O sistema bancário brasileiro e seus detalhes quase nunca mencionados
por , quarta-feira, 22 de agosto de 2012

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logos-bancos.jpgAo leitor leigo que teve a coragem de clicar neste artigo não obstante seu título nada atraente, prometo meu máximo esforço para tornar esta leitura palatável e perfeitamente compreensível.  O assunto pode parecer árido e desinteressante à primeira vista, porém é o mais importante de toda a economia.  Afinal, é justamente o sistema bancário quem multiplica a quantidade de dinheiro na economia e, consequentemente, afeta a oferta de crédito. 

Qualquer assunto que envolva a criação e a manipulação de dinheiro e da oferta de crédito possui mais impacto sobre a economia do que qualquer pacote de estímulo fiscal, qualquer regulamentação, qualquer parceria público-privada.  A diferença é que o impacto surge mais no longo prazo e quase sempre suas reais causas não são compreendidas.  A manipulação da moeda de um país é algo que afeta a todos, mas em proporções muito distintas.  Alguns ganham e muitos (a maioria) perdem. 

Se você entender este artigo, entenderá como realmente funciona o nosso atual sistema financeiro — e o considerará, no mínimo, muito estranho. 

Estrutura

As relações entre o Banco Central e o sistema bancário já foram exaustiva e detalhadamente cobertas em uma série de artigos deste site (dentre os quais, sugiro este, este e este), de modo que neste artigo vamos nos concentrar mais na mecânica do sistema bancário. 

Mais especificamente, vamos nos ater às seguintes questões: como de fato os bancos criam dinheiro, expandem o crédito e afetam toda a economia?  Seria possível o sistema bancário criar moeda e expandir a oferta de crédito continuamente caso não houvesse um Banco Central?  Como os bancos podem atender ao apelo daquele animador de circo que ocupa o cargo de Ministro da Fazenda e sair concedendo crédito a rodo?  A inflação de preços no Brasil, teimosamente alta, tem a ver com o nosso sistema bancário?

Os três primeiros artigos linkados acima detalham como o Banco Central, por meio de suas compras de títulos públicos que estão em posse do sistema bancário, deposita dinheiro (meros dígitos eletrônicos criados do nada, ao simples apertar de uma tecla de computador) em uma conta que os bancos mantêm junto ao Banco Central.  Estes dígitos recém-adicionados às suas contas são então utilizados pelos bancos para expandir a oferta de crédito em uma quantidade várias vezes maior do que a quantidade de dígitos criada pelo Banco Central.

Isso é apenas o básico.  Os detalhes, no entanto, explicam muita coisa.  Vamos a eles.

Os dez principais bancos brasileiros, elencados pelo valor de seus ativos, são: Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, BNDES, Caixa Econômica Federal, Santander, HSBC, Votorantim, Safra e BTG Pactual.  Menção honrosa para o Citibank em 11º e para o Banrisul em 12ª, inflando o orgulho dos gaúchos. 

Olhando esta lista — e excluindo o BNDES pelo fato de ele não ser um banco comercial no sentido estrito do termo, isto é, com correntistas pessoas físicas —, é fácil perceber como o sistema bancário brasileiro é concentrado.  Afinal, quantas pessoas você conhece que são correntistas apenas do Votorantim, do Safra, do BTG Pactual e do HSBC?  Votorantim e BTG sequer trabalham com caderneta de poupança.  E os ativos do Santander, quinto da lista sem o BNDES, são a metade dos do Itaú, o segundo da lista.

Logo, se, por exemplo, o Itaú emprestar dinheiro para alguém, o dinheiro deste empréstimo muito provavelmente acabará sendo depositado ou em uma agência do BB, ou em uma do Bradesco, ou em uma da CEF, ou em uma do próprio Itaú.  Com uma menor probabilidade, este dinheiro pode ir para o Santander.  E com muito menos probabilidade, ele pode ir para qualquer outro banco.

(E se considerarmos a hipótese mais realista de que empréstimos vultosos feitos por uma instituição tendem a ser pulverizados para vários cantos da economia, as chances de que uma fatia deste dinheiro volte para a própria instituição bancária que originou o empréstimo é bem grande.)

Todos estes prolegômenos têm um só objetivo: mostrar que o sistema bancário brasileiro é extremamente concentrado.  Fazendo uma simplificação relativamente realista, não é exagero dizer que temos apenas 5 bancos: BB, Itaú, Bradesco, CEF e Santander.  Com boa vontade, podemos incluir o HSBC, cujos ativos são quase nove vezes menores que os do BB.  Isto significa que, sempre que BB, Itaú, Bradesco ou CEF fizerem um empréstimo, a chance de uma fatia deste dinheiro voltar para eles próprios é bem alta.  Mais especificamente, sempre que o BB, por exemplo, faz um empréstimo vultoso, pode-se dizer que 20% (um quinto) deste dinheiro volta para ele.

Juntos, BB, Itaú, Bradesco, CEF e Santander detêm 74% dos ativos de todo o sistema bancário.

E as consequências disso são muitas.

As características do atual sistema bancário

Em teoria — e é isso o que diz os manuais de economia e até mesmo de direito —, a função de um banco é a de servir de intermediário entre o poupador e o investidor.  Um banco captaria um depósito de um cliente, o poupador, e emprestaria este valor para um empreendedor.  Para fazer isso, o banco emitiria um título prometendo pagar uma determinada taxa de juros Y.  O poupador compraria este título.  Ato contínuo, o banco emprestaria o dinheiro assim obtido para um empreendedor que necessitasse de financiamento.  O banco cobraria deste empreendedor uma taxa de juros X, com X sendo maior do que Y.  Esta diferença entre a taxa de juros que o banco paga para captar recursos e a taxa de juros que ele cobra para emprestar se chama spread, e ela seria a principal fonte de receita dos bancos.

Neste modelo, os bancos atuariam como genuínos intermediadores financeiros.  Mais ainda: eles estariam agindo como empreendedores alertas às oportunidades e atentos a todas as eventuais descoordenações do mercado. Ao coordenarem um equilíbrio entre poupadores e empreendedores, ao verem que em um setor da economia há alguém disposto a emprestar dinheiro a 10% e, em outro setor, há alguém disposto a pegar dinheiro emprestado a 15%, os bancos fariam esta intermediação e lucrariam com ela.  Sua "função social" seria justamente a de reconhecer esta descoordenação, corrigi-la e, neste processo, auferir lucros.  Sua atividade como intermediador financeiro seria a de coletar poupança e direcioná-la para empreendedores. 

Neste caso, como os empréstimos feitos pelos bancos estão vindo de uma poupança real que estaria apenas sendo transferida de um indivíduo para o outro, podemos dizer que está havendo a criação de crédito real.  O crédito real é a base da acumulação de capital e do crescimento econômico.

No entanto, como bem sabem nossos leitores, o sistema bancário atual — tanto no Brasil quanto no mundo — opera de uma maneira um tanto distinta.  Em vez de atuarem como intermediadores da poupança e do investimento, os bancos na realidade possuem o privilégio legal e exclusivo de criar dinheiro do nada, emprestarem este dinheiro e cobrarem juros sobre ele.  Como se trata de algo importante e bizarro demais para ser ignorado, vale a pena enfatizar: bancos possuem o privilégio legal, concedido pelo estado, de criar dinheiro eletrônico, de emprestar estes dígitos eletrônicos para pessoas e empresas, e de cobrar juros sobre eles.  Algo que lhe daria cadeia se você fizesse, os bancos fazem com a autorização e até mesmo com um forte incentivo estatal.

A principal característica do atual sistema bancário é que o seu real modus operandi não permite sequer que digamos que os bancos também fazem uma intermediação financeira.  Não, o sistema bancário atual não atua também direcionando poupança para investimentos.  Os bancos de hoje lidam majoritariamente com dígitos eletrônicos que eles próprios criam.  E, quando você lida com dígitos eletrônicos que podem ser criados do nada, você não se preocupa com a origem daquele dígito.  Se você pode criar dígitos eletrônicos para emprestar para João, você não tem de se preocupar em remover estes dígitos eletrônicos da conta do José.  Você pode criar os dígitos eletrônicos na conta de João ao mesmo tempo em que José segue tendo total e irrestrito acesso aos dígitos eletrônicos dele.

Sendo assim, a realidade é que, para todas as operações de concessão de crédito, os bancos criam dinheiro eletrônico do nada e emprestam este dinheiro para pessoas, empresas e governos (federal, estaduais e municipais), em um processo que veremos mais abaixo.  Dado que tais depósitos bancários assim criados não vieram da poupança, podemos dizer que está havendo a criação de crédito bancário (e não de crédito real).  É importante frisar isso: no atual sistema bancário, todo o crédito é bancário.  Trata-se de dígitos eletrônicos que são criados pelos bancos e acrescidos às contas dos tomadores de empréstimos.  Nenhum dinheiro está sendo removido de uma conta para outra.  Está havendo apenas a criação de dígitos eletrônicos.

E é essa capacidade de criar crédito bancário o que gera o contínuo aumento da quantidade de dinheiro eletrônico na economia, bem como suas inevitáveis consequências: inflação de preços e ciclos econômicos.

Para o leitor ter uma ideia da magnitude desta criação de crédito bancário no Brasil, o total de cédulas de papel e de moedas metálicas (ou seja, dinheiro físico) na economia brasileira foi, em julho, de aproximadamente R$ 153 bilhões.  Deste valor, R$ 124 bilhões estavam nas mãos do público (isto é, na sua carteira, nos caixas dos estabelecimentos comerciais, nos cofres das empresas etc.) e o restante, R$ 29 bilhões, estava em posse da rede bancária (isto é, nos caixas eletrônicos e nos cofres das agências bancárias).  Ao mesmo tempo, o saldo total do crédito bancário na economia, ou seja, a quantidade de dinheiro eletrônico que os bancos criaram e emprestaram, totalizava R$ 2,17 trilhões.  Portanto, o total de dinheiro eletrônico criado é de 74 vezes a quantidade de papel-moeda em posse dos bancos e de 14 vezes a quantidade total de papel-moeda existente.

Todo este dinheiro eletrônico, uma vez criado, é espalhado por diversas contas e aplicações bancárias: contas-correntes, contas-poupança, depósitos a prazo, letras de câmbio, letras hipotecárias, letras de imobiliárias, e fundos de investimento, como fundos cambiais, de curto prazo, renda fixa, multimercado e referenciado.

Portanto, eis aqui a primeira e primordial constatação: todo o dinheiro que está hoje na forma de dígitos eletrônicos em contas e aplicações bancárias entrou na economia de uma única maneira: criação de crédito bancário.  Não há nenhuma outra maneira de o dinheiro entrar na economia geral a não ser pela criação de crédito bancário. 

E agora a segunda constatação, derivada da primeira: a principal fonte de todos os depósitos bancários que hoje existem na economia não são os depositantes, mas sim os empréstimos que os bancos criam do nada.  Os depósitos são a consequência destes empréstimos.  Contas bancárias são produto da criação de crédito, e não o contrário.

Uma pessoa, uma empresa ou um funcionário do governo vai ao banco e pede um empréstimo.  Ato contínuo, o banco cria, do nada, dígitos eletrônicos na conta desta pessoa.  Nenhuma outra conta foi subtraída neste processo.  A quantidade de dinheiro eletrônico na economia simplesmente aumentou.  Ao ser gasto, este dinheiro recém-criado vai parar nas contas de outras pessoas e empresas.  Dali, ele vai para o depósito ou aplicação que este recebedor final escolher.

Os bancos criam dinheiro eletrônico sempre que fazem qualquer tipo de empréstimo ou de investimento.  Sem exceção.  Se você vai ao banco e pede um empréstimo para comprar um imóvel, o banco vai criar dinheiro eletrônico na sua conta.  Se você pedir um empréstimo para comprar um carro, o banco vai criar dinheiro eletrônico na sua conta.  Quando o Tesouro faz um leilão de títulos, os bancos criam dinheiro eletrônico para comprar estes títulos.  Se um empresário quer descontar uma duplicata, o banco compra o papel — a um valor descontado, é claro — criando dinheiro eletrônico na conta deste empresário.  O mesmo ocorre quando uma empresa faz uma operação de vendor (quando a empresa vende um produto a prazo para um cliente, mas quer receber o pagamento à vista, ela leva a nota promissória ao banco, que a comprará a um preço de descontado.  Desta forma, o banco está financiando o comprador).

Capital de giro, conta garantida, aquisição de bens, financiamento imobiliário, adiantamento sobre contratos de câmbio, cheque especial, crédito pessoal etc.  — tudo é feito com a criação de dinheiro eletrônico.  Sempre que um banco adquire um ativo, ele tem de criar um passivo.  O ativo é o papel que ele comprou criando dinheiro eletrônico; o passivo são justamente os dígitos eletrônicos que ele acrescenta na conta da pessoa de quem ele comprou o ativo.  Ao fazer isso, o banco aumenta a oferta monetária e pressiona os preços para cima.

Portanto, bancos não são — como muitos acreditam — mediadores de crédito.  Eles são criadores de crédito.

Como os bancos expandem o crédito muito além do controle do Banco Central

Uma vez entendido que os bancos criam dinheiro do nada, vem a pergunta: o que os restringe?  Como garantir que eles não abusem deste invejável poder? 

A resposta é clara: se os bancos saírem criando crédito bancário em demasia, a inflação de preços subirá.  Com o aumento dos preços, os bancos terão de aumentar os juros que cobram, caso contrário receberão de volta um dinheiro com menos poder de compra do que aquele que emprestaram.  Esta subida dos juros arrefecerá o ímpeto das pessoas e empresas em contraírem empréstimos, o que irá colocar um fim temporário à farra expansionista.

Além desta prudência voluntária dos bancos, há também o controle do Banco Central por meio do depósito compulsório.  O depósito compulsório é, como o nome diz, um depósito que os bancos são obrigados a fazer no Banco Central.  Todos os bancos têm de manter depositado no Banco Central uma determinada porcentagem do valor total de seus depósitos.  Por exemplo, se um banco tem $1.000 em conta-corrente, e o compulsório é de 40%, os bancos têm de manter $400 parados no Banco Central.  Estes $400 são suas reservas bancárias

(Este sistema em que os bancos são legalmente autorizados a manter como reservas apenas uma fração de seus depósitos é chamado de sistema bancário de reservas fracionárias.  Ele difere enormemente daquele sistema descrito no início deste texto, no qual um banco atua como intermediador financeiro.  Naquele esquema, o correntista que quiser auferir juros vai emprestar seu dinheiro, ficando sem ter acesso a ele durante o período do empréstimo.  No esquema atual, várias pessoas são as donas de um mesmo dinheiro físico — no caso, os $400 que estão nas reservas.  Todo o resto é dinheiro eletrônico.  Se houver uma corrida bancária para sacar dinheiro, quem chegar por último ficará sem nada.  Ele finalmente descobrirá que os dígitos eletrônicos em sua conta eram apenas aquilo: dígitos eletrônicos.  Não havia nada físico lastreando aqueles dígitos.)

Neste exemplo numérico dos $1.000 em conta-corrente, se um correntista transferir, digamos, $50 deste banco para um banco de outra marca (do Itaú para o Bradesco, por exemplo), as reservas cairão para $350 e o valor total da conta-corrente será de $950. Neste caso, o banco estará violando a regra de 40% do compulsório.  Tendo $950 de conta-corrente, ele tem de ter $380 de reservas bancárias.  Logo, o banco terá de arranjar mais $30 para cobrir este "rombo". 

No sistema bancário atual, esta "cobertura de rombo" acontece diariamente no final do expediente bancário, que é quando ocorrem as compensações.  Normalmente, o dinheiro que é transferido dos clientes do Itaú para os clientes do BB, da CEF, do Bradesco e do Santander é compensado pelo dinheiro que os clientes destes transferem para o Itaú.  No entanto, caso algum banco chegue ao final do dia tendo de arrecadar dinheiro para cobrir o rombo em seu compulsório, ele irá recorrer ao mercado interbancário, no qual aqueles bancos com reservas em excesso emprestam dinheiro para aqueles com reservas insuficientes.  Os juros que eles cobram nesta operação é exatamente a taxa SELIC.

O funcionamento do mercado interbancário foi explicado detalhadamente neste artigo, de modo que não irei aqui me aprofundar neste assunto novamente.  A intenção de falar sobre o compulsório é mostrar que ele é um mecanismo de controle da expansão monetária.  Quanto menor for a porcentagem do compulsório, maior será a quantidade de dinheiro que os bancos podem criar via empréstimos.  

Mas há dois problemas.  O primeiro, certamente o leitor mais atento já conseguiu visualizar: quanto maior a concentração bancária, mais tranquilamente os bancos podem expandir o crédito.  Se os cinco maiores bancos brasileiros decidem expandir o crédito no mesmo ritmo, o dinheiro que um cria vai parar na conta do outro, e vice-versa.  No final do dia, a necessidade de eles recorrerem ao mercado interbancário para obter quantias volumosas para satisfazer a determinação do compulsório é muito pequena.  Só terá esta necessidade aquele banco que expandir muito mais do que os concorrentes.  Em se tratando de um sistema bancário com poucos bancos e totalmente cartelizado e controlado pelo Banco Central, como o brasileiro, tal coordenação é fácil de ser feita.  Aliás, ela é justamente uma das funções do Banco Central.  Portanto, este é o primeiro detalhe estrutural que arrefece bastante a capacidade do Banco Central de restringir a expansão creditícia feita pelos bancos.

O segundo problema, que é justamente o ponto deste artigo, é um pouco mais complexo: os bancos podem legalmente escapar do compulsório imposto pelo Banco Central, o que significa, mais uma vez, que a capacidade de criação de crédito bancário está muito aquém do controle do Banco Central.

A seguir, recorro a um balancete bem simplificado para ilustrar como os bancos podem expandir o crédito para muito além do permitido pelo compulsório.  O balancete representa o sistema bancário consolidado de uma determinada economia.  De início, o sistema bancário trabalha apenas com depósitos em conta-corrente.  O compulsório é de 40%.  Os bancos criaram um crédito bancário total de $15.000.  Deste valor, $10.000 foram parar nas contas-correntes de todo o sistema bancário, e o restante está disperso pela economia na forma de papel-moeda em posse das pessoas e na forma de passivos de longo prazo do sistema bancário.  Observe que há $4.000 na forma de reservas bancárias, satisfazendo o compulsório de 40%. (Tecnicamente, tais reservas podem ser tanto na forma de dinheiro físico no cofre dos bancos, quanto na forma de dinheiro eletrônico depositado junto ao Banco Central).

Balancete consolidado do sistema bancário

Ativos

Passivos + Patrimônio Líquido

Reservas: $4.000

Crédito: $15.000

Depósitos em conta-corrente: $10.000

Passivos de longo prazo: $3.000

 

Capital: $6.000

Total dos ativos: $19.000

Total dos passivos: $19.000

 

Observe que, neste ponto, os bancos não mais podem expandir o crédito.  Qualquer expansão do crédito levará a um aumento nos depósitos em conta-corrente, o que, consequentemente, imporá a necessidade de se elevar a quantidade de reservas.  E, para aumentar suas reservas, os bancos teriam de induzir algumas pessoas a depositar dinheiro em espécie nos bancos.  Para tal, eles teriam de oferecer incentivos, como emitir papeis que paguem juros altos.  Isso pode afetar seus lucros. 

Outro problema é que mais criação de crédito implica maior probabilidade de saques em espécie, o que reduziria as reservas dos bancos. 

Caso as coisas continuassem assim e — muito importante —, caso o Banco Central não interviesse imprimindo dinheiro e criando mais reservas bancárias, a expansão do crédito estaria estagnada.

No entanto, há outros truques legais que permitem contornar esta situação.  Os bancos podem, por exemplo, convencer seus correntistas a migrarem seus depósitos em conta-corrente para uma nova modalidade criada, os depósitos a prazo.  Estes depósitos, em nosso exemplo, não possuem regras para compulsório.  Quais as consequências?

Suponha que os bancos conseguiram convencer alguns clientes a fazer tal migração de conta, totalizando uma transferência de $5.000 das contas-correntes para os depósitos a prazo.  Imediatamente após a transferência, este seria o balancete do sistema bancário:

Balancete consolidado do sistema bancário

Ativos

Passivos + Patrimônio Líquido

Reservas: $4.000

Crédito: $15.000

Depósitos em conta-corrente: $5.000

Depósitos a prazo: $5.000

Passivos de longo prazo: $3.000

 

Capital: $6.000

Total dos ativos: $19.000

Total dos passivos: $19.000

 

Observe que agora as reservas estão em excesso em relação ao volume das contas-correntes.  A transferência de $5.000 das contas-correntes para depósitos a prazo liberou mais $5.000 para os bancos criarem crédito bancário

Após esta nova expansão do crédito bancário, veja o novo balancete do sistema bancário:

Balancete consolidado do sistema bancário

Ativos

Passivos + Patrimônio Líquido

Reservas: $4.000

Crédito: $20.000

Depósitos em conta-corrente: $10.000

Depósitos a prazo: $5.000

Passivos de longo prazo: $3.000

 

Capital: $6.000

Total dos ativos: $24.000

Total dos passivos: $24.000

 

Observe que está tudo de acordo com as leis estipuladas pelo Banco Central.  O crédito foi expandido em mais $5.000 e este valor foi parar integralmente nas contas-correntes dos bancos.  (Haveria o risco de os correntistas sacarem parte deste dinheiro digital que foi criado, o que faria com que os valores das reservas e das contas-correntes fossem menores.  Mas isso apenas faria com que a nova expansão do crédito fosse menor; tal ato não seria um empecilho para a expansão do crédito.  Pelo bem da brevidade, vamos supor que não houve nenhuma alteração na propensão dos cidadãos a portar um volume maior de dinheiro, o que, aliás, é um argumento bastante realista).  As reservas de $4.000 continuam respeitando o compulsório de 40% para o valor total das contas-correntes.

E se os bancos gostarem e quiserem repetir a dose?  É perfeitamente possível.  Basta eles continuarem incitando os correntistas a migrarem suas contas para depósitos a prazo.  Repetindo idêntico procedimento acima, mais $5.000 são transferidos das contas-correntes para os depósitos a prazo.  Lembre-se: são apenas dígitos eletrônicos.  Não há nenhum obstáculo a esta manipulação.

Eis o balancete do sistema bancário imediatamente após esta nova transferência:

Balancete consolidado do sistema bancário

Ativos

Passivos + Patrimônio Líquido

Reservas: $4.000

Crédito: $20.000

Depósitos em conta-corrente: $5.000

Depósitos a prazo: $10.000

Passivos de longo prazo: $3.000

 

Capital: $6.000

Total dos ativos: $24.000

Total dos passivos: $24.000

 

Com reservas em excesso, os bancos podem novamente expandir o crédito em mais $5.000.  Eis o balancete dos bancos após esta expansão creditícia:

Balancete consolidado do sistema bancário

Ativos

Passivos + Patrimônio Líquido

Reservas: $4.000

Crédito: $25.000

Depósitos em conta-corrente: $10.000

Depósitos a prazo: $10.000

Passivos de longo prazo: $3.000

 

Capital: $6.000

Total dos ativos: $29.000

Total dos passivos: $29.000

 

Com apenas duas rodadas de migração de contas, foi possível ampliar o crédito em $10.000.  Mais importante: não houve injeção de dinheiro do banco central; nenhuma moeda física foi criada para permitir este aumento.  O único fenômeno ocorrido foram bancos migrando contas e criando dígitos eletrônicos do nada. 

Tal prática pode continuar perpetuamente?  Em um ambiente sem um Banco Central, muito difícil, pois, como dito, sempre há o risco de os correntistas decidirem sacar dinheiro.  Porém, normalmente, o dinheiro que é sacado acaba sendo gasto; ao ser gasto, ele volta a ser depositado em outra conta-corrente, de modo que a alteração final tende a ser nula.  Mas vale a pena enfatizar: sacar dinheiro dos bancos e não depositá-lo novamente é um instrumento poderosíssimo para abalar um sistema bancário de reservas fracionárias.  E é exatamente aí que entra o Banco Central, garantindo contínuas injeções de reservas bancárias e impressões de dinheiro (via Casa da Moeda) de modo a não abalar a continuidade deste processo.

Em termos práticos, vale ressaltar que foi exatamente este processo de migração de contas e consequente expansão do crédito que aconteceu durante a década de 1920 nos EUA, quando os bancos expandiram o crédito muito além daquilo que imaginava ser possível o Federal Reserve.  Um excelente livro a respeito, que transcreve vários relatórios emitidos pelo Fed à época mostrando enorme surpresa dos burocratas com a evolução do crédito para muito além do que julgavam ser possível, é este (há versões gratuitas para iPad e iPhone, bem como .pdfs.). 

Esta mesma prática é hoje corriqueira em todo o mundo, inclusive no Brasil, cujos dados ilustrados ao final deste artigo irão comprová-la.  Nos EUA e na Europa, o sistema bancário, com a anuência de seus respectivos bancos centrais e pelo simples truque da migração de contas (tanto nos EUA quanto na Europa, não há regra de compulsório para depósitos a prazo), expandiu enormemente a oferta de crédito durante a década de 2000, gerando a bolha imobiliária e a subsequente crise financeira, com os resultados que estamos vivenciando hoje.

Aqui no Brasil, o compulsório para depósitos em conta-corrente é talvez o maior do mundo, de 43%.  Mas isso é pouco efetivo, pois a migração para contas-poupança, para depósitos a prazo e para fundos de investimento é maciça.  O compulsório sobre depósitos a prazo é de 20%.  O mesmo valor se aplica aos depósitos de poupança.  Qualquer aplicação dos bancos em fundos de investimento está isenta de compulsório.   E há mais detalhes: o compulsório sobre depósitos a prazo vigorou apenas durante um determinado período da primeira fase do Plano Real (1996 a 1998).  Depois, foi abolido (ficando em seu lugar a necessidade de depositar títulos do Tesouro junto ao Banco Central).  Só voltou a vigorar em abril de 2010, e sua taxa é constantemente alterada, variando de 15% a 20%.  Ou seja, durante a maior parte da história recente não havia tal instrumento.  O espaço que tais alterações de compulsório abre para a expansão do crédito bancário é enorme.

Os números do Brasil

Para se ter uma ideia prática do volume deste fenômeno da migração de contas, veja os dois gráficos abaixo.  O primeiro gráfico mostra a evolução nominal da conta-corrente (linha vermelha), dos depósitos em poupança (linha azul) e dos depósitos a prazo (linha verde).  Observe que, com a instituição do compulsório sobre depósitos a prazo a partir de 1996, os depósitos em poupança ganham mais captação.  Óbvio, pois depósitos a prazo normalmente pagam juros maiores do que depósitos em poupança.  Mesmo com a abolição do compulsório ao final de 1998, os depósitos a prazo ainda demoram um pouco para ganhar atratividade, o que só começa a acontecer em definitivo a partir de 2001.

cewolf1.png

O volume de depósitos a prazo é 6 vezes (ou 500%) maior do que o de depósitos em conta-corrente.  O volume de depósitos em poupança é 3 vezes maior, ou 200%.

Se construirmos um gráfico mostrando a taxa de crescimento anual das três variáveis, algumas observações se tornam mais óbvias:

variacoes1.png

Em 2003, a estagnação do crédito foi geral, de modo que o crescimento das três contas desacelerou fortemente.  Apenas os depósitos a prazo aumentaram em relação a 2002 (5%, como mostra o gráfico ao final de 2003).  Nenhuma surpresa.  Em 2004, o crédito voltou a se expandir, e os depósitos a prazo, também sem surpresa, foram os que mais cresceram.  A partir de 2006, quando o Banco Central começou o ciclo de redução da SELIC, o qual duraria até março de 2008, a taxa de crescimento dos depósitos a prazo começou a desacelerar, ao passo que conta-corrente e conta-poupança passaram a aumentar.  A partir de 2007, a relação inversa entre as variáveis se torna explícita: quando a SELIC sobe (2008, segundo semestre de 2010, primeiro semestre de 2011), há uma migração para os depósitos a prazo; quando a SELIC cai (2009 e segundo semestre de 2011 até hoje), há uma migração para a poupança e para a conta-corrente. 

A forte migração para os depósitos a prazo ocorrida em 2008 pode ser explicada tanto pela elevação da SELIC quanto pelo fato de, ainda àquela época, não haver compulsório para os depósitos a prazo.  Finalmente, a partir de meados de 2011, com o atual ciclo de redução da SELIC, a taxa de crescimento dos depósitos a prazo voltou a cair, embora seu crescimento ainda esteja maior do que o crescimento dos outros dois depósitos.

Vale notar também que os depósitos em conta-corrente são os primeiros a reagirem a uma alteração na SELIC.  Óbvio, pois eles são o primeiro destino de todos os dígitos eletrônicos que foram criados e gastos.  A poupança varia simultaneamente, mas com uma pequena defasagem.  Já os depósitos a prazo variam inversamente.

Por fim, contemple o gráfico da expansão total do crédito.  Ao olhar o gráfico, pense que estes R$2,17 trilhões são meros dígitos eletrônicos criados por bancos.

credit.png

Enquanto isso, o valor total da base monetária em julho — aquela variável que está totalmente sob controle do Banco Central — foi de R$192,5 bilhões.  Quem ainda imagina que, em um sistema bancário de reservas fracionárias, o Banco Central pode exercer algum controle benéfico sobre o sistema está seriamente iludido. 

A função do Banco Central em todo este esquema é propiciar seguidas injeções de reservas bancárias para permitir que a expansão do crédito bancário prossiga incólume.  Afinal, sempre que ele pára de injetar reservas, a SELIC sobe e o povo reclama

E um detalhe final: mesmo que o BC pare de injetar reservas com o intuito de restringir a expansão do crédito, é perfeitamente possível os bancos continuarem expandindo o crédito bancário ainda por um bom tempo: basta eles coordenarem uma expansão creditícia simultânea ao mesmo tempo em que fazem migrações de contas bancárias.  Em um sistema bancário extremamente concentrado como o brasileiro, tal coordenação não é nada difícil.

Conclusão

No sistema monetário atual, o processo de criação de crédito é totalmente artificial.  Ao contrário do que imaginam alguns românticos, bancos não são meros intermediadores financeiros entre poupadores e investidores.  Bancos são criadores de crédito artificial na forma de meros dígitos eletrônicos.  Sendo assim, o sistema bancário de reservas fracionárias, em conjunto com o Banco Central, realiza uma tarefa extremamente importante para a popularidade de políticos: ele aumenta artificialmente a renda das pessoas de forma quase imediata. 

Se a expansão do crédito for alta e, por algum motivo estrutural (alta abertura da economia e aumento da produtividade), o aumento de preços demorar a aparecer, o bem-estar das pessoas irá aumentar (temporariamente, até os preços finalmente começarem a subir), e os políticos da situação ganharão com isso.  Tal fenômeno foi evidente na primeira metade da década passada nos EUA e na Europa, quando a expansão do crédito bancário levou a um grande aumento da renda ao mesmo tempo em que a inflação de preços se manteve contida durante algum tempo, exceto no setor imobiliário, o que fez a festa de vários especuladores.

Um país como os EUA, que possui uma economia aberta, consegue manter uma expansão creditícia por um longo período de tempo porque, como sua economia é aberta, as importações ajudam a arrefecer as pressões inflacionistas geradas pela expansão do crédito. Sendo assim, aquele aumento dos juros que põe fim à expansão de crédito (e que dá início à recessão) só irá ocorrer um bom tempo após o ciclo expansionista ter começado. Por exemplo, a última expansão creditícia americana, aquela que gerou a bolha imobiliária, começou em meados de 2001 e só foi acabar em 2006.  Neste ínterim, a inflação de preços ficou relativamente contida.

Em um arranjo democrático, a facilidade da expansão do crédito bancário é um mecanismo extremamente tentador.  Isso explica por que Guido Mantega vem suplicando de joelhos para os bancos brasileiros expandirem o crédito a juros baixos.  Ele sabe que, no curto prazo, tal medida de fato é bastante eficaz politicamente.  O problema vem depois, com a inflação de preços e os ciclos econômicos.  Nenhuma economia é capaz de expandir o crédito bancário indefinidamente.  Toda expansão sempre termina em recessão.  Mas é sim possível postergar recessões com novas rodadas de expansão de crédito, as quais têm de ocorrer em doses cada vez maiores para manter a economia artificialmente aquecida.

Adicionalmente, como no Brasil a economia é bastante fechada, qualquer expansão do crédito bancário rapidamente se transforma em inflação de preços, o que faz com que o Banco Central rapidamente volte a aumentar os juros — leia-se "diminuir as injeções de reservas bancárias".  Ao passo que um ciclo expansionista dura de 4 a 5 anos nos EUA, aqui no Brasil ele mal chega a dois.  

O que nos leva à última pergunta remanescente: é possível os bancos atenderem ao apelo do animador de circo e saírem concedendo crédito a rodo?  Sim, nada os impede.  Exceto o bom senso.  Bancos podem expandir o crédito quando quiserem, especialmente se eles operarem sob os auspícios de um Banco Central indulgente, que injete reservas continuamente no sistema.  Na nossa atual situação, a única coisa que vem impedindo os bancos de saírem expandindo o crédito de maneira orquestrada é o temor de calotes em decorrência de alto endividamento das famílias e da inadimplência em níveis incômodos.

Nossa situação é curiosa, para não dizer desesperadora: temos de ficar na torcida para que os bancos, contra os interesses do governo, se contenham e evitem a expansão de sua carteira de crédito, algo que também vai contra seus imediatos interesses lucrativos.  Ao mesmo tempo, temos um governo que praticamente os obriga a ser mais temerários, a saírem emprestando para qualquer pessoa, sem nenhuma consideração para com risco ou histórico de crédito.  E tudo isso apenas para garantir uns décimos a mais no PIB.

Quando a solidez da economia de um país passa a depender de os bancos terem de se conter para não mais aumentarem seus empréstimos, mesmo sendo incitados a isso por um lunático com amplos poderes, apenas uma deidade infinitamente poderosa pode nos salvar da catástrofe.


Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


304 comentários
304 comentários
Gustavo BNG 20/08/2012 22:05:03

Será que 0,1% da população brasileira sabe dessa lama bancária?

Responder
Pedro Ivo 21/08/2012 04:40:57

Claro que sabem. São os 0,1% que comandam o esquema.

Responder
Carlos 23/08/2012 20:32:05

Nem 0,00001% dos brasileiros sabem desta lama bancária.\r
Política do pão e circo.Conhece?\r
Ótimo artigo.

Responder
Abraão Carvalho 19/04/2013 02:57:17

Alguém poderia ter a paciência de me explicar como funciona esta injeção de dinheiro eletrônico.

Responder
Leandro 19/04/2013 06:08:08

O Banco Central cria dígitos eletrônicos na tela de um computador e transfere estes dígitos para uma conta-corrente que o sistema bancário tem junto ao Banco Central (conta esta chamada de "reservas bancárias" ou "compulsório").

Em troca destes dígitos, os bancos dão ao Banco Central títulos do Tesouro que eles compraram do governo. Quanto mais títulos do Tesouro os bancos compram do governo, mais dígitos eles podem ganhar do Banco Central em troca destes títulos (ou seja, a simples existência do Banco Central já é um estímulo aos déficits orçamentários do governo).

Ato contínuo, tendo mais dígitos eletrônicos em suas reservas, os bancos podem agora criar mais dígitos eletrônicos para emprestas para pessoas e empresas.

Parece doideira? Parece insanidade? Parece não fazer sentido nenhum? Pois é exatamente esta a intenção; é assim que a mágica funciona.

Recomendo estes artigos:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=344

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1574

Responder
Melanie Schwartz 19/04/2013 11:38:47

Leandro, aproveitando o embalo, você poderia me explicar como o Banco Central é capaz de injetar dinheiro continuamente nos bancos? Ele injeta dinheiro recomprando os títulos do públicos em posse dos bancos, certo? Mas, por que esses títulos nunca acabam se o Bacen injeta dinheiro de forma continua? Os bancos têm um volume gigantesco ou o Bacen vende barato e recompra caro, deixando sempre atrativa essa operação?

Obrigada.

Responder
Leandro 19/04/2013 12:48:18

Os títulos nunca acabam porque o governo mensalmente incorre em déficits orçamentários. Logo, mensalmente ele emite títulos para os bancos comprarem. Com a dívida bruta na casa de R$ 2,4 trilhões, acho que não há muito risco de escassez de títulos.

Responder
gisele 26/04/2016 21:23:59

Leandro, perdoe-me pela ignorância, por favor, me explique melhor como acontece o aumento dos preços por conta do sistema de crédito. Apenas isto não entendi no seu artigo, que por sinal está muito bem escrito.

Responder
Auxiliar 26/04/2016 21:55:41

Aqui:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1854

Responder
Miriam Doncel 29/12/2013 12:56:58

Não tem dinheiro poriso fazem isso .o que vai acontecer num futuro próximo todas as pessoas que depositaram no sistema vão perder seu dinheiro porque os bancos não tem efetivo.para mim são bancos que não podiam continuar emprestando.

Responder
amauri 21/08/2012 04:24:10

Bom dia Leandro!
Esta criação é a chamada alavancagem?
Qual é a alavancagem dos bancos no Brasil? E nos principais países do Mundo?
O banco Votarantim, e o Panamericano, tambem fazem esta criação?
O governo brasileiro, depois de mais de 10 anos, autorizou um banco estrangeiro a operar no Brasil. E porque um banco chines? abs

Responder
Leandro 21/08/2012 06:15:28

Correto, Amauri. Em termos mais específicos, alavancagem é a divisão entre os ativos de risco (empréstimos e debêntures, mas não títulos do governo) de um banco e seu capital. No nosso exemplo, a alavancagem foi de 2,5 (15/6) para 4,16 (25/6).

O inverso da alavancagem -- ou seja, o capital dividido pelos ativos de risco -- é o requerimento de capital (popularmente chamado de Índice de Basileia).

Para os referidos bancos brasileiros, o índice de Basileia varia de 13 a 24%. Os piores são a CEF, com 12,8% e o BB, com 14,7%.

Nos EUA, tais valores giram entre 8 e 10%.

Recomendo este artigo do Fernando Ulrich:

O dilema do sistema bancário e as regras da Basileia

Abraços!

