Desvalorizar o câmbio estimula o crescimento econômico?
por , quarta-feira, 28 de novembro de 2012

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cc3a2mbio1.jpgA teoria econômica convencional afirma que desvalorizar a moeda de um país pode ser algo bom para sua economia, dado que uma moeda mais fraca gera uma taxa de câmbio mais desvalorizada, o que estimularia a produção industrial e consequentemente as exportações e o emprego.  Isso geraria um crescimento econômico.  Donde se conclui que, caso um país queira vivenciar um crescimento econômico mais acelerado, a desvalorização da moeda seria uma medida necessária.

Pensamento popular

De acordo com o pensamento popular, o segredo para o crescimento econômico está na demanda por bens e serviços.  Afirma-se que um aumento na demanda por bens e serviços gera crescimento econômico porque tal aumento irá desencadear a produção de bens e serviços.  Logo, aumentos ou reduções na demanda por bens e serviços estariam por trás de aumentos e declínios na produção geral da economia.  Sendo assim, para manter a economia crescendo, as políticas econômicas do governo têm se concentrar na demanda geral, implementando medidas para estimulá-la.

É fato que parte da demanda por produtos domésticos advém de países estrangeiros.  A acomodação desta demanda é rotulada de exportações.  Da mesma maneira, os cidadãos locais também exercitam suas demandas por bens e serviços produzidos no estrangeiro, o que é rotulado de importações.  Observe que, ao passo que um aumento nas exportações produz uma demanda geral pelos produtos domésticos, um aumento nas importações reduz esta demanda.  Donde se conclui que as exportações, sempre de acordo com este pensamento, são um fator que contribui para o crescimento econômico ao passo que as importações são um fator que subtrai do crescimento da economia.

Dado que a demanda internacional pelos bens e serviços de um país é um importante ingrediente na determinação do ritmo do crescimento econômico, faz sentido, segundo este pensamento, fazer com que os bens e serviços produzidos localmente sejam atraentes para os estrangeiros.  Uma das maneiras de fazer com que os bens domesticamente produzidos sejam mais demandados por estrangeiros é fazendo com que os preços destes bens sejam mais atraentes para eles.

Por exemplo, imagine que o preço de um saco de batatas no Brasil é de R$10 e de US$10 nos EUA.   Imagine também que a taxa de câmbio entre o dólar e o real é de 1:1.  À taxa de câmbio de 1 real por 1 dólar, um americano consegue, com US$10, comprar um saco de batatas brasileiras.

Uma das maneiras de os brasileiros estimularem sua competitividade é depreciando o real em relação ao dólar.  Suponhamos que, em reação a um anúncio de que o Banco Central brasileiro está disposto a afrouxar sua política monetária, a taxa de câmbio passe para R$2 por US$1.  Consequentemente, isto significa que R$10 agora podem ser adquiridos com US$5, o que por sua vez implica que um saco de batatas brasileiras agora custa US$5.  Consequentemente, um americano pode agora com US$10 comprar dois sacos de batatas do Brasil em vez de apenas um, como ocorria antes da depreciação do real.  Em outras palavras, o poder de compra dos americanos em relação às batatas brasileiras dobrou.

Se aplicarmos o exemplo das batatas para todos os bens e serviços, podemos chegar à conclusão de que, como resultado da depreciação da moeda, tudo o mais constante, a demanda geral por bens produzidos domesticamente tenda a aumentar.  Isto, por sua vez, irá gerar um superávit no balanço de pagamentos e, consequentemente, fortalecer o crescimento do PIB.  Observe que, para estimular a demanda estrangeira, os brasileiros estão agora oferecendo dois sacos de batatas em troca de um saco de batatas dos EUA.  Isto também significa que o preço de um saco de batatas americanas está agora duas vezes mais caro no Brasil em relação a antes da depreciação do real.  Muito provavelmente, isto irá reduzir a demanda dos brasileiros por batatas americanas.  O que temos até agora, no que concerne ao Brasil, são mais exportações e menos importações, algo que, de acordo com o pensamento convencional, é uma ótima notícia para o crescimento econômico brasileiro.

Igualmente, à taxa de câmbio original de 1:1, uma redução nos preços domésticos das batatas brasileira de R$10 para R$5 também permitiria a um americano trocar seus US$10 por dois sacos de batatas brasileiras.  Em suma, mudanças na taxa de câmbio ou mudanças nos preços nos respectivos países irão determinar a chamada 'competitividade internacional', a qual também é rotulada de taxa de câmbio real.  Ela pode ser resumida na seguinte fórmula:

Taxa de câmbio real = taxa de câmbio nominal x (preços estrangeiros/preços domésticos)

A taxa de câmbio nominal é a quantidade de moeda nacional necessária para se adquirir uma unidade de moeda estrangeira.  Uma desvalorização cambial significa um aumento da taxa de câmbio nominal (aumenta-se o número de reais necessários para se adquirir um dólar).

De acordo com esta expressão, um aumento na taxa de câmbio real (isto é, uma desvalorização do câmbio real) implica um aumento na competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional, e uma redução na taxa de câmbio real (isto é, uma apreciação do câmbio real) significa uma queda nesta competitividade internacional.  Donde que, seguindo-se esta equação, uma desvalorização da moeda nacional (uma redução na quantidade de moeda estrangeira necessária para adquirir uma mesma quantidade de moeda nacional) levará a uma desvalorização na taxa de câmbio real e, consequentemente, a um aumento na competitividade internacional. 

Já uma queda nos preços estrangeiros levará a uma apreciação da taxa de câmbio real, desta forma reduzindo a competitividade dos produtos brasileiros no exterior.  Seguindo-se este raciocínio simples, conclui-se que a desvalorização da moeda nacional — tudo o mais constante — é algo benéfico para o crescimento econômico.

Por que estimular exportações por meio da desvalorização da moeda não pode fazer uma economia crescer continuamente

Quando o Banco Central brasileiro anuncia que irá afrouxar a política monetária, isto leva a uma rápida resposta dos agentes do mercado de câmbio: eles irão vender a moeda nacional e adquirir moedas estrangeiras, o que irá levar a uma depreciação da moeda nacional.  Em resposta a isso, vários produtores nacionais perceberão que agora está mais atraente aumentar suas exportações.  Para financiar este aumento em sua produção, os produtores recorrerão aos bancos, os quais, em decorrência das recentes injeções monetárias feitas pelo Banco Central, concederão crédito a taxas de juros menores. 

Fazendo uso deste crédito recém-concedido, os produtores poderão agora adquirir os recursos necessários para expandir sua produção de bens com o intuito de acomodar a crescente demanda estrangeira.  Em outras palavras, por meio deste crédito recém-criado, os produtores irão retirar recursos reais de outros setores da economia, desviando-os para si próprios.  Enquanto os preços domésticos se mantiverem inalterados, os exportadores irão registrar um aumento nos lucros.

No entanto, este suposto aumento na competitividade gerado pela desvalorização da moeda significa que os cidadãos brasileiros irão agora obter menos bens importados para uma mesma quantidade de bens exportados.  Em suma, ao passo que o país está enriquecendo em termos de moeda estrangeira (mais dólares estão entrando no país), ele está empobrecendo em termos de riqueza real, isto é, em termos dos bens e serviços necessários para manter o padrão de vida e o bem-estar das pessoas.  A quantidade de bens na economia diminui tanto em decorrência do aumento das exportações quanto em decorrência da diminuição das importações. 

À medida que o tempo passa, os efeitos de uma política monetária frouxa começam a fazer um efeito mais generalizado nos preços dos bens e serviços, e, no final, tendem a solapar os lucros dos exportadores.  Em suma, um aumento nos preços põe um fim na ilusória tentativa de se criar prosperidade econômica do nada, utilizando apenas manipulações monetárias para este fim.  De acordo com Ludwig von Mises

As tão faladas vantagens que a desvalorização proporciona ao comércio exterior e ao turismo se devem inteiramente ao fato de que o ajuste dos preços e salários domésticos ao estado de coisas criado pela desvalorização requer algum tempo.  Enquanto este processo de ajustamento não se completa, as exportações são estimuladas e as importações, desencorajadas.  Não obstante, isto significa apenas que, neste intervalo de tempo, os cidadãos do país que desvalorizou sua moeda estão obtendo menos em troca do que estão vendendo no exterior, e pagando mais pelo que estão comprando no exterior; o consumo interno, consequentemente, sofre uma redução.  Este efeito pode parecer benéfico para aqueles que medem o bem-estar de uma nação pela sua balança comercial.  Em linguagem clara, esta realidade pode ser descrita da seguinte forma: o cidadão inglês precisa exportar mais bens ingleses para poder comprar aquela quantidade de chá que corresponderia, antes da desvalorização, a uma menor quantidade de bens ingleses.

