Anarcocomunismo, socialismo libertário e libertarianismo de esquerda: conceitos e diferenças
Não é própria deste momento histórico a existência de confusões causadas por múltiplas interpretações de uma mesma palavra. Por este motivo, é necessário que o cientista, o pesquisador e o teórico se detenham por um instante sobre a tarefa de apresentar uma conceituação dos termos utilizados. Esta tarefa não corresponde ao ato de tomar para si as palavras, mas de apresentar um uso, isto é, uma interpretação para elas.

No campo do pensamento político há diversos conceitos. Palavras como capitalismo, socialismo, anarquia, mercado, propriedade, poder, indivíduo e sociedade são alguns exemplos de termos que necessitam de aprofundamento conceitual. Caso isto não ocorra, torna-se difícil compreender qual é o sentido pretendido. Devido a problemas de tradução da palavra inglesa libertarian é preciso diferenciar o pensamento libertário norte-americano do antigo uso da palavra libertário para designar os anarquistas clássicos.

Dentro da história do pensamento político, chamou-se de liberal o defensor de determinadas liberdades civis e liberdades econômicas. O liberalismo é a doutrina do liberal, pautado no pensamento dos liberais clássicos como Locke e Mill. O problema linguístico aparece quando nos Estados Unidos o termo liberal é usado para designar uma posição que, no Brasil, chamaríamos de liberalismo-social. Naquele país os defensores de liberdades se viram órfãos de um termo que os designassem. É neste contexto que aparece, para diferenciar o liberal, o termo libertarian.

A confusão para o leitor da língua de Camões ocorreu ao traduzir-se o termo libertarian por libertário. Este novo libertário também foi designado neste idioma como libertarista e libertarianista. É óbvio que um indivíduo que defende liberdades irá chamar a si mesmo de libertário, o defensor da liberdade, como aponta a definição dicionarista. Porém, devido ao uso deste termo em outras tradições do pensamento político, a confusão torna-se aparente.

Jorge Esteves da Silva está correto ao apontar que o termo libertário foi introduzido pelos teóricos anarquistas franceses no século XIX. Se não há, nem deveria ter, direitos de propriedade sobre o uso de palavras, o uso do termo libertário pode se modificar ao longo da dinâmica existente nas transformações linguísticas que sempre ocorreram na história.

Se o termo libertário foi introduzido pelos anarquistas, é compreensível que os seguidores de Joseph Déjacque (1821-1864) reivindiquem o seu uso para a defesa do pensamento político que defende a divisão equitativa do produto do trabalho numa sociedade organizada comunalmente, sem a existência de um governo central. É importante salientar que, antes de Déjacque, Pierre Joseph Proudhon (1809-1865) havia se autointitulado anarquista. O termo libertário começa a ser utilizado como oposição ao mutualismo proudhoniano, um sistema que defendia direitos de propriedade e remuneração proporcional ao trabalho realizado.

Destarte, há neste ponto uma primeira distinção que merece atenção. Nos anarquismos não-proudhonianos o coletivismo é um ponto principal. Estes anarquismos que rejeitam uma liberdade de associação com salários e preços, o chamado anarquismo social, podem ter um caráter comunista ou socialista (posteriormente surge o anarco-sindicalismo). O anarco-socialismo, ou socialismo libertário, é a defesa de uma sociedade na qual todos os meios de produção são socializados. Porém, diferente de Karl Marx, defende que esta socialização ocorra sem a criação de um estado ou estrutura hierarquizante para governar. A revolução dos trabalhadores não trocaria os atuais governantes por novos governantes, como defendeu Marx e ocorreu nas revoluções socialistas ao redor do globo. Contudo, para os anarcocomunistas há um problema grave com esta defesa socialista do anarquismo, pois ainda existira a remuneração pelo trabalho. O anarcocomunismo defende a abolição deste sistema de salários, visando uma distribuição dos bens a partir da necessidade. Tudo seria comum e distribuído para todos conforme fosse necessário o uso. Este sistema de abolição do dinheiro acabaria com a ideia de recompensa, pois todos teriam acesso ao que foi produzido e decidiriam democraticamente em suas comunas como utilizar os recursos e os bens produzidos.

A briga semântica estava lançada no movimento anarquista do século XIX. O primeiro teórico a usar o termo libertário defendia uma posição anarcocomunista. Entretanto, Mikail Bakunin, teórico anarco-socialista, chamou seu anarquismo de socialismo libertário (em oposição ao socialismo autoritário, termo que usava para designar a ideia de Marx). Neste contexto, os anarcocomunistas, que viam no socialismo libertário uma estrutura de preços e salários, consideravam-se mais defensores da liberdade e então surge o comunismo libertário.

Assim, o termo libertário na tradição anarquista não possui um uso uniforme. Obviamente que os anarcocomunistas reivindicam o seu uso devido ao seu surgimento como oposição ao mutualismo de Proudhon e ao anarco-socialismo de Bakunin. A liberdade que defendem é a liberdade social da vida numa comuna democrática com redistribuição por necessidade e não por mérito. Esta é a sociedade sem coerção, sem autoridade e sem amarras, para estes "libertários".

Por este tipo de anarquismo ser mais difundido, ajudado pelas revoltas e revoluções desencadeadas contra o capitalismo (no sentido marxista do termo), não é de estranhar que os defensores do libertarianismo sejam vistos com repulsa ao se considerarem libertários.

O libertarianismo, libertarianism no inglês, dentro da tradição anarquista está posicionado entre outro tipo de anarquismo que floresceu na primeira metade do século XIX, o anarquismo individualista. Nesta vertente é o indivíduo que está em primeiro plano, acima de um contexto social ou comunal. Não se pensará no modo de vida coletivo, mas na efetivação da autonomia individual através de liberdades individuais plenas. Numa sociedade totalmente comunista o indivíduo perde-se no coletivo ao qual está inserido. Por conta disto, se um dos problemas enxergados pelos anarquistas é o do estado como algo coercitivo, para um individualista a decisão da comunidade pode ferir suas liberdades e ele se verá coagido a algo, mesmo que não exista uma estrutura de poder como nas sociedades arquistas.

Se na tradição individualista o libertarianismo defende as liberdades individuais em seu mais alto grau, ao defender um modo de produção de bens e serviços será buscada a forma mais livre de produzir. Portanto, é no livre mercado que se pautará a defesa da efetivação da liberdade de se produzir onde, quando e como quiser. Este ambiente de liberdade só é possível se as relações entre os indivíduos forem voluntárias e não orquestradas por um governo central. Bem diferente dos coletivistas, estes novos anarcoindividualistas defenderão o mercado desimpedido, sendo possível apenas num ambiente no qual sejam respeitadas as propriedades privadas. É exatamente no espaço privado que haverá a efetivação total das vontades e liberdades individuais. Como não são autosuficientes, os indivíduos precisarão efetuar trocas com outros indivíduos. O sistema de preços e as leis de oferta e demanda possibilitarão que as trocas justas ocorram, isto é, as trocas efetuadas voluntariamente serão justas se aceitas por ambas as partes sem a existência de fraude ou coação.

Os libertários, isto é, os libertaristas ou libertarianistas, podem reivindicar o uso da palavra libertário por não especificarem como deve ser a sociedade. Numa sociedade sem um governo central, as pessoas iriam arranjar soluções para a sobrevivência. Pensam que um sistema de mercado seja mais eficiente que sistemas cooperativos, mas não há coação para que se pratiquem trocas baseadas em moeda. Numa sociedade comunista não haveria espaço para o uso da moeda (que foi abolida) e, portanto, indivíduos que desejassem viver com propriedade privada através deste tipo de trocas não teriam espaço. Numa sociedade que ainda há o uso de moeda, indivíduos poderiam se juntar e viver de forma cooperativa numa propriedade, sem receber represálias, visto que não há um "dever ser" econômico. Se libertário é o defensor da liberdade total, então estes novos libertários possuem um argumento para a utilização da palavra. Defendem liberdades individuais e liberdades econômicas.

Apesar dessa defesa das liberdades, as liberdades econômicas eram o ponto menos aceito para uma tradição anarquista. Num século que foi marcado por ditaduras socialistas e por enormes intervenções governamentais na economia era preciso demonstrar que a defesa de uma sociedade com mercados desimpedidos traria mais benefícios para os menos favorecidos economicamente. Esta defesa de uma economia de mercado trouxe para o moderno libertarianismo uma antiga direita, defensora do livre mercado. Este foi um dos motivos para que os novos libertários ficassem associados apenas à defesa de mercados desregulados. Neste contexto, retoma-se uma forma de apresentar o libertarianismo que remonta à tradição individualista do anarquismo. Este libertarianismo retomado do século XIX fica conhecido como libertarianismo de esquerda (left-libertarianism).

