Falácias keynesianas - parte II

Este artigo é uma continuação de Falácias keynesianas - parte I

 

Continuando com as falácias do senhor Keynes e seus seguidores, vamos neste mês mostrar mais duas, talvez as mais conhecidas e também as mais perigosas, porque a crença nelas e sua consequente aplicação na política econômica vêm causando enormes problemas em praticamente todo o mundo há muitas décadas. Refiro-me às falácias do "efeito multiplicador" e da "armadilha da liquidez".

3. A falácia do "efeito multiplicador"

Quem, dentre quem fez algum curso de economia, não ouviu falar do "efeito multiplicador", segundo o qual, quanto maior for a disposição para consumir (que equivale a uma menor disposição para poupar) em uma economia, os aumentos de gastos provocarão efeitos mais do que proporcionais no nível de "renda agregada"? Quando Keynes apresentou esse verdadeiro "milagre" em sua Teoria Geral, ele logo alcançou grande popularidade entre economistas e políticos, os primeiros porque acharam que a pólvora tinha sido afinal descoberta e que nunca mais existiriam nem recessões e nem ciclos econômicos e os segundos porque afinal um gênio da economia encontrara a fórmula "científica" para respaldar suas intenções permanentes de gastar o dinheiro subtraído dos pagadores de tributos.

No entanto, o "efeito multiplicador" é uma enorme falácia, porque se baseia no argumento de uma "função consumo agregada ou coletiva" estável. Podemos apresentá-lo e criticá-lo como o fez soberbamente Rothbard em seu livro Man, Economy and State: a Treatise on Economic Principles:

Renda agregada = Consumo + Investimento

O consumo é considerado pelo keynesianismo como sendo uma função estável e conhecida da renda, mediante correlações estatísticas e outros métodos econométricos. Suponhamos que, para simplificar, o Consumo seja sempre de 75% (ou, 0,75) da Renda. Assim, podemos escrever:

Renda = 0,75 (Renda) + Investimento; ou

0,25 (Renda) = Investimento

E, portanto,

Renda = 4 (Investimento)

Nesse exemplo, o "multiplicador" é igual a 4. Se, entretanto, a disposição a consumir fosse maior — por exemplo, se fosse de 0,80% da renda, o "multiplicador" seria maior, pois seria igual a 5. Quanto maior a vontade gastar da cigarra, maior o nível de renda da coletividade! Para Keynes, as formigas, poupadoras, eram mesmo umas chatas e prejudicavam a economia...

Ora, se o "multiplicador" é 4, tudo o que o governo precisa fazer para aumentar a renda agregada em um montante desejado é simplesmente aumentar seus gastos em ¼ desse montante.

Rothbard utiliza uma paródia, obedecendo rigorosamente ao raciocínio keynesiano, para desmascarar a falácia, por reductio ad absurdum, que passo a reproduzir com pequenas alterações:

Sejam: renda agregada = Y; Renda de Jorge = J; e Renda de todos os demais habitantes do país = X, sendo Jorge um habitante desse país.

X é, então, uma função estável de Y, o que pode ser visto se plotarmos ambos em coordenadas e verificarmos que para cada Y haverá um X correspondente. Como Rothbard escreveu, esta é uma função tremendamente estável, bem mais estável do que a função consumo convencional, que não exclui o consumo de Jorge. Se, agora, plotarmos a renda de Jorge, J, contra Y, encontraremos, ao invés de uma correlação perfeita, apenas conexões remotas entre a renda flutuante desse indivíduo e a renda agregada. Portanto, a renda de Jorge é um elemento ativo e volátil de incerteza nessa economia, enquanto o consumo de todos os demais indivíduos é passivo, estável, determinado pela renda da coletividade.

Suponhamos que a equação relevante seja:

X = 0,99999 Y

Temos, então,

Y = 0,99999 Y + J

E, logo,

0,0001 Y = J

Ou seja,

Y = 100.000 J

Este número fantástico é o "multiplicador" de Jorge, muito mais potente do que o multiplicador de investimentos original. Se você for o ministro da Fazenda da Dilma e quiser aumentar a renda agregada e curar a depressão e o desemprego, é necessário e suficiente mandar o Banco Central imprimir certo montante de reais e dá-los a Jorge. Os gastos desse felizardo vão bombear em 100.000 vezes a renda do país! Miracolo di San Gennaro!

Muitas vezes em sala de aula utilizei esse exemplo para mostrar a falácia do "efeito multiplicador", chamando um aluno pelo nome, dizendo que eu era o governo e que ia dar para ele um grande valor em dinheiro e que quanto mais gastador ele fosse melhor seria para a turma inteira.