Compare esta política de desvalorização da moeda com uma política conservadora na qual a moeda não se expande.  Sob estas condições, quando o conjunto da riqueza real do país está se expandindo — isto é, quando a quantidade de bens e serviços está aumentando —, o poder de compra da moeda nacional irá também aumentar.  Isto, tudo o mais constante, levará a uma valorização da moeda.  Com a expansão da produção de bens e serviços, e com a queda nos preços e nos custos de produção, os produtores nacionais poderão aprimorar sua competitividade internacional e sua lucratividade nos mercados estrangeiros ao mesmo tempo em que a moeda segue se valorizando. 

Por outro lado, quando há uma política monetária frouxa, os ganhos obtidos pelos exportadores são apenas temporários, e se dão à custa de outras atividades da economia, as quais ficam privadas de recursos, como explicado acima.  Já quando a política monetária é austera, os ganhos obtidos não se dão à custa de ninguém; eles são apenas a manifestação da criação de riqueza real.

Uma moeda forte, além de permitir aos seus usuários desfrutar mais bens por meio de mais importações, também lhes propicia uma maior qualidade de vida.  Viagens internacionais e produtos eletrônicos exóticos se tornam mais acessíveis aos consumidores.  Os produtores nacionais, por sua vez, conseguem acesso mais barato a recursos e a bens de capital estrangeiros.  Ainda que seus preços de venda no mercado interno se mantenham inalterados — em decorrência da solidez monetária — o resultado é que seus lucros tendem a ser maiores.

Igualmente, as exportações também tendem a aumentar.  A taxa de câmbio representa apenas uma fatia do custo total que os estrangeiros têm de pagar para importar bens desta economia.  Tão importante quanto a taxa de câmbio é o custo deste bem em sua própria moeda nacional.  Que diferença faz para o importador dos bens da economia brasileira se, por exemplo, o real está 10% mais barato em relação ao dólar e, ao mesmo tempo, os preços domésticos no Brasil subiram também 10% em decorrência da inflação monetária?  O efeito é nulo.  Por outro lado, com uma moeda forte permitindo a importação maciça de bens de capital mais baratos, os custos de produção tendem a cair e a produtividade tenda a aumentar, o que irá reduzir os preços internos e, consequentemente, estimular as exportações.  É assim que uma moeda forte estimula também o setor exportador.

Conclusão

No mundo atual, os bancos centrais agem coordenadamente, expandindo em sincronia a oferta monetária de seus respectivos países de modo a manter as flutuações das taxas de câmbio o mais estável possível.  Obviamente, durante este processo, tais políticas desencadeiam um persistente processo de empobrecimento, pois o consumo não se dá de acordo com a produção de riqueza real.

Adicionalmente, neste arranjo, se um país tentar adquirir uma vantagem passageira por meio da desvalorização de sua moeda — implantando uma política monetária mais frouxa —, ele conseguirá apenas estimular os outros países a fazer a mesma coisa.  Consequentemente, o surgimento de desvalorizações competitivas é a maneira mais garantida de se destruir a economia de mercado e jogar o mundo em um prolongado período de crise.

Sobre isso, Mises escreveu,

Uma aceitação geral dos princípios do câmbio flutuante irá resultar em uma competição maléfica entre as nações, cada uma se esforçando para desvalorizar mais do que a outra. Ao final dessa competição, os sistemas monetários de todas as nações estarão arruinados.


Leia também: Uma moeda forte pode trazer desvantagens para os brasileiros?


Frank Shostak é um scholar adjunto do Mises Institute e um colaborador frequente do Mises.org.  Sua empresa de consultoria, a Applied Austrian School Economics, fornece análises e relatórios detalhados sobre mercados financeiros e as economias globais.

Tradução de Leandro Roque


79 comentários
79 comentários
Helio Beltrao 17/05/2012 10:43:22

Sábias palavras de Shostak.

Responder
LIVIO LUIZ SOARES DE OLIVEIRA 17/05/2012 12:25:33

Leandro, gostaria de ver um comentário seu sobre o mito de que a manutenção, por parte da China, de sua moeda, o yuan renmibi, desvalorizada ao longo das últimas décadas foi uma medida que ajudou este país a aumentar dramaticamente suas exportações e a manter um crescimento econômico elevado.

Gostaria que você escrevesse ou citasse artigos sobre isso de acordo com a Economia Austríaca.

Grato pela atenção

Responder
Leandro 17/05/2012 15:04:43

Temos alguns artigos falando sobre este arranjo chinês. Recomendo este:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=545

Ademais, o país possui uma mistura entre câmbio fixado em um nível desvalorizado e controle de capitais. Isso, de certa forma, estimula investidores, que assim podem operar em um ambiente no qual o governo garante que não haverá sobressaltos cambiais e nem grandes volatilidades. Esses investimentos vão majoritariamente para o setor exportador e acabam aditivando a economia chinesa de forma espetacular.

Vale notar, no entanto, que se trata de uma medida bastante mercantilista, bem ao estilo da elite política chinesa: quem está no setor exportador é beneficiado pelo câmbio, em detrimento do resto da população; e quem investe no país tem todas as garantias de retorno, sem grandes riscos de perdas. Ou seja, trata-se da velha fórmula de economia voltada para exportação. Quem está neste setor vive como rei; quem está de fora apenas tenta saciar o estômago.

Responder
Gomes 28/11/2012 14:34:57

Vc contradisse o artigo, pois afirmou que o câmbio desvalorizado tem sido um dos motores do duradouro crescimento chinês. Ou seja, a vantagem conferida pelo câmbio desvalorizado na China para seu crescimento não foi temporária, ao contrário do que diz o artigo.

Responder
Leandro 28/11/2012 16:24:26

Onde foi que eu disse isso? Ou você tem uma incrível dificuldade para interpretar textos básicos ou é do tipo desocupado que fica vasculhando escritas ávido para achar uma aparente contradição que satisfaça a sua ideologia.

Permita-me repetir aqui o escrevi, só que agora de forma ainda mais explícita. "Trata-se de uma medida bastante mercantilista, bem ao estilo da elite política chinesa: quem está no setor exportador é beneficiado pelo câmbio desvalorizado, em detrimento do resto da população, que não tem poder de compra nenhum; Ou seja, trata-se da velha fórmula de economia voltada para exportação. Quem está neste setor vive como rei; quem está de fora apenas tenta saciar o estômago."

É esse o arranjo que você quer? Uma sociedade formada por uma minoria exportadora e rica e por uma maioria que não tem poder de compra já existe? E o seu socialismo e suposto amor pelos pobres? Eu sei, todo keynesiano/social-democrata se desmancha perante a qualquer sugestão de mercantilismo. Vocês simplesmente não resistem a uma ajuda estatal para empresários simpáticos ao governo.

Quanto ao "esses investimentos vão majoritariamente para o setor exportador e acabam aditivando a economia chinesa de forma espetacular", isso é matemática pura. I + X são duas variáveis que aditivam o cálculo do PIB. Isso é economia básica. E como são os números PIB que mesmerizam gente que não entende nada de economia, o governo chinês, muito experto, se concentra justamente em aditivar essa variável. Esperava mais de um estudante de economia como você.

Vai ter de se esforçar mais por aqui, Gomes. Desde que descobriu este site, você está desesperado para tentar se manter apegado às suas ideologias, não obstante todas as provas em contrário de sua eficácia.

Responder
Lucas 17/05/2012 12:26:21

Desestimulante é ler citações de Mises que de tão corretas e atuais parecem terem sido ditas há 1 hora atrás.

Responder
Juliano 17/05/2012 12:35:42

Mais um artigo fantástico!\r
\r
O grande problema é o fato de que esses efeitos são tão contrários à intuição. É muito mais fácil se concentrar no que se pode ver e políticos usam isso como modus operandis sem o menor pudor. O discurso ficou tão atrelado à mentalidade coletiva que falar qualquer coisa contrária a isso parece um absurdo.\r
\r
Não basta que todas as evidências apontem para o lado contrário. Não basta a lista imensa de países pobres com moedas fracas e a lista de países ricos com moeda forte. Não basta ter vivido a época de hiper-inflação. A realidade é solenemente ignorada em troca do discurso pró-exportação. A resposta padrão é que sem esses "incentivos" não conseguiremos produzir nada e todos morreremos de fome importando tudo da China.