O libertarianismo de esquerda não é uma posição política homogênea. Antes, designa diferentes abordagens de questões políticas e sociais num contexto teórico nos quais diferentes teorias relacionam-se. Deste modo, falar em libertários de esquerda pode-se referir aos seguintes grupos teóricos: (1) esquerda libertária, (2) georgismo (geoísmo), (3) escola Steiner–Vallentyne, (4) agorismo, (5) left-libertarianism (libertarianismo de esquerda de livre mercado).

Apesar das diferentes linhas de pensamento, é a quinta vertente a que chama a si mesmo de libertária de esquerda. Há confusão, por exemplo, pelo fato de alguns autores identificarem alguns marxistas como Rosa de Luxemburgo, Anton Pannekoek, Paul Mattick, Cornelius Castoriadis, Jean-François Lyotard e Guy Debord como libertários de esquerda.[1] A esquerda libertária, portanto, alinha-se muito mais com o socialismo libertário, já comentado anteriormente. Contemporaneamente, anarquistas famosos como Murray Bookchin e Noam Chomsky tem se identificado com esta tradição socialista de viés anti-estatal.

O georgismo refere-se à teoria político-econômica elaborada por Henry George. O ponto central do pensamento de George é que as pessoas são proprietárias de tudo o que criam, mas que os bens naturais, como a terra, não deveriam possuir proprietários. Economicamente significa que o único imposto existente deveria ser o imposto sobre a terra. Toda atividade econômica ficaria livre de taxação e a única taxação existente seria eficiente e equitativa ao recair sobre os que possuíssem mais propriedades de terra. Milton Friedman (1978) concordou com a posição de Henry George ao afirmar que o imposto sobre a terra seria menos nocivo e produziria menos distorções econômicas do que os impostos sobre as atividades econômicas.[2] Vale salientar que apesar de não ser um anarquista, as ideias de George foram tomadas por alguns seguidores que reelaboraram o georgismo, transformando-o no chamado geoanarquismo, uma espécie de neo-georgismo.

A Escola Steiner–Vallentyne está alicerçada no pensamento de Hillel Steiner e Peter Vallentyne, além de possuir contribuições de outros acadêmicos e pensadores não necessariamente left-libertarians. A questão chave desta escola é criticar a concepção de autopropriedade de Robert Nozick (famoso pelo seu clássico Anarquia, Estado e Utopia) e a dedução de que a propriedade de outros recursos naturais decorra deste conceito. Neste contexto, o pensamento desta escola aproxima-se do pensamento de Henry George ao afirmar a necessidade de "uma compensação que os proprietários devem aos não proprietários mediante impostos ou rendas sobre a propriedade de recursos naturais, incluindo a propriedade da terra" (ROSAS, 2009).

O agorismo é a doutrina filosófica elaborada por Samuel Edward Konkin III, ativista libertário. O termo remete à palavra ágora do grego. A ágora era a praça principal da pólis grega, o local onde ocorriam as assembleias e onde havia mercados e feiras livres. Ao propor o agorismo, Konkin queria fugir dos antigos rótulos "liberal" e "anarquista". O agorismo seria então a filosofia política baseado nos mercados livres, em suas palavras "libertária em teoria e de livre-mercado na prática". Konkin expôs suas ideias no Manifesto do novo libertário. Neste livro, apresenta o conjunto de conceitos e princípios que baseiam a defesa de uma sociedade livre. Aponta que a nossa condição é o estatismo e que este precisa ser eliminado para que se atinja a sociedade agorista. Defende a contra-economia, isto é, que os libertários evitem ao máximo a economia branca e façam suas trocas no mercado negro, como forma de atingir o estatismo. Konkin não apenas defendeu esta ideia, mas praticou a contra-economia incentivando o surgimento de empreendedores do mercado negro. Foi grande crítico de uma transformação pela via política, como o Libertarian Party, defendendo uma revolução cultural que minasse o estatismo.

O quinto grupo que pode ser definido como libertário de esquerda é o libertarianismo de esquerda. Neste sentido, quando dentro da tradição libertária (do libertarianismo) fala-se de um libertarianismo de esquerda (left-libertarianism) é a este movimento que se refere. Dentro os mais notáveis pensadores desta posição estão Kevin Carson, Roderick T. Long, Charles Johnson, Brad Spangler, Sheldon Richman, Chris Matthew Sciabarra e Gary Chartier.

A principal diferença do libertarianismo de esquerda com o libertarianismo mais difundido no Brasil está relacionada com questões sociais, como drogas e aborto, e questões econômicas, como propriedade da terra e grandes corporações. É certo que autores como Murray Rothbard, Walter Block, Leonard Read e Harry Browne escreveram sobre o libertarianismo não ser nem de direita e nem de esquerda, criticando autores que se posicionam nas vertentes left e right do pensamento libertário. Apesar deste ímpeto de evitar tal classificação, inclusive sob o slogan "nem esquerda, nem direita, libertário", Anthony Gregory apresenta uma distinção que pode auxiliar a diferenciação entre o libertarianismo de esquerda e de direita.

Para Gregory (2006), uma forma de apresentar a diferença é:

Libertários de esquerda concentram-se nas "liberdades individuais", enquanto os de direita se interessam principalmente pelas "liberdades econômicas".

Libertários de esquerda possuem simpatia pelo igualitarismo voluntário, enquanto os de direita são mais favoráveis à hierarquia natural.

Libertários de esquerda podem ser aqueles que vivem estilos de vida esquerdistas culturalmente ao invés do estilo de vida conservador dos libertários de direita.

Libertários de esquerda podem ser os que buscam ativamente outros para abraçarem seu estilo de vida, enquanto os de direita procuram outros para abraçar seu estilo de vida conservador.

Libertários de esquerda podem se opor ao big bussiness, enquanto os de direita os veem como vítimas do estado.

Libertários de esquerda assumem uma posição à esquerda sobre o imperialismo, enquanto os de direita são a favor de uma "forte defesa nacional".

Libertários de esquerda pensam que o estado deva intervir ativamente em assuntos estrangeiros para "proteger liberdades", enquanto os de direita possuem uma visão alinhada com a antiga direita com relação ao imperialismo.

A partir de Gregory podemos compreender as características do que se designa como libertarianismo de esquerda. A defesa das liberdades individuais como o uso de drogas, o aborto e a união homossexual são obviamente posições defendidas majoritariamente pela esquerda. Há textos libertários contrários a estas posições, como Ron Paul defendendo uma posição pró-vida e Justin Raimondo que defende que os homossexuais não devam mendigar favores ao estado, vivendo um casamento livre da intervenção estatal.[3]

Outro ponto importante na abordagem à esquerda do libertarianismo é ser contra o poder das grandes corporações. Há enorme vinculação entre o poder estatal e o poder dos grandes grupos corporativos. Defender a liberdade econômica seria favorecer os que já começam no livre mercado amparados, auxiliados e favorecidos pela condição histórica anterior. Quantas histórias de favorecimento com doações de terras, ou mais sujas, como o pagamento de fiscais do governo para atrapalhar concorrentes e até mesmo a morte de concorrentes não existem no mundo do big business? Como as pessoas poderiam competir num mundo no qual o favorecimento histórico concedeu terras aos amigos dos que detinham poder político? Seria justo ignorar o histórico ilegal de aquisição de terras e bens? Terras sem uso deveriam ser consideradas propriedade e quem as usasse considerados invasores? Para os libertários de esquerda essas questões são fundamentais.

Em questões sociais, os libertários de esquerda desaprovam toda forma de opressão. São, por isso, contrários ao racismo, sexismo, hierarquia e formas autoritárias de educação e cuidados parentais.

Em suma, o libertarianismo de esquerda é uma oposição ao que Kevin Carson chamou de libertarianismo vulgar. Para Carson, a defesa da privatização, desregulamentação, diminuição dos impostos para corporações, negação do aquecimento global, aumento de políticas imigratórias e livre mercado sem a defesa da legalização das drogas, das liberdades civis, reforma nos impostos (fechando brechas usadas pelas grandes empresas), eliminação do bem-estar corporativo e liberdade de operar um negócio sem licença sanitária, por exemplo, é um libertarianismo incompleto, um libertarianismo vulgar.[4]

Temos então o libertarianismo de esquerda como algo diferente do anarcocomunismo e anarco-socialismo (socialismo libertário). As preocupações com os grandes detentores de poder econômico são similares. Porém, ao invés de uma sociedade com abolição total da propriedade privada e da moeda os libertários de esquerda defendem um livre mercado.