E pensar que essa enorme bobagem do "efeito multiplicador" alcançou grande popularidade desde os anos 30 e até hoje, 80 anos depois e com tantos exemplos de recessões, depressões e estagnações no mundo real, ainda é ensinada nas universidades e está nos programas de concursos públicos.

Existe outra maneira de reduzir ao absurdo a falácia do multiplicador. Como sabemos, sua fórmula é 1/1-b, em que b é a "propensão marginal a consumir" e 1-b, portanto, a proporção marginal a poupar. Se supusermos uma situação em que os indivíduos, de tão endividados, gastam mais do que sua renda, recorrendo para isso a empréstimos, então b será um número maior do que 1 (b>1) e, portanto, 1-b será um número negativo (1-b<0). A propensão marginal a gastar é, neste caso, positiva e maior do que 1, o que significa que a propensão a poupar é negativa. 

Logo, o multiplicador, 1/1-b, é o inverso de um número negativo, ou seja, é também negativo. Por exemplo, se b = 1,2, então 1-b = -0,2 e 1/1-b = -5. Isso significa que uma expansão dos gastos públicos de, suponhamos, 100.000 reais vai diminuir a renda agregada em 500.000 reais. Esta parte da história, reduzida ao absurdo, não consta nos manuais de macroeconomia, mas, tal como no exemplo anterior de Jorge, obedece estritamente à fórmula do "multiplicador keynesiano". E mais: neste exemplo a tendência a poupar é negativa, o que satisfaz plenamente o chamado paradoxo da poupança de Keynes, mas, mesmo assim, o multiplicador é negativo...

Por fim, o desmonte da falácia pode ser completado com uma pergunta bem simples: se o governo aumenta seus gastos em ?G, isso significa necessariamente que ou ele emitiu  ?M de dinheiro, ou se endividou em ?D ou — o que é mais comum — que furtou ?T em tributos. Ora, por que cargas d´água esse aumento de gastos públicos ?G seria mais benéfico para a economia do que se o governo, ao invés de tributar, deixasse o montante equivalente (?T) ser gasto pelo setor privado, que foi quem suou para gerar esses recursos?

O "multiplicador" serve para justificar aumentos de gastos públicos e servir como referência para políticas de estímulos à demanda. Mas, além das impropriedades apontadas, das quais a principal é a agregação, os economistas intervencionistas ignoram sempre que a demanda é rápida como uma lebre, a oferta lenta como uma tartaruga e, sobretudo, que o mundo real está muito longe de ser uma fábula de Esopo.

4. A falácia da "armadilha da liquidez"

"A taxa de juros é o que é pela expectativa de que ela seja diferente. Se não há expectativa de que ela seja diferente, não há nada que nos diga por que ela é o que é"Está é a famosa sátira de Sir Dennis Robertson (1890-1963) à celebrada "armadilha da liquidez" formulada por Keynes. Com efeito, a "armadilha da liquidez" é uma situação imaginária em que os agentes econômicos, na presença de uma taxa de juros muito baixa, guardariam moeda na expectativa de que os juros viessem a subir. Se tal expectativa não existir, nada nos explica porque a taxa de juros é assim tão baixa. Ou seja, Keynes carece de uma teoria sobre a taxa de juros que possa ser chamada efetivamente de teoria. Grande Sir Dennis Robertson!

Curiosamente, ele trabalhou diretamente com Keynes durante os anos 20 e 30, tempo em que o segundo estava desenvolvendo algumas das ideias que mais tarde incorporaria naTeoria Geral, chegando a elogiar Robertson nestes termos: "it was good to work with someone who had a "completely first class mind". Mas, a partir dos anos 40, Robertson afastou-se de Keynes, por diferenças de temperamento e de valores morais (Robertson era filho de um clérigo da Igreja Anglicana) e visões de teoria econômica, especialmente a partir do debate de 1937 a respeito das relações entre poupança e investimento apresentadas na Teoria Geral.

Como frisa Rothbard (A Grande depressão Americana,São Paulo,IMB, 2012, p. 79 et passim), os keynesianos sustentam que a "preferência pela liquidez" ou demanda de moeda pode ser tão elevada que a taxa de juros não teria como baixar para níveis suficientes para estimular os investimentos privados que possam tirar a economia da depressão. É claro que isto pressupõe que a taxa de juros é determinada pela demanda por saldos monetários e não pelas preferências temporais, como sustentam os austríacos. Ao mesmo tempo, supõe que a ligação entre poupança e investimento seja muito fraca, sendo exercida apenas provisoriamente pela taxa de juros.

Na verdade, a questão não é se a poupança e o investimento recebem ou não isoladamente os efeitos da taxa de juros, porque poupança, investimento e taxa de juros são, individual e conjuntamente, determinados simultaneamente pelas preferências intertemporais individuais no processo de mercado. E a preferência pela liquidez ou demanda de moeda não tem nada a ver com isso.

