A hiperinflação mais negligenciada da história
por , domingo, 6 de julho de 2014

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Yugoslavia-–-500-billion-dinar-1994.jpgAo contrário do que afirma a maioria dos historiadores, a hiperinflação ocorrida na Alemanha no período 1922-23, na qual a taxa mensal de inflação de preços chegou a um pico de 29.500% no mês de outubro de 1923, não foi a mais alta da história. 

A maior taxa de hiperinflação mensal da história foi registrada na Hungria, em julho de 1946, e foi 12 ordens de magnitude maior do que esta apresentada pela República de Weimar: 41.900.000.000.000.000% (quase 42 quatrilhões por cento).  Para se ter uma ideia mais exata, isso representa uma taxa de inflação diária de 207%, o que significa que os preços dobravam a cada 15 horas.

Como sempre ocorre com vários dados econômicos e financeiros, esse histórico húngaro simplesmente foi relegado àquilo que George Orwell chamou de "buraco da memória".

O que nos remete a um outro caso de hiperinflação que também foi muito mais virulento do que o sempre citado episódio de Weimar, mas que infelizmente já foi quase que completamente esquecido.  Tal episódio ocorreu na Iugoslávia durante a década de 1990 e simplesmente não ficou registrado na consciência do público.  Na condição de conselheiro do vice-presidente da Iugoslávia Živko Pregl, de 1990 a junho de 1991, eu havia alertado sobre a iminência deste fenômeno.  E foi sem nenhuma surpresa que registrei os eventos decorrentes.

Como tudo ocorreu?  De 1971 a 1991, a taxa média de inflação anual da Iugoslávia foi de 76%.  Durante este mesmo período, apenas Zaire, Argentina e Brasil superaram esta pavorosa marca.  Mas as coisas pioraram — e muito.  No dia 7 de janeiro de 1991, o governo federal do primeiro-ministro Ante Markovic descobriu que o parlamento sérvio, sob o controle de Slobodan Milosevic, havia secretamente ordenado ao Banco Nacional Sérvio (um banco central regional) que emitisse dinares equivalentes a US$1,4 bilhão para financiar os amigos de Milosevic.

Esta pilhagem ilegal equivalia a mais da metade de todo o dinheiro que o Banco Nacional da Iugoslávia pretendia criar em 1991.  Este golpe sabotou os já hesitantes planos de reforma econômica do governo Markovic, e solidificou a determinação dos líderes da Croácia e da Eslovênia de se separar da República Federal Socialista da Iugoslávia.

Sem os croatas e os eslovenos para espoliar, Milosevic recorreu diretamente à impressora do banco central.  E com fúria.  Começando em janeiro de 1992, o que restou da Iugoslávia sofreu a segunda maior e a segunda mais longa hiperinflação da história mundial.

A inflação de preços chegou ao ápice em janeiro de 1994, quando a taxa mensal de inflação foi de 313 milhões por cento — quatro ordens de magnitude maior que a hiperinflação de Weimar, mas bem abaixo do recorde húngaro.  Uma inflação de preços desta magnitude representa uma taxa diária de 64,6%, o que significa que os preços dobravam a cada 34 horas. 

A hiperinflação iugoslava durou 24 meses, apenas dois meses mais curta do que a hiperinflação soviética do início da década de 1920.

Os resultados foram devastadores.  Muito antes da OTAN bombardear a Iugoslávia em 1999, a insensatez monetária de Milosevic já havia destruído a economia.  Arruíne uma economia e então comece uma guerra: um antiquíssimo truque de preservação do poder.

Durante o período de 24 meses de hiperinflação, a renda per capita da população despencou mais de 50%.  Os cidadãos comuns foram forçados a utilizar e exaurir toda a poupança que mantinham em outras moedas mais fortes.  Tendo exaurido essa poupança, as pessoas não mais conseguiam comprar comida no mercado negro (no caso, o livre mercado).  Para não morrerem de fome, elas se alinhavam em enormes filas à porta de mercearias estatais à espera de rações de baixa qualidade que eram ofertadas irregularmente.  Os mais sortudos recorriam a alguns parentes que viviam no interior do país.

Todos os postos de gasolina de Belgrado ficaram fechados por um longo tempo, com a exceção de um único posto que atendia exclusivamente estrangeiros e funcionários das embaixadas.  A população acabou sendo obrigado a, diariamente, gastar uma enorme quantidade de tempo no mercado negro de câmbio, que era a única maneira de conseguir alguma moeda forte com a qual comprar alimentos no mercado paralelo.  Era comum trocaram enormes pilhas de dinares praticamente inúteis por uma única cédula de marco alemão ou dólar americano.

