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Deflação: os maiores mitos

A possibilidade de uma deflação é algo que sempre assombra o establishment político e econômico das democracias ocidentais. De um ponto de vista econômico, seus temores são compreensíveis. Considere as três seguintes proposições básicas de economia monetária:

De acordo com a primeira proposição, tanto a quantidade de dinheiro quanto o nível de preços são irrelevantes para a riqueza de uma nação. As empresas e as famílias podem produzir com êxito quaisquer quantias de bens de consumo, a qualquer nível de preço e com qualquer quantia nominal de dinheiro. Os propulsores fundamentais do bem-estar humano são a poupança, a tecnologia e o empreendedorismo - e não a quantidade de dinheiro e os níveis de preço.

De acordo com a segunda proposição, conquanto mudanças na oferta monetária não afetem a riqueza de uma nação no agregado, elas alteram a distribuição de recursos entre os membros da sociedade. No caso de um aumento da oferta monetária, por exemplo, os primeiros a receber essa quantia adicional de dinheiro se beneficiam à custa de todos os outros membros, a quem só mais tarde chegará essa nova quantia. Note que esses efeitos redistributivos resultam não apenas de mudanças na quantidade de dinheiro, mas também de quaisquer mudanças na oferta de qualquer bem. Há uma diferença significante entre a moeda e todos os outros bens, mas apenas em regimes em que a moeda é fiduciária - isto é, um papel-moeda decretado moeda corrente pelo governo, inconversível e de curso forçado. O que nos leva à terceira proposição:

Um regime de moeda fiduciária facilita consideravelmente a redistribuição de recursos dentro de uma sociedade. Esse regime permite que os donos das impressoras do papel-moeda e seus aliados políticos e econômicos se enriqueçam bem mais rapidamente e a um custo muito menor do que qualquer outro produtor em qualquer outro campo. Isso explica por que os governos tentaram, durante séculos, estabelecer um papel-moeda. E explica por que, após terem atingido esse objetivo no século XX, os governos e seus aliados entraram em uma rota exponencial de crescimento. O estado assistencialista explodiu durante o século XX, e os setores bancário e financeiro (principalmente Wall Street) cresceram mais rápido do que praticamente qualquer outro setor da economia.

Isso não teria sido possível se houvesse um mercado de moedas livres e conversíveis, simplesmente porque ninguém aceitaria cédulas cujo poder de compra depende apenas dos caprichos do seu criador/impressor. E, de fato, um papel-moeda nunca existiu em um mercado de moedas livres.[1] Houve apenas moeda fiduciária - moeda que o governo impõe sobre seus cidadãos. O papel-moeda é decretado por lei como sendo de curso forçado, o que significa que você e eu somos forçados a aceitá-lo como pagamento, mesmo que tenhamos estipulado contratualmente que o pagamento seria em outras commodities. Ademais, em muitos países o papel-moeda é protegido contra a concorrência de seus principais opositores - como as moedas feitas de metais preciosos - por meio do código tributário; isto é, aplica-se um imposto sobre vendas e um imposto sobre ganhos de capital para esses metais, mas não para o papel-moeda. Ou seja, o papel-moeda é uma moeda monopolista; ela enriquece poucos à custa de todos os outros.

A fobia de deflação que assombra as elites é, portanto, a reação racional daqueles que lucram com os privilégios que o atual regime inflacionista - presente em todos os países do globo - lhes garante, e que mais têm a perder caso esse regime seja revertido em uma reviravolta deflacionária. Uma inflação perene se baseia em um monopólio. Já a deflação traz o vento fresco e sadio do livro mercado. As elites genuínas iriam dar boas vindas à deflação exatamente por essa razão: porque elas devem sua posição de liderança exclusivamente ao apoio voluntário dos outros membros da sociedade. Elas nada têm a temer em relação à deflação - uma diminuição da oferta monetária - porque sua liderança está baseada nos benéficos serviços que fornecem aos seus concidadãos - serviços esses que iriam perdurar não importam quais mudanças viessem a ocorrer na oferta monetária ou no nível de preços.

Mas grande parte da nossa atual elite é composta por uma "falsa elite", também chamada de "empreendedores políticos". Essas pessoas devem grande parte de sua renda e de seu poder de decisão a privilégios legais que os protegem contra a concorrência e que os enriquecem à custa de todas as outras pessoas. As fortunas de muitos empreendedores políticos são direta ou indiretamente atribuíveis ao monopólio monetário do Banco Central. Foi somente por causa desse monopólio que os Bancos Centrais puderam criar uma expansão da oferta monetária sem sofrer qualquer tipo de restrição. E foi essa inflação que, por sua vez, financiou uma expansão sem precedentes das atividades dos governos federais e estaduais, e das atividades de todos aqueles que dependem basicamente de seus esforços lobistas junto ao Banco Central para atingirem uma posição de status - quando o certo seria depender da qualidade de seus produtos e serviços para alcançar e manter essa posição de liderança.

Portanto, é bem compreensível que os empreendedores políticos temam a deflação. A deflação acaba com a sua fonte ilegítima de renda e os coloca finalmente em pé de igualdade com todos os outros membros da sociedade, cujas rendas se baseiam nos esforços e serviços fornecidos em um ambiente competitivo.

Mas esses privilégios somente podem sobreviver por causa de uma difundida ignorância sobre a verdadeira natureza da deflação.[2] Um olhar mais detalhado revela que o ataque à deflação se baseia diretamente em uma litania de mitos inflacionistas. E são esses que atacaremos agora.

Mito #1: não é possível ganhar dinheiro e ter lucros quando o nível de preços cai

A maior parte de nossa análise vai lidar com a deflação no sentido de uma diminuição da oferta monetária. Esse é o caso mais interessante do ponto de vista político porque poucos economistas, bem como os leigos, estão prontos para admitir que haja qualquer benefício com esse tipo de deflação. Mas antes de nos concentrarmos neste caso, examinemos brevemente o caráter da deflação sob uma conotação algo distinta, a saber, no sentido de uma queda no nível geral de preços. Esse tipo de deflação atrai muito menos crítica do que o outro tipo, mas pode ser útil lidar primeiro com esse tipo, como forma de aquecimento para discussões subseqüentes.

Assim sendo, será verdade que uma pessoa não pode ganhar dinheiro e ter lucros quando o nível de preços cai? A resposta é não. Uma atividade de sucesso não depende em nada do nível de preços, mas, sim, do spread (diferença) entre os preços - ou, mais precisamente, da diferença entre a receita de venda e o custo da despesa. Mas tal diferença pode existir, e de fato existe, sob qualquer nível de preços e mesmo quando há um declínio constante nos preços. A razão essencial é que os empreendedores podem antecipar um declínio nos preços, assim como eles podem antecipar um aumento dos preços. Se eles anteciparem um declínio futuro na receita de suas vendas, eles irão forçar para baixo os preços atuais dos fatores de produção, garantindo dessa forma tanto uma produção lucrativa bem como emprego para todos aqueles dispostos a trabalhar. E foi exatamente isso que aconteceu nos poucos períodos da história moderna em que a deflação não foi impedida por meio de contra-medidas inflacionistas.

Por exemplo, tanto os EUA quanto a Alemanha desfrutaram de sólidas taxas de crescimento no final do século XIX, quando o nível de preços caiu em ambos os países durante mais de duas décadas. Nesse período, os salários nominais permaneceram estáveis de modo geral, mas a renda efetivamente aumentou em termos reais porque a mesma quantia de dinheiro podia comprar cada vez mais bens de consumo. Tão benéfico foi esse período deflacionário para a grande massa que ele acabou levando à primeira grande crise da teoria socialista, que havia previsto exatamente o oposto para o capitalismo desenfreado. Eduard Bernstein e outros revisionistas surgiram e passaram a defender um socialismo modificado. Atualmente, precisamos desesperadamente de mais um revisionismo - um revisionismo deflacionista, para esclarecer.