Responder
Jose Roberto Baschiera Junior 21/08/2012 05:15:13

Meus artigos favoritos são os do Leandro.
Não me contenho com os adjetivos que são sempre dirigidos ao senhor Guido Mantega nesses artigos. Sempre na dose correta.

Responder
Leandro 21/08/2012 06:15:17

O problema do Mantega é que ele não aprendeu nada com a crise mundial. Quer de tudo quanto é jeito implodir o sistema financeiro nacional em troca de alguns décimos de PIB no curto prazo.

Fosse ele apenas o que é -- um sujeito com cara de burocrata soviético de terceiro escalão --, não teria grande importância. O problema é que ele tem poder e influência para fazer estragos. O dinheiro de ninguém está seguro nos bancos enquanto Guido Mantega tiver voz no governo.

Responder
Pedro Ivo 22/08/2012 10:17:50

O problema do Mantega é que ele existe: ele e todos com esta mentalidade contrafactual

Responder
romulo augusto 27/03/2013 12:50:05

o governo pode aumentar seu credito junto aos bancosdiminuindo o credito para o povoque nao tera como saldar suas dividasaumentando a inadimplencia sendo motivo para que o banco centralse queixe ao governo que com isso recorrerá ao confisco na sua economia politica

Responder
Pedro Valadares 25/08/2012 10:04:40

Leandro, eu acho que Mantega sabe exatamente o que tá fazendo, mas ele sabe que quando a coisa pegar, o máximo que pode acontecer é ele deixar o ministério. Se isso acontecer, ele vai conseguir lá um cargo de consultor financeiro do Instituto Lulla e vai ganhar dinheiro às custas dos seguidores do lulismo.

Enquanto a lama não chega, ele capitaliza a fama de justiceiro da população contra os juros...

Responder
Renan Juliano 01/04/2016 08:13:04

Leandro,

Se os bancos privados criam dinheiro para emprestar, além de parecer absurdo, não gera inflação? Eu achava que só o banco central podia criar dinheiro.

Responder
Leandro 01/04/2016 12:24:50

Correto:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1854

E, como sempre, vou recomendar, mais uma vez, esta monografia do Banco Central da Inglaterra:

www.bankofengland.co.uk/publications/Documents/quarterlybulletin/2014/qb14q1prereleasemoneycreation.pdf

Responder
Vitor 27/05/2016 19:29:09

Leandro,

Você disse que o banco só incorpora no patrimônio líquido o juro cobrado, mas o crédito criado também poderá ser realizado como receita bancária no final do ciclo, principalmente depois de realizar os títulos públicos para aumentar as reservas, aumentando a capacidade dos sócios de se apropriarem de parte da base monetária. Pelo menos aconteceu isso na minha simulação.

Simulei a seguinte situação:
compulsório de 40%
taxa de juros bancário 10%
só existe Conta-Corrente e PL no Passivo
só existe Reserva e Créditos (empréstimos concedidos) no Ativo
a base monetária inicial é de 10.000 e está sob a posse de Alberto

L1: depósito de 10.000 de Alberto
L2: empréstimo de 6.000 de João (para pagar a Pedro)
L3: depósito de 6.000 de Pedro
L4: empréstimo de 1.000 e saque de 6.000 de Pedro (para pagar a João)
L5: pagamento de 6.600 de João ao banco
L6: compra e realização de títulos públicos (dinheiro novo) no valor de 7.000 e remunerando 7.400

O último lançamento com o BC só ocorreu só para que a reserva do banco voltasse a 10.000, cobrindo os 400 que estão na posse de João como lucro de sua operação.

A situação final ficou:

Ativo Passivo
Reservas: 10000 C/C: 10000
Crédito: 7100 PL: 7100
Total: 17000 Total: 17000

Desse total, o banco incorporou em seu capital todo o crédito criado + a receita de juros.

É assim que ocorre ou tem algo no meio aí que eu não fiz?

Abraço

Responder
Andre Cavalcante 21/08/2012 06:23:17

Faço coro com outros comentaristas do site:
+1 artigo para o próximo livro na biblioteca do IMB A História Econômica Recente do Brasil (by Leandro Roque).

Abraços

Responder
Leandro 21/08/2012 06:39:27

Obrigado pela consideração, caro Andre. Em verdade lhe digo que há um projeto entre mim e o Fernando Ulrich a este respeito. Mas precisamos de um banco sem restrições de compulsório para nos financiar...

Abração!

Responder
Sérgio Ricardo 23/08/2012 13:04:54

Leandro,

Que grande notícia saber que você está projetando escrever um livro.
Serei um dos primeiros a comprá-lo e, se possível, ir ao dia do lançamento.
Os seus textos são fantásticos e exploram as verdades ocultas em nosso sistema político e econômico, que de democrático só tem a palavra "bonitinha".

Parabéns!

Abraço,
Sérgio Ricardo

Responder
Leandro 23/08/2012 14:03:57

Obrigado pelas palavras, Sérgio. Mas isso ainda é algo para o longuíssimo prazo...

Grande abraço!

Responder
amauri 21/08/2012 06:36:26

Leandro grato pela explicação.
será que eu estou errado em não adquirir( e aconselhando meus filhos) nada por meio de "alavancagem"?
Uma duvida que paira sobre mim:
já li em vários estabelecimentos comerciais que não aceitam pagamento em cheque, e aceitam cartão de credito. O hipotético emissor de cheque sem fundo pagará corretamente a fatura do cartão de credito? abs

Responder
Leandro 21/08/2012 06:46:39

Amauri, um cheque sem fundo afeta diretamente o comerciante, ao passo que um pagamento via cartão de crédito lhe garante receita imediata. Se o consumidor vai pagar ou não a fatura do cartão de crédito, isso não é problema do comerciante; isso é entre o consumidor e a administradora do seu cartão.

Sobre alavancagem, você está se referindo a operar alavancado no mercado financeiro? Isso é só para quem é realmente profissional e tem muita certeza dos rumos futuros do mercado.

De resto, vale a regra: quanto maior a alavancagem (em qualquer empreendimento), maior o seu risco -- a menos que você tenha uma fonte segura e garantida de receita, uma que dure por muito tempo e possa cobrir suas eventuais perdas. Aí, sim, você terá alguma segurança.

Mas isso não é um tipo de conselho que seja minha especialidade. Por isso, vou afinar e não falar mais nada.

Abraço!

Responder
Ricardo 21/08/2012 07:18:55

Amauri,

Nesse caso do cheque x cartão de crédito é simples. No pagamento com cheque, é emissor do cheque (você) quem paga diretamente para o portador (estabelecimento comercial). No caso do cartão, é o seu banco quem vai pagar para o estabelecimento comercial, independente de você ter quitado sua fatura ou não. Se você não quitar sua fatura, o estabelecimento vai receber o seu dinheiro mas você vai ficar devendo para o banco. Ter garantia de pagamento, como tudo no mundo, também tem seu preço. Por isso cada compra do cartão um percentual (que eu não sei quanto é) fica diretamente com o banco.

Responder
Fabio 21/08/2012 07:24:30

Deixe-me ver se entendi: o banco A cria X de moeda (crédito) para um tomador de empréstimo B a uma taxa de juros anual Y%. Ao fim de um ano, B amortizou a dívida de uma vez só, pagando X(1+Y%). O banco criou moeda, lucrou com juros, mas e o que foi feito do principal X criado do além? Ele vira patrimonio do banco ou tem que ser "destruído" contabilmente?

Responder
Leandro 21/08/2012 07:39:39

Fabio, imediatamente após o banco criar o crédito (por exemplo, $1.000), haverá duas entradas em seu balancete: $1.000 no lado dos ativos (crédito concedido) e $1.000 no lado do passivo (conta-corrente aberta).

Porém, assim que o tomador de empréstimo gastar seu dinheiro, o valor criado na conta-corrente (passivo) cai para zero e o total de reservas (ativo) deste banco será subtraído deste mesmo valor.

Ou seja, haverá agora apenas uma entrada na coluna de ativos escrita "ativos a receber".

Quando o empréstimo é quitado, o principal ($1.000) volta para as reservas bancárias e o juro cobrado vai para o capital do banco.

Abraço!

P.S.: na prática, a redução das reservas raramente ocorre, pois ao mesmo tempo em que o banco A expande o crédito e perde reservas para o banco B, o banco B expande o crédito e perde reservas para o banco A.

Responder
Rodrigo 07/03/2013 13:37:05

Leandro, fiquei com uma dúvida do que pode acontecer posteriormente com este juro incorporado ao PL. Poderia o PL ser re-investido, como mais reserva, incrementando assim a capacidade de crédito bancário que pode ser concedido?

Como funciona na teoria este conceito, já que estes juros cobrados não existem na economia para que sejam quitados, ao menos todos juntos, já que alguém com algum emprestimo terá de ficar devendo o principal para que os juros de outro possam ser quitados? Ou a idéia é esta mesmo, que a dívida deve ter de ser sempre aumentada para manter-se o ciclo?

Responder
Leandro 07/03/2013 14:15:40

"Poderia o PL ser re-investido, como mais reserva, incrementando assim a capacidade de crédito bancário que pode ser concedido?"

Sim. Quando um banco empresta R$1.000 e recebe R$1.300, seus ativos (no caso, reservas) aumentaram em um total de R$300 reais (antes havia R$1.000 agora há R$1.300). Consequentemente, ele pode expandir mais o crédito em cima destes R$300 adicionais.

Adicionalmente, seu patrimônio líquido entra na conta de "requerimento de capital" dos bancos. Quanto maior o patrimônio líquido em relação a ativos de risco, melhor a situação do banco. (Dois artigos sobre isso: um básico e um mais avançado.)


"Como funciona na teoria este conceito, já que estes juros cobrados não existem na economia para que sejam quitados, ao menos todos juntos, já que alguém com algum emprestimo terá de ficar devendo o principal para que os juros de outro possam ser quitados? Ou a idéia é esta mesmo, que a dívida deve ter de ser sempre aumentada para manter-se o ciclo?"

Os juros são coletados com relativa facilidade (e são altos) justamente porque a quantidade de dinheiro na economia está sempre crescendo. É por causa disso que as atuais dívidas podem sim ser quitadas. Se a quantidade de dinheiro fosse fixa, os juros inevitavelmente teriam de ser muito mais baixos (se fossem altos, não haveria como quitá-los).

Responder
Rodrigo 07/03/2013 21:14:27

Primeiramente gostaria de parabenizar pelos excelentes textos explicativos quanto a todo o site. Não imaginava ter uma resposta tão rapidamente. Acabei encontrando por acaso este seu texto, em busca ao google sobre o funcionamento do sistema bancário, e encontrei aqui uma grande fonte de informação, em diversos textos.

Confesso que desconhecia as ideias de livre mercado, sequer sabia que o portal difundia esta ideia antes de ler os textos, e pesquisar um pouco sobre o IMB (cai de para-quedas neste portal como mencionado). Fiquei muito interessado nas ideias, apesar de não defender nenhuma ideologia e ser um tanto cético, acabei lendo diversos artigos aqui e pretendo me informar mais ainda destes pensamentos.

Como sou realmente iniciante tanto na filosofia do pensamento austriaco quanto na economia atual, gostaria de entender os princípios básicos dessa economia, muitos deles já elucidados em diversos textos, mas quanto a questão proposta anteriormente quanto a questão dos juros ainda me ficou uma dúvida quanto a este funcionamento num hipotético cenário em que as reservas monetárias não se alterariam. Por ser uma pergunta que imagino básica, poderia alguém me ensinar?

-Neste cenário hipotético de $ inalterada, feitos empréstimos a juros, por menores que sejam, tornariam impossível a quitação de todos ao mesmo tempo não? Ex.: Num total hipotético de $100, se faz o mesmo empréstimo a 2 pessoas: empresta-se $1 e o retorno deve ser do principal + $0,001. Neste momento, este montante não existe ainda na economia, como ele deve ser pago?

A única solução que vejo (como não tenho muito noção da economia, peço que me corrijam se estiver falando uma tremenda besteira) seria que para o "montante extra" ser pago, seria através do fluxo do $ no mercado, por consequência o valor de todo o $ existente acabaria por perder valor para os juros poderem ser pagos(causando lenta deflação dos preços de bens e serviços ao longo do tempo), mas na realidade como ocorreria?

Agradeço desde já este espaço de discussão.

Responder
Rodrigo 07/03/2013 22:27:49

Ainda outro ponto que tenho curiosidade de conhecer, é como funcionam cooperativas de crédito neste caso, sei que são reguladas pelo BC, mas seguem regras especificas, ou podem fazer as operações como bancos comuns?

Na minha região existe uma grande cooperativa de crédito, é muitos migraram de bancos para lá, tenho minhas dúvidas quanto a este funcionamento, se for possível poderia me explicar (não é preciso ir tão a fundo, mas umas questões básicas, ela opera alavancado por fracionário, ou só pode emprestar o que tem de fato "guardado" por poupadores? pode participar do mercado interbancário?

Responder
Juan Simon 20/04/2013 20:56:46

Leandro,

Obrigado pela explicacao. Tenho 2 perguntas:

O que acontece quando alguem nao paga o emprestimo? Nem o principal e os juros? Como o banco tapa esse furo contabilmente?

Segunda pergunta: Quanto mais pessoas deixam de pagar o emprestimo, mais o governo (em teoria) precisa injetar dinheiro para estimular a economia? Ja que quando 1 na corrente nao paga acaba estagnando o ciclo?

Desde ja agradeco!

Responder
Leandro 22/04/2013 13:55:43

"O que acontece quando alguem nao paga o emprestimo? Nem o principal e os juros? Como o banco tapa esse furo contabilmente?"

Nesse caso, o ativo "empréstimos pendentes" (relativo a este empréstimo específico) no balancete do banco cairá para zero. Se o Banco A emprestou, digamos, $100.000, e estes $100.000 caíram na conta do Banco B, então o Banco A teve de transferir $100.000 de suas reservas para o Banco B. E como o Banco A não teve esse empréstimo quitado, a conseqüência final é que ele perdeu ativos no valor de $ 100.000. Seu patrimônio líquido (seu capital) foi reduzido.

Se isso estiver ocorrendo maciçamente em todo o sistema bancário, os bancos ficarão descapitalizados. Consequentemente, eles não apenas não poderão conceder novos empréstimos, como terão de forçar a quitação rápida de todos os empréstimos pendentes. Ao fazerem isso, a oferta monetária da economia será drasticamente reduzida (empréstimos quitados significam a destruição de dígitos eletrônicos nas contas-correntes).

"Segunda pergunta: Quanto mais pessoas deixam de pagar o emprestimo, mais o governo (em teoria) precisa injetar dinheiro para estimular a economia? Ja que quando 1 na corrente nao paga acaba estagnando o ciclo?"

Ocorreria o que de fato ocorreu na Europa e nos EUA: o Banco Central irá comprar ativos destes bancos (mais especificamente, títulos do governo em posse destes bancos). Ao fazer isso, a rubrica "encaixes" ou "reservas bancárias" destes bancos irá aumentar e a rubrica "títulos do governo" irá diminuir. O valor dos ativos permaneceu o mesmo, mas os bancos agora estão com mais reservas do que antes. Porém, se os bancos não concederem novos empréstimos, esse dinheiro não entrará na economia, e ela permanecerá em recessão.

Veja este artigo que mostra exatamente isso ocorrendo na Europa.

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1514

Responder
Gustavo 03/07/2016 17:18:40

Quando o BC quer diminuir as reservas, ele literalmente "obriga" os bancos a comprarem os títulos do governo de volta? Os bancos privados não poderiam se "negar" a abrir mão de suas reservas?

Responder
Fred 04/07/2016 12:15:55

Tudo é uma questão de preço.
"Pagando bem que mal tem"

Responder
Leandro 04/07/2016 12:52:24

O BC se oferece para comprar títulos a preços maiores que os vigentes no mercado. Sendo assim, vendê-los para o BC é extremamente lucrativo.

Portanto, o BC segue a máxima de Don Corleone: faz uma oferta que os bancos não podem recusar.

Responder
PESCADOR 21/08/2012 07:46:03

Gosto muito desse tipo de artigo, mais prático e com exemplos brasileiros. Fica fácil de entender e dá mais vontade ainda de ler sobre Economia Austríaca. E dá mais raiva também do burrocratas do estado. Esse Mantega só não é uma piada porque as consequências dos atos dele são muito entristecedoras.

Responder
Tiago RC 21/08/2012 09:23:51

Muito interessante esse texto, Leandro.

Deixa eu ver se entendi direito. Para driblar o compulsório, bancos dão um jeito de converter saldo bancário (M1) em outros ativos sem passar pelo dinheiro primário (M0).
Isso faz diminuir o M1 do banco, sem tocar suas reservas, que seguem intactas. Essa diminuição do M1 faz com que a porcentagem em reserva seja maior que o compulsório e pronto, eles podem legalmente criar mais saldo bancário.
É isso?

O porquê do envio de dinheiro a essas contas especiais não representar um saque de dinheiro primário, ou uma movimentação de conta corrente à conta corrente, já é mais complicado pra mim entender.
Se eu deposito dinheiro num fundo de ações por ex., o meu saldo bancário será convertido em cotas desse fundo. Mas esse fundo tem que comprar ações com o dinheiro que eu depositei. Esse dinheiro vai então parar no saldo bancário daquele que vender essas ações ao fundo. Independente das contas estarem ou não no mesmo banco, o M1 total continuaria o mesmo - é só dinheiro migrando de uma conta corrente à outra.
Eu não entendi porque essa transferência de dinheiro da CC para uma conta especial não representa no final das contas uma transferência de uma CC para outra CC, pertencente a outro indivíduo.
Há alguma particularidade sobre os depósitos à prazo? Admito minha ignorância financeira: não sei que o são depósitos à prazo. São como CDBs? O dinheiro depositado nessa conta será emprestado a alguém? Se for esse o caso, não dá na mesma que o exemplo com o fundo de ações (dinheiro sai da minha CC e entra na CC de outra pessoa, não alterando a proporção M1/M0).

Abraços!

Responder
Leandro 21/08/2012 11:06:09

Prezado Tiago, permita-me esclarecer alguns termos técnicos que ficaram um tanto confusos no seu raciocínio.

"Para driblar o compulsório, bancos dão um jeito de converter saldo bancário (M1) em outros ativos sem passar pelo dinheiro primário (M0). Isso faz diminuir o M1 do banco, sem tocar suas reservas, que seguem intactas. Essa diminuição do M1 faz com que a porcentagem em reserva seja maior que o compulsório e pronto, eles podem legalmente criar mais saldo bancário. É isso?"

Uma correção: M1 é depósito em conta-corrente + papel-moeda em poder do público. Ou seja, saldo bancário é um componente de M1. Já o M0 seriam as cédulas de papel e moedas metálicas. Considerando-se estas definições, este seu parágrafo ficou um tanto sentido.

Deixe-me tentar esclarecer sua provável dúvida. Bancos lidam com dígitos eletrônicos. Se você é banqueiro, você tem de rearranjar os dígitos em seus balancetes da maneira que mais aumente seus lucros. Ponto. Às vezes seus clientes vão colaborar, às vezes não. (A gerente do meu banco costumava me ligar oferecendo algumas opções de aplicação, dizendo que seriam muito vantajosas para mim. Óbvio que seriam vantajosas para ela e para o banco. Eu sempre declinava, educadamente).

Quando você retira dígitos de uma determinada conta que tem compulsório alto e transfere estes dígitos para uma conta que tem compulsório menor (no mesmo banco), você está legalmente abrindo espaço para criar ainda mais dígitos na forma de criação de crédito. Mas você não está "diminuindo M1 do banco", nem a quantidade total de dígitos nas contas deste banco. Você está apenas transferindo dígitos de uma rubrica para outra. As reservas bancárias também permanecem inalteradas.

"O porquê do envio de dinheiro a essas contas especiais não representar um saque de dinheiro primário, ou uma movimentação de conta corrente à conta corrente, já é mais complicado pra mim entender."

Não há "envio de dinheiro para contas especiais" e nem há por que dizer que a migração de dígitos no lado dos passivos do balancete de um banco irá estimular saques. Tenha em mente que o banco está mexendo com dígitos dentro deste próprio banco. Ele não está enviando estes dígitos para outros bancos.

É como você estacionar seu carro em uma garagem paga. Enquanto você está fora, os manobristas manobram o carro da maneira que eles quiserem, sempre visando a facilitar o estacionamento dos carros dos outros clientes. O fato de manobristas estarem trocando seu carro de posição não implica um estímulo para você tirar o carro da garagem (sacar dinheiro). Da mesma maneira, o fato de o seu banco estar transferindo dinheiro da rubrica "conta-corrente" para a rubrica "conta-poupança" não irá estimular "saques de dinheiro".

E, mesmo que estimulasse (coisa que não faz sentido), dinheiro sacado é gasto. Ao ser gasto, é redepositado no sistema bancário. Ou seja, no geral, as reservas bancárias permanecerão inalteradas.

"Se eu deposito dinheiro num fundo de ações por ex., o meu saldo bancário será convertido em cotas desse fundo."

Correto, mas aqui é outro cenário, totalmente distinto do que foi discutido até agora. Aqui você está enviando dígitos da sua conta-corrente para a conta de outro banco. O seu banco perdeu reservas. Ponto.

"Mas esse fundo tem que comprar ações com o dinheiro que eu depositei. Esse dinheiro vai então parar no saldo bancário daquele que vender essas ações ao fundo."

Corretíssimo. Como dito acima, isso nada tem a ver com um banco manipulando dígitos em seu próprio balancete. Isso que você descreveu foi simplesmente o cliente de um banco (você) transferindo dinheiro para o cliente de outro banco.

"Independente das contas estarem ou não no mesmo banco, o M1 total continuaria o mesmo - é só dinheiro migrando de uma conta corrente à outra."

Correto. São dois bancos na equação. O seu banco e o banco que recebeu seus dígitos eletrônicos. A redução havida na sua conta-corrente é compensada pelo aumento da conta-corrente do outro banco.

"Eu não entendi porque essa transferência de dinheiro da CC para uma conta especial não representa no final das contas uma transferência de uma CC para outra CC, pertencente a outro indivíduo."

É claro que representa uma transferência de uma CC para outra CC. Há dois bancos neste seu exemplo. Um banco perdeu dígitos; o outro ganhou. No consolidado bancário geral, a quantidade de dinheiro na rubrica "depósitos em conta corrente" segue inalterada. Reduziu no seu banco e aumentou em igual quantidade no outro banco. No saldo final, tudo inalterado.

"Há alguma particularidade sobre os depósitos à prazo? Admito minha ignorância financeira: não sei que o são depósitos à prazo. São como CDBs?"

No atual sistema monetário, são depósitos que rendem juros, assim como depósitos em conta-poupança. Sim, são CDBs. Nada de especial ou diferente neles, exceto as regras do compulsório.

"O dinheiro depositado nessa conta será emprestado a alguém?"

O dinheiro depositado em qualquer conta é um mero dígito eletrônico. Dígitos eletrônicos em uma conta, por si sós, não permitem e nem impedem a criação de outros dígitos eletrônicos para serem emprestados para alguém. Você, como banqueiro, vai simplesmente rearranjar os dígitos eletrônicos em seu passivo de modo a permitir a maior criação possível de dígitos eletrônicos no seu ativo. Só. Dígitos eletrônicos que estão em uma conta não são "emprestados" para outra pessoa. Você empresta coisa física, como cédulas de papel ou ouro, mas não empresta dígitos eletrônicos.

Em suma: você entendeu direitinho, mas acho que confundiu o balancete do consolidado bancário com o balancete de um banco isolado.

Abraços!

Responder
Tiago 21/08/2012 12:56:16

Obrigado Leandro pela enorme paciência!

De fato, estava erroneamente me referindo a M1 como apenas saldo bancário.

Quanto aos depósitos a prazo/CDBs. Qual a diferença entre eles, e um fundo de investimento qualquer, onde você é obrigado a "vender" suas cotas/ativos quando quiser resgatar? (pus vender entre aspas pois claro que não é o cliente que vende, mas o banco/fundo o faz por trás dos panos, sem que o cliente tenha que se preocupar com isso)
Se eu tiver dinheiro em CDBs e fizer um saque, o banco não será obrigado a vender os CDBs em proporção adequada para me fornecer o dinheiro? (se ele simplesmente converter de CDB a CC, ficará com falta de reservas)

Em outras palavras, esse cenário não depende em nada de reservas fracionárias, correto? Mesmo com 100% de reservas, o banco continuaria podendo emitir quantos CDBs conseguisse. Imagine o mesmo exemplo do balancete do artigo com 100% de reservas. Quando os clientes mandassem 5k para deposito a prazo, o banco teria 5k em reservas excedentes que lhe permitiriam criar mais 5k em saldo. E ele poderia continuar repetindo esse processo indefinidamente, aumentando o volume de crédito o quanto conseguir.

Estou enganado?

A propósito, para que tal fenômeno possa alimentar maus investimentos de acordo com a TACE, é correto dizer que é imperativo que os tais depósitos a prazo possam ser usados como dinheiro de fato (ser um substituto efetivo do dinheiro, com o qual você pode facilmente pagar suas contas etc, como o saldo em CC)? Porque só assim eu veria tal fenômeno como inflacionário... caso contrário, me pareceria uma expansão de crédito não inflacionária, já que o volume de dinheiro e seus substitutos permanece inalterado.
E, nesse ponto, é sem dúvida mais fácil para os bancos fazerem tais CDBs/depósitos a prazo serem usados como dinheiro de fato num cenário de mercado concentrado como o brasileiro. Num cenário mais competitivo, dificilmente os CDBs de um banco qualquer teriam liquidez comparável ao dinheiro primário...

Grande abraço,
Tiago.

Responder
Leandro 21/08/2012 16:30:40

"Quanto aos depósitos a prazo/CDBs. Qual a diferença entre eles, e um fundo de investimento qualquer, onde você é obrigado a "vender" suas cotas/ativos quando quiser resgatar?"

Depósitos a prazo são meio que uma área cinza. Por exemplo, você não pode emitir cheques ou usar cartão de débito contra um depósito a prazo, mas você pode sacar dinheiro vivo desta conta por meio de um caixa eletrônico.

Os bancos, como dito, mantêm como reservas tanto dinheiro vivo quanto dígitos eletrônicos depositados junto ao BACEN. Se você entrar no site do BACEN, verá que, no que diz respeito às contas-correntes, os bancos mantêm como reserva uma quantia que supera o porcentual exigido pelo BACEN. Em vez de 43%, eles mantêm algo próximo de 50%. Em minha opinião, isso é justamente para cobrir eventuais saques dos outros depósitos, como poupança e prazo.

"Se eu tiver dinheiro em CDBs e fizer um saque, o banco não será obrigado a vender os CDBs em proporção adequada para me fornecer o dinheiro? (se ele simplesmente converter de CDB a CC, ficará com falta de reservas)"

Como dito acima, essa venda seria necessário apenas se ocorressem saques maciços e repentinos. No entanto, o fato é que os bancos já sabem quanto as pessoas costumam sacar diariamente (tal comportamento segue um previsível padrão estatístico), de modo que, se você sacar parte de seu depósito a prazo, o banco irá apenas perder algumas reservas (ativo) e reduzir a sua conta (passivo) em igual montante.

"A propósito, para que tal fenômeno possa alimentar maus investimentos de acordo com a TACE, é correto dizer que é imperativo que os tais depósitos a prazo possam ser usados como dinheiro de fato (ser um substituto efetivo do dinheiro, com o qual você pode facilmente pagar suas contas etc, como o saldo em CC)? Porque só assim eu veria tal fenômeno como inflacionário... caso contrário, me pareceria uma expansão de crédito não inflacionária, já que o volume de dinheiro e seus substitutos permanece inalterado."

Correto. Caso contrário, caso os depósitos a prazo realmente fizessem jus a esse nome, no sentido de que você realmente teria de abrir mão do seu dinheiro pelo mesmo período de tempo do empréstimo que o banco faz para uma outra pessoa utilizando esse seu dinheiro, aí não seria necessário haver compulsório para depósitos a prazo. O fato de o BACEN estabelecer compulsório para depósito a prazo já é um indicativo de que ele próprio quer que os bancos continuem tratando depósitos a prazo como se fossem conta-corrente.

Abraços!

Responder
Marcos Campos 21/08/2012 12:02:48

Rs...Por conscidência sua dúvida é a mesma minha também.

Eu já tinha uma noção artificial sobre o assunto, mas este artigo me deu mais poder de argumentação com os keynesianos( meus professores ) e amigos( estudantes de economia ), apesar de ter empacado um pouco da metade ao final do artigo.

Algumas vezes eu entendo mais por meio de ilustrações, vídeos e charges. Na forma escrita eu demoro para assimilar.

Parabéns pelo artigo Leandro. Eu vou atentar o juízo de muitos professores com este conhecimento, estou quase sendo expulso da faculdade....rsrsrs

Responder
Cláudio 21/08/2012 09:51:46

DÍVIDA=ESCRAVIDÃO
O texto é fantástico, e não poderia ter sido encerrado com outra palavra: 'catástrofe'.
Quanto mais pessoas dispostas a endividar-se, mais dinheiro é inventado, para ser emprestado novamente a juros. É uma máquina de inventar ENDIVIDADOS. Isso não funcionaria entre sábios, e se está funcionando, é porque a bíblia estava certa sobre aqueles que não seguem seus estatutos: "Ele te emprestará a ti, porém tu não emprestarás a ele; ele será por cabeça, e tu serás por cauda" Deuteronômio 28:44.

Responder
jose carlos zanforlin 21/08/2012 10:49:49

Prezado Leandro:\r
\r
Se o depósito compulsório (que não se trata de conceito a priori) abrangesse a totalidade dos recursos de que são depositários os bancos, então a "burla" não ocorreria. Se ocorre, é consentida. "The shadow money lenders" são os que fazem as regras e deixam buracos nas peneiras de propósito.\r
\r
Agora, sua capacidade de transformar em "arroz com feijão" o que comentaristas econômicos de televisão e os de 20 linhas de jornais procuram complicar é surpreendentemente benvinda e esclarecedora! \r
\r
Grato.

Responder
Filipe F. 21/08/2012 13:05:55

Sempre magistral.

Abraço.

Responder
JOSUELITO BRITTO 21/08/2012 13:14:46

Leandro: sempre aprendo muito com você. Não sou economista, mas advogado. Nas faculdades de direito ou nos ambientes jurídicos ninguém conhece Von Mises, Hayek e muitos outros austriacos, jamais citados. Vige a ideologia socialista, de vários matizes, inclusive na modalidade brasileira, ganhar salários elevados no estado lato sensu e pregar "socialismo". Mas você poderia nos dar um curso sobre a economia brasileira, à luz da teoria austríaca. Iriamos aprender muito mais e de forma sistematizada.

Responder
Fellipe 22/08/2012 16:25:34

Discordo. Seria um retrocesso se o Leandro se fechasse em uma sala de aula para explicar sobre a economia brasileira enquanto na internet ele fala com o mundo todo de forma livre, sem restrições de instituições de ensinos ou qualquer imposição feita pelo MEC. Enquanto os burocratas usam as falidas instituições de ensino para aplicar seus conhecimentos ultrapassados, nada mais justo que começarmos a mudar e ensinar "novas" ideais em ferramentas mais avançadas e de maior alcance.

Responder
Davi 21/08/2012 14:19:32

Gostaria de agradecer a todos os colaboradores do mises Brasil, sou economista de formação, mas confesso que aprendi mais em poucos meses de estudo dos textos austríacos do que em anos de doutrinação marxista-keynesiana. Faço coro pelo curso de economia austriaca, de preferencia on-line. Por ultimo, gostaria q comentassem o candidato a vice dos republicanos, Paul Ryan, ouvi disser que ele estudou Hayek. Nao seria um Ron Paul, mas seria um avanço.

Responder
anônimo 21/08/2012 16:07:08

Leandro,\r
você sabe que eu não sei nada de economia, portanto me perdoe desde já se a observação que vou fazer a seguir for estúpida.\r
Acho que o Brasil tem uma substancial diferença pros EUA que precisa ser levada em conta. O funcionalismo público.\r
Paralelamente a essa expensão artificial do crédito, o governo aumentou muito o número de funças e o salário dos funças nos últimos anos. Muito mesmo! Além disso, a maioria dos funças usa o BB e a CEF, e as opções de crédito fácil nesses bancos são cada vez maiores e mais generosas para os funças.\r
Eu sei disso pq, como vc bem sabe, sou um funça... Nos dois lugares onde trabalhei nos últimos 5 anos eu vi todo mundo de carro novo, casa nova, viajando pro exterior todo ano. As mulheres todas meteram silicone nos peitos, haha...\r
Vc tem algum dado que analise o quanto o gasto dos funças tem crescido e segurado o consumo no Brasil? Pergunto isso pq esse é um gasto seguro, já que o emprego é garantido. Ou isso é irrelevante para as suas sempre lúcidas e didáticas análises da economia brasileira?\r
Forte abraço.

Responder
Leandro 21/08/2012 16:59:46

Anônimo, aqui está o gasto total com ativos e inativos civis e militares. Ano passado foi de R$206 bilhões.

Em 2006, o valor era de R$155 bilhões.

www.bcb.gov.br/pec/Indeco/Port/ie4-06.xls

De fato, haja silicone... no lombo do povo. Só assim pra aguentar a dor de carregar essa funçaiada toda.

Abraços!

Responder
anônimo 22/08/2012 05:28:03

Obrigado, Leandro e Silva.\r
Realmente, aumentou muito o gasto com os funças. E a rodada de negociações para novos aumentos já se iniciou. Quem mora em bsb já está evitando a Esplanada por causa dos engarrafamentos decorrentes das manifestações.\r
Já fiz o artigo rodar e tá dando o que falar.\r
Parabéns, Leandro, mais uma vez.

Responder
Silva 21/08/2012 16:43:43

anönimo,
desculpa eu me meter, mas vi um vídeo hoje que explica isto que vc esta falando:
www.youtube.com/watch?v=ANA57VatwsA&feature=player_embedded
Sei que o pessoal nao gosta muito do friedman, mas eu sou seu fa, ele tem o grande merito de conversa com o povao.

Responder
Andressa Lima 21/08/2012 18:45:06

"Ao leitor leigo que teve a coragem de clicar neste artigo não obstante seu título nada atraente, prometo meu máximo esforço para tornar esta leitura palatável e perfeitamente compreensível."

Agradeço a consideração e o esforço.

Não entendo nada de economia(ainda), mas estou me esforçando para entender.
E são artigos como esses que esclarecem que estamos perdidos se depender do Sr. Guido Mantega.

Obrigada.

Responder
Francisco Del Rio 22/08/2012 00:53:14

Impressionante como vejo comentários similares aos do Marcos Campos e do Josuelito Britto em conversas, em outros artigos, fóruns, etc.
Mises, Hayek e demais austríacos foram simplesmente "apagados" do mapa. E no caso do ambiente universitário, como exemplificou o Marcos, qualquer aluno, em especial nas áreas de economia, administração e sociologia, que traga ao debate as ideias da Escola Austríaca, ou é tratado como "excêntrico" (pra não dizer "reaça fdp") ou é até mesmo torna-se figura indesejada pelos professores, que obviamente são completamente míopes e doutrinados na teoria keynesiana ou marxista. Os "mestres" simplesmente não possuem argumentos para sustentar suas teorias. Quando é universidade pública, então...
Enfim, uma completa tragédia e a mais ultrajante omissão da verdade de nossos tempos. Parabéns ao Leandro pelo texto de extrema utilidade.

Responder
SergioRR 22/08/2012 06:06:43

Eu iniciei meu curso de economia em uma universidade federal no interior do Brasil e conclui em uma universidade particular aqui em São Paulo. Eu somente fui conhecer os austríacos quando o meu professor de Ética me recomendou ler as Seis Lições de Mises para fazer um trabalho sobre sistemas políticos e econômicos. Desde então não parei mais de ler a escola austríaca.

Mas o impressionante é que foi o professor de Ética, e não os de economia, que recomendaram Mises.

Responder
Arthur M M 22/08/2012 12:02:22

Podemos assumir uma mentira do ilustre presidente cefalópode e familiares. A de que o governo trabalha para quitação da dívida pública. Afinal, se houver quitação o BC (pelas políticas atuais) não teria meios para regular a SELIC ?

Responder
Dalton C. Rocha 22/08/2012 12:14:32

Há três coisas fundamentais a se fazer no sistema financeiro do Brasil:
1- Privatizar todos os bancos federais, inclusive o BNDES, a CEF e o Banco do Brasil.
2- Extinguir de uma vez o compulsório dos bancos, o que reduziria os juros.
3- Proibir que se emprestem a estados, municípios, união e empresas públicas.

Responder
Jose Roberto Baschiera Junior 22/08/2012 12:39:22

4 - Abrir o mercado para que qualquer pessoa possa emprestar dinheiro sem ser considerada "agiota". Abrindo caminho para novos bancos. Sem falar na total liberdade de atuação para bancos estrangeiros.
5 - Extinção do Banco Central e do ministério da fazenda.

Responder
Peterson Mota 22/08/2012 12:40:02

Leandro,

Teus artigos sobre o sistema bancários são excelentes. Tenho utilizado constantemente tuas análises para mostrar aos meus amigos que estamos indo em direção ao buraco! Infelizmente.

abs,



Responder
Erik Frederico Alves Cenaqui 22/08/2012 14:27:31

Resumindo tudo: Os bancos são uma extenção do estado.

Responder
Augusto 22/08/2012 17:06:29

Leandro,\r
\r
Tira uma duvida aqui, por favor. Uma grande parcela (talvez a maioria) dos libertarios apoia o retorno ao padrao ouro (sendo que alguns sugerem que o padrao ouro seja obrigatorio e outros, que o ouro seja uma opcao dentre varias).\r
\r
Minha duvida eh em relacao a adocao de um mercado baseado 100% no padrao ouro. Sabendo-se que o ouro eh um elemento finito, eventualmente nao haveria mais aumento no volume de ouro em circulacao no mercado.\r
\r
Chegando-se nesse estado, qualquer juro significa necessariamente a subtracao de ouro de outras areas economicas. Tentando simplificar: se existem 100 moedas de ouro no mercado, e eu empresto a outra pessoa 1 moeda esperando receber 2 moedas daqui a 5 anos, entao todas as demais mercadorias em circulacao, no valor de 98 moedas, teriam que ser desvalorizadas (num processo de deflacao), para que sobrasse 2 moeda para eu receber de volta ao fim do periodo.\r
\r
Eh isso mesmo, ou algo parecido?