Responder
Fabio MS 17/05/2012 14:32:47

De início, esclareço que não tenho conhecimento técnico em economia. Tudo que sei é o que li no Mises.org.br. Perdoem-me, portanto, se a pergunta mostrar-se ridícula ou inoportuna.\r
\r
Pois bem, a imprensa costuma elogiar o tal sistema de câmbio flutuante, que faz parte do famoso "tripé da estabilidade econômica". \r
É um sistema adotado, salvo engano, por boa parte dos países.\r
\r
Diante disso, pergunto:\r
\r
a) a crítica do autor ao câmbio flutuante se refere à intenção do planejador central em manter a moeda subvalorizada para ter "vantagem" em relação a outros países e conseguir exportar mais(foi isso que eu entendi). Nesses termos, um BC que busca a valorização da moeda nacional é menos mau?\r
\r
b)considerando a atual organização do sistema econômico e financeiro, há uma alternativa melhor para o câmbio do que o sistema de câmbio flutuante?\r
\r
Abraço.

Responder
Leandro 17/05/2012 14:50:24

Câmbio flutuante é uma bizarrice que transforma o comércio em uma situação de quase-escambo. Taxas de câmbio flutuantes introduzem incertezas indesejadas nos mercados internacionais, obstruindo o livre comércio, principalmente os investimentos. O investidor torna-se muito mais um especulador do que propriamente um investidor.

Taxas de câmbio flutuantes são aceitas por economistas simplesmente porque estes têm em mente apenas o conceito de 'nação'. Entretanto, embora 'nação' seja uma importante unidade política, ela não é uma unidade econômica. Assim, imagine se houve uma taxa de câmbio flexível entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro? Ou entre Bahia e Santa Catarina? Isso seria um incentivo ao livre comércio entre os estados ou uma barreira?

Se os estados adotassem câmbios flexíveis entre si, os efeitos seriam desastrosos para o comércio, com cada estado fazendo guerra cambial e impondo várias tarifas protecionistas. Ainda bem que não é assim.

Não faz sentido -- a menos para protecionistas inveterados, é claro -- defender câmbio flutuante entre países, mas "câmbio fixo" entre estados, cidades e bairros.

Ademais, vale lembrar que o padrão-ouro clássico, que vigorou de 1814 a 1913, nada mais era do que um sistema de câmbio fixo. Porém, ao contrário da ideia deturpada que se tem hoje de câmbio fixo, o câmbio fixo do padrão-ouro não era um câmbio determinado por políticos. As moedas nacionais (dólar, libra, franco etc.) eram simplesmente denominações para uma determinada massa de ouro. Um dólar era igual a 1/20 onça de ouro e uma libra era igual a 1/4 onça de ouro -- o que significava que uma libra era igual a 5 dólares.

O dólar era "fixo" em relação à libra da mesma forma que 1 real é fixo em relação a duas moedas de 50 centavos. Ou seja, na prática, todos os países tinham a mesma moeda (ouro) e, neste sentido o câmbio, entre eles era fixo.

Assim, respondendo à sua primeira pergunta, um câmbio flutuante permite ao BC manipular livremente a oferta monetária, ao passo que um câmbio fixo o deixa bem mais restrito.

E quanto à segunda pergunta, um arranjo em que se adote uma moeda de outro país já seria um grande avanço, pois se está retirando dos políticos nacionais a capacidade de manipular a oferta monetária.

Sugiro a leitura do artigo sobre o Plano Real, que fala sobre isso tudo.

Grande abraço!

Responder
Fábio Mendes dos Santos 18/05/2012 05:40:59

Obrigado pela gentileza e pelos esclarecimentos, Leandro.
Abraço.

Responder
amauri 18/05/2012 10:07:32

Boa tarde Leandro!
Cambio livre é igual ao flutuante? Pergunto por que os dois podem ser manipulados, Certo?
No padrão ouro, o ouro tambem ficaria fixo?
Qual é o melhor regime cambial?
abs

Responder
Leandro 18/05/2012 12:26:00

Câmbio livro e câmbio flutuante, em teoria, são sinônimos, mas ambos são manipulados pelo governo. É o pior sistema cambial que existe.

No padrão-ouro clássico, cada moeda representa um determinado peso de ouro, sem flutuações -- assim como há 100 cm em um metro e duas moedas de 50 centavos são um real.

Já no padrão-ouro puro, moedas de ouro são a moeda de troca. Assim como não há taxa de câmbio entre São Paulo e Bahia (pois utilizam a mesma moeda), não há taxa de câmbio entre os países. Quanto mais taxas de câmbio você acrescenta, mais para perto do escambo você leva a economia.

Responder
Eduardo Pimenta 28/11/2012 04:47:31

Ué? Que estranho... Eu pensava que era justamente o contrário, que a taxa de câmbio flutuante era controlada pelo mercado, enquanto a taxa de câmbio fixa seria sempre controlada pelo Banco Central. Pelo menos é mais ou menos isso que a gente aprende com aquele modelinho Keynesiano simples/generalizado... a política monetária é ineficiente sob regime de câmbio fixo porque a autoridade monetária se compromete a manter a taxa de câmbio corrigindo possíveis desequilíbrios na taxa de juros interna em relação à externa.\r
\r
Ok, imagino que modelos Keynesianos não se aplicam aqui, hahaha. Então em uma economia de livre mercado, com padrão ouro, se a taxa de câmbio estiver livre de controle governamental, ela seria fixa pois estaria atrelada a quantidade de ouro. :)\r
\r
Gostei do artigo. ^^\r
Abraços.

Responder
Leandro 28/11/2012 05:13:27

A questão é que há regimes câmbio fixo (também chamados de âncora cambial) e regimes de câmbio atrelado. O atual regime cambial brasileiro é de câmbio atrelado ao dólar (com a banda inferior em 2 reais por dólar e a banda superior em 2,10 reais por dólar). Regime idêntico vigorou na primeira fase do Plano Real (leia detalhes aqui).

O problema desse regime de câmbio atrelado é que ele se resume a um banco central manipulando o mercado de câmbio e determinando arbitrariamente qual deve ser o valor da moeda estrangeira em relação à moeda nacional. Tal sistema é inerentemente instável e irá durar enquanto os especuladores julgarem que as reservas internacionais do país estão em um nível adequado. Caso as reservas comecem a baixar -- como ocorreu repentinamente em setembro de 1998 no Brasil --, os ataques especulativos serão intensificados até o país finalmente abrir mão de sua manipulação cambial.

Já um regime de câmbio genuinamente fixo não pode ser feito por um Banco Central. Sempre que é feito por um Banco Central, ele não dura, pois é da natureza do Banco Central interferir continuamente no mercado imprimindo dinheiro. Um regime de câmbio genuinamente fixo só pode ser feito por um "Currency Board".

Um Currency Board ortodoxo nada mais é do que uma agência de conversão, uma casa de câmbio. Neste sistema, a moeda de um país se torne um mero substituto de uma moeda estrangeira.

A moeda nacional é totalmente atrelada a uma moeda estrangeira (por exemplo, X reais são equivalentes a 1 dólar, sempre), e a variação da base monetária se dá de acordo com o saldo do balanço de pagamentos (saldo da quantidade de moeda estrangeira que entra e sai da economia nacional). Cada dólar que entra é convertido em reais a uma taxa fixa e imutável, de modo que a base monetária da economia varia estritamente de acordo com o balanço de pagamentos. Um Currency Board não faz política monetária nenhuma. Ele simplesmente troca moeda.

Assim, quando há um superávit nas transações internacionais, a quantidade de moeda doméstica aumenta; quando há um déficit, diminui.

Currency Boards estão em vigor, por exemplo, em Hong Kong desde 1983, quando o país adotou o dólar americano como âncora cambial. Modelos um tanto deturpados de Currency Boards também existem na Estônia, na Lituânia, na Bulgária (sendo que a moeda âncora é o euro), em Macau (dólar de Hong Kong), na Bósnia (euro) e em outros pequenos países.

Observe que, neste sistema, a oferta monetária de um país varia da mesma maneira que a oferta monetária de Minas Gerais varia quando seus habitantes transacionam, por exemplo, com os habitantes de Goiás. O país que adota o Currency Board passa a funcionar como se fosse um estado do país emissor da moeda utilizada como âncora pelo Currency Board -- por exemplo, Hong Kong funciona como se fosse mais um estado americano; Estônia, Bulgária e Lituânia funcionam como se fizessem parte da zona do euro.

