O que está por trás da crise do mercado financeiro?

A crise financeira não acabou. E tampouco devoluções de dinheiro de impostos, taxas de juros mais baixas e taxas de câmbio maiores ou menores conseguirão reativar uma economia flagelada por dívidas monstruosas. Ao contrário: as medidas políticas que as autoridades americanas vêm implementando irão apenas prolongar a agonia. Todos devemos estar preparados para os desafios que uma baderna financeira e uma estagnação econômica irão gerar.

No início desse ano, o banco central americano decidiu gerenciar a crise das dívidas hipotecárias baseando-se na alegre crença de que alguns cortes agressivos na taxa básica de juros iriam "descongelar" o sistema bancário. Entretanto, datando do terceiro trimestre de 2008, as artérias do sistema financeiro ainda estão entupidas, e o colapso total está cada vez mais perto.

Os bancos e corretoras que ainda não quebraram têm sido mantidos vivos por transfusões monetárias de emergência feitas pelo banco central americano. O Fed já abandonou qualquer resquício de racionalidade econômica e passou a agir de modo puramente político. Sua diretoria assumiu abertamente o objetivo de conduzir todo o sistema financeiro, pensando que assim irá livrá-lo da bagunça - pelo menos até o fim do ano, não importa o quão alto os custos estarão dali pra frente.

O banco central americano adotou uma tática financeira equivalente à estratégia militar da 'terra arrasada' [que é quando se queima uma área com o intuito de não deixar recursos de sobrevivência para o inimigo invasor]. A filosofia econômica do atual presidente do Fed, Ben Bernanke, pode ser resumida no slogan "Depressões são inadmissíveis sob meu comando!". Ele parece o líder militar que teimosamente declara que "Derrotas são inadmissíveis sob meu comando!" ao mesmo tempo em que as chances de vitória vão se esvaindo e a derrota não mais pode ser negada.

O atual desastre econômico é o resultado de uma combinação de negligência, excesso de confiança e uma teoria econômica desastrosa. Durante décadas, as políticas fiscais e monetárias foram praticadas baseando-se na ilusão do "não importa". Primeiro veio a ilusão de que "déficits não importam". Depois, a política do "não importa" se estendeu para a criação monetária, para a expansão do crédito, para a bolha da bolsa de valores e para o boom imobiliário. Agora, já estão dizendo que a compra que o banco central está fazendo de títulos podres, com o intuito de amparar bancos e corretoras, também não importa.

Como subproduto dessa negligente política monetária e econômica, os operadores do mercado financeiro também perderam a cabeça. Confiando em seus chefes de torcida (o governo), os investidores irão se segurar em suas fossas até perderem o último fio de suas camisas. A debilidade econômica já está se espalhando pelo globo. Não há qualquer sinal de crescimento econômico à vista. Entretanto, muitos investidores mantêm suas posições, pois já ficaram condicionados a acreditar que o governo irá sempre salvá-los.

A atual crise financeira não é de natureza cíclica. A baderna financeira é o sintoma de desequilíbrios estruturais na economia real. Por décadas, políticas monetárias expansionistas andaram lado a lado com garantias implícitas e explícitas de socorros financeiros por parte do governo americano, e isso distorce todo o processo de alocação de capital. Sob tais depravadas condições, só vão lucrar mais aqueles que não possuírem qualquer vestígio de prudência. E esse é um jogo que pode perdurar por um bom tempo - até o momento em que a racionalidade se tornar sistêmica.

E o comportamento da comunidade investidora reflete a estrutura de incentivos que foi criada pelas autoridades. Os investidores aprenderam a dançar conforme o som emitido pelos sarapintados em posições influentes. Afinal, o participante individual do mercado podia ver como aqueles que haviam abandonado a prudência estavam ganhando dinheiro. Como conseqüência, as financeiras estenderam seu crédito além do usual e agora precisam sofrer uma desalavancagem. Contudo, o problema está é no desequilíbrio da economia real.

Na teoria austríaca dos ciclos econômicos, faz-se uma distinção entre a depressão "primária" e a depressão "secundária". A depressão secundária é aquela que chama atenção: a desordem nos mercados financeiros. Entretanto, a causa fundamental desta é a distorção da estrutura do capital da economia - que é a depressão primária.

O fato é que a economia americana está sobrecarregada por uma estrutura de capital altamente desequilibrada, conseqüência de uma enorme discrepância entre consumo e produção. E essa discrepância, por sua vez, é resultado da política monetária. Uma balança comercial persistentemente deficitária é o sintoma dessa discrepância. Isso significa que taxas de juros menores e incentivos do governo voltados para estimular o consumo irão funcionar como um verdadeiro veneno para a economia americana. Ao invés de mais consumo, são necessários menos consumo, mais poupança e menos importações.