Responder
Leandro 22/08/2012 18:12:48

Augusto, mais ou menos. Por um lado, os juros nominais teriam de ser bem menores. Afinal, se você cobrar, por exemplo, 10% em um ambiente de oferta monetária quase-fixa, é quase certo que ninguém conseguirá pagar.

No entanto, é importante não confundir fluxo com estoque. Em seu exemplo, você diz -- ou ao menos dá a entender -- que duas moedas seriam "retiradas" da economia, o que faria com que os outros preços tivessem de cair. O erro, neste caso, é que você está pensando em termos de estoque. Mas pagamento de juros é um fluxo. As duas moedas que você vai pagar de juros não serão retiradas da economia. Elas voltarão imediatamente após seu credor recebê-las e gastá-las. Logo, não cabe esse raciocínio de que haverá apenas 98 moedas após você pagar seu empréstimo. Tão logo seu credor receber as duas moedas, ele irá gastá-la. Nenhum setor da economia terá menos dinheiro.

Isso já acontece hoje, aliás. Pense em termos de arrecadação tributária. Imagine, para facilitar o raciocínio, que toda vez que R$100 trocam de mãos (pense em transações eletrônicas), o governo coleta R$40 de imposto. Após cada coleta de imposto, o governo imediatamente gasta o dinheiro coletado, fazendo com que ele volte para a economia. Se este valor de R$100 trocar de mão 3 vezes por dia, com o governo sempre gastando sua receita total -- de modo que sempre haja R$100 na economia -- a arrecadação total será maior do que a quantidade total de dinheiro. É tudo uma questão de fluxo.

Não é a toa que, atualmente, a arrecadação total dos três níveis de governo chega a mais de R$1,2 trilhão, mas a quantidade de dinheiro nas contas-correntes é bem menor do que isso. De novo, é uma questão de fluxo.

Abraços!

Responder
Augusto 23/08/2012 00:30:30

entendido. obrigado!!

Responder
anônimo 23/08/2012 13:25:49

Tenho uma pequena dúvida prática. Como um reles mortal que não é dono de um banco pode fazer paraa faturar com essa lambança?

Responder
Tiago Moraes 23/08/2012 13:50:24

Adquirindo ativos tangíveis e cujo crescimento da oferta é sempre inferior ao da expansão da moeda, com isso, o risco de você tomar um tombo diminui, comprar ouro já seria uma boa.

Responder
anônimo 28/08/2012 12:08:51

Isso eu já faço mas não é válido. Veja, os funça tão faturando e alto! Eu estou tão somente me protegendo! Há uma grande diferença entre faturar com a lambança e se proteger da lama.

Responder
Pablo Lorenzzoni 24/08/2012 03:51:05

Como ficaria um novo banco que operasse no Brasil (considerando o atual sistema bancário que você descreveu) de forma ortodoxa, servindo de intermediário financeiro entre o poupador e o investidor? Eu tenho a tendência a acreditar que tal banco seria rapidamente excluido do sistema, penalizado por querer fazer negócios reais em um ambiente de fantasia... mas gostaria de ouvir a opinião de vcs...

Responder
Leandro 24/08/2012 04:11:38

Correto, ele não teria a mínima chance. Nenhum negócio legítimo tem chances contra esquemas fraudulentos protegidos, sancionados e subsidiados pelo governo. Tais negócios têm lucros extremamente mais elevados do que negócios genuínos de livre mercado.

O mesmo raciocínio, aliás, se aplica à expansão do crédito e os consequentes ciclos econômicos. Mesmo que você seja um empreendedor totalmente ciente da teoria dos ciclos econômicos, você não poderá se dar ao luxo de ficar de fora da farra permitida pela expansão do crédito. Você sabe que a coisa vai dar errado, mas mesmo assim terá de participar, pois, caso fique de fora, você será demolido pelos seus concorrentes, perderá fatia de mercado, perderá receitas e poderá quebrar antes deles. Ou seja, o governo praticamente obriga que os sensatos tenham de se juntar aos desatinados.

Responder
Marcio Alcantara 26/08/2012 13:56:29

Não sou economista. Sou engenheiro eletrônico, e, talvez isso explique em parte algumas ideias que tenho há algum tempo e que vou compartilhar aqui.

Não vejo mais nenhum sentido teórico em ainda haver bancos. Em tese, eles só deveriam existir para "guardar" moeda física, mas ainda continuam existindo, e ainda continua existindo também moeda física. Nos dias de hoje, com o nível de informatização existente, é um absurdo ainda haver moeda física.

O sistema que pensei e que proponho extingue a moeda física e os bancos - e, com eles, o sistema de reservas fracionadas, trazendo o mundo monetário para o mundo real.

Proponho apenas a moeda eletrônica, onde cada cidadão disporia de uma carteira eletrônica que seria a porta para suas movimentações financeiras (compra/venda) que seriam registradas numa base de dados mantida pelo estado. Seria a única moeda circulante no país. Cada débito seria relacionado a um crédito de igual valor. Numa transação de compra/venda, por exemplo, o vendedor solicitaria um crédito do comprador (no valor do produto vendido/comprado), e este autorizaria o débito em sua conta corrente.

Nesse sistema, não haveria a necessidade de bancos para se guardar dinheiro, pois este já estaria "armazenado" num sistema central de modo seguro. E por que digo seguro?

Porque uma das condições de minha proposta é que o dinheiro deixaria de ser um título ao portador e passaria a ser um título nominal. Ou seja, na base de dados central, toda movimentação financeira teria vínculo entre o titular do débito e o referente titular do crédito. Qualquer contestação (seja por fraude, roubo ou outro meio ilícito qualquer) seria facilmente investigável, já que seria plenamente rastreável. Isso praticamente eliminaria o risco de crimes de motivação financeira. Seria uma consequência de enorme importância do sistema aqui proposto.

Mas tem mais. Na ausência de bancos, qualquer pessoa (física ou jurídica) poderia conceder empréstimos (lastreados em dinheiro realmente existente, diga-se de passagem) a outras. Para isso, o credor associaria uma saída de sua conta para a conta do tomador do crédito com saídas futuras da conta do devedor para a sua própria (do credor) – obviamente com a autorização de ambos os envolvidos –, já contabilizados os juros. Nas datas acordadas haveria automaticamente o pagamento das parcelas. Ao devedor não haveria a possibilidade de sustar tais pagamentos. E se não houvesse saldo suficiente para honrar alguma parcela?

Aí haveria a transferência do saldo do devedor para o credor, e a dívida ficaria registrada em sua conta agora contando os encargos previamente acordados em caso de saldo insuficiente. Como não haveria outro modo de uma pessoa receber dinheiro senão por sua carteira eletrônica vinculada a sua conta, assim que o devedor recebesse um novo crédito, este seria automaticamente transferido para o credor até que houvesse o pleno pagamento da obrigação acordada.

Está aí outra tremenda vantagem desse sistema: o risco quase zero de calote.

Obviamente que, numa concessão de crédito, o credor – para a análise de risco da transação – poderia exigir do tomador uma consulta oficial a seus compromissos futuros para decidir se concede ou não o emprétimo.

Outra vantagem: este sistema ajudaria as pessoas a não se tornarem insolventes, pois aos primeiros sinais de insolvência, o devedor teria muita dificuldade em conseguir crédito e aumentar ainda mais suas dívidas. Todas as suas remunerações seriam direcionadas ao pagamento de suas dívidas até que não houvesse compromisso em atraso.

Imagine o efeito disso sobre as taxas de juros... Iriam despencar!

E como ficariam as transações internacionais, já que os outros países não teriam tal sistema?

Simples. Para cada entrada de dinheiro em moeda estrangeira, o governo lançaria um crédito convertido para a moeda eletrônica na conta do recebedor e reteria em seus cofres (ou depositado de alguma outra forma) o valor original da transação na moeda estrangeira. Para cada fluxo de dinheiro para o exterior, o processo ocorreria de forma inversa.

Utopias à parte, está lançada a ideia – se é que alguém não o fez antes – para as devidas críticas e comentários.

Responder
Andre Cavalcante 26/08/2012 18:41:52

Caro Márcio,

Sou engenheiro também. Que fiques um bom tempo conosco e vais perceber várias absurdidades que escreveste. Mas nada grave essa mudança, vais ver.

Sobre a existência de uma moeda em um servidor central é o pior dos cenários: quem controla o(s) servidor(es), controlaria tudo. E mais, uma das funções primordiais do dinheiro (da moeda) é justamente permitir a anonimidade dos que transacionam com ela. Com esse seu cenário, você acaba com isso.

Já a mesma ideia tua, mas distribuída (e anônima) seria o paraíso, certo? Opa, mas isso jé existe: clique aqui

Responder
Marcio Alcantara 29/08/2012 14:48:13

Prezado Andre,

Adiciono algumas informações que sempre estiverem presentes em minha mente mas que esqueci de externar no comentário anterior.

Em minha proposta, a quantidade de moeda seria imutável: não seria criada nem destruída. Apenas mudaria de mãos. O total de dinheiro existente no país poderia ser consultado e confirmado por qualquer usuário a qualquer tempo. O servidor também seria passível de auditoria - como também foi proposto no caso dos bitcoin's do artigo que você me indicou - realizável a qualquer tempo por um poder independente ao Executivo (por exemplo, o Judiciário).

Sendo assim, qualquer "criação" de moeda seria quase instantaneamente percebida e desfeita, além de haver punição a seus autores. Qualquer débito indevido obviamente seria contestado pela pessoa prejudicada, sendo investigado e desfeito.

Além disso, não concordo com essa função primordial da moeda: a anonimidade dos que transacionam com ela. Entendo que deve haver sigilo em toda transação. Este só deveria ser quebrado com ordem judicial para uma investigação, uma contestação de débito, etc. E mesmo assim, essa informação seria revelada apenas às partes interessadas. Ou seja, haveria, de fato, a anonimidade, exceto quando ela incorresse na ocultação de algum crime.

Atenciosamente,
Márcio Alcântara

Responder
Diógenes 03/09/2012 16:36:15

Essa sua idéia me faz remeter a um recente filme "In Time, 2011". Inevitavelmente esse dinheiro iria se concentrar em poucos.

Responder
Marcio Alcantara 03/09/2012 19:17:28

Por que?

Responder
Andre Cavalcante 03/09/2012 17:35:59

Quando se fala que o dinheiro permite anonimidade entre as partes que transacionam, isto é uma característica básica da moeda.

Quando você vai comprar o seu pão na padaria, não necessita se identificar. Eu quero pão, você quer vender o pão, acordamos o preço e realizamos a transação. Qualquer coisa fora disso é totalitarismo.

Repense os seus conceitos lendo os artigos do site.

Sugestão: antes de postar novos comentários com dúvidas verifique se a mesma já não foi fartamente elucidada no site. Como é o caso da moeda.

Responder
Marcio Alcantara 03/09/2012 19:32:28

Talvez você não tenha me entendido. Em minha sugestão, a anonimidade seria a regra, não a exceção. Logo, atenderia a seu exemplo: "Quando você vai comprar o seu pão na padaria, não necessita se identificar."

Discordo quando você diz: "Qualquer coisa fora disso é totalitarismo." Essa posição me parece meio totalitária ao acusar de totalitarismo uma proposta divergente do que você acredita.

A bem do contraditório, também sugiro que você "repense os seus conceitos lendo os artigos" de outros sites.

Se você quiser discutir com argumentos fundamentados na razão, estou aqui para debater. Mas sem fundamentar sua palavras, fica um pouco difícil de interagir.

Atenciosamente,
Márcio Alcântara

Responder
Andre Cavalcante 04/09/2012 08:15:38

Márcio,

Será a última postagem minha sobre um comentário seu.
Por favor tome-a com boas intenções, que é o guardo para com todos aqui do site.

1. Totalitarismo é o regime político em que o estado, sob o domínio de uma única pessoa, um grupo político, uma facção ou classe, não reconhece limites à sua autoridade, a qual se sobrepuja a todas as demais, e se esforça por regular todas os aspectos da vida pública e privada. Reconhecer que uma coisa é totalitária em detrimento de outra não faz esse pensamento ser totalitário. Defender a posição de submeter a todos à uma vontade é que é totalitário.

2. Você disse: "Proponho apenas a moeda eletrônica, onde cada cidadão disporia de uma carteira eletrônica que seria a porta para suas movimentações financeiras (compra/venda) que seriam registradas numa base de dados mantida pelo estado. Seria a única moeda circulante no país. Cada débito seria relacionado a um crédito de igual valor. Numa transação de compra/venda, por exemplo, o vendedor solicitaria um crédito do comprador (no valor do produto vendido/comprado), e este autorizaria o débito em sua conta corrente."

Ora, é impossível a existência de uma conta eletrônica, em UM SERVIDOR central, na qual o dono da conta não tenha que ser identificado de alguma forma. E mais: para que cada crédito seja "relacionado" a um débito em outra conta de mesmo valor, isso somente pode acontecer se ambos sejam identificados na ocorrência da transação. Isso é informática básica. Pior de tudo, na mão do estado.

3. Você disse: "Talvez você não tenha me entendido. Em minha sugestão, a anonimidade seria a regra, não a exceção." - Isso é impossível dado o que coloquei no 2.

4. Assumindo que um servidor central controle todas as transações e as torne transparentes, isso é, qualquer pessoa pode ir lá verificar as transações. Isso é totalitário do mesmo jeito (independente da transparência do ato), no sentido que não permite a existência de qualquer outra situação em que duas pessoas não queiram participar desse arranjo. O único arranjo não totalitário é ter a identificação das pessoas e a não transparência das transações em absoluto acordo mútuo e absolutamente opcional.

5. Você disse: "Se você quiser discutir com argumentos fundamentados na razão, estou aqui para debater. Mas sem fundamentar sua palavras, fica um pouco difícil de interagir."

Sobre o fundamentar as minhas palavras, mostra que você não fez o que sugeri desde o primeiro comentário: leia os artigos. Depois liguei alguns exatamente sobre a questão da moeda e da moeda eletrônica. Se você acha que não fundamentei, devia ter clicado nas ligações. Sobre o uso da razão, os parágrafos 2 e 3 mostram acima que eu não saí da pura lógica. Já você, a cada comentário diz uma coisa diferente.
Conclusão minha: você não está querendo debater, mas apenas criar polêmica. Por isso esse é meu último comentário sobre o seu neste artigo.

Responder
anônimo 31/08/2012 06:58:50

Prezado Leandro:

Trago à discussão tema de certa forma ligado a esse com que vc nos brindou. Obtive-o no endereço futurefastforward.com/images/stories/financial/TheGoldProblemRevisited2.pdf , de autoria de ANTAL E. FEKETE, intitulado THE GOLD PROBLEM REVISITED*, publicado ontem (30/08/12) no endereço acima referido. O interesse pela matéria é o fato de seu autor fazer alguns contrapontos a Ludwig Mises, como se vê logo ao início do texto:
" The article The Gold Problem of Ludwig von Mises published 47 years ago in 1965, just six years before he died (the gold standard died with him in the same year) has some breath-taking thoughts, for example, "the gold standard alone can make the determination of money's purchasing power independent of the ambitions and machinations of governments, of dictators, of political parties, and of pressure groups", or: "the gold standard did not fail: governments deliberately sabotaged it, and still go on sabotaging it." But for all our admiration we would be amiss if we did not point out certain errors in his article. These are all errors of omission, and correcting them would hopefully make the Mises article even more helpful to the discriminating reader.
Mises fails to answer his own question why gold is the best choice to serve as money.
Indeed, why not another commodity, or a basket of commodities? The reason is that the marginal utility of gold is unique in that it declines at a rate slower than that of any other substance on Earth."

Confesso que meu conhecimento do idioma inglês é "feijão com arroz", razão pela qual devo haver "flutuado" aqui e ali. De qualquer forma, se vc tiver tempo, prezaria saber sua opinião sobre esse artigo.
Grato.

Responder
Leandro 31/08/2012 09:37:34

Eu nunca tive interesse em acompanhar os escritos de Antal Fekete, mas já li algumas críticas a seu respeito (críticas sempre contendo várias citações de trechos de sua obra). O senhor Fekete defende uma teoria chamada de "Real Bills Doctrine".

Tal teoria diz, de maneira resumida, que duplicatas emitidas pelo comércio (as "bills of exchange") podem ser monetizadas por bancos e isso não seria inflacionário. E não seria inflacionário porque haveria um aumento na quantidade de duplicatas e isso permitiria a criação de mais riqueza.

Como esse sistema já existe hoje -- todos os bancos descontam duplicatas, e fazem isso criando dinheiro eletrônico (exatamente como descrito nesse presente artigo) --, Fekete diz ser necessário criar um novo sistema de compensação bancária, o qual passaria a aceitar duplicatas junto com moeda eletrônica como forma de controlar as reservas bancárias.

Por que ele acha que tal sistema não seria inflacionário não faz o mínimo sentido. Afinal, os bancos estão criando dinheiro. Sua explicação é totalmente convoluta. Exatamente por isso, por não ser capaz de convencer em relação aos pontos mais básicos de sua teoria, nunca dei atenção a ele. Se ele resolveu também criticar Mises, bem, boa sorte. Ele vai precisar.

Porém, caso se interesse, aqui vai uma troca de emails entre Fekete e um defensor de Mises exatamente sobre esse assunto que você mencionou. Fekete parece confundir conceitos básicos de utilidade marginal.

archive.mises.org/3869/marginal-utility-of-gold-and-dr-fekete/

Abraços!

Responder
Daniel 03/09/2012 21:15:43

Venho lendo o conteúdo do site e acompanhando as explicações da crise de 2008 há um tempo. Nos EUA e mais recentemente na Europa a quantidade de dinheiro na economia foi multiplicada várias vezes, pelo menos no EUA, já há 4 anos. Agora no Brasil também percebemos um grande aumento no dinheiro em circulação e na quantidade de crédito concedido.
Segundo a teoria Austríaca a inflação depende principalmente da quantidade de dinheiro colocada em circulação. Então como até hoje os EUA não enfrentam uma inflação, nem ao menos uma pequena inflação, mesmo o Brasil não percebeu uma inflação preocupante apesar do aumento da quantidade de dinheiro.
Talvez seja um campo para nossos atuais economistas Austríacos acrescentarem a teoria já existente.

Responder
Leandro 03/09/2012 21:26:58

Mas isso já foi exaustivamente explicado aqui. Quase todo o dinheiro criado pelo Fed está sendo voluntariamente mantido pelos bancos depositados junto ao próprio Fed, que está pagando juros de 0,25% sobre estas "reservas em excesso". O fato de essas reservas não terem vazado para a economia explica a não ocorrência de uma hiperinflação.

Detalhes completos neste artigo. (Leia também o quarto comentário da seção de comentários).

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1182

Quanto ao Brasil, não sei bem de onde você tirou que a inflação de preços está contida. De 2006 até hoje -- ou seja, em meros 6 anos -- a inflação de preços, utilizando a extremamente branda metodologia do IBGE, está acumulada em quase 40%. Ou seja, seu dinheiro perdeu -- na mais branda das hipóteses -- 40% do seu poder de compra em apenas seis anos. você não acha isso um tanto assustador?

Responder
Andre Cavalcante 04/09/2012 08:20:12

"Quase todo o dinheiro criado pelo Fed está sendo voluntariamente mantido pelos bancos depositados junto ao próprio Fed, que está pagando juros de 0,25% sobre estas "reservas em excesso"."

E isso, sem falar nos trilhões de dólares de reserva que estão na China e Japão e os bilhões no Brasil e Índia. Basicamente tudo criado depois de 2007/2008.

Abraços

Responder
Daniel 05/09/2012 17:54:17

André, até onde sei a maior parte das reservas que estão na China e Japão são em títulos que foram comprados em contra partida de mais dinheiro depositados para os EUA.

Responder
Daniel 05/09/2012 17:50:36

A inflação no Brasil nesse passado recente é bem alta sim, mas para os padrões brasileiros não é tão assustador (ao contrário do que seria em qualquer país desenvolvido).
De qualquer forma o meu argumento é que a inflação não é proporcional a expansão monetária e creditícia. Seu artigo cita uma expansão de crédito de mais de 3,5 vezes e um aumento de depósitos a prazo de mais de 3 vezes enquanto a inflação foi de 40%.
Creio que possam existir explicações adicionais para isso, por isso aproveito a oportunidade que o mises.br dá para os leitores para discussão.

Responder
Leandro 05/09/2012 18:12:25

Mas é claro que a inflação de preços não é proporcional à expansão monetária e creditícia. Nem poderia ser. Quem afirma isso é a Escola de Chicago, defensora da Teoria Quantitativa da Moeda.

Seria realmente muito estranho se o nível de preços aumentasse exatamente na mesma razão da expansão da oferta monetária.

Explico.

Quem afirma que os preços sobem de acordo com a expansão monetária e creditícia está partindo da premissa Chicago-keynesiana de que a consequência da inflação monetária é apenas o aumento dos preços, quando o certo seria analisar como os preços seriam na ausência da inflação monetária.

Por exemplo, se a oferta monetária fosse fixa, os preços tenderiam a cair -- e é essa queda em potencial que é completamente ignorada por todos os índices de preços divulgados. Assim, para termos a exata noção do efeito de uma expansão monetária e creditícia sobre os preços, temos antes de considerar qual seria a queda potencial nos preços caso essa expansão monetária não tivesse ocorrido.

E esse raciocínio tem de ficar claro. Em uma economia de mercado, todos os indivíduos trabalham de modo a produzir bens e serviços de maneira cada vez mais eficiente. Nesse cenário, em que a oferta de bens e serviços aumenta constantemente, se a oferta monetária fosse fixa, o preço de cada bem e serviço inevitavelmente cairia com o passar do tempo. Qualquer comportamento diferente desse seria incompreensível.

Assim, se você considera a inflação como sendo apenas o aumento ocorrido nos preços, então a estatística que você utiliza está necessária e sistematicamente ignorando a queda natural de preços que também é parte da inflação.

Para ficar mais claro: suponhamos que, em uma economia qualquer, na qual a oferta monetária fosse fixa, os preços no mercado caíssem naturalmente 5% ao ano. Agora, suponha que um banco central tenha sido criado e que, já no ano seguinte, ocorresse um aumento de 5% nos preços em relação ao ano anterior. Nesse cenário, os economistas diriam que a inflação foi de meros 5%. Mas isso estaria errado. A inflação não foi de meros 5%. Para sabermos a real inflação ocorrida, temos de comparar esse novo nível de preços com o nível que ocorreria caso não houvesse ocorrido uma expansão monetária -- isto é, caso o banco central não tivesse sido criado.

Assim, tomemos como base o ano anterior à expansão monetária. O nível de preços seria 100 (apenas para facilitar os cálculos). No ano seguinte, caso tudo continuasse como antes -- isto é, com oferta monetária fixa -- haveria uma queda de 5% nos preços. Logo, o nível de preços seria de 95. Porém, como houve uma expansão monetária e os preços subiram 5%, o nível dos preços foi de 105.

Qual a inflação real do período? Ora, se o nível de preços era para ser de 95, mas foi de 105, então a inflação real do período foi de 105/95 = 10,5%. Ou seja, nesse exemplo simples, a estatística oficial, ao declarar inflação de apenas 5%, declarou menos da metade da real inflação de preços ocorrida na economia.

Portanto, sempre que você vir um IPCA indicando 6,5%, pense em como ele seria caso não houvesse ocorrido expansão na quantidade de dinheiro e de crédito na economia. Se a economia tiver produzido 5% a mais de bens e serviços, então o IPCA teria de ser de, por exemplo, -5%. A diferença entre -5% e 6,5% (106,5/95 = 12,1%) foi a real inflação de preços ocorrida.

Traduzindo: jamais se deve ignorar os efeitos insidiosos da inflação. Analisar apenas índices de preços é algo um tanto afastado da realidade. Caso tenha ocorrido expansão monetária, mesmo que uma economia apresente 0% em algum índice de inflação, ainda assim houve inflação de preços -- haveria deflação na ausência dessa expansão.

Grande abraço!

P.S.: ademais, como eu havia dito -- repetidamente -- o IPCA é o índice mais brando de todos. Se você utilizar o deflator do PIB (também calculado pelo IBGE), a inflação acumulada pula para 51% -- aumento de 27,5%.

Responder
cristiano 05/09/2012 21:06:04

minha duvida é qual o limite para esta criação de dinheiro e se esse dinheiro criado se torna um dinheiro devido e se sim a quem?

Responder
Leandro 06/09/2012 05:50:24

O limite é justamente aquele que foi explicado no texto: a propensão das pessoas a sacar dinheiro dos bancos e não redepositá-lo.

Fora isso, enquanto os bancos estiverem expandindo o crédito e o Banco Central se mostrar disposto a fazer operações de mercado aberto com o intuito de manter os compulsórios dos bancos dentro do limite estabelecido, a criação de dinheiro não sofre limitações técnicas.

Responder
Osvaldo 06/09/2012 06:49:33

Leandro, excelente artigo. Tenho uma dúvida que ainda não achei resposta. Qual a explicação para que permaneça a cotação do dólar na casa dos dois reais há dez anos, apesar de nos últimos 10 anos a moeda Real já ter sofrido 120,11 % de inflação pelo indice do IGP-M, e o dólar americano no mesmo período 27,21% pelo índice oficial CPI? Pelas minhas projeções, considerando esta defasagem, o dolar já teria ultrapassado os cinco reais. Desculpe fugir um pouco do tópico.

Responder
Leandro 06/09/2012 07:11:40

Caro Osvaldo, porque a oferta monetária não é a única determinante da taxa de câmbio. Tão importante quanto a oferta monetária é a demanda por dinheiro. E esta depende diretamente do crescimento econômico. Quanto maior o crescimento econômico de um país, mais a sua moeda é demandada. Quanto maior o crescimento econômico de um país em relação a outro, mais a sua moeda tende a se valorizar em relação à moeda deste outro.

Foi isso que ocorreu em relação ao Brasil (que é um país em desenvolvimento) e aos EUA (que já é desenvolvido). Mas atenção para o fato de que a moeda se valorizar não implica ser mais forte. São coisas distintas.

Todos os detalhes desta teoria foram especificados neste artigo.

Abraços e obrigado pelo bondoso elogio!

Responder
Leandro 21/09/2012 08:44:38

Os bacanas não param!

MP destina crédito adicional para Caixa e BB

O governo editou nesta sexta-feira a Medida Provisória (MP) 581 que, entre outras providências, constitui fonte adicional de recursos para ampliação de limites operacionais da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil. A medida autoriza a União a conceder crédito à Caixa de até R$ 13 bilhões e ao BB, de até R$ 8,1 bilhões, "em condições financeiras e contratuais definidas pelo ministro de Estado da Fazenda que permitam o enquadramento como instrumento híbrido de capital e dívida apto a integrar o patrimônio de referência, conforme definido pelo Conselho Monetário Nacional".

A MP diz que, para a cobertura desse crédito, a União emitirá títulos da dívida pública mobiliária federal, sob a forma de colocação direta, em favor da Caixa e do BB. As características desses papeis ainda serão definidas pelo Ministério da Fazenda.


Ou seja, aumenta-se o endividamento de toda a população apenas para que os bancos estatais sigam expandindo o crédito artificial, pressionando a inflação de preços, destruindo o poder de compra das pessoas e estimulando o endividamento dos otários. O resultado é esse aqui:

Renda comprometida das famílias com dívidas bate recorde de 22,38%

Para um gráfico mostrando que, no quesito endividamento, estamos duas vezes piores do que os americanos, veja este artigo.

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1320

Responder
Julio 21/09/2012 09:14:21

Então, o governo está incentivando o consumo. Ok!
A inadimplência de financiamento de carros estava altíssima, no entanto, as vendas de carros bateram recorde em agosto graças aos incentivos do governo.
As minhas dúvidas são: Isso vai prestar? O que vai acontecer? As montadoras estão na expectativa de continuar vendendo carros nesse ritmo? Elas vão continuar vendendo carros nesse ritmo? Se não continuarem, qual o próximo "empurrãozinho" do governo?

Alguém poderia ter a bondade de me responder?

Responder
Leandro 21/09/2012 09:55:46

Você próprio já respondeu. Basta utilizar a lógica pra entender que um modelo econômico baseado no consumismo e no endividamento perpétuo não tem como durar. Uma hora tudo entra em colapso. A base de uma economia é a produção e a poupança, não o consumismo e o endividamento.

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1179

Responder
Felipe 09/10/2012 16:31:14

Leandro, boa noite. Estou elaborando um trabalho de pós-graduação, onde irei abordar, dentre outros aspectos, como a regulação, principalmente, a Lei Sarbanes-Oxley, não resolveu os problemas posteriormente criados após a sua edição. Você teria algum artigo/texto para sugerir para a minha leitura? Caso eu precise de alguns dados poderia me ajudar como obtê-los mais rapidamente? Obrigado.

Responder
Fernando Chiocca 10/10/2012 07:11:38

Prezado Felipe, o Leandro tirou uns dias para descansar. Quando retornar, ele lhe responde.

Responder
Felipe 10/10/2012 15:26:40

Beleza, Fernando. Obrigado.

Responder
Rene 10/10/2012 07:51:56

Seria muito interessante se os bancos fossem obrigados a explicar todos estes detalhes quase nunca mencionados a todo cliente que for abrir uma conta em banco, a entregar panfletos com explicações a prova de idiotas, e fossem obrigados a divulgar, tanto em seus sites como nas agências, qual o nível de reservas de moedas que eles possuem no momento.

Responder
Erick V. 10/10/2012 09:51:27

Seria muito interessante mesmo... pena que tal "obrigação" representaria (mais) uma intervenção estatal violenta em seu funcionamento.

Agora, se um banco qualquer resolvesse espontaneamente tomar tais atitudes, com certeza ganharia minha simpatia e possivelmente minha conta.

Responder
Rene 10/10/2012 12:12:32

Erick os bancos já fazem parte hoje de um dos setores mais regulamentados da economia. E a regulamentação bancária acaba mais ajudando os bancos do que atrapalhando (ainda que terrível para nós, consumidores): Permite a eles praticarem reservas fracionárias com muito menos risco do que aconteceria em um livre mercado, dificulta a entrada de concorrentes, a inflação gerada pelo dinheiro extra na economia torna a todos dependentes do banco para armazenar poupança. O meu comentário foi irônico, porque se estes detalhes fossem amplamente divulgados, gerariam uma desconfiança muito grande por parte da população. O governo nunca obrigaria os bancos a fazer isso, visto que correria o risco de perder seu maior financiador, que é o sistema bancário amparado pelo Banco Central.

Responder
Erick V. 10/10/2012 12:33:29

Sim, conheço o sistema e os problemas da regulamentação - os artigos daqui do site sobre o assunto têm sido minha leitura preferida nos últimos dias. Só não tinha captado a ironia no seu comentário =P

Responder
jotinha(zeca) 14/10/2012 17:47:00

Belo artigo. Simplesmente interessante. Agora sei de onde vem o dinheiro que nossos clientes vem enlouquecidos tomar emprestados e pagar juros por eles hehehhehe. Mundo sinistro não acham?

Responder
Augusto 12/11/2012 12:47:31

Leandro,

Apesar de eu ser formado em economia, estou ainda em uma saga pessoal para entendê-la.

Estou evoluindo rapidamente em vários pontos e esse seu artigo fechou algumas peças do meu quebra-cabeça. Obrigado!

No entanto, ainda estou confuso sobre algumas coisas.

Uma parte eu não entendi, foi essa:

"A função do Banco Central em todo este esquema é propiciar seguidas injeções de reservas bancárias para permitir que a expansão do crédito bancário prossiga incólume. Afinal, sempre que ele pára de injetar reservas, a SELIC sobe e o povo reclama"

A primeira frase, ok. A função do banco central é imprimir dinheiro dando a garantia de que o banco pode tomar mais risco do que normalmente tomaria. Mas como essa emissão de moeda ocorre na prática? O BC faz um empréstimo ao banco e entrega-lhe um bolo de papel moeda?

A segunda frase me deixou um pouco confuso também. Entendo que se o BC prover menos papel moeda, o mercado interbancário ficará com menos recursos, e a taxa de empréstimo interbancária tende a subir. No entanto a SELIC não é fixada pelo BC? Como o governo consegue fixar o preço da SELIC, e impedir que os bancos negociem no mercado interbancário a outra taxa?

Funcionaria como um controle de preços, no qual o BC teria de prover a oferta ilimitada de papel moeda caso os bancos demandem no mercado interbancário? (a não ser que os bancos estejam dispostos a emprestar a uma taxa mais baixa que o BC, que eu imagino ser algo raro).

Na verdade quando o Copom decide a SELIC ele implicitamente está decidindo quanto de papel moeda ele vai emprestar para os bancos injetarem na economia? Ou a SELIC pode variar além do desejo do BC?

Se puder me responder se estou correto e/ou me indicar artigos que expliquem como funcionam ou detalhes dessas operações, agradeço.

Abraços e obrigado!

Responder
Leandro 12/11/2012 13:30:49

Prezado Augusto,

"Mas como essa emissão de moeda ocorre na prática?"

O BC compra títulos públicos que estão em posse do sistema bancário. Para comprar esses títulos, ele cria dinheiro eletrônico e o injeta nas reservas do sistema bancário. Todo este processo foi explicado em extremos detalhes neste artigo sobre a SELIC:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=344


"Entendo que se o BC prover menos papel moeda, o mercado interbancário ficará com menos recursos, e a taxa de empréstimo interbancária tende a subir. No entanto a SELIC não é fixada pelo BC? Como o governo consegue fixar o preço da SELIC, e impedir que os bancos negociem no mercado interbancário a outra taxa?"

A SELIC não é fixada. O BC apenas estipula um valor (que é a meta a ser alcançada), e então começa a comprar e vender títulos (respectivamente, expandir e enxugar as reservas bancárias) de modo a tentar alcançar esta meta. De novo, isso está explicado no artigo linkado acima.

Uma vez alcançada esta taxa, por que os bancos negociariam fora dela? Se você é o Itaú e quer empréstimos para cobrir suas reservas, não tem como o Bradesco cobrar mais caro de você, pois você poderia simplesmente vender títulos para o BC à taxa por ele estipulada. Pelo mesmo raciocínio, você não vai conseguir emprestar mais caro para o Bradesco, pois ele também pode vender títulos ao BC.

A mecânica, aliás, funciona exatamente igual a quando o BC estipula um câmbio fixo. Se o BC estipula que 1 dólar vale 2 reais, você não venderia 1 dólar a, por exemplo, R$1,80, pois o BC garante que irá comprá-lo de você por R$2. Da mesma forma, você não consegue comprar 1 dólar a, por exemplo, R$1,95, pois o vendedor irá preferir vendê-lo ao BC. A coisa funciona como um controle de preços, em que ofertantes e demandantes tendem a transacionar utilizando um só valor, que é aquele estipulado pela autoridade.


"quando o Copom decide a SELIC ele implicitamente está decidindo quanto de papel moeda ele vai emprestar para os bancos injetarem na economia?"

Não, o BC não tem controle nenhum sobre a quantidade de dinheiro que ele vai criar. A partir do momento que o BC decide trabalhar apenas com uma meta para a SELIC, ele fez injeções no mercado interbancário de modo a manter a SELIC dentro da meta. Ele perde totalmente o controle sobre a quantidade de dinheiro a ser criada. Quando você estipula uma determinada taxa de juros como alvo, você perde totalmente o controle do crescimento da base monetária e dos agregados monetários, os quais passam a se comportar de forma totalmente errática.

"Ou a SELIC pode variar além do desejo do BC?"

Poder, pode. Mas ele sempre pode manipulá-la por meio de injeções monetárias.


Abraços!

Responder
Vinícius 21/11/2012 06:22:20

Leandro,

Primeiro, parabéns pelo artigo. Venho acompanhando o site há um tempo e estou gostando bastante dos textos publicados.
Não entendi a criação de $5.000 na sua terceira tabela. De acordo com o Cosif, o valor deveria permancer o mesmo, pois foi subtraído $5.000 de depósitos a vista para depósitos a prazo, e esses $5.000 não entrariam na conta 1-disponibilidades.
Caso possa clarear um pouco essa situação ajudará um bocado. Enquanto isso vou ver se consigo encontrar essa possibilidade no Cosif.

Abraços

Responder
Leandro 21/11/2012 06:40:23

Obrigado, Vinícius. Acho que você pulou a explicação entre a segunda e a terceira tabela.

Após a migração de depósitos da conta-corrente para depósitos a prazo, havia $4.000 de reservas lastreando depósitos em conta-corrente de $5.000. Pela regra do compulsório utilizada no exemplo, as reservas têm de ser 40% das contas-correntes. Isso significa que as contas-correntes poderiam subir para até $10.000 e ainda assim o sistema bancário estaria operando dentro das regras.

Ato contínuo, os bancos simplesmente criaram mais $5.000 para conceder empréstimos (veja no lado esquerdo da tabela que o item crédito subiu de $15.000 para $20.000). Esse dinheiro criado ($5.000), após ter sido emprestado e gasto, foi depositado na conta-corrente de alguma pessoa ou empresa. Por isso o item "depósitos em conta-corrente" subiu de $5.000 para $10.000.

Não houve, ao contrário do que você parece ter entendido, subtração de uma conta seguida de sua imediata adição. Isso realmente não faria sentido, pois estar-se-ia criando um passivo sem uma correspondente criação de ativo. O que houve foi, portanto, nessa sequência: 1) remanejamento de contas (corrente para a prazo), 2) liberação de reservas, 3) criação de dinheiro para empréstimos em um total que fizesse com que as reservas (inalteradas durante todo o tempo) voltassem a ser de 40% as contas-correntes, 4) dinheiro emprestado, e finalmente 5) dinheiro sendo depositado nas contas-correntes.

Espero que tenha esclarecido agora.

Abraços!

