Uma breve história do Plano Real, aos seus 18 anos
por , sábado, 30 de junho de 2012

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Gustavo Franco, um dos principais mentores do Plano Real
Quando Itamar Franco assumiu interinamente a Presidência da República no dia 29 de dezembro de 1992, imediatamente após a renúncia de Fernando Collor, a inflação acumulada em 12 meses estava em 1.119%.  Em 1991, ela havia sido de 472%.  Em 1990, de 1.621%.  Com o país mergulhado em uma crise política e com a economia em frangalhos, não havia a menor perspectiva entre a população de que houvesse qualquer arrefecimento na inflação de preços.

Também em decorrência da recessão, a arrecadação tributária não era suficiente para cobrir as despesas.  Como consequência, o governo apenas ordenava ao Banco Central — que, na época, podia comprar títulos diretamente do Tesouro — que imprimisse o dinheiro necessário para fazer frente às despesas.  O resultado era um moto-perpétuo inflacionário. 

Eis o gráfico do singelo crescimento da base monetária — variável totalmente sob o controle do Banco Central — durante o governo Collor.  (É preciso dividir o gráfico em dois, pois um aumento de 28.380% não cabe em apenas um só gráfico).

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Gráfico 1: evolução da base monetária, março de 1990 a julho de 1991

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Gráfico 2: evolução da base monetária, julho de 1991 a dezembro de 1992

Tal prática de imprimir dinheiro para fazer frente às despesas governamentais não cobertas por impostos já era tradicional na economia brasileira; porém, no início da década de 1990, ela havia chegado ao ápice.  Em abril de 1990, por exemplo, a inflação acumulada em 12 meses foi de 6.821%, recorde até hoje absoluto em nossa história.

Após mais de uma década com inflação de preços anual acima dos 100% — a média de inflação de preços anual entre 1980 e 1992 foi de incríveis 694% —, uma solução definitiva era urgente.

O problema da hiperinflação

Além de toda a distribuição de renda às avessas que a inflação monetária gera — a qual foi a responsável pela explosão da disparidade de renda no Brasil na década de 1980 —, ela também provoca dois problemas adicionais que inviabilizam qualquer chance de crescimento econômico sustentável:

1) A inflação gera uma falsificação contábil que faz com que as empresas sobrestimem seus lucros e, consequentemente, incorram em um involuntário consumo do capital próprio.  Isto ocorre porque, durante a hiperinflação, a depreciação dos bens de capital continua sendo computada em termos de seus custos históricos e não em termos de seus reais custos de reposição (necessariamente mais altos).  Esta subestimação da depreciação gera uma superestimação dos lucros, o que consequentemente fará com que a empresa consuma um capital que não possui.

2) Adicionalmente, a hiperinflação impossibilita que os empreendedores sejam capazes de antecipar — mesmo que aproximadamente — quais serão os preços dos bens dali a alguns meses.  Logo, qualquer investimento de longo prazo se torna inviável.  Os empreendedores passam a se concentrar em projetos de curto prazo, projetos visando ao futuro mais imediato — por exemplo, no setor de serviços, nos setores de atacado e varejo, e até mesmo em empreendimentos que lidam com a especulação de vários de tipos de commodities. 

Assim, quando o processo de estimativa empreendedorial se torna incapaz de calcular com alguma exatidão quais recursos podem ser empregados lucrativamente em projetos de longo prazo, a estrutura de produção da economia é radicalmente "encurtada" e deixa de estar de acordo com as preferências dos consumidores, tanto presentes quanto futuras.  O caos calculacional impera.

Esta situação gera um círculo vicioso.  A hiperinflação contrai a estrutura de produção da economia, o que a deixa menos produtiva.  Uma economia menos produtiva significa menos produtos no mercado em relação à demanda.  Menos produtos no mercado em conjunto com um acentuado aumento da oferta monetária significam preços maiores.  Esta contínua inflação monetária exacerba a hiperinflação de preços, a qual contrai ainda mais a estrutura de produção da economia, reiniciando o ciclo. 

Daí a baixa qualidade de vida da maioria da população brasileira durante a década de 1980 e na primeira metade da de 1990.