A atual crise financeira significa que muitos devedores atingiram seu limite de endividamento e também que os credores estão diminuindo esse limite. De agora em diante, empresas e consumidores, governos e investidores terão de trabalhar sob as restrições impostas por um teto de endividamento menor.

A política econômica da maneira como é atualmente praticada está numa encrenca: taxas de juros mais baixas podem ajudar temporariamente a aliviar a crise financeira, mas vão exacerbar os fundamentos que são a causa dessa crise financeira. Assim, um dólar mais fraco (conseqüência dos juros menores) tornaria as importações mais caras para os americanos, enquanto que um dólar mais forte (caso os juros aumentem) torna as importações mais baratas. Mas, ao passo que um dólar mais fraco ajudaria a expandir as exportações, um dólar mais forte impede que as exportações cresçam. Portanto, os EUA continuarão tendo altos déficits comerciais enquanto a economia não cair em uma recessão mais profunda.

Sem uma adaptação que leve a um aumento da poupança, a um decréscimo do consumo e a uma redução das importações, a economia americana prosseguirá seu curso tradicional, acumulando ainda mais dívida. Mas o limite para a expansão do endividamento já foi atingido. A crise financeira reduziu a disposição dos credores domésticos e estrangeiros em estender seus empréstimos.

Os credores estrangeiros já estão se preparando para reduzir, de maneira ainda mais drástica, suas posses de títulos da dívida americana. A encampação feita pelo governo das agências Fannie Mae e Freddie Mac salvou as autoridades monetárias da China, do Japão, da Rússia e de outros países que possuíam títulos dessas agências. Como resultado da socialização dessas empresas apadrinhadas pelo governo, o Tesouro abriu uma janela de oportunidade para que esses países se desfizessem de seus ativos americanos a preços subsidiados, tudo sendo pago pelo contribuinte americano.

Uma profunda reestruturação do capital global se tornou inevitável. Tal processo é bem diferente de uma recessão no sentido tradicional. Contrariamente a uma recessão profunda, porém de vida curta, quando, após seu término, os negócios usuais e a rotina continuam normalmente, a reestruturação de uma economia cuja estrutura do capital está completamente distorcida irá levar um bom tempo. O reequilíbrio da estrutura do capital de uma economia requer um trabalho de empreendedorismo duradouro, gradativo e específico. E isso só pode ser realizado sob a orientação daquele processo de descoberta típico de um ambiente concorrencial, processo esse que é inerente ao funcionamento do sistema de preços em um mercado desobstruído.

Políticas monetárias e fiscais anti-cíclicas não são de qualquer ajuda quando se considera a labuta diária dos negócios e seu trabalho em direção ao restabelecimento de uma estrutura equilibrada do capital. O chamado multiplicador da renda não vai funcionar, bem como taxas de juros menores não irão estimular o gasto. Ao contrário: essas medidas políticas somente irão tornar a tarefa do empreendedor ainda mais difícil.

As dificuldades à frente surgem do fato de que os negócios comuns não podem seguir adiante sob um ambiente de contração de crédito, que tem suas raízes nas distorções da estrutura do capital da economia. Assim, mesmo que toda a baderna do mercado financeiro seja resolvida, não haverá uma simples ressurreição do velho jeito de se fazer negócios. A crença de que após o término da crise financeira a economia real irá ressurgir incólume é provavelmente o maior erro que muitos investidores compartilham com as autoridades políticas.

Como resultado dos socorros financeiros e da nacionalização das agências de hipoteca, o sistema financeiro está hoje totalmente infectado de risco moral. Os efeitos desastrosos dessas intervenções governamentais irão aparecer logo. A grande tarefa de colocar em ordem a estrutura do capital ainda não começou e, por isso, ainda haverá muito mais dor à frente.

Enquanto os governos e os bancos centrais continuarem concentrados nos sintomas monetários da "depressão secundária" e continuarem ignorando os aspectos estruturais da "depressão primária", estarão agindo como meros curandeiros charlatães. Ignorantes das lições da Escola Austríaca, as autoridades provavelmente irão continuar com suas desastrosas políticas.

