Bom para alguns, ruim para todos
por , quarta-feira, 5 de setembro de 2012

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Este artigo foi publicado no jornal O Estado de São Paulo. Aqui está a sua versão original, sem cortes.

100572,362,80,0,0,362,271,0,0,0,0.jpgA política de redução do spread bancário e de aumento de crédito concedido pelos bancos oficiais beneficia a alguns, sem dúvida. Em especial, àqueles devedores marginais, antes considerados não aptos a um financiamento e que, agora, veem seus sonhos de consumo serem realizados. A aquisição da casa própria, a reforma da cozinha ou o tão sonhado automóvel se tornam, finalmente, realidade.

Beneficiadas também são as empresas que fornecem esses produtos aos novos consumidores; as construtoras; as montadoras; provedores de materiais de construção; autopeças; enfim, toda a cadeia produtiva dos setores afetados pela maior demanda magicamente criada. Sob a batuta do regente ministro da Fazenda, a orquestra de bancos públicos toca a música, e o povo dança. Que insensível indivíduo se oporia a uma causa nobre: possibilitar o acesso dos cidadãos de menor renda a bens tão importantes? Não é uma política boa para todos? Infelizmente, receio que não.

Findo o primeiro semestre de 2012 e divulgados os balanços dos bancos brasileiros, a verdade é que os números não são nada confortantes. Refiro-me especialmente à Caixa Econômica Federal, banco do qual, contra minha livre e espontânea vontade, sou indiretamente acionista, assim como todos os pagadores de impostos brasileiros.

Na contramão dos bancos privados, a Caixa e o Banco do Brasil seguem expandindo suas carteiras de crédito a um ritmo inquietante. Nos últimos 12 meses, a Caixa expandiu sua carteira em incríveis 45%. E não foram somente os empréstimos da Caixa que se expandiram; sua alavancagem alcançou 28 vezes, a maior dos últimos dez anos e quase o triplo da média dos três maiores bancos privados.

Dos quase R$ 600 bilhões em ativos da Caixa, 30% correspondem a carteira de financiamentos imobiliários; há uma década, esse mesmo indicador estava em pouco mais de 10%. Enquanto seus ativos cresceram 4,6 vezes em dez anos, os créditos imobiliários aumentaram 12 vezes, chegando a R$ 177 bilhões em junho de 2012. Do total de crédito imobiliário no Sistema Financeiro Habitacional, a Caixa responde por mais de 75%; em 2001 esse índice era de 55%. Além disso, sua carteira de crédito tem proporcionalmente mais devedores enquadrados nas faixas de maior risco do que os bancos privados.

No entanto, e apesar de todos esses dados alarmantes, o governo insiste em afirmar que a Caixa tem solidez financeira, baixíssima inadimplência, ótima gestão e uma análise de crédito do mais alto nível, o que lhe permite conceder financiamentos a cidadãos que outros bancos simplesmente se recusam a atender. O governo frequentemente ressalta o fato de o índice de Basileia da Caixa, atualmente em 13%, estar acima do nível mínimo de enquadramento, de 11%. Não obstante, é o menor índice dentre os principais bancos brasileiros e vem caindo consistentemente nos últimos anos; em 2008 a Caixa apresentava um índice de Basileia acima de 20%.

Apesar de servir como um indicador de segurança das instituições financeiras, as regras de Basileia não são nenhuma garantia de solvência e liquidez. Basta lembrarmo-nos do banco americano Lehman Brothers, em 2008, e do banco franco-belga Dexia, em 2011; seguindo as regras de Basileia, ambos estavam plenamente capitalizados dias antes de colapsarem.

Ao carregar proporcionalmente mais ativos de longa maturação — créditos imobiliários — do que os demais bancos, a Caixa se expõe a outro importante risco: o de liquidez. Como o financiamento do crédito habitacional advém majoritariamente da poupança — um passivo de maturação curta, dada sua facilidade de conversão em depósito à vista —, o descasamento de prazos aumenta à medida que os empréstimos habitacionais têm sua duração alongada.