Ainda seguindo Rothbard, os keynesianos sustentam que se a demanda "especulativa" por moeda subir durante uma depressão (ou seja, se os indivíduos resolverem guardar mais dinheiro) então a taxa de juros subirá. Mas, para os austríacos, uma coisa não decorre da outra de jeito nenhum, porque o aumento no entesouramento pode ser resultado de fundos anteriormente consumidos, de fundos investidos anteriormente ou de um mix de ambos que mantenha inalterada a proporção entre consumo e investimento e, sendo assim, a menos que as preferências temporais se alterem, a última alternativa prevalecerá.

A taxa de juros para os austríacos depende exclusivamente da preferência temporal e nunca de uma "preferência pela liquidez"! Se o maior entesouramento for proveniente do consumo, um crescimento na demanda de moeda baixará as taxas de juros, porque nesse caso as preferências temporais caíram, ou seja, está-se a valorizar menos o consumo presente do que a poupança.

Os adeptos de Keynes sustentam que, em uma crise financeira, os indivíduos esperam aumentos nas taxas de juros e, assim sendo, vão entesourar dinheiro e não comprar títulos e, portanto, vão contribuir para que as taxas de juros se mantenham baixas. Essa "demanda especulativa de moeda" é que se constitui na "armadilha da liquidez", que supostamente indicaria a relação entre a demanda de moeda e a taxa de juros. Mas este tratamento da taxa de juros é muito superficial, porque a considera apenas como sendo o preço dos empréstimos, quando a taxa de juros que importa, a crucial, é a taxa natural, ou seja, a margem de lucro no mercado, que é determinada pelas preferências temporais. E, como empréstimos são apenas uma das formas de investimentos, a taxa que incide sobre esses empréstimos é tão somente um tênue reflexo da taxa natural.

Rothbard coloca, então, a pergunta fulminante: o que, então, realmente significa uma expectativa de que as taxas de juros aumentem? Sua resposta é que significa que os indivíduos esperam um aumento na taxa de retorno líquido no mercado, com salários e outros preços de bens de produção de ordens mais elevadas caindo mais rapidamente do que os preços dos bens de ordens baixas, que são os bens de consumo. Mas isso não requer nenhuma explicação do tipo quebra-cabeças, pois, já que os investidores esperam quedas nos salários e em outros preços de bens de capital, seguram os investimentos nesses bens de capital até que seus preços efetivamente caiam. Tal expectativa, na verdade, além de não ser um elemento perturbador, contribui para acelerar o ajuste, da mesma forma como toda especulação acelera os ajustes aos níveis de mercado, esta também acelera a queda nos salários e outros fatores (bens de capital), acelerando assim a recuperação e permitindo que a economia retorne ao seu estado natural mais rapidamente. Como escreveu Rothbard (p. 80), "o entesouramento "especulativo", longe de ser um bicho-papão da depressão, é na verdade um bem vindo estimulante para uma recuperação mais rápida".

Além disso, somente uma "preferência pela liquidez" infinita, ou seja, uma curva de demanda de moeda horizontal poderia impedir o retorno da economia ao seu estado natural. Só que a demanda de moeda nunca pode ser "infinita", simplesmente porque os agentes no mundo real, independentemente de suas expectativas, sempre precisam continuar a consumir, ou seja, a desfazer-se de dinheiro e, como os indivíduos precisam continuar a consumir, também têm que continuar a produzir, o que nos leva a concluir que pode perfeitamente haver ajuste e estado natural de emprego sem qualquer dependência de haver ou não entesouramento.

Para finalizar, recorramos mais uma vez a Rothbard: "a omissão da justaposição de entesouramento e consumo deriva, mais uma vez, da negligência keynesiana de mais de duas margens ao mesmo tempo e de sua crença errônea de que o entesouramento reduz o investimento, e não o consumo".


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SOBRE O AUTOR

Ubiratan Jorge Iorio
é economista, Diretor Acadêmico do IMB e Professor Associado de Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Visite seu website.



"parece-me improvável ser coincidência os produtores do metal em questão [ouro] também terem abruptamente reduzido sobremaneira sua mineração e refino na década de 70 e de forma ainda mais intensa do que a supostamente levada a cabo pela OPEP [...]"

Exato! Este é o ponto. Quem afirma que o petróleo encareceu na década de 1970 por causa de uma suposta escassez de oferta tem também de explicar por que o ouro (e outras commodities) se encareceu ainda mais intensamente. Houve restrição na oferta de ouro?

Assim como não houve redução da oferta de ouro (cujo preço explodiu em dólar) também não houve redução da oferta de petróleo (cujo preço explodiu em dólar).

O problema, repito, nunca foi de oferta de commodities, mas sim de fraqueza das moedas -- recém desacopladas do ouro (pela primeira vez na história do mundo) e, logo, sem gozar de nenhuma confiança dos agentes econômicos.