Suponhamos que em 1994 o Brasil tivesse adotado um Currency Board seguindo a paridade R$ 1 = US$ 1. Neste caso, partindo-se do princípio de que a quantidade de dólares em posse da Caixa de Conversão fosse igual ou maior do que a quantidade de reais em circulação (tal princípio é pré-requisito indispensável para o bom funcionamento do sistema), o Currency Board estabeleceria que sempre trocaria, sem custo e sem demora, 1 real por 1 dólar e 1 dólar por real. Ao determinar isso, a taxa de câmbio estaria "fixa" em 1 real pra 1 dólar.

(Se você quisesse vender 1 dólar por um valor maior do que 1 real para outra pessoa, esta preferiria simplesmente ir à Caixa de Conversão e lá trocar 1 real por um dólar. Ou seja, tal artifício é totalmente eficaz em realmente fixar a taxa de câmbio. E como a quantidade de dólares é, por definição, superior à quantidade de reais, é impossível haver qualquer ataque especulativo.)

Não vou me esticar aqui em mais detalhes técnicos sobre este sistema, porém é fato que ele seria bastante superior, para um dado país, ao arranjo de câmbio flutuante, pois traria estabilidade de longo prazo para os investimentos, acabaria com as especulações e tiraria completamente das autoridades políticas do país a capacidade de fazer politica monetária.

O único problema do Currency Board é que, em última instância, ele ainda utiliza uma moeda fiduciária criada por outro banco central. E este teria de ser parcimonioso em sua emissão. Na década de 1990, o dólar era a única opção para o Brasil. É difícil imaginar como estaríamos hoje, porém é certo que, em termos de inflação de preços, estaríamos melhor, e em termos de investimentos estrangeiros, muito melhor.

Abraços!

Responder
luiz fernando 28/11/2012 07:35:21

"...um arranjo em que se adote uma moeda de outro país já seria um grande avanço, pois se está retirando dos políticos nacionais a capacidade de manipular a oferta monetária..."
porém continua-se refém das manipulações do outro país, nâo?

Responder
Leandro 28/11/2012 07:46:13

Correto. E é aí que entra o individualismo metodológico. Pense em dois sujeitos, um suíço chamado Kurt Schüller e um venezuelano chamado Henrique Gonzalez. Ambos gostam de moeda forte.

Kurt tem duas opções: mantém seu banco central autônomo ou abole seu banco central e institui um currency board que utiliza como moeda reserva a peseta espanhola. De seu ponto de vista individual, ele obviamente preferirá a primeira opção.

O venezuelano também tem duas opções: mantém seu banco central autônomo, livre para imprimir bolivares à vontade, ou abole seu banco central e institui um currency board que utiliza o dólar (ou o euro) como moeda reserva. Ele obviamente preferirá a segunda opção.

Ou seja, tudo depende de como age o banco central local e como age o banco central emissor da moeda a ser utilizada como âncora.

Responder
Morgan 17/05/2012 18:30:50

Desculpem minha ignorancia, mas o que ocorre quando no livre mercado as empresas emigram de uma região (seja ela País, Estado, etc..) para outra uma outra região que pratica salarios menores, ou seja haveria nesse espaço um aumento de desempregados, desse modo como o mecado agiria para reverter essa situação??

Responder
Leandro 17/05/2012 18:56:53

Prezado Morgan, resposta detalhada aqui:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1131

Grande abraço!

Responder
Andre Canine 17/05/2012 18:37:19

Mais um artigo brilhante do Frank Shostak, assim como um outro texto dele sobre o conceito de inflação. Alguém pode mandar esse link para o Guido Mantega? Sinceramente, não sei se o ministro é simplesmente desonesto ou ignorante.\r

Responder
Tiago Moraes 18/05/2012 05:22:37

Leandro, porque será que os entusiastas da manipulação cambial não se pronunciam a respeito da Alemanha?

A Alemanha foi a nação que mais exportou no século XX, neste mesmo período (a partir dos anos 50 para ser preciso) o Marco alemão foi uma das moedas mais estáveis e apreciadas do mundo.


Desvalorizações cambiais não farão com que uma economia recheada de gargalos estruturais e institucionais, se torne mais competitiva que as concorrentes, mais dinâmicas. Pelo contrário, beneficia exportadores ao passo que desestrutura todo o sistema de precificação da economia interna, em decorrência da inflação, dado que a desvalorização cambial nada mais é que inflacionar mais que os outros países.

Responder
Leandro 18/05/2012 05:37:22

Exato. E o mesmo vale para a Suíça e para o Japão. Todas são nações de moeda estável (no caso da Alemanha, ainda sob o marco alemão) que, além do padrão de vida da população ser alto, são também amplamente exportadoras.

Investimentos estrangeiros nestes países também são altos, justamente por causa da garantia de retorno em moeda forte.

Não há absolutamente nenhum ponto negativo em se ter uma moeda forte. Ao contrário: toda a população se beneficia de um maior padrão de vida.

Responder
Juliano 21/05/2012 11:34:12

A Alemanha é um caso interessante. Têm uma força industrial gigantesca, muita disciplina fiscal, mas também são um Estado bem interventor. Possuem um sistema de ensino estatal muito forte e muitos serviços são centralizados no Estado.\r
\r
Mesmo apesar do Estado de bem estar social, conseguem manter muita competitividade.

Responder
Rafael Franca 28/11/2012 09:28:50

Eu vejo o exemplo dos nórdicos também Juliano, e vejo que o mais danoso para uma economia são as manipulações dos bancos centrais, regulamentações e limitações à propriedade privada e aos empreendimentos. Mesmo com impostos altos os capitalistas conseguem girar um motor que sustenta uma classe burocrática imensa, tudo por conta do apego à austeridade.

Responder
Pedro 28/11/2012 18:12:02

Também não pode se esquecer o detalhe de que há impostos e impostos. Na Dinamarca e na Suécia por exemplo, os impostos corporativos são competitivos. Segundo o Ease of Doing Business do Banco Mundial, os impostos corporativos na Dinamarca são de menos de 30% do lucro pelo método de cálculo deles, enquanto no Brasil chega a quase 70%.

Aliás, no quesito pagamento de impostos, a Dinamarca é o 13º mais competitivo do mundo.

www.doingbusiness.org/data/exploreeconomies/denmark/

Responder
Carlos 18/05/2012 06:03:13

"Desvalorizar o câmbio estimula o crescimento econômico?" A resposta para esta pergunta, também título do artigo, é: estimula à medida que, num ambiente previsível, deixa os produtos nacionais mais baratos e eleva as exportações e os investimentos nela.

Não adianta se à desvalorização segue uma subida de preços internos, porque encarece a produção dos exportadores e reduz seus lucros. Ou seja, líquida a vantagem e o estímulo iniciais.

Também não adianta ficar numa política de sucessivas desvalorizações do câmbio, a fim de compensar a subida do preços internos e manter os produtos nacionais mais baratos, o que o Brasil fazia na época da hiperinflação. Não adianta porque cria incerteza e dificuldade de planejamento, desestimulando o investimento e o crescimento das exportações e da economia.

Em resumo, pra funcionar precisa, concomitantemente, de preços internos comportados e previsibilidade da taxa de câmbio, tal qual a China faz.

No Brasil não há como implementar, via câmbio, uma política eficiente de estímulo as exportações porque esbarraria se, inevitavelmente, na subida da inflação, devido a poupança interna baixa. E não se pode contar com poupança externa, já que esta valorizaria o câmbio.

Responder
Bright 28/11/2012 16:25:14

A melhor política de exportação que existe é um mercado que oferece bons produtos. Se os produtos brasileiros forem bons o suficiente, irão encontrar compradores poderosos. Se não, irão quebrar.

Responder
Rhyan 18/05/2012 06:33:21

Leandro,

Não entendi bem a fórmula:

Taxa de câmbio real = taxa de câmbio nominal x (preços estrangeiros/preços domésticos)

As duas taxas são real para dólar? Os preços são em qual moeda? Real e dólar?

Poderia dar um ex. dessa fórumula com números?

Obrigado, abraço!

Responder
Leandro 18/05/2012 06:39:26

A taxa de câmbio nominal é exatamente aquela que você vê no noticiário, de R$2/US$ (dois reais por dólar; você precisa de dois reais para comprar um dólar.)