 

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SOBRE O AUTOR

Antony Mueller
é doutor pela Universidade de Erlangen-Nuremberg, Alemanha (FAU) e, desde 2008, professor de economia na Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde ele atua também no Centro de Economia Aplicada. Antony Mueller é fundador do The Continental Economics Institute (CEI) e mantém em português os blogs Economia Nova e Sociologia econômica





OFF-TOPPIC: pessoal do IMB, seria possível vocês redigirem um artigo refutando as teorias conspiratórias sobre o Nióbio que abundam desde a época do Enéias? Quinta-feira o Instituto Liberal reiniciou o debate, e seria ótimo se vocês dessem continuidade. Eis o que comentei no website do IL, é o que resumidamente penso do assunto:

"Se há indícios concretos ou, ao menos, motivos para crer que as empresas autorizadas pelo Estado brasileiro a retirarem do solo e comercializarem este metal estão cometendo fraudes de qualquer natureza, em conluio com grupos estrangeiros ou não, a solução é, em se confirmando as irregularidades, rescindir os contratos de permissão em vigor e abrir este mercado para mais empresas interessadas no empreendimento - seja lá de onde elas forem. A que oferecer a melhor barganha leva as jazidas - e paga impostos sobre tudo o que produzir. Elevar o preço na marra? Claro, abusar desta condição de quase monopolista pode funcionar no começo, mas no médio prazo surgirão alternativas de melhor custo-benefício para atender a demanda daqueles insatisfeitos com a situação. Deixar de vender o Nióbio como comodittie e agregar valor ao mineral em nossa indústria da transformação? Seria ótimo, se nosso parque industrial não estivesse parado no tempo desde meados do século passado. Só falta criarem a estatal NIOBRÁS no Brasil, que dará origem ao escândalo do NIOBRÃO. O brasileiro não aprende mesmo: sempre achando que vai encontrar um bilhete premiado no chão e poderá passar o resto da vida bebendo e sambando."
"Tal afirmação nunca foi feita. Em ponto nenhum do artigo. E nem em nenhum outro artigo"

Não me refiro à uma frase ou texto escrito nos artigos do IMB. Estou questionando a percepção daqueles que defendem esse modelo de afrouxamento da terceirização proposto pelo governo, pois essa discussão toda é parte da realidade em que estamos vivenciando. Aliás, não creio que esse artigo seja uma mera exposição teórico-dissertativa acerca do que seria e quais os benefícios de uma terceirização segundo os liberais, muito menos um texto desvinculado da conjectura atual, como você transparece para quem lê. Logo, minha indagação é pertinente, ainda que, o que questiono, não esteja explicitamente escrito no artigo.

Em relação ao artigo linkado, em momento algum vi algo a mostra que abordasse diretamente o problema terceirização-corporativismo privado que eu levantei acima. O que mais se aproxima seria esse trecho:
"Em primeiro lugar, a ideia de que custos menores para empresas é algo ruim. Além do fato de que custos baixos permitem maior acúmulo de capital — o que possibilita mais investimentos e mais contratações —, falta explicar como que custos de contratação menores podem ser ruins para pessoas à procura de emprego."
Sim, não há problema algum em um empresário tentar reduzir seus custos para se adequar a concorrência e auferir maiores lucros. O entrave se encontra, como eu falei, no empresário monopolista que não possui um fator invísivel para motivá-lo à otimizar sua produção. A mão visível do Estado garante que seu produto inevitavelmente será consumido e, com isso, seu lucro será certeiro. Por conseguinte, não há a preocupação constante deste em inovar, melhorar a qualidade, aumentar a produtividade da sua mão de obra. Nesse sentido, a terceirização beneficia esse empresário, justamente por rebaixar seus custos com contratados (temporários ou não) à niveis abaixos daquilo que os empregados produzem, sabendo se que eles estão confortáveis em relação aos processos trabalhistas que enfrentarão (ajudinha estatal). Bem como, estagna ou retarda as inovações, tendo em vista que sua produção atual será adquirida pelos consumidores à um preço "monopolístico" durante um tempo maior que o de uma concorrência que existiria num livre mercado. Ademais, seu produto foi feito empregando mão-de-obra com um ônus muito abaixo daquilo que ela de fato produz. Desse modo, a margem de lucro é gigantesca, sendo que esse lucro pode sim ser revertido em capital para futuras melhoras, o que, na minha opinião, não aflinge ou preocupa de modo algum uma empresa monopolista, pois esta pode facilmente pegar crédito subsidiado de bancos estatais, ou ser empreendido em outros investimentos pessoais e, na minha percepção, fúteis e de pouco potencial de gerar valor no futuro.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Emerson Luis, um Psicologo  15/12/2013 09:28

    Os governantes obcecam-se em combater os sintomas e deixam os problemas fundamentais e crônicos sem tratamento devido e piorando.

    * * *
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  14/03/2015 15:55
    Chega das "bondades" dos governos. Queremos os MERCADOS LIVRES!


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