Igualmente, por que o petróleo barateou (junto com o ouro) nas décadas de 1980 e 1990, quando a demanda por ele foi muito mais intensa do que na década de 1970? Por que ele encareceu em 2010 e 2011, em plena recessão mundial? E por que barateou em 2014 e 2015, quando as economias estavam mais fortes que em 2010 e 2011?

O dinheiro representa a metade de toda e qualquer transação econômica. Logo, quem ignora a questão da força da moeda está simplesmente ignorando metade de toda e qualquer transação econômica efetuada. Difícil fazer uma análise econômica sensata quando se ignora metade do que ocorre em uma transação econômica.

"ao menos em tese, não seria possível ocorrer uma elevação do índice "DXY" durante algum tempo simultaneamente a uma alta nas cotações em USD de algumas commodities, configurando uma situação de inflação de preços global generalizada onde a moeda america seria nesta hipótese "a garota menos feia do baile"

Sim, em tese seria possível. Só que, ainda assim, haveria um indicador que deixaria explícito o que está acontecendo: o preço do ouro.

Se o dólar estiver se fortalecendo em relação a todas as outras moedas, mas estiver sendo inflacionado (só que menos inflacionado que as outras moedas), o preço do ouro irá subir.

Mas este seu cenário só seria possível se todas as outras moedas estivessem sendo fortemente desvalorizadas. Enquanto houver franco suíço, iene e alemães na zona do euro, difícil isso acontecer.

Abraços.
Saudações, Leandro.

Teus comentários me remeteram a
uma recente troca de posts que tive no MI !
A propósito, uma análise da relação entre ouro e petróleo talvez pudesse reforçar nosso argumento em comum. Afinal, parece-me improvável ser coincidência os produtores do metal em questão também terem abruptamente reduzido sobremaneira sua mineração e refino na década de 70 e de forma ainda mais intensa do que a supostamente levada a cabo pela OPEP, caso a explicação p/ o fortalecimento do primeiro em relação ao segundo (i.e. cruede mais barato em Au) também se baseasse no suposto "choque de oferta" ao qual frequentemente se atribuem praticamente todos os episódios de encarecimento do petróleo em US$...

Sobre o "desafio": "Sigo no aguardo de um único exemplo prático de dólar forte e commodities caras. E de dólar fraco e commodities baratas, pergunto: ao menos em tese, não seria possível ocorrer uma elevação (ainda que improvável, inclusive na atual conjuntura) do índice "DXY" (dólar em relação às moedas mais líquidas do mundo) durante algum tempo simultaneamente a uma alta nas cotações em USD de algumas commodities, configurando uma situação de inflação de preços global generalizada onde a moeda america seria nesta hipótese "a garota menos feia do baile" (de ForEx) ?

Att.
Prezado Paulo, obrigado pelo comentário, o qual nada alterou a constatação: o preço das commodities é cotado em dólar; consequentemente, a força do dólar é crucial para determinar o preço das commodities. Impossível haver commodities caras com dólar forte. Impossível haver commodities baratas com dólar fraco.

Perceba que seus próprios exemplos comprovam isso: você diz que a produção americana de petróleo atingiu o pico em 1972, e dali em diante só caiu. Então, por essa lógica era para o preço do petróleo ter explodido nas década de 1980 e 1990. Não só a oferta americana era menor (segundo você próprio), como também várias economia ex-comunistas estavam adotando uma economia de mercado, implicando forte aumento da demanda por petróleo. Por que então o preço do barril não explodiu (ao contrário, caiu fortemente)?

Simples: porque de 1982 a 2004 foi um período de dólar mundialmente forte.

"Período 1973/74: É consenso da indústria mundial de petróleo que a subida abrupta dos preços em 1973/74 deveu-se ao embargo árabe realizado pela OPEP[...]"

Nada posso fazer quanto a esse "consenso", exceto dizer que ele é economicamente falacioso. O preço do barril (em dólares) subiu durante toda a década de 1970 (e não apenas no período 1973-74). O barril só começou a cair a partir de 1982, "coincidentemente" quando o dólar começou a se fortalecer.

Será que foi a OPEP quem encareceu o petróleo de 1972 a 1982? Se sim, por que então em 1982 ela reverteu o curso? Mais ainda: se ela é assim tão poderosa para determinar o preço do barril do petróleo, por que ela nada fez de 1982 a 2004, que foi quando o barril voltou a disparar ("coincidentemente", de novo, quando o dólar voltou a enfraquecer)?

E por que de 2004 a 2012 (dólar fraco) o petróleo disparou? E por que desabou de 2013 a meados de 2016 (dólar forte)? E por que voltou a subir agora (dólar enfraquecendo)?