O início

Estava claro, portanto, que esta situação não poderia perdurar.  Os velhos paliativos de trocar o nome da moeda e cortar três zeros já haviam se comprovado um redundante fracasso.  E não era necessário ser nenhum gênio monetário — tampouco seguidor da Escola Austríaca — para entender que uma hiperinflação contínua e crescente levaria à total destruição do sistema monetário, destruindo por completo a divisão do trabalho (a qual é possibilitada justamente pela existência do dinheiro) e retornando a economia ao estado do escambo.

Vários planos heterodoxos já haviam sido tentados desde meados da década de 1980:  Plano Cruzado (I e II) em 1986; Plano Bresser em 1987; Plano Verão em 1988/1989; e Plano Collor (I e II) em 1990 e 1991, respectivamente.  Todos envolviam congelamento de preços (alguns deles, cortes de zeros das moedas).  O governo congelava os preços, mas continuava imprimindo dinheiro impavidamente, o que significa que os geniais burocratas restringiam a oferta mas estimulavam a demanda.  Ao final de cada plano, a inflação de preços ressurgia com vigor redobrado.  E ninguém entendia por quê.

Em maio de 1993, partindo para o tudo ou nada, Itamar Franco nomeou Fernando Henrique Cardoso — então Ministro das Relações Exteriores — para o Ministério da Fazenda.  Naquele mês, a inflação de preços acumulada em 12 meses já estava em 1.348%. 

Por gozar de grande prestígio e por ter reconhecida capacidade intelectual, a indicação de FHC foi recebida com entusiasmo.  Vislumbrava-se pela primeira vez alguém com genuína capacidade de apresentar um plano econômico que ao menos reduzisse sensivelmente a inflação.

Embora sempre houvesse admitido não entender nada de economia, Fernando Henrique ao menos possuía bons contatos no mundo acadêmico, principalmente junto a um grupo de economistas da PUC do Rio de Janeiro.  E foi a eles que FHC delegou a tarefa de debelar em definitivo a inflação.

A equipe de economistas encarregada desta espinhosa função era composta por Gustavo Franco, Pedro Malan, André Lara Resende, Persio Arida, Edmar Bacha e Winston Fritsch.

O Plano

Embora repleto de jargões técnicos à primeira vista indecifráveis, o Plano Real na verdade era como um livro de John Grisham: uma trama aparentemente complexa encobrindo um enredo totalmente simples.  O objetivo da reforma monetária era lançar uma moeda cujo valor fosse, senão atrelado, pelo menos muito próximo ao dólar.  Na prática, o objetivo era fazer uma dolarização da economia, mas sem que houvesse uma dolarização de fato, algo que ofenderia nossos brios nacionalistas.

Como iremos ver mais abaixo, fazer uma dolarização da economia — isto é, simplesmente passar a utilizar o dólar como a moeda oficial do país (exatamente como fez o Panamá) — teria sido algo mais eficaz, muito pouco custoso e, principalmente, mais propício à liberdade do fatigado e espoliado povo brasileiro.  Porém, tanto por questões nacionalistas quanto por motivos estatais, preferiu-se o caminho mais complexo, que foi a criação e emissão de (mais uma) nova moeda.  Afinal, utilizar uma moeda estrangeira significa que o governo não mais teria capacidade de imprimir dinheiro para financiar seus déficits, passando a depender exclusivamente de impostos e empréstimos para cobrir seus gastos.  E, como sabemos, um governo só aceita vestir uma camisa-de-força se ela tiver um zíper na frente.  Logo, a opção pela criação de (mais) uma moeda foi uma esperta manobra do governo para manter intacto seu poder de imprimir dinheiro, não obstante todos os estragos que já haviam sido causados em decorrência da hiperinflação por ele gerada.

O Plano Real dependia de cinco fatores essenciais:

1) Zerar o déficit público — justamente o fator que gerava a emissão de dinheiro.  Para isso, haveria um aumento de cinco pontos percentuais em todos os impostos federais e privatizações de estatais, principalmente dos bancos estaduais;

2) Desindexar a economia — isto é, acabar com as correções automáticas de preços e salários, que eram reajustados automaticamente de acordo com a inflação passada (prática essa determinada por lei).  Em termos técnicos, isso ficou conhecido como "acabar com a inércia inflacionária";

3) Reindexar a economia de acordo com a taxa de câmbio — isto é, fazer com que preços e salários variassem de acordo com o dólar.  Na prática, o dólar se tornava o novo indexador.