Naquilo que se tornou um procedimento padrão de chefes de estado belicosos e sob pressão, Milosevic afirmou que os iugoslavos estavam sendo vítimas de influências externas.  Sua tese era a de que a hiperinflação e as subsequentes privações haviam sido causadas pelos embargos impostos pelas Nações Unidas em maio de 1992 e abril de 1993.

Na realidade, a máquina de criar dinheiro de Milosevic foi colocada em rotação máxima para financiar sua máquina de guerra e sua limpeza étnica.  Mais de 80% do orçamento da Iugoslávia era destinado às forças armadas e à polícia.  Em dezembro de 1993, quase 95% de todos os gastos do governo eram financiados diretamente pela simples impressão de dinares.

A orgia monetária da Iugoslávia só foi interrompida porque a Casa da Moeda simplesmente não mais conseguiu acompanhar a demanda de Milosevic por mais dinheiro.  A hiperinflação estava transformando cédulas de 500 bilhões de dinares em meros trocados antes de a tinta das cédulas secar.  Felizmente, a capacidade produtiva da impressora se esgotou, e as autoridades não mais conseguiram manter o ritmo das impressões.

No dia 6 de janeiro de 1994, o dinar oficialmente entrou em colapso.  O governo então criou um pseudo-Currency Board tendo o marco alemão como moeda de reserva.  De início, o sistema funcionou.  A inflação caiu de 312 milhões por cento em janeiro para 2.143% em fevereiro e para -6,2% em março.  Porém, já no final de 1995, todas as brechas deste pseudo-Currency Board já estavam visíveis para todos, e a inflação voltou.  O dinar foi desvalorizado em 62,6% em novembro daquele ano e depois em 57,9% em abril de 1998.  E então o câmbio passou a flutuar.  Após a guerra do Kosovo e com a saída de Milosevic, e com a eleição de um novo presidente em 2000, as coisas se estabilizaram.

Para ilustrar esta horrenda história, nada mais eficaz do que observar as devastadoras desvalorizações que repetidamente dizimaram o dinar.  Entre 1º de janeiro de 1991 e 1º de abril de 1998, o dinar foi oficialmente desvalorizado 18 vezes.  Dentre essas 18 vezes, em três ocasiões a desvalorização excedeu 99,99%.  Ao todo, nada menos que 22 zeros foram cortados da unidade de conta.

Para se ter uma ideia do impacto sobre a população local, pense no atual valor da sua conta bancária e então desloque a vírgula 22 casas decimais para a esquerda.  Agora tente comprar algo com esse valor.


Steve Hanke é professor de Economia Aplicada e co-diretor do Institute for Applied Economics, Global Health, and the Study of Business Enterprise da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, EUA.  O Professor Hanke também é membro sênior do Cato Institute em Washington, D.C.; professor eminente da Universitas Pelita Harapan em Jacarta, Indonésia; conselheiro sênior do Instituto Internacional de Pesquisa Monetária da Universidade da China, em Pequim; conselheiro especial do Center for Financial Stability, de Nova York; membro do Comitê Consultivo Internacional do Banco Central do Kuwait; membro do Conselho Consultivo Financeiro dos Emirados Árabes Unidos; e articulista da Revista Globe Asia.



57 comentários
57 comentários
Lopes 08/05/2013 13:45:49

Recordações como essas nos servem de evidência da antiga máxima rothbardiana:

"O bem que o estado é capaz de causar é limitado, porém o mal é infinito."

Que tais lembranças permaneçam a servir-nos como evidência do quão é perigoso delegar o meio intermediário de trocas(E por conseguinte, toda a estrutura comercial de uma nação) à uma instituição que independente de seus movimentos junto a tal bem, submeter-nos-á à humilde posição de aceitar seus abusos para com nossas poupanças e esforços.

Serve-nos como mais um dos inúmeros argumentos que favorecem a existência de uma moeda privada, independendo de qual seja.

Responder
Lord Keynes! 08/05/2013 14:21:27

A demanda agregada foi estimulada!

Responder
Lord Krugman 08/05/2013 14:42:03

Garanto que houve pleno emprego e PIB altíssimo.

Infelizmente, as escolas tradicionalistas preferem que sentemos e esperemos o mercado se equilibrar após um choque de entesouramento.

Responder
Juliano 08/05/2013 17:00:13

Até me surpreende como alguém calcula um número desses. Minha impressão é que, a partir de um determinado nível, simplesmente não existe moeda local. As pessoas param de negociar em moeda local e partem para o escambo ou alguma moeda estrangeira, mesmo que de forma ilegal.