Responder
Ramirez 24/12/2012 10:08:26

Leandro, fui introduzido hoje aos seus artigos, li vários e gostaria de te parabenizar pelo ótimo trabalho. Todos os artigos que li achei muito didáticos e informativos. Porem senti as vezes a falta de um pouco mais de imparcialidade e estilo acadêmico no direcionamento da informação. A maioria das pessoas provavelmente discordem de mim por verem nesse tipo de artigo uma forma de chocar as outras pessoas (e chamar atenção) ao compartilhar o teu pensamento, e por isso provavelmente você não deva me ouvir.
No caso desde artigo em particular, eu gostaria de ter visto você salientar que sem a monitorização da economia (criação de dinheiro "do nada" nas suas palavras) o dinheiro se tornaria escaco com o crescimento da economia, forcando as taxas de juros para cima e desacelerando o desenvolvimento. Essa foi uma das razoes para a abolicao do golden standard. Alem disso, uma economia operando num ponto de equilíbrio (AS/AD) abaixo do full-employment operaria com recursos disponiveis inutilizados requerendo uma ação do governo para empurrar tal equilíbrio para mais perto do full-employment. O jeito mais rápido de se fazer isso eh através de politica de expansão monetária. Todos os paises do MUNDO fazem isso. Outro ponto que eu achei um pouco desvirtuado foi sobre os bancos serem capazes de "inventar dinheiro". Não ficou claro que esse dinheiro não se torna parte do capital do banco. Essa quantidade de dinheiro criada "do nada" entra no balanço do banco como "divida" que tem que ser eventualmente quitada. Sendo que os Bancos só podem "criar" esse dinheiro para emprestar, essa quantidade eh limitada pelo risco de não receber, ja que o lucro do banco eh o juro proveniente do emprestimo e nao o dinheiro "criado" em si. Se a porcentagem de calote for muito alta o banco não vai ter dinheiro para cobrir seus gastos e suas reservas, aumentando a razão passivo/ativo se tornando uma instituição inconfiável e eventualmente indo a falência. Nao?
Por favor me corrija se estiver falando alguma besteira pois você muito melhor do que eu sabe como tudo isso funciona.
Abraco

Responder
Leandro 24/12/2012 11:09:02

Prezado Ramirez, estarei com com acesso remotíssimo à internet até quarta-feira, e estou escrevendo por meio de celular. No momento, não posso dar uma resposta completa, mas afirmo que todo o seu raciocínio está errado, desde o real motivo para a abolição do padrão-ouro (o governo queria ter plena liberdade para se financiar sem impostos) até a sua afirmação sobre taxas de juros aumentarem com oferta monetária constante (uma impossibilidade econômica; afinal, como pagar juros nominais altos se a oferta monetária não aumenta?), passando pela afirmação de que uma economia só pode crescer se houver aumento contínuo da oferta monetária -- este último aspecto, aliás, recorrentemente abordado em vários outros artigos do site, inclusive meus também.

Por fim, ressalto que a última parte da sua mensagem, sobre a limitação natural dos bancos em criarem dinheiro, foi explicitamente abordada no artigo, e foi deixado claro que, a partir do momento em que se estabelece um Banco Central e este deixa implícito que irá sempre socorrer os bancos, tal limitação é abolida. Releia o texto com mais atenção, por gentileza.

Conto com a caridade de alguns leitores aqui para lhe dar as informações corretas, bem como sugestões de artigos (escrever esta resposta via celular já me foi extenuante o suficiente para um Natal em família).

Abraços e seja bem-vindo.

P.S.: não sou, nem nunca fui e nem tenho a menor intenção de ser "acadêmico". Minha intenção sempre foi a de passar informações da maneira mais cristalina possível. Tente encontrar artigos acadêmicos sobre o referido assunto e veja se você logrará êxito, tanto em termos de informação quanto em termos de clareza. Acho que você está superestimando demais a Academia.

Responder
Ramirez 22/01/2013 20:44:26

Ola Leandro, obrigado por responder. Gostaria de fazer mais algumas perguntas para entender melhor. Fico granto se puder responder:

"o governo queria ter plena liberdade para se financiar sem impostos"

Quem decide quanto dinheiro vai ser criado? O que limita isso? Somente o medo da inflacao? Quem decide se vai ser criado 10 reais ou 11 reais? Baseado em que e a cada quanto tempo?

"até a sua afirmação sobre taxas de juros aumentarem com oferta monetária constante (uma impossibilidade econômica; afinal, como pagar juros nominais altos se a oferta monetária não aumenta?"

o dinheiro nao eh um bem como os outros que respeita a lei da oferta e da procura? Se a economia cresce e a oferta monetaria eh constante, o dinheiro se tornara escasso, seu "preco" nao aumentara? Se amanha tiver na porta do banco o dobro de gente requerendo emprestimos, o que o deteria de subir os juros?


"passando pela afirmação de que uma economia só pode crescer se houver aumento contínuo da oferta monetária"

eu nao disse isso. eu disse que no mundo INTEIRO expansao monetaria eh usada pra combater economias em recessao (below full employment) aumentando a demanda agregada. Isso esta nos livros, eu nao estou inventado.


Conto com a caridade de alguns leitores aqui para lhe dar as informações corretas, bem como sugestões de artigos (escrever esta resposta via celular já me foi extenuante o suficiente para um Natal em família).

Muito grato pelo seu tempo!


"P.S.: não sou, nem nunca fui e nem tenho a menor intenção de ser "acadêmico". Minha intenção sempre foi a de passar informações da maneira mais cristalina possível."

Com "academico" eu quis me referir a mostrar um pouco mais dos dois lados da moeda, sem TANTA opniao. Por exemplo; Existe algum beneficio para a expansao monetaria? Existe algum beneficio a existencia de bancos centrais? Quais? Ou eh tudo uma grande conspiracao contra o povo? Todos os paises do mundo estao errados por ter um banco central e fazer expansao monetaria? Eh isso que eu quis dizer....

Obrigado mais uma vez, estou aprendendo muito com as suas analises.


PS: me desculpe pela falta de pontuacao no meu teclado.

Responder
Leandro 23/01/2013 00:39:22

"Quem decide quanto dinheiro vai ser criado? O que limita isso? Somente o medo da inflacao? Quem decide se vai ser criado 10 reais ou 11 reais? Baseado em que e a cada quanto tempo?"

Quem decide é o Banco Central, mas ele fica à mercê do sistema bancário de reservas fracionárias.

Ler:

A taxa SELIC - o que é, como funciona e outras considerações

Fazenda ou Banco Central - quem é o responsável pela atual disparada de preços no Brasil?

Por que o Banco Central é a raiz de todos os males

"o dinheiro nao eh um bem como os outros que respeita a lei da oferta e da procura?"

Sim.

"Se a economia cresce e a oferta monetaria eh constante, o dinheiro se tornara escasso, seu "preco" nao aumentara?"

Sim. Preço do dinheiro aumentar significa que seu poder de compra aumentou. Ou seja, os preços dos bens e serviços caíram.

"Se amanha tiver na porta do banco o dobro de gente requerendo emprestimos, o que o deteria de subir os juros?"

Neste cenário, os juros subirão. Mas ele é completamente irreal. O que fará com que de um dia para o outro, do nada, duplique o número de pessoas correndo atrás de empréstimos?

Sobre a impossibilidade de juros nominais altos se a oferta monetária for constante, você provavelmente se assustou com essa afirmação porque acha que juros é o preço do dinheiro, e que, sendo assim, quanto maior a oferta de dinheiro, menores serão os juros e vice versa. Mas isto é errado. Embora seja verdade que, no curto prazo, um aumento na quantidade de dinheiro gere uma redução de juros, o fato é que, no longo prazo, quanto maior for a taxa de aumento da quantidade de dinheiro, maiores serão os juros. E vice-versa.

Pense nos juros como a diferença entre a quantidade de dinheiro que você pega emprestado e a quantidade de dinheiro com o qual você paga o empréstimo. Quanto menor estiver sendo a taxa de crescimento da quantidade de dinheiro, menores terão de ser os juros. Afinal, em uma economia com quantidade de dinheiro fixa, seria irrealista você exigir, por exemplo, juros de 50% ao ano. Sem que tenha havido crescimento na quantidade de dinheiro, o devedor simplesmente não terá como pagar essa quantia. Por outro lado, se a quantidade de dinheiro crescer, por exemplo, 200% em um ano, pagar uma taxa de juros de 50% acaba sendo moleza.

"eu disse que no mundo INTEIRO expansao monetaria eh usada pra combater economias em recessao (below full employment) aumentando a demanda agregada. Isso esta nos livros, eu nao estou inventado."

Sei disso. E nunca deu certo. Essa é a questão.

"Existe algum beneficio para a expansao monetaria?"

Sim. Aqueles que primeiro recebem o dinheiro recém-criado se dão otimamente bem. Seu poder de compra aumentou. Eles têm mais dinheiro mas os preços ainda não subiram. Aí, à medida que elas vão gastando esse dinheiro, os preços vão subindo. Até que, quando este dinheiro termina de circular por toda a economia, as últimas pessoas que recebem este dinheiro, quando elas recebem, os preços já subiram. Ou seja, enquanto os primeiros recebedores foram privilegiados, porque tiveram seu poder de compra elevado, os últimos recebedores foram prejudicados, pois os preços subiram antes que sua renda fosse elevada. Ou seja, houve uma redistribuição de riqueza dos mais pobres pros mais ricos.

"Existe algum beneficio a existencia de bancos centrais? Quais?"

Para o governo e para suas empresas favoritas, exatamente por causa do mecanismo citado acima. Veja também os artigos linkados.

"Ou eh tudo uma grande conspiracao contra o povo? Todos os paises do mundo estao errados por ter um banco central e fazer expansao monetaria? Eh isso que eu quis dizer...."

É do interesse de todos os governos terem um Banco Central fabricando sua própria moeda para financiar seus gastos. É também do interesse do sistema bancário existir um emprestador de última instância, com capacidade de criar dinheiro do nada, para socorrê-los sempre que fizerem besteira. Tudo questão de conveniência. De novo, tenha a bondade de ler os artigos linkados.

Grande abraço!

Responder
ANA LEIDE ALMEIDA DE ARAUJO 29/10/2014 19:57:16

MUITO BOM SEU ARTIGO,é de mera importância para o contador,pois nos mostra como procede os
movimentos bancários quando fazem difusão entre se.Gostaria de saber de onde você tirou o valor de R$3.000,00 ,no apassivo mais o patrimônio líquido,pois no meu calculo não achei o valor exato.Mesmo tirando os 40%,depois fui no calculo de reserva bancaria mas não-o conseguir,sou formada em Bacharelado em ciências há dois anos.

Responder
Ricardo 24/12/2012 11:32:54

Meus dois centavos:

Como Mises explicou, embora aumentos na quantidade de dinheiro não façam a economia crescer, eles alteram a estrutura da mesma; embora variações na oferta monetária não produzam impacto no crescimento agregado da economia, elas certamente afetam a maneira como os recursos da economia são alocados e distribuídos.  Ou seja, as variações da oferta monetária determinam como será a estrutura produtiva da economia, mas não o nível da produção.  Variações na oferta monetária sempre serão benéficas apenas para o governo e para suas empresas favoritas -- como o setor bancário e os grandes industriais amigos do rei --, que são os primeiros a receber o novo dinheiro criado.

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1015

Responder
evandro 22/01/2013 18:21:41

Caro Leandro, tenho uma duvida: o que aconteceria na economia do brasil (eu sei que vc questiona o pib como indicador, mas na falta de outro) no curt, médio e longo prazo, caso o Brasil, e só o Brasil, parasse imediatamente de aumentar a oferta de dinheiro na economia (ou pelo menos parasse de emitir dinheiro não lastreado)... eu sei que isso provavelmente nunca irá ocorrer, mas quais seriam as consequencias prováveis (positivas e negativas) caso isso acontecesse?

Responder
Leandro 22/01/2013 18:34:56

No curto prazo, recessão. E forte. Algumas quebradeiras das empresas que estivessem muito alavancadas. Bancos também sofreriam. Para evitar forte alta no desemprego, encargos sociais e trabalhistas teriam de ser repelidos, bem como a política salarial dos sindicatos. Preços teriam de ser reajustados para baixo.

No longo prazo, a moeda se valorizaria continuamente, garantindo crescente poder de compra à população. A população de baixa renda seria a mais beneficiada.

A indústria nacional sofreria com as importações? Muito certamente. O que poderia ser feito para amenizar isso? Acabar com a burocracia, reduzir impostos e regulamentações e flexibilizar ao máximo as leis trabalhistas, reduzindo encargos sociais e trabalhistas. Como a moeda estaria adquirindo crescente poder de compra, a situação de todos os trabalhadores estaria melhorando.

Porém, como tal política não agrada a nenhum setor organizado específico, não agrada a nenhum grupo lobista poderoso -- ela agrada apenas a população, e em especial a de baixa renda --, não há a mínima ideia de tal coisa ser implantada em país nenhum. Não em uma democracia.

Sugiro este artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1441

Responder
evandro 22/01/2013 18:48:25

Só complementando minha pergunta, qual indicador seria mais interessante que o PIB para ''aferir'' o andamento da economia... ?

Responder
Leandro 22/01/2013 19:10:06

Comportamento da inflação de preços, evolução do poder de compra da moeda, evolução da taxa de câmbio, produtividade da mão-de-obra, avanço do padrão de vida, eficiência do setor de serviços, qualidade e variedade dos bens ofertados, facilidade de acesso a esses bens -- essas devem ser as variáveis para se mensurar a saúde de uma economia, e não meros números perfeitamente manipuláveis, como os do PIB e do desemprego.

Responder
Renato Souza 23/01/2013 02:15:52

Leandro

É interessante notar que a expansão monetária é principalmente um fenômeno contemporâneo. Antes da invenção do papel-moeda, era complicado excessivamente visível o truque de aumentar a quantidade de dinheiro na economia. Governantes eventualmente recolhiam o dinheiro e o cunhavam com um peso menor. Ocorre que não podiam fazer isso o tempo todo, e até o mais pascácio dos cidadãos percebia a mutreta. Então o truque de inflacionar a moeda era bastante limitado.

O que os fanáticos pela expansão monetária não conseguem explicar é como a economia dos países crescia sem que houvesse grande expansão monetária. Com o desenvolvimento de novas técnicas, surgiam cada vez mais bens de consumo, a qualidade dos produtos melhorava, os preços se tornavam cada vez mais acessíveis ao povão. E não existiam crises surgidas do nada, "medos irracionais" que levavam a economia a parar, como supõem os keynesianos que inevitavelmente ocorrerá se o governo não criar inflação. Crises normalmente tinham causas reais, e findavam logo. Olhar o desenvolvimeno de inúmeros países durante os séculos XVIII e XIX, simplesmente alicerçados no acúmulo de capital (isto é na poupança) e na inovação técnica, é um exercício fascinante. A população aumentou rapidamente, porque pela primeira vez na história a produção agrícola e de todo tipo de bens crescia rapidamente.

Será que os keynesianos não percebem isso, que eles não criaram o desenvolvimento econômico, criaram a inflação galopante e o endividamento irracional de virtualmente todos os governos? Porque eles se atribuem a descoberta da chave para o desenvolvimento, se são eles os maiores criadores de crises e recessões? eles não percebem que antes deles o desenvolvimento era mais contínuo? Porque eles se atribuem a garantia da estabilidade monetária, se o aumento de preços era um fenômeno passageiro até o final do século XIX, e a lenta diminuição dos preços era a regra? Será que eles se julgam os descobridores da roda e do fogo também?

Responder
Marcelo Moreira 24/01/2013 23:21:15

Uma pergunta intrigante: os bancos podem ter perda financeira? Dividindo a pergunta em duas partes:

1) Dado que o dinheiro emprestado é literalmente criado, qual o risco que o banco corre na concessão de um empréstimo? Exceto pelo fato de que o banco vai deixar de ganhar os juros, se o tomador do empréstimo não pagar a dívida, o banco não perde nada, pelo que entendo. Isso provavelmente geraria redução na reserva bancária, mas bastaria o Banco Central injetar mais recursos que o problema estaria sanado, correto? De toda forma, não consigo imaginar um cenário de perda financeira para o banco.

2) Quando o tomador do empréstimo paga a dívida, o dinheiro virtual criado no momento do empréstimo desaparece. Sendo assim, o que impede o banco de cancelar um empréstimo, como se ele nunca tivesse existido, mas com o dinheiro criado permanecendo com o tomador do empréstimo? A explicação que encontro é que dessa forma o banco vai estar injetando dinheiro na economia, causando inflação e, consequentemente, gerando menos lucro para ele no futuro. Mas, mais uma vez, o banco não teria perda e sim menos lucro, correto?

Responder
Leandro 25/01/2013 05:58:31

"Dado que o dinheiro emprestado é literalmente criado, qual o risco que o banco corre na concessão de um empréstimo? Exceto pelo fato de que o banco vai deixar de ganhar os juros, se o tomador do empréstimo não pagar a dívida, o banco não perde nada, pelo que entendo."

Quando o banco cria dinheiro para conceder um empréstimo, e quando este dinheiro criado é utilizado pelo tomador do empréstimo, o banco perde reservas bancárias. O dinheiro vai para o banco da pessoa que recebeu o cheque do pessoa que pegou o empréstimo.

Se o sujeito der o calote, o banco fica descapitalizado. Suas reservas são um ativo. Uma redução no ativo gera um balancete vermelho.

"Isso provavelmente geraria redução na reserva bancária, mas bastaria o Banco Central injetar mais recursos que o problema estaria sanado, correto? De toda forma, não consigo imaginar um cenário de perda financeira para o banco."

Correto quanto à redução das reservas bancárias. Quanto ao BC injetar recursos, nenhum BC faz isso de graça. Um BC injeta dinheiro no sistema bancário em troca de algum ativo dos bancos -- normalmente títulos públicos que estavam em posse dos bancos.

No seu exemplo, o banco, além de ter perdido reservas, ficará também sem títulos públicos, que são uma fonte de renda (títulos públicos coletam juros pagos pelo Tesouro). No final da operação, o banco está com menos ativos. Se, por um lado, ele recuperou o dinheiro que perdeu com o empréstimo, por outro ele perdeu títulos do governo. No saldo final, seus ativos foram reduzidos e seu patrimônio líquido (capital) caiu. O banco ficou com sua solidez abalada e, por causa disso, pode ser vítima de uma corrida bancária.

"Quando o tomador do empréstimo paga a dívida, o dinheiro virtual criado no momento do empréstimo desaparece."

O dinheiro sai da economia, mas vai para a reserva do banco. Adicionalmente, o patrimônio líquido (capital) do banco aumentou. Sua solidez está maior, suas ações tendem a subir e ele pode atrair ainda mais clientes.

"Sendo assim, o que impede o banco de cancelar um empréstimo, como se ele nunca tivesse existido, mas com o dinheiro criado permanecendo com o tomador do empréstimo?"

Isso seria uma insanidade. Como expliquei acima, o banco teria perdido reservas, e seu patrimônio líquido estaria menor, o que acarretaria todos os problemas explicados acima.

"A explicação que encontro é que dessa forma o banco vai estar injetando dinheiro na economia, causando inflação e, consequentemente, gerando menos lucro para ele no futuro. Mas, mais uma vez, o banco não teria perda e sim menos lucro, correto?"

Errado. Seu capital teria decrescido, gerando todos os problemas acima.

Responder
Marcelo Moreira 25/01/2013 12:23:01

Oi Leandro,

Agradeço muito pelas respostas rápidas, claras e objetivas! Você me ajudou bastante.

Eu sou engenheiro, não economista, mas achei o assunto do seu artigo altamente relevante e estou realmente interessado em me aprofundar. As suas respostas me geraram outras dúvidas que apresento abaixo. Agradeço se você puder fazer a gentileza de respondê-las e apontar referências de livros/artigos para que eu possa me aprofundar melhor.

1) Existe alguma situação em que o BC "inventa" dinheiro para alguém, seja o destino um banco, o próprio governo, etc?

2) Qual seria o impacto na economia de o governo literalmente inventar dinheiro para investir em educação, saúde e habitação básicas para a população? É óbvio que geraria inflação, mas seria diferente da inflação gerada pela expansão de crédito que é feita hoje?

3) Você concorda com a afirmação abaixo?
"Se todos fossem pagar as suas dívidas, se isso fosse possível, não restaria dinheiro nenhum. Na verdade, existe mais dívida do que dinheiro disponível. [...] Uma vez que todo o dinheiro tem juros associados, nunca haverá dinheiro suficiente para pagar toda a dívida aos bancos. Por conseguinte, há sempre quem tenha de ir à falência ou perder sua propriedade para o banco"
Fonte: Documentário "The Money Fix", vimeo.com/36606084, nos minutos 23' a 28'

4) Eu particularmente acho péssima a premissa de que os bancos privados detêm o monopólio da criação de moeda, ainda mais considerando que a injeção de dinheiro na economia se dá através de empréstimos, criando dívidas e levando à escassez de dinheiro, conforme a afirmação 3. Você recomenda a leitura de algum livro/artigo que trate do tema ou de alguma proposta de solução (e.g. sistemas monetários alternativos) relevante feita na academia?

Responder
Leandro 25/01/2013 18:23:56

1) "Inventar" dinheiro ele inventa o tempo todo, pois ele cria dinheiro literalmente do nada (ele simplesmente aperta um botão no teclado de um computador e cria dígitos em um conta). Só que ele sempre faz isso em troca de algum ativo. Portanto, criar dinheiro e dar para alguém em troca da nada, isso não ocorre.

2) Década de 1980 e primeira metade da década de 1990 no Brasil. Era exatamente isso o que o governo fazia. A diferença? Não havia ciclo econômico porque a economia já ia direto para hiperinflação. Um ciclo econômico caracteriza-se por uma etapa em que há um surto nos investimentos. Neste fenômeno que você citou (que, em termos técnicos, chama-se "inflação simples"), não há surto de investimentos. A estrutura de produção da economia é encolhida porque todo o dinheiro criado vai direto para incentivar o consumismo e não o investimento.

3) No atual sistema monetário, todo o dinheiro que existe na economia foi injetado nela por meio da criação de uma dívida. O Banco Central injeta dinheiro no sistema bancário comprando títulos da dívida, e o sistema bancário injeta dinheiro na economia por meio da concessão de empréstimos para pessoas e empresas, que é uma dívida. Nem o BC e nem os bancos dão dinheiro de graça. Eles criam dinheiro em troca de uma dívida. É assim que a quantidade de dinheiro na economia aumenta.

Portanto, se toda a dívida (pública e privada) fosse quitada e tanto o BC quanto o sistema bancário não criassem mais moeda, toda a oferta monetária, inclusive cédulas e moedas metálicas, seria extinta. Esse é o problema de se ter um sistema monetário cuja criação de dinheiro é feita por um BC, e não pela escavação de metal.

4) A academia não discute isso. Lamento. Na academia só existem pessoas interessadas em galgar novas posições e ser bem aceita pelo establishment. Falar a verdade e ter respeito na academia são coisas mutuamente excludentes.

Responder
Renato Souza 25/01/2013 13:17:18

Leandro

Pelo que entendi, o dinheiro criado pelo banco, no momento em que concede empréstimo, desaparece quando o empréstimo é pago.

Se não vejamos: Cem clientes depositam cada um $100 em conta corrente no banco, totalizando $10.000. O banco, cinete da probabilidades de saque, julga seguro emprestar $2.000 ao fulano X, que veio em busca de empréstimo, que deverão ser devolvidos em 6 prestações de $350, perfazendo $2.100. Tecnicamente o banco está insolvente, visto que se todos os cem clientes vierem sacar todo o seu dinheiro, faltarão 3.000. Desta forma, existem contabilmente $2.000 reais a mais na economia, o que caracteriza inflação monetária. X exercer suas atividades de agente econômico e consegue pagar normalmente o empréstimo, inclusive os juros, que vieram de seus lucros em sua atividade comercial ou de seu salário. Se ninguém mais tomasse empréstimos, o banco estaria novamente solvente, e toda a inflação monetária gerada nessa operação teria sido esterilizada.

Então é lícito supor que a diminuição do nível de endividamento da sociedade elimina parte da inflação monetária? Também seria correto supor que o pagamento de todos os empréstimos bancários, por parte de todos os agentes, sem que mais ninguém tomasse empréstimos, eliminaria totalmente a inflação?

Se estou correto, num sistema de reservas fracionárias, o governo depende do endividamento da população para gerar inflação. Logo, uma população mais prudente quanto aos financiamentos (que prefira, sempre que possivel, acumular reservas para comprar os bens, em vez de tomar empréstimos, e que seja culdadosa em não se endividar de mais, e que calcule cudadosamente qual é a taxa de juros real dos empréstimos, para evitar pagar juros altos) tal pupulação destruirá os planos do governo de criar grande inflação monetária. Está correto o meu raciocínio?

Responder
Leandro 25/01/2013 18:39:26

"Pelo que entendi, o dinheiro criado pelo banco, no momento em que concede empréstimo, desaparece quando o empréstimo é pago."

Vamos por partes. Se o Bradesco cria dinheiro para emprestar para um cliente, e tal dinheiro vai acabar nas contas de um cliente do Itaú, o Itaú vai exigir que o Bradesco lhe envie dinheiro em espécie. Neste momento, as reservas do Bradesco caíram.

No final, quando o primeiro cliente quitar seu empréstimo com o Bradesco, a conta-corrente desse sujeito será reduzida, mas as reservas bancárias do Bradesco aumentarão a um nível maior do que o de antes do empréstimo (pois o Bradesco auferiu juros e principal). Isso possibilita ao Bradesco fazer novos empréstimos, de modo que, na prática, a quantidade de dinheiro na economia não é reduzida.

Prossigamos

(O parágrafo do exemplo numérico de sua postagem apenas mostra o problema das reservas fracionárias, portanto vou pulá-la).

"Então é lícito supor que a diminuição do nível de endividamento da sociedade elimina parte da inflação monetária?"

Sim, mas dado que imediatamente novos empréstimos serão concedidos, então não ocorre tal deflação. O que realmente gera deflação é quando os bancos fazem vários empréstimos ruins que não são quitados. Neste caso, o balancete dos bancos vai para o vermelho (o valor dos empréstimos, que é um ativo, cai, mas o passivo continua constante). Aí, dado que os bancos agora têm de restaurar seu patrimônio líquido (capital), eles deixam de conceder novos empréstimos. Eles continuam obviamente cobrando a quitação de todos os seus empréstimos pendentes, mas deixam de conceder novos empréstimos. Aí de fato ocorre uma deflação monetária.

"Também seria correto supor que o pagamento de todos os empréstimos bancários, por parte de todos os agentes, sem que mais ninguém tomasse empréstimos, eliminaria totalmente a inflação?"

Não somente eliminaria a inflação, como acabaria com todo o estoque de dinheiro da economia. (Ver minha resposta acima ao leitor Marcelo Moreira)

"Se estou correto, num sistema de reservas fracionárias, o governo depende do endividamento da população para gerar inflação. Logo, uma população mais prudente quanto aos financiamentos (que prefira, sempre que possivel, acumular reservas para comprar os bens, em vez de tomar empréstimos, e que seja culdadosa em não se endividar de mais, e que calcule cudadosamente qual é a taxa de juros real dos empréstimos, para evitar pagar juros altos) tal pupulação destruirá os planos do governo de criar grande inflação monetária. Está correto o meu raciocínio?"

Sim.

Responder
Renato Souza 26/01/2013 01:34:02

Leandro

Grato, e desculpe pelo texto cheio de erros de português.

Responder
Julio dos Santos 31/01/2013 14:24:19

Leandro, citaste que uma das causas do aumento dos depósitos a prazo ocorrido em 2008 "pode ser explicada tanto pela elevação da SELIC quanto pelo fato de, ainda àquela época, não haver compulsório para os depósitos a prazo". Mas imagino que a disparada deste número, neste período, assim como em 2011, tenha impacto mais direto do resultado do mercado de ações. Analisando o Ibovespa, estes dois períodos (2008 e 2011) foram os seus momentos de queda, tempos de grande incerteza nos mercados e então os investidores buscaram fortemente a "segurança" da renda fixa. Tal tua opinião sobre esta hipótese?

Responder
Leandro 31/01/2013 14:30:24

É um ponto interessante. Pode sim haver essa correlação, muito embora tenha sido em maio de 2008 que o Ibovespa atingiu o maior valor de sua história.

Responder
Eduardo França 31/01/2013 16:12:17

Leando, mandei esse artigo para o meu ex-professor de Economia e ele respondeu o seguinte: "Discordo do argumento central: bancos não criam dinheiro do nada... ao realizar operações de crédito, um banco TRAZ riqueza do futuro... o recurso emprestado vai ser aplicado em capital, gerar lucro e o banco recebe uma parte desse lucro... Mas acho que o artigo todo precisaria ser discutido em uma aula de Economia Monetária." - Como assim o banco TRAZ riqueza do futuro?

Responder
Leandro 31/01/2013 16:34:57

É realmente desesperador saber que este é o nível dos nossos acadêmicos. Já estão apelando para o misticismo.

Responder
Pobre Paulista 10/02/2013 16:43:41

É verdade, ele traz dinheiro do futuro sim. Ele vem no porta-malas de um DeLorean.

Responder
anônimo 10/02/2013 20:17:21

O que ele estaria querendo dizer não seria que o dinheiro do nada que o banco cria estaria sendo compensado pela riqueza que a empresa do cara vai criar, sendo que pra essa empresa começar ela precisa desse dinheiro?

Responder
anônimo 10/02/2013 23:05:54

Mas ainda assim a alegoria com o de volta pro futuro é perfeita, porque ninguém tem como saber se o empreendimento que o cara pediu dinheiro emprestado vai dar certo

Responder
Neto 11/02/2013 12:58:17

Eu fico pensando em duas situações:
1 O governo tem uma bola de cristal, e sabe quem são os empreendedores que vão 'dar certo'. Daí ele cria dinheiro do nada, dá pros caras do google, eles criam o google, ficam ricos e tal. Só que o cara que economizava que não tem nada a ver com isso ficou mais pobre, o mundo tem um ganho de produtividade por causa do google mas o dinheiro dele agora vale menos, desde a hora que o governo criou dinheiro do nada

2 Um investidor dá dinheiro pros caras do google.Eles criam o google, ficam ricos, o investidor recebe muito mais de volta, todo mundo fica feliz. Só que o cara que economizava não perdeu nada, pelo contrário, o dinheiro dele agora vale MAIS, já que o google aumenta a produtividade das outras empresas.

Então, comparando o resultado final dessas duas situações essa conversa de 'tirar dinheiro do futuro' é mais mentirosa ainda, MESMO SE TIVESSE UMA BOLA DE CRISTAL o governo não estaria usando um delorean e arrancando esse dinheiro do sucesso futuro do google, ele ta arrancando de quem não tem nada a ver com a história, do cara que ingênuamente tenta economizar seu suado dinheirinho.

Faz sentido?

Responder
Renato Souza 13/02/2013 15:35:18

Imagino que seja isso que ele quis dizer, mas é bobagem.

Ao criar dinheiro do nada, a inflação monetária já ocorre. O aumento da oferta de dinheiro produz aumento de preços (ou impede sua natural diminuição, o que dá no mesmo) provocando perda de riqueza para os outros agentes econômicos. Então, esse dinheiro não veio do futuro, a não ser "futuro" seja o nome do bolso das outras pessoas.

Responder
Marcelo Moreira 07/02/2013 12:04:29

Leandro, qual a sua avaliação do ponto de vista econômico da proposta de economia baseada em recursos do projeto Venus (www.thevenusproject.com)?

Responder
Leandro 07/02/2013 12:19:08

Idiotas completamente ignorantes sobre conceitos básicos de economia, como sistema de preços e sistema de lucros e prejuízos, os quais permitem o cálculo econômico e consequentemente evitam ao máximo o desperdício de recursos.

Os bobalhões ali dizem querer otimizar as coisas e viver em paz com a natureza, mas defendem um sistema que, paradoxalmente, levaria à malversações e, no limite, à aniquilação dos recursos. São apenas socialistas envergonhados.

Responder
Marcelo Moreira 07/02/2013 18:21:21

Desculpe, mas meus conhecimentos limitados de economia não me permitiram entender a sua argumentação.
Poderia deixar mais claro o seu argumento?

1) Que premissas da economia baseada em recursos levariam à "malversações e, no limite, à aniquilação dos recursos"?

2) Como o "sistema de preços e sistema de lucros e sistema de lucros e prejuízos, os quais permitem o cálculo econômico e consequentemente evitam ao máximo o desperdício de recursos"? Isso não me parece valer nos dias de hoje, visto que desperdiçamos muitos recursos (obsolescência programada, profissões desnecessárias, deslocamentos desnecessários, uso de recursos naturais de forma desnecessária, etc.).
2.1) Se você concorda comigo que desperdiçamos recursos, a causa seria alheia ao sistema econômico?
2.2) Se você discorda do desperdício de recursos, como justifica os exemplos de desperdício que mencionei?

Responder
Leandro 07/02/2013 18:42:54

Imaginei que conhecesse o básico do básico de economia. Dado que confessadamente não, então você terá de ler alguns artigos aqui (linkados abaixo) para entender por que é o sistema de preços e o sistema de lucros e prejuízos que permitem uma alocação racional de recursos por toda a economia. Revogue estes dois sistemas, e a economia simplesmente pára de funcionar. Empreendedores ficariam tateando no escuro, sem saber onde investir. Seria impossível saber qual recurso existe em excesso em determinada área e qual recurso está em escassez em outra área.

Se as coisas não têm preços formados livremente, é impossível fazer qualquer cálculo de custos. E sem esse cálculo, é impossível haver qualquer racionalidade econômica. Sem preços livres, não há cálculo de lucros e prejuízos, e consequentemente não há como direcionar o uso de bens da capital para atender às mais urgentes demandas dos consumidores da maneira menos dispendiosa possível. Por outro lado, quando há livre formação de preços, estes refletem as preferências dos consumidores e permitem que o capital seja direcionado para as aplicações mais urgentes, ao mesmo tempo em que o julgamento empreendedorial vai lidando com as contínuas mudanças nos desejos dos consumidores. Este é o sistema que reduz ao máximo os desperdícios (e eu nunca disse que ele abole por completo os desperdícios, mas é o que mais restringe, simplesmente porque desperdiçar não é nada lucrativo).

"visto que desperdiçamos muitos recursos (obsolescência programada, profissões desnecessárias, deslocamentos desnecessários, uso de recursos naturais de forma desnecessária, etc.)."

Nunca entendi o que realmente é "obsolescência programada". Já ouvi várias versões, muitas delas contraditórias.

Sobre profissões desnecessárias, estas surgem justamente quando há intervencionismo na economia. Por exemplo, há hoje várias profissões no setor industrial que nem deveriam existir, mas só existem por que o estado encarece e artificialmente e dificulta as importações. Da mesma forma, há várias profissões desnecessárias no setor imobiliário, profissões essas que foram criadas pela bolha gerada no setor em decorrência da expansão monetária e do crédito estimulada pelo governo. Tão logo essa expansão acabar e a bolha estourar, essas profissões irão desaparecer.

É justamente a falsificação do cálculo econômico gerada pela expansão monetária e creditícia (estimulada pelo estado) que levam ao surgimento destas profissões desnecessárias.

Sobre o uso de recursos naturais de forma desnecessária, parte é verdade (veja aqui), parte é arrogância sua de sair opinando exclusivamente de acordo com sua ideologia e com sua posição ambientalista. Como você sabe que tal uso é desnecessário? O que diz o sistema de preços sobre usos alternativos?

Artigos para você:

A natureza econômica dos lucros e dos prejuízos

Condenar o lucro é defender o retrocesso da humanidade

O cálculo econômico sob o socialismo

Empreendedorismo, eficiência dinâmica e ética

Responder
Marcelo Moreira 09/02/2013 19:21:12

Oi Leandro,

1) Em primeiro lugar gostaria de parabenizá-lo novamente pelos seus artigos e respostas claras e racionais. Acredito que seja muito profícua a discussão de ideias desta forma. Estou aprendendo bastante com você e sou muito grato por isso!
Li os artigos que você referenciou e agora tenho uma visão mais precisa das definições dos conceitos que você usa. Por exemplo, agora entendo a sua definição de "desperdício" e concordo com o seu argumento.

2) Antes que eu seja rotulado incorretamente como defensor de alguma ideologia específica, quero deixar claro que:
- não tenho nenhuma ideologia, filosofia, religião, posição ambientalista, ou qualquer coisa do gênero; e
- não sou socialista, nem capitalista, nem facista, nem comunista, nem nenhum "...ista".
Pela minha experiência pessoal, percebo que nem toda ideia é necessariamente 100% correta, nem 100% errada. Geralmente as ideias têm vantagens e desvantagens. É isso que quero analisar. Quero ter um entendimento mais profundo da situação sócio-econômica global e analisar a causa-raiz de problemas como: pobreza, guerras, falta de liberdade e tempo para trabalhar no que cada pessoa acredita ser mais relevante, falta de acesso à educação e tecnologia por grande parte da população mundial, grande acúmulo de lixo, elevada poluição ambiental, etc.
A busca desse entendimento mais profundo é que me levou a ler os seus artigos e escrever esses comentários.

3) Além de não defender nenhuma ideologia específica, eu:
- não tenho nada contra pessoas muito ricas pelo fato de elas serem muito ricas; e
- não tenha nada contra o lucro empreendedorial em si. Pelo contrário, sou a favor dele.

4) Concordo com você que a eliminação do sistema de preços e o sistema de lucros e prejuízos geraria um problema de como fazer uma alocação racional de recursos por toda a economia. Mas você acredita que essa é a única maneira de fazer uma alocação racional de recursos? Por exemplo, o projeto Venus propõe a criação de um inventário global de recursos para realizar essa alocação racional de recursos através da coordenação da produção e distribuição dos recursos:

"What else would a resource-based economy mean? Technology intelligently and efficiently applied, conserves energy, reduces waste, and provides more leisure time. With automated inventory on a global scale, we can maintain a balance between production and distribution."
FONTE: www.thevenusproject.com/en/the-venus-project/resource-based-economy

5) Não vou questionar a sua lógica de argumentação em defesa do livre mercado, até porque ela está correta no meu entender. Porém, gostaria de questionar algumas premissas. São elas:

5.1) Premissa: todos os empreendedores têm iguais condições e oportunidades
No meu entender, esta premissa é necessária para garantir a livre concorrência. Sem iguais condições e oportunidades, os empreendedores com melhores condições (tais como: maior aporte de capital, melhor informação sobre o mercado, maior conhecimento tecnológico, etc.) podem facilmente usá-las como vantagens competitivas e dominar o mercado. Dominando o mercado, podem exercer o monopólio e passar a ditar as regras do mercado.
Dada a formação de grandes monopólios e a concentração de capital/informação/tecnologia nas mãos de poucos empreendedores, essa premissa não me parece valer nos dias de hoje. Você concorda comigo?