4) Abrir a economia por meio da redução das tarifas de importação — tudo era válido para combater qualquer escalada preços (bons tempos);

5) Aumentar acentuadamente as reservas internacionais — isto é, o governo deveria comprar dólares continuamente, acumulando-os até o momento da introdução da nova moeda.  Quanto mais dólares o governo tivesse em suas reservas, maior seria a confiança dos investidores internacionais na seriedade e na robustez do plano, e menores seriam as chances de um ataque especulativo e de uma fuga de capitais.

Uma vez cumpridas estas cinco medidas, a nova moeda nasceria com um valor praticamente igual ao dólar.

As etapas

No dia 1º de agosto de 1993, houve a primeira medida, embora de efeito apenas cosmético: mudou-se, mais uma vez, o nome da moeda, e cortou-se três zeros.  A moeda deixava de se chamar Cruzeiro e passava a se chamar Cruzeiro Real.  A inflação de preços continuava em forte ascensão: seria de 33% só no mês de agosto e de 1.730% no acumulado de 12 meses. 

Esta ascensão inflacionária decorria do fato de que, além de imprimir dinheiro para saldar o seu déficit, o governo também imprimia para comprar dólares, algo que ele continuaria fazendo até o dia da introdução do real. 

No dia 7 de dezembro de 1993, finalmente foi apresentado o plano de estabilização especificando os cinco itens elencados acima.  Veja aqui um curto vídeo de uma reportagem do Jornal Nacional.

A mudança seguinte — e a mais importante — ocorreria só em 28 de fevereiro de 1994: a introdução da URV, Unidade Real de Valor.  (A inflação de fevereiro foi de 40,3% e a acumulada em 12 meses já estava em 3.025%).

A URV foi apenas um nome técnico tupiniquim para se evitar a palavra 'dolarização'.  Na prática, a URV nada mais era do que a cotação do dólar do dia anterior.  A taxa de câmbio do final de cada dia era estabelecida como sendo o valor da URV do dia seguinte.  Este valor serviria de indexador para todos os valores da economia.  Assim, os bens e serviços precificados em Cruzeiro Real deveriam ser divididos pela URV (taxa de câmbio determinada no dia anterior) para se encontrar os preços em Real.   

Veja aqui um exemplo aleatório: no dia 28 de março de 1994, a URV foi determinada em CR$895,03.  Isto significa que, no dia 29 de março, os preços em Cruzeiro Real deveriam ser divididos por 895,03 para se obter o preço em Real.  Este processo era repetido diariamente.  Dizia-se, assim, que a economia estava "urvizada". 

O objetivo desta indexação em URV era, paradoxalmente, o de desindexar toda a economia, apagando aquilo que era chamado de "memória inflacionária".  Todos os contratos e negociações salariais deveriam ser urvizados.  A intenção era fazer com que, no dia da transição do Cruzeiro Real para o Real (a moeda só entraria em circulação no dia 1º de julho), os preços fossem exatamente aqueles do dia anterior, de modo a não gerar sobressaltos e nem confusão.  Veja aqui uma curta reportagem do Jornal Nacional, ainda em junho, ensinando as pessoas a como fazer esta conta básica, já as preparando para o dia da transição.

Finalmente, no dia 29 de junho de 1994, uma quarta-feira, a taxa de câmbio encerrou o dia com o dólar valendo CR$2.750,00.  Portanto, no dia 30 de junho, quinta-feira, todos os valores em Cruzeiro Real deveriam ser divididos por 2.750 para se obter os valores em Real.  Todas as contas bancárias, todas as aplicações e investimentos foram automaticamente convertidos em Real.  CR$2.750 foi, portanto, a paridade estabelecida entre o Cruzeiro Real e o Real.  Morria o Cruzeiro Real e, na sexta-feira, dia 1º de julho, nascia o Real, valendo exatamente 1 dólar (pelo menos naquela sexta-feira).  Toda a base monetária foi trocada de acordo com esta paridade de CR$2.750,00 para cada R$1,00.  Quem estivesse em posse de cédulas de Cruzeiro Real deveria trocá-las nos bancos por cédulas e moedas de Real.