Mito #2: conquanto preços em queda seja algo bom, uma demanda agregada insuficiente é algo ruim

Essa é uma variante do mito #1. Apesar de os defensores desse mito admitirem que preços menores são vantajosos para o consumidor, eles alegam existir desvantagens óbvias para os produtores. Particularmente, haveria poucos incentivos para se investir em qualquer tipo de negócio em um ambiente de preços descendentes. Já retrucamos esse argumento mostrando que o nível absoluto de preços futuros é irrelevante para um empreendimento lucrativo. O fator relevante é a possibilidade de se obter um spread entre as receitas de venda e os custos da despesa, e essa possibilidade existe independentemente dos movimentos do nível de preços.

Entretanto, nosso anti-deflacionista pode vir com a seguinte objeção: para que haja empreendimentos lucrativos em épocas de preços em queda, deve-se pressupor que os empresários podem forçar para baixo os preços dos fatores de produção, antecipando-se ao evento. Mas se eles não lograrem êxito, eles não investirão em absolutamente nada. CQD.

Mas esse argumento omite o fato de que todos os recursos, em qualquer período de tempo, estão investidos em algum uso. Por exemplo, nossos prescientes empreendedores seriam incapazes de forçar para baixo os preços dos fatores em duas situações: ou porque os donos dos fatores não estão dispostos a vendê-los a preços mais baixos, ou porque outros empreendedores ofereceram preços levemente maiores. Nesse último caso, evidentemente não há ausência de investimentos e atividades produtivas. Os fatores em questão foram comprados e vendidos - e ainda a preços menores do que teriam sido em épocas inflacionárias. E mesmo no primeiro caso, os fatores foram investidos - eles foram investidos no "estoque de reservas" do dono desses fatores, e tal demanda por reservas cumpre uma função social tão útil quanto qualquer outra forma de demanda.

Mito #3: não é possível ganhar dinheiro e ter lucros quando a oferta monetária diminui

Os seres humanos são capazes não apenas de antecipar uma queda do nível de preços, mas também as conseqüências de uma oferta monetária decrescente. Tais antecipações irão normalmente acelerar o processo deflacionário e fazê-lo chegar rapidamente ao "ponto mínimo" de uma oferta monetária estável. Deve-se fazer uma distinção entre dois casos: A) um sistema bancário de reservas fracionárias operando com uma moeda-commodity, tal como ouro ou prata, e B) um sistema baseado em papel-moeda.

No caso A, a oferta física de ouro ou prata obviamente não pode desaparecer no ar, o que significa que ainda haverá uma base mínima de moedas de ouro ou prata caso haja uma deflação de cédulas redimíveis nessas commodities. (Como o sistema é de reservas fracionárias, significa que há uma maior quantidade de células redimíveis em circulação do que há ouro e prata nos bancos). Tal deflação normalmente começa quando mais e mais pessoas se recusam a aceitar essas cédulas como meio de pagamento, e normalmente termina em uma corrida aos bancos, quando mesmo aquelas pessoas que possuem cédulas não mais desejam mantê-las e, assim, correm ao banco que as emitiu para redimi-las em ouro ou prata. Após essa corrida, a oferta monetária encolhe consideravelmente porque todas as notas sem o respectivo lastro em ouro ou prata (notas emitidas por causa do sistema de reservas fracionárias) desaparecem de circulação. Mas o estoque de dinheiro metálico permanece e fornece um nível mínimo de base monetária, abaixo da qual a oferta monetária não tem como cair. Não há motivo para que esse processo deflacionário não termine em poucas horas ou em poucos dias. Quando ele acabar, muitos bancos estarão quebrados e muitos empreendedores estarão falidos também, pois financiaram suas empresas com dívidas (moeda sem lastro) ao invés de com capital real. Isso explica por que o atual establishment, que é totalmente financiado por dívida, resiste ferozmente à deflação. Mas isso não significa que a produção não possa continuar sem essa elite - na realidade, a produção pode e irá continuar sob nova gestão.

No caso B, não há um ponto mínimo capaz de parar esse processo deflacionário que reduz a oferta de papel-moeda. Quando as pessoas não mais desejam carregar um papel-moeda e passam a se desfazer dele a qualquer preço, o resultado será um contínuo declínio do poder de compra desse dinheiro, que por sua vez acaba convencendo aqueles que ainda o mantêm de que é melhor se livrar dele, e quanto mais cedo, melhor. O resultado é uma espiral deflacionária: menos gente disposta a manter o dinheiro - menor poder de compra - menos gente disposta a manter o dinheiro - menor poder de compra, e por aí vai, até que enfim o papel-moeda desaparece completamente de circulação. Mas note que isso não significa que a economia irá necessariamente voltar a um estado de puro escambo. O que normalmente acontece em tal situação é as pessoas passarem a utilizar outras formas de dinheiro, tais como moedas de ouro e prata, ou papel-moeda estrangeiro. A espiral deflacionária, portanto, tem o efeito saudável de substituir um tipo inferior de dinheiro - inferior do ponto de vista dos usuários - por outro superior. Novamente, não há motivo para que esse processo não se complete em poucos dias. E, portanto, não há motivo para se imaginar que a produção não irá recomeçar rapidamente sob nova gestão.

Mito #4: deflação acarreta um crescimento econômico mais lento do que quando há inflação

Alguns defensores da inflação admitem que a produção pode de fato continuar após uma deflação, e possivelmente até mesmo durante uma deflação. Mas eles alegam que o crescimento econômico será seriamente restringido pelos ajustes necessários, de modo que seria preferível evitar a deflação através da inflação - ou, como eles dizem, reflação.

É difícil discutir tais alegações na ausência de uma definição consensual sobre o que é crescimento econômico. Mas, não obstante, a seguinte consideração é aplicável: o problema de se ajustar a uma deflação no sentido de uma diminuição da oferta monetária é um problema inerentemente de curto-prazo. É uma questão de identificar quais projetos de investimento são mais lucrativos (e, portanto, mais socialmente benéficos) sob as novas condições criadas pela deflação. Na pior das circunstâncias, a deflação induz os empresários e os donos dos fatores de produção a reter seus ativos para evitar desperdiçá-los em riscos extravagantes. Portanto, a deflação é inerentemente sóbria, prudente e financeiramente conservadora.

Em contraste, a inflação constantemente atrai capital para projetos de investimentos que, em condições normais, não encontrariam apoio espontâneo de outros membros da sociedade - capitalistas, trabalhadores e clientes -, mas que se tornam viáveis somente porque são financiados, direta ou indiretamente, com dinheiro oriundo da impressora do banco central. O exemplo mais patente é o estado assistencialista, que é financiado não porque haja qualquer perspectiva de retorno futuro, e não porque atraia uma quantia suficiente de doações voluntárias, mas somente porque ele é sustentado por uma quantia crescente de dívidas, que um dia serão pagas com mais dinheiro oriundo da impressora. Isso tudo sem nem mencionar o fato, enfatizado apenas pelos economistas austríacos, de que a inflação pode induzir a más alocações inter-temporais do capital, o que gera os ciclos econômicos.