Sigo no aguardo de um único exemplo prático de dólar forte e commodities caras. E de dólar fraco e commodities baratas.

Se alguém apresentar esse exemplo, toda a teoria econômica está refutada.
Boa tarde Bruno., tudo tranquilo?

Advogados de uma maneira geral tem duas frentes: ou são interlocutores mediante a resolução de conflitos, ou analistas para evitar conflitos. Basicamente são especialistas em detalhes jurídicos, sendo obrigatório o talento nato em retórica, para expor a parte de seu cliente de forma objetiva, lírica e eloquente na mediação, e muita disciplina acadêmica para assimilar todos os enlaces dos códigos a que se propõe atuar.

Sob a batuta do Estado, apenas formados em direito (e aqui no Brasil postulantes ao exame da OAB) podem representar pessoas e empresas nas demandas da Lei. Basicamente, 90% dos advogados no Brasil são decoradores de Lei, tendo parco saber jurídico para analisar de forma contundente demandas mais complexas.

Já em um país libertário, basta a pessoa ter um grande saber jurídico, oratória razoável e ser um bom jogador de xadrez que pode advogar tranquilamente, podendo também adquirir títulos e certificados mediante associações privadas, com o único propósito de destacar aqueles que realmente tem o que é necessário para ser advogado para quem quiser contrata-lo.

Quanto a sua questão, seja pelo monopólio do Estado ou em um país livre, o advogado não propriamente cria riqueza, mas impede que a mesma seja perdida por um descuido na assinatura de um contrato, ou mesmo a ruína causada por uma ex mulher gananciosa. Na assinatura de contratos é como uma companhia de seguros, pois ao analisar os detalhes mitiga os riscos apontando erros e pegadinhas. Por outro lado, se for atuar em uma demanda já existente, seria mais ou menos como o corpo de bombeiros, para apagar o incêndio o mais rápido possível, antes que o fogo consuma tudo.

Prezado Leandro

Aprecio muito seus artigos e comentários, postados aqui no Instituto Mises. Inclusive, suas respostas a indagações minhas sempre primaram pela cordialidade e análise ponderada. E, em relação ao seu comentário acima, não discordo quanto à correlação existente entre uma commoditie e a moeda em que ela é comercializada.

No entanto, se me permite, gostaria de discordar parcialmente do seus comentários acima sobre a causa e efeito nos preços dos mercados do petróleo, a partir do chamado Choque Nixon (1971). Entre outras medidas, ele cancelou unilateralmente a conversão do dólar em ouro. Baseei meus comentários em inúmeros autores, que usamos na indústria, não para fins políticos, mas para nosso negócio (tenho 38 anos de indústria do petróleo).

Para melhor acompanhar meus comentários, é interessante analisar os mesmos acompanhado de dois gráficos:

1) Preço do petróleo entre 1986 e 2015, fonte: BP Global:
www.bp.com/en/global/corporate/energy-economics/statistical-review-of-world-energy/oil/oil-prices.html

2) Produção e importação de óleo cru nos EUA: //en.wikipedia.org/wiki/Petroleum_in_the_United_States#/media/File:US_Crude_Oil_Production_and_Imports.svg

Vou colocar os eventos em ordem cronológica, com meus comentários após aspas de seus comentários, as vezes com ... :

SEU COMENTÁRIO: Igualmente, a acentuada e abrupta desvalorização do dólar na década de 1970 ... : não era o petróleo que estava ficando escasso; eram as moedas, recém-desacopladas do ouro, que perdiam poder de compra aceleradamente.

MEU COMENTÁRIO:
- A indústria do petróleo nunca correlacionou a culpa do aumento dos preços do petróleo na década de 1970 como sendo por causa de escassez do produto.

- Ano de 1972: A produção total Americana atinge o pico, próximo a uma média diária de nove milhões de barris por dia (bpd) e, a partir deste ponto, entra num declínio acentuado e contínuo, só interrompido em meados dos anos 2000, por conta do crescimento estratosférico da produção americana está ligado ao boom do "shale oil" americano (óleo de folhelho).

- Período 1973/74: É consenso da indústria mundial de petróleo que a subida abrupta dos preços em 1973/74 deveu-se ao embargo árabe realizado pela OPEP contra os países que apoiavam Israel na Guerra do Yom Kippur. Entre o início e o fim do embargo os preços tinham subido de US$ 3/barril (US$ 14 hoje) para US$ 12/barril (US$ 58 hoje).

SEU COMENTÁRIO: Tanto é que, nas décadas de 1980 e 90, o barril do petróleo despencou (dólar forte).