Em junho de 1994, a inflação de preços foi de 47,43% e a inflação acumulada em 12 meses foi de 4.922%.

Alguns gráficos

A seguir, veja o gráfico da variação da base monetária desde 1º de agosto de 1993, quando surgiu o Cruzeiro Real, até 30 de junho de 1994, quando ele morreu.  Em menos de um ano de existência, ela aumentou 3.100%.

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Gráfico 3: evolução da base monetária do Cruzeiro Real, de agosto de 1993 a junho de 1994

Este aumento foi majoritariamente para a compra de dólares para se acumular reservas internacionais.  Veja abaixo a cotação diária do dólar para este mesmo período.  Como era de se imaginar, observe a incrível desvalorização ocorrida no período, decorrente desta enorme impressão de dinheiro.

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Gráfico 4: taxa de câmbio do Cruzeiro Real, de 1º agosto de 1993 a  29 de junho de 1994.

Agora, o gráfico da variação das reservas internacionais desde janeiro de 1980.  Observe que elas começaram a crescer em definitivo a partir do final de 1991, sob a gestão de Marcílio Marques Moreira no Ministério da Fazenda, indicando que já havia um plano esboçado desde aquela data.

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Gráfico 5: evolução das reservas internacionais, janeiro de 1980 a junho de 1994

E o gráfico da taxa de inflação acumulada em 12 meses desde 1987.  A queda acentuada se deveu ao Plano Collor, que envolveu sequestro de poupança e congelamento de preços e salários.  Porém, tão logo os ativos confiscados foram sendo desbloqueados, os preços voltaram a disparar.

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Gráfico 6: IPCA acumulado em 12 meses, de janeiro de 1987 a junho de 1994

Transição sem susto

A transição do Cruzeiro Real para o Real, na sexta-feira, 1º de julho de 1994, foi sem susto e sem tumultos.  Obviamente, em um país acostumado a confiscos, congelamentos e tabelamentos, houve quem remarcasse os preços de maneira mais "abusada", justamente tentando se precaver contra estas possíveis surpresas, algo que obviamente irritou o governo.  Porém, fora estes incidentes localizados, a transição se deu de maneira suave e tranquila.  A inflação de preços, que havia sido de 47,43% em junho, passou para 6,84% em julho, 1,86% em agosto, 1,53% em setembro, 2,62% em outubro, 2,81% em novembro e 1,71% em dezembro.

Câmbio fixo?

Um dos maiores mitos que persistem até hoje é aquele que afirma que o Plano Real baseou-se um uma "âncora cambial" ou em um "câmbio fixo".  Isso é falso.  O câmbio nunca foi fixo, sequer por um dia.  Já no primeiro dia útil após a transição — segunda-feira, 4 de julho de 1994 — a taxa de câmbio passou a flutuar.  A partir daí, seu valor foi sendo determinado ora pelo mercado ora pela pura intervenção do Banco Central.  O BACEN se limitava a, diariamente, estabelecer um piso e um teto para a taxa de câmbio — algo tecnicamente chamado de 'banda cambial' —, mas estes valores aumentavam diariamente (ver gráfico 7).  E assim permaneceu até o "fim" daquilo que se convencionou chamar de "primeira fase" do Plano Real, no dia 13 de janeiro de 1999. 

Obviamente, houve períodos de intervenção intensa, principalmente no segundo semestre de 1998 e no início de 1999, quando o BACEN se esforçou — leia-se 'vendeu reservas internacionais' — para tentar manter um determinado valor para o câmbio (detalhes mais abaixo).  Mas câmbio genuinamente fixo nunca houve.  A seguir, um gráfico com as cotações diárias do câmbio, de 1º de julho de 1994 a 12 de janeiro de 1999.

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Gráfico 7: taxa de câmbio diária, de 1º de julho de 1994 a 12 de janeiro de 1999

Por que o Real foi aceito

Adeptos da teoria austríaca sabem que uma moeda só é imediatamente aceita após o seu surgimento caso ela já possua um histórico como meio de troca.  Se você criar uma moeda de papel hoje, do nada, é muito provável que ninguém irá aceitá-la.  Da mesma forma, um país que troque o seu sistema monetário, introduzindo uma nova moeda, pode até ser capaz de fazer — por meio da força, da coerção e das leis de curso forçado — com que seus cidadãos a utilizem; porém, dificilmente conseguirá fazer com que investidores estrangeiros confiem nesta moeda.  Tampouco os governos de outros países.