Considerando-se os enormes desperdícios que andam lado a lado com a inflação, não é desarrazoado assumir que a deflação irá estimular o crescimento econômico no longo prazo e também no imediato, seguindo-se qualquer definição de crescimento que enfatize as escalas de valores dos membros individuais da sociedade, ao invés de algum critério arbitrário de justiça social.

Mito #5: a deflação é particularmente opressiva para grupos de baixa renda

O principal ativo das pessoas relativamente pobres é a sua mão-de-obra, e a mão-de-obra é um ativo relativamente não específico, o que significa que pode ser utilizada em vários ramos da indústria. Se um trabalhador não mais pode se manter empregado em sua atual posição, ele sempre terá a possibilidade de encontrar um novo emprego em outro lugar, ainda que a um menor preço de mercado. Em contraste, pessoas relativamente ricas normalmente obtêm a maior parte de sua renda através de ativos financeiros. Em última instância, esses ativos estão relacionados à propriedade de bens de capital, que por sua vez são ativos altamente específicos - muito frequentemente, eles só podem ser utilizados da mesma maneira em que atualmente o são. Se esse uso não mais for lucrativo, haverá uma queda relativamente dramática em seu preço de mercado, normalmente para um valor de sucata.

Disso, conclui-se que a deflação afeta mais os grupos de alta renda do que os de baixa renda.

Mito #6: a deflação destrói o crédito do estado

É verdade que a deflação - principalmente a deflação no sentido de contração da oferta monetária - tornará impossível para um governo pagar sua dívida pública. E também é verdade que, exatamente por isso, será impossível durante algum tempo o governo obter novo crédito.

Mas é um mito acreditar que temos de esperar por uma deflação para que isso ocorra. A dívida pública está em crescimento exponencial e nenhuma autoridade do governo sequer fala em pagá-la. O fato é que os governos ocidentais já estão em uma situação delicada há muito, situação essa que inevitavelmente irá terminar ou em hiperinflação ou em falência geral do estado. É apenas uma questão de tempo até que os governos acabem por destruir completamente sua própria credibilidade - e a deflação simplesmente iria acelerar esse processo.

Mas não deixemos de observar que existem efeitos potencialmente benéficos associados à falência do estado. Em particular, os governos estariam novamente dependentes apenas da tributação para obter todos os seus recursos, e isso põe um freio saudável em seu desejo irrefreável de expansão.

Mito #7: a deflação cria desemprego

O desemprego de um fator de produção ocorre somente em dois casos: A) se o dono do fator não está disposto a alugá-lo pelo preço oferecido a ele, ou B) se a lei o impede de fazê-lo. Portanto, não é verdade que salários declinantes geram desemprego por si só. As pessoas não ficam simplesmente desempregadas. Elas apenas escolhem não trabalhar para um empregador sob as condições (pecuniárias e não-pecuniárias) oferecidas a elas. Agora, é claro que nenhuma pessoa lúcida aceitaria trabalhar para alguém se o salário oferecido não lhe der condições de subsistência. Mas esse não é o caso em uma deflação. Lembre-se que, nesse caso, todos os preços caem, e assim o declínio dos salários é compensado por um declínio paralelo dos preços dos bens de consumo. É verdade que pode não haver sempre um paralelo exato entre salários e preços dos bens de consumo, mas quaisquer desvios serão temporários e podem ser facilmente aliviados por algum tempo com o auxílio da família, dos amigos e de instituições de caridade.

O desemprego involuntário vai surgir em uma deflação somente se houver leis de salário mínimo que impeçam o trabalhador de oferecer seus serviços a valores menores. Mas esse desemprego claramente não resulta da deflação, e sim das leis do salário mínimo, que são uma clara violação da liberdade de associação.

Mito #8: a deflação gera fardos desiguais e arbitrários para os cidadãos

É verdade que a deflação gera pesados ônus para muitos indivíduos. Por exemplo, considere o fato de que atualmente a grande maioria de famílias americanas contraiu um número considerável de dívidas, geralmente na forma de hipotecas imobiliárias. Se houver uma contração da oferta monetária, a renda das famílias irá declinar, tornando impossível o pagamento dessas dívidas. Assim, será necessário renegociar as dívidas, e alguns indivíduos terão de requerer falência. Também é verdade que a deflação traz conseqüências desiguais para os indivíduos. Em um ambiente deflacionário, alguns irão prosperar mais do que teriam prosperado no atual regime inflacionário, enquanto outros ficarão piores. Finalmente, deve-se admitir que é difícil conciliar essas redistribuições com a noção que cada um tem sobre o que é justo e injusto.

Portanto, onde está o mito? O mito consiste na crença de que é somente a deflação que gera fardos desiguais e arbitrários para os cidadãos. A verdade é que o atual regime inflacionista não é de maneira alguma menos redistributivo e arbitrário do que qualquer deflação possa jamais ser. A inflação constantemente redistribui a renda das pessoas de maneira inversa: ela tira daquelas que de fato oferecem bens e serviços genuínos e dá para aquelas que desfrutam de afinidades políticas com os senhores que comandam a impressora.

Mesmo que a inflação seja usada "apenas" para impedir uma iminente deflação, os efeitos dessa redistribuição desigual e arbitrária não podem ser evitados. Portanto, o mínimo que podemos dizer é que a deflação certamente não é mais injusta do que a inflação. E, como veremos mais abaixo, há realmente benefícios bem tangíveis que podem ser obtidos da deflação, o que de fato a torna preferível a uma inflação contínua. Mas antes de discutirmos esse ponto, lidemos brevemente com outra questão:

Mito #9: levará décadas para se resolver as contendas jurídicas causadas pela deflação

Não teríamos sido otimistas ao assumir que a deflação pode ser uma questão de horas ou dias? Não seria mais razoável crer que a deflação irá perturbar um grande número de contratos de longo prazo, desde contratos hipotecários até aluguéis de imóveis, passando por títulos e contratos industriais? Assim, não seria verossímil imaginar que os tribunais levariam uns vinte anos ou mais para resolver todos os diversos pedidos de indenização e conseqüentes apelações?

É verdade que, conquanto o ajustamento da estrutura de preços às novas condições criadas pela deflação pode durar apenas algumas horas ou dias (mas pode durar muito mais se intervenções do governo obstruírem o processo de ajustamento), a solução de contendas jurídicas pode levar períodos de tempo muito mais longos. Mas baseando-se em evidências empíricas, é certamente um exagero assumir que seriam necessários mais do que alguns meses.

Considere a deflação alemã que se iniciou após a falência do Darmstädter Bank, em 31 de julho de 1931, e que durou algo como dois anos. A crise rapidamente pôs em risco a liquidez, não apenas do setor bancário, mas também de praticamente todos os outros ramos da indústria alemã. Relações contratuais sofreram enormes distorções, e isso não apenas gerou falências em uma escala sem precedentes, como também gerou um grande número de revisões de contratos prévios, tanto dentro quanto fora dos tribunais, e finalmente uma moratória de todos os pagamentos. O desemprego atingiu quase 7 milhões de pessoas, a produção parou em várias empresas, os salários despencaram, assim como todos os outros preços. A queda radical dos preços imobiliários colocou em risco o setor hipotecário, assim como todos os títulos financeiros lastrados em hipotecas.

Como esses problemas foram enfrentados? Bom, o problema do desemprego sequer foi atacado, uma vez que o próprio governo criou as condições sob as quais o desemprego se tornou inevitável: seguro-desemprego e leis de salário mínimo. O resultado foi inquietação social e doze anos de Nacional-Socialismo.