5.2) Premissa: consumidores têm opção de escolha de todos os produtos oferecidos no mercado
No meu entender, esta premissa é necessária para que os consumidores de fato possam ditar a demanda de produtos no mercado. Se o consumidor não tem a opção de negar a compra de determinado produto, então o livre mercado fica comprometido, e quem passa a ditar as regras é o empreendedor que oferece tal produto.
Essa premissa não me parece valer nos dias de hoje para produtos de necessidade básica (como alimentação, moradia e saúde), pois por definição estes não são produtos que alguém decide consumir. Todos precisam consumir esse tipo de produto por questão de sobrevivência.
Nos dias de hoje, me parece que funciona da seguinte forma:
- quem nasceu em família que tem dinheiro pode pagar e ter acesso a esses produtos de necessidade básica; e
- quem nasceu em família que não tem dinheiro suficiente tem que aceitar qualquer emprego disponível. Se o salário não for suficiente ou tiver alguma despesa maior, a pessoa tem que pedir empréstimo ao banco e viver a vida toda lutando para sobreviver e pagar as dívidas, sem ter tempo para fazer outras atividades ou desenvolver suas capacidades.
Você discorda dessa visão que eu tenho do mundo hoje?

5.3) Premissa: consumidores optam pelos melhores produtos
No meu entender, esta premissa é necessária para que os empreendedores possam produzir os melhores produtos. Pelo menos no Brasil, a maior parte da população não tem dinheiro nem sequer para as suas necessidades básicas. O pequeno percentual da população que tem dinheiro para comprar algo além do básico, também tem somente uma quantia limitada para adquirir os demais produtos. Dessa forma, devido ao baixo poder de compra, os consumidores acabam considerando como menos importantes métricas como durabilidade, qualidade, prejuízo à saúde, prejuízo ao meio ambiente, condições de trabalho dos trabalhadores, localização da fábrica, etc. Repare que essa decisão do consumidor não é a que ele gostaria de fazer, mas é a que ele se vê obrigado a fazer devido às restrições impostas pelo sistema econômico. A consequência disso é que os consumidores demandam por produtos piores, mas com preço mais barato a fim de que eles possam ter acesso aos produtos desejados.
Você acha que deveria ser assim mesmo e não tem opção melhor para o sistema econômico?

5.4) Premissa: trabalhadores têm opção de escolha ao aceitar salário proposto pelos empreendedores
No meu entender, esta premissa é necessária para evitar que o lucro empreendedorial seja resultante da exploração da mão-de-obra e não por méritos do empreendedor (inteligência do empreendedor de identificar discrepâncias entre os preços atuais dos fatores de produção e os preços futuros dos bens e produtos por ele produzidos; eficiência na alocação de recursos e gestão da produção; inteligência de usar os métodos que melhor atendem a demanda dos consumidores, etc).
O que me parece acontecer nos dias de hoje é que os trabalhadores aceitam salários baixos por falta de opção, seja porque eles precisam de dinheiro para garantir suas necessidades básicas, seja porque eles não têm educação e qualificação suficiente para barganhar um salário melhor, seja porque eles não têm capital para realizar uma atividade empreendedora.
Você acha que, tendo outra opção razoável, alguém aceitaria os salários e condições de trabalho a que hoje grande parte dos trabalhadores se submete?

5.5) Premissa: consumidores têm educação suficiente para discernir o melhor produto
No meu entender, esta premissa é necessária para evitar que os consumidores optem incorretamente por produtos que não são os melhores. Devido ao baixo poder de compra, hoje grande parte da população não tem acesso à educação de qualidade, o que a torna altamente vulnerável a ser influenciada por publicidade, pela mídia e pelo governo. Daí resulta que os consumidores optam por produtos que não seriam necessários ou adequados a eles.
Você concorda que um nível de educação elevado é necessário para que os consumidores possam optar bem pelos produtos?

Desde já agradeço o seu tempo em ler e responder os meus comentários.

Abraços,
Marcelo.

Responder
anônimo 10/02/2013 20:22:27

'Concordo com você que a eliminação do sistema de preços e o sistema de lucros e prejuízos geraria um problema de como fazer uma alocação racional de recursos por toda a economia. Mas você acredita que essa é a única maneira de fazer uma alocação racional de recursos? Por exemplo, o projeto Venus propõe a criação de um inventário global de recursos para realizar essa alocação racional de recursos através da coordenação da produção e distribuição dos recursos:'

Isso se chama comunismo.Nenhum gênio pode fazer isso.
Projeto Vênus = cruzamento de karl marx com skynet

Responder
Marcelo Moreira 10/02/2013 21:17:53

"Isso se chama comunismo. Nenhum gênio pode fazer isso.
Projeto Vênus = cruzamento de karl marx com skynet"

Amigo, acho que você interpretou incorretamente a proposta de economia baseada em recursos, que é bem diferente da definição de comunismo:

"How does The Venus Project Compare with Communism?
Communism being similar to a resource-based economy or The Venus Project is an erroneous concept. Communism has money, banks, armies, police, prisons, charismatic personalities, social stratification, and is managed by appointed leaders. The Venus Project's aim is to surpass the need for the use of money. Police, prisons and the military would no longer be necessary when goods, services, healthcare, and education are available to all people. [...]"

"How does this differ from Communism?
[...] The Venus Project offers science and technology in the service of humankind on a global scale and eventually helps to eliminate all the artificial boundaries that separate people. The system uses no money and makes goods and services available without a price tag, debt, barter, or servitude of any kind. If we use our technology intelligently, we can create an abundance of goods and services for the entire planet. We use machines and automation to produce and distribute all manufactured products, which will be available at distribution centers to everyone. The purpose of this high technology is to free people so they can pursue their own interests and fulfillments.
We would surpass the need for human participation in the production of goods and services. There is no taxation or obligation of any kind. We advocate no government by human systems. [...]"

FONTE: www.thevenusproject.com/en/the-venus-project/faq - Perguntas 56 e 58

Além disso, a analogia que você fez com skynet não procede, pois o uso de computadores para a tomada de decisões é uma proposta independente da ideia de economia baseada em recursos. O uso de computadores e robôs é fundamental para a automação de tarefas, mas não é necessário para a tomada de decisão.

A questão fundamental é que a alocação de recursos e a produção de bens hoje é limitada pelo sistema monetário. A proposta de economia baseada em recursos advoga que tal limitação não é necessária e propõe a automação como solução. Boa ou não, essa proposta é totalmente factível com a tecnologia que temos hoje.

Responder
anônimo 13/02/2013 22:42:32

Marcelo, A SEMELHANÇA do TZM com o comunismo é que nenhum dos dois tem como saber qual a melhor forma de alocar os recursos.O único jeito de saber é com um sistema de preços, que só existe no livre mercado.

Responder
Gustavo BNG 10/02/2013 22:08:25

5.4) Premissa: trabalhadores têm opção de escolha ao aceitar salário proposto pelos empreendedores
No meu entender, esta premissa é necessária para evitar que o lucro empreendedorial seja resultante da exploração da mão-de-obra


A teoria do valor-trabalho já foi refutada: valor é subjetivo, e isto (junto com a inexistência de Cálculo Econômico numa economia centralizada) faz toda a diferença pra entender por que o marxismo é 100% irracional. Este artigo explica: www.mises.org.br/Article.aspx?id=1386

Responder
Marcelo Moreira 10/02/2013 23:23:28

Caro amigo Gustavo BNG,

Muito obrigado pela resposta.
Deixe-me deixar mais clara a minha argumentação:

1)Eu não disse que o valor é objetivo, ou que é determinado pela quantidade de trabalho empregada na produção do produto. Eu disse que uma quantidade significativa de trabalhadores não tem opção de negar um salário que o trabalhador considere baixo.
A consequência disso é que, se os trabalhadores pudessem negar determinados salários, alguns negócios poderiam não ser economicamente viáveis ou o lucro empreendedorial seria menor que o atual. Em outras palavras, o que torna alguns negócios economicamente viáveis ou muito lucrativos é o menor custo de produção (devido aos baixos salários aceitos pelos trabalhadores). Não faltam exemplos de multinacionais que se instalam em países subdesenvolvidos com mão-de-obra barata.
Esta minha argumentação nada tem a ver com o fato de o valor do produto ser objetivo ou subjetivo, apenas indica que o custo de produção estaria virtualmente menor em consequência da situação sócio-econômica. Foi isso que eu chamei de "exploração de mão-de-obra", sem nenhuma referência a ideias marxistas. Infelizmente, usei um termo que já tem uma conotação associada ao marxismo, mas não foi isso que quis dizer.

2) Eu não sou marxista e não defendo o marxismo, nem nenhuma ideologia específica. Não me importam as ideologias, o que me importam são os argumentos. Se você refutar a minha argumentação, mostrando racionalmente o erro, eu ficarei muito agradecido, independentemente se isso derrubar alguma ideologia.

Abraços,
Marcelo.

Responder
saoPaulo 10/02/2013 22:48:55

Nem meteorologistas - com conhecimento mais que satisfatório das leis de interação entre partículas - conseguem prever acuradamente o clima. Mesmo que tivessem TODOS os dados inicias de seus sitemas, duvido que tivessem poder computacional para tanto (em uma escala global).

E você vem me dizer que estes caras conseguem modelar as vontades e desejos - o que deve ser bem mais complexo que o clima - de TODAS as pessoas do mundo, melhor do que elas mesmas? Sério, beira o ridículo.

Muitos já tentaram, todos fracassaram, e fatalmente acabaram atendendo apenas às suas próprias vontades. Você quer analisar seus modelos de acordo com as intenções de quem os desenvolveu ou de acordo com os efeitos que proporcionam? De boas intenções, o inferno está cheio... Mao que o diga.

O conhecimento é distribuído entre todas as pessoas. Umas sabem mais, outras menos. Ninguém sabe tudo, nem um computador e muito menos um time de burocratas.

www.mises.org.br/Article.aspx?id=810

Quando inventarem os computadores quânticos, daí voltamos a este debate. (=

Responder
Marcelo Moreira 11/02/2013 23:29:14

Caro amigo "saoPaulo",

Excelente comentário. Você tocou em um ponto bem interessante, a saber: sem um sistema de preços, como modelar as vontades e desejos de todas as pessoas do mundo e alocar os recursos de maneira apropriada?

De fato, esse ponto não está muito claro para mim na proposta do projeto Vênus, pois nela se fala de disponibilizar gratuitamente TODOS os bens e serviços:

"It is a holistic socio-economic system in which all goods and services are available without the use of money, credits, barter or any other system of debt or servitude. [...] Modern society has access to highly advanced technology and can make available food, clothing, housing and medical care; update our educational system; and develop a limitless supply of renewable, non-contaminating energy. By supplying an efficiently designed economy, everyone can enjoy a very high standard of living with all of the amenities of a high technological society."
FONTE: www.thevenusproject.com/en/the-venus-project/resource-based-economy

Os exemplos são só de necessidades básicas (alimentação, vestuário, moradia, etc.), mas a todo momento se fala em TODOS os bens e serviços.
Vou analisar por partes:

- Em relação às necessidades básicas, não é muito difícil descobrir quais são e proporcioná-las à população. Neste caso, é um problema estritamente técnico: levantamento dos recursos disponíveis, produção e logística de distribuição.

- Em relação a vontades e desejos, eu concordo com você que seria um problema bem mais complexo. Para esse tipo de produto, talvez uma boa solução seja manter o sistema econômico atual e deixar o livre mercado agir. Por outro lado, se não houver dinheiro, as pessoas ficarão infinitamente mais livres para expressar suas opiniões, vontades e desejos em relação a novos produtos, pois estas opiniões não levarão mais em conta a restrição monetária. Dessa forma, seria muito mais simples fazer uma pesquisa de mercado ou um teste de produto, por exemplo. Além disso, produtos inferiores não serão aceitos de forma alguma, modelando de forma muito mais precisa as vontades e desejos das pessoas do que no sistema econômico atual.

É importante ressaltar também que a inexistência de dinheiro iria fomentar a cooperação entre as "empresas" (entre aspas pois não seriam mais empresas como conhecemos hoje), gerando produtos muito melhores e com menor custo do que temos hoje.

Considerando o exposto acima, na minha visão, apesar de ter alguns pontos que precisam ser melhor definidos, eu só vejo vantagens em adotar uma economia baseada em recursos. Estou errando algo no meu raciocínio? Ficarei muito agradecido se alguém refutar minha argumentação, pois estará me ajudando a chegar em um entendimento mais próximo da verdade.

Abraços,
Marcelo.

Responder
TL 12/02/2013 01:56:22

Prezado Marcelo Moreira.

Eu iria comentar todos os pontos abordados por você, entretanto uma única afirmação sua já fez esse comentário exceder um tamanho aceitável.

Em relação às necessidades básicas, não é muito difícil descobrir quais são e proporcioná-las à população. Neste caso, é um problema estritamente técnico: levantamento dos recursos disponíveis, produção e logística de distribuição

Esse não é um problema técnico, é um problema de alocação econômica extremamente complexo. Tenha em mente que tudo que tem preço, somente o tem porque é escasso, caso contrário não teria preço. Conforme os comentários anteriores, observei que muitas conclusões partem do princípio de que fatores de produção são infinitamente abundantes e somente precisam ser alocados eficientemente. Nada mais longe da realidade. Inclusive muitos economistas caem nessa falácia, a de que nós vivemos num mundo de plena abundância, onde não existe escassez. Sempre tenha em mente, se tem preço é escasso, portanto processos industriais competem por esses fatores de produção.

Para exemplificar, vamos analisar a produção de soja. O agricultor necessita de bens de capitais que são escassos, portanto ele precisa competir com todos os outros investidores por esses bens de capitais (sementes, maquinário, método de transporte, fertilizantes, agrotóxicos, financiamento, mão de obra, silos para estocagem, terra, combustível, conhecimento técnico [agrônomos], assistência técnica, água [se tiver irrigação], . . .).

Você acha que alocação desses bens de capital é simples? Nós estamos comentando de um único tipo de produção. Todos os fatores de produção, necessários para a produção de soja, têm sua própria estrutura de produção, que eu não consigo nem sequer imaginar. Então, o simples fato da energia elétrica ser utilizada na produção de tratores, significa que essa energia está proibida de ser utilizada por qualquer outra atividade (por exemplo, produção de cerâmica). Esse raciocínio é válido para todos os fatores de produção (tinta, ferro, solda, mão de obra, petróleo, cobre, tijolos, cimento, ferro, aço, . . .). Entendeu o tamanho da encrenca?

Ao extinguir o sistema de preços, o agricultor não sabe se está tendo lucro ou prejuízo. Ao utilizar os bens de capital na produção de soja, esses fatores de produção são negados a todos os outros tipos de produção. Por exemplo, ao invés de produzir soja ele poderia produzir milho.

Um exemplo interessante é observado no Rio Grande do Sul. No inverno muitos agricultores plantam um cultura (acredito que é pasto), com o mínimo de custos, somente para fazer cobertura do solo para a safra de verão. Veja, é melhor utilizar a cultura de inverno para aumentar a produtividade da cultura de verão do que cultivar trigo, por exemplo. Isso somente é possível porque existe um mercado de preços que permite ao agricultor alocar racionalmente seus fatores de produção.

Exatamente por esse motivo que o projeto Vênus não funcionaria, pois não existe um mercado de preços para mensurar se o trabalho e o capital utilizado agregam valor. O que é agregar valor? Agregar valor é utilizar bens de capitais escassos para atender as necessidades humanas mais urgentes.

Isso é exatamente o que ocorre na safra atual de soja. A escassez de soja, devido à questões climáticas no EUA, diminuiu a oferta de soja no mercado internacional. A diminuição da oferta aumentou a competição por essa commoditie e consequentemente elevou o seu preço.

A elevação do preço sinalizou ao mercado que somente as atividades mais urgentes às necessidades humanas deveriam utilizar a soja. Os demais processo industriais deveriam parar/diminuir a utilização de soja, pois existem demandas mais urgentes dos consumidores (a elevação do preço da soja pode ter tornado alguns tipos de produção economicamente inviável).

A elevação do preço da soja, a níveis recordes, sinaliza aos agricultores à investirem na maior produção desse grão, pois existe grande demanda por essa commoditie (oportunidade de lucros). Outros tipos de produção, que não atendem preferencialmente as necessidades humanas mais urgentes, deixarão de ser produzidas.

Numa economia sem dinheiro e sem propriedade privada, ocorreria essa sinalização?

O projeto Vênus preconiza que a utilidade dos fatores de produção são objetivos e podem ser mensurados quantitativamente. Isso é exatamente o que o socialismo preconiza, que alocação de fatores de produção podem ser feito de forma objetiva.

Entretanto na realidade não existe como quantificar esse valor, pois ele depende da vontade subjetiva de milhões (talvez, bilhões) de seres humanos. As vontades dos seres humanos são extremamente voláteis, difíceis de serem mensuradas e essa mensuração teria caráter qualitativo (e não objetivo).

O que aconteceria na prática? A produção seria alocada conforme os desígnios dos burocratas (no caso do projeto Vênus, o computador) e não conforme a valoração subjetiva dos consumidores. Dessa forma, aos poucos, os bens escassos seriam alocados em atividades que não são as mais demandadas pelos consumidores. E o uso errôneo desses fatores de produção empobrecerá a população aos poucos, conforme o desgaste e falta de fatores de produção mais urgentes (entenda isso como diminuição de oferta de bens de consumo).

E como esses valores seriam mensurados no livre mercado? Através dos mercados, que expressam as vontades subjetivas dos consumidores.

Saudações. Espero ter elucidado suas dúvidas!

Responder
Típico Zeitgeitista 12/02/2013 09:41:23

'Ao extinguir o sistema de preços, o agricultor não sabe se está tendo lucro ou prejuízo'

Ninguém trabalharia por lucro, ninguém precisaria trabalhar por lucro porque tudo já seria abundante pra todo mundo.Essa é uma questão cultural, as pessoas trabalhariam por amor, pra ajudar a humanidade como um todo, somos todos irmãos na grande espaçonave terra.

'A elevação do preço da soja, a níveis recordes, sinaliza aos agricultores à investirem na maior produção desse grão, pois existe grande demanda por essa commoditie (oportunidade de lucros). Outros tipos de produção, que não atendem preferencialmente as necessidades humanas mais urgentes, deixarão de ser produzidas.
Numa economia sem dinheiro e sem propriedade privada, ocorreria essa sinalização? '

Haveria um grande computador central onde as pessoas colocariam as informações sobre o que desejam e o que está falando pra elas, esse computador iria direcionar os recursos na produção de soja quando um número suficiente de pessoas comunicasse que está faltando soja

Responder
Andre Cavalcante 14/07/2014 17:05:51


Eu rio-me dessas frases:

"Haveria um grande computador central onde as pessoas colocariam as informações sobre o que desejam e o que está falando pra elas, esse computador iria direcionar os recursos na produção de soja quando um número suficiente de pessoas comunicasse que está faltando soja "

Por que mostra que a pessoa não entende nada nem de economia e nem de computação... :D

Para programar qualquer coisas neste sentido, você teria que criar um otimizador multivariável, multiobjetivo. Esse é um problema com complexidade computacional exponencial. Ok, tecnicamente não é impossível, mas para qualquer número razoável de variáveis e objetivos, claramente você estará lidando, devido à exponencialidade com algo basicamente irreal, pois teria que rodar um algoritmo que levaria dias, mas ele, necessariamente teria que rodar em tempo real, isto é, a medida que alguém entrasse uma nova informação ela teria que ser considerada naquele momento. Imagina isso vezes 7 bilhões de indivíduos gerando não sei quantas transações.

Ainda do ponto de vista computacional, qualquer algoritmo de otimização, para funcionar, necessita otimizar algo que possa ser mensurável. Assim, qual a melhor forma de usar o ferro, ou no caso do exemplo, a soja? Para isso é preciso medir o quanto de soja há, o quanto estará sendo demandado e o quanto de recurso estará alocada em toda a cadeia de produção da soja (incluindo aí as possíveis alternativas), sendo que, boa parte dessas alternativas tem, por si, uma cadeia igualmente grande de recursos que igualmente deverão se alocados. Além de ser praticamente impossível juntar todas essas informações, elas deverão ser transformadas em uma informação única (literalmente tem-se transformar bananas e laranjas em um único número, para fins de comparação), que possa ser otimizada.

Pois bem, na economia, esse número ou informação única é exatamente o preço, que já agrega toda a informação espalhada na sociedade do quanto tal bem é demandado em relação ao recursos utilizados, considerando toda a variabilidade possível de outros produtos que podem ser usados como substitutos e já inclui aí todas as informações também sobre o custo dos recursos.

Ora, preço significa uma unidade monetária qualquer, independente se serão dígitos no computador, cartão de crédito com uma certa quantidade de crédito a serem gastos, ou papéis pintados na mão das pessoas. Não importa, será dinheiro do mesmo jeito. Portanto, a premissa da abundância de recursos sem dinheiro é simplesmente irreal.

Acreditar nisso é pior que acreditar em Papai Noel ou fadinhas. Ao menos essas histórias tem um fundo e motivo cultural, enquanto a outra simplesmente é uma falha de pensamento mais básico.

Aliás, nem eles mesmos acreditam. Uma das premissas é acabar com o dinheiro, mas o método preferido que mostram é simplesmente uma técnica de programação linear baseada, justamente, no custo (quantidade de dinheiro) que cada parâmetro da dita programação tem. Vários links no youtube mostram isso.

PS.: contra toda a minha indignação, vi os vídeos do Zeitgeist e li várias coisas no site. Realmente só quem não tem a mínima noção do que seja complexidade computacional pode acreditar no que eles dizem que é possível.

Responder
anônimo 12/07/2014 07:32:22

Caros, achei esse artigo para conhecer como funciona a criação de dinheiro no Brasil. Então quis saber se havia algum comentário sobre Zeitgeist e percebi que as pessoas estão comentando sobre o Projeto Venus, mas parece que não assistiram os três filmes do Zeitgeist do Peter Joseph e portanto não entenderam alguns princípios básicos que eles querem transmitir. Vivemos em um mundo de desigualdade gerado pela existência de dinheiro a partir do momento que as instituições financeiras o criam do nada e o dinheiro determina a aquisição de bens e recursos, mas não esta disponível para todas as pessoas e considerando que ele eh criado a partir de uma divida e com acréscimo de juros, mesmo que todo dinheiro fosse usado para pagar a divida na sua criação, não haveria dinheiro suficiente para liquidar essa divida. Portanto, esse modelo eh falho. Considerando que a terra foi fatiada e que existe a exploração dos recursos de forma descontrolada e pelas corporações que buscam maximizar seus lucros, novamente, o dinheiro acaba por gerar miséria na terra, que eh uma contradição, pois como pode haver miséria se ha alimentos que caem das arvores em qualquer floresta por ai, se ha tantas terras para plantar, como pode pessoas não terem moradia com tanta espaço no planeta? Portanto, o Zeitgeist e o Projeto Venus, que me parece ser de origem do projetista industrial Jacques Fresco e não exatamente do Zeitgeist, prega uma mudança de paradigma, em que as pessoas num nível muito mais elevado de consciência e inteligência, poderiam criam uma civilização capaz de viver de forma harmoniosa com o meio ambiente, sem desigualdade social, sem sistema monetário e financeiro, com cidades projetadas de forma mais inteligente para diminuir a necessidade de deslocamento, uso de energia e recursos e a tecnologia como meio para se construir essa cidade. Na verdade eles são visionários, ou seja, pessoas que estão a frente de outros, pensando longe. Infelizmente eu penso que isso esta mais para uma utopia, pois com uma sociedade tão atrasada mentalmente, que acredita nos valores atuais e não consegue entender que a exploração descontrolada dos recursos do planeta vai levar a sua própria destruição, seja por degradação do solo, poluição do ar, das aguas, dos mares, contaminação e geração de doenças e etc, etc. Sugestão, assistam no youtube Zeitgeist Addendum m.youtube.com/watch?v=Z71lo_OeD34 para entender melhor sobre a ideia deles.

Responder
Pobre paulista 08/02/2013 17:29:27

Leandro, fiquei com uma dúvida.

Entendo que o dinheiro virtual criado pelo crédito bancário seja simplesmente uma geração de inflação, o fato do governo imprimir dinheiro seria somente uma contrapartida para ajustar esta conta, correto? Afinal a moeda já foi desvalorizada quando o dinheiro foi criado do nada.

Mas, se o pensamento acima for correto, me parece que mesmo com o crédito real poderia sofrer disso, não? Afinal o banco também criou esses juros do nada... só foi em escala menor.

Responder
Leandro 08/02/2013 17:48:10

Crédito real é quando você deposita dinheiro no banco, o banco empresta exatamente este seu dinheiro e, durante todo este tempo, você não tem acesso a este dinheiro.

O crédito é real porque se trata de uma poupança genuína. Enquanto você está sem consumir, outra pessoa está utilizando este seu dinheiro. Ou seja, enquanto você é obrigado a se abster do consumo, outra pessoa está investindo. Não dá para vocês dois utilizarem o mesmo dinheiro ao mesmo tempo.

Já no sistema atual, tanto você quanto o tomador de empréstimo estão gastando o mesmo dinheiro simultaneamente. Você não precisa poupar para que outro possa investir. É justamente dessa "mágica", dessa expansão monetária virtual, que surgem as descoordenações.

Quanto a "o governo imprimir dinheiro seria somente uma contrapartida para ajustar esta conta", não entendi muito bem o que você quis dizer. Em todo caso, recomendo a leitura destes dois artigos, justamente sobre isso:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=344

www.mises.org.br/Article.aspx?id=961

Responder
Pobre Paulista 10/02/2013 16:49:24

Entendi, foram esclarecedores os artigos também.

Eu imaginei que a qualquer momento o BC poderia transformar a "modea fiduciária" em moeda real. Na minha visão isso não seria um problema inflacionário, a raiz seria somente na criação da moeda fiduciária.

Responder
Bruno 10/02/2013 23:16:54

Só pode ser uma piada:

www.youtube.com/watch?v=qY3bc1mkNeQ

Sapoia garante!

(A galera do Mises não poderia fazer uns vídeos assim tabém no Youtube?)

Responder
Gustavo BNG 11/02/2013 00:39:03

Acho mais eficiente o pessoal do IMB se dedicar aos artigos e traduções (como é atualmente), e os outros apreciadores da Escola Austríaca fazerem os vídeos. "Divisão do trabalho", coisa de livre-mercadista ;)

Responder
evandro 19/04/2013 12:29:28

Vi uma frase em um artigo ''avaranda.blogspot.com.br/2013/04/mudando-de-assunto-luiz-carlos-mendonca.html '' que me deixou em duvida, vou colar o trecho aqui, se o Leandro puder me explicar:

''O modelo de um ajuste fiscal violento, sem a ajuda de uma expansão monetária agressiva como a perseguida pelo Fed nos Estados Unidos, está por trás do atraso europeu.''

O que o autor quis dizer com ''expansão monetaria agressiva como a perseguida pelo FED'' ? Como está se dando (se é que esta se dando) esta expansão, e ela é benéfica ou ruinosa, na sua opinião? Quem esta mais no caminho certo, na sua opinião?

Responder
Leandro 19/04/2013 12:51:03

Ele escolheu as palavras erradas. O problema dos PIIGS é que eles estão passando por uma intensa deflação monetária. Pior ainda: estão elevando impostos em um cenário de deflação monetária, algo fatal.

Explicado com detalhes e com gráficos neste artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1514

Responder
Ricardo Mota 19/04/2013 13:28:01

Olá Leandro,

Recentemente tive acesso ao conteúdo desse maravilho site e também deste seu artigo. Mto bom, parabéns!

Se possível, gostaria de saber como nós (pessoas comuns) podemos nos proteger dos efeitos deletérios (inflação, basicamente) dessa política expansionista de crédito bancário. Eu particularmente já tinha uma convicção pessoal de que poupar a cada dia que passa fica cada vez mais difícil por conta dos efeitos da inflação. E se nao poupamos hoje teremos sérios problemas em mantermos nosso próprio sustento no futuro. A cada dia que passa, trabalhamos cada vez mais e nossa poupança parece cada fez menor. Essa é uma preocupação que tenho, pois não teremos a mesma força de trabalho depois que envelhecemos.
O podemos fazer para nos proteger desse tributo maligno chamado inflação?
Grato!

Responder
Mauro Lúcio 19/04/2013 13:44:50

Na minha opinião, na atual situação de juros baixos e inflação em alta, não há muito pra onde correr. Estamos sendo dizimados.

Vou copiar o que foi escrito em outro tópico pelo Leandro:

Pelo que entendi, você quer um investimento tradicional e conservador, sem pirotecnias.

Normalmente, CDBs, Renda Fixa e DIs sempre foram interessantes. Porém, com a recente queda dos juros, e considerando o fato de que incide imposto de renda sobre estas aplicações, elas perderam muita atratividade. Todas perdem, por exemplo, para a poupança antiga (aplicações em poupança feita até o dia 3 de maio de 2012).

O CDB tem liquidez diária, mas, como dito, incide IR. Renda Fixa e DI não têm liquidez diária. Já a poupança não apenas tem liquidez diária, como também não está sujeita a imposto de renda.

Minha sugestão: coloque dinheiro na poupança e realmente poupe. Isso é, abstenha-se o máximo possível do consumo. Faça depósitos frequentes, e em períodos não maiores do que 30 dias. Um fenômeno matemático do qual pouca gente se dá conta, mas que é absolutamente essencial, é a questão do funcionamento da taxa de juros composta.

Esse artigo espetacular, escrito por uma sumidade do mundo dos investimentos (Richard Russell), mostra como você pode usar uma renda fixa (como o rendimento da poupança) para ganhar dinheiro. A dica é começar cedo.

Se uma pessoa começa a poupar aos 19 anos, depositando uma quantia fixa durante apenas 7 anos (isso é, até os 25 anos), e a partir daí parar de fazer depósitos e ficar apenas coletando juros, quando ele chegar aos 65 anos ele terá mais dinheiro do que um cara que fez o mesmo, só que a partir dos 26 anos, e que depositou dinheiro anualmente até os 65 anos!

Ou seja, o 1ª cara, que depositou dinheiro durante apenas 7 anos, estará mais rico do que o outro cara que ficou depositando dinheiro durante 39 anos.

Veja a tabela que você entenderá.

ww1.dowtheoryletters.com/dtlol.nsf/htmlmedia/body_rich_man__poor_man.html


P.S.: Sim, há sempre o risco, principalmente com o governo atual, de a inflação bater a poupança durante algum período. Mas, atualmente, a inflação está batendo quase tudo, exceto os investimentos mais arriscados.

Responder
RICARDO 24/04/2013 19:05:57

Olá Mauro,

Mto grato pela sua explicação.
Abraços.

Responder
Pillon 24/04/2013 08:35:16

Ainda não li todos os artigos, conheci o instituto somente hoje.

Gostaria de um esclarecimento sobre o interbancário de CDI que se processa no âmbito da Cetip S/A, de que forma ele pode suprir recursos para expansão do crédito e, na sua visão, como esse mercado pode influir na formação da Selic?

Já há algum artigo escrito sobre isso?

Grato e parabéns pelo site.

PS Venho fazendo posts em outro blog nessa mesma visão do mercado financeiro e já me fascinei pelos artigos deste site, aos quais fiz uma rápida visita.

Responder
Leandro 24/04/2013 16:11:07

É justamente o mercado interbancário que forma a SELIC e que dá sustentação a todo o processo de expansão do crédito. O mercado interbancário opera tanto com títulos do governo (o que forma a SELIC) quanto com títulos emitidos pelos próprios bancos (o que forma o CDI). Veja este artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1574

Responder
Atila Rodrigues 25/04/2013 23:08:46

Esta situação é mundial. Para quem quiser saber mais sobre esta loucura no mundo é só visitar as seguintes páginas:

www.resistir.info/financas/secrets_of_money_p.html

www.resistir.info/europa/moeda_de_estado.html

Este sistema é o que levou o mundo desenvolvido ao colapso atual. Pelo lado bom, tudo está em vias de mudar...

Responder
anônimo 08/05/2013 21:42:15

É correto dizer que, "se" a CEF comece a receber calote generalizado dos tomadores de empréstimo, uma crise bancária nacional será desencadeada? Seria irreal supor que, com o anúncio esta semana do "bail-in" como método para resgatar bancos em caso de uma crise, os correntistas com alguma quantia considerável em depósitos estão na mira para serem financiadores de um eventual resgate? Só imagino como ficaria, nesta situação, o FGC, que anunciou hoje que aumentou a cobertura de R$70k para R$250k, talvez já estejam preparando terreno para uma solução como a executada no Chipre.

De qualquer maneira, vou abrir uma conta no exterior, só pra garantir.

Responder
Leandro 08/05/2013 22:23:29

A resposta à primeira pergunta é um inequívoco sim. Quanto à segunda pergunta, não quero fazer sensacionalismo, mas o índice de Basiléia da CEF não apenas é, de longe, o pior dentre os bancos brasileiros, como ele vem se deteriorando a uma velocidade sonora.

Em setembro de 2007, o índice era de 29,5. Atualmente está em 13 (chegou a 12,6 em setembro passado). Todos os outros bancos melhoraram neste período. Apenas a CEF despencou.

Responder
Emanuel 20/05/2013 07:33:48

Pessoal, como uma pessoa sem conhecimentos de economia, eu gostaria de fazer algumas peguntas para vocês (desculpem se minhas perguntas são muito bobas, de resposta óbvia ou se já foram respondidas anteriormente):

Já que os bancos podem criar dinheiro do nada e isso gera inflação e tende a gerar uma recessão na economia, seria o caso de abolir esse sistema de reservas fracionadas?

Em caso afirmativo, como poderia ser feita essa transição para que os bancos fossem apenas intermediadores entre poupadores e empreendedores, sem causar um desequilíbrio à economia?

Vi que na seção biblioteca desse site existe muito material, mas quias são indicados para quem ainda não tem conhecimentos econômicos como eu? Pelo título, me interessou muito o livro "Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos", mas acho que ainda é uma leitura muito pesada pra mim.

Agradeço se puderem me responder.

Responder
Malthus 20/05/2013 07:41:46

1) Correto.

2) Aqui: www.mises.org.br/Article.aspx?id=1553

Responder
Emanuel 23/05/2013 01:43:09

Obrigado pelas respostas, Malthus.

Responder
Bianca Rodrigues 18/07/2013 20:36:11

Olá, estou fazendo minha monografia sobre o Sistema de Reserva Fracionária e gostaria se saber de onde retirou os dados para fazer os gráficos.

Desde já agradeço.

Responder
Leandro 18/07/2013 21:15:01

Site do Banco Central. Todos os dados estão publicamente disponibilizados pelo Banco Central em seu site, mas infelizmente não há nenhum link direto para o gráfico de nenhuma variável. Você tem de ir ao link abaixo e então clicar em todas as variáveis desejadas. Feito isso, o próprio site do BACEN irá lhe fornecer o gráfico.

https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries

Caso o link acima não abra, certifique-se de colocar os dois pontos ( : ) após o https.

Responder
Carlos 18/08/2013 23:12:38

Além do compulsório não existe outra limitação da alavancagem dos bancos? O comitê da Basiléia recomenda uma alavancagem máxima de quantas vezes o valor do patrimônio líquido dos bancos? O Bacen adota alguma limitação desse tipo?

Responder
Leandro 19/08/2013 12:44:57

No que diz respeito a alavancagens, o Banco Central trabalha apenas com compulsório. As regulações de capital/ativos ficam por conta de Basileia. Basileia II impôs uma razão capital/ativos de 8%. Basileia III pretende elevar esta razão para acima de 12%.

Este artigo especifica todos os detalhes:

O dilema do sistema bancário e as regras da Basileia

Responder
anônimo 20/08/2013 15:37:13

Leandro ótimo texto - sou economista de primeira viagem e me projeto a área bancaria pública. logo quero fazer uma analogia ao texto e duas perguntas.


Primeiro, pelo que intendi vivemos quase num sistema de "mercantilismo bancário" onde eles tenta manter suas reservas inalteradas mas investindo em propensões de lucro. Não se assemelha ao sistema que o Império Inglês fez com suas colonias? ou viajei na maionese? rsrs

pronto perguntas na sua opinião:

Esse processo de ciclo de expansão no nosso pais é curto, logo o remédio seria uma solvência maior dos numero de bancos no mercado ou um regime de controle maior de compulsório?

E a meta de inflação projetadas usando como mecanismo (por alto) apenas a selic como o controle da geração de credito é fraca, deveria haver uma regulamentação maior acerca câmbio interbancário? se sim qual seria a imposição que poderia forçar os bancos a diminuir os juros e beneficiar setores da economia? setores como os pequenos banco e bancos cooperativas.

Responder
Sergio-SP 11/09/2013 15:34:03

Boa tarde, excelente artigo e muito claro. Porém, estou fazendo um trabalho voltado à controladoria e contabilidade bancária. Poderia me informar como é o real funcionamento do que dizem ser a dedutibilidade? Onde o BACEN controla os créditos podres e restitui os valores em forma de dedução? No caso para créditos pessoais, contratos acima de 180 dias e financiamento de bens para contratos inadimplentes acima de 720 dias sem a busca ou apreensão do bem. Fico no aguardo. Muito obrigado e parabéns.

Responder
Daniel 11/09/2013 22:21:33

Olá, mais um excelente e explicativo artigo, porém alguém poderia me ajudar a solucionar uma questão vital que não consigo compreender?

Como a economia vai crescer e as pessoas enriquecerem se não for criado dinheiro do nada pelos bancos?

O que adianta eu montar uma empresa e produzir um produto gerando riqueza para a sociedade se ninguém poder comprar este meu produto?

Se todas as pessoas estiverem com o orçamento todo comprometido, como vão poder adquirir novas riquezas geradas?

Ou seja, pelo que penso, assim não seria criado dinheiro, só transferido, então para alguém ganhar mais outro sempre teria que ganhar menos.

Grandes intelectuais autores e leitores do Misses, podem me explicar e me ensinar por favor?