Por isso, caso o Brasil simplesmente trocasse o nome da sua moeda, é bastante provável que ela não fosse levada a sério pela comunidade internacional — principalmente levando-se em conta nosso histórico nada favorável de libertinagem monetária.  Logo, apenas a criação de uma nova moeda não seria capaz de fazer com que, logo em seus primeiros meses, ela se apreciasse como o Real se apreciou, indo de uma taxa de câmbio de R$1/US$ para R$0,84/US$.  Portanto, qual foi o segredo?

O segredo é aquilo que pode ser chamado de "qualidade da moeda".  A qualidade da moeda é determinada ou pelos ativos que a lastreiam ou pelos ativos pelos quais ela pode ser trocada sob demanda e sem restrição.  No caso do Real, o segredo estava justamente no tamanho das reservas internacionais em dólares.

Ao final de julho de 1994, a quantidade de reais em poder do público e em contas-correntes (ou seja, o M1) era de R$10,687 bilhões.  Já a quantidade de reservas internacionais era de US$43,09 bilhões

Isso significa que mesmo se todos os reais em circulação na economia brasileira fossem convertidos em dólares, ainda sobrariam (muitos) dólares.  Em outras palavras, na eventualidade de uma crise econômica mundial que assustasse os investidores estrangeiros e os levasse a retirar todos os seus investimentos do Brasil, eles não teriam por que se preocupar em não conseguir converter reais em dólares.  Havia dólares sobrando.  Foi justamente esta "qualidade do Real" — o fato de estar lastreado abundantemente em dólares — que garantiu a confiança dos investidores, levando à sua imediata apreciação logo após o seu surgimento.

E foi exatamente neste lastro em dólares que o Real manteve boa parte da sua credibilidade desde seu lançamento.  Enquanto as reservas internacionais fossem maiores que o M1, os investidores estrangeiros estariam seguros de que não haveria perigo de não conseguirem converter reais em dólares.  Mais ainda, eles estariam seguros de que o governo não recorreria — como já fizera várias vezes no passado — às maxidesvalorizarções cambiais para evitar que uma repentina fuga de dólares gerasse um total esgotamento das reservas internacionais. 

As reservas em dólares foram toda a base do Plano Real.  Daí a importância das compras de dólares iniciadas ainda no final de 1991.

Porém, manter estas reservas internacionais não era fácil, principalmente levando-se em conta que a balança comercial e de serviços (tecnicamente chamada de 'Transações Correntes') tornou-se negativa a partir de outubro de 1994 (e assim permaneceu até o fim da "primeira fase" do Plano Real).  Dado que havia esta saída de dólares por meio deste déficit nas transações correntes, o país tinha de manter juros elevados para atrair capital externo (via investimentos em títulos do governo, no mercado financeiro e em investimentos diretos; em terminologia contábil, diz-se que esses dólares estão entrando na conta capital e financeira) para mais do que compensar esta saída de dólares.

E esta foi justamente a "mácula" da primeira fase do Plano Real: a necessidade de manter juros altos para atrair dólares e, com isso, manter a confiança da comunidade internacional no Plano.  Não bastasse isso, o governo ainda apresentava um déficit orçamentário de aproximadamente 7% do PIB (não havia sequer superávit primário).  Tamanha necessidade de financiamento contribuía ainda mais para a elevação dos juros.

Eis um gráfico das taxas de juros determinadas pelo Banco Central para garantir este influxo contínuo de dólares via conta capital.

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Gráfico 8: taxa de juros do determinada pelo Banco Central, de 1º julho de 1994 a 31 de dezembro de 1998

Observe a disparada dos juros em outubro de 1997, em decorrência da crise asiática, que gerou uma fuga de capitais ao redor do mundo, e em meados de 1998, quando a primeira fase do Plano Real começou a desabar, pelos motivos que serão vistos logo abaixo.

A boa fase

Como explicado acima, a genuína âncora do Plano Real e da sua estabilidade era o volume de suas reservas internacionais.  Enquanto o volume de dólares fosse maior do que o M1, toda e qualquer conversão de reais em dólares estava garantida, o que trazia tranquilidade aos investidores, que assim não precisavam se preocupar com desvalorizações cambiais repentinas para impedir o esgotamento das reservas internacionais.