Porém, os problemas relacionados à resolução de contendas jurídicas foram tratados rápida e eficientemente, em parte porque os tribunais alemães, no rastro da hiperinflação de 1923, tinham ganhado alguma experiência em lidar com mudanças dramáticas no poder de compra do dinheiro. Em um grande número de casos, as disputas sequer chegaram às cortes do estado, pois foram resolvidas por arbitramento privado. Quanto aos casos remanescentes, alguns foram resolvidos em cortes do estado; para os outros foram criadas uma série de quatro leis de emergência, sendo a última delas votada no parlamento em 8 dezembro de 1931. Assim, poucos meses após a deflação ter se iniciado, todas as instituições e ferramentas jurídicas essenciais já estavam em vigor e funcionando bem eficientemente.

Não há motivos para imaginar que as coisas seriam tratadas de maneira menos eficiente no mundo moderno, principalmente se os estudiosos do campo jurídico dedicarem suas energias à análise dos problemas em jogo.[3]

Mito #10: a deflação não gera qualquer benefício líquido positivo

Já admitimos que, quando se considera a distribuição do ônus entre todos os cidadãos, uma forte contração da oferta monetária está simplesmente em pé de igualdade com aumentos da oferta monetária. Porém, há um detalhe: por estarmos tão acostumados a um ambiente inflacionário, já sabemos como lidar com ele. Assim, o que aconteceria se deixássemos uma deflação ocorrer? Será que isso não nos imporia todo um novo processo de reajustamento? Mesmo que esse ajustamento seja apenas algo temporário, ele ainda envolve custos para todos os membros da sociedade. Portanto, quais seriam os benefícios da deflação que possam estimular um cidadão responsável a endossá-la? Sempre lembrando que o cidadão não sabe se vai estar no lado vencedor desse processo de redistribuição de soma zero que a deflação gera no curto prazo. Nesse ponto, entra em cena a seguinte consideração.

Antes de tudo, a deflação é um mecanismo muito eficiente para acelerar os ajustes que devem ser feitos para se adaptar às novas circunstâncias quando há uma grande crise financeira. A razão é que, como vimos acima, a deflação afeta os preços dos fatores de produção muito mais do que os preços dos bens de consumo. Como conseqüência, a deflação aumenta a diferença entre as receitas de venda e os custos da despesa - em outras palavras, a taxa de juros -, e assim cria poderosos incentivos para se aumentar a poupança e os investimentos.

Segundo, e igualmente importante, a deflação é um processo único que tem o potencial de destruir as mesmas instituições que produzem a inflação perene: os bancos de reservas fracionárias e os criadores de papel-moeda fiduciário ("bancos centrais"). A destruição dessas instituições eliminaria a "vantagem marginal" desfrutada pelo financiamento por endividamento em detrimento do auto-financiamento. Em outras palavras, o poder econômico e social será retirado do Banco Central e de todos os outros bancos para ser devolvido aos cidadãos individualmente. As empresas irão operar em bases financeiras e patrimoniais muito mais sólidas, com muito mais capital próprio e com um grau de endividamento muito menor, ao passo que as famílias irão, muito mais do que antes, poupar primeiro para só depois adquirir uma casa. Além do mais, a destruição da máquina inflacionária irá destruir o principal motor financeiro do estado assistencialista. Os governos terão, daí em diante, de obter seus recursos exclusivamente através da tributação, algo que está sujeito a um controle social muito maior do que o método vergonhosamente furtivo de se adquirir recursos através da inflação da oferta monetária.

Mito #11: deixar que a deflação ocorra é "passivismo"

À luz da nossa discussão precedente, ficou claro que deixar que a deflação ocorra em nada se equipara a uma resignação apática perante o poder de forças misteriosas e perante obscuros mecanismos de mercado. A deflação pode cumprir funções sociais extremamente úteis, e aqueles que apreciam a liberdade individual e respeitam a inviolabilidade da propriedade privada têm motivos sólidos para se esforçar conscientemente para deixar que a deflação siga seu curso. Na verdade, deixar que a inflação ocorra é que significa uma resignação apática - resignação perante o poder de um monopólio monetário que prospera com a ignorância alheia, e que beneficia toda uma rede política à custa da sociedade civil capitalista.


[1] Alguém pode contestar tal afirmação dizendo que as cédulas do Banco da Inglaterra que circularam de 1797 a 1821 foram uma exceção, porque elas não eram de curso forçado. Mas essas cédulas não representavam papel-moeda, mas, sim, um dinheiro a crédito (títulos sobre depósitos bancários que não são pagos sob demanda). Durante todo o período desse "papel-libra", os participantes do mercado esperavam que pagamentos em espécie fossem redimidos pelo Banco da Inglaterra em um futuro próximo. Para uma distinção entre dinheiro-commodity, dinheiro-crédito e dinheiro fiduciário (na maioria dos casos: papel-moeda), veja Mises, Theory of Money and Credit.

[2] É claro que queremos defender apenas a deflação oriunda de um ambiente de livre mercado. Uma deflação confiscatória é indefensável. Veja o artigo Confisco deflacionário: o caso da Argentina. Veja também Rothbard, Deflação, Livre ou Compulsória, e Salerno, "Taxonomy of Deflation."

[3] Um dos problemas atuais mais importantes para o aprendizado libertário é o desenvolvimento de uma teoria jurídica da deflação.


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autor

Jörg Guido Hülsmann
é membro sênior do Mises Institute e autor de Mises: The Last Knight of Liberalism e e The Ethics of Money Production.  Ele leciona na França, na Université d'Angers.


  • Caio  04/02/2010 03:09
    Quais os meios que o governo usa para promover uma redução da oferta monetária??
  • wylhiam  02/10/2013 03:40
    O compulsório, resumidamente, que faz-se expandir a oferta de crédito (criação de dinheiro ou retração dele). Mas é preciso ter dois conceitos, a deflação por retração da oferta monetária é pior do que a expansão do crédito (inflação), ou talvez, igualmente prejudicial. A oferta monetária não deve-se aumentar, ou seja, conforme a produção (economia não monetária como diria Friedman) aumenta, como não ouve aumento da oferta de dinheiro e de crédito (o dinheiro continua com a mesma oferta), precisa-se de menos dinheiro ou ouro para se adquirir os bens produzidos.

    É diferente de uma deflação por retração da oferta monetária, seja ela lastreada em ouro ou não. A expansão do crédito sem lastro em poupança voluntária faz-se ter uma chuva de investimentos não sustentáveis, quando a inflação passa a ser um problema para a economia, há um aumento da taxa de juros (compulsório), ou seja, há uma destruição de moeda ou substitutos perfeitos. Quando isso ocorre há mudanças na estrutura do capital da economia, que foram artificialmente levados ao erro empresarial devido a expansão do crédito, e os investimentos que aparentemente eram lucrativos devido ao crédito barato começam a se notar insustentáveis e há uma deflação. Esse tipo de deflação se difere muito da deflação natural.
  • Leandro  04/02/2010 03:21
    Caio,

    Em termos "legais", há apenas um meio: o Banco Central vende títulos públicos e, com isso, enxuga a base monetária (leia, por gentileza, o artigo sobre a taxa Selic, o qual explica esse processo com mais detalhes).

    Porém, tal procedimento não é mais visto atualmente, pois uma deflação monetária é inerentemente recessiva - e governo nenhum quer isso.

    Eu disse termos "legais" porque há também a deflação compulsória, que é aquela que ocorre quando o governo, por exemplo, congela ou confisca as contas bancárias, como fez o Collor.

    Murray Rothbard tem um artigo comentando essa atitude do Collor.