Já a divisão preços estrangeiros por preços domésticos (ambos em uma mesma moeda) serve apenas para se determinar um conceito que ajude a imaginar qual o câmbio efetivo. Por exemplo, se os preços domésticos aumentam e os internacionais ficam estáveis (e o câmbio nominal também fica estável), essa divisão gera um número menor, o que significa que o câmbio real se apreciou e tornou-se mais vantajoso importar. É como se o câmbio passasse de 2 para 1,5 real por dólar.

Se os preços domésticos diminuem e tudo o mais fica constante, aquela divisão gera um número maior, o que equivale a um aumento no câmbio real (por exemplo, de 2 para 2,5 reais por dólar), o que estimula as exportações.

O mesmo raciocínio se aplica para variações no nível de preços estrangeiros.

Responder
Rhyan 18/05/2012 07:09:48

Por favor, me dá um soco! Eu tava divindo o preço doméstico pelo preço estrangeiro e não o inverso...

Agora as coisas batem, fazem sentido.

Valeu, abraço!

Responder
Leandro 18/05/2012 07:18:43

Calma! Não faça pedidos precipitados e imprudentes. Isso acontece...
Abraços!

Responder
Rhyan 18/05/2012 10:50:21

Significa que uma taxa de câmbio real tende a ser igual a taxa de cambio nominal? Ou o inverso?

Responder
Leandro 18/05/2012 12:36:07

Em teoria, sim. Porém, estamos em um arranjo no qual o Banco Central tem total autonomia para especificar preços mínimos para o dólar.

Antes destas últimas turbulências, o Banco Central vinha diariamente fazendo leilões de compra de dólar à vista, muitas vezes dois ou até mesmo três leilões por dia. O BACEN entrava no mercado e definia um (alto) preço de compra para o dólar. Agindo assim, o preço do dólar passava a ser aquele que o BACEN definisse. Quando você tem uma instituição poderosa e com poder de criar dinheiro do nada, o preço que ele define para a compra acabará sendo o preço oficial.

Por exemplo, se o dólar está a R$ 1,86 e o BACEN define que compra dólares a R$ 1,87, as empresas que quiserem vender dólar irão correr para o BACEN. Qualquer pessoa que quiser comprar a preços menores não conseguirá, pois os ofertantes preferirão vender para o BACEN. E mesmo quem estava disposto a vender a preços baixos preferirá vender para o BACEN, que deixou claro que comprará àquele valor maior. Sendo assim, o dólar sobe para R$ 1,87.

É por isso que o dólar foi subindo diariamente, e parece não mais haver disposição para deixá-lo abaixo de R$ 1,85.

Responder
Rhyan 18/05/2012 15:31:38

E ainda chamam isso de "câmbio flutuante", heheheeh.

Valeu, abraço!

Responder
Julio 18/05/2012 06:46:02

Qual o câmbio real do Brasil hoje?

Responder
Leandro 18/05/2012 06:55:41

O BACEN considera apenas a divisão do câmbio nominal pelo IPCA, sem levar em conta os preços externos.

Eis a tabela:

www.bcb.gov.br/pec/Indeco/Port/ie5-28.xls

Responder
Julio 18/05/2012 07:54:37

Aparece 75 pra 03/2012 e 100 pra 07/1994. Quer dizer que em 03/2012 a taxa real de câmbio era 75% da taxa de 07/1994?

Responder
Leandro 18/05/2012 12:30:56

Sim, ao menos em teoria, embora este raciocínio seja um tanto distorcido. A mensuração começa com a base 100 em julho de 1994 e daí vai variando de acordo.

Vale lembrar que se está apenas dividindo o câmbio nominal por um IPCA fajuto (que não representa a real inflação de preços da economia), e não se está considerando os preços externos.

Responder
Julio 18/05/2012 14:10:36

Então o câmbio está mega apreciado. E pra voltar a ficar como em 07/1994, teria que subir para 2,40, considerando que em 03/2012 a taxa era de 1,80.

Responder
Leandro 18/05/2012 14:23:36

É, só que tem um detalhe. O IPCA engloba vários produtos que não são comercializados internacionalmente, como todo o setor de serviços (cuja inflação de preços é bem mais alta do que a inflação de preços para os bens que sofrem concorrência das importações). Tire esta inflação dos serviços e o câmbio real ficará bem mais desvalorizado.

Ademais, por que você parte do princípio que o valor de julho de 1994 é exatamente o ideal? Só por que ele foi tomado como base? Ora, isso não quer dizer nada. Aliás, aí está um ônus da prova que lhe cabe: como você pode me garantir que aquele valor de julho de 1994 não estava desvalorizado e que o atual é que é o correto?

Fiquei curioso.

Responder
Julio 18/05/2012 15:17:30

Não disse que o câmbio de 07/1994 era o ideal. Só o usei como referência por ser a base 100 da tabela. Aliás, aquele câmbio já era apreciado, tanto que levou o Brasil a ficar deficitário na balança comercial. Na verdade, os economistas da PUC que conceberam o plano real escolheram um câmbio fixo sujo apreciado, porque a preocupação não era estimular exportações, mas controlar a inflação.

Se o câmbio atual é apreciado mesmo em relação ao câmbio do inicio do real, que já era apreciado, então temos um problema grave de taxa de câmbio.

Responder
Leandro 18/05/2012 15:34:32

Isso, de novo, é chutômetro total. Pra começar, déficit na balança comercial não é padrão nenhum para se aferir "apreciação" de uma moeda. Os EUA, por exemplo, têm déficit comercial independentemente de como esteja o dólar. Tanto no auge da fraqueza do dólar (em meados de 2008) quanto em seus momentos de efêmera robustez, os déficits seguem altos e impávidos.

Adicionalmente, eu posso dizer que os déficits comerciais do início do real se deveram ao fato de que a economia foi aberta após mais de 15 anos de fechamento total, e que as pessoas compreensivelmente passaram a preferir produtos importados às porcarias produzidas pela indústria nacional, que até então era totalmente protegida e cartorializada. Isso é algo que pode ocorrer mesmo com as importações sendo bem mais caras que o produto nacional. É simplesmente uma questão de preferência voluntariamente demonstrada pelos consumidores, e você não tem nada que tentar reverter isso ou achar que está errado -- a menos que queira ser um ditador.

Por último, vale lembrar que a metodologia de cálculo do IPCA pelo IBGE já sofreu alterações, de modo que se a metodologia de hoje fosse aplicada aos primórdios do real, certamente o IPCA seria menor, o que atenuaria bastante esta "apreciação" da moeda.

Portanto, embora não haja nenhuma base para dizer que o real está sobrevalorizado, ainda que ele de fato estivesse sobrevalorizado, isso não seria problema algum. Basta ler a explicação final do texto -- a menos, é claro, que você seja um industrial que queira lucros fáceis. Aí sim a choradeira seria "compreensível".

Grande abraço!

Responder
Pedro 28/11/2012 18:28:15

E sem falar que no caso dos EUA o que ocorre é que, pelo fato de o dólar ser uma moeda de reserva internacional, os americanos literalmente imprimem seu papel pintado e mandam esse papel em troca de produtos, especialmente da China.

A impressão de dinheiro, que provoca a desvalorização da moeda, está contribuindo para o déficit americano que só pode ser mantido por essa impressão desenfreada de dinheiro.

Quem se lasca com tudo isso é o chinês que trabalha em troca de pedaços de papéis pintados que provavelmente irão valer bem menos no futuro. Já o padrão de vida e de consumo americano permanece elevado enquanto os mesmos desfrutam de bens sem precisar produzi-los, bastando apenas exportar pedaços de papel pintado ou digitos em um computador.

Essa política de desvalorização cambial da China é tão "vantajosa" para eles que eles estão praticamente trabalhando de graça. Quero ver quando eles se derem conta de que aqueles trilhões de dólares que eles tem acumulado durante todos esses anos, na realidade, valem bem menos do que eles esperavam que valessem.

Responder
Antônio 18/05/2012 15:51:01

Sobre a passagem abaixo:
"Fazendo uso deste crédito recém-concedido, os produtores poderão agora adquirir os recursos necessários para expandir sua produção de bens com o intuito de acomodar a crescente demanda estrangeira. Em outras palavras, por meio deste crédito recém-criado, os produtores irão retirar recursos reais de outros setores da economia, desviando-os para si próprios. Enquanto os preços domésticos se mantiverem inalterados, os exportadores irão registrar um aumento nos lucros."