A defesa de um livre mercado, entretanto, não se resume a apenas deixar de controlar a economia, mas de pensar um modo no qual cada um possa realmente ser dono de si numa sociedade construída sobre bases igualitárias que diminuíssem as diferenças herdadas por séculos de um sistema que favoreceu poucos em detrimento dos demais.

Com isto, é totalmente plausível chamar o libertarianismo de esquerda de libertário. O libertarianismo é de esquerda, pois considera os menos favorecidos. Talvez o termo libertário seja um problema semântico apenas para os defensores de um libertarianismo preocupado apenas com as questões econômicas.


Para uma visão contrária, ver Progressistas, reacionários, histeria e a longa marcha gramsciana 

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Referências Bibliográficas

KONKIN III, Samuel Edward. Manifesto do novo libertário. Disponível em:http://libertyzine.blogspot.com.br/2007/03/o-manifesto-do-novo-libertrio-samuel.html . Acesso em 24 de Jul de 2013.

FRIEDMAN, Milton. An Interview with Milton Friedman. The Times Herald, Norristown, Pennsylvania; Friday, 1 December, 1978.

GREGORY, Anthony. Left, Right, Moderate and Radical. Lewrockwell.com, 21 de Dezembro de 2006. Disponível emhttp://www.lewrockwell.com/2006/12/anthony-gregory/left-right-moderate-or-radical-libertarian/ . Acesso em 24 de Jul de 2013.

ROSAS, João Cardoso. A concepção de estado de Nozick. Crítica, 2009. Disponível em: http://criticanarede.com/nozick.html . Acesso em 24 de Jul de 2013.

SILVA, Jorge Esteves da. Os Libertários. Disponível emhttp://www.cedap.assis.unesp.br/cantolibertario/textos/0025.html . Acesso em 25 de Jun de 2012.



[1] CF.: William T. Armaline; Deric Shannon. Toward a more unified libertarian left. Theory in Action, vol 3, n.4, 2010. Disponível em: http://scholarworks.sjsu.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1001&context=justice_pub

[2] CF.: Fred E. Foldvary. Geo-Rent: A Plea to Public Economists. Econ Journal Watch, Volume 2, Number 1, April 2005, p. 106.

[3] CF.: Ron Paul. A questão do aborto. Disponível em: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=241 ; Justin Raimondo. O casamento gay, os libertários e as questões que ninguém se atreve a discutir. Disponível em: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=881.

[4] CF.: RacionalWiki. Vulgar Libertarianism. Disponível em:http://rationalwiki.org/wiki/Vulgar_libertarianism.


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SOBRE O AUTOR

Filipe Celeti
é bacharel e licenciado em Filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela mesma instituição.


Ué, dê a notícia completa: o números gerais subiram simplesmente por causa de algumas poucas cidades, que vivenciaram um pico nos homicídios.

Quais cidades? Baltimore, Chicago, Cleveland, Houston, Milwaukee, Nashville, e Washington.

"Half of the entire increase in big-city homicides was concentrated in just seven municipalities — Baltimore, Chicago, Cleveland, Houston, Milwaukee, Nashville, and Washington.

And only in Baltimore was the spike in homicides sharp enough to return the city to a historically high murder rate. While Charm City suffered a historic high of 55 homicides per 100,000 residents in 2015, for the seven cities collectively that figure was 21. Which is significantly lower than it was throughout the 1990s.

Meanwhile, 70 large cities saw their murder rates hold steady in 2015, while 5 saw them fall."

Enquanto isso, segundo suas mesmas estatísticas, New Hampshire, Idaho, e Vermont, estados com as leis mais liberais sobre armas, possuem as mais baixas taxas de criminalidade. O mesmo, aliás, vale para os estados do meio-oeste.

Todos os gráficos foram compilados aqui:

https://mises.org/blog/handful-cities-are-driving-increase-murder-rates

Por fim, aquela estatística que um sedizente estatístico como você não tem o direito de ignorar: a taxa de homicídios nos EUA desabou 50% nos últimos 20 anos, "coincidentemente" ao mesmo tempo em que a posse de armas disparou.

www.pewresearch.org/fact-tank/2015/10/21/gun-homicides-steady-after-decline-in-90s-suicide-rate-edges-up/
Bem, a falta de manutenção, sendo esta a geradora do acidente é crime, independentemente do risco assumido pelo consumidor. O risco não exclui a responsabilidade da empresa, tanto penal como civil. Não por existir um contrato implícito, mas por existir um contrato explícito de que o avião te levaria de A para B.

A morte do consumidor só pode ser imputada a ele se no contrato ele assumiu tal risco. Se tal risco não estava previsto no contrato, não é possível responsabilizá-lo. Se estava previsto, cabe ao consumidor escolher um meio com risco menor.

Creio que entendi o seu ponto sobre "coisas implícitas". A falha que vejo nesse ponto de vista é que essas coisas não são implícitas, elas são explícitas, tanto que você, eu ou qualquer pessoa consegue perceber que essas "coisas" estão ali, pois elas representam a finalidade do empreendimento. Por exemplo, no caso da boate, quando a boate me permite entrar em seu interior mediante pagamento (contrato), está explícito que posso utilizar o local, sendo também explícito que tal lugar não é destinado a matar pessoas. Isso não é implícito, isso está escancarado. A publicidade da boate, como qualquer outra, apela para momentos de diversão e prazer e isso é algo explícito. Se vou a um restaurante, vou para me alimentar bem, isso não está implícito, está explícito. Essa é a finalidade do restaurante. Agora, se o dono do restaurante, modifica essa regra explícita e agride, implicitamente, a integridade física de alguém, deverá ser responsabilizado, civil e/ou penalmente, a depender do dano causado.

Sobre o ponto: entendo que é um valor subjetivo. Se desejo abrir uma farmácia o ponto pode ser interessante. Se quero abrir uma padaria, pode ser que o ponto não seja mais interessante. Aqui entra o conceito de utilidade marginal. Pede quem tem, paga quem quer e pode.

Abçs
Dinheiro monopolístico "de verdade" não pode ser criado do nada nem lastreado em outra coisa criada do nada (dívida), pois haverá sempre o nefasto flagelo do moral hazard de para quem e em que quantidade irá o financeiro mais recentemente parido do vento em moto-perpétuo pelo "dono do morro", o que exclui daquela categoria de sound money tanto o "dinheiro de banco central" (seu passivo em fiat money no padrão atual predominante) como também os meios de pgto criados pelos bancos comerciais, cujas reservas no caso americano a propósito só se encontram em níveis elevados recordes (porém ainda assim bem inferiores aos demais agregados monetários frequentemente empregados como se fossem depósitos à vista mas dispensados de recolhimentos compulsórios, apesar de causadores dos "busts") justamente porque foram prontamente recompostas pelo emprestador de última instância via QE's (e agora c/ "hell"icopter$ ?!) após o estouro da bolha creditícia imobiliária de 2008 por ele anteriormente permitida e estimulada como saída p/ o estouro da bolha predecessora em 2000 das "ponto.com" por ele anteriormente permitida e estimulada como saída p/...
Ou seja, é a eterna festa do "wash, rinse, repeat" da qual só participam permanentemente os integrantes da cabala bancária e uma ínfima parte da sociedade que consegue se aproveitar do super-privilégio de criação de moeda outorgado e garantido pelo estado (!) exclusivamente àquele cartel, sendo imediatamente criminalizado e preso como "falsificador" atentando contra a "economia popular" todo sujeito que resolver entrar na farra produzindo seu próprio "bilhete de ingresso" num fundo de quintal qualquer ! :-(

Se o governo não impôr o curso de nenhuma moeda oficial, aceitando passivamente a livre circulação de todo tipo de meios de troca na economia, rapidamente surgirão dezenas de formas de dinheiro c/ oferta controlada naturalmente pelo próprio mercado selecionando voluntariamente as melhores em detrimento das mais abundantes, configurando não um problema (conforme prega o zeitgeist keynesiano perma-inflacionista do último século) mas sim um excelente acontecimento a deflação de preços decorrente de eventual (e, neste arranjo, desejada) escassez monetária.

