabalho duro, e conseguiu destruir.

Responder
Gredson 01/12/2013 00:18:34

é interessante essa questão do pipoqueiro, porque atualmente foi aprovado um projeto de lei, que regulamenta a venda de comida de rua. para ter a licença, alem de ter que pagar pelo espaço ocupado, tambem tem que ter a permissão de uma comissão e do subprefeito para poder atuar.

As comissões que vão avaliar as bancas de comida de rua só aprovarão a venda se os comerciantes comprovarem que há espaço físico adequado e respeito às normas da vigilância sanitária.

www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/11/1377618-camara-de-sao-paulo-aprova-projeto-que-permite-venda-de-comida-de-rua.shtml


Nem os vendedores de comida, escapam do desse governo. =/

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Ali Baba 01/12/2013 10:00:47

@Gredson 01/12/2013 00:18:34,

O pior é o dinheiro que se vai gastar contratando ainda mais fiscais para garantir a aplicação da legislação. Mais propriedade sendo roubada, além dos transtornos para os empreendedores "informais".

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Eduardo 01/12/2013 10:02:36

Parabéns! Excelente texto!

Responder
Gilberto Ferreira da Silva de Souza 01/12/2013 16:31:09

O que dá mais nojo de ser brasileiro é o modo diferenciado como o "governo" e seus puxa-sacos são tratados: com reverência, temor, etc. Quando, na verdade, se sabe que não passam de vagabundos exploradores e parasitas. O brasileiro é, na maioria dos casos, um ser covarde, dependente e bajulador do "governo" e, por isso, nunca se desenvolverá economicamente enquanto não colocar o "governo" em seu devido lugar, ou seja, na lata de lixo. Mas, isso é esperar muito de um escravo conformado e masoquista(povo brasileiro). Odeio.

Responder
Edson 01/12/2013 18:28:22

Vou abrir uma escola preparatória pra concursos públicos! Viu como o funcionário público também sabe empreender?

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anônimo 01/12/2013 19:07:15

Olha quem apareceu! Pena que continua sem entender nada... Mas aposto que se mandarem ele decorar algo, vai obedecer a ordem direitinho!

Olha funça, escrito especialmente para o seu tipo:

Imposto é roubo, estado é quadrilha, e outras considerações
www.mises.org.br/Article.aspx?id=1748

Responder
Edson 02/12/2013 00:53:52

Olha, eu entendo perfeitamente. Quem não entende é você e outros comentaristas daqui achando que um dia conseguirão uma sociedade sem um sistema de governo rs

Bye bye, preciso terminar o plano de negócios do meu novo empreendimento.

Responder
anônimo 02/12/2013 10:11:50

'Quem não entende é você e outros comentaristas daqui achando que um dia conseguirão uma sociedade sem um sistema de governo rs'

Mais uma prova de que não entendeu nada.Nem todo mundo por aqui é anarco não.

Responder
Renato S. Borges 02/12/2013 03:19:57

o caso destes 'intocáveis' são um tapa na cara de toda e qualquer política afirmativa.

Responder
Henrique 19/12/2014 14:05:05

Prezado Diogo,
Ótimo texto e o vídeo (pipoca do Valdir), é a cereja do bolo!
Parabéns!
Abraço

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