Responder
Leandro 11/09/2013 23:07:29

Prezado Daniel, a riqueza real não pode ser aumentada por meio da simples criação de dinheiro e de crédito. Aumentar a quantidade de pedaços de papel na economia (ou de dígitos eletrônicos) não torna uma sociedade mais rica; não aumenta a quantidade de recursos escassos disponíveis, não aumenta a quantidade de materiais para a construção de bens de capital e bens de serviços.

A riqueza genuína só pode ser criada pela divisão do trabalho, pela poupança, pela acumulação de capital, pela capacidade intelectual da população (se a população for burra, a mão-de-obra terá de ser importada), pelo respeito à propriedade privada (o que implica baixa tributação), pela segurança institucional, pela desregulamentação econômica, pela moeda forte, pela ausência de inflação, pelo empreendedorismo da população, por leis confiáveis e estáveis, por um arcabouço jurídico sensato e independente etc.

Criar dinheiro e sair concedendo crédito é uma medida que estimula o consumismo imediato e que gera investimentos que, embora pareçam rentáveis, assim que eles ficam prontos revelar-se-ão insustentáveis. Com o tempo, os preços sobem generalizadamente, a expansão do crédito é reduzida, e todos esses investimentos que foram estimulados pela expansão artificial do crédito entram em colapso, pois nunca houve uma demanda genuína por eles. Como os consumidores estão mais endividados e o nível geral de preços da economia aumentou, a demanda irá cair. Aí começa a recessão.

No final, houve apenas desperdício de recursos escassos e destruição de capital.

Embora aumentos na quantidade de dinheiro não façam a economia crescer, eles de fato alteram a estrutura da mesma; embora variações na oferta monetária não produzam impacto no crescimento agregado da economia, elas certamente afetam a maneira como os recursos da economia são alocados e distribuídos. Ou seja, as variações da oferta monetária determinam como será a estrutura produtiva da economia, mas não o nível da produção. Variações na oferta monetária sempre serão benéficas apenas para o governo e para suas empresas favoritas -- como o setor bancário e os grandes industriais amigos do rei --, que são os primeiros a receber o novo dinheiro criado.

Responder
Renato Souza 11/09/2013 23:51:34

André

Essa é uma falácia antiga, Adam Smith explicou isso. Dinheiro não é riqueza em si. Mesmo que fosse ouro, seria uma parte mínima da riqueza de um país.

O que acontece quando se aumenta a produção de riqueza mas não se aumenta (ou se aumenta pouco) a quantidade de dinheiro em circulação? Simples, o dinheiro se torna mais escasso em relação à demanda por ele, e portanto seu valor sobe, ou dizendo de outra forma, os preços em geral caem. Assim, não existe uma quantidade "ideal" de dinheiro para uma determinada economia. O valor do dinheiro se adapta para se tornar adequado ao tamanho da economia.

Responder
Andre Cavalcante 11/09/2013 23:53:43

Tentando responder (além do que o Leandro postou pela centésima milionésima vez aqui no site):

"Como a economia vai crescer e as pessoas enriquecerem se não for criado dinheiro do nada pelos bancos?"

R. Você está confundindo riqueza com dinheiro. Ter dinheiro não é ter riqueza. A riqueza está no conjuntos dos bens e serviços criados, vendidos, trocados etc. Dinheiro é só uma forma de medir a quantidade de riqueza, assim como o metro é só uma forma de medir um comprimento. Ter R$100,00 era bastante no início do Plano Real. Hoje não compra muita coisa.

"O que adianta eu montar uma empresa e produzir um produto gerando riqueza para a sociedade se ninguém poder comprar este meu produto?"

R. O que faz as pessoas comprarem coisas? Necessidade, desejo, vontade, etc. Se eu crio algo e coloco a venda eu posso ou não vender, dependendo se as pessoas quiserem ou não aquele produto. Se não quiserem, tomo prejuízo, se quiserem, tenho lucro. Só haverá uma genuína quebra no poder de compra quando todo mundo se transformar em zumbi (ou o governo nos transformar em zumbis por causa de um hiperinflação). Até lá, ao menos o básico: alimentação, vestuário, moradia, transporte etc. as pessoas irão consumir, então haverá mercado e produtores e consumidores.

"Se todas as pessoas estiverem com o orçamento todo comprometido, como vão poder adquirir novas riquezas geradas?"

R. Já parou para pensar que este é exatamente o ponto em que nós estamos, justamente por causa da criação de dinheiro (e não riquezas) do nada? Não parece exatamente que tá todo mundo com o "orçamento comprometido"? Não, não é só sensação: a inadimplência, por exemplo, segundo o Serasa, apesar da diminuição em junho e agosto, registra um aumento em 2013, de 2,2% (o aumento já foi de 4%).

Responder
Daniel 26/11/2013 14:39:35

Olá Leandro, Renato e André, muito obrigado pelas elucidatórias respostas.

Consegui ampliar a minha compreenção desta dinâmica complexa do capitalismo.

Embora eu frequentemente acesse o Misses, au ainda não havia lido os artigos que voccê me indicou Leandro, agora com a leitura dos mesmos e com suas respostas consegui compreender melhor a situação do dinheiro na econômia.

Só para deixar claro, eu sempre soube que o dinehiro só representa uma riqueza, mas o valor verdadeiro está nos serviços, produtos, conhecimentos e etc gerados, eu só não consegui compreender como poderia se transformar esta riqueza verdadeira gerada em dinheiro sem mais dinheiro no mercado.

Forte abraço a todos.

Responder
anônimo 04/12/2013 14:07:45

Leandro, bom dia.
Não sei se você tem acompanhado o debate entre o Bob Murphy e autores de uma escola chamada MMT – Modern Monetary Theory – principalmente um chamado Warren Mosler (o debate está no youtube). Um desses autores, chamado Randall Wray, argumenta que esse sistema bancário de reservas fracionárias e moeda estatal existe desde sempre, que o dinheiro não é commodity e nunca surgiu do escambo, mas é e sempre foi um título de dívida, sendo uma criação do estado como unidade de conta – a visão chartalista da moeda, embasada em Innes-Mitchel, David Graeber etc. Eles dizem que o estado se financia criando moeda e o público vende seus bens e serviços pro estado porque precisa da moeda pra pagar impostos, por isso a moeda estatal tem poder de compra (quando o estado recebe de volta a moeda ela "morre" como uma quitação de dívida). Disso, argumentam que o estado não se financia pela coleta de impostos e nem do endividamento, estes dois servem apenas para drenar excesso de moeda da economia real e evitar inflação de preços. Desta forma, os déficits governamentais não seriam preocupação e nem um fardo para futuras gerações, já que o governo pode se financiar por ser o emissor de moeda; moeda e dívida são os dois lados da mesma moeda, como dizem eles. E como moeda é dívida, ela é criada de forma endógena, pelos agentes nos mercados, ou seja, qualquer um é emissor de moeda. O problema é que dívidas privadas só podem, em última instância, ser quitadas em dívidas públicas (a moeda estatal).
Eles também afirmam que a inflação de preços e os malinvestments não decorrem do aumento da moeda, mas ao contrário, são as causas para o aumento da quantidade de moeda estatal, seu efeito.
Outro ponto que eles levantam é que o governo não pode ser comparado a qualquer outra instituição privada pelo fato de ser o emissor de moeda, assim, afirmam que o governo precisa estar sempre em déficit para que o público tenha dinheiro suficiente para pagar os impostos e poder aumentar a poupança privada. Eles sempre apresentam essa fórmula: G – T = S – I. Se os governos incorrerem em superávits, estarão apenas aumentando o fardo de impostos sobre a população e no final das contas não haverá mais moeda pra transações quando o governo quitar a dívida pública.
Ah! E os investimentos não vêm da poupança, mas é a poupança que é criada pelos investimentos, já que moeda é um título de dívida e não uma commodity. E até o mercado é invenção do estado pra eles.
E como tudo isso é assim mesmo, eles propõem uma política de estoque regulador de trabalho não especializado com um valor pré-definido pra evitar ciclos econômicos, inflação de preços e gerar automaticamente pleno-emprego.
Como você vê esses argumentos todos? Desculpa te incomodar com isso, mas não acho que o Murphy tem respondido à altura e não vi mais nenhum austríaco interessado neste debate, apesar de achá-lo de suma importância pelos resultados que esse intervencionismo todo pode levar (e eu não consigo visualizar em todos os seus detalhes).
Desde já agradeço e desculpa o tamanho do comentário.

Responder
Doutrinador 04/12/2013 14:24:00

De duas uma: ou você fez uma caricaturização bem grosseira do pensamento desta corrente (acho difícil existir pessoas tão ignaras a ponto de realmente pensar tudo isso) ou de fato o debate intelectual desceu tão baixo a ponto de dar a atenção a disparates como esse.

Olha o naipe: "Outro ponto que eles levantam é que o governo não pode ser comparado a qualquer outra instituição privada pelo fato de ser o emissor de moeda, assim, afirmam que o governo precisa estar sempre em déficit para que o público tenha dinheiro suficiente para pagar os impostos e poder aumentar a poupança privada."

Ora, esses caras por acaso desconhecem o fato de que quem aumenta a quantidade de dinheiro na economia é o sistema bancário por meio da expansão do crédito? O que determina a expansão da moeda é a expansão do crédito. Logo, se o governo apresentar um orçamento equilibrado, isso não significa que se está retirando dinheiro da economia, que é o que o raciocínio acima deixa implícito. Qualquer pessoa ou empresa que peça um empréstimo está aumentando a quantidade de dinheiro na economia.

Essa é apenas mais uma corrente criada às pressas para justificar academicamente o aumento dos gastos estatais e os contínuos déficits governamentais. São keynesianos em esteróides.

Responder
davi 04/12/2013 15:28:59

Olá Doutrinador, eu sou o anônimo de cima.
Olha! É isso ai mesmo, a menos que eu esteja muito enganado. A linha de argumentação deles é essa mesma e eles sabem que são os bancos que criam dinheiro via crédito, por isso utilizam o conceito de moeda-débito e não moeda-mercadoria. Na verdade, eles dizem que qualquer um emite moeda (crédito), mas só o estado "cria" moeda. E como o estado é o criador de moeda-crédito, jogando a dívida em cima de nós, os impostos servem apenas pra quitar a dívida do estado. O dinheiro, pra eles, nasce no estado, roda a economia e morre no pagamento do imposto.
Esse Warren Mosler que debateu com o Murphy tem um livro chamado 7 deadly innocent frauds (tem o pdf na net). As sete seriam: First, government finance is supposed to be similar to household finance: government needs to tax and borrow first before it can spend. Second, today's deficits burden our grandchildren with government debt. Third, worse, deficits absorb today's saving. Fourth, Social Security has promised pensions and healthcare that it will never be able to afford. Fifth, the U.S. trade deficit reduces domestic employment and dangerously indebts Americans to the whims of foreigners - who might decide to cut off the supply of loans that we need. Sixth, and related to fraud number three, we need savings to finance investment (so government budgets lead to less investment). And, finally, higher budget deficits imply taxes will have to be higher in the future - adding to the burden on future taxpayers.

Responder
Leandro 04/12/2013 17:40:23

"eles dizem que qualquer um emite moeda (crédito), mas só o estado "cria" moeda."

Nonsense. Apenas o Banco Central e o sistema bancário emitem moeda. Ninguém mais emite moeda. Se eu empresto $100 para meu vizinho, estou concedendo a ele um crédito, mas eu não emiti moeda. O meu poder de compra caiu na mesma quantidade que o dele aumentou. Não houve alteração na quantidade de moeda na economia.

"E como o estado é o criador de moeda-crédito,"

Outro erro. De novo: no nosso atual arranjo monetário e financeiro, quem cria a moeda-crédito é o sistema bancário. O estado, por meio do Banco Central, apenas dá suporte a esse processo. São os bancos quem realmente cria moeda e a coloca para "circular" na economia. Mesmo quando o governo incorre em déficit e emite títulos, é o sistema bancário quem irá comprar estes títulos. E ele fará isso criando moeda eletrônica.

"jogando a dívida em cima de nós, os impostos servem apenas pra quitar a dívida do estado."

Sou simpático a essa visão, mas ela é extremamente reducionista e simplista. Pra começar, raramente um governo quita suas dívidas. Ele apenas paga os juros dessa dívida. O principal ele apenas rola, e faz isso emitindo novos títulos. Ademais, os impostos também servem para financiar várias outras mamatas, daí o simplismo problemático desta afirmação acima.

"O dinheiro, pra eles, nasce no estado, roda a economia e morre no pagamento do imposto."

Aí piorou tudo. O dinheiro não nasce no estado (se eu pegar um empréstimo na Bradesco para comprar um carro, está havendo criação de dinheiro e não há estado envolvido) e nem muito menos ele morre no pagamento do imposto. Quem afirma que o dinheiro arrecadado via imposto some da economia é alguém que desconhece por completo o real funcionamento tanto do governo quanto da economia. O dinheiro que o governo arrecada via imposto da padaria da esquina vai parar no bolso de um funcionário público, de um político, de um empreiteiro ou de um empresário subsidiado. O dinheiro não apenas não sumiu da economia, como na verdade ele nem sequer saiu da economia. Ele foi apenas realocado coercivamente. Foi retirado de um empreendedor e foi entregue a um privilegiado.

Responder
Renato Souza 08/12/2013 17:53:29

Davi

A versão dessa gente não tem o menor respaldo histórico. Textos antigos narrando transações comérciais mostram as pessoas PESANDO ouro ou prata. Eram PEÇAS de ouro ou prata (trabalhadas ou não). Ouro e prata não eram usados só em reinos organizados, mas também por tribos diversas, que se tinham um governo, não tinham um estado propriamente dito. Esses governos tribais primitivos (e também as cidades estado antigas, e mesmo os primeiros impérios) não emitiam moedas.

Então pense: Um agente privado minerava ouro, agentes privados transportavam e colocavam no mercado o ouro, agentes privados purificavam, e geralmente transformavam o ouro em peças decorativas, agentes privados trocavam entre si ouro por coisas diversas. Para que essa longa série de agentes privados precisa do governo na suposta "emissão de moeda"? Os metais preciosos foram moeda muito antes de serem moedas cunhadas. Quero dizer: milênios antes! Pergunte a qualquer historiador que tenha estudado profundamente sobre os povos do oriente médio, por exemplo. Como esses economistas explicam o fenômeno de pessoas no interior da África ou no crescente fértil, a centenas ou milhares de anos, trocando ouro em pó ou peças de ouro por mercadorias? Como eles conseguiam fazer isso, sem a "emissão de moeda" por parte de algum governo?

Mas mesmo quando se passou a cunhar moedas, foi comum os agentes privados não serem proibidos de cunharem suas próprias moedas. A cunhagem era apenas uma indicação de peso, e não a "emissão" no sentido moderno de trazer ao mercado algo que antes não existia. E note que as moedas entravam e saiam do país livremente, e portanto não podia haver um controle de quantidade de ouro em circulação (mesmo porque os primeiros estados eram cidades, não impérios, e o "exterior" era muito perto). Só quando surgiram os impérios de grandes dimensões a dinâmica da moeda passou a ser outra. Ora, num país onde o governo não tenha o poder sobre a oferta de moeda, nem sobre a importação e exportação de bens (inclusive moedas), o valor desta em relação às outras mercadorias é dada inteiramente pelo mercado.

Finalmente, a transformação de mercadorias em moedas não é só algo histórico, mas algo bem presente. Hoje mesmo, no submundo do crime (onde ninguém é obrigado a aceitar as moedas que o estado determina), mercadorias são usadas como moedas. No tempo da hiperfinflação, era comum os preços das coisas, no interior do brasil, serem referidas a "bois", cuja cotação do dia era verificada para o fechamento do negócio em moeda oficial.

Responder
davi 09/12/2013 11:38:52

Só corrigindo um erro. O dinheiro não é crédito, mas débito pra eles.
Usando teu exemplo, mas um pouco mudado. Você empresta uma enxada pro teu vizinho e ele te dá um documento do tipo "eu te devo uma enxada" (digamos uma talha de argila com um símbolo de uma enxada e o brasão da família). Depois de um mês ele te devolve a enxada e você devolve a talha; a transação morreu.
No mês seguinte vocês fazem a mesma transação. Porém, você pega a talha e negocia com sua vizinha Marlene e troca por um machado. A Marlene troca a talha com o José por uma dúzia de ovos e 1 kg de farinha; o José troca a talha com a Ana por 5kg de feijão. Ai a Ana vai até o seu vizinho e troca a talha pela sua antiga enxada original.
A talha do teu vizinho, nesse exemplo, é o dinheiro pros caras do MMT. No final da transação toda a talha morreu, por isso dizem que o dinheiro nasce, roda e morre. Se mudássemos a enxada pra ouro e a talha pra notas bancárias, teríamos o sistema padrão ouro. (Estou correto? Não conheço os detalhes do sistema bancário sob o padrão ouro). E se houvesse vários emissores de talhas (banqueiros), eles teriam que negociar entre si no final de cada período pra cada um quitar suas dívidas em talhas diferentes. O dinheiro nesse exemplo é o lastro em enxada (ou ouro), ou a dívida representada pela talha (ou em notas bancárias)?
Com essa definição, eles dizem que o dinheiro estatal só tem valor porque é lastreado na dívida que o estado impõe a todos nós. Por isso dizem que o dinheiro é criado, roda e depois morre com o pagamento dos tributos. Também acho muito simplista essa história dos impostos e todos os exemplos que eles dão são poll taxes, tipo as hut taxes da Africa colonial.
Já com os bancos, eles dizem que eles emitem moeda na forma de dívida, mas a moeda não é deles, é do estado, por isso não conseguirão quitar suas dívidas emitindo mais dívida. Se eles não conseguirem quitá-las, como no teu exemplo do comentário acima (dia 22/04/2013 13:55:43), ou eles vão pro buraco ou o estado socorre: o estado cria mais da sua própria moeda pra quitar as dívidas dos bancos comprando os títulos públicos que estavam em suas mãos.
Pelo que já li aqui esse mecanismo todo não é tão azeitado como eles dizem, mas receio que ainda consigam rearranjar politicamente o sistema monetário e fiscal pra permitir esse intervencionismo ainda mais direto.

Responder
Hugo 25/12/2013 21:07:43

Boa noite Leandro!

Entrando no mérito do assunto,gostaria de saber qual a sua opinião e a do IMB sobre o FGC.Essa associação é benéfica pra todos ou é só mais um truque do sistema bancário?

Obrigado!

Responder
Leandro 28/12/2013 23:12:15

É complexo avaliar. O FGC é um fundo privado formado pelas contribuições dos bancos. Cada banco deposita mensalmente no FGC 0,025% sobre todos os seus depósitos que são garantidos por esse fundo. Em teoria, o dinheiro é dos bancos; na prática, o dinheiro é nosso, pois nós é que somos os correntistas.

A teoria do risco moral nos informa que a existência deste seguro estimulará os bancos a serem mais impetuosos e temerários do que seriam caso ele não existisse.

Responder
Arthur 26/12/2013 00:29:36

Prezados,

uma dúvida teórica. Após a leitura desse artigo surge uma pergunta: vale a teoria clássica ou keynesiana? A poupança gera o investimento ou o investimento gera a poupança?
É necessário uma poupança prévia para gerar o investimento ou o crédito viabiliza o investimento que por sua vez se desdobra em poupança ex-post?

Obrigado!!

Responder
Leandro 28/12/2013 23:24:23

A teoria clássica continua sendo a verdadeira. O problema, no entanto, é que o atual arranjo monetário e financeiro obnubilou as coisas. No arranjo atual, os bancos criam dinheiro do nada e, com isso, geram poder de compra e capacidade de investimento para pessoas e empresas.

Por exemplo, suponha que você é um incorporador e queira construir um prédio. Ato contínuo, você vai a um banco e pede um empréstimo. O banco, por conseguinte, irá criar eletronicamente este dinheiro e depositá-lo na sua conta. Agora, você tem mais poder de compra. Você poderá comprar tijolos, cimento, argamassa, vergalhões, azulejos, encanamentos, pias, vasos sanitários etc.

Mas não foi a criação deste dinheiro o que possibilitou a existência de todos esses materiais. E isso tem de ficar claro: a expansão do crédito, por si só, não possibilita nenhum investimento. Criar dinheiro não faz com que tijolos, cimento, argamassa, vergalhões, azulejos, encanamentos, pias, vasos sanitários surjam do nada. Essas coisas só existem porque alguém produziu estes bens. E para que estes bens pudessem ser produzidos, outras pessoas tiveram de poupar (se abster do consumo) e, assim, liberar os recursos necessários para a produção destes bens.

Justamente pelo fato de os bancos poderem criar dinheiro do nada, sem que outras pessoas (os poupadores) tenham de abrir mão de uma idêntica quantia de dinheiro, tudo o que essa expansão de crédito faz é aumentar a quantidade de dinheiro na economia e gerar inflação de preços.

Em suma: no final, é a poupança quem de fato permite os investimentos.

Responder
Tiago Feitosa 06/01/2014 18:22:38

Parabéns pelo excelente artigo.

Há tempos não via informação tão clara, objetiva e imparcial!
Ganhou um fã! ;-)

Responder
Fred 15/01/2014 14:02:28

Parabéns pelo excelente artigo. Infelizmente sabemos que o número de pessoas que se interessam a entender esses meandros da realidade é muito reduzido. A única solução prática é tornar a moeda independente do estado e as criptomoedas descentralizadas (ex. Bitcoin) estão no caminho certo.
Leandro, como você se posiciona pessoalmente em relação as criptomoedas?

Responder
Fred 15/01/2014 22:05:34

Leandro, uma dúvida. Seguindo o raciocínio exposto no artigo que diz que toda oferta monetária é equivalente a dívida existente no sistema financeiro (governo + empresas + famílias), seria possível afirmar que para quitar toda a dívida (principal + juros) seria preciso realizar novos empréstimos para pagar os juros? Uma vez que a oferta monetária equivale a apenas o principal da dívida.

Responder
Leandro 15/01/2014 23:16:03

O que é possível afirmar é que, no atual arranjo bancário e monetário, a quitação de absolutamente todas as dívidas levaria à extinção de toda a oferta monetária.

De resto, vale ressaltar que há as dívidas boas e as dívidas ruins. Dívida boa é aquela que está voltada para investimentos produtivos, os quais geram lucros para quem os empreende. Dívida ruim é aquela voltada para o consumismo e para especulações insustentáveis. Quem tem dívida boa não tem dificuldade nenhuma para quitá-la; quem tem dívida ruim é que ficará com a conta final.

Responder
Hugo Siqueira 21/01/2014 00:23:58

POLITICA DO FED AINDA É EXPANSIVA
O FED não está retirando estímulos. Continua aumentando menos, a um ritmo menor. Os estímulos continuam a crescer, só que em ritmo menor. A dívida não diminui: apenas cresce menos: 500 bilhões a mais, em lugar de 1 trilhão de dólares anuais.
É muito pequena a retirada de 10 bilhões mensais (500 bilhões no ano) para produzir qualquer efeito significativo.

Responder
Ali Baba 21/01/2014 10:12:29

Olá caros IMBistas,

O assunto é meio off-topic (ou não), mas queria a opinião de vcs sobre a descrição do sistema bancário contida no filme "Zeitgeist Addendum". Eu acho toda a série e movimento Zeitgeist meio forçado demais, muitas vezes distorcendo as coisas para encaixar em conceitos pré-definidos do diretor... mas a parte inicial do Addendum me pareceu bem condizente com a realidade e só um pouquinho pendendo para a teoria da conspiração.

Como um fact-check, envio a dúvida para os ilustres... Obrigado.

Responder
Hugo 29/01/2014 14:10:05

Bom dia Leandro!

Gostaria de tirar uma dúvida sobre os balancetes dos bancos:

Quando um cliente paga um empréstimo ao banco as reservas bancárias desse empréstimo continuam no sistema bancário ou elas também são liquidadas?

Responder
Leandro 29/01/2014 14:25:38

Se o empréstimo foi quitado com dinheiro eletrônico (via cheque ou consignado), as reservas continuam no sistema bancário. Se foi quitado com dinheiro vivo, então está entrando reservas no sistema bancário.

Reservas só irão sair do sistema bancário se você sacar dinheiro do banco e não redepositá-lo.

Responder
Pobre Paulista 06/02/2014 11:31:50

Leandro,

A única forma de realmente drenar as reservas bancárias é guardar dinheiro no colchão? Porquê não basta eu sacar, eu vou comprar algo e quem receber esse dinheiro poderá depositá-lo novamente, certo?

Responder
Leandro 06/02/2014 11:42:53

Correto. Mas, na prática, se todo mundo fizer isso, as taxas de juros do interbancário irão disparar. E, dado que o BACEN trabalha com uma meta para esta taxa de juros (que é a SELIC), ele imediatamente irá injetar mais dinheiro nas reservas bancárias, recompondo-as. Assim, todo o seu esforço terá sido em vão.

Resumo: não há o que você possa fazer para atacar os bancos e afetar sua capacidade de expandir o crédito. Conforme-se.

Responder
Pobre Paulista 06/02/2014 12:14:33

Ou seja:

Deixar dinheiro no banco causa inflação, pois eles irão usar como reserva para criar empréstimos.

Tirar dinheiro do banco causa inflação, pois o BACEN irá criar novas cédulas para garantir a liquidez dos bancos.

Parece um belo Catch-22, não é mesmo?

Responder
Hugo Siqueira 05/02/2014 16:17:38

A INGENUIDADE DO ESTÍMULO AO CONSUMO
O "Tsunami de dólares" – que tanto irritou a presidente – ocorreu simultaneamente aos estímulos ao consumo no Brasil. Não constituiu surpresa alguma a valorização do Real frente ao Dólar que levou ao consumo de bugigangas importadas. Apesar de esgotados, os estímulos persistem até hoje.
Tal como nos EUA o governo brasileiro não precisaria tomar nenhuma providência porque os salários já estavam valorizados pela imensa oferta Chinesa de uma vasta gama de mercadorias baratas. Estimular o consumo de bens específicos serviu para reforçar ainda mais o poder de compra dos assalariados, à custa daqueles que ficaram de fora dos incentivos. O trabalhador se tornou mais caro para as outras atividades, perdendo competitividade e o país se industrializou.
O ex-presidente aproveitou uma janela dos enormes superávits produzidos pelo "boom das comodities" – minérios e agronegócio subsidiado – para constituir grande reserva e fazer a distribuição de renda com aumento dos salários acima da inflação. Poderia ter aproveitado para fazer investimentos em infraestrutura, mas não foi isso que aconteceu. Retirou IPI de alguns produtos e entupiu as cidades e estradas de automóveis e caminhões. Inclusive as pequenas cidades.
Poderia ter aproveitado o momento para fazer investimento em infraestrutura. Não o fez. Mas, pode voltar a exportar bens industriais devido ao dólar valorizado.
Aumento generalizado dos salários acima da inflação torna o trabalhador brasileiro caro e faz perder a concorrência para países mais pobres. Não há desindustrialização, mas mudança para o setor de serviços, uma característica precoce de país industrializado. Nossa industrialização se deu na década de 70 e de lá pra cá voltamos ao setor primário.

Responder
Hay 06/02/2014 09:48:22

Não acho que aumentos de salário acima da inflação foram o problema. Mesmo porque o rendimento médio do trabalhador do setor privado está estagnado há mais de uma década.

Responder
Alisson 04/03/2014 19:24:37

As "reservas bancárias" são lastreadas em cédulas? Ou, pelo menos, o Banco Central garante que se necessário transformará o dinheiro eletrônico presente nas "reservas bancárias" em cédulas?

Responder
Hugo 13/03/2014 14:46:54

Bom dia Leandro!

Estou fazendo um trabalho de faculdade sobre o comportamento dos agregados monetários,e comparando o desempenho dos depósitos de conta corrente e dos ítens do M2 excetuando o M1 vi que a partir do segundo semestre (a partir de setembro) o crescimento do M2-M1 tem sido maior que o crescimento dos depósitos de conta corrente em 12 meses,isso seria um indício de migração de contas corrente para o M2?

Responder
Leandro 13/03/2014 14:50:59

Sim. Sempre que os juros aumentam há essa migração. Pode conferir.

Responder
Pobre Paulista 13/03/2014 15:42:19

Desculpem o OFF, mas poderiam indicar uma literatura básica para explicar detalhadamente o que é base monetária, M1, M2, M10000... Sempre me confundo acerca dessas questões. Grato.

Responder
Leandro 13/03/2014 16:33:59

Base monetária: todas as cédulas e moedas metálicas impressas + as reservas bancárias depositadas junto ao Banco Central.

M1: cédulas e moedas metálicas nas mãos do público e das empresas + depósitos em conta-corrente.

M2: M1 + depósitos a prazo + todos os outros papeis emitidos pelos bancos (como Letras de Crédito Imobiliário e Letras de Crédito Agrário)

M3: M2 + todos os depósitos em fundos de investimento (Fundos Cambial; Curto Prazo; Renda Fixa (inclusive extramercado); Multimercado; Referenciado e vários outros) + operações de financiamento do setor não-financeiro lastreadas em títulos públicos.

M4: M3 + títulos federais, estaduais e municipais em poder de pessoas físicas e jurídicas.

Responder
Pobre Paulista 13/03/2014 19:32:07

Leandro, obrigado pela resposta, mas essas respostas me geraram mais dúvidas ainda:

1: Qual a relação da Base Monetária com os Mx?

2: Suponha que o tesouro emite um papel pré-fixado qualquer, portanto alguém transferiu dinheiro ao tesouro e ficou com o papel. Neste caso o M1 diminui (consequentemente o M2 e M3 também), mas o M4 fica inalterado pois o valor do título entra aqui. Ou seja, digamos que foi apenas uma "realocação". Mas no entanto o valor deste título aumenta com o tempo, sendo que M1 permanece o mesmo. Com isso o M4 aumenta de valor, sem uma contrapartida de decréscimo do M1... De onde vem a compensação dessa diferença?

3: Agora um banco emite um empréstimo, digamos R$100. Novamente, R$100 foram retirados do M1. No entanto, esse título de crédito é precificado pelo fluxo de pagamentos futuros trazidos a valor presente, e necessariamente vale mais do que os R$100 concedidos (digamos R$130). Por tanto haverá um aumento no M3 maior do que o decréscimo do M1 (um aumento de R$30,00 no total). Novamente não entendo de onde vem essa diferença, uma vez que ninguém criou 3 notas de 10 para que essa dívida seja paga...

Responder
Leandro 13/03/2014 23:58:20

1: Em teoria, se a BM aumenta, todos os Ms têm de aumentar. Na prática, essa relação nem sempre é perceptível porque o BC vive alterando as regras de compulsório, o que reduz os reservas bancárias (logo, a BM) e aumenta os Ms.

2: M2 (poupança e depósitos a prazo), M3 (fundos de investimento) e M4 (títulos do governo) se alteram de acordo com o novo valor de seus ativos. Apenas o M1, por se tratar de conta-corrente não-remunerada, é imune à variação de valores de ativos.

Logo, não há nenhuma "compensação" para esta diferença.

3: Muita atenção! Se o banco emite um empréstimo, ele está criando dinheiro. Portanto, não tem nada disso de M1 diminuir em decorrência de um empréstimo.

Sobre títulos de crédito (imagino que você esteja se referindo aos títulos incluídos no M2), se você, como correntista de um banco, redireciona dinheiro da sua conta-corrente para uma LCI, por exemplo, o M1 cai mas o M2 fica na mesma. O M2 só irá se alterar à medida que o valor deste título for aumentando. Lembre-se: os Ms são um passivo para os bancos. Logo, se o valor deles aumenta, o passivo dos bancos aumenta.

Mas isso não é nenhum problema, pois os bancos diariamente estão recebendo principais dos empréstimos concedidos, o que significa que seus ativos também estão aumentando diariamente.

Responder
Hugo 14/03/2014 03:59:15

Leandro fiquei com uma dúvida no M1:

os depósitos à vista que vão pro cálculo do M1 são os que estão nos passivos dos bancos (reservas inclusas) ou se desconta as mesmas?


Ah e mais,se o M2 é o total do passivo bancário,então por que o crédito total da economia é bem maior que o M2?

Responder
Leandro 14/03/2014 04:58:46

Reservas não estão incluídas em nenhum M; reservas estão apenas na base monetária.

De resto, gentileza ter mais atenção: em momento algum eu disse que o "M2 é o total do passivo bancário." Eu disse que os Ms (atenção: Ms) fazem parte do passivo bancário. O M2 é apenas uma fatia do passivo bancário.

O total do passivo bancário compreende: todos os tipos de depósitos, mais captações no mercado aberto, mais recursos de aceites e emissões de títulos, mais relações interfinanceiras, mais obrigações por empréstimos e repasses, instrumentos financeiros derivativos, mais outras obrigações e exercícios futuros.

Responder
Henrique 16/03/2014 22:45:07

Caro Leandro,

Parabéns pelos excelentes textos. Sou "formado em economia", entretanto confesso que cada vez que leio seus textos e os dos outros ECONOMISTAS, sinto que preciso estudar muito, muito mesmo para um dia chegar perto do conhecimento e discernimento de vocês. Continuem com essa maravilhosa função social, de dividir o Bom conhecimento aos sedentos de informação!

Parabéns
Henrique

Responder
Fred 19/03/2014 22:20:13

Artigo do Banco da Inglaterra que descreve como a criação de dinheiro é realizada por lá. Basicamente o processo é o mesmo que aqui. Mas é interessante ler tudo isso saindo da "boca" da própria instituição.

www.bankofengland.co.uk/publications/Documents/quarterlybulletin/2014/qb14q1prereleasemoneycreation.pdf

Responder
Cristiano Hordones 01/04/2014 20:26:15

Leandro, no trecho abaixo você diz que a taxa é a SELIC, não seria a taxa DI, publicada pela CETIP?

"No entanto, caso algum banco chegue ao final do dia tendo de arrecadar dinheiro para cobrir o rombo em seu compulsório, ele irá recorrer ao mercado interbancário, no qual aqueles bancos com reservas em excesso emprestam dinheiro para aqueles com reservas insuficientes. Os juros que eles cobram nesta operação é exatamente a taxa SELIC."

Responder
Leandro 01/04/2014 21:04:40

A SELIC é a taxa que baliza as operações interbancárias que utilizam como lastro títulos do Tesouro. Já o CDI é a taxa que baliza operações interbancárias que utilizam como lastro títulos privados emitidos pelos próprios bancos.

Embora ambas as taxas atuem no mesmo tipo de mercado (e sejam quase idênticas entre si), a diferença de volume entre esses dois mercados é gigantesca.

Os títulos públicos somam quase R$ 2,5 trilhão; já os títulos privados dos bancos equivalem a cerca de R$ 100 bilhões. O BC, ao fazer suas operações compromissadas com o sistema bancário, utiliza títulos públicos, balizados pela SELIC, o que dá uma liquidez muito maior a este mercado.

Sobre a pequenez do CDI, recomendo este artigo:

www.valor.com.br/valor-investe/casa-das-caldeiras/2979918/quem-opera-nesse-mercado-de-cdi

Responder
pedro felipe 05/05/2014 11:23:40

amigo por favor faz um artigo sobre como os juros afetam a economia. li um artigo dizendo que os empréstimos não podem ser pagos pq o empréstimo é feito: ( dinheiro+ juros) só que o dinheiro do juros não está a ser criado então é impossível ser pago. por um tempo eu pensei que isso era mentira porque quando você faz um empréstimo é possível pagá-lo existem inúmeras pessoas que conseguiram quitar empréstimos com o banco, mas no artigo dizia que só uma parte vai conseguir pagar ex: o banco empresta 7 reais a três pessoas, mas com o juros todas as três tem que devolver 8, a primeira e a segunda vão conseguir a primeira vai tirar 8 e vai sobrar 13 e a segunda vai tirar 8 e vai sobrar 5, o que torna impossível de ela pagar, esse mesmo artigo até cita a crise de 29 como exemplo, quando o banco parou de conceder crédito nem todo mundo conseguiu pagar o que levou a crise econômica, amigo ficaria grato se você me respondesse, desde já agradeço. se puder faz um artigo falando de juros. abraços!

Responder
´SERGIO 13/05/2014 00:27:39

Ola , alguem poderia por gentileza me explicar o seguinte

se o governo fabricar papel moeda mais que o necessario e injetar no mercado como doaçao por exemplo as pessoas, isso gera inflaçao , certo?

mas se o governo conseguisse travar os preços ( tabelar ) e nao ter reajustes no comercio , poderia gerar inflaçao de outra forma ou ate mesmo deflaçao?

Responder
Ricardo 13/05/2014 00:58:09

Iria acontecer exatamente isso aqui:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1488

Você não era vivo na década de 80?

Responder
´SERGIO 13/05/2014 18:56:56

O PLANO CRUZADO PELO QUE ENTENDI PODERIA TER DADO CERTO , SE O GOVERNO TIVESSE FEITO DA MANEIRA CETA AS COISAS.

O GOVERNO TABELOU MAS NAO AJUDOU O COMERCIO , PELO CONTRARIO AUMENTOU A CARGA TRIBUTARIA AINDA, VEJO QUE FOI ISSO A DERROCADA DO PLANO CRUZADO , ( FIZERAM AS COISAS PELA METADE ) TIPO, DA COM UMA MAO MAS TIRA COM A OUTRA.

SE O GOVERNO TIVESSE FEITO O OPOSTO DISSO AQUI:
se nenhum funcionário público foi demitido (ao contrário, a época era de contratações e "trens da alegria" a rodo), nenhuma estatal foi privatizada, nenhum gasto foi suprimido, os vastos subsídios não foram cortados e a carga tributária não foi aumentada?

PRINCIPALMENTE O AUMENTO DAS CARGAS TRIBUTARIAS , ACREDITO QUE PODERIA DAR CERTO O TAL PLANO CRUZADO.

O QUE VOCES ACHAM???


Responder
Maurício 13/05/2014 23:13:22

Prezado Sergio, parece que você desconhece a história do mundo. Não há um único caso de controle de preços que tenha dado certo. Nenhum.