Responder
Rafael Franca 08/05/2013 18:39:06

Concordo que não existe mais medida, mas tributos, impostos, taxas são pagas na moeda destruída. Funcionários públicos também. Isso deve manter uma base da montanha necessária de dinheiro para que se compre um ovo.

Responder
Juliano 08/05/2013 19:08:27

Até seria interessante ver como isso funcionaria. Em um ambiente com inflação na faixa dos 200% AO DIA, não há santo que faça alguém trabalhar em troca dessa moeda. O próprio governo começa a ter dificuldades de conseguir fornecedores e funcionários.

A inflação que o Brasil experimentou já era um absurdo, mas a faixa dos 80% ao mês ainda permitia alguns truques, como receber por semana e reajustes frequentes.

Responder
mauricio barbosa 08/05/2013 17:06:21

E os críticos de plantão do IMB vão dizer que a culpa é do imperialismo?

Responder
Thyago 08/05/2013 17:27:13

Boa, Lord Keynes, kkk

Quanta sapiência em uma só frase...

Responder
anônimo 08/05/2013 17:37:18

interessante como o inflacionismo acompanha a tendencia à atrocidades, tanto no nivel de moralidade pessoal qto no nivel nacional

os bancos centrais causam tragédias humanitarias...

medo do FMI.... pavor da ONU

Responder
Deilton 08/05/2013 18:00:06

Não podia deixar de postar aqui no mises essa pérola:

"A necessidade de normatização e regulação da atividade econômica não contradiz com a economia de mercado, pois a saúde do livre mercado depende da ação estatal."

Leia mais: jus.com.br/revista/texto/14926/a-desregulacao-dos-mercados-financeiros-e-a-crise-global#ixzz2Sj1H0ioR

Pior é que um dia eu já acreditei nisso!

Responder
Marcio 08/05/2013 18:13:47

É o fim dos tempos, e quando surgem as consequências dessa ação estatal, o que fazem?

Pedem mais ação estatal ainda.

Responder
EUDES 08/05/2013 22:33:33

Acho que o Instituto Mises deve fazer um trabalho especial com advogados, promotores, juízes, professores e políticos.

Responder
Mestre Madeira 08/05/2013 18:00:31

Viva o socialismo!

Responder
Camarada Friedman 08/05/2013 18:32:58

Existe algum estudo sobre essa estranha relação entre monopólio de emissão de moedas e guerra ?

Não sei pq mas não consigo imaginar o imperialismo americano sem o FED depois de ler esse artigo.

Alguém pode dar uma ajuda ?

Responder
Thales 08/05/2013 18:37:15

"Não é coincidência que o século das guerras coincida com o século do banco central. Quando os governos tinham que financiar suas próprias guerras sem depender de uma máquina de imprimir papel-moeda, eram obrigados a economizar recursos. Encontravam soluções diplomáticas para evitar a guerra e, depois de iniciada, tentavam encerrar o conflito tão logo fosse possível."

Ron Paul -- O Fim do Fed: Por que acabar com o Banco Central? (p. 81)

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1122

Responder
IRCR 08/05/2013 18:54:37

Com ou sem BC os governos podem ainda expandir o dinheiro desde que a moeda continue sendo um monopolio do estado. Talvez a unica forma de acabar com a inflação monetaria seria a desestatização da moeda - como diria Hayek.

Responder
Rhyan 08/05/2013 19:20:33

Ótimo artigo!

Mas fiquei com a impressão de que as contas no começo têm algum erro. Confere?

Responder
Leandro 08/05/2013 19:25:52

Erro nenhum. É espantoso, mas é isso mesmo.

Para quem se interessar, eis aqui a tabela que o Steve Hanke compilou documentando as maiores hiperinflações já registradas no mundo.

www.cato.org/sites/cato.org/files/pubs/pdf/WorkingPaper-8.pdf

Responder
Rhyan 08/05/2013 21:01:29

Que coisa, agora entendi!

Valeu!

Responder
Dalton C. Rocha 08/05/2013 19:27:47

Comunistas adoram fazer uma nação ser dividida em cotas, raças e etnias. União Soviética, Iugoslávia, Tchecoslováquia,etc. Já foram. Quando chegaraá a vez do Brasil?

Responder
Fabio MS 08/05/2013 20:39:03

"De 1971 a 1991, a taxa média de inflação anual da Iugoslávia foi de 76%. Durante este mesmo período, apenas Zaire, Argentina e Brasil superaram esta pavorosa marca. Mas as coisas pioraram — e muito."

O Brasil sempre na frente! Que orgulho! Mostramos para eles! Vai Brasil!