Enquanto esta estabilidade fosse garantida, o real desfrutaria do status de moeda forte e segura.  Justamente para garantir que o volume de reservas internacionais fosse maior que o M1, a expansão monetária era contida.  Isso trouxe uma substancial redução na inflação de preços, que caiu de 916% em 1994 para 1,65% em 1998 (o menor valor em toda a história do real).  Eis o gráfico da inflação de preços acumulada em 12 meses (a partir de julho de 1995, exatamente um ano após a introdução do real):

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Gráfico 9: IPCA acumulado em 12 meses, de julho de 1995 a dezembro de 1998

Para ajudar neste controle da inflação de preços, a economia passou por um processo de modernização.  Além da privatização de empresas estatais ineficientes, houve também a extremamente importante privatização de bancos estaduais, genuínas usinas de expansão monetária, pois eram utilizados por seus respectivos governos como fonte fácil e farta de financiamento.  Estes bancos operavam praticamente sem lei e sob ordens de seus governos estaduais, criando meios de pagamento a rodo apenas para financiar seus descalabros.  Os desvalidos de todo o resto do país pagavam a conta

Os melhores exemplos eram o Banespa e o BANERJ.  A dupla Quércia-Brizola punha fogo nessas instituições, fazendo-as conceder empréstimos para apaniguados políticos, para estatais deficitárias e, principalmente, para seus vorazes governos estaduais, ao mesmo tempo em que esses próprios bancos incorriam em déficits vultosos.  E quem socorria esses bancos era o Banco Central, que injetava dinheiro neles sempre que necessário, aumentando tanto a base monetária quanto o M1.  Não à toa, a inflação só passou a ser menor após esses bancos terem sido tirados da órbita de seus governos estaduais.

Mas a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, o Banco Meridional, o Banco da Amazônia, o Banco do Nordeste, o os bancos estaduais de Santa Catarina, Ceará, Goiás, Pará, Alagoas, Minas Gerais, Mato Grosso, Bahia, Acre e Maranhão não ficavam atrás.  Todos aprontavam e recebiam vultosas injeções do Banco Central.  Os bancos estaduais não tinham de prestar contas a ninguém.  Sua gerência política fazia a farra com os recursos, o Banco Central imprimia o dinheiro para cobrir a farra e o resto da população sofria as consequências da libertinagem.

Toda esta depravação, felizmente, foi interrompida durante a segunda metade da década de 1990.  Sem esta medida, dificilmente a inflação de preços cairia para menos de um dígito.

Por que o Plano Real acabou

As coisas vinham aparentemente bem até o segundo semestre de 1998, quando começaram a degringolar.  E no dia 13 de janeiro de 1999, o Plano Real, ao menos como havia sido originalmente concebido, acabou.

Por quê?

O gráfico a seguir mostra a variação das reservas internacionais e a variação do M1, de julho de 1994 a janeiro de 1999.

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Gráfico 10: reservas internacionais (linha azul, eixo da direita) vs. M1 (linha vermelha, eixo da esquerda)

Observe que, enquanto as reservas internacionais (linha azul) se mantiveram acima do M1 (linha vermelha), a situação se manteve relativamente tranquila. 

Já no segundo semestre de 1997, as reservas caíram US$10 bilhões (de US$62,5 para US$52,5 bilhões) em decorrência da crise asiática.  Consequentemente, o Banco Central deu uma pancada nos juros, elevando-os de 18,75% para 46%, como mostrado no gráfico 8.  Isso não apenas estancou a fuga de capitais, como ainda foi eficaz em atrair um volume ainda maior de capital estrangeiro.  Em abril de 1998, o país atingiria um volume até então recorde de reservas internacionais: US$74,656 bilhões, com um M1 na casa dos R$ 42 bilhões.  O câmbio, como mostra o gráfico 7, estava por volta de R$ 1,13.  Ou seja, mesmo se todo o M1 fosse convertido em dólares, ainda sobraria uma enormidade de reservas internacionais.  Logo, o cenário parecia tranquilo.