    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=190

    Abraços!
  • Caio  04/02/2010 03:24
    Essa parte do texto:\n\n"Se houver uma contração da oferta monetária, a renda das famílias irá declinar, tornando impossível o pagamento dessas dívidas. Assim, será necessário renegociar as dívidas, e alguns indivíduos terão de requerer falência."\n\n No caso de uma contração da oferta monetária, os preços dos produtos caem, correto? Então, não entendi muito bem como isso poderia atingir negativamente as famílias... Alguém me explica?\n\nE Por que a renda das famílias caem??
  • Caio  04/02/2010 03:30
    Obrigado pela explicação, Leandro!\n.\nTem mais uma coisa... certa vez,não lembro onde, eu li que o governo poderia enxugar a base monetária, através de aumentos na arrecadação de impostos. Isso procede??\n.\nAbraço!\n
  • Leandro  04/02/2010 03:54
    Caio,

    Sobre o fato de uma deflação monetária dificultar o pagamento de dívidas, a questão é simples: como haverá menos dinheiro disponível na economia, o endividado terá muito mais dificuldades para obter a quantia nominal de que precisa para saldar suas dívidas - as quais foram contraídas em um momento em que havia mais dinheiro na economia. Esse será seu fardo.

    Quanto à deflação por impostos, isso aconteceria apenas se o governo, em termos absolutos, arrecadasse mais do que gastasse - sendo esse superávit entesourado, isto é, guardado em algum cofre, de modo que não voltasse para a economia.

    Coisa um tanto quanto fictícia no mundo de hoje.
  • mauricio barbosa  15/04/2014 04:35
    Leandro Roque na academia aprendi que a classe A possui mais renda nominal do que todas as outras classes juntas,de maneira que essas medidas deflacionárias atingem os mais pobres com muito mais violência e os ricos são menos afetados,gostaria de saber se isso procede e procedendo em um mercado livre sem as amarras do estado,tal nível de concentração diminuiria ou continuaria na mesma,pois sei que monopólios só acontecem com a proteção estatal,mas como desinflar essa concentração,hoje sou anarquista e recorro a vocês para tirar dúvidas pois estou me desintoxicando do keynesianismo-marxista da ultrapassada academia e as vezes fico com dúvidas infantis,pois faz tempo que sai da academia(Dinossaura)mas peço-te paciência e sugiro que vocês criem um curso a distancia bem abrangente costurando todas os nós da teoria austríaca,pois assim os comentários ficaram cada vez melhor e embasados por parte de nós anarquistas,minarquistas e ou conservadores.
  • Ricardo  15/04/2014 13:08
    Como que uma queda nos preços afetaria os pobres?
  • mauricio barbosa  15/04/2014 13:59
    Desculpa o engano não quis dizer a deflação mas sim as medidas totalitárias do governo travestida de medidas econômicas que beneficiam grupos de interesse e seus lobistas de plantão. Lógicamente a deflação beneficia os mais pobres e a pergunta refere-se a questão estatística ou seja como desinflar essa concentração sem empobrecer os mais ricos da sociedade.Eis a pergunta...
  • maurício barbosa  15/04/2014 20:48
    Creio que achei a resposta;Em um processo deflacionário os lucros permanecem constantes com tendência a crescer devido aos ganhos de produtividade onde o lucro é ganho no giro,ao invés de ser na margem igual acontece hoje com estas reservas de mercado imposta por este estado mercantilista,enfim os ricos continuam ricos e os pobres com acesso a mais bens e serviços de maneira que a participação relativa dos ricos na renda nacional caem mas em termos absolutos não caem devido aos ganhos de escala gerado pelo aumento da produtividade.Elementar meu caro watsom.
  • Caio  04/02/2010 18:34
    Brigadão mais uma vez, Leandro... E desculpe pelo incomodo.
  • Lopes  20/03/2013 15:42
    Considerando o artigo revigorado do dia 20/03/2012, é recomendada a re-leitura deste.
    Retornam inúmeros conceitos de defesa da poupança e da importância da produção, cujas possíveis contestações são muito bem discutidas neste artigo.
  • Alexandri Cristino  07/10/2013 19:21
    Sou acadêmico da 6ª fase de Ciências Econômicas e conheci a Escola Austríaca através de um amigo, uma vez que a maior parte dos meus professores jamais citaram essa linha de pensamento em sala. Estou a pouco tempo lendo os ensinamentos de Mises, porém confesso (fascinado) que considero a Escola Austríaca uma das mais esclarecedoras e completas que já li. Perdoe minha ignorância, mas tenho duas dúvidas:

    * Quanto a deflação, como é possível que o lucro seja o mesmo quando os salários nominais permanecem inalterados e os preços dos produtos caem?
    Seria por um aumento no volume vendido? (Uma vez que o poder de compra do consumidor aumenta).

    * Sabemos que existe uma rigidez para baixo dos salários (não só por Keynes, mas realmente existe), caso não houvesse essa rigidez e os salários caíssem igualmente
    aos preços, uma queda não anularia a outra?
  • Magno  07/10/2013 19:36
    No setor de tecnologia, não apenas os preços só caem, como os salários só sobem. Ou seja, o cenário é ainda "pior" do que este que você descreveu. Não obstante, os lucros são positivos.

    Produtividade, ganhos de escala e crescente volume de vendas (por causa dos preços menores). Este é o "segredo".

    Sobre rigidez de preços, observe que, neste seu cenário, o salário real permaneceu inalterado. No entanto, neste seu cenário, não houve a maléfica redistribuição de renda às avessas (dos pobres para os ricos) que é gerada pela inflação monetária. Ver mais aqui.
  • anônimo  07/10/2013 19:47
    Salários sobem mais ou menos né? Tem americano reclamando que não consegue emprego porque as empresas preferem contratar programador indiano. Esse é o cara que tem que aprender a lidar com a concorrência e se conformar em ganhar menos
  • Alexandri Cristino  08/10/2013 19:44
    O salário real não permaneceu o mesmo, ele aumentou. Isso para a grande massa é muito bom. Mas minha dúvida é como fica o empresário nessa história, uma vez que os preços dos produtos caem e o salário nominal não.
  • Magno  08/10/2013 20:58
    A sua premissa foi "e se os salários caíssem igualmente aos preços". Neste caso, o salário real permaneceu sim o mesmo. Para ele aumentar, os preços teriam de cair mais do que os salários.

    Quanto aos empresários, a resposta foi explicitada no texto.
  • Alexandri Cristino  08/10/2013 20:03
    * Quanto aos empresários anteciparem uma queda futura da receita, acho um tanto improvável dentro das premissas microeconômicas.

  • wylhiam  11/10/2013 16:34
    A lucratividade pode ser resumida pela diferença entre poder de compra inicial que um indivíduo gerou em uma transação e o poder de compra no final da mesma transação. A expectativa de valorização ou desvalorização da moeda faz grande influência na lucratividade. Analisaremos dois pontos:
    • Quando a expectativa é que todos os preços que uma moeda pode consumir aumentem, a lucratividade tende a ter uma maior margem, pois no futuro, o dinheiro irá comprar menos bens que no presente.
    • Quando a expectativa é que todos os preços que uma moeda pode consumir reduzam, a lucratividade tende a ter uma menor margem, pois no futuro, o dinheiro irá comprar mais bens que no presente.