Não consegui entender o mecanismo econômico envolvido em: "Em outras palavras, por meio deste crédito recém-criado, os produtores irão retirar recursos reais de outros setores da economia, desviando-os para si próprios."

Ainda, na menção a mises:
""As tão faladas vantagens que a desvalorização proporciona ao comércio exterior e ao turismo se devem inteiramente ao fato de que o ajuste dos preços e salários domésticos ao estado de coisas criado pela desvalorização requer algum tempo. Enquanto este processo de ajustamento não se completa, as exportações são estimuladas e as importações, desencorajadas.""

Também não consegui entender como se processa os referidos ajustes que minam a vantagem obtida artificialmente por manipulação monetária.

Algum colega poderia me indicar onde obter esses informações(referências bibliográficas, textos na internet, qualquer coisa), ou responder as perguntas ou ambas as coisas?

Grato.

Responder
Leandro 18/05/2012 16:07:42

Antônio, quando há uma expansão do crédito, dinheiro recém-criado (pelo banco central e pelo setor bancário) adentra a economia em um ponto muito específico. Aquelas pessoas que primeiro recebem este dinheiro terão uma enorme vantagem sobre todas as outras, pois terão seu poder de compra aumentado (pois estão com mais dinheiro) e os preços ainda não subiram em decorrência deste aumento na oferta monetária.

É por isso que tais pessoas estarão em posição de "retirar recursos reais de outros setores da economia, desviando-os para si próprios." Se você puder imprimir dinheiro hoje, terá mais poder de compra do que eu (e sem ter produzido nada em troca). Logo, você estará em vantagem em relação a mim, podendo adquirir recursos que, caso contrário, poderiam ter sido adquiridos por mim.

O mesmíssimo raciocínio se aplica à frase de Mises.

Recomendo este artigo, que explica detalhadamente todo este processo.

Sobre a não neutralidade da moeda

Responder
Eduardo 18/05/2012 21:38:46

Como é bom entrar aqui e ganhar um pouco de ar lendo esses textos.

Por que ultimamente nas minhas aulas ta complicado, sou bombardeado a todo minuto com coisas como protecionismo e "a chave para o crescimento é a exportação, então temos que exportar mais e importar menos".
Isso que eu nem vou comentar o que eu ouvi sobre padrao-ouro hoje e sobre a crise de 29. Só pra voces terem uma ideia ouvi coisas do tipo "o padrao-outro é rudimentar" e "a culpa da crise de 29 foi o excesso de ouro nos EUA".

Responder
Thyago 22/05/2012 09:05:51

Publiquei ontem um texto que trata do assunto.

Ressalto:

Rogoff e Reinhart (2004)mostram que o Brasil perde apenas do Congo entre os países com as moedas que mais se desvalorizaram no mundo entre 1970 e 1991. Nesse sentido, há algumas questões pertinentes:

1. Isso tornou o Congo ou o Brasil nações industriais e competitivas?

2. Além disso, como se justifica a perda de participação relativa da indústria no PIB nesse mesmo período?

3. Como nações ricas e de câmbio apreciado, como a Alemanha e os Estados Unidos, conseguem ter participações elevadas entre os países exportadores do mundo?

Responder
Deilton 26/05/2012 06:48:29

Esses textos deveriam ser transformados em vídeos e postado no you tube. Ficaria mais fácil de divugar. As pessoas tem preguiça de ler.
Muito bom o texto!

Responder
anônimo 15/06/2012 09:35:53

Leandro, por favor, uma luz.\r
\r
Então é errado dizer que haja "câmbio livre", afinal todos os governos - uns mais outros menos - mexem na oferta monetária, certo?\r
\r
De qualquer forma, na aula de "contabilidade social", o professor, explicando sobre os regimos de câmbio, disse que não existe nenhum exemplo no mundo de país que opera com câmbio livre porque os governos sempre dão uma interferida.\r
\r
Pelo que ele disse, eu entendi que ele estava falando de manipulações diretas na taxa de câmbio e não dessas manipulações na base monetária que acabam refletindo na conversão.\r
\r
É verdade que nenhum país opera com câmbio livre?\r
\r
O Panamá, por exemplo, que não tem BC, mexe na taxa de câmbio de alguma forma?

Responder
Leandro 15/06/2012 11:29:14

"Então é errado dizer que haja "câmbio livre", afinal todos os governos - uns mais outros menos - mexem na oferta monetária, certo?"

Em termos puramente teóricos, sim. É errado dizer que haja câmbio livre quando todos os governos podem adulterar sua oferta monetária. Porém, em termos um pouco mais tolerantes, pode-se dizer que o governo que aumenta sua oferta monetária sem nenhuma preocupação com os efeitos disso sobre o câmbio estaria permitindo um câmbio genuinamente flutuante. Mas desconheço qual Banco Central faça isso.

"De qualquer forma, na aula de "contabilidade social", o professor, explicando sobre os regimos de câmbio, disse que não existe nenhum exemplo no mundo de país que opera com câmbio livre porque os governos sempre dão uma interferida."

Parabenize seu professor. Finalmente recebo um relato de um professor que disse uma verdade.

"Pelo que ele disse, eu entendi que ele estava falando de manipulações diretas na taxa de câmbio e não dessas manipulações na base monetária que acabam refletindo na conversão."

É muito provável que ele de fato tenha se referido à primeira opção. Poucos sabem economia profundamente de modo a entender a segunda.

"É verdade que nenhum país opera com câmbio livre?"

Sim, mas isso não é necessariamente ruim (afinal, um câmbio genuinamente fixo é um arranjo superior a um câmbio flutuante). O problema atual são as guerras cambiais, em que os países disputam para ver quem deprecia mais sua moeda em relação às outras. Tal arranjo está levando o mundo para o brejo.

"O Panamá, por exemplo, que não tem BC, mexe na taxa de câmbio de alguma forma?"

O Panamá opera com o dólar. E quem controla o dólar é o Fed. Logo, a taxa de câmbio do dólar em relação às outras moedas é algo a respeito do qual o governo do Panamá nada pode fazer.

Responder
Gabriel 28/11/2012 11:50:49

Vamos supor um Currency Board no real, se disséssemos que 1 R$ = 1$ estamos mantendo a nossa moeda refém do dólar correto? Mas se 1 real é igual a 1 dólar, quando o FED criar uma puta inflação o real iria se valorizar em relação ao dólar? Ou mesmo o dólar valendo agora 50 cents, 1 dólar continua comprando 1 real?

A inflação da moeda base interfere na correlação de valor com a moeda do país que utiliza o Currency Board?

Responder
Leandro 28/11/2012 12:49:38

Antes de responder à sua pergunta, só um esclarecimento para evitar confusão: se um Currency Board fosse estabelecido hoje, a cotação não poderia ser de 1 real para 1 dólar, pois isso seria sobrevalorização e as reservas internacionais se esgotariam rapidamente. O procedimento correto seria deixar o câmbio totalmente livre por alguns meses, sem nenhuma restrição ao movimento de capitais nem nada. Quando a taxa de câmbio adquirisse estabilidade, este seria o câmbio a ser fixado.

Ato contínuo, o Currency Board passaria a emitir uma nova moeda na paridade de 1:1 com o dólar (apenas para tornar os cálculos mais fáceis), sendo que as cédulas de real seriam trocadas por essa nova moeda no valor da taxa de câmbio em que foi fixada (por exemplo, se o câmbio final foi de R$2,05 por dólar, então os reais seriam convertidos para a nova moeda a esse valor -- esquema idêntico ao que foi feito durante o Plano Real, só que o Plano Real foi mais heterodoxo: quiserem emular um Currency Board mas sem ter um Currency Board, pois queriam manter a soberania do Banco Central).

Bom, quanto à sua pergunta específica, sim, o país com o Currency Board ficaria ao sabor da política monetária do país emissor moeda reserva -- no caso, o dólar. No entanto, até hoje, a "puta inflação" não se materializou (e nem acho que irá, pois não é do interesse nem do sistema bancário americano -- que se tornaria rapidamente insolvente, pois todos os seus empréstimos seriam pagos facilmente com dinheiro que não valeria nada -- e nem dos membros do Fed, cujas aposentadorias estão em fundos de pensão não estatais, e que seriam aniquilados pela inflação).

Ademais, nada impede que o Currency Board troque suas reservas -- passando do dólar para o euro, por exemplo.