Até que no dia 17 de agosto de 1998, a coisa voltou a degringolar.  A Rússia entrou em crise financeira, e o governo russo anunciou uma forte desvalorização do rublo seguida de uma moratória.  Adicionalmente, a retomada dos confrontos na Chechênia e o início de uma nova guerra entre os separatistas e o governo russo pioraram ainda mais o humor dos investidores estrangeiros, que ainda estavam abalados pela crise asiática.  Houve uma maciça fuga para o dólar.

Em julho, as reservas internacionais do Brasil estavam em US$70,2 bilhões.  Em novembro, elas já haviam despencado para US$41,2 bilhões.  E no início de janeiro de 1999, continuaram caindo para US$36 bilhões.  Simultaneamente, o M1 havia crescido de R$42 bilhões para R$49 bilhões. 

Por que as reservas internacionais despencaram assim tão maciçamente?  Porque o Banco Central queria impedir de qualquer maneira a inevitável apreciação do dólar, ainda que ela fosse apenas momentânea.  A explicação é a seguinte:

A crise asiática no segundo semestre de 1997 havia gerado fortes desvalorizações no baht tailandês, no novo dólar taiwanês, na rúpia indonésia, no ringgit malaio, no won sul-coreano, no peso filipino e no dólar cingapuriano.  O dólar de Hong Kong, que opera sob um Currency Board, conseguiu manter sua taxa de câmbio intacta.

Com a crise russa, um ano depois, Hong Kong voltou a ser atacada por especuladores.  As autoridades monetárias do país venderam, em duas semanas, US$15 bilhões de suas reservas de US$96,5 bilhões.  A âncora cambial se manteve.  Com isso, o Brasil se tornou a bola da vez.  Especuladores e investidores desconfiavam que o Banco Central não fosse capaz de manter sua política de venda de dólares a fim de manter o câmbio relativamente inalterado (na Ásia, apenas Hong Kong havia obtido sucesso).  O crescente endividamento do governo prenunciava calotes.  Temerosos quanto a este calote e quanto a uma iminente desvalorização do real, investidores estrangeiros começaram a tirar seus dólares do Brasil.  Paralelamente, os especuladores também atacaram.

Durante todo este período de grande demanda por dólares, houve obviamente uma forte tendência de valorização da moeda americana, algo que, deixada à lei da oferta e da demanda, poderia mandar o câmbio para valores "indesejados" pelo governo.  Ato contínuo, para evitar esta desvalorização do real, o Banco Central vendeu maciçamente os dólares de suas reservas internacionais, justamente para impedir essa valorização da moeda americana.  US$34 bilhões foram queimados apenas para evitar que o câmbio se alterasse mais acentuadamente (algo nada bom às vésperas de uma eleição presidencial).  Daí a redução de US$70,2 bilhões para US$36 bilhões de dólares nas reservas internacionais em menos de seis meses.  E o gráfico 7 mostra que o Banco Central obteve êxito: até o final de 1998, a trajetória de valorização do dólar se manteve exatamente dentro da tendência histórica.

Porém, tal política obviamente era insustentável.  Chegaria um momento em que as reservas internacionais estariam em um ponto crítico.  Se a tendência se mantivesse, elas poderiam ser totalmente aniquiladas.  Por outro lado, caso o BACEN nada tivesse feito, o dólar realmente se valorizaria acentuadamente.  De novo, em época eleição presidencial, isto não seria tolerável.

Até que, no dia 13 de janeiro de 1999, com as reservas na metade de onde estavam em abril de 1998, o Banco Central simplesmente desistiu de vender dólares para segurar o câmbio.  Simplesmente deixou que ele flutuasse. 

Veja o completo histórico cambial do real.

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Gráfico 11: taxa de câmbio diária, de 1º de julho de 1994 a 29 de junho de 2012

A segunda fase do real

O Plano Real original, portanto, acabou no dia 13 de janeiro de 1999.  Dali em diante, foi adotado o famoso tripé macroeconômico que conhecemos: câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário.  Nenhum destes conceitos existia no Plano Real.

Ao menos em termos de inflação de preços, é muito difícil dizer que o atual arranjo, no qual o Banco Central tem total liberdade para imprimir dinheiro, seja superior ao arranjo anterior, no qual, embora também houvesse liberdade para se imprimir dinheiro, o BACEN ao menos tinha de se preocupar com as reservas internacionais e com a taxa de câmbio.