Vejo como o maior perigo essa racionalização do status-quo vacilando em condená-lo sumariamente e denunciá-lo como a verdadeira estrutura imoral que é.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Filipe Celeti  26/07/2013 12:32
    Não esperava que fosse publicado aqui. Haverá muita discussão. Espero que o debate possa ir além do negacionismo do libertarianismo de esquerda. Lerei o artigo indicado e retorno. Obrigado, IMB.
  • Felipe Barbosa  26/07/2013 18:28
    O texto é bom, me permita parabenizar você.
    Ainda que divirjamos nos motivos, right e left libs concordam no objetivo. Poder para individuos.
  • Juliano  26/07/2013 12:58
    Ótimo texto!
  • Pobre Paulista  26/07/2013 14:26
    Texto excelente e esclarecedor, mas parece uma mea-culpa pela apropriação da designação de uma filosofia essencialmente contrária ao que os "libertários de direita" defendem.

    Ademais, a designação da ideologia em si é desimportante, o importante é que a própria ideologia seja defendida. Eu defendo a propriedade privada e a abolição do estado, se isso se chama "Blerg" então eu sou um Blerguista.

    Agora, esse Gregory (2006) tá meio louco quando diz que "libertários de direita são a favor de uma 'forte defesa nacional'" hein...
  • Filipe Celeti  26/07/2013 15:10
    Pobre Paulista,

    Há no movimento libertário pessoas que se opões à intervenção externa, mas apoiam a defesa nacional. Uma política de segurança defensiva ao invés de ofensiva. Esta é a posição, por exemplo, de Gary Johnson.
  • Eduardo  26/07/2013 15:36
    Acho que o foco de qualquer libertário é ser a favor da liberdade, seja ela civil ou econômica, não importa. O que importa mesmo é ser a favor de Deus e da família, e contra o Estado, esse sim, um agente que não tem um mínimo de interesse real de nos ajudar de modo eficiente, mas sim por interesse próprio. Menos Estado é sim o sinônimo de mais liberdade, esse sim o verdadeiro objetivo do ser libertário, ser anti-estatista. As iniciativas eficientes partem sempre dos indivíduos e não do Estado, isso sim uma lei exata.
  • Me  26/07/2013 21:29
    Deus?
  • Henrique  26/07/2013 15:41
    Leandro, há algum movimento, por menor que seja, de aceitação das ideias da Escola Austríaca e do liberalismo econômico por parte dos governos ou das universidades? Estamos tendo algum progresso nesse sentido?

    Valeu!
  • Leandro  26/07/2013 18:32
    Como eu não acompanho o meio universitário, nada posso dizer a respeito. Talvez os nossos leitores possam se manifestar aqui.

    Quanto a governos, é totalmente implausível imaginar políticos adotando voluntariamente uma doutrina que restringe enormemente seus poderes. Uma doutrina que diz que gastar é ruim, que regulamentar e proteger é ruim, que tributar é ruim, que inflacionar é ruim, que ser populista é ruim e que dar privilégios é ruim. Qual político vai querer voluntariamente se submeter a isso?

    Daí a importância da educação. A mudança terá que vir de fora do sistema, sendo imposta de fora para dentro por uma classe intelectualmente avançada, sem a qual nenhum país pode aspirar a ser desenvolvido.
  • Nilo BP  26/07/2013 21:54
    Eu tomaria cuidado ao definir que tipo de classe intelectualmente avançada uma sociedade precisa para ser desenvolvida. O Brasil sempre teve uma fortíssima classe intelectual composta principalmente por bacharéis em relação simbiótica com o Estado.

    Existe um tema na literatura libertária que aponta essa tendência crônica dos intelectuais de quererem se instalar no poder para criar seu mundo perfeito, com efeitos que vão do patético ao apocalíptico.

    Mises foi heróico em boa parte por ir contra essa forte tendência, e mesmo assim ele aproveitou umas boquinhas estatais. Até o Rothbard dava aula na UNLV, não? Me parece ser fato que os políticos (talvez para tentarem compensar sua notória fraqueza nesse departamento) tendem a ser os maiores patronos dos intelectuais.

    Se você olhar para algumas outras sociedades ocidentais, a ascensão da educação superior é acompanhada não por uma expansão da liberdade, mas pelo contrário. A Europa no século XIX, culminando com a Grande Guerra; os EUA no século XX, chegando à atual paranóia e imbecilidade...

    Em minha humilde opinião, a recuperação da vitalidade da civilização ocidental não vai começar até que a classe intelectual seja forçada a abaixar seus empinados narizes, por força da bancarrota econômica e moral de seus patronos políticos.

    Vish, ficou uma muralha de texto. Desculpem aí.
  • Leandro  26/07/2013 22:33
    É claro que me referi a uma classe intelectual versada na filosofia pró-liberdade. Este é o nosso trabalho aqui no IMB. Não apenas dar suporte a esta vindoura classe, como também desmascarar a atual classe intelectual em conluio com o estado.

    Não faltam artigos neste site condenando os intelectuais pró-estado, e explicando por que a nossa função é a de formar intelectuais anti-intelectuais.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1149
  • Carlos Marcelo  23/08/2013 18:00
    Olá, Leandro, estudo Economia na UFRGS e posso dizer que o enviesamento é pesado. Tem um professor que é mais liberal, que gosta de divulgar as idéias de Hayek e Friedman(que nem eram ancaps) e este professor é considerado muito extremista por acreditar que um arranjo com mais mercado seja melhor que um com mais estado. Há uma cadeira em que a professora fica toda hora falando de como "esses liberais acreditam na mão invisível, acreditam que as forças do mercado resolvem tudo e que existe concorrência perfeita, como se não existissem grandes empresas com poder econômico". Acho que Hayek deve se revirar no túmulo quando alguém fala isso. Quando eu interfiro dizendo que tal problema não tem a ver com o mercado, mas com o estado, "sim, você é dos que acreditam que o problema está com o estado", dando a entender que era paranóia minha. Lá, criticar o mercado é ser consciente; criticar o estado é ser enviesado. Depois desse desabafo, gostaria que alguém me indicasse um livro com a biografia do Hayek, pois só achei do Mises e do Rothbard.
  • Leandro  23/08/2013 18:22
    Prezado Carlos, caso domine o inglês, isto aqui será de grande valia:

    mises.org/page/1454/Biography-of-F-A-Hayek-18991992
  • Tory  26/07/2013 16:35
    "A defesa de um livre mercado, entretanto, não se resume a apenas deixar de controlar a economia, mas de pensar um modo no qual cada um possa realmente ser dono de si numa sociedade construída sobre bases igualitárias que diminuíssem as diferenças herdadas por séculos de um sistema que favoreceu poucos em detrimento dos demais."

    E dá para fazer isso sem violar os direitos à propriedade, à liberdade e à vida dos demais? O que é "realmente dono de si"? Algo além daqueles três direitos?

    Bases igualitárias? Diminuição de diferenças herdadas por séculos? Assim o mercado seria livre mas não muito, né?

  • Filipe Celeti  26/07/2013 18:11
    Tory,

    No left-libertarianismo pensa-se a partir das condições dadas. Não estamos começando um mundo do zero, mas tentando mudar o mundo de uma situação injusta para uma mais justa. Neste sentido, ignorar que pessoas foram favorecidas pelo estatismo e que iniciando um livre mercado hoje todas começariam no mesmo patamar apenas porque teriam igualdade de liberdade formal é uma ingenuidade.

    Nenhum libertário de esquerda é a favor do Estado e de suas intervenções, mas questiona-se, por exemplo, a ideia de propriedade privada de origem lockeana. No estado natural não haveria uma sistema de posses mutualista? São questões como estas que levam o libertarianismo a pensar de modo menos rígido do que simplesmente a partir do engessamento ético do libertarianismo rothbardiano.

    Em outros termos: quem foram os que sofreram agressão primeiro? Ignorar o passado na construção da sociedade livre no futuro pode trazer injustiças sociais, a maior delas a negação e impossibilidade do exercício pleno da liberdade para algumas pessoas.
  • gabriel  26/07/2013 20:09
    Muito bem explicado no texto e mais claro ainda nesse comentario, me parece a esquerda libertaria ótima. Mas se aqui muito difundido a direita libertaria, já encontra-se muitos individuos que se dizem libertarios defendendo proibicoes e agressao em alguns temas ( drogas é um classico ). Parece-me que na esquerda libertaria naturalmente devam aparecer 'socialistas ligh' se dizendo fazer parte desta ala.

    Longe de ser uma critica, mas parece tao dificil encontrar defensores genuinos da liberdade ( ao menos aqui no brasil ), que qualquer um q seja apenas um pouco menos autoritario se acha libertario.