Responder
Um Filósofo 08/05/2013 21:44:41

O imperialismo teve papel crucial na deterioração desta nação. A diminuição nos fundos de serviços sociais advindos das sanções propostas pelas Nações Unidas(Sob o comando dos EUA) levaram a velha república socialista, ainda não tendo uma burguesia formada devido aos anos sob um regime planejado igualitário e por isso incapaz de oferecer serviços de saúde ou educação de forma privada, a oferecer serviços públicos essenciais à população através da impressão monetária.

Milosevic tivera sua fama denegrida por ter resistido ao imperialismo alemão que visava a privatização das riquezas nacionais e o endividamento da Iugoslávia às potências da UE. Assim como Chávez e Fidel, a mídia golpista mundial taxou-o de "tirano" e "assassino" por ter optado a desvalorização de sua moeda nacional em milhões(%) ao ano em detrimento da dependência do capital internacional.

O mesmo jamais teria ocorrido se a nação houvesse permanecido gloriosa na busca por um mundo melhor. O capitalismo financeiro é, acima do próprio Milosevic, culpado pela crise que destruiu a Iugoslávia.

Responder
Daniel Rigon 06/07/2014 14:09:47

Kkkkkkkkkkk
Ilária o comentário irônico! Até mesmo.porque um comentário desses não pode ser sério...

Responder
EUDES 08/05/2013 22:26:41

Uma coisa trágica! Porém, o riso vem naturalmente quando a gente lê os comentários irônicos e também se lembra das baboseiras que pululam no país.

Responder
Olegário Firmino 08/05/2013 22:34:48

Se inflacionar a moeda é tão ruim, como depois de dois ou três Quantitative Easing o dólar continua sendo a moeda mais robusta do mundo (a mais confiável) e o PIB do USA está sólido como sempre? Isto não é contraditório? Ou Keynes (Greenspan e Bernake) não estão tão errados quando recomendam estes remédios estatais para as democracias mais bem formadas? Será que a intervenção direta dos BCs não é mais passível de sucesso em democracias liberais e por isto funciona? (enquanto que não funciona em países anti-democráticos e de instituições mais frágeis?)

Responder
Leandro 08/05/2013 22:51:34

Porque o arranjo monetário mudou. Esse dinheiro impresso pelo Fed não vai direto para a economia, mas sim fica represado nos bancos. São os bancos que decidem se irão emprestá-lo ou não. O Fed, bem como todos os principais bancos centrais do mundo, não mais pode jogar dinheiro diretamente na economia.

Não haverá hiperinflação enquanto o sistema monetário mantiver sua atual configuração: quem injeta dinheiro na economia são os bancos e não o banco central.

Até a década de 1990, os bancos centrais europeus e sul-americanos podiam comprar títulos diretamente dos respectivos Tesouros, algo que hoje não pode mais.

O BC imprimia dinheiro, dava para o Tesouro e dali o dinheiro já entrava na economia. Hoje, o arranjo é diferente. Os BCs não podem mais financiar diretamente o Tesouro. Eles podem apenas comprar títulos do Tesouro que estão em posse dos bancos. Isso significa que o dinheiro só entra na economia se os bancos concederem empréstimo.

Qual a consequência daquele arranjo antigo? A inflação de preços ficava frequentemente acima dos 10% na Europa. Na America do Sul, era hiperinflação constante.

Até hoje, todos os fenômenos de hiperinflação que o mundo vivenciou ocorreram neste arranjo em que o Banco Central imprimia dinheiro e o injetava diretamente na economia, sem depender do sistema bancário. Alemanha na década de 1920, Hungria no pós-guerra, Brasil, Peru, Bolívia e Argentina na década de 1980, Zimbábue recentemente -- tudo obra de um Banco Central que podia monetizar diretamente a dívida do governo. (Argentina e Venezuela ainda trabalham com este arranjo, por isso suas inflações continuamente altas),


Já no atual arranjo financeiro, os bancos centrais podem apenas comprar títulos que estejam em posse do sistema bancário. Daí em diante, são os bancos que comandam o processo; são eles que decidem se o dinheiro será ou não injetado na economia. O BC não pode injetar dinheiro diretamente na economia.

É verdade que o atual arranjo financeiro e monetário produz inflação contínua, porém não creio que ele possa levar à hiperinflação, e por um motivo muito simples: não é do interesse dos bancos gerarem hiperinflação.