MEU COMENTÁRIO: Período 1985-1999:

- Em 1986 a Arábia Saudita resolveu recuperar sua participação no mercado global (market share) aumentando sua produção média diária de 3,8 milhões bpd em 1985 para mais que 10 milhões bpd em 1986. As reservas sauditas são tão grandes que ela sempre pôde se dar o luxo de "fechar ou abrir torneiras" para controlar demanda e oferta. Mas, atualmente isto está começando a ser modificado.

- 1988: Com o fim da Guerra Irã-Iraque, ambos voltaram a aumentar substancialmente a produção média diária.

SEU COMENTÁRIO: O boom das commodities (principalmente minério e petróleo) na década de 2000 foi "auxiliado" pelo enfraquecimento do dólar.

MEU COMENTÁRIO: Principais eventos para o aumento quase contínuo dos preços na década de 2000:

- Final dos anos 1990 e início dos anos 2000: Crescimento das economias Americana e Mundial.

- Pós 11/01/01 e invasão do Iraque: crescente preocupação quanto a estabilidade da produção do Oriente Médio.

- Segunda metade da década: Combinação de produção declinante mundial com o aumento acelerado e contínuo da demanda asiática pelo produto, especialmente China.

A causa da produção mundial declinante está relacionada à enorme expansão da produção OPEP na década anterior e que inibiu o investimento da indústria em exploração (pesquisa para descoberta de novas jazidas). Para quem não é da área, investimentos em exploração de petróleo tem retorno de médio a longo prazo.

SEU COMENTÁRIO: a recente queda a partir de 2012 (dólar forte).

MEU COMENTÁRIO: A partir de 2014 a queda dos preços está ligada a dois grandes eventos:

- Aumento substantivo da produção nos EUA e na Rússia, sendo que em 2015 a produção Americana atingiu o mais alto nível em mais de 100 anos, com os EUA voltando a serem os maiores produtores mundiais após mais de 50 anos (Figura a seguir)

- O crescimento estratosférico da produção americana está ligado ao boom do "shale oil" americano (óleo de folhelho), com o avanço tecnológico do fraturamento hidráulico (hydraulic fracturing, or fracking), ela começou a ser utilizada com progressivo sucesso em reservatórios não convencionais como o shale oil. Com isto, nunca os estoques americanos estiveram tão altos. E, aqui o básico da economia de Adam Smith: oferta maior que demanda gera queda nos preços.

Saudações, Paulo









Não, Xiba. Continua sendo pirâmide do mesmo jeito.

Essa questão da Previdência brasileira é um assunto bastante interessante pelo seguinte motivo: talvez seja a única área da economia que não está aberta a opiniões ideológicas.

Não importa se você é de esquerda ou de direita; liberal, libertário ou intervencionista. Também pouco importa se você acredita que a Previdência atual seja superavitária (como alguns acreditam). O que importa é que o modelo dela é insustentável. E é insustentável por uma questão puramente demográfica.

E contra a realidade demográfica não há nada que a ideologia possa fazer.

Comecemos pelo básico.

Ao contrário do que muitos ainda pensam, o dinheiro que você dá ao INSS não é investido em fundo no qual ele fica rendendo juros. Tal dinheiro é diretamente repassado a uma pessoa que está aposentada. Não se trata, portanto, de um sistema de capitalização, mas sim de um sistema de repartição: o trabalhador de hoje paga a aposentadoria de um aposentado para que, no futuro, quando esse trabalhador se aposentar, outro trabalhador que estiver entrando no mercado de trabalho pague sua aposentadoria.

Ou seja, não há investimento nenhum. Há apenas repasses de uma fatia da população para outra.

Por motivos óbvios, esse tipo de esquema só pode durar enquanto a fatia trabalhadora for muito maior que a fatia aposentada. Tão logo a quantidade de aposentados começar a crescer mais rapidamente que a fatia de trabalhadores, o esquema irá ruir.

Portanto, todo o arranjo depende inteiramente do comportamento demográfico da população. A qualidade da gestão do INSS é o de menos. Mesmo que a Previdência fosse gerida por anjos probos, sagazes e imaculados, ainda assim ela seria insustentável no longo prazo caso a demografia não cooperasse.

E, no Brasil, ela já não está cooperando. Segundo os dados do IBGE, em 2013, havia 5,5 pessoas com idade entra 20 e 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos. Em 2060, a se manter o ritmo projetado de crescimento demográfico, teremos 1,43 pessoa com idade entre 20 a 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos.

Ou seja, a menos que a idade mínima de aposentadoria seja continuamente elevada, não haverá nem sequer duas pessoas trabalhando e pagando INSS para sustentar um aposentado.

Aí fica a pergunta: como é que você soluciona isso? Qual seria uma política factível "de esquerda" ou "de direita" que possa sobrepujar a realidade demográfica e a contabilidade?