    Parabens pelo texto, eu era uma pessoa totalmente ignorante quanto a questao de esquerda libertaria e.fico grato de conhecer melhor. Conceitos de direita/esquerda classicos ja me sao um tanto cinzentos, no libertarianismo entao...
  • anônimo  26/07/2013 20:40
    Qual o problema da proibição às drogas? Na minha casa é proibido, sim. Na do vizinho eu não ligo, desde que não me incomode. Mas provavelmente eu iria procurar um condomínio onde o consumo fosse proibido, e ir morar lá.
  • gabriel  26/07/2013 21:51
    Nao falei nada sobre sua casa, na sua propriedade você é absoluto e existe uma grande diferença em eu proibir ou não na sua casa ou na minha. Me referi a 'proibição' no quesito de me proibir de arbitrar dentro da minha própria casa, que é totalmente diferente. Talvez não tenha me expressado da melhor maneira, pois enviei o texto acima do celular que me fez ser breve.

    Sou totalmente contra por exemplo te obrigar a aceitar drogas na sua casa, e é exatamente o mesmo argumento, apesar de confundir muita gente essa diferença gritante.
  • gabriel  26/07/2013 21:58
    Apenas pra deixar claro, agora que reli meu comentário de mais cedo.

    Sua posição é concordante com a minha e provavelmente procuraria morar num local com essas condições. O que se vê muito em artigos aqui sobre drogas, o qual pretendia me referir, são pessoas defendendo que o estado marginalize arbitre e condene esse seu vizinho que não te incomodou. De maneira alguma estava falando sobre opiniões e gostos pessoais o qual seria irrelevante discutir aqui visto que cada indivíduo é único em seus gostos. Seria o mesmo que eu começar uma discussão aqui sobre o tipo de música que eu gosto, não chega a lugar nenhum e não é este o ponto. Reconheço que por ter sido breve no meu comentário posso não ter deixado realmente claro.

    Abraços
  • Nigro  26/07/2013 20:34
    Eu acho q não tomando nenhuma atitude estatista sobre a propriedade privada as coisas, num anarcocapitalismo, vão se ajeitando naturalmente. Ricos incompetentes vão perder dinheiro...
  • Leonardo Couto  26/07/2013 21:48

    Políticas afirmativas "libertárias"? Agora vejo que a chamada "esquerda libertária" não preza tanto pela liberdade assim.

    Pensei que já tivéssemos superado esse maldito espectro.

    Acho que é difícil para alguns abandonar seus queridos rótulos que tinham antes de conhecer a Escola Austríaca.
  • Rafael  27/07/2013 01:34
    Discordo do Leonardo Couto, porque políticas afirmativas NÃO PRECISAM ser feitas pelo Estado ou qualquer outra instituição que obrigue alguém a participar. Quero dizer que a iniciativa privada também pode realizar políticas afirmativas, aliás, é uma preocupação que está chegando as empresas (já chegou para algumas). Por isso elas estão contratando
    profissionais como sociólogos, assistentes sociais, antropólogos e outros profissionais que se especializam nessa sensibilidade em identificar o ser humano na sua extensão. Ai
    existe também o capital que está transformado no valor da sua imagem, assim conforme os seus públicos de interesses atribuí determinados conceitos. Começa a interiorização das causas sociais pelo Mercado. Dá para discorrer bastante sobre esse assunto, mas não é o momento.
  • Leonardo Couto  27/07/2013 02:30

    Rafael, estava me referindo à intervenção estatal sob o pretexto de reparar "erros históricos" que os "libertários" de esquerda advogam. Isso envolve redistribuição de propriedade privada, algo impossível de ocorrer de forma justa em todos os casos.
  • Martin  27/07/2013 01:38

    Esta discussão de eliminar as injustiças do passado impostos pelo estado me lembra uma discussão que tive recentemente. Um amigo comunista me acusou de "soar cada vez mais como um think-tank neoliberal". Agradeci pelos elogios, disse que adoro think-tanks e postei o seguinte vídeo de Johan Norberg do Cato: www.youtube.com/watch?v=12YDLZq8rT4

    Norberg defende liberalização de mercados como maneira de se levantar da pobreza. E ele frequentemente fala de LAND REFORMS. Sempre enfatiza a importância de os agricultores serem donos da terra. No presente vídeo ele fala de Taiwan. Diz que o governo comprou a terra dos grandes latifundiários e o deu aos agricultores que neles trabalha. (Meu amigo socialista obviamente prestou atenção neste detalhe e escreveu de volta que isso era socialismo e consequentemente o vídeo tenta enganar as pessoas.)

    Pensei sobre o assunto e cheguei à conclusão que eu simpatizo com Norberg. Se foi o estado que no passado criou lordes feudais, então pode ser uma boa idéia que o estado tenta desfazer este mal. Do ponto de vista libertário podemos argumentar que a terra que foi dada ao agrigultor no filme não era propriedade legítima do lorde feudal. Pois foi dado ao lorde feudal pelo estado, que nunca foi dono legítimo de nada. Mas também não seria uma boa idéia o governo simplesmente decretar que o terreno seria do pequeno agricultor, pois quem tinha a posse dele talvez nasceu lá e pode ser bisbisbisbisbisneto no lorde feudal que foi favorecido pelo estado há centenas de anos atrás. Então, dado que o estado já confisca dinheiro do povo, pode ser que isso aí que Taiwan fez foi o melhor uso possível disso.

    Essa discussão é interessante também no Brasil. Quem é dono legítimo da terra? Li uns artigos ótimos sobre isso aqui no IMB, como este aqui: www.mises.org.br/Article.aspx?id=901. Libertários defendem muito bem a propriedade privada, mas é raro ler sobre os detalhes. Qual é o mecanismo para decidir quem é dono legítimo de que? Rothbard e CIA se expressam sobre isso?
  • anonimo  27/07/2013 22:55
    Boa noite.

    Mas na prática como seria feito? Uma "telefonica" da vida foi beneficiada, daí o país fica libertário e fazem como? Ela paga mais? Tiram algo dela?

    Não acho que isso dê certo, em algum momento deve ser dito que o que passou, passou, caso contrário sempre haverá alguém que foi beneficiado ou injustiçado e nunca haverá nada próximo ao libertarismo.

    Mas estou aberto a ideias ou algo que nunca tenha pensado antes, por isso se puder me indicar o que seria feito em um caso desse tipo, agradeço.

    Obrigado.
  • Heber  28/07/2013 00:11
    Considero esta abordagem um pouco inocente, pois se existem muitos que adquiriram propriedades e vantagens por meio do Estado, reparar as injustiças históricas só dá ao Estado mais poder ainda, já que é aí que o Estado Democrático moderno se apresenta como instrumento de justiça social, criando mais agências para por em prática toda uma rede de assistencialismo. E como o assistencialismo estatal não produz riqueza alguma, a sociedade empobrece na medida que o escopo do Estado aumenta.
  • Miqueias  31/07/2013 01:17
    As pessoas nunca estarão no mesmo patamar, mesmo que você distribuísse igualmente toda a riqueza hoje, amanhã as pessoas já estariam desiguais novamente. Assim, abre-se um precedente muito sério. Se levada as ultimas consequência essa ideia de igualdade de oportunidades, ou a ideia de que as pessoas devem começar no mesmo patamar, chegaríamos a negação de qualquer possibilidade de herança, que no fim é a negação de própria propriedade privada.

    Sobre a questão de quem é favorecido pelo estado, aí a coisa fica pior ainda. Existem os empresários que são favorecidos de um lado, e os muito pobres de outro. Existe a classe média que tem seus filhos estudando em universidades públicas, existem os funcionários públicos, etc. Porém muitos deles diriam que pagaram muito mais do que receberam, e até pode ser verdade, pois é sabido de todos aqui, que o estado destrói riqueza, e mesmo muito daqueles que talvez se sintam beneficiados por ele, na verdade estão sendo prejudicados.

    Portanto, é muito perigoso estar sempre querendo corrigir "injustiças" que na verdade são desigualdades que surgiram espontaneamente (me reviro a questão do primeiro paragrafo). Ao que parece muitos sociais-democratas querem dizer-se libertários mas não abrem mão de impor a justiça social.
  • Tory  31/07/2013 14:11
    Exatamente. Essa ideia de "esquerda" libertária é só um cavalo de tróia. Se nos deixarmos corromper por essas besteiras de reparações de injustiças históricas e ações afirmativas (que, apesar dos comentários acima, não têm qualquer valor num mercado livre, e só são abraçadas por empresas justamente para posar de bonitinhas frente a um público eminentemente coletivista - podemos juntar a isso platitudes como responsabilidade social e sustentabilidade) estaremos dando um passo em direção à social-democracia. Daí todo mundo sabe onde iremos chegar.
  • Emerson Luis  31/07/2013 15:56
    Fazer "reparações históricas" é ainda mais complexo do que parece.