Imagine que você seja um banqueiro. Você fez vários empréstimos. Você espera que todos esses empréstimos sejam quitados. Mais ainda: você espera que esses empréstimos sejam quitados com uma moeda que tenha poder de compra. Sendo assim, torna-se óbvio que, se você produzir uma hiperinflação, o maior prejudicado será você próprio: todos os seus empréstimos serão quitados com uma moeda cujo poder de compra não vale mais nada. Quando você concedeu o empréstimo, a moeda valia alguma coisa; quando você recebeu o pagamento do empréstimo, a moeda não valia mais nada. Consequentemente, seus ativos (empréstimos pendentes) perderão a maior parte do seu valor, seu balancete irá para o vermelho e você quebrará.

Sendo assim, tão logo a inflação de preços começa a ficar alta, os próprios bancos são os primeiros a elevar os juros, pois eles não querem receber de volta seus empréstimos a um valor depreciado pela inflação. Essa elevação dos juros contém o apetite pela expansão do crédito.

Adicionalmente, há o fato de que banqueiros são seres humanos normais e, como tais, também querem se aposentar. Logo, eles também possuem investimentos em planos de previdência. Se gerarem uma hiperinflação, eles também serão duramente afetados. Sua poupança não mais valerá nada.

E, por fim, há o fato de que os bancos europeus estão com seus balancetes contaminados. E bancos com balancetes contaminados, por uma questão contábil, não expandem crédito. Antes, eles precisam se desfazer de seus ativos ruins. Depois, precisam levantar capital. E então, só então, podem voltar a emprestar. Neste processo -- levantar capitais e se desfazer de ativos ruins --, há uma deflação monetária na economia. (Explicada em detalhes neste artigo).

Portanto, ficamos assim: o antigo arranjo financeiro, em que o BC podia jogar dinheiro diretamente na economia, tendia a gerar hiperinflações recorrentes. Já o atual arranjo financeiro, em que o BC depende do sistema bancário para que o dinheiro entre na economia, não tende a produzir hiperinflação, mas produz uma contínua e "moderada" inflação de preços (no Brasil, entre 4 e 10% ao ano). Produz também os ciclos econômicos, algo que o primeiro arranjo não gerava (ele já ia diretamente para a hiperinflação, destruindo a divisão do trabalho).

Não, não haverá hiperinflação -- mas vale lembrar que, no Brasil, qualquer inflação acima de 5,5% ao ano já destroça sua poupança.

Responder
Leandro 08/05/2013 23:05:47

Adendo:

Para ilustrar isso que falei, eis o gráfico da evolução da concessão de crédito nos EUA. Está no mesmo nível do final de 2008. Saí a lentidão da economia americana e a baixa inflação de preços.

www.tradingeconomics.com/charts/united-states-loans-to-private-sector.png?s=unitedstaloatoprisec&d1=20020101&d2=20130531

Responder
Diego 09/05/2013 00:21:49

Muito interessante essa visão de que não teremos uma hiperinflação. Faz muito sentido. Entretanto, Peter Schiff, Bob Murphy e outros insistem que os EUA estão no caminho para uma hiperinflação. Você poderia comentar essa visão? Como você vê a inflação nos EUA?

Responder
Leandro 09/05/2013 00:31:41

Não haverá hiperinflação. A menos que o Fed seja estatizado e passe a servir exclusivamente aos desejos do Congresso. Aí sim.

Responder
Diego 09/05/2013 01:45:27

Sendo assim, então é muito difícil que ocorra um colapso total de uma moeda fiduciária e ela seja abandonada completamente, então? Dificilmente veremos um padrão ouro ou algum tipo de âncora para as moedas fiduciárias?

Responder
Leandro 09/05/2013 02:00:18

Colapso total é improvável. Mas a contínua deterioração do poder de compra da moeda, bem como a compreensão de que tal arranjo gera ciclos econômicos (que geram empobrecimento), pode sim forçar algumas mudanças neste sentido.

Responder
Martin 09/05/2013 04:41:11

Eu ouvi uma explicação (acho que foi do Peter Schiff) de que o dólar tem uma particularidade por ele ser utilizado como reserva em bancos centrais mundo afora. A impressão que eu tive era que bancos centrais guardam grandes quantias de papel-moeda americano em seus cofres. Isso faria com que o poder de compra do dólar se mantém alto. Mas se um dia houver um efeito avalanche e todos estes bancos simultaneamente tentam se livrar desses dólares, então seu poder de compra caia rapidamente e os Estados Unidos pode passar a sofrer por uma hiperinflacao. É correto isso? Acha que isso poderia acontecer?

Responder
Leandro 09/05/2013 10:22:50

Essa noção de que os bancos centrais mundo afora "guardam grandes quantias de papel-moeda americano em seus cofres" é muito difundida, mas é errônea. Os BCs não guardam papel-moeda em seus cofres; o que eles fazem é se apropriar de dígitos eletrônicos denominados em dólares (dígitos esses obtidos pelos exportadores de seus respectivos países) para em seguida aplicar esses dígitos em títulos do Tesouro americano.