    A lucratividade está diretamente ligada ao poder de compra do meio de troca (moeda).
    A oferta e demanda mostrará quanto cada uma das transações terá de poder de compra no começo e no final da operação. Quanto mais a oferta de moeda se expande, mais os níveis gerais de preços aumentarão e menos bens futuros com a mesma quantidade de moeda poderão ser adquiridos.
    Tal sistema funciona com qualquer nível de oferta monetária, os preços sempre se ajustam, mesmo com um poder de compra aumentando ou diminuindo.

    NÃS PALAVRAS DE MISES:

    Quando se trata de moeda, referimo-nos ao seu poder de compra em relação aos vários bens vendáveis.
    A popularidade do inflacionismo se deve, em grande parte, ao arraigado ódio contra os credores. A inflação é considerada justa porque favorece os devedores em detrimento dos credores. Evidentemente, não há outra maneira de analisar este fato, a não ser pela compreensão histórica.

    A questão é saber se a queda no poder aquisitivo foi, ou não, um fator indispensável na evolução da pobreza de eras passadas para as condições mais satisfatórias do "moderno capitalismo". Ao lidar com esse problema, não nos podemos satisfazer apenas em refutar os argumentos apresentados pelos inflacionistas em defesa de sua tese. O absurdo desses argumentos é tão evidente, que fica fácil refutá-los e desmascará-los. Desde o começo de sua existência, a ciência econômica já mostrou repetidas vezes que as afirmativas referentes aos supostos benefícios de uma abundância de moeda e aos supostos desastres de uma escassez de moeda são o resultado de erros crassos de raciocínio. Os esforços dos apóstolos do inflacionismo e do expansionismo para refutar o acerto dos ensinamentos dos economistas têm sido absolutamente inúteis e geradores de crises.

    Imaginemos um mundo no qual seja rígida a quantidade de moeda. Num primeiro estágio, os habitantes desse mundo produziram toda a quantidade possível da mercadoria a ser usada como moeda. Um novo aumento na quantidade de moeda é impossível. Os meios fiduciários não são conhecidos. Todos os substitutos de moeda – inclusive a moeda fracionária – são certificados de moeda.

    Nessas condições, a intensificação da divisão do trabalho, a evolução da autossuficiência econômica das famílias, vilas, distritos e países para o sistema de mercado mundial, a progressiva acumulação de capital e o progresso tecnológico dos métodos de produção teriam resultado numa tendência contínua à queda dos preços. Poderia esse aumento do poder aquisitivo da unidade monetária impedir a evolução do capitalismo?

    O homem de negócios comum responderia afirmativamente a essa pergunta; vivendo e agindo num mundo em que uma lenta, mas contínua, queda no poder aquisitivo da unidade monetária é considerada como normal, necessária e benéfica, simplesmente não pode compreender um estado de coisas diferentes. No seu entender, as noções de preços em ascensão e lucros estão associadas, do mesmo modo que as de preços em queda e perdas. O fato de que também se possa operar na baixa e que grandes fortunas tenham sido feitas dessa maneira não abala o seu dogmatismo. São casos – diz ele – de transações meramente especulativas de pessoas desejosas por lucrar com a queda nos preços de bens já produzidos e disponíveis; as inovações criativas, os novos investimentos e a utilização de métodos tecnológicos aprimorados requerem o estímulo que a expectativa de aumento de preços propicia; o progresso econômico só é possível num mundo de preços em ascensão.

    Esta forma de pensar é insustentável. Num mundo em que fosse crescente o poder aquisitivo da unidade monetária, o modo de pensar das pessoas se ajustaria a esse estado, da mesma forma que, no nosso mundo, se ajustaram a uma unidade monetária de poder aquisitivo decrescente. Hoje em dia, as pessoas em geral estão prontas a considerar um aumento na sua renda nominal ou monetária como uma melhoria de sua situação material. Mais com os salários e com o equivalente monetário da riqueza do que com o aumento da quantidade de bens disponíveis. Num mundo em que o poder aquisitivo da unidade monetária fosse crescente, todos concentrariam sua atenção na redução do custo de vida. Isto tornaria evidente o fato de que o progresso econômico consiste primordialmente em fazer com que as amenidades da vida sejam cada vez mais acessíveis.

    Na condução dos negócios, uma tendência secular de preços decrescentes, as oportunidades de lucro surgirão da mesma maneira com que surgiram num mundo com uma tendência secular de preços crescentes. A expectativa de um aumento geral e progressivo de todos os preços não intensifica a produção nem provoca uma melhoria do nível de vida. Ao contrário, acaba resultando numa "fuga para os valores reais", numa alta desastrosa e no colapso do sistema monetário.

    Uma tendência secular de aumento do poder aquisitivo da unidade monetária faria com que os empresários e investidores adotassem regras práticas, empíricas, diferentes daquelas que se desenvolveram em decorrência da tendência secular de queda do poder aquisitivo. Mas com certeza não influenciaria substancialmente o curso dos negócios. Não eliminaria o desejo das pessoas de melhorar sua situação material, tanto quanto possível, por meio de um ajuste adequado da produção. Não privaria o sistema econômico dos fatores que são a origem do progresso material, a saber, o empenho de audazes promotores em obter lucro e a disposição do público para comprar aquelas mercadorias que lhes proporcionam maior satisfação pelo menor custo.

    1. Um governo, ao adotar uma política inflacionista ou deflacionista, não está promovendo o bem estar do público, o bem comum ou os interesses da nação em geral. Está meramente favorecendo um ou alguns grupos da população à custa de outros grupos.

    2. É impossível saber previamente que grupos serão favorecidos por uma específica medida inflacionária ou deflacionária, e em que extensão. Esses efeitos dependem do conjunto de circunstâncias do mercado considerado; dependem também, em grande medida, da velocidade do movimento inflacionário ou deflacionário e podem sofrer uma total reversão no curso desses movimentos.

    3. Em qualquer grau, uma expansão monetária resulta em investimentos malbaratados e exacerbação do consumo. A nação, como um todo, fica mais pobre e não mais rica. Esses problemas serão examinados mais detidamente no capítulo XX.

    4. Uma inflação continuada acaba provocando uma alta desastrosa e a completa ruína do sistema monetário.

    5. A política deflacionária é onerosa para o Tesouro e impopular junto às massas. Por outro lado, a política inflacionária é vantajosa para o Tesouro e bastante popular entre os ignorantes. Na prática, o perigo da deflação é apenas ligeiro, enquanto o perigo da inflação é enorme.
  • anônimo  09/10/2013 15:39
    Num parâmetro de padrão ouro - Quando se aumenta a poupança, assume-se uma diminuição do consumo dos bens finais (comércio), ou seja, uma deflação nesses setores, como vestuário, restaurantes, cerveja, bem-estar, e há uma propensão a novos investimentos mais longe do consumo (tecnologia, telefones, máquinas e equipamentos, petróleo), relativamente a lucratividade dos bens de capital aumentarão e mais recursos serão destinados a estes setores.

    A oferta monetária apenas irá ajustar os preços. Com uma contínua expansão da mesma, cria-se falsos sinais de poupança para ocorrer esse trade-off aos empresários.