Havendo 10 trabalhadores sendo tributados para sustentar 1 aposentado, a situação deste aposentado será tranquila e ele viverá confortavelmente. Porém, havendo apenas 2 trabalhadores para sustentar 1 aposentado, a situação fica desesperadora. Ou esses 2 trabalhadores terão de ser tributados ainda mais pesadamente para sustentar o aposentado, ou o aposentado simplesmente receberá menos (bem menos) do que lhe foi prometido.

Portanto, para quem irá se aposentar daqui a várias décadas e quer receber tudo o que lhe foi prometido hoje pelo INSS, a mão-de-obra jovem do futuro terá de ser ou muito numerosa (uma impossibilidade biológica, por causa das atuais taxas de fecundidade) ou excessivamente tributada (algo que não é duradouro).

Eis o fato irrevogável: contra a demografia e a matemática, ninguém pode fazer nada.

A não ser mudar totalmente o sistema.

Uma proposta para uma reforma definitiva da Previdência

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Lopes  01/07/2013 13:44
    Excelente. Especialmente o texto a respeito do multiplicador.

    Lembro-me de haver sido coadjuvante de um frustrante debate a respeito do impacto do gasto governamental na economia onde todo o cerne da discussão migrara para aquilo que era chamado de "relutância" das instituições em alavancarem a economia em períodos de investimento com altos riscos. Os tipos em si eram socialistas convictos e um chegara a sugerir o completo controle estatal sobre o crédito, clamando que o grandíssimo festival de inflação da era brasileira dos bancos estaduais havia contribuído em muito ao país e que o "dinheiro deve estar servindo a obra social primeiro independentemente de seus custos às obras privadas". Já o outro, em adendo, fez-nos o favor de lembrar do mal que representa a poupança(Mera demanda por dinheiro!) à toda economia e a "função social" do estado de desestimulá-la "à bem dos trabalhadores".

    Um casamento interessante entre obsessões estatistas e a teoria econômica keynesiana que veio fazer apologia dessas durante a grande depressão. Pasmo fico ao observar que inúmeras classes de pós-graduação tornaram-se fã clube do BNDES e abundam de próximos gênios da economia brasileira ao propor, por exemplo, novamente, a permissão do BACEN de comprar diretamente títulos de dívida do governo para elevar o PIB.

    Observar os universitários e ativistas políticos de hoje me estimula a imaginar que tipo de intelectuais governarão a política nacional em 2,5 décadas.
  • Melanie S.  01/07/2013 13:57
    Parabéns, Professor. Muito legal o seu artigo. :)
  • Allan  01/07/2013 15:46
    Onde posso encontrar mais explicações sobre as taxas de juros e sua estrutura a termo?
  • anônimo  01/07/2013 15:52
    Aqui e aqui.
  • Renato  01/07/2013 16:32
    "Ainda seguindo Rothbard, os keynesianos sustentam que se a demanda "especulativa" por moeda subir durante uma depressão (ou seja, se os indivíduos resolverem guardar mais dinheiro) então a taxa de juros subirá. Mas, para os austríacos, uma coisa não decorre da outra de jeito nenhum, porque o aumento no entesouramento pode ser resultado de fundos anteriormente consumidos, de fundos investidos anteriormente ou de um mix de ambos que mantenha inalterada a proporção entre consumo e investimento e, sendo assim, a menos que as preferências temporais se alterem, a última alternativa prevalecerá."

    Alguém pode explicar melhor esse parágrafo? Agradeço se puderem citar um exemplo
  • Renato Souza  01/07/2013 22:34
    Xará