Diante desses fatos, teria a Caixa, então, encontrado uma fórmula mágica para — ao expandir o crédito, sua alavancagem e seu descasamento de prazos — aumentar somente sua rentabilidade sem aumentar seu risco?

Definitivamente, não. Em um banco público, expandir o crédito e reduzir os juros abaixo dos níveis de mercado é uma decisão política, e não econômica. O que melhor ilustraria tal afirmação do que a participação dos bancos públicos no crédito total no Brasil? De 35%, em 2001, os bancos oficiais agora respondem por mais de 45% do total de crédito no País (na China comunista, esse patamar equivale a 55%). Enquanto os bancos privados pisam no freio, o governo acelera, e Guido Mantega ameaça: "Os bancos privados vão perder mercado".

A verdade é que, com a garantia política de solvência, praticamente não há incentivos à boa gestão. Se algo der errado, se houver algum prejuízo, o governo paga a conta. Mas quem paga a conta do governo? Os pagadores de impostos. Os cidadãos brasileiros. Os acionistas sem direito a voto nem dividendos, responsáveis, apenas, por cobrir o rombo.

Não surpreende, portanto, quando o governo especula uma nova capitalização da Caixa, seja pela injeção direta de recursos, seja pela transferência de créditos de qualidade duvidosa à EMGEA ("Empresa Gestora de Ativos", criada pelo PROEF em 2001, cujo objetivo era justamente a assunção de créditos problemáticos de instituições financeiras federais). Essa segunda alternativa seria uma óbvia admissão de que algo não vai bem nessa farra de crédito.

Em vez de aprendermos com os erros dos outros, a sensação é que estamos replicando, em solo brasileiro, todos os equívocos que países desenvolvidos cometeram nos últimos anos. Nos EUA, após o estouro da bolha imobiliária, o Tesouro americano nacionalizou as duas gigantes do mercado hipotecário, Fannie Mae e Freddie Mac. Há poucas semanas, o governo de Rajoy, primeiro-ministro espanhol, solicitou formalmente um pacote de mais de 100 bilhões de euros para resgatar o seu falido sistema bancário, levado ao colapso precisamente devido a sua exposição ao setor imobiliário. E na Irlanda, uma bolha imobiliária gigantesca levou o governo a nacionalizar os principais bancos privados, sendo que apenas um deles, o Anglo Irish, teve um custo de resgate estimado em 30 bilhões de euros — um quinto da economia irlandesa.

A política do governo brasileiro de redução artificial dos juros e de "democratização" do crédito traz consigo benefícios e custos. Alguns ganham no curto prazo, enquanto a maioria perde no longo. Bom para alguns; mas, certamente, ruim para todos. É difícil prever quando pagaremos essa conta. Mas quanto antes pisarmos no freio, menos salgada ela será.


Fernando Ulrich é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária, entusiasta de moedas digitais, e mantém um blog no portal InfoMoney chamado "Moeda na era digital". Também é autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

 

postado por Fernando Ulrich | 05/09/2012

17 comentários
17 comentários
Edgard 05/09/2012 07:51:54

Existe alguma maneira de reverter a situação? Ou apenas restringir o crédito é a unica solução para esse caminho que nossa economia esta tomando?

Obrigado e parabéns pelo post.

Responder
Jeferson Franco 05/09/2012 08:22:07

Excelente abordagem! Finalmente alguém diagnosticou o câncer do boom imobiliário que assola nosso crédito há muito tempo. Resta agora visitar o paciente ao lado (cidade de São Paulo) e finalizar o diagnóstico mostrando à luz o rombo da dívida pública que a cidade carrega desde mandatos Maluf-Pitta. Feito isso, basta juntas as pecinhas do quebra-cabeça e com razão o discriminante do Bolívar teria a palavra: "a melhor coisa a fazer na América [Latina] é ir embora"

Responder
Jose Roberto Baschiera Junior 05/09/2012 10:25:30

Muito bom, o penúltimo paragrafo deveria ter saído no jornal.