    Num parâmetro expansão monetária - Quando há expansão monetária, ocorre o mesmo sistema, há juros baixos, e dinheiro é injetado nos bens de capital, porém não houve poupança, foi uma expansão do crédito, recursos foram enviados para projetos de bens de capital, mas que não são a demanda real das famílias, elas preferem bens de consumo, mas, as taxas enviam falsos sinais ao mercado, aparentemente, bens de capitais serão demandados futuramente pelas famílias há uma abundância de bens de consumo (quando na realidade não há). A inflação está controlada, os níveis de preços estará estável e os bens de capital estão inflacionados, cria-se uma bolha, por que os níveis de inflação estão estáveis, mas por que os preços dos bens de capitais não são computados nos índices inflacionários, ou seja, há uma inflação dos bens de capitais, que não aparecem nos índices de inflação em relação aos bens de consumo (Há uma poupança forçada). Mas todos os preços aumentam por que há mais dinheiro no mercado. Sempre há o trade-off entre diminuição de preços de bens de consumo e bens de capital mesmo com uma inflação monetária. Quando isso ocorre, falsos sinais de que produtos mais longe do consumo são as necessidades das famílias quando não são. Logo, cria-se uma falta de produção do que realmente precisa-se de demanda e o dinheiro das empresas de bens de capital começam-se a ser direcionados aos bens de consumo, há o estouro da bolha, empresas que aparentemente pareciam lucrativas, não são, a inflação começa a ser sentida pela população e há uma deflação nos setores de bens de capital, porém, os preços sempre estão aumentando, por que há mais moeda no mercado. O governo não gosta de reduzir juros, por que destrói moeda e torna os projetos de longo prazo (bens de capitais) mais caros, por isso são evitados pelo governo, para não estourar as bolha que eles criam
  • wylhiam  09/10/2013 15:42
    Num parâmetro de padrão ouro - Quando se aumenta a poupança, assume-se uma diminuição do consumo dos bens finais (comércio), ou seja, uma deflação nesses setores, como vestuário, restaurantes, cerveja, bem-estar, e há uma propensão a novos investimentos mais longe do consumo (tecnologia, telefones, máquinas e equipamentos, petróleo), relativamente a lucratividade dos bens de capital aumentarão e mais recursos serão destinados a estes setores.

    A oferta monetária apenas irá ajustar os preços. Com uma contínua expansão da mesma, cria-se falsos sinais de poupança para ocorrer esse trade-off aos empresários.

    Num parâmetro expansão monetária - Quando há expansão monetária, ocorre o mesmo sistema, há juros baixos, e dinheiro é injetado nos bens de capital, porém não houve poupança, foi uma expansão do crédito, recursos foram enviados para projetos de bens de capital, mas que não são a demanda real das famílias, elas preferem bens de consumo, mas, as taxas enviam falsos sinais ao mercado, aparentemente, bens de capitais serão demandados futuramente pelas famílias há uma abundância de bens de consumo (quando na realidade não há). A inflação está controlada, os níveis de preços estará estável e os bens de capital estão inflacionados, cria-se uma bolha, por que os níveis de inflação estão estáveis, mas por que os preços dos bens de capitais não são computados nos índices inflacionários, ou seja, há uma inflação dos bens de capitais, que não aparecem nos índices de inflação em relação aos bens de consumo (Há uma poupança forçada). Mas todos os preços aumentam por que há mais dinheiro no mercado. Sempre há o trade-off entre diminuição de preços de bens de consumo e bens de capital mesmo com uma inflação monetária. Quando isso ocorre, falsos sinais de que produtos mais longe do consumo são as necessidades das famílias quando não são. Logo, cria-se uma falta de produção do que realmente precisa-se de demanda e o dinheiro das empresas de bens de capital começam-se a ser direcionados aos bens de consumo, há o estouro da bolha, empresas que aparentemente pareciam lucrativas, não são, a inflação começa a ser sentida pela população e há uma deflação nos setores de bens de capital, porém, os preços sempre estão aumentando, por que há mais moeda no mercado. O governo não gosta de reduzir juros, por que destrói moeda e torna os projetos de longo prazo (bens de capitais) mais caros, por isso são evitados pelo governo, para não estourar as bolha que eles criam
  • wylhiam  09/10/2013 17:06
    NÃO DEU MT PRA ENTENDER OS PARÂMETROS ECONÔMICOS SOBRE A EXPANSÃO MONETÁRIA, PORTANTO, RE-ESCREVI PARA O ENTENDIMENTO


    Quando há expansão monetária, ocorre o mesmo sistema de quando há redução dos preços em relação à estrutura de capital, porém, de forma insustentável, há juros baixos, ou seja, dinheiro barato que envia sinais para os empreendedores (pessoas não estão querendo consumir produtos de bens e consumo, elas tem um poder de compra maior e estão dispostas a consumir bens de ordem superior como, tecnologia, telefones, máquinas e equipamentos, petróleo).
    Esse sinal enviado na realidade é falso, as famílias não estão tão dispostas assim a abdicar parte do consumo de bens finais para consumir produtos de ordem superior. O dinheiro barato faz com que tais produtos sejam produzidos. Esse sistema pode só ocorrer pelo fato que os bancos, induzidos pelo governo tomam o direito de diluir o poder de compra da população (poupança forçada) para fabricar e exportar produtos de ordem superior. Não houve poupança isso, significa que a classe trabalhadora tem perder riqueza, para os grupos exportadores ganharem riqueza (má distribuição de renda).
    O aumento da oferta monetária não será notável nos bens de consumo, a economia terá uma inflação controlada. O dinheiro "novo" criado será usado para criar bolhas nos setores de ordem superior. Ou seja, há uma redução dos bens de consumo em relação aos bens de capital. Por mais que os preços dos bens de consumo estejam estáveis (inflação controlada), os bens de capital estão superinflacionados. Sempre há o trade-off entre diminuição de preços de bens de consumo e bens de ordem superior mesmo com uma inflação monetária.
    Quando a inflação dos bens de consumo começa-se a aparecer, o governo precisa tomar medidas para não deteriorar todo o poder da moeda, automaticamente ele tem que aumentar os juros para conter os gastos com bens de ordem superior e enviar sinais aos empreendedores que precisam parar de produzir bens de ordem superior para atender as demandas internas de bens de consumo. Geralmente, as taxas de juros são elevadas a níveis superiores do que seriam se suas taxas fossem determinadas naturalmente. Agora, a necessidade de bens de consumo é extremamente importante para atender as demandas internas e ligeiramente os recursos de capitais e humanos deixam de lado a produção de ordem superior para atender as necessidades internas.
    Quando isso acontece, gera-se uma grande perca no valor dos ativos de bens de ordem superior, que primeiramente atinge o mercado de capitais, que é ligeiramente mais líquido que as empresas em si para serem alocadas nos setores demandados pela economia. Há o estouro da bolha, em que tais ativos perdem dramaticamente seus valores.
    Há uma redução dos preços dos bens de ordem superior (deflação) em relação aos bens de consumo (inflação).
    Os níveis de inflação podem ainda assim permanecer constantes (a uma taxa aceitável), porém, a realocação da estrutura produtiva é inevitável, e quanto antes a economia perceber essa necessidade (menos os bancos jogarem falsos sinais no mercado), o quanto antes a economia sairia da recessão.
  • Emerson Luis, um Psicologo  16/12/2013 15:53

    Se o Brasil tivesse adotado o padrão-ouro no Plano Real, hoje teríamos preços iguais ou menores do que em 1999 e haveria menos pobreza e miséria.

    * * *
  • Paulo  02/01/2014 21:03
    E as pessoas que devem?
    Elas são prejudicadas pela deflação?
    A deflação atrapalha o crédito e dificulta o pagamento de dívidas?
    Como que fica esta situação?
    Será que não seria ideal um "meio-termo" entre inflação e deflação?
  • Malthus  02/01/2014 21:14
    Se a deflação foi monetária -- isto é, redução da quantidade de dinheiro na economia --, então sim, os devedores se estrepam.