    Pelo que entendi, significa que o dinheiro entesourado pode sair tanto do consumo como do investimentos. Mas se a proporção entre investimento e consumo não se alterar, a taxa de juros, em princípio, não muda. Pelo menos foi isso que entendi.
  • Rhyan  01/07/2013 18:53
    Lendo essa aula, eu pensei em duas coisas: 1) tem gente que fala que economia é coisa fácil, simples; 2) tem gente que fala que Rothbard não foi um economista muito bom.
  • Rodnei  01/07/2013 21:15
    Discordo da sua primeira afirmação. Economia no modo de ver dos austríacos é algo ridiculamente simples, quase óbvio, natural.
    Não sou da área e em menos de 6 meses lendo 1 ou 2 artigos por dia não tenho mais medo nenhum desse "monstro".
    As teorias austríacas não são consideradas "boas" porque não dá pra aplicá-las em benefício de alguns (os que mandam), pois para funcionarem elas invariavelmente tem que beneficiar a todos, logo não agradam e são ignoradas.
  • Rhyan  02/07/2013 20:56
    Sim, em geral é muito simples, complicado é entender o mundo intervencionista. Mas pense em toda questão metodológica da praxeologia, não é algo tão simples assim.
  • Getulio Malveira  01/07/2013 21:01
    "o mundo real está muito longe de ser uma fábula de Esopo." - genial!
  • Renan Fernandez  01/07/2013 22:13
    Excelente artigo, professor!
  • TC  01/07/2013 23:35
    Ótima conclusão do artigo pelo professor Iorio.
    Reduz a Escola Keynesiana a uma pseudociência, criada para justificar as ações dos governantes e o financiamento de seus partidários.
  • Cedric  02/07/2013 11:16
    Grande Ubiratan você faz um grande serviço com esses curtos artigos de crítica certeira e pontual. Torna possível respostas rápidas e eficientes em conversas mais informais ou para com leigos.
  • Adriano N.  04/07/2013 19:47
    Boa tarde Sr. Ubiratan,
    Voçe como responderia as seguintes perguntas:
    - Porque a demanda agregada diminui quando as taxas de juros aumentam?
    - Porque uma taxa de juros mais baixa resulta em um aumento do investimento?
    As seguintes perguntas foram feitas numa prova de Universidade.
    Quero entender melhor este assunto e agradecerei a sua resposta.
    Obrigado.
  • Assis  12/07/2013 12:38
    É no mínimo irônico que economistas de direita criticarem Keynes alegando que ele defendia os interesses de políticos e de governantes interessados em manter o status quo, quando seu pensamento ajudou os EUA e muitos outros países a saírem da recessão, gerarem empregos e renda para as fatias da população que estavam passando até fome e voltarem ao crescimento!


    O keynesianismo tem seus defeitos, como qualquer escola os tem, mas se a escola austríaca e sua "praxeologia" heterodoxa carente de rigor científico fosse esse suprassumo todo não seria marginalista, seria o pensamento dominante, pois tempo, esforços e dinheiro não lhe faltam!
  • Leandro  12/07/2013 13:11
    Prezado Assis, pare de repetir chavões surrados que você aprendeu na sexta série do colégio e comece a estudar de maneira honesta e não-enviesada a ciência econômica.

    A adoção de políticas keynesianas fez com que uma recessão que normalmente não duraria mais de dois anos acabasse se perpetuando por quase 18 anos. A economia americana só foi se recuperar em 1947, quando o governo cortou seus gastos em 33%.

    Para você ter uma ideia, houve uma profunda depressão nos EUA em 1921. Naquela época, o governo tomou medidas anti-keynesianas: cortou gastos e reduziu o déficit (além de ter reduzido impostos). Resultado: a recessão terminou em um ano e meio. E você nem sequer ouviu falar nela, pois sua professora do colégio não a conhecia.

    Eis uma lista de artigos essenciais para você entender tudo isso que foi dito:

    1920 - a última depressão na qual um governo não se intrometeu foi também a mais rápida

    Um conto de duas grandes depressões

    O New Deal ridicularizado (novamente)

    Como Franklin Roosevelt piorou a Depressão

    A Grande Depressão - uma análise das causas e consequências

    Mais falácias sobre a Grande Depressão

    Herbert Hoover e George W. Bush: intervencionistas que amplificaram recessões (1ª Parte)

    Herbert Hoover e George W. Bush: intervencionistas que amplificaram recessões (final)

    A teoria austríaca dos ciclos econômicos e as causas da Grande Depressão

    Um governo em dieta - quando os gastos realmente foram cortados

    Muita leitura, hein? Vamos ver se surtirá algum efeito, ou se o ensino brasileiro continuará incrustado indelevelmente em sua mente.


    Para terminar, você afirma triunfantemente:
    "se a escola austríaca e sua "praxeologia" heterodoxa carente de rigor científico fosse esse suprassumo todo não seria marginalista, seria o pensamento dominante, pois tempo, esforços e dinheiro não lhe faltam!"

    Claro! Afinal, uma teoria que defende a redução do poder de burocratas e políticos, bem como a redução de privilégios de funças, do poder do bancos, e de assistencialismo para vagabundos, seria incondicionalmente aceita e apoiada por todos, né?

    Quanta sagacidade...
  • Flex Wheeler  17/08/2013 18:32
    Boa, Leandro!
  • Jocelino Barbacena  19/05/2016 14:10
    Uai Sô! Ouvi o tapa daqui do interiô!
  • Fernando  10/12/2014 19:31
    Pode-se então dizer que o "efeito multiplicador" é basicamente contar várias vezes o mesmo dinheiro?

    Por exemplo, eu compro algo com uma nota de 5 reais e essa pessoa compra outra coisa com a mesma nota. O truque keynesiano aqui é que as transações foram contadas como se fossem independentes da base monetária que as possibilita?

    Obrigado desde já pela resposta.
  • Bruno  19/05/2016 02:52
    Não entendi muito bem o exemplo de Jorge, porque o número de demanda agregada de Jorge deu 0,0001 e ao final sua contribuição foi de 100.000?


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