Responder
Mateus moura 06/09/2012 20:29:44

Terrorismo puro
OLhe a inadimplencia de 2 POR CENTO
as reservas internacionais
Poucas palavras, grandes fatos que destroem 80% dos argumentos desse site
mas Vocês omitem, não podem admitir o sucesso de pais que não é muito liberal..
chorem

Responder
Felipe 06/09/2012 21:08:52

Fumou cebola, Mateus?

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Samuel 09/09/2012 07:36:29

Os "fatos" relatados não desconstroem o artigo. Inadimplência de 2 %, em relação a uma alavancagem de 28 vezes, não é pouca merda. É muita!

Reservas internacionais... É de ouro? Prata? Paládio? Platina? Terras? Petróleo? Não! É de papel-moerda, cujo valor pode evaporar ainda mais se o (social)Democrata Obrahma se reeleger.

Responder
Eduardo 10/09/2012 04:34:39

2% de uma alavancagem de 28x é equivalente a 56% das reservas... É só aumentar mais um cotoquinho a inadimplência que o banco já se torna insolvente... Consegue sentir o drama Matheus?

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Leandro 06/09/2012 20:59:04

Prezado Mateus, o senhor está bem?

Se sim, permita-me algumas ligeiras correções. A inadimplência não é de 2%. Para cheques, ela está em 6,2%, em todo o Brasil. Apenas este ano, a inadimplência como um todo (total de crédito vencido há mais de noventa dias) aumentou 12%.

Esses 2% o senhor tirou de algum lugar obscuro...

Sobre o endividamento dos brasileiros, o que eles gastam de sua renda apenas para o serviço de suas dívidas é praticamente o dobro do que gastam os americanos.

(Sobre reservas internacionais, não tenho a mínima ideia de onde elas entram nesse seu raciocínio esquisito.)

Os links acima não são teoria, são fatos. Se eles não são do agrado da ideologia do senhor, o problema não é nosso. Sendo assim, gostaria de saber onde está o "terrorismo puro" em meramente se relatar fatos. O senhor pode nos esclarecer?

Aproveitando o ensejo, também ficaríamos agradecidos se o senhor pudesse nos explicitar quais são as "poucas palavras, grandes fatos que destroem 80% dos argumentos desse site". Até o momento, minhas poucas palavras e meus grandes fatos (com links de órgãos do próprio governo) é que reduziram sua participação ao reles status de uma pessoa despreparada, mentirosa e desesperada.

Aqui nós trabalhamos com ciência econômica, e não com panfletagem político-partidária. Volte para aqueles blogs financiados por estatais, que provavelmente é de onde você arranja inspiração intelectual para esta sua lógica triunfal.

Abraços!

Responder
Neto 07/09/2012 02:21:46

Tempo de eleição, o pessoal pago pelo PT pra fazer propaganda pela internet fica infestando tudo que é blog

Responder
Leandro 07/09/2012 08:38:53

Exato. Por isso a peneiragem aqui terá de ser mais intensa. Se deixarmos as portas abertas, esses vagabundos invadem e depredam tudo, pois têm total desprezo pela propriedade privada alheia.

Responder
Fabio 09/09/2012 15:42:50

Muito interessante esse assunto.
Eu cheguei a acreditar que o Brasil passaria por uma bolha automotiva junto com a bolha imobiliaria.
Porem lendo esse blog direto é facil perceber que a bolha automotiva dificilmente chegara a existir,pois as montadoras e os bancos privados estão segurando o credito e os bancos estatais estão despejando o credito,devido aos patios de leilões de carros novos estarem lotados,os bancos estão adiando a busca e apreensão do automóvel e muitos bancos estão colocando o nome do inadimplente no spc e evitando ao maximo dar busca nos automóveis,só o fazendo em ultimo caso,quem tiver com $$$ para comprar um carro meio novo a vista,estara fazendo um bom negocio.
As vendas de carros novos caíram no começo desse ano por causa dos números da inadimplência e a dificuldade de se conseguir credito,porem o governo com medo do pais entrar em crise bem em vespera de eleições e com o intuito de segurar a crise para eleger seus candidatos e tentar reeleger a presidente daqui a uns 2 anos tomou atitude "injetando" dinheiro através de órgãos públicos e maquiando numeros para enganar o povão,fazendo a economia crescer artificialmente,exatamente como eu previ no começo desse ano,antes de conhecer esse blog. O povo agora não esta mais indo direto no banco de sua preferencia procurar credito,e sim,uma maior parte esta partindo para os bancos estatais que estão dando credito para empresarios de 12% ao ano para capital de giro da empresa ou para pessoa fisica com taxas abaixo do banco privado ,que o povo esta usando para comprar carro,casa e etc,não para a empresa ou algum investimento de longo prazo,o que particularmente acho uma loucura,pois no futuro o lucro da empresa pode cair ou o cara pode ser mandado embora e o mesmo arrisca ficar enforcado e com dificuldades financeiras o resto da vida..