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1761

Responder
SERGIO 20/05/2014 00:48:56

ola , na escola nosso professor pediu para fazermos um trabalho de economia


ele pediu que desenvolvessemos um sistema economico eficiente e que nao criasse inflaçao ou deflaçao, nos tinhamos que inventar algo.

entao meu grupo fizemos o seguinte, tinhamos um mercadinho na escola para colocar em pratica e , deu certo

tiramos o papel moeda de circulaçao e deixamos soa s maquinhas de credito e debito

assim logo todo mundo teria que te ruma conta bancaria seria obrigatorio.

entao todo ves que uma pessoa fosse comprar qualquer produto , ele pagaria com cartao no debito ou cedito e toda ves que pagar ele estaria dando ao comerciante 2,5 vezes a mais o valor do produto ou seja se o produto vali 100 reais na verdade ele estaria dando 250 reais , ou seja o lucro seria fabuloso ao comerciante , e como isso era feito?? simplismente quando passar o cartao na maquina a maquininha gerava esses 2,5 a mais automaticamente , era como se fosse fabricado aquele dinheiro ali na hora para dar ao comerciante.

Mas isso gera uma inflaçao terrivel , entao decidimos que todos vez que o comprador for usar seu cartao o comerciante teria que dar um desconto de 90% do produto ( para nao gerar inflaçao ) ou seja o produto vale 100 reais entao ficaria por 10 reais pro comprador.

ENTAO O COMPRADOR ESTARIA PAGANDO 10 REAIS POR UM PRODUTO QUE VALE 100 E O VENDEDOR ESTARIA RECEBENDO 250 REAIS PELO PRODUTO.

BARATO PRA QUEM COMPRA E LUCRO ENORME PRA QUEM VENDE.

E DANDO O DESCONTO DE 90% , OU SEJA ABAIXANDO O VALOR DO PRODUTO , NAO IRIA GERAR INFLAÇAO NUMCA.


E A PESSOA QUE TEM O CARTAO TERIA UM CODIGO ESPECIAL PARA PODER GERAR ACRESCIMO DE 2,5 A MAIS PARA O COMERCIANTE E ELE SO DIGITARIA O CODITO ESPECIAL S EO COMERCIANTE DESSE O DESCONTO DE 90% NO PRODUTO.

OU SEJA , VOCE VAI COMPRAR UM CARRO QUE VALE 150 MIL REAIS , PAGARIA POR ELE 15 MIL REAIS COM O DESCONTO E O COMERCIANTE VAI RECEBER 375 MIL REAIS PELO CARRO.

NOS FIZEMOS ISSO AQUI NO MERCADINHO DA ESCOLA FOI MARAVILHOSOS NAO GEROU INFLAÇAO E TODO MUNDO SAIU GANHANDO , COMPRADOR E O VENDEDOR, E ISSO VALERIA TAMBEM PARA A COMPRA DE PRODUTOS DO COMERCIO COM A INDUSTRIA , MESMO ESQUEMA.


OO UNICO PROBLEMA É QUE AS MERCADORIAS ACABAM MUITO RAPIDO DAS PRATILEIRAS RSRSRSR , MAS ISSO PODERIA SER POSTO EM PRATICA AOS POUCOS PRA NAO SOBRECARREGAR A INDUSTRIA E O COMERCIO , EU PERGUNTO SERA QUE ISSO É POSSIVEL NA PRATICA?

Responder
joselito 20/05/2014 13:36:24

Não acredito que isso possa ser alguém falando sério

Responder
SERGIO 20/05/2014 18:42:12

Qando quiseram colocar o papel moeda em circulaçao na antiguidade , ninguem era a favor e demorou muito pro povo aceitar, diziam que era um absurdo trocar mercadorias por um monte de papel. rsrs


VOCE ENTENDEU DIREITO O QUE FOI EXPLANADO?


Responder
Pierre 20/05/2014 23:11:57

O Sergio já tá no nível certo para ser presidente do Banco Central. Sério mesmo.

Responder
Rafael (mais um) 15/07/2014 03:10:42

É de ficar abismado realmente.

Responder
Carlos Prado 22/05/2014 15:02:19

Sergio, exatamente. Os produtos acabam muito rápido, escassez, prateleiras vazias. Nos links que te passaram acima isto já foi verificado. E ainda há inflação, e muito mais veloz. Esta dos 90% não ajuda em nada: Se hoje antes da medida eu posso comprar um produto por 100 reais, depois de um tempo a sua medida pode levar ele a ser mais de 5000 reais. E pagar 10% de 5000 não é melhor do que pagar integralmente 100.

Os preços refletem muitas coisas, brincar de alterar o preço das mercadorias desregula toda a economia.

Responder
SERGIO 22/05/2014 21:10:38

A unica coisa que ajuda de fato é o comercio ser constante , ou seja, sempre pessoas comprando e vendendo ou como dizem ter dinheiro na praça, assim todos ganham,comercio e industria, o problema é que o dinheiro nao circula , as pessoas nao ficam gastando o dinheiro sempre , eles querem economizar por no banco pra ver se compram alguma coisa melhor ou fazer algo melhor entao o dinheiro fica la parado no banco e o comercio nao vende consequentemente a industria tambem nao , fica tudo um marasmo economico , TEM QUE ACHAR UM MEIO DO COMERCIO SER DINAMICO O TEMPO TODO.


mas se acharem um meio,, o problema se sempre , inflaçao rsrsr

é mais ou menos aquela situaçao se correr o bicho pega se ficar o bicho come rsrsrsr




SO DEUS PRA SALVAR O MUNDO !!!


Responder
Antony 21/05/2014 19:25:56

Perfeito!
Bem vindos ao Capitalismo!

Responder
Henrique 22/05/2014 13:23:35

Alguém pode me explicar a diferença entre depósitos a prazo e depósitos em poupança?

Responder
Meirelles 22/05/2014 13:37:06

Você não tem conta bancária?

Na caderneta de poupança, o rendimento ocorre a cada 30 dias, é tabelado pelo Banco Central, e você pode sacar o dinheiro quando quiser. Já nos depósitos a prazo, o rendimento tende a ser diário, mas há um prazo de carência para o saque. Caso o saque ocorra antes desse prazo, você não aufere os juros prometidos.

Responder
Henrique 22/05/2014 13:41:13

Ah, sim... Entendido.

Muito obrigado =]

Responder
André 15/07/2014 00:40:03

"Quando o Tesouro faz um leilão de títulos, os bancos criam dinheiro eletrônico para comprar estes títulos."

Isso não é verdade.

Bancos comerciais só podem comprar títulos nos leilões do Tesouro com Reservas Bancárias.
Reservas Bancárias são emitidas única e exclusivamente pelo Banco Central, e os bancos comerciais não podem e nem conseguem emitir esse tipo de dinheiro (a não ser que invadam os sistemas internos do Banco Central).
Os bancos comerciais precisam conseguir essas Reservas Bancárias para pagar compras de títulos do tesouro nesses leilões. Se eles não tem Reservas Bancárias, eles não conseguem comprar. Simples assim.



"Se você pedir um empréstimo para comprar um carro, o banco vai criar dinheiro eletrônico na sua conta."

A princípio isso é verdade.
Mas se você exigir sacar o dinheiro para pagar a vista ao dono do carro, o banco vai ter que se virar e encontrar em algum lugar moedas e células de real para te pagar, e esse tipo de dinheiro ele não pode emitir ou fabricar (é crime, e apenas o Banco Central do Brasil pode, através da Casa da Moeda).

Além disso, vamos supor que você pediu dinheiro emprestado ao Itaú para financiar seu carro, que será vendido a você por uma concessionária.
No momento que você pede o empréstimo, a única coisa que o Itaú faz é mexer em alguns números eletrônicos no sistema interno, fazendo o valor da linha "Saldo em conta corrente" da sua conta corrente aumentar. O Itaú tem realmente todo o poder para emitir esse tipo de "dinheiro" (que eu não gosto de chamar de dinheiro, mas é como chamam, não posso lutar contra as pessoas). Se a concessionária tem conta em outro banco, como o Bradesco, dai a coisa pode complicar. Você tem que transferir o "dinheiro" emprestado do Itaú para a conta da concessionária, no Bradesco. Nesse caso, o Itaú vai ter que dar um jeito de conseguir Reservas Bancárias (que ele não pode emitir, apenas o Banco Central pode emitir) e transferir essas reservas para o Bradesco.

O caso mais fácil para o Itaú seria se tanto você quanto a concessionária tivessem conta corrente lá. Nesse caso, quando você faz a transferência de dinheiro da sua conta corrente para a conta da concessionária, o Itaú apenas manipula números em seu sistema interno, e não existe realmente um fluxo de dinheiro (como moedas, cédulas ou Reservas Bancárias) se movendo. É só um bem bolado interno que o Itaú faz entre as contas correntes de seus clientes. O Itaú diminiu o Saldo em Conta Corrente de você, cliente, e aumenta o Saldo em Conta Corrente da concessionária.


Não podemos confundir moedas de real, cédulas de real e Reservas Bancárias (que são "reais eletrônicos") com outros tipos de dinheiro, como depósitos em conta corrente dos bancos comerciais (e depósitos de poupança ou depósitos a prazo) pois essas coisas são bem diferentes, e os bancos comerciais conseguem emitir apenas depósitos de bancos comerciais.

Responder
Leandro 15/07/2014 03:00:16

"Bancos comerciais só podem comprar títulos nos leilões do Tesouro com Reservas Bancárias."

O dinheiro das reservas bancárias é transferido para a Conta Única, que é a conta do Tesouro no Banco Central. Ato contínuo, o Tesouro gasta esse dinheiro e ele entra na economia.

Nesse ínterim, as reservas bancárias diminuíram. Se o BC nada fizer, essa diminuição das reservas tende a elevar os juros do interbancário (que é a Selic). Logo, para evitar esse aumento, o BC atua e injeta mais dinheiro no interbancário (normalmente comprando os títulos que os próprios bancos acabaram de comprar).

Resumo da ópera: aumentou a quantidade de dinheiro na economia. Note que não faz absolutamente nenhuma diferença o banco criar dinheiro e repassá-lo ao Tesouro, ou repassar suas reservas ao Tesouro e depois repô-las junto ao BC. O efeito final é idêntico: aumento da quantidade de dinheiro circulando na economia.

"Reservas Bancárias são emitidas única e exclusivamente pelo Banco Central, e os bancos comerciais não podem e nem conseguem emitir esse tipo de dinheiro (a não ser que invadam os sistemas internos do Banco Central)."

Isso nunca foi nem sequer aludido, muito menos mencionado.

"Os bancos comerciais precisam conseguir essas Reservas Bancárias para pagar compras de títulos do tesouro nesses leilões. Se eles não tem Reservas Bancárias, eles não conseguem comprar. Simples assim."

Se eles não têm reservas bancárias, então os juros do interbancário disparam. Como uma das tarefas do BC é manter esses juros fixados, o próprio BC se encarrega de garantir que os bancos sempre tenham reservas o bastante para financiar os deficits do governo sem que os juros subam. Pronto, você acabou de descobrir a função precípua de um BC: financiar o governo a juros menores do que aqueles que seriam cobrados em um arranjo de livre mercado sem um banco central. Simples assim.

De resto, você disse obviedades que não foram contestadas pelo artigo.

Grande abraço.

Responder
Fred 15/07/2014 13:25:12

"Logo, para evitar esse aumento, o BC atua e injeta mais dinheiro no interbancário (normalmente comprando os títulos que os próprios bancos acabaram de comprar)."

Os benefícios desse processo todo para o governo ficou claro, mas para mim ainda está um pouco nebulosa a vantagem para os bancos comerciais. Vou escrever o que eu entendo dos detalhes do processo. Por favor, corrijam alguma besteira que eu tenha dito.

No mercado primário, os Primary Dealers pagam o Tesouro Nacional usando reservas bancárias. E para repor suas reservas vendem os títulos que acabaram de comprar para o BACEN. Essa operação só valeria apena para os Primary Dealers se o BACEN comprasse tais títulos muito acima do preço que eles pagaram ao Tesouro, certo? Normalmente, o quanto acima do preço original o BACEN paga?

No caso do mercado secundário, os bancos comerciais utilizam moeda escriturária para comprar os títulos do mercado, certo? E revendem ao BACEN para obter reservas bancárias. Assim trocando moeda escriturária por reserva bancária no processo, podendo expandir seu volume de empréstimos caso assim desejem.

Responder
Leandro 15/07/2014 14:15:37

Os bancos compram do Tesouro a um valor e revendem ao BACEN por outro valor, maior. Lucram em cima disso.

Tanto é que a taxa SELIC efetiva é menor do que a SELIC oficial, o que indica que o preço do título no mercado secundário é maior.

Responder
Andre 15/07/2014 22:53:03

"Note que não faz absolutamente nenhuma diferença o banco criar dinheiro e repassá-lo ao Tesouro, ou repassar suas reservas ao Tesouro e depois repô-las junto ao BC."

Faz toda a diferença! Em um caso, os bancos comerciais que emitiram dinheiro, e no outro, o Bacen quem emitiu o dinheiro, e isso faz toda a diferença.

Caso 1) Quando o banco repassa suas reservas ao Tesouro e depois as repõem junto ao BC, no final do processo o balanço estará igual ao início do processo (com exceção de um pequeno lucro a mais por causa desse intermédio que o banco comercial fez entre o Tesouro e o Bacen, discutido a seguir).

Caso 2) A situação seria bastante diferente se o banco pudesse "criar dinheiro e repassá-lo ao Tesouro". O banco comercial iniciaria sem reservas e sem títulos. Então ele criaria dinheiro, e repassaria ele para o Tesouro em troca de títulos. No final das contas, o banco comercial teria títulos em sua carteira. Bela diferença essa!





"Essa operação só valeria apena para os Primary Dealers se o BACEN comprasse tais títulos muito acima do preço que eles pagaram ao Tesouro, certo? Normalmente, o quanto acima do preço original o BACEN paga?"

"Os bancos compram do Tesouro a um valor e revendem ao BACEN por outro valor, maior. Lucram em cima disso."

Certo, apesar de isso fazer parte das "obviedades", acho interessante ressaltar.

Esse é um tipo de operação esquisofrênica que o Tesouro faz com o Bacen porque não é permitido ao Tesouro vender títulos direto ao Bacen. Então o Tesouro vende para um banco comercial, que age apenas como um intermediário e revende para o Bacen, lucrando um pouco com isso (confrome dito). Eu pessoalmente acredito que esse tipo de restrição só complica as coisas e deveria ser removida, mas essa é uma longa conversa para outro tópico.

O ponto é o seguinte: o banco comercial apenas agiu como um intermediário, e NÃO emitiu dinheiro no processo descrito.

E com isso eu quero levantar a discussão que acho relevante: quem tem a "máquina mágica de impressão de dinheiro" é o Banco Central, que pode emitir cédulas, moedas e Reservas Bancárias, e assim interferir da maneira como julgar mais adequada no mercado. Essa decisão é política, e deveria ser tomada com o intuito de melhorar a vida de todos os cidadãos, mas nem sempre é assim que a coisa acaba funcionando.

Os bancos comerciais realmente podem emitir depósitos bancários a vontade, mas isso por si só não é um problema. O mercado financeiro possui problemas, mas não é bem por aí.

As cédulas, notas e Reservas Bancárias possuem uma característica especial: é apenas com isso que você pode pagar diretamente impostos e taxas do governo. Se bancos comerciais pudesses emitir esse tipo de dinheiro, o mundo realmente viraria de cabeça para baixo, mas não é o caso.

Caso vocês fiquem curiosos, acho que existe uma frente de acadêmicos bastante interessante, chamada Modern Monetary Theory, e eles entram em detalhes do funcionamento de bancos centrais e do seu relacionamento com o Tesouro. Procurem no Google, é fácil de achar!

Responder
Leandro 16/07/2014 10:34:27

"Faz toda a diferença! Em um caso, os bancos comerciais que emitiram dinheiro, e no outro, o Bacen quem emitiu o dinheiro, e isso faz toda a diferença."

Não. Dinheiro emitido pelo BACEN não entra na economia. O BACEN não pode jogar dinheiro na economia. Apenas o sistema bancário faz isso.

Até o ano 2000, o BACEN podia comprar títulos diretamente do Tesouro. Após a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal ele não mais pode fazer isso.

Portanto, repito: apenas os bancos jogam dinheiro na economia.

"Caso 1) Quando o banco repassa suas reservas ao Tesouro e depois as repõem junto ao BC, no final do processo o balanço estará igual ao início do processo (com exceção de um pequeno lucro a mais por causa desse intermédio que o banco comercial fez entre o Tesouro e o Bacen, discutido a seguir)"

Não, não estará. A quantidade de dinheiro na economia aumentou. Quando o Tesouro gastar esse dinheiro, ele cairá na conta de alguém. Portanto, falando em termos de balancete dos bancos, o passivo bancário aumentou, pois caiu dinheiro na conta-corrente de alguém.

Ao mesmo tempo, o Patrimônio Líquido dos bancos também aumentou, em decorrência desse lucro que você corretamente apontou. E o dinheiro oriundo deste lucro volta a compor as reservas bancárias, que são ativos.

Exemplificando tudo isso:

1) O Banco A repassa $100 de suas reservas para o Tesouro e, em troca, ganha um título de valor de face $100. Até aí, houve apenas uma troca de ativos. O Banco A perdeu $100 em reservas e ganhou $100 em títulos.

2) Esses $100 agora em posse do Tesouro são gastos pelo Tesouro e caem na conta-corrente de alguém. Logo, o passivo do sistema bancário como um todo aumentou $100.

3) O Banco A revende o título por $110 para o BACEN.

Balancete final do Banco A:

Ativos: $110
Passivos: $100
PL: 10

Portanto, o ativo aumentou (há agora mais reservas em decorrência do lucro da operação), o passivo aumentou, o PL aumentou.


"Caso 2) A situação seria bastante diferente se o banco pudesse "criar dinheiro e repassá-lo ao Tesouro". O banco comercial iniciaria sem reservas e sem títulos. Então ele criaria dinheiro, e repassaria ele para o Tesouro em troca de títulos. No final das contas, o banco comercial teria títulos em sua carteira. Bela diferença essa!"

Análise incompleta. O banco comercial teria títulos, mas teria menos reservas (afinal, ao criar dinheiro e transferir esse dinheiro ao Tesouro, ele perdeu reservas).

Exemplificando:

1) O Banco A cria $100 e repassa ao Tesouro e, em troca, ganha um título de valor de face $100. Até aí, ativo e passivo do Banco A aumentaram $100.

2) Quando o Tesouro gastar esse dinheiro e ele cair na conta-corrente de alguém, o banco desse alguém irá requerer as reservas do Banco A.

3) Agora, o Banco A tem um título de valor de face $100, mas perdeu $100 em reservas.

4) O Banco A revende o título por $110 para o BACEN.

Arranjo final:

Ativos: $110
Passivos: $100
PL: 10


Ou seja, deu exatamente na mesma. Em ambos os casos, aumentou a oferta monetária, aumentou o ativo, e aumentou o PL dos bancos. E tudo no mesmo valor.

Responder
Fred 16/07/2014 14:14:29

Senhores, discussão excelente.

Um detalhe que eu pude entender da discussão é que moeda escriturária criada por um banco comercial só faz sentido dentro do "mundo de operações" do próprio banco que a criou. Consequentemente, qualquer operação de transferência entre entidades (bancos comerciais, BACEN, governo) necessariamente é feita utilizando moedas de Real, cédulas de Real e Reservas Bancárias ("Reais eletrônicos"), pois moeda escriturária não tem significado nenhum fora do ambiente do próprio banco comercial que a criou.

É isso mesmo?

Responder
Rodnei Cardozo Moreira 17/07/2014 00:32:15

Errado, todo o dinheiro, tanto o que está na sua carteira, na sua conta ou nas reservas bancárias é escriturário. Ele é criado, emprestado, o banco cobra juros desse dinheiro e ele vai pra economia.
O fato de ainda serem dígitos eletrônicos não impede que sejam transformados em dinheiro físico quando necessário.
É bizarro mas é assim mesmo.

Responder
Mauricio C. 22/08/2014 01:48:02

Ola Leandro.

Parabéns pelo site e pelo artigo.

Bueno, tenho duas perguntas:

1 - Tenho $$$ em poupança que o valor da pra construir minha casa. Pelo atual sistema que estamos o que seria melhor? Comprar um terreno e financiar a construção (R$ 150.000) para pagar R$ 1400,00/mês a prestação em 240 meses com valores decaindo, e in vestir o $$$ que tenho, ou construir com meus próprios recursos?

Valeu.
Abraço

Responder
Baltasar 06/09/2014 03:58:14

Boa noite Leandro,
gostaria de parabenizá-lo pelos textos e, principalmente, ao modo de escrita de fácil compreensão.
Sou biomédico e entendo muito pouco sobre economia. Ouvi falar sobre Mises e teorias econômicas austríacas neste site e me interessei muito. Já li vários comentários sobre quais seriam os modelos ideais de cada um, também tenho um modelo em mente, mas gostaria da sua opinião sobre o que precisa ser feito para chegarmos a um modelo que represente uma economia ideal?
O que vc acha do modelo abaixo:
- Um único banco regulado diretamente pelo Governo, somente para brasileiros no formato cooperativo, onde cada brasileiro ao fazer seu CPF ou Registro civíl, têm sua Conta corrente, mas para movimentá-la somente com 18 anos ou com carteira de trabalho assinada. Recebimento dos lucros da instituição de acordo com o número de quotas capitais e somente se tiver com carteira assinada. Parto do princípio que o Estado não deve ter lucro nem prejuízo, tudo deve ser revertido ao povo. Na medida que o comercio interno aumenta, maior é a riqueza e maior será os ativos do banco. Enxugar a máquina pública aumentando a autonomia dos estados e ficando somente a regulação ao Estado.
Pode ser loucura, mas penso ser algo definitivamente voltado para o povo. Gostaria da sua opinião.

Responder
Andre Cavalcante 08/09/2014 17:24:11

Olá Baltasar,

Não sou o Leandro, mas acho que posso responder:

"Um único banco, regulado diretamente pelo Governo..."

É o pior dos mundos. O que impediria este banco de criar dinheiro do nada e conceder "empréstimo" para o governo? Note, você fala em enxugar a máquina, mas propõe justamente um meio de agigantá-la: em vez de muitos bancos concorrendo, você sugere um monopólio bancário. Você diz que parte do princípio que o Estado não deve ter lucro ou prejuízo, mas o que vai ocorrer quando o governo tiver prejuízo? Ora, ele vai gerar títulos e mandar este único banco emprestar dinheiro em troca destes títulos que já nascem podres. Com o dinheiro novo na mão do governo ele vai gastar tudo. O que vai impedir um político de prometer "mundos e fundos" e usar essa mesma máquina para gerar mais e mais dinheiro? E o que acontece com mais dinheiro na economia? Inflação.

Então, não, não é uma boa um único banco.

Responder
Theodomiro Gama Júnior 21/09/2014 21:49:48

Sou geólogo, mas a clareza do artigo me fez entender melhor sobre este mal contra a humanidade, chamado Sistema Financeiro/Banco/Banca.
Vejo uma solução: tomar a decisão política como aconteceu em Islândia.
Em 2011, a banca foi expulsa deste país. Os banqueiros fugiram da ira popular. O que abalou as bolsa em New York/EUA.
Porém, a mídia comprometida com a banca, pouco divulgou, pois poderia interferir de maneira global.
Poderemos fazer o mesmo no Brasil?

Responder
Leandro 22/09/2014 08:41:10

Há um enorme exagero nisso aí. Banqueiros não foram expulsos da Islândia.

O que aconteceu é que o governo da Islândia -- ao contrário do que defendem os intervencionistas e os desenvolvimentistas -- permitiu que fatias substanciais do seu setor financeiro fossem à bancarrota (majoritariamente sucursais de bancos domiciliados no estrangeiro), sem dar nenhum socorro.

A Islândia deixou esses bancos quebrarem e a quebra desses bancos fez com que os ativos podres simplesmente fossem liquidados e que várias dívidas não fossem saldadas.

Bancos socorridos pelo governo atravancam o sistema financeiro, pois ninguém sabe exatamente quem é sólido e quem está insolvente, o que gera grande desconfiança no mercado interbancário e provoca um congelamento do crédito. Por outro lado, quando se permite que os bancos insolventes quebrem, ocorre uma depuração do sistema financeiro. Como somente os sólidos sobrevivem, isso faz com que o mercado interbancário rapidamente volte ao normal.

Responder
Balzana 24/09/2014 20:11:30

Leandro,

Excelente artigo. Consegui entender tudo que gostaria sobre como funciona os ciclos econômicos lendo os diversos artigos que você escreveu neste site.

Já li tantos artigos seus que não sabia em qual deveria parabenizá-lo pelo excelente trabalho. Escolhi este por ter sido um dos melhores.

Fico impressionado com a relação direta de como tudo que o setor bancário faz tem consequências em todos os outros setores da economia, algo que hoje me parece óbvio, mas antes parecia um arranjo confuso. Tudo se resume ao tripé (modo como entendi) do governo gastar mais do que arrecada, bancos criarem dinheiro do nada e o BC proteger as fraudes bancárias e ajudar a financiar o governo. Disto resulta todas as anamolias que geram ciclos econômicos. (Favor me corrigir caso tenha escrito besteiras, mas de modo bem resumido, foi o que entendi)

Enfim, raramente comento algo no site, mas já aprendi tanto aqui que gostaria apenas de encorajá-los a continuar o bom trabalho. Conheci o site e as idéias austríacas por acaso, enquanto jogava no google dúvidas sobre crises econômicas e desde então entro no site todo dia querendo aprender mais e mais.

Já estou me estendendo muito...rs

Abs

Responder
Marcio 12/11/2014 16:51:15

Lendo esse artigo, fiquei pensando que veredito dar aos ladrões de bancos - inocentes ou culpados?

Responder
Ricardo 08/12/2014 12:01:29

Essa história de criar dinheiro do nada vem de uma confusão do fator multiplicativo que vêm do depósito compulsório. A quantidade de dinheiro de fato não aumenta, o que aumenta é a circulação do dinheiro. E esta, quando não constrita por depósitos compulsórios, segue a lei da oferta e demanda como qualquer outra mercadoria, e restringir isso não é muito diferente do que estabelecer quotas de fabricação de produtos.

Para qualquer empréstimo que um banco faz, ele tem que captar o dinheiro para entregar ao cliente. Os bancos em geral tem duas opções: ou eles pedem emprestado do mercado (outros bancos ou governos) ou eles usam dinheiro depositado de clientes. Em ambos os casos você tem um custo de capital embutido nesse dinheiro, que é o custo de imput da operação.

Se você tirar um balanço financeiro de todas as pessoas do mundo em um dado instante vai ver que o total de dinheiro devido é exatamente igual ao de dinheiro emprestado, e que nenhum dinheiro foi criado no banco. Mas se você tirar a soma do dinheiro em circulação num dia ou mês vai ver que sim, há mais dinheiro em circulação porque os bancos emprestaram mais. E eles emprestaram mais porque havia essa demanda pelo dinheiro. Ninguém aponta uma arma e obriga as pessoas ou empresas a tomarem empréstimos.

O único jeito dos bancos não "criarem dinheiro" seria se o depósito compulsório fosse 100%. O que de fato mataria o sistema bancário eliminando a possibilidade de se fazer qualquer empréstimo a qualquer pessoa ou empresa, a não ser que o governo emprestasse para os bancos, só que aí você teria um depósito compulsório "liquido" inferior a 100% e "criação de dinheiro". Não preciso nem contar o tamanho da recessão que isto causaria, né?

Responder
Daniel 15/12/2014 05:38:57

Leandro, achei brilhante o artigo. Pode-se chegar a conclusão que uma maneira de escapar dessa economia "virtual" é adquirir riqueza real e palpável, como por exemplo terras, ouro, entre outros?

Responder
Leandro 15/12/2014 14:03:07

É uma maneira.

Outra é se tornar especialista em investimentos arriscados, o que exige muita dedicação e tempo de sobra para acompanhar todos os eventos e detalhes do mercado financeiro.

Muito obrigado pelo elogio e grande abraço!

Responder
paulo 08/02/2015 23:50:24

E por isso que os bancos oferecem captalizaçao? Poq que nao vejo lucro nenhum para o correntista,mais o banco da risada,ou seja o banco oferece plano de capitalizaçao para 500.000 clientes,por 4 anos cada um depositara 100 reais por mes,para concorrer a algo sei la um carro por mes,no final se ele nao ganhar devolvem o dinheiro aplicado,mais sem juros e coreçao,esse lucro astronomico serviria para abater os digitos criados ou e so pega bobo para lucrar mais?

Responder
Gabriel 28/02/2015 07:15:28

Boa madrugada (sim estou lendo de madrugada), sempre leio os artigos aqui do site, são incríveis e me deram uma bela base para encarar concursos bancários.

Minha dúvida é a seguinte; o cálculo sobre o compusório não estaria errado? segundo minha professora de conhecimentos bancários o compusório inside sobre a média da semana de depósitos, então se por exemplo: durante uma semana em cada um dos 5 dias o banco X recebeu 1000 reais, gerando um total de 5.000 reais e uma média de 1000, se o compusório for 40% apenas 400 reais irão para as reservas do bacen e os outros 4600 ficarão no banco o que geraria um efeito multiplicador gigantesco, isso está correto?

Aqui um vídeo do exemplo dado acima.
https://www.youtube.com/watch?v=S-T0R9kFTTQ&feature=youtu.be

Por fim queria perguntar se aqui no site tem algum artigo explicando a zeragem automática das reservas bancárias pelo bacen. Meus agradecimentos a todos do site.

Responder
Leandro 28/02/2015 11:21:19

A explicação dela ficou confusa e concluiu algo diferente do que acontece na prática. A teoria dela não bate com a realidade.

E isso não é uma simples opinião minha, não. Pode ver os próprios números divulgados pelo Banco Central.

Veja, por exemplo, o saldo final dos depósitos à vista para novembro de 2014. Valor: R$ 162.270.

Agora veja, também para novembro de 2014, o compulsório para recursos à vista:[b] R$ 70.357[/b.]

Ou seja, 44%. Exatamente o determinado (vide Tabela 1 na página 3)

Na explicação dessa mulher, o compulsório dela sobre recursos à vista foi, efetivamente, de 10%. Bem longe da realidade empiricamente observada.

Responder
Rafael Dias da Silva 18/03/2015 14:47:17

Olá.

Alguém aí pode me indicar alguns livros sobre o sistema financeiro/bancário (tanto brasileiro como americano/internacional)?

Ficaria imensamente grato por qualquer dica.

Abraços.

Responder
Leandro 18/03/2015 14:50:29

Fique com essa monografia do Banco Central da Inglaterra. A melhor abordagem que já vi sobre o tema:

www.bankofengland.co.uk/publications/Documents/quarterlybulletin/2014/qb14q1prereleasemoneycreation.pdf

Responder
Daniel 05/06/2015 20:39:16

Olá Leandro.

Duas perguntas, todos os bancos funcionam por esse sistema fracionário? Os de investimento e os estatais tipo BNDES também?


E devido aos problemas dessa forma de injeção de credito, qual é a forma que o MISES defende como a ideal? Qual seria a forma correta do governo disponibilizar credito e moedas na economia?

Obrigado

Responder
Leandro 05/06/2015 21:23:04

"todos os bancos funcionam por esse sistema fracionário?"

Todos os bancos comerciais.

"Os de investimento e os estatais tipo BNDES também?"

Não. Os bancos de investimento não criam depósitos. Eles so emprestam dinheiro que foi previamente depositado por outros poupadores.

Já o BNDES funciona com repasses de recursos arrecadados pelo Tesouro via emissão de dívida. Os funcionamentos do BNDES foram detalhados neste artigo.

"E devido aos problemas dessa forma de injeção de credito, qual é a forma que o MISES defende como a ideal? Qual seria a forma correta do governo disponibilizar credito e moedas na economia?"

Explicado aqui:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1553

Responder
Pobre Paulista 05/06/2015 21:36:06

O clique do link não corresponde ao link correto, segue a correção:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1553

Responder
Joaquim Saad 09/07/2015 01:32:38

Prezado Leandro,

1) É mesmo vedado ao BC adquirir papeis diretamente do Tesouro no mercado primário ? Pelo que consta na coluna "N" das abas na seguinte planilha (https://www.tesouro.fazenda.gov.br/documents/10180/231888/banco_de_dados.xls/75043417-728f-452d-8b69-56f40b4451cb), não seria a autoridade monetária o maior atuante naqueles leilões (obs: ñ sei se a coluna "L" refere-se ao total, ou apenas às vendas aos bancos comerciais) ?
Por sinal, tanto a Lei 4.595/1964 (Art. 10 - XII) como a própria Constituição Federal de 1988 (Art. 164 §2º, embora esquizofrenicamente contrariando seu próprio §1º !) a princípio permitem o financiamento de um pelo outro mesmo nas ofertas públicas primárias, desde que "apenas" p/, respectivamente, "fins de execução da política monetária", e "regular a oferta de moeda ou a taxa de juros" (o que na prática pelo visto sempre serão as justificativas alegadas pelos órgãos de Estado atuando como parte e contraparte em negócios naqueles eventos).

2) Pelas "regras" atualmente em vigor em Banânia, digo, no Brasil, estaria autorizada a simples criação de dinheiro (independente da forma, física ou eletrônica) pelo BC e sua transferência ao Tesouro sem este entregar títulos próprios à autoridade monetária, conforme sugeriu o colunista Amir Khair no jornal O Estado de São Paulo em artigo do dia 05/Jul/2015, no qual propõe que "...déficits fiscais devem ser compensados com emissão de moeda e não de títulos da dívida" ?!
Isto não configuraria uma evidente fraude contábil nos balanços destes órgãos ? Fez-me lembrar do patético protesto do "saudoso" Guido Mantega ao FMI requisitando que os títulos do Tesouro em poder do BCB fossem excluídos do cálculo da dívida bruta do País por "não terem natureza fiscal", ao que Gustavo Franco sarcasticamente comparou a um exótico "dinheiro de natureza não-monetária"...
A propósito, por um "acaso" teria sido este absurdo (dentro do absurdo sistema de reservas bancárias fracionárias já então em funcionamento) a imperar na calamitosa década hiperinflacionária de 1980 ?

Obrigado.

Att.

Joaquim Saad

Responder
Leandro 09/07/2015 02:25:21

"É mesmo vedado ao BC adquirir papeis diretamente do Tesouro no mercado primário?"

De acordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal, sim.

Está escrito lá, nos artigos 35 e 39:

Art. 35. É vedada a realização de operação de crédito entre um ente da Federação, diretamente ou por intermédio de fundo, autarquia, fundação ou empresa estatal dependente, e outro, inclusive suas entidades da administração indireta, ainda que sob a forma de novação, refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente.

[...]

Art. 39. Nas suas relações com ente da Federação, o Banco Central do Brasil está sujeito às vedações constantes do art. 35 e mais às seguintes:

I - compra de título da dívida, na data de sua colocação no mercado, ressalvado o disposto no § 2o deste artigo;

§ 2o O Banco Central do Brasil só poderá comprar diretamente títulos emitidos pela União para refinanciar a dívida mobiliária federal que estiver vencendo na sua carteira.

"Pelo que consta na coluna "N" das abas na seguinte planilha (https://www.tesouro.fazenda.gov.br/documents/10180/231888/banco_de_dados.xls/75043417-728f-452d-8b69-56f40b4451cb), não seria a autoridade monetária o maior atuante naqueles leilões (obs: ñ sei se a coluna "L" refere-se ao total, ou apenas às vendas aos bancos comerciais)?"

A coluna N mostra algumas ocasiões (percebam que são bem pontuais) em que o BC adquire títulos no mercado primário.

Isso ocorre quando o Tesouro não conseguiu leiloar os títulos aos juros que pretendia. Nesse caso, os títulos que sobraram são repassados ao Banco Central, que em seguida os utiliza para fazer operações compromissadas. Gustavo Franco fala exatamente sobre isso nesse vídeo (minuto 12:40).

Ou seja, ocorre exatamente quando o cenário é aquele do § 2o supracitado.

"estaria autorizada a simples criação de dinheiro (independente da forma, física ou eletrônica) pelo BC e sua transferência ao Tesouro sem este entregar títulos próprios à autoridade monetária,"

Segundo a LRF, não.

"A propósito, por um "acaso" teria sido este absurdo (dentro do absurdo sistema de reservas bancárias fracionárias já então em funcionamento) a imperar na calamitosa década hiperinflacionária de 1980 ?"

Exatamente. Naquela época, o BC financiava livremente o Tesouro.

E também havia a "Conta Movimento": o Tesouro sacava livremente dinheiro do Banco do Brasil, e o Banco do Brasil subsequentemente repunha seu caixa "sacando" dinheiro do Banco Central (o BACEN, obviamente, criava dinheiro do nada e o repassava ao BB).

Responder
Joaquim Saad 10/07/2015 15:35:19

Leandro, obrigado pela prontidão dos esclarecimentos ! Impressiona muito a quantidade e profundidade que consegue produzir de textos e de respostas a tantas perguntas que eles suscitam nos milhares de leitores...

Permita-me abusar mais um tanto de vosso tempo (que inclusive acabo de tentar compensar um pouco c/ uma pequena doação ao IMB) fazendo-lhe outras perguntas sobre esse chocante tema da versão tupiniquim da "modern money mechanics" (aquele pdf do Fed do qual em 2005 li superficialmente apenas algumas páginas e que não sei o quanto reflete as peculiaridades do sistema brasileiro atual):

Não é possível a configuração de operações alavancadas nas ofertas primárias de títulos públicos, certo ? Ou seja, em cada um desses leilões os bancos não podem simplesmente enviar propostas de compra em valores acima da soma de suas próprias reservas e dos papeis federais já neles previamente encarteirados, correto ?
Por isso mesmo é que tais leilões primários ocorreriam c/ uma frequência suficiente p/ diluir em vários dias (em média umas 6x/mês) as emissões do Tesouro, p/ que assim possam ser absorvidas pelos participantes os quais de outra forma ficariam limitados nas aquisições por já terem comprometido todas as suas disponibilidades ("munição") no momento de cada leilão, não havendo outro instrumento elegível de financiamento (afinal, entendo que mesmo o redesconto intradia exige colateral de 100%, não servindo portanto como um "atalho" p/ que os bancos desta forma enviassem ofertas praticamente ilimitadas a serem então cobertas c/ um empréstimo "curinga" sem garantias). E, principalmente, seria este o motivo crucial do BC atuar tão fortemente nas ofertas primárias (obs: as compras "pontuais" a que você se referiu na verdade representam aproximadamente a enorme parcela de 1/3 do total transacionado ao menos desde 2007, até onde chequei naquela planilha do Tesouro !).