Ou seja, aquilo que está nas reservas internacionais dos BCs nada mais é do que aplicações em títulos do Tesouro americano.

O grande temor atual é que o BC chinês, que possui bem mais de um trilhão de dólares em aplicações em títulos do Tesouro, saia vendendo todos esses títulos. Isso faria com que os preços desses títulos desabassem e, consequentemente, com que os juros deles disparassem, o que levaria o Tesouro americano a um total estado de insolvência, pois não mais conseguiria rolar suas dívidas.

Essa é a charada.

Responder
Juliano 09/05/2013 12:44:49

Mas, com uma eventual crise de confiança no Dolar, o movimento de venda não poderia gerar uma pressão inflacionária muito forte?

O ponto que o Peter Schiff coloca é que essa festa dos EUA de mandar papél pintado pra China (ou dígitos) e eles trocarem por mercadorias não pode durar pra sempre. Em algum momento o aumento na quantidade de dólares não começa a refletir na confiança na moeda? Essa perda de confiança não pode forçar uma migração para uma moeda mais forte, aumentando ainda mais a pressão sobre o dolar?

Responder
Leandro 09/05/2013 13:14:06

A teoria é correta, mas eu não visualizo este cenário.

O dólar, sendo a moeda internacional de troca, só será abandonado quando houver outra moeda igualmente abrangente, de igual aceitação universal, e percebida como mais estável. Há hoje alguma moeda com essas características?

A única moeda que atualmente teria condições de desafiar o dólar é o euro. E exatamente por isso os economistas anglo-saxões são tão implacáveis em seus ataques ao euro, chegando ao ridículo de realizar concursos para ver quem apresenta a melhor ideia de saída do euro.

Responder
patricio 06/07/2014 23:29:36

Isto só aconteceria com o dólar se houvesse uma espécie de corrida bancaria mundial. Porem isto não tem como acontecer, pra onde iria todo estes 'dígitos'? Comprar bananas? O euro é o principal candidato. Ma um movimento destes não acontece de uma hora para outra.

Caro Mestre Leandro,
será que no Brasil não vivemos um sistema como o da Venezuela e Argentina, com o BNDES e os bancos estatais injetando $$ direto na economia?

E para alguns, uma inflação de 6,5% aa é bem desconfortável. basta apenas 6 anos para a moeda perder metade do valor. Sem falar que a inflação sentida é bem maior que a medida. E o que falar do RJ, por exemplo, que a inflação medida beira os 10% (4 anos para moeda encolher 50%).

O controle de inflação deveria estar na constituição, talvez atrelado ao gasto público/Selic.


Responder
Leandro 06/07/2014 23:34:09

Bancos estatais sim, e foi explicado em detalhes neste artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1854

Já o BNDES o faz por vias indiretas: o Tesouro emite títulos, os bancos (estatais e privados) criam dinheiro para comprar estes títulos, e o Tesouro então repasse esse dinheiro para o BNDES.

Responder
Occam's Razor 08/05/2013 23:03:47

Mas e como fica a necessidade constante por parte do governo de financiar seus déficits? Os bancos não tem que seguir emprestando para o governo? Se o governo estiver guloso o suficiente e desejar juros baixos não poderia ser criada uma hiperinflação?

Responder
Leandro 08/05/2013 23:09:25

Há esse risco, mas banqueiros não são burros. Tão logo comece a haver indícios de inflação de preços em ascensão, eles próprios irão elevar os juros cobrados, resfriando o processo de tomada de crédito por parte de pessoas e empresas. No limite, as pessoas não mais estarão aptas a pegar nenhum empréstimo, só o estado. Para que esse arranjo gere hiperinflação, os déficits teriam de ser enormes, contínuos e duradouros.

Responder
Occam's Razor 09/05/2013 00:17:10

Entendo. Se paramos para refletir sobre isso, é inevitável perceber o enorme risco que bancos públicos representam. Scary

Responder
Henrique 09/05/2013 12:30:03

Leandro, então você não acredita nas previsões de Peter Schiff dizendo que haverá uma depressão maior que a de 1929 nos EUA?

obrigado

Responder
Leandro 09/05/2013 13:08:40

Em termos estatísticos, a recessão atual foi tão intensa quanto a Grande Depressão. Utilizando as mesmas mensurações usadas durante a Grande Depressão, o desemprego hoje é tão grande quanto naquela época.

www.shadowstats.com/alternate_data/unemployment-charts

No entanto, a "sensação" da profundidade da atual depressão foi muito mais branda. Óbvio: graças ao capitalismo e a toda a acumulação de riqueza ocorrida ao longo dos anos, os países (EUA e Europa) são hoje muito mais ricos do que naquela época. Como há mais capital acumulado, é mais fácil suportar momentos de penúria. Uma coisa é você ter privações na década de 1930; outra, bem diferente, é você ter privações hoje. Naquela época, privação significava você não ter o que comer. Hoje, privação significa você coletar seu seguro-desemprego e ver se consegue comprar um iPad com ele.