Responder
Daniel 13/09/2012 18:26:27

O governo pode manipular muita coisas, mas a matematica esta alem do alcance dessa turma. Em menos de oito anos o prazo maximo de financiamento foi de 20 para 35 anos, isso porque a expansao de credito diretamente no setor imobiliario inflacionou os precos dos imoveis muito mais que a renda das familias. Agora como tambem nao e possivel aumentar a expectativa de vida nao sera mais possivel aumentar o prazo de financiamento e aumento nos precos dos imoveis, se houver, nao sera mais acompanhado nos valores financiados.\r
Nosso cenario esta cada vez mais parecido com o que aconteceu em 2008 nos EUA.\r
Ps: nao tenho como botar acento nesse teclado.

Responder
Fernando Ulrich 21/09/2012 10:41:23

Chegou a conta. R$ 13 bi para a Caixa e R$ 8 bi para o Banco do Brasil. Será que acabou aí? Que empresa privada consegue levantar essa montanha de dinheiro com tamanha facilidade? E a Fazenda segue dizendo que tudo vai bem...
www.valor.com.br/financas/2838720/governo-injetara-ate-r-13-bilhoes-na-caixa-e-r-81-bilhoes-no-bb

Responder
Deilton 02/10/2012 07:46:01

Fernando, não entendi a expressão "chegou a conta". O governo está ampliando a capacidade de concessão de crédito pelos bancos públicos e não cobrindo perdas dos mesmos. A expressão dá a entender que a injeção de dinheiro é para cobrir perda.

Responder
Leandro 02/10/2012 08:24:26

Comentei sobre isso aqui.

O fato é que a CEF está extremamente alavancada e o governo optou por aumentar seu endividamento apenas para manter o crescente endividamento da população (e garantir uns pontinhos no PIB, o qual mensura consumo). Estratégia muito sensata...

Responder
Juliano Camargo 23/10/2012 10:51:14

Já está ficando evidente a estratégia do governo brasileiro: é aquilo que no Poker se chama de ALL-IN.

Além do cenário imobiliário que cada vez mais parece um subprime brasileiro, e da bolha automotiva, temos os bilhões do BNDES investidos em empresas que tomaram prejuízo em 2008.

4 anos depois, como era de se esperar, muitas destas empresas estão patinando e tomando mais perdas.

Além disso temos a bolha da previdência, porque com empresas tendo problemas e ameaçando demitir, o governo baixa decretos e reduz a setores inteiros o pagamento do INSS.

Todas estas medidas dão uma sensação de alívio imediado, mas já sabemos no que vai dar isso no médio prazo.

Some-se a isso a queda no preço do ferro e a desaceleração chinesa, que até agora permitiram ótimos termos de troca para o Brasil e sustentaram nossa balança comercial no positivo, mesmo durante a crise.

Ou seja, a janela fechou, agora não dá mais nem mais tempo pra fazer a coisa certa.

A partir de agora o único caminho vai ser inflação na casa dos 10% ( pra começar ), evitando o colapso no crédito e fazendo os ajustes fiscais que eles não querem fazer.

Responder
saoPaulo 10/02/2013 19:00:28

Off topic, achei engracado: www.smbc-comics.com/?db=comics&id=2418#comic

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