Por fim, vale notar que o problema enfrentado pelos Currency Boards sempre foi o da sobrevalorização da moeda nacional em decorrência do fato de o sistema bancário operar com reservas fracionárias e consequentemente expandir a oferta monetária em uma quantidade maior do que as reservas internacionais. Mas, por outro lado, isso só ocorre em países que adotaram não um Currency Board ortodoxo, mas sim um Currency Board misto, que também faz as funções de banco central. Logo, sabendo que este banco central poderá imprimir moeda para socorrê-los (e não se limitar apenas à sua função de apenas converter moeda), os bancos embarcam na expansão do crédito. E a moeda se sobrevaloriza.

Responder
Alexandre M. R. Filho 26/06/2012 11:03:15

Leandro,\r
\r
eu li em algum lugar que vc havia dito que as manipulações no câmbio promovidas pelo governo em nada tinham a capacidade de influenciar na nossa capacidade de exportar ou nossa predisposição a importar.\r
\r
Vc poderia me indicar se eu li certo e, em caso positivo, apontar onde está esse comentário ou texto?\r
\r
Obrigado e parabéns mais uma vez!

Responder
Leandro 26/06/2012 11:12:06

Opa, isso aí eu não escrevi não. O que eu posso ter dito relativo a este assunto é que o Banco Central atual está operando uma política de "câmbio inflexível para baixo", em que ele não permite que o dólar fique abaixo de uma determinada cotação.

Mas isso que você escreveu eu não poderia ter falado, pois não faz sentido, uma vez que câmbio desvalorizado estimula sim o setor exportador e inibe o setor importador.

Abraços!

Responder
Alexandre M. R. Filho 26/06/2012 11:26:02

Show de bola! Obrigado! É prum trabalho de macroeconomia. Só com essas citações da escola austríaca que tirei do site já consegui convencer uns três colegas. Vamo que vamo!

Responder
Frederico Alvares 28/11/2012 09:26:11

Grande Artigo, pena que o nosso Ministro Guido Mantega não aprendeu tal lição basilar e ainda diz que o dólar a R$ 2,00 (dois reais) veio para ficar...

Responder
Cristiano 28/11/2012 10:58:54

Mais um da série "artigo-aula".

Responder
Ricardo 28/11/2012 14:44:25

[I]quando o conjunto da riqueza real do país está se expandindo — isto é, quando a quantidade de bens e serviços está aumentando —, o poder de compra da moeda nacional irá também aumentar. Isto, tudo o mais constante, levará a uma valorização da moeda[/I]

Por que isso leva a uma valorização da moeda?

Responder
Leandro 28/11/2012 16:25:48

Porque há uma mesma quantidade de dinheiro para uma maior quantidade de bens. Se a quantidade de bens aumenta e a quantidade de dinheiro permanece constante (ou até mesmo aumenta menos do que aumentou a quantidade de bens), então o preço de cada bem será menor. Se uma mesma quantidade de dinheiro compra mais bens, então o preço de cada bem caiu. Logo, o poder de compra da unidade monetária aumentou.

Responder
Pedro 29/11/2012 10:45:58

Leandro, boa tarde.\r
\r
Fiquei com uma dúvida em relação à questão das reservas fracionárias: o Prof. Huerta de Soto coloca que os bancos deveriam manter 100% dos depósitos. Como isso poderia ocorrer, se os bancos lucram justamente emprestando o dinheiro depositado pelos chamados "agentes superavitários"? Ou seja, como os bancos poderiam manter 100% das economias depositadas? \r
\r
Muito obrigado.

Responder
Leandro 29/11/2012 10:57:16

Os 100% seriam para depósitos em conta-corrente. Os bancos lucrariam emprestando os depósitos a prazo, que teriam datas de maturação previamente combinadas. Ao fazer um deposito a prazo, você combinaria com o banco qual seria a data em que você poderia sacá-lo. Durante esse período, seu dinheiro seria emprestado.

Sugiro a parte inicial deste artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1387

Responder
Pedro 29/11/2012 11:19:26

Entendi. No caso, isso evitaria tanto as corridas bancárias quanto a expansão descoordenada do crédito.\r
\r
Mas e quanto ao rgumento de que não haveria sentido os bancos deixarem dinheiro parado lá, restringindo o ´crédito?

Responder
Leandro 29/11/2012 12:00:41

É um argumento. Se o sujeito for distraído e deixar seu dinheiro parado na conta-corrente, sem movimentá-lo, e nesse ínterim o banco emprestá-lo, não haverá problemas. Aliás, será bom para o banco, que irá coletar juros do empréstimo mas não pagará juros nenhum sobre a conta-corrente.

Igualmente, se o sujeito depositar $10.000 na conta-corrente, mas nunca movimentar mais do que $1.000, o banco pode emprestar os outros $9.000 sem gerar nenhuma descoordenação econômica. A questão seria justamente adivinhar quanto o sujeito deixaria parado lá. E, de novo, esse cara estaria deixando de ganhar dinheiro: se ele depositasse a prazo, ganharia juros.

Responder
Pedro 29/11/2012 12:09:13

Entendi. Obrigado, Leandro. Um abraço.

Responder
Alexandre 30/11/2012 12:55:56

Um amigo meu que trabalha no Banco Central (aquele mesmo que respondeu o questionário da Câmara dos Deputados) me mandou essa resposta (perguntando ao final), após ler o presente artigo que eu havia enviado para ele:

Notícia:

Dólar sobe quase 5% no mês e vai a R$ 2,131, maior valor desde 2009

O dólar comercial subiu forte nesta sexta-feira (30), e fechou com alta de 1,61%, valendo R$ 2,131 na venda. É o maior valor de fechamento desde 5 de maio de 2009 (R$ 2,149). Em novembro, a moeda norte-americana acumulou alta de 4,95%, na maior valorização mensal desde maio deste ano (5,79%). Um dos motivos para a alta acentuada do dólar nesta sessão foi a divulgação do crescimento do PIB abaixo do esperado por analistas, em 0,6%. O baixo crescimento deixou os investidores preocupados, porque sugere que o governo pode lançar mão de um real mais desvalorizado e juros mais baixos para estimular a economia. Os operadores também ficaram em alerta para uma possível atuação do Banco Central, que não aconteceu.


Meu amigo pergunta: "Cadê a emissão de moeda???"

Responder
Leandro 30/11/2012 13:13:33

Como é que é?! Seu amigo, que é um dos manda-chuvas do BACEN -- pela descrição dada, só pode ser o senhor Carlos Hamilton -- está vendo o real indo para a latrina, o poder de compra do brasileiro sendo dissolvido completamente, o M2 se expandindo a uma média de 15% esse ano, o crédito a uma taxa média de 18% ao ano, a inflação de preços continuamente acima da venezuelana meta de 4,5% e ele ainda pergunta cadê a expansão monetária que ele próprio controla?

O BACEN conseguiu em pouco mais de um ano a proeza de destruir o poder de compra do real perante o dólar (de R$1,54 para R$2,13) e o euro (de R$2,28 para R$2,77), e o sujeito diz que não expandiu o bastante? Nota: o euro e o dólar mantiveram a mesma paridade entre si todo este tempo, o que significa que a debilidade é exclusiva do real, que, repito, está sob o controle direto do seu amigo.

Lamento a franqueza, mas este sujeito não está à altura do cargo que ocupa. Nós todos estamos pagando por isso, principalmente os menos financeiramente protegidos.

P.S.: recomendo que mande este artigo para ele.

Responder
Alexandre 30/11/2012 16:15:56


Leandro, vou passar essa resposta sua pra ele. Quer acrescentar mais alguma coisa? É só escrever que eu passo na íntegra para o e-mail dele. Sobre o questionário, ele me disse que é padrão aquele tipo de resposta.

Eu sempre envio pra ele artigos aqui do mises.org.br, mas raramente ele comenta ou responde. Porém, este artigo acima ele respondeu com a notícia da alta do dólar de hoje (30/11), e foi dando ênfase nele que ele perguntou, com ar de sacanagem, se o dólar que aumentou HOJE foi por culpa da emissão de dinheiro pelo BACEN.

Eu entendo o seguinte: quem está lá no BACEN há 20 anos, ganhando o que ganha e quase se aposentando, não quer trabalhar. Quer sim é ver o relógio passar e colocar os burros na sombra.

Infelizmente é assim... Mas, fora o lado profissional, o cara é muito gente boa e aparentemente muito inteligente, mas preguiçoso.