    Deixemos de lado o fato de que os diversos grupos são em si mesmos heterogênicos e que os diferentes membros tiveram vários tipos de comportamentos.

    Digamos que em determinado país, há 200 anos o grupo A foi injustamente favorecido à custa do grupo B. Os atuais membros dos grupo A são descendentes daquele dos séculos antes, mas seria injusto desfavorecê-los para beneficiar o atual grupo B.

    Além disso, 400 anos atrás o grupo B foi favorecido à custa do grupo C. E 600 anos atrás, o grupo C foi favorecido à custa do grupo D e assim por diante. O próprio grupo A pode ter sido muito desfavorecido de forma injusta no passado.

    E aí? Quem hoje deve ser favorecido e quem deve ser desfavorecido? TODOS NOS somos descendentes tanto de grupos prejudicados quanto de grupos beneficiados injustamente!

    Por exemplo, as cotas raciais beneficiam principalmente os jovens negros de nível econômico mais elevado e fazem os jovens brancos pobres serem duplamente prejudicados.

    E quem é descendente tanto de brancos quanto de negros? A cota deve ser fracionada? A "parte branca" da pessoa deve pagar a "parte negra" dela mesma?

    E por que ninguém fala dos povos africanos que venderam seus irmãos como escravos indenizarem os descendentes atuais destes?

    * * *
  • Luiz Eduardo  31/07/2013 16:17
    O libertarianismo de esquerda pode acabar aumentando o tamanho do estado, para definir quem deve ou não ser "reparado".
  • Pedro Cwrqueira  03/06/2015 05:34
    Na verdade a ética rothbardiana é meio contra empresas favorecidas pelo estado. Ele tem vários textos onde diz que essas empresas deveriam ser desfeitas, e suas propriedades roubadas deveriam ser entregues a seus funcionários, já que os donos são ladrões. Pelas definições colocadas no final Rothbard seria um libertário de esquerda.
  • Daniel Alves  26/07/2013 19:07
    Filipe Celeti, muito obrigado! Não sabe pelo que? Explico: Por diversas vezes que dialoguei com socialista eles sempre finalizavam o seu discurso com o argumento "altruísta" de que as pessoas estão em desigualdade de oportunidade, que portanto deve haver políticas de redistribuição para compensar essas diferenças na largada. Mas agora, com suas palavras, encontrei o contra argumento. Obrigado!
  • Rodrigo Viana  26/07/2013 19:28
    Muito bom que o IMB tenha aberto espaço para a publicação de um texto explicando a ala "esquerdista" do libertarianismo, já que nessa semana tem-se discutido muito sobre isso. Sinto falta de artigos de uma vertente dessa ala aqui: os rothbardianos esquerdistas como Roderick Long, Samuel Konkin, Brad Spangler e Karl Hess. Todos bem influenciados pela Escola Austríaca.

    Para quem se interessar, o blog "A Esquerda Libertária" (aesquerdalibertaria.blogspot.com.br) é especializado nesse lado do libertarianismo. Contém artigos de mutualistas, anarco-individualistas e rothbardianos esquerdista.
  • Anonimo  26/07/2013 21:20
    É foda né, parece que a esquerda tomou para si, tudo que é humano ou social. Como se não fosse importante para o capitalista o bem das pessoas.
  • Antonio  26/07/2013 22:51
    Esta tudo dominado! Mas o texto em si e muito informativo e, sem ironias, me faz ficar mais cauteloso com o proprio libertarianismo dentro desta mutiplicidade de sentidos: pessoalmente acho que prefiro deixar as coisas como estao (por pior que estejam) do que me sujeitar a um "libertarianismo" que vai julgar o passado e reparar injusticas historicas relacionadas ao estatismo com base em nao sei qual escala de valores...
  • Filipe Celeti  26/07/2013 23:34
    Antonio, você pode começar lendo um artigo publicado aqui mesmo no IMB: Igualdade: o ideal desconhecido do Roderick T. Long.
  • Renato Souza  31/07/2013 16:33
    Felipe

    não tinha ainda lido este texto. Mas pelo que percebo, ele reforça inda mais os argumentos contra o intervencionismo.

    Gostaria de fazer alguns comentários sobre os tais libertários de esquerda.

    1. Tentativas de "corrigir" as desigualdades supostamente geradas pelo estado abrem uma avenida de oito pistas para intervenções sem fim. É muita igenuidade imaginar que os intervencionistas vão parar.

    2. Os tais libertários de esquerda, principalmente americanos, tem um enorme histórico de prejudicar as liberdades mais básicas (opinião, auto-defesa, associação, religião) lutam por estatizar as crianças, e só defendem liberdades quando é do seu interesse político.

    3. Mesmos suas lutas eventuais contra certas ações do estado americano, são sempre com outros fins além dos declarados. Defendem sistematicamente outros estados, muitos deles, muito mais tirânicos que o governo americano. Suas ações contra o estado americano, geralmente estão nesse contexto de apoio a outros estados tirânicos.

    4. Mesmo que eu acreditasse na boa fé dessa gente, suas propostas auto-contraditórias vão contra tudo o que eu aprendi com Mises, a respeito de liberdade, justiça e prosperidade.
  • Guilherme  26/07/2013 22:38
    "já que nessa semana tem-se discutido muito sobre isso."

    Prezado Rodrigo, onde está ocorrendo esta discussão?
  • Filipe Celeti  26/07/2013 22:58
    Guilherme, têm se discutido muito isso no grupo Liberalismo do facebook.
  • Beatriz   27/07/2013 01:10
    Olha, estou um pouco confusa. Eu defendo a liberdade plena, se for seguir o texto, sou uma libertária de direita com um pé na esquerda, pois não sou nem um pouco conservadora e acredito plenamente nas liberdades individuais de cada um. Devo me definir de que lado, ou de nenhum lado, apenas libertária?
  • Ricardo  27/07/2013 01:30
    Se você defende aborto, relativismo moral, multiculturalismo, estilos de vida alternativos e tem tendência ao ativismo ateísta, você é de esquerda. Se você se enquadra em apenas um destes critérios, você é de esquerda.

    Se você é contra todos estes critérios (sem exceção), você é de direita.
  • Lopes  27/07/2013 01:54
    À bem da compreensão dos desinformados, estando ciente das implicações da palavra "Esquerda" em nosso cenário intelectual tupiniquim, recomenda-la-ei que limite-se ao uso do termo "Libertária". Poucos indivíduos estão ciente de nossa existência e seria de ainda menor valia caso a senhorita especificasse uma sub-categoria de sua própria ideologia.

    Ao comunicar uma posição ideológica, viso sempre estabelecer o ponto de discernimento entre meus valores e os daquele com quem falo. O termo "de Esquerda" acompanhando "Libertário" pode resultar em um terrível mal-entendido.
  • Beatriz  27/07/2013 02:29
    Gostaria de salientar que minha última resposta foi ao Ricardo. E muito obrigada Lopes, é bem assim que eu penso, afinal, eu me chamo libertária por acaso, pois já tinha uma visão libertária muito antes de me definir como uma. Enfim, defendendo total liberdade pessoal e econômica, acho meio difícil me colocar à esquerda ou direta. Muito obrigada pela atenção Lopes!
  • Beatriz  27/07/2013 01:59
    E com base em que você afirma isso? Digo, eu simplesmente acredito que cada um deva viver da maneira que lhe convém, independente da minha maneira de viver, e acredito que devem ter liberdade pra isso. Isso quer dizer que sou libertária de esquerda? Não faz sentido. Pelo que conheço do libertarianismo, e pelo que "pratico", só defendo a total liberdade econômica e individual. O que é chamado somente de libertarianismo.
  • Leonardo Couto  27/07/2013 03:34

    Discordo totalmente.

    Existe uma diferença entre constatar que o mundo atual foi configurado com a coerção estatal e propor alternativas que vão melhorar tal situação, que vão fazê-la mais justa.

    A justa correção de todos os erros estatais do passado é uma impossibilidade. Ela só pode ocorrer em alguns casos, os quais já foram considerados pelo genuíno pensamento a favor da liberdade.

    O problema com essa filosofia é que a maioria esmagadora dos erros estatais está em uma situação em que não é possível reparar os prejudicados e punir os culpados sem cometer novas injustiças.