    Se a deflação for meramente queda de preços, então não, os devedores não são afetados -- afinal, este é o cenário predominante no setor tecnológico há quase 5 décadas, e não consta que tais empresas tenham vivenciado dificuldade com crédito.
  • Amarílio Adolfo da Silva de Souza  15/03/2015 15:09
    Inflação é o real problema.
  • Karlos Gomes  07/08/2016 18:50
    DEFLAÇÃO É SEMPRE BOA PARA A ECONOMIA

    Para a maioria dos especialistas, a deflação, que eles definem como uma queda geral de preços dos bens e serviços, é uma má notícia, uma vez que gera expectativas de novas quedas dos preços.
    Como resultado, a deflação detém os consumidores que postergam suas compras de bens no presente e esperam comprar esses bens a preços menores no futuro. Isso enfraquece o fluxo global de despesas e, por sua vez, enfraquece a economia.
    Assim, tais especialistas sustentam que as políticas que combatem a deflação também irão combater a recessão.
    Se a deflação leva a uma contração econômica, então as políticas que revertam a deflação devem ser boas para a economia.
    Reverter a deflação implicaria a introdução de políticas que apóiam os aumentos gerais dos preços dos bens, ou seja, inflação. Isso significa que a inflação poderia realmente ser um agente do crescimento econômico.
    De acordo com a maioria dos especialistas, um pouco de inflação pode realmente ser uma coisa boa. Na visão deles uma inflação de 2% não é prejudicial para o crescimento econômico, mas 10% de inflação poderia ser ruim. (De fato, a meta de inflação do FED – o banco central americano - é de 2%.)
    Assim, nós podemos concluir que a uma taxa de inflação de 10%, é provável que os consumidores formarão expectativas de aumento da inflação.
    Segundo o pensamento popular, em resposta a uma elevada taxa de inflação, os consumidores irão acelerar seus gastos com bens no presente, o que deve impulsionar o crescimento econômico.
    Então, por que uma taxa de inflação de 10% ou mais é considerada por especialistas como sendo uma coisa ruim?
    Claramente há um problema com as definições populares de inflação e deflação.
    Inflação não é essencialmente um aumento de preços
    A inflação não é aumento geral dos preços em si, mas um aumento na oferta de moeda. Como regra, o aumento na oferta de moeda leva a um movimento de aumento geral dos preços. Esse, no entanto, não é sempre o caso.
    O preço de um bem é a quantidade de dinheiro pedida por uma unidade ele. Para uma quantidade constante de dinheiro e uma quantidade crescente de bens, os preços realmente irão cair.
    Os preços também irão cair quando a taxa de aumento da oferta de bens excede a taxa de aumento da oferta de moeda. Por exemplo, se a oferta de moeda aumenta em 5% e a quantidade de bens aumenta em 10%, os preços cairão 5%, ceteris paribus.
    Uma queda nos preços nesse exemplo não pode esconder o fato de que temos uma inflação de 5% por conta do aumento na oferta de dinheiro.
    Aumento de preços não são o problema da inflação
    A razão pela qual a inflação é ruim não é por causa dos aumentos de preços, em si, mas por causa dos danos que a inflação inflige ao processo de formação de riqueza. Aqui está o porquê.
    O papel principal do dinheiro é cumprir a função de meio de troca. Dinheiro nos permite trocar algo que nós temos por algo que nós queremos.
    Antes de uma troca acontecer, um indivíduo deve ter algo útil que ele possa trocar por dinheiro. Uma vez que ele obtém o dinheiro, ele pode, então, trocá-lo por um bem ou bens que ele quiser. Observe que por meio do dinheiro nós temos uma troca de alguma coisa por algo.
    Mas agora considere uma situação em que o dinheiro é criado a partir do "ar" - isso é precisamente o que o falsificador faz. Esse tipo de dinheiro define a troca de nada por algo. O falsificador troca o dinheiro impresso bens sem produzir nada de útil.
    O falsificador leva um conjunto de bens reais sem fazer qualquer contribuição por eles.
    O efeito econômico do dinheiro que foi criado a partir do nada é exatamente o mesmo que o do dinheiro falso – isso empobrece os geradores de riqueza.
    O dinheiro criado a partir do nada desvia riqueza real para os detentores de dinheiro novo. Como resultado, menos riqueza real é deixada para financiar atividades geradoras de riqueza.
    Isso, por sua vez, leva a um enfraquecimento do crescimento econômico. Lembre-se que apenas as atividades geradoras de riqueza podem gerar riqueza e, consequentemente, fazer uma economia crescer.
    Note que, como um resultado do aumento na oferta de dinheiro, temos mais dinheiro por unidade de bens, e, portanto, preços mais elevados. O que importa, no entanto, não é subida de preços em si, mas o aumento na oferta de dinheiro que leva a troca de nada por algo ou "o efeito falsificador".
    A troca de nada por alguma coisa, como nós vimos, enfraquece o processo de formação de riqueza real. Portanto, qualquer coisa que promova o aumento na oferta de dinheiro só pode tornar as coisas muito piores. Assim, enquanto a inflação é um aumento na oferta de moeda, a deflação é uma queda na oferta de moeda.
    Vimos que os aumentos na oferta monetária, ou seja, a inflação, dá origem a várias atividades não produtivas, o que também podemos chamar de "atividades bolha".
    Políticas de dinheiro fácil desviam recursos para atividades não produtivas
    Pelo fato de essas atividades não poderem ficar de pé por si (elas requerem o desvio de riqueza dos geradores de riqueza), o aumento das atividades bolha, por conta do aumento na oferta de moeda, enfraquece a capacidade geradores de riqueza de gerar riqueza.
    Consequentemente, as políticas monetárias frouxas, destinadas a combater a queda dos preços (isto é, lutar contra a deflação), não fazem mais do que apoiar atividades não produtivas. Tais políticas podem produzir a ilusão de sucesso, desde que existam geradores de riqueza suficientes para financiar atividades não produtivas.
    Por exemplo, em uma empresa com 10 departamentos, dos quais 8 departamentos estão lucrando e os outros 2 estão dando prejuízos. Um CEO responsável irá fechar ou reestruturar os 2 departamentos que geram perdas. Não fazer isso irá desviar o financiamento dos geradores de riqueza para os departamentos deficitários, enfraquecendo assim os alicerces de toda a empresa. Sem a remoção, ou reestruturação, dos departamentos deficitários, há o risco de que toda a empresa poderia, eventualmente, ir à bancarrota.
    A partir desse simples exemplo, podemos deduzir que uma vez que a porcentagem de atividades geradoras de riqueza cai acentuadamente, não haverá riqueza suficiente para sustentar uma expansão da atividade econômica. A economia então cairá numa recessão prolongada. Sob essas condições, quanto mais o banco central tenta corrigir os sintomas, piores ficarão as coisas.
    Uma vez que, entretanto, as atividades não produtivas estão desimpedidas de ir à falência e as fontes de aumento na oferta de dinheiro são fechadas, pode-se esperar, em seguida, uma genuína expansão da riqueza real. Com a expansão da riqueza real para um estoque constante de dinheiro, teremos uma queda nos preços. Observe que se os preços caem por conta da liquidação das atividades não produtivas ou por conta de expansão da riqueza real, é sempre uma boa notícia. No primeiro caso, indica que mais financiamento está agora disponível para a geração de riqueza, enquanto que no segundo caso, mais riqueza está realmente sendo gerada.
    A maior ameaça para a economia, portanto, não é a deflação, mas as políticas destinadas a combatê-la.

    04/08/2016 - Frank Shostak - https://mises.org/blog/deflation-always-good-economy



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