Consequentemente, poderíamos concluir que, por mais vantajosa que seja aos bancos a arbitragem por eles praticada ao servirem de intermediários entre o envio de dinheiro do BC ao Tesouro e de títulos emitidos por este àquele (c/ os bancos capitalizando um spread entre os valores de compra e de revenda desses papeis, independentemente da taxa SELIC verificada na ocasião), se a autoridade monetária fosse definitivamente banida desses leilões primários (conforme depreender-se-ia de uma leitura honesta da própria constituição Federal e também da LRF as quais - sem interpretações cínicas e exóticas - autorizariam, p/ execução da política monetária, somente as compras de títulos pelo BC desde que no mercado secundário), esta proibição (complementando o encerramento da "conta Movimento" no BB que acabou c/ aquela pornográfica "matemágica" contábil dos anos 80 em que o BC criava dinheiro sem receber papeis em troca) por si só funcionaria como um brutal freio ao crescimento da dívida pública por sua vez responsável em última instância pela expansão da base monetária, de seus agregados e, por fim, do flagelo da inflação, mesmo mantendo-se o velhaco sistema de reservas fracionárias ? Ou há outros canais que rapidamente entrariam em cena nesse processo de aumento da BM que me escaparam, após todos os artigos já lidos no IMB ? Bastaria tão somente o Tesouro intensificar ainda mais a frequência dos leilões p/ ficarmos praticamente na mesma situação de quando o BC participava diretamente deles (ou talvez ainda pior, pois daí os bancos poderiam ter muito mais poder p/ subir a taxa SELIC sem que isso significasse um forte desestimulo ao contínuo endividamento do governo) ?! Neste caso, ainda assim não deveríamos apontar a dívida pública como o verdadeiro vilão da inflação, concentrando a crítica essencialmente nos gastos estatais e em seus financiamentos (além de nas "criativas" maneiras de "maquiar" ambos) ?

Agradecidamente.

Joaquim Saad

ps: desculpe o tamanho da mensagem...

Responder
Joaquim Saad 05/08/2015 02:03:01

Ok, Leandro. Vou tentar resumir a enorme pergunta anterior p/ ver se consigo uma resposta:

Os bancos têm de quitar "à vista" suas compras de títulos públicos nos leilões primários do Tesouro brasileiro ?
Ou é possível operarem "alavancados" naquele mercado, utilizando inclusive o redesconto intradia do BC p/ subscreverem as ofertas primárias de papeis federais sem terem disponível em suas reservas na ocasião o financeiro correspondente ?

Na segunda das hipóteses acima, bastaria então em seguida os bancos comerciais revenderem ao próprio BC no mercado aberto os títulos do governo que adquiriram "no crédito" no mercado primário no mesmo dia (de quebra lucrando c/ qualquer spread nesta intermediação) p/ assim configurar-se (mais) um canal de financiamento do Tesouro pela autoridade monetária, condicionado totalmente à discricionariedade e ao bom senso (!) do poder executivo central (já que não há limites percentuais p/ dívida e déficit públicos nem na Constituição de 1988, nem em qualquer lei, inclusive na de Responsabilidade Fiscal - 101/2000) ?!

É mesmo assim tão fácil a colocação da dívida pública no Brasil (sem falar no fato do próprio BC participar dos leilões primários do Tesouro, comprando diretamente seus títulos) ?!

Obrigado.

Responder
Leandro 05/08/2015 15:24:48

"Os bancos têm de quitar "à vista" suas compras de títulos públicos nos leilões primários do Tesouro brasileiro? Ou é possível operarem "alavancados" naquele mercado, utilizando inclusive o redesconto intradia do BC p/ subscreverem as ofertas primárias de papeis federais sem terem disponível em suas reservas na ocasião o financeiro correspondente ?"

Isso é imaterial. O que realmente importa é que, ao fim do processo, o governo conseguiu o dinheiro e a quantidade de dinheiro na economia aumentou.

De resto, desconheço essa hipótese que você citou. Dado que os bancos podem criar dinheiro do nada (e arrumar reservas depois), não é necessário se alavancarem com o redesconto, cuja taxa aliás é superior à Selic.

"Na segunda das hipóteses acima, bastaria então em seguida os bancos comerciais revenderem ao próprio BC no mercado aberto os títulos do governo que adquiriram "no crédito" no mercado primário no mesmo dia (de quebra lucrando c/ qualquer spread nesta intermediação) p/ assim configurar-se (mais) um canal de financiamento do Tesouro pela autoridade monetária, condicionado totalmente à discricionariedade e ao bom senso (!) do poder executivo central (já que não há limites percentuais p/ dívida e déficit públicos nem na Constituição de 1988, nem em qualquer lei, inclusive na de Responsabilidade Fiscal - 101/2000) ?! É mesmo assim tão fácil a colocação da dívida pública no Brasil (sem falar no fato do próprio BC participar dos leilões primários do Tesouro, comprando diretamente seus títulos) ?!"

Sim, é fácil assim mesmo. Aliás, é para isso que o Banco Central existe. Como explicado neste artigo, foi criado com dois objetivos: financiar o governo e proteger o setor bancário.

E esses dois objetivos ele cumpre com perfeição.

Responder
Joaquim Saad 06/08/2015 13:38:41

Leandro, obrigado novamente pelos esclarecimentos.

Quanto a ser "imaterial" a possibilidade que questionei dos bancos se alavancarem na aquisição de títulos no mercado primário, a hipótese aventada seria a de inexistência de reservas em excesso necessárias p/ que o sistema bancário pudesse subscrever as ofertas dos leilões do Tesouro. Afinal, neste instante ocorre um débito de suas contas no BC e um crédito correspondente na do governo, não havendo tempo hábil p/ que tais valores retornem aos bancos via gasto público que recomporia as reservas, certo ?

Deste modo, se já tiverem sido empregadas todas as maneiras dos bancos arrumarem recursos p/ efetivar as compras no mercado primário (apelando inclusive ao redesconto INTRADIA do BC - que não tem custo, ao contrário do redesconto de 1 dia ou mais - oferecendo qualquer colateral aceitável, desde títulos públicos em carteira até mesmo certificados privados, a la "Quantitative Easing" americano e europeu, se fosse permitido no Brasil !), então o Tesouro iria enfrentar sérias dificuldades em colocar sua dívida, não fossem as cínicas e esquizofrênicas brechas legais através das quais ele se financia diretamente pela autoridade monetária, cuja atuação nos leilões primários (onde tem tido presença forte ao menos durante a última década) poderia ser então claramente vedada p/ assim configurar-se um potente freio à expansão do endividamento e do déficit governamentais, que por sua vez estão na gênese de todo o processo inflacionário, potencializado pelas reservas fracionárias.

Não acha que tal medida (i.e. banimento do BC do mercado primário) seria muito mais facilmente aceita no âmbito de uma mini-reforma das regras do jogo, enquanto não se vislumbram modificações mais profundas no horizonte ?

Responder
Davi 05/09/2015 15:23:16

Olá Leandro, encontrei seu artigo por acaso e gostei muito. Gostaria de alguma recomendação de leitura e aprofundamento sobre a ciência do dinheiro. [Sou leigo no assunto]. Quero entender melhor para poder saber agir melhor na questão de dinheiro. [PERGUNTA] Podemos dizer que o dinheiro que temos não vale nada? O que realmente vale são os ativos como casas e prédios de aluguel e terras, ou poços de petróleo? Obrigado.

Responder
João 16/10/2015 20:48:43

Boa tarde!

Por favor, quais são as leis que dizem claramente que os bancos podem trabalhar de acordo com esse regime de reservas fracionárias? Procurei no site do Banco Central e encontrei números relacionados ao quanto os bancos devem manter de reserva... Porém, nada de "moeda de alto poder de expansão" (não sei se é isso mesmo...), reservas fracionárias, etc...

Obrigado!

Responder
Hugo 12/11/2015 00:23:37

Leandro eu só não entendi o porquê de a caderneta de poupança variar inversamente ao comportamento da SELIC,já que a taxa referencial da remuneração da mesma toma como base a média de 30 dias do CDB,que é um título que aumenta a rentabilidade com uma SELIC crescente e diminui a rentabilidade com a SELIC declinante.

E gostaria de fazer uma observação: esses procedimentos de convencer um correntista a migrar seu dinheiro para aplicações que rendem juros também não seriam facilitados pela persistente deterioração do poder de compra da moeda,já que com a conta corrente nessa ambiente inflacionário o mutuário perde poder de compra e tem essa perda pelo menos compensada pela rentabilidade das aplicações a prazo,assim estimulando a permissão do mutuário para fazer a transferência?

Obrigado!

Responder
Leandro 12/11/2015 00:57:36

"eu só não entendi o porquê de a caderneta de poupança variar inversamente ao comportamento da SELIC,"

Uai, quem disse isso? Não fui eu.

Responder
Rosa Monteiro 28/11/2015 20:32:46

Boa tarde. Adorei este site (que descobri muito por acaso quinta-feira passada). Não consigo mais me separar do site e dos excelentes artigos, como o que acabei de ler.
Passei o site para todos os meus professores e colegas do curso que estou fazendo recomendando fortemente a leitura de todos os artigos aos colegas e professores. Eu tentei acessar o link onde são passadas a informações acerca dos valores emitidos em papel moeda e os que constam informados a depósito. Quando clico no link vêm estas mensagens " 404 - File or directory not found." Estou fazendo um artigo de TCC e iria citar a referencia, mas, com a falha não posso baixar o arquivo e fazer a citação sem a prova documental da referencia do BCB. Por acaso o senhor não teria este arquivo com esta informação salva para me enviar (se não lhe parecer muita desaforada a minha parte a solicitação?).

Grata.

Responder
Marcos 29/11/2015 04:10:06

O Banco Central sempre avacalha. Mas neste link você obtém os valores para o papel-moeda em circulação para qualquer data que você queira:

www4.bcb.gov.br/adm/mecir/principal.asp

Responder
Rosa Monteiro 01/12/2015 13:37:10

Obrigada Marcos. Consegui e salvei. Grata.

Responder
Paraninfo 29/11/2015 11:52:42

A criação de moeda não é o problema mais grave. Vários países possuem juros baixos e tem pouca inflação.

O maior problema é a falta de concorrência, o protecionismo e a apropriação dos bens pelo estado. Essas coisas reduzem o poder de compra, aumentando ainda mais a necessidade de crédito.

Nós temos a maior carga tributária do mundo, se levarmos em conta os serviços prestados pelo governo. Temos o IPhone mais caro do mundo. Pagamos por um carro 1.0 o mesmo preço de um carro 1.6 no exterior. Pagamos mais juros. Pagamos mais caro pela burocracia. Pagamos mais caro pela desvalorização da moeda. Pagamos mais caro pela corrupção. Pagamos mais caro pelo protecionismo. Pagamos mais caro por contribuições sindicais. Pagamos mais caro pela energia. Pagamos muito caro por serviços de telecomunicações. Pagamos muitos caro pela infraestrutira das empresas e de logística. Pagamos caro por moeda estrangeira.

Como pagamos caro pelas coisas que compramos, a expansão do crédito mandou 48% da população para a inadimplência. Esse número deveria ser bem menor, se o poder de compra fosse melhor.

Claro que é uma irresponsabilidade colocar 48% da população na inadimplência, mas esse número só é alto por conta do excesso de custos, tributação alta, falta de competitividade e protecionismo.



Responder
Joaquim Saad 19/01/2016 16:16:49

Olá, Leandro.

Estava fuçando no SGS do BaCen, e encontrei os seguintes valores aproximados p/o final de 2015:

- reservas bancárias (série "1787") = R$ 29.8 bi;
- depósitos compulsórios em espécie (série "1828") = R$ 338.5 bi;
- papel-moeda emitido (série "1786") = R$ 225.5 bi;

É padrão entre os BC's contabilizar os recolhimentos obrigatórios de forma segregada das reservas dos bancos ? Estas corresponderiam então (no caso brasileiro) às "excess reserves" do Fed ?

Aquele mega-aumento dos compulsórios a partir de 2010 foi atendido através da venda ao BC de títulos públicos das carteiras dos bancos comerciais ?

Obrigado.

Abs.

Responder
Leandro 19/01/2016 17:13:23

Não.

O que acontece é que o Brasil é um dos poucos países do mundo -- aliás, talvez seja o único -- que exigem compulsório sobre depósitos a prazo e sobre cadernetas de poupança.

Sendo assim, a rubrica "reservas bancárias" se refere apenas ao compulsório sobre depósitos à vista (conta-corrente), ao passo que a rubrica "depósitos compulsórios em espécie" engloba todos os compulsórios (conta-corrente, depósitos a prazo, poupança, e exigibilidade adicional).

www.bcb.gov.br/pec/Indeco/Port/IE2-14.xlsx

E o salto ocorrido em 2010 deveu-se simplesmente ao aumento do compulsório sobre depósitos a prazo, de 13,5% para 20%, e das exigibilidades adicionais, de 8 para 12%.

www.bcb.gov.br/ftp/notaecon/compulsorios.xls

Responder
Joaquim Saad 19/01/2016 18:30:47

Mas no final de 2015 as reservas estavam em R$29.8 bi, enquanto que de acordo c/ a planilha do 1º link no teu comentário anterior os compulsórios sobre depósitos à vista somavam R$59 bi.

Papel-Moeda Emitido + Reservas Bancárias não deveria equivaler a toda emissão primária monetária (i.e. "dinheiro de banco central"), incluindo qualquer compulsório em espécie ?

Responder
Leandro 19/01/2016 19:59:41

De fato, há uma estranha diferença numérica entre duas rubricas idênticas (reservas e compulsórios sobre recursos à vista). A descrição de ambas essas rubricas fornecidas pelo próprio site do Banco Central é absolutamente idêntica. Transcrevo-as abaixo:

Base: montante dos recursos à vista de bancos comerciais, múltiplos e de investimento, titulares de conta reservas bancárias, e de caixas econômicas, discriminados a seguir:

• Depósitos à vista;

• Recursos em trânsito de terceiros, cobrança e arrecadação de tributos e assemelhados, cheques administrativos, contratos de assunção de obrigações vinculados a operações realizadas no país, obrigações por prestação de serviços de pagamento e recursos de garantias realizadas.

Alíquota: 45%;

Deduções:

• a alíquota é aplicada sobre a média dos valores sujeitos a recolhimento e ocorridos em dias úteis de duas semanas, deduzida de R$ 70 milhões.

Outras deduções:

o Ordens de pagamento em moedas estrangeiras;

o Depósitos à vista captados por instituições financeiras públicas federais e estaduais dos respectivos governos e de autarquias e de sociedades de economia mista de cujos capitais participem majoritariamente os respectivos governos;

o Depósitos à vista captados pelas instituições públicas estaduais titulados por entidades públicas municipais da respectiva unidade federativa;

o Valor correspondente a financiamentos de ônibus e caminhões estabelecidos pela Resolução nº 4.170, de 20 de dezembro de 2012, limitado a 20% da exigibilidade de recolhimento compulsório sobre recursos à vista.

• O período de cálculo dos valores sujeitos a recolhimento e o de movimentação ou ajustamento compreendem, cada qual, os dias úteis de duas semanas;

• A instituição financeira fica isenta do recolhimento de sua exigibilidade, se esta for igual ou inferior a R$500 mil;

• A exigibilidade compulsória sobre recursos à vista deve ser cumprida exclusivamente em espécie;

• As disponibilidades de caixa da instituição financeira, até o limite de 40% da exigibilidade de recolhimento compulsório sobre recursos à vista, apurada mediante a aplicação da alíquota de 45% sobre a base de cálculo, podem ser utilizadas no cumprimento do referido compulsório e

• A instituição financeira deve manter, ao final de cada dia, saldo nas reservas bancárias em valor equivalente a, no mínimo, 80% da exigibilidade apurada para o respectivo período de movimentação.



Ou seja, parece que nem o Banco Central dá conta de cumprir suas próprias regulações.

Responder
Yargo Carvalho 17/02/2016 00:21:56

Amigo, perdoe pois não entendo muito do assunto, mas me surgiu a seguinte duvida:

Sendo que o BACEM tem dificuldade em emitir papel moeda em larga escala por conta de sua capacidade produtiva, e pelo que pude entender a emissão de papel moeda é uma forma de intimidar os grandes bancos a continuarem criando capital bancário "do nada". Se hipoteticamente o governo fizesse novas cédulas como de 500 reais, 1000 reais não seria uma forma de aumentar a quantidade de capital físico com a mesma capacidade produtiva do BACEM?

Responder
Michael 31/03/2016 17:53:57

Boa tarde,

Após ler o artigo fica então a seguinte perguta: qual a saída?

Na opinião do autor, como deveriam funcionar os bancos para que a oferta de crédito fosse sustentável. Qual seria o cenário ideal?

Acredito que seria um artigo muito interessante.

Abraços.

Responder
Auxiliar 01/04/2016 12:21:59

Já há este artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1553

Responder
Andrié Roberto da Silva 18/04/2016 23:46:00

Muito bom. Só sugeriria que na parte dos balancetes se utilizasse alguma outra forma mais didática de mostrar o estado e a evolução das contas. Digo isso porque, para um leigo, balancetes não são intuitivos.

Responder
Frederico 04/05/2016 22:21:16

Uma dúvida: quando os primary dealers compram títulos diretamente do tesouro, eles pagam ao tesouro nacional usando suas reservas bancárias, isto é, usando sua "conta corrente" no BACEN para pagar? E quando essa compra e vende é feita entre eles?

Responder
Leandro 05/05/2016 02:09:34

"quando os primary dealers compram títulos diretamente do tesouro, eles pagam ao tesouro nacional usando suas reservas bancárias, isto é, usando sua "conta corrente" no BACEN para pagar?"

Correto.

Ao fazerem isso, a quantidade de dinheiro nas reservas bancárias cai, o que pressiona a SELIC para cima. E como o Banco Central trabalha com uma meta estipulada para a SELIC -- o que significa que ele não pode deixar que ela saia da meta --, ele tem de injetar dinheiro no mercado interbancário para impedir que a SELIC suba.

Ou seja, na prática, houve criação de dinheiro. Por isso os déficits do governo, quando financiados pelo sistema bancário, são inerentemente inflacionários.

"E quando essa compra e venda é feita entre eles?"

Aí é o mercado secundário, e este também ocorre via reservas bancárias.

No entanto, e evidentemente, neste caso não há criação de dinheiro. Se o Itaú termina o dia com reservas em excesso e o Bradesco termina com reservas abaixo do mínimo estipulado pelo Banco Central, então o Itaú emprestará para o Bradesco (ou o Bradesco venderá títulos públicos para o Itaú). No cômputo final, as reservas totais ficam na mesma.

Responder
Fred 05/05/2016 15:35:30

Muito obrigado, Leandro.

Mais uma dúvida, quando nós pagamos imposto a receita federal, esse dinheiro é transferido na forma de reserva bancária para a conta do tesouro nacional no BACEN? Se sim, isso também diminuiria a quantidade de dinheiro nas reservas bancárias, correto?

Responder
Leandro 05/05/2016 15:46:55

Correto. Porém, como o governo imediatamente gasta esse dinheiro, e como esse dinheiro imediatamente vai parar na conta bancária de outra pessoa ou empresa, então, na prática, não há essa diminuição.

Responder
Fred 06/05/2016 13:52:14

Hum. O argumento do governo gastar imediatamente o dinheiro arrecadado via impostos não pode também ser aplicado da mesma forma ao dinheiro obtido via leilão de títulos, uma vez que caso o governo tenha superávit nominal ele provavelmente usaria esse dinheiro para reduzir o estoque da dívida?

Responder
Leandro 06/05/2016 14:26:30

Não sei se entendi muito bem sua dúvida...

Se o governo obtém superávit nominal, então, por definição, ele não apenas não emitiu nenhum título, como ainda conseguiu quitar vários outros títulos em posse do sistema bancário e do público.

Nesse caso, uma fatia do dinheiro arrecadado via impostos foi utilizada para abater parte da dívida e a outra fatia foi utilizada para gastos correntes do governo.

Como não houve emissão de títulos, não houve criação de moeda. No cômputo final, as reservas bancárias não se alteraram, e nem a quantidade de dinheiro na economia. Todo o dinheiro arrecadado via impostos voltou para as reservas bancárias.

Para ficar mais completo, veja esse exemplo.

Suponha que você tem conta no Bradesco. Você paga R$ 1.000 de impostos.

Ao pagar esses R$1.000, ocorre uma redução tanto no passivo do Bradesco (sua conta-corrente é reduzida em R$ 1.000) quanto nos ativos do Bradesco (suas reservas bancárias diminuem também R$ 1.000).

Observe que, neste exemplo, o Bradesco não precisa recorrer ao interbancário para recompor suas reservas e ficar dentro do limite do compulsório estipulado pelo Banco Central. Reservas bancárias e conta-corrente caíram no mesmo tanto.

Agora, suponha que o Bradesco compra um título do governo por RS 1.000. Nesse caso, há uma redução das reservas bancárias (ativo), mas não há uma redução de nenhuma conta-corrente (passivo). Consequentemente, as reservas caíram em relação às contas-correntes e, como estipula o Banco Central, o Bradesco agora tem de recompor essas reservas (ou então reduzir alguma conta-corrente na mesma quantidade).

Ato contínuo, ou ele recorre ao interbancário ou ele vende ativo (outro título ou dólares) para o BC em troca de reservas. Se ele optar pela segunda alternativa, há aumento da quantidade total de dinheiro na economia.

Agora, imagine que todos os bancos estão fazendo isso simultaneamente. A menos que haja uma incrível e improvável coincidência -- de modo que cada real utilizado na compra de títulos acabe voltando exatamente para cada banco --, algum terá de vender algum ativo para o BC para recompor suas reservas. Ato contínuo, houve aumento da quantidade de dinheiro na economia.

Responder
Joaquim Saad 06/05/2016 19:51:49

"Observe que, neste exemplo, o Bradesco não precisa recorrer ao interbancário para recompor suas reservas e ficar dentro do limite do compulsório estipulado pelo Banco Central. Reservas bancárias e conta-corrente caíram no mesmo tanto."

Isto apenas caso o banco não se encontrasse alavancado ao seu limite, certo ? Do contrário (isto é, se estiver operando "no talo"), cada unidade monetária que perder em suas reservas (ativos) como consequência de igual redução (absoluta) simultânea em seus depósitos (passivos) não iria colocá-lo em situação de descumprimento dos compulsórios ?

Por ex, um banco c/ R$ 1 bilhão de reservas (incluindo os recolhimentos obrigatórios ao banco central) e R$2,5 bilhões nas contas à vista de seus clientes sujeito a taxa de compulsório de 40%, ao sofrer um saque de R$100 milhões não iria p/ uma condição de desenquadramento ? Afinal, 40% x 2,4 bi = 960 MM, o que é maior do que os R$900 milhões restantes nas reservas...

Responder
Daniel Salazar 01/07/2016 02:20:41

Leandro,

e o dinheiro que os bancos usam pra comprar os títulos do tesouro são "criados do nada" também? essa parte não ficou clara para mim

Responder
Leandro 01/07/2016 02:42:01

Permite-me, pois, uma aula básica. Vou tentar desenhar.

1) O Tesouro emite títulos;

2) Esses títulos são majoritariamente comprados pelos bancos:

3) Como os bancos compram? Eles utilizam o dinheiro que está em suas "reservas bancárias", que nada mais é do uma conta-corrente que os bancos têm junto ao Banco Central.

4) Ato contínuo, a quantidade de dinheiro nas reservas bancárias cai.

5) Essa queda nas reservas bancárias pressiona a SELIC para cima (a SELIC nada mais é do que a taxa de juros que os bancos cobram entre si para fazer empréstimos no mercado interbancário).

6) Como o Banco Central trabalha com uma meta estipulada para a SELIC -- o que significa que ele não pode deixar que ela saia da meta --, ele tem de injetar dinheiro no mercado interbancário para impedir que a SELIC suba.

7) Ou seja, no cômputo final, houve criação de dinheiro. Dinheiro que estava nas reservas bancárias entrou na economia, e essa redução nas reservas bancárias foi contrabalançada por novas injeções de dinheiro do Banco Central.

Responder
Gustavo 03/08/2016 17:56:27

Leandro, gostaria da sua opinião sobre essa afirmação que encontrei num estudo sobre Quantitative Easing pelo professor John Greenwood:

"The right way to do this (fazer os QEs, no caso) is not to focus policy on ever-decreasing interest rates, but instead to create money directly by purchases of securities (or indeed any other asset) from nonbanks – thereby creating new deposits in the hands of firms and households. Although they did not explicitly articulate their policies in this way, this is in effect what the Fed and the Bank of England did in 2008-13. In other words it would be better for the BoJ and the ECB to focus on the quantitative effects of QE, not the interest rate effects. To put it differently, QE is (or should be) about expanding purchasing power in the economy or money in the hands of the non-bank public, not lowering rates and hoping the banks will expand lending."

Pelo que eu entendi, ele está dizendo que o jeito "certo" de se fazer um QE (acredito que ele diga certo pois assim de fato haveria aumento real na oferta monetária) seria então literalmente imprimir dinheiro e dar diretamente para as pessoas.

É isso mesmo? Me parece uma ideia ainda mais biruta do que o que se faz atualmente via sistema bancário.

Responder
Leandro 03/08/2016 18:10:59

Você entendeu certo. É isso mesmo que ele está defendendo.

Os gênios perceberam que QE não é muito efetivo porque os bancos -- que, além de não serem bobos, estão descapitalizados -- recebem o dinheiro e ficam com ele em vez de emprestar para empresas e pessoas que já estão altamente endividadas.

E dado que as economias européias não estão com muita perspectiva de forte crescimento, esses empréstimos provavelmente seriam caloteados (o que aumenta ainda mais a prudência dos bancos).

Aí, percebendo isso, eles simplesmente agora querem contornar os bancos e dar dinheiro direto para as pessoas.

O curioso é que, se isso fosse feito com a imposição de que as pessoas e empresas obrigatoriamente utilizassem esse dinheiro para quitar suas dívidas, tal medida não apenas não seria inflacionária como ainda teria a probabilidade de corrigir os desequilíbrios da economia, liquidando dívidas impagáveis e dando um "reset" na economia.

(A encrenca depois seria em convencer a todos de que essa foi uma medida excepcional, que será adotada apenas uma vez, e que não mais voltará a acontecer; caso contrário, o risco moral estará consolidado e todos passarão a agir já partindo do princípio que sempre serão socorridos).

No entanto, em vez disso, esses caras só pensam em imprimir dinheiro para "estimular o consumo", como se isso magicamente garantisse a retomada da normalidade, o que, por definição, é impossível de ocorrer.

Responder
Joaquim Saad 03/08/2016 19:11:46

Os dólares recebidos "de helicóptero" não iriam diminuir a necessidade de poupança p/ pgto das dívidas, contribuindo indiretamente c/ um posterior aumento de liquidez na economia (afinal, passaria a haver mais dinheiro disponível na mão do público) e assim tornando definitiva a carestia causada pela alavancagem anterior caso sua redução fosse a condição p/ um QE ?

Responder
Leandro 03/08/2016 20:31:07

"Os dólares recebidos "de helicóptero" não iriam diminuir a necessidade de poupança p/ pgto das dívidas [...]?"

Em tese, sim.

"assim tornando definitiva a carestia causada pela alavancagem anterior caso sua redução fosse a condição p/ um QE ?"

Mas o que está havendo agora é exatamente uma profunda desalavancagem. Ninguém quer contrair dívidas e ninguém está disposto a se endividar em uma economia sem perspectivas.

Responder
Joaquim Saad 04/08/2016 14:42:48

Justamente, mas tal desalavancagem pode ou ser também desinflacionária\deflacionária (quando levada a cabo à custa da diminuição do dinheiro em poder do público), ou simplesmente não causar qualquer comprometimento da renda futura das pessoas e empresas (já que neste caso suas dívidas seriam quitadas c/ recursos "aéreos" recebidos diretamente da própria autoridade monetária).

Responder
Gustavo 03/08/2016 19:34:16

Obrigado por responder. Me permita mais duas perguntas:

1 - "(A encrenca depois seria em convencer a todos de que essa foi uma medida excepcional, que será adotada apenas uma vez, e que não mais voltará a acontecer; caso contrário, o risco moral estará consolidado e todos passarão a agir já partindo do princípio que sempre serão socorridos)"

Tá, digamos que eles decidam operar nesse tipo de estímulo, mas com essa intenção exclusivamente voltada para a quitação de dívidas. Mesmo esse processo não sendo inflacionário, ele não traria nenhuma outra consequência de longo prazo (fora essa questão moral)? Não daria uma espécie de "bugada" em toda a economia com essas dívidas sendo magicamente quitadas do mais absolutamente "thin air"? No caso ninguém produziu nada pra quitar seus débitos, me parece meio estranho isso poder dar certo, ainda mais pensando que nem um austríaco pensaria.

2 - Em relação ao seu outro texto sobre os créditos livres e direcionados, nessa parte: "Essa medida, como já mencionado, é inerentemente inflacionária. Quem compra esses títulos emitidos pelo Tesouro é majoritariamente o próprio sistema bancário (tanto os bancos privados quanto os estatais)."

Os bancos que compram majoritariamente esses títulos são os chamados "dealer primários"?

Abraço!

Responder
Leandro 03/08/2016 20:30:47

"Mesmo esse processo não sendo inflacionário, ele não traria nenhuma outra consequência de longo prazo (fora essa questão moral)? Não daria uma espécie de "bugada" em toda a economia com essas dívidas sendo magicamente quitadas do mais absolutamente "thin air"? No caso ninguém produziu nada pra quitar seus débitos, me parece meio estranho isso poder dar certo, ainda mais pensando que nem um austríaco pensaria."

A dívida é de pessoas e empresas para com o sistema bancário. Se ela perdurar, os bancos continuam descapitalizados. Se ela for quitada, os bancos voltam a se capitalizar.

É uma solução esquisita? É claro que é. Mas o atual sistema de reservas fracionárias e moeda fiduciária é esquisito por natureza. O próprio artigo acima é sobre isso. Aliás, esse Instituto recorrentemente ataca essa criação artificial dos governos, e por esse motivo: chega-se a um ponto sem retorno, em que é necessário todo um reset.

"Os bancos que compram majoritariamente esses títulos são os chamados "dealer primários"?"

Correto.

As únicas entidades que podem comprar os títulos do Tesouro diretamente do Tesouro nos leilões do Tesouro são aquelas chamadas de dealers primários.

E quem são os dealers primários no Brasil? Aqui estão eles:

www.tesouro.fazenda.gov.br/dealers

Bancos: Bradesco, Citibank, Banco Do Brasil, Itaú, Banco Safra, Santander, Caixa Econômica Federal, BTG Pactual, Credit Suisse, Goldman Sachs.

Corretoras: XP Investimentos e Renascença DTVM

Apenas essas entidades podem participar dos leilões do Tesouro. Apenas elas podem comprar diretamente do Tesouro.

Responder
Bolivarianismo ate a morte 03/08/2016 22:09:07


Também não entendi por que não haveria carestia. Tive o mesmo raciocínio do Joaquim. Se houve o reset e as pessoas agora não têm mais que se preocupar com os pagamentos de dívida, elas, teoricamente, vão torrar a renda disponível, agora maior, em consumo. E com maior consumo as empresas seriam forçadas a investirem mais. Quem sairia perdendo nisso seriam os credores - apenas se não usarem o dinheiro que foi utilizado no reset também para consumo. Mas duvido muito que os credores seriam burros para aceitar esse reset em troca de simples papel moeda.

Responder
Leandro 03/08/2016 22:20:48

"Se houve o reset e as pessoas agora não têm mais que se preocupar com os pagamentos de dívida, elas, teoricamente, vão torrar a renda disponível, agora maior, em consumo."

Há evidências empíricas de que, mesmo atualmente, as pessoas não estão preocupadas em poupar para pagar a dívida. Explicado em detalhes aqui:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2044

Portanto, não parece que fará grandes diferenças.

Em todo caso, e isso é importante, vale ressaltar que não há aumento na oferta monetária. Sendo assim, é impossível dizer que haveria "carestia generalizada, duradoura e sustentada" por toda a economia.

"Quem sairia perdendo nisso seriam os credores - apenas se não usarem o dinheiro que foi utilizado no reset também para consumo."

Os credores são os bancos. Eles não perderiam nada. Receberam prontamente um dinheiro que, francamente, já não mais esperavam reaver. Não tiveram de dar nada em troca e não houve perda do poder de compra da moeda. Mais ainda: agora poderão voltar a emprestar alegremente, pois já estão recapitalizados.

Responder
Andre Cavalcante 03/08/2016 23:00:58

Leandro,

Deixa ver se eu entendi a proposta e o porque ela poderia dar certo, exceto pelo risco moral.

A proposta:

1) O BCs mundo afora, gerariam crédito (dígitos eletrônicos) nas contas correntes de cada correntista (uma espécie de chuva de dinheiro via helicóptero), mas os correntistas somente poderiam sacar tal dinheiro para quitar dívidas (normalmente com o sistema bancário), que estejam em atraso a tantos meses (coloque aqui o seu critério favorito). Isso configuraria um reset no sistema financeiro e na economia, por conseguinte.

Consequência imediata:

2) A medida parece inflacionária, dinheiro de helicóptero, mas na verdade é o oposto, pois uma vez que esse dinheiro novo entra "do nada" para quitar dívidas, e normalmente o dinheiro novo entra na economia por uma dívida, então a quitação dessas dívidas significa diminuição da quantidade de dinheiro no sistema financeiro.

3) As pessoas ficam felizes porque conseguem pagar a hipoteca (que o banco já pensava que não receberiam), o carro, o empréstimo da faculdade do filho etc., e estarão aptos a adquirir novos empréstimos, porque, em princípio, continuam com suas rendas normais, mas agora sem dívidas

4) Os bancos ficam felizes porque retiram os ativos podres dos seus balancetes e o que sobrar de dinheiro é, digamos, "dinheiro real" na economia e estarão aptos a conceder novos empréstimos, porque estarão recapitalizados.

Consequência de longo prazo:

5) Já que o BC vai sempre proteger os bancos e, agora, ser o segurador de qualquer empréstimo (no fundo é isso que tal medida significa, que o BC vai pagar o empréstimo que tiver em atraso por tantos meses [coloque aqui o critério de sua escolha]), então, vamo que vamo começar tudo de novo e se endividar até que ninguém aguente mais, porque o governo garante. (Esse é risco moral)

---

Dúvidas:
a) Qual a possibilidade de isso acontecer?
b) Os BCs e os governos tem a consciência do risco moral?
c) Sinceramente acho que eles não vão estar nem aí para o risco moral (com consciência ou não) - tudo vale para "reativar" a economia.

Responder
Leandro 04/08/2016 00:17:20

Toda a sua sequência numérica está correta e perfeita.

No entanto, vale reforçar um detalhe técnico, o qual confesso que nunca vi sendo abordado por nenhum economista proponente dessa teoria do helicóptero: o BC não pode criar dinheiro e jogá-lo diretamente na conta bancária de indivíduos.

E a explicação é contábil. A criação de dinheiro é um passivo para o BC. E, para criar esse passivo, ele tem de adquirir um ativo. Hoje, os BCs compram títulos do governo em posse dos bancos (ativo) e em troca dão dinheiro aos bancos (passivo). Já no cenário do helicóptero, em que o BC dá dinheiro para as pessoas em troca de nada, isso é contabilmente impossível. Um BC estaria criando um passivo (dinheiro) para si próprio, mas não estaria adquirindo nenhum ativo.

Logo, eu não sei o que essas pessoas que sugerem dinheiro de helicóptero estão pensando. Nenhum nunca apresentou nenhuma explicação para como farão isso. (Sempre lembrando que essa teoria do helicóptero não é minha; estou apenas fantasiando em cima dela, dizendo o que ao menos seria mais sensato defender).

Sobre suas dúvidas:

a) Há alguns anos, eu diria que era nula. Atualmente, tudo é possível (mas alguém ainda precisa resolver o impasse contábil que descrevi acima).

b) Sinceramente, nenhum nunca se preocupou com isso.

c) Exato.

Responder
Joaquim Saad 04/08/2016 15:13:53

Será que ao entregarem dinheiro sem qq contrapartida a pessoas, empresas e mesmo governos (à la "conta movimento" e outras técnicas "latrino-tupiniquimericanas"), os BC's incorreriam mesmo em algum impasse contábil ? Não haveria simplesmente um prejuízo a ser coberto por seus respectivos "acionistas" únicos (i.e. os tesouros nacionais) c/ emissão de títulos públicos em favor dessas autoridades aeronáuticas...digo, monetárias, eliminando-se assim o descasamento entre ativos e passivos delas (ainda que à custa do aumento da dívida estatal) gerados c/ os "helicópteros" ?
A propósito, não seria este mesmo mecanismo de cobertura de eventual resultado negativo do Bacen que entraria em ação como consequência tanto da constituição de reservas externas c/ emissão monetária como também em sua na desvalorização prolongada e acentuada, obrigando o Tesouro a semestralmente "depositar" novos papeis de sua responsabilidade na carteira do BC ?

Responder
Gabriel Medeiros 03/08/2016 22:25:57

Esqueci de mudar o nome...

Mas, Leandro. Os chamados QE's não eram para capitalizar os bancos?

Responder
Leandro 04/08/2016 00:16:37

Sim. Era para comprar títulos hipotecários que haviam sido caloteados. Só que vários outros empréstimos não-hipotecários também foram caloteados. E isso não havia sido previsto.

Vide a atual situação da Itália:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2467

Responder
Antônio 16/08/2016 11:38:52

Alguma boa alma poderia em indicar um artigo em que haja explicações da razão de o spread bancário no brasil ser tão alto? Gostaria de ver um artigo completo disso.
Bom dia a todos.

Responder
Livre Mercado 16/08/2016 12:14:47

Pouca concorrência e a que existe é protegida pelo governo:

terracoeconomico.com.br/concentracao-bancaria-e-seus-danos-nao-reclame-do-spread

Responder
Alex 18/08/2016 12:04:12

Atualmente, há algum lugar no mundo em que o sistema bancário não seja corporativista?

Responder

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