    A justa correção da maioria esmagadora dos erros estatais é impossível porque o contexto inicial de agressão, o qual era passível de clara reparação justa, não existe mais. O cenário já foi alterado pela sucessão do tempo, de ações individuais que não ocorreriam e por várias sucessões de proprietários.

    As consequências dos atos estatais estão dissolvidas em toda sociedade, todas as ações estatais fizeram com que ocorressem ações que de outra forma não teriam ocorrido.

    Só pode haver justa correção em casos onde bastante nítidos. Rothbard cita aqui, por exemplo, a justa apropriação das propriedades onde trabalhavam por parte dos escravos recém-libertos dos EUA.
  • Nilo BP  28/07/2013 06:58
    De fato. Reconhecer que, por exemplo, as grandes empresas atualmente vivem em variados graus de simbiose com o Estado é simplesmente uma constatação de fato. Mas o fim do Estado não é o Juízo Final, não será o fim das injustiças futuras, muito menos das passadas. "Let justice be done though the heavens fall" soa bonito, mas a aplicação prática desse lema seria digna de bolcheviques, não de libertários sensatos.
  • Marcio L  27/07/2013 04:27
    Excelente texto que demarca as diferenças entre o Libertarianismo e o Conservadorismo, entre o Livre Mercado e o Capitalismo de Estado. Interessante também o resgate do Anarquismo. O próprio Bakunin em diversas passagens de seus escritos e em transcrissões de debates com o Marx, já apontava que o Marxismo acarretaria necessariamente no Totalitarismo.
  • Nigro  27/07/2013 09:39
    A direita condenada no artigo são os anarcocapitalistas (libertários) OU são os conservadores (liberais em economia, mas moralistas em costumes)?
  • Filipe Celeti  27/07/2013 17:00
    Nigro, a direita criticada é a conservadora, liberal em economia e não-liberal nos costumes.

    Critica-se também os anarcocapitalistas que defendem liberdades civis teoricamente, mas sempre priorizam o econômico e os costumes são sempre deixados para um segundo momento.
  • Nigro  27/07/2013 19:53
    Foi o q eu imaginei.
    Mas concordo q os anarcocapitalistas sejam assim senão não seriam libertários de verdade.
    Obrigado pela excelente revisão de literatura e pela ideia libertária esquerdista.
  • Charles Hertz da Silva  27/07/2013 18:19
    Compartilho da mesma opinião do Rothbard... o libertarianismo não deve ser nem de esquerda e nem de direita. aliás, segundo o próprio Rothbard, conceitos de direita e esquerda já foram e continuam sendo distorcidos pela sociedade... em cada época, esquerda e direita significavam posições diferentes...

    acho que o artigo é bom, mas acho que não se devemos apegar-se a termos de esquerda e direita.
  • Rafael Reis  28/07/2013 23:30
    Concordo totalmente com você, Charles.

    Estou embasbacado com como as pessoas tem aceitado essa terminologia de 'esquerda libertária' considerando como não há razão ou significado nenhum nessa terminologia.

    Libertarianismo sempre foi nem de esquerda, nem de direita. Esses termos não são úteis e não fazem nada senão dividir conceitualmente um movimento que, em essência, não tem tal divisão.

    A política atual já sofre demais com essa mentalidade de "esquerda VS direita", não vamos trazer essa falha histórica ao libertarianismo, por favor.

    Abraços.
  • Renato Souza  27/07/2013 19:00
    Segundo acredito, liberdade e socialismo são auto-excludentes. Então um movimento libertário de esquerda é uma contradição em termos. Não estou dizendo que os proponentes de algum anarquismo de esquerda tem consciência diste fato. Na verdade, terem conhecimento ou não é irrelevante.
    Conforme tudo o que conclui até agora, os governos simples nascem naturalmente da existência de bens comuns, particularmente de espaços comuns e sistemas de governo comuns. Se isto está correto, a única forma de não existirem governos seria se todos os espaços fossem privados (ou espaços sem dono, no caso de áreas de pouco interesse econômico). Mas isso não é natural ao ser humano. Até onde posso perceber, o ser humano naturalmente, tanto quanto possível, dentro das limitações econômicas e institucionais em que vive, procura estabelecer tanto espaços públicos quanto espaços privados. Isso se dá de maneira diferente em diferentes sociedades, mas o impulso geral é claramente discernível.
    Não há nenhuma maneira de uma sociedade ser socialista sem que haja um governo. E necessariamente um governo bastante coercivo, para impedir que indivíduos exerçam atividades econômicas por iniciativa própria.
  • Charlton Heslich Hauer  27/07/2013 23:27
    Grande texto! E como ele fala sobre conceitos e diferenças de algumas concepções políticas, eu gostaria de postar parte de um artigo que expõe mais sobre outro conceito: o de Liberalismo Social (também chamado de Novo Liberalismo). O artigo, escrito pelo brilhante filósofo americano, Adam kostakis, fala, entre outras coisas, sobre feminismo, direitos, Liberalismo Clássico, Liberalismo Social e sobre a gradual perda da autonomia masculina. Ele conta qual é a maior mudança do Ocidente do último século:

    "a transformação do feminismo, de um movimento de oposição ao governo e à sociedade em geral, em um movimento que controla o Estado e a opinião pública — e usa essa posição para perseguir os novos inimigos do Estado... Hoje, as feministas não precisam ter acessos de raiva para conseguirem o que querem, pois, enquanto no passado elas protestavam violentamente contra a máquina, agora elas controlam-na. Esta é a mudança verdadeiramente profunda nas sociedades ocidentais desde o auge da consciência sobre o feminismo, em meados do século passado"

    Adam Kostakis fala como se deu toda a perversão do Liberalismo Clássico para o Liberalismo Social, o qual, segundo ele, foi um dos principais responsáveis, ao lado do feminismo, pelo ataque à autonomia e à liberdade individual dos Homens (sexo masculino):

    "Claramente, precisamos de limitações, e a Constituição dos Estados Unidos da América é um clássico exemplo com respeito a isso. Como a melhor declaração de liberdade pessoal e de democracia representativa que o mundo já conheceu, ela existe para proteger uma série de direitos fundamentais de serem derrubados pelo mais forte conjunto de indivíduos — ou seja, o governo. Leis podem ir e vir, mas, contanto que a Constituição seja mantida, os direitos fundamentais do cidadão são imutáveis — ou, pelo menos, são extremamente difíceis de remover ou alterar. Onde um governo repetidamente viola sua própria Constituição, ele (idealmente, pelo menos) corre o risco de ser derrubado por um levante dos cidadãos, que, em conjunto, formariam um coletivo mais poderoso.

    A Constituição dos Estados Unidos, aprovada em 1787, foi baseada em cima da filosofia liberal da época, sobretudo da de John Locke. As Seções da Declaração de Independência, assinadas 11 anos antes, foram mais ou menos levantadas a partir do seuSegundo Tratado sobre o Governo. As idéias expressas nesse trabalho não são aquelas do liberalismo que conhecemos hoje; elas se assentam agora em algo mais próximo para o que chamaríamos de libertarismo2. Foi apenas na segunda metade do século XIX que o liberalismo sofreu a profunda transformação para a ideologia coletivista que nós associamos mais facilmente com o termo de hoje.

    Em seu Ensaio em 1859, Sobre a Liberdade, J. S. Mill introduziu uma nova articulação da defesa moral liberal tradicional dos direitos individuais. É algo assim: os indivíduos têm o direito de fazer o que quiserem, desde que isso não prejudique os outros. Mill usou de cautela ao analisar a aplicação deste princípio: não estaria sendo prejudicado, por exemplo, aquele que perdesse na concorrência aberta (por exemplo, no mercado livre). Seguindo Tocqueville, ele expressou a preocupação de que a democracia, se não moderada, podia transformar-se em tirania da maioria.