Nota: ele não é o Carlos Hamilton



Responder
Leandro 30/11/2012 16:33:25

Como assim o dólar aumentou hoje? Hoje ele aumentou apenas uns 5 centavos. Seu amigo acha que o real se desvaloriza de uma vez só, de acordo com impressora? Ele acha que não é um processo contínuo? O dólar está se valorizando em relação ao real continuamente desde julho de 2011. O real está uma porcaria não é de hoje. As coisas apenas estão ficando mais claras agora.

Pelo menos fico um pouco (só um pouco) mais aliviado de saber que não se trata do Hamilton. Mas isso não ajuda. Enfim...

Responder
Thyago Schio 01/12/2012 08:07:41

Uma aceitação geral dos princípios do câmbio flutuante irá resultar em uma competição maléfica entre as nações, cada uma se esforçando para desvalorizar mais do que a outra. Ao final dessa competição, os sistemas monetários de todas as nações estarão arruinados.

Mais preciso impossível.

Responder
Aurelio A. 05/12/2012 19:06:19

"A teoria econômica convencional afirma que desvalorizar a moeda de um país pode ser algo bom para sua economia, dado que uma moeda mais fraca gera uma taxa de câmbio mais desvalorizada, o que estimularia a produção industrial e consequentemente as exportações e o emprego. Isso geraria um crescimento econômico. Donde se conclui que, caso um país queira vivenciar um crescimento econômico mais acelerado, a desvalorização da moeda seria uma medida necessária."

A desvalorização PODE ser boa, implicando que outrossim pode ser má também.

Além disso, pressupor que ela é uma "medida necessária" ignora todas as demais medidas propostas pela "teoria econômica convencional" que podem ser adotadas em detrimento da desvalorização do cambial, reduzindo-as à ineficácia e inoperância. Inclusive algumas das que são propostas no desenvolvimento do texto que se segue, travestidas sob outros axiomas.

Não deu pra continuar.

Estes artigos já foram melhores.

Responder
Leandro 05/12/2012 19:53:07

"A desvalorização PODE ser boa, implicando que outrossim pode ser má também."

Desvalorizar significa reduzir o poder de compra da moeda. Não há outra definição. Logo, como é que a redução do poder de compra da moeda pode ser algo bom para toda a população? Que ela seja algo bom para alguns potentados industriais que operam em conluio com o governo e são protegidos por ele, não há dúvida nenhuma. Mas gostaria de saber como é que reduzir o poder de compra da moeda é bom para toda a população.

Reduzir o poder de compra é igual a reduzir salário. Uma redução salarial seria algo economicamente bom para você? Eu não gostaria.


"Além disso, pressupor que ela é uma "medida necessária" ignora todas as demais medidas propostas pela "teoria econômica convencional" que podem ser adotadas em detrimento da desvalorização do cambial, reduzindo-as à ineficácia e inoperância."

Ou seja, além de reduzir o poder de compra da moeda, você defende que o governo crie outras intervenções para supostamente corrigir os efeitos nocivos da desvalorização. Pior ainda: você afirma que isso pode funcionar. Você, na prática, está dizendo que o governo inflacionar a moeda e em seguida impor controle de preços é algo que pode fazer com que a desvalorização da moeda seja "ineficaz e inoperante".

Essa é a teoria mais básica do intervencionismo: o governo cria intervenções que geram consequências inesperadas, e decide então recorrer a intervenções ainda mais violentas para "sanar" as consequências não previstas das intervenções anteriores. No final, tudo fica pior e descobre-se que teria sido melhor não fazer nada.

"Inclusive algumas das que são propostas no desenvolvimento do texto que se segue, travestidas sob outros axiomas."

Quais?


"Não deu pra continuar."

Fez bem. Se você se embananou completamente com questões tão básicas, é de se imaginar o sufoco que passaria quando chegasse ao final.


"Estes artigos já foram melhores."

Para alguém que dá a entender que tem intimidade com esse site (ao ponto de dizer que os "artigos não já foram melhores"), é espantoso que você desconheça completamente uma teoria tão básica quanto a do intervencionismo citada acima. Pior ainda é dizer que redução do poder de compra da moeda pode ser algo bom para toda a população de um país, algo que foi detalhadamente abordado em um artigo dedicado exclusivamente a este assunto. Talvez quem já tenha sido melhor seja você. Ou não.

Responder
Gustavo BNG 05/12/2012 20:14:18

Estes artigos já foram melhores.

Esta é a crítica que você faz apenas por discordância do que é afirmado?

Responder
Pablo 12/08/2013 01:50:44

Prezado Leandro, estou aprendendo um pouco de economia na faculdade e a professora abordou o tema da depreciação cambial dizendo que há duas faces dessa depreciação. Falu em dois tipos de pass-through da depreciação cambial - pass-through para bens tradables - industriais e agrícolas praticados no mercado doméstico. Isso significa que com a depreciação cambial haverá um aumento nos preços desses bens?

O outro é o pass-through de bens non-tradables e disse que era esse que precisava ser minimizado. Nestes estão os custos com mão de obra e salários. Disse que era necessário que as taxas de juros dissipasse o efeito inflacionário da depreciação cambial sobre os salários.

Poderia me ajudar a entender resumidamente esses assuntos?

Grato pela atenção

Responder
Leandro 12/08/2013 15:24:56

O raciocínio por trás deste modelo é o seguinte (por favor, tenha em mente que a descrição que farei a seguir é um mero relato do raciocínio deste modelo, e não necessariamente algo em que também acredito):

Uma depreciação cambial -- o que significa que o dólar ficou mais caro em relação ao real -- faz com as importações se tornem mais caras.

Ato contínuo, todo o setor industrial nacional começa a reajustar seus preços em decorrência do encarecimento do dólar. Empresas cuja produção depende da importação de insumos irão encarecer seus bens finais. Este é o pass-through da depreciação cambial para bens tradables industriais e agrícolas. E este encarecimento dos bens finais fará com que todos os setores da economia também reajustem seus preços, inclusive o setor de serviços. Por quê? Porque as pessoas que trabalham no setor se serviços consomem estes bens agrícolas e industriais. E o encarecimento deles faz com que tais pessoas queiram aumentar sua renda. E isso ocorrerá por meio do aumento dos preços do setor de serviços.

Só que determinados setores -- como aqueles que sofrem concorrência externa -- não poderão remarcar seus preços de forma exorbitante, pois, se exagerarem na remarcação, as importações podem voltar a ser atrativas.

Já aqueles serviços que podem ser fornecidos apenas pelo mercado interno -- corte de cabelo, manicure, lavagem de carro, empregada doméstica, lazeres diversos -- não sofrem concorrência internacional. Logo, o reajuste de seus preços não tem como ser combatido pela concorrência estrangeira. Este é o "pass-through de bens non-tradables e que precisa ser minimizado".

Este, portanto, é o raciocínio. Aumento de preços gerado pelo encarecimento do dólar não preocuparia tanto caso fosse restrito apenas aos setores sujeitos à concorrência externa. Só que como isso quase nunca acontece -- porque o setor de serviços também remarca seus preços, uma vez que os bens de consumo ficaram mais caros --, essa disseminação do encarecimento do dólar afeta toda a economia, inclusive o setor de serviços, gerando preocupação adicional para o Banco Central, que não tem como combater diretamente este aumento, exceto pelo aumento dos juros.

Este é o raciocínio deste modelo.

Abraços!

Responder
RICARDO AMADO DIVINO 19/10/2013 15:39:32

PERGUNTA > Qual a importância do cãmbio para o desenvolvimento da economia ?

Responder
Danny Trejo 19/10/2013 16:54:07

Quanto maior a desvalorização da moeda, mais pobre é o seu povo.

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1672

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1441

Responder
Elizangela G. de Mesquita 16/11/2013 18:44:08

Muito legal esse artigo,não entendo nada de economia mais consegui esclarecer bem algumas duvidas,essas discussões sobre o assunto são muito boas Parabéns!!!
Como já disse que não entendo nada gostaria se for possível claro que você me respondesse, qual seria o melhor modelo de cambio a ser adotado pelo Brasil porque?

Desde já agradeço!

Responder
Marconi 10/04/2014 20:38:40

Por que a Política Monetária Restritiva é utilizada em uma conjuntura de câmbio desvalorizado?

Responder
Eloandra 30/10/2014 01:50:16

Gostaria de saber se havendo uma valorização do Real frente ao dolar podera provocar uma queda no PIB brasileiro?

Responder

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