Ademais, hoje há mais riquezas para o governo confiscar e redistribuir. Essa é a diferença.

Mas o capital não é infinito, e se ele continuar sendo exaurido a uma velocidade maior do que é criado, nada impede que aquelas condições voltem (mas isso está muito longe de ocorrer).

Responder
Henrique 09/05/2013 15:32:01

Leandro, poderíamos dizer então que os austríacos estavam errados acerca da hiperinflação? Não foi apenas o Peter Schiff que fez esta previsão, mas vários outros economistas austríacos também.
E a respeito do "iminente colapso financeiro" que está prestes a surgir advogado por Peter Schiff e Jim Rogers?

obrigado

Responder
Leandro 09/05/2013 15:44:34

Isso fica a cargo de cada um. Estou apenas dizendo o que penso e explicando como vejo as coisas. Posso estar completamente errado. Não falo em nome de ninguém, apenas em meu próprio.

Quanto a um colapso financeiro e monetário, ele já houve. Desde a criação do Fed em 1913, por exemplo, o dólar já perdeu 99% do seu valor de compra. Desde a criação do real em 1994, ele já perdeu 82% do seu poder de compra.

Se isso não é colapso, então somos realmente muito felizes. E se essa tendência se mantiver por muito tempo -- algo que, como eu disse, é tecnicamente viável --, então não há nada a ser feito, apenas se resignar.

Responder
anônimo 10/05/2013 10:13:10

'Se isso não é colapso, então somos realmente muito felizes.'

Pelo que ele fala ainda vai ficar muito pior.Numa entrevista recente ele Jim Rogers disse que está esperando civil unrest nos EUA ainda nessa década

Responder
Eduardo 10/05/2013 03:23:06

Leandro, você explicou acima que essa crise de 2008 foi tão intensa, em termos estatísticos, quanto a da grande depressão. No entanto disse que a sensação foi mais branda, pois como o mundo é mais rico hoje, o governo também usufruiu disso, confiscou e redistribuiu. Se o governo ajudou a amortizar isso, não foi bom esse confisco??? Como penso que nem vocês mas não sou economista, confesso que fiquei confuso quanto a essa ingerência do estado. Pelo que você disse me pareceu boa...

Responder
Leandro 10/05/2013 04:09:56

Não, você interpretou errado. Mas a culpa certamente foi minha, que não expliquei com os detalhes que deveria. Parti do princípio de que tudo estava claramente subentendido. Vou tentar ser mais didático desta vez.

Em 1930, a economia americana era bem mais pobre que em 2008, certo?

Sendo assim, dado que em 1930 não havia a mesma quantidade de riquezas existentes em 2008 para ser confiscada, o governo teve de deixar que vários bancos e empresas quebrassem.

Não me entenda mal: tais bancos e empresas que quebraram de fato eram para ter quebrado. Eram empreendimentos que estavam sobredimensionados em decorrência da expansão monetária ocorrida na década de 1920 e que, com a chegada da recessão, tinham de ser liquidados. Não havia outra opção.

Só que tal recessão não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários, de modo que estes se adequassem à nova realidade (as quebras bancárias geraram um forte redução na oferta monetária). Porém, o governo fez exatamente o contrário: ele implementou políticas de controle de preços, controle de salários, aumento de tarifas de importação, aumento de impostos, aumento de gastos, aumento do déficit e estimulou uma arregimentação sindical de modo a impedir que as empresas baixassem seus preços.

Resultado: a recessão foi prolongada por 15 anos, e todas estas políticas afetaram severamente os desempregados. Os preços estavam artificialmente altos e não havia dinheiro.

Agora vamos para 2008.

O mesmíssimo fenômeno de falências ocorreu. Mas desta vez o governo tributou os prósperos e repassou o butim para os falidos. Aqueles que deveriam ter quebrado -- ou ao menos serem redimensionados -- foram socorridos com o dinheiro de impostos. Bancos, GM e Chrysler são os melhores exemplos.