    Podemos agradecer aos sucessores de Mill pela perversão do liberalismo individualista para uma filosofia coletivista e autoritária. Daí foi um pequeno passo do axioma de Mill — os indivíduos têm o direito de fazer o que quiserem, desde que isso não prejudique os outros — para a doutrina do Novo Liberalismo3: se eu não posso fazer o que quero fazer, então alguém deve estar me prejudicando. Foi o autoproclamado "socialista liberal", Leonard Trelawny Hobhouse, que se baseou em cima das premissas de Mill e acrescentou uma nova distorção: que a liberdade não é boa em si mesma, mas deve estar subordinada a algo de maior efeito. Segue-se que qualquer liberdade que não está subordinada a esse fim superior não é moralmente justificável. Foi o radical social Richard Henry Tawney, baseando-se neste desenvolvimento, quem defendia uma sociedade igualitária baseada na premissa de que "a liberdade para o peixão é a morte para os peixinhos" — em outras palavras, que certos grupos identificáveis não são merecedores de autonomia igual, mas deve ter sua participação restrita. E foi Lester Frank Ward que repudiou o indivíduo por completo e argumentou que o Estado deve direcionar todo o desenvolvimento social e econômico, incluindo a felicidade dos seus cidadãos. Talvez o mais revelador de tudo seja que ele era um entusiasta da idéia de que as mulheres são superioras aos homens de forma inata. Para citar uma passagem especialmente relevante:


    'E agora, do ponto de vista do desenvolvimento intelectual em si, encontramo-la lado a lado e ombro a ombro com ele, suprindo, desde o início, remontando aos tempos pré-histórico, pré-social, e até mesmo pré-humano, o complemento necessário para o seu diferente, de caminho unilateral, irrefletido e errático, sem o qual ele logo teria deformado e distorcido o curso da vida e o tornado incapaz de se fazer muito progresso, o qual ele, exclusivamente, afirma inspirar. E por essa razão novamente, até no domínio do intelecto, onde ele iria reinar ao seu bel-prazer de forma suprema, ela provou completamente ser igual a ele e tem direito a partilhar de todo crédito atribuído ao progresso humano alcançado.'"


    Por isso que Kostakis ressalta:

    "É a modernidade, e em particular o pensamento iluminista, que fez da autonomia individual uma possibilidade — e é o liberalismo social, e mais especialmente o feminismo, que estão transformando-a em uma impossibilidade para os homens."

    Citações: sexoprivilegiado.blogspot.com.br/2013/01/perseguindo-arco-iris.html
  • Charlton Heslich Hauer  27/07/2013 23:50
    No meu comentário anterior, onde foi colocado "libertarismo2" leia-se: Libertarianismo.
  • Heisenberg  28/07/2013 04:25
    Oras, mas essa questão da distribuição inicial em um mundo libertário será de fácil resolução. Primeiramente, sobrará enormes recursos que antes pertencia ao estado e esses recursos poderão ser direcionados àqueles que mais pagaram impostos e ao mais pobres, violentamente afetados pela ideologia vitimista ensinada pelas escolas estatais.
    Quanto às grandes empresas favorecidas pelo estado, elas já sairão perdendo, pois estão acostumadas e possuem suas estruturas direcionadas ao companheirismo estatal e irão apanhar na concorrência pura.
    Talvez falte algo em relação à distribuição de terras, mas se redistribuirmos as terras estatais e as dos índios, no brasil, creio que já haverá um bom ponto de partida também. Aguardo melhores sugestões.
  • Renato Souza  28/07/2013 15:03
    Acho absurdo que os defensores de transformações sociais através de engenharia social chamem-se a si mesmos de defensores da liberdade. Isto é a última coisa que são. E mais estranho ainda que alguém aceite essa alegação. Há provas por todo lado de que são os piores inimigos da liberdade.
  • Anônimo  28/07/2013 19:57
    Esta divisão entre libertarianismo de esquerda e de direita parece ser construída em cima de valores individuais sem que, contudo, haja alguma diferença estrutural entre ambas as posições. O próprio Rothbard chegou a propor coisas como a desapropriação de terras por descendentes de escravos que nelas trabalharam. Isso torna ele um libertário de esquerda? Diz-se que ele passou por um período de esquerda, mas isso se trata dos valores aos quais ele apelava para captar seguidores, sua teoria permanecendo consistente entre um período e o outro. Dentro do próprio anarcocapitalismo é possível encontrar uma grande variedade de posições extremamente divergentes acerca de valores que não estão diretamente ligados a teoria anarcocapitalista. Não faz sentido dividir o libertarianismo entre esquerda e direita quando estamos discutindo valores e não uma diferença teórica. Não importa se um indivíduo sente maior desejo por uma liberação das drogas ou pela liberação das importações, se ele crê que homossexualismo é um pecado ou que a homossexualidade é completamente normal, pois a teoria em relação ao uso ético da violência, do que se trata a propriedade e tudo aquilo que importa permanecem as mesmas, e é disso que se trata o libertarianismo. A discussão sobre quais valores são os corretos ou errados quando eles não dizem respeito a teoria libertária são um outro assunto.
  • Marcos  29/07/2013 13:01
    Libertarianismo de esquerda equivale a acender uma vela para Deus e outra para o diabo.

    Defendem os programas da esquerda em seus pontos mais fundamentais e o temperam com a "não intervenção do estado", sendo que pelo esgarçamento das tradições, dos costumes, da propriedade e da família estão entregando ao estado de mão beijada todo poder que ele precisa para dominar uma sociedade destituída de meios de resistência.

    Não há como se defender de um ente centralizado sem valores e instituições fortes. O individuo sozinho que começar a bradar contra o estado será engolido pelas pretensões de distribuição de renda, função social da propriedade, criminalização de opiniões politicamente incorretas, intervenção estatal na família, perseguição religiosa, etc.

    Quando o MST estiver na frente da sua fazenda, experimente dizer que você até concorda que eles merecem uma reparação por não terem uma propriedade rural....
  • Miqueias  01/08/2013 14:58
    Nas discussões sobre esquerda libertária e direita libertária, é muito comum a ideia de que a direita defende a liberdade econômica e a esquerda as liberdade individuais. O que é falso, pois a esquerda defende "direitos, e não direitos de indivíduos, mas direitos de certos grupos. Existem os direitos das mulheres, os direitos dos gays, os direitos dos negros, etc. E muitos libertários caem nessa.

    Do mesmo modo que se diz que a esquerda defende certas liberdades, também é possível citar certos ideais de liberdade defendidos pela direita, como a porte de armas, a educação independente do estado, como o homeschooling, a não interferência do estado na criação dos filhos, etc. E diferentemente da esquerda,a direita não faz a coletivização dos indivíduos. Porém, pode se dizer que a direita só defende tais liberdades porque elas atendem ao seu conservadorismo. Mesmo assim, isso coloca a direita, no mínimo, no mesmo patamar da esquerda, no que concerne a defesa de liberdades que não são diretamente econômicas.
  • Tiago  23/08/2013 02:11
    Me senti burro. Não consigo entender as diferenças. Libertarismo, libertarianismo, anarquismo... que confusão!!!
  • Ludwig von Mises  07/12/2013 23:18
    You're all a bunch of socialists!
  • Lucas Artioli  22/04/2015 19:19
    "Esquerda" e "direita" descrevem, cada uma, posições autoritárias. A liberdade não possui relação horizontal com o autoritarismo. A relação do libertarianismo com o autoritarismo é vertical; está muito acima dessa podridão de homens escravizando indivíduos."

    Recomendo esse artigo.
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1466


    ...
  • Sergio  28/06/2015 12:14
    Chega a ser uma piada ler algo como "reparação de erros cometidos pelo estado com mais intervenção estatal." De novo vem aquela velha história das dívidas históricas! Ai eu te pergunto: como matematizar o pagamento dessa dívida? Só se corrige um determinado erro seguindo em frente. Sinto muito, mas esse conceito me parece uma grande furada e uma brecha para impostos.

    Outro erro é tratar os costumes como direita/esquerda. A esquerda já se mostrou bastante homofóbica e racista ao longo da história. Você pode ser contra o aborto, contra o uso de drogas e até mesmo contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e ser uma pessoa liberal. Seu modo de vida não influencia naquilo que diz respeito às liberdades individuais.
  • Emerson Luis  23/04/2016 12:10

    Sim, é necessário explicar o que queremos dizer com os nomes que usamos.

    * * *

    "Em questões sociais, os libertários de esquerda desaprovam toda forma de opressão. São, por isso, contrários ao racismo, sexismo, hierarquia e formas autoritárias de educação e cuidados parentais."

    Duas características da esquerda: reivindicar o monopólio das virtudes e debater intenções em vez de resultados. Quer dizer que os "libertários de direita" aprovam alguma forma de opressão e são a favor do racismo e do sexismo? E toda hierarquia, educação e cuidado parental é autoritária?

    Só se "desaprovar" significa invadir a vida, a liberdade e a propriedade privada das pessoas para impor a "consciência social" via coerção estatal.

    Na prática é impossível separar liberdade econômica da liberdade individual, quem não tem uma também não tem a outra. Logo, não dá para dizer que existe um tipo de liberal para cada tipo de liberdade defendida.

    * * *
  • JP  31/05/2016 13:51
    Tem muito fã de Cazuza aqui: "Ideologia! Eu quero uma para viver"...


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