Isso foi bom? Para os sindicatos e administradores destas empresas falidas, sem dúvida foi ótimo. Mantiveram seus salários e seus benefícios nababescos, não perderam nada e simplesmente empurraram a fatura para os agora desempregados dos outros setores. Seus erros não foram punidos; ao contrário, foram premiados. A GM, por exemplo, tinha de ter sido reestruturada e entregue aos seus credores. Seus acionistas deveriam ter pagado o pato. Mas, em vez disso, seus proventos seguiram intactos e eles não tiveram prejuízo nenhum. Graças aos pagadores de impostos (sendo que muitos destes agora estavam desempregados).

E, para acalmar estes desempregados que agora estavam compulsoriamente socorrendo bancos e montadoras, o governo passou a lhes dar generosos seguros-desempregos, financiados por aqueles que ainda tinham emprego e que não haviam recebido nenhum subsídio.

Portanto, eis a situação: quem fez lambança foi socorrido; quem não tinha nada a ver foi obrigado a socorrer os socorridos; e muitos foram demitidos e foram para o seguro-desemprego. Não morreram de fome, obviamente, mas ficaram na dependência estatal.

A consequência deste arranjo? Uma economia zumbi. Empresas ineficientes continuaram operando, agora protegidas pelo governo; desempregados não apenas continuam desempregados, como também estão se retirando da força de trabalho (daí as seguidas quedas na taxa de desemprego nos EUA; as pessoas estão simplesmente se retirando da força de trabalho, parando de procurar empregos, o que reduz a taxa de desemprego; veja o gráfico deste artigo); e, no final, os que continuaram trabalhando tiveram de sustentar isso tudo.

A destruição de capital que tal arranjo gera é incalculável. E é essa destruição que impede uma recuperação mais robusta e decisiva da economia americana. Não há incentivos, não há capital e não há demanda para se ampliar investimentos.

A título de comparação, veja o que foi feito na recessão de 1981-82, e entenda por que naquela houve uma recuperação rápida e robusta (e com juros de 20%!), e nesta há apenas pasmaceira.

Abraço!

Responder
patricio 06/07/2014 23:57:55

Leandro,
pelo que vc relata o EUA vai ficar neste chove não molha durante um bom tempo? Vai ser tipo, a década de 90 da economia japonesa? E todo o $$ bombeado pelo FED indo para Bolsa.


Responder
Andre Cavalcante 09/05/2013 13:41:44

Leandro,

Algumas dúvidas: como é possível haver uma inflação diferente em lugares diferentes de um mesmo país?

Ontem saiu a pesquisa e a inflação de Belém foi +9,0% a.a. Ora, penso que está havendo um repasse de dinheiro grande para Belém, de alguma forma, mas que esse dinheiro extra não está se transformando em bens e serviços, mas em inflação. Esta correto esse pensamento?

Neste caso, o governo estaria injetando diretamente dinheiro no Pará? Então poderíamos usar esta medida (a diferença de inflação de preços pelos estados) como um índice mais ou menos confiável da transferência de renda em nível nacional?

Abraços

Responder
Leandro 09/05/2013 14:02:01

Há vários fatores. Um essencial é a oferta e a concorrência. São Paulo é frequentemente a cidade que apresenta as menores variações na taxa de inflação de preços (principalmente em termos de INPC), justamente por ser a cidade em que há maior oferta e maior concorrência entre os ofertantes.

Já aquelas cidades que estão longe dos pólos industriais e que têm mais problemas de infraestrutura tendem a sofrer mais. A concorrência e oferta são mais reduzidas, pois a logística para se transportar bens para lá é mais complicada.

Exatamente por isso não creio que poderíamos usar esta medida (a diferença de inflação de preços pelos estados) como um índice mais ou menos confiável da transferência de renda em nível nacional.

Abraço!

Responder
Rodnei Cardozo Moreira 06/07/2014 13:06:54

O Pará ainda possui seu banco estatal (o BANPARÁ).
Haveria alguma relação?

Responder
Carlos 06/07/2014 15:47:53

É possível...

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1854

Responder
Emerson Luis, um Psicologo 06/07/2014 14:56:53


Os governantes brincam com o fogo da expansão monetária e as populações se queimam com a inflação.

* * *

Responder
Daniel Ribeiro 06/07/2014 15:19:49

O Bitcoin existe exatamente para resolver este tipo de problema...

Responder
Bitcoin 07/07/2014 10:00:29

Isso é o que todos esperam. Tomara que sim.

Responder
Vinicius 06/07/2014 17:46:53

Só um detalhe: inflação de 200% significa que os preços triplicam. Os preços duplicam se as coisas aumentam 100%, aí temos 200% do preço original. Se aumentam 200% temos que o produto custa agora 300% do que custava, ou seja, três vezes mais.

Responder

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