Veja a evolução da inflação de preços acumulada em 12 meses.  Ao passo que havia uma nítida tendência de queda durante a primeira fase do real, a coisa desandou bastante na segunda fase.

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Gráfico 12: IPCA acumulado em 12 meses, de janeiro de 1996 a maio de 2012

Durante o Plano Real, a menor taxa de inflação de preços obtida foi de 1,65%.  Na segunda fase do real, foi de 3%.

Adicionalmente, o atual arranjo monetário é mais propício à formação de bolhas e ciclos econômicos, justamente pela maior liberdade do Banco Central em imprimir dinheiro e por ele poder manipular os juros sem, ao menos em teoria, ter de levar em conta qual será o efeito na taxa de câmbio.

O que poderia ter sido feito

O processo de transição para o real, com a implementação da URV, foi muito bem feito.  Somente o fato de não ter havido congelamentos, confiscos e tabelamentos já torna o Plano Real merecedor de grandes elogios.

No entanto, o inevitável desejo de se criar uma nova moeda própria subtrai muito do brilhantismo do plano.  Se, no dia 30 de junho de 1994, todas as cédulas de Cruzeiro Real, bem como todos os depósitos em conta-corrente, fossem simplesmente convertidos em dólar (e havia dólares de sobra para isso, como ilustrado no gráfico 10), de modo que a moeda americana se tornasse a moeda corrente do Brasil, a situação teria sido bastante diferente.

Para começar, não teria havido maiores confusões na precificação de bens, serviços e salários, pois os próprios valores destes nos EUA já nos serviriam de base.  Adicionalmente, não haveria motivos para reclamações sobre taxas de câmbio sobrevalorizadas.  Indústrias que quisessem exportar mais teriam apenas de reduzir seus preços.  Não haveria alternativas artificiais.  Não haveria como o governo selecionar vencedores e perdedores.  Não haveria como o setor exportador fazer lobby para manipulações na taxa de câmbio.

Do ponto de vista da inflação de preços, também certamente estaríamos, até hoje, em melhor situação.  A oferta monetária no Brasil — isto é, a oferta de dólares — iria variar de acordo com a demanda dos brasileiros por moeda.  Não haveria uma política monetária doméstica: a oferta de dólares iria variar automaticamente de acordo com as variações no balanço de pagamentos (transações correntes mais conta capital e financeira).  Se houvesse um aumento na demanda por dólares, isto faria com que empresas e famílias gastassem menos, o que reduziria a demanda por bens e serviços não monetários.  Seus preços inevitavelmente cairiam, o que tornariam suas exportações mais atraentes no mercado internacional.  Este aumento nas exportações geraria um superávit no balanço de pagamentos, trazendo mais dólares para o Brasil.  Este aumento na oferta monetária faria com que os preços voltassem a subir, restaurando o equilíbrio inicial no balanço de pagamentos.  E se houvesse uma redução na demanda por dólares, de modo que os brasileiros aumentassem seus gastos, os preços subiriam, as importações ficariam mais atraentes, dólares seriam enviados para fora, isto aumentaria a demanda por dólares e reduziria os gastos dos brasileiros, os preços voltariam a cair e o equilíbrio de antes seria restaurado.  É justamente assim que uma economia funciona também sob um padrão-ouro.

Adicionalmente, houvéssemos nós adotado o dólar, que é a moeda internacional de troca, certamente teríamos atraído muito mais investimentos estrangeiros, os quais não precisariam se preocupar com desvalorizações cambiais.  Consequentemente, os investidores não teriam de planejar fugas repentinas.  Ataques especulativos como os de 1997 e 1998 não teriam ocorrido. 

Outro fator importante é a taxa de juros: operando diretamente com dólares — e não com uma moeda dependente do dólar —, não haveria necessidade de se elevar artificialmente os juros apenas para se manter uma elevada reserva de dólares.  Sem estes juros artificialmente elevados — que restringem os investimentos —, a economia poderia ter se desenvolvido muito mais.

Os gastos do governo também seriam bem mais contidos.  Sem o poder de imprimir dinheiro para financiar seus gastos, o governo brasileiro só poderia se financiar via impostos e via empréstimos.  O primeiro método é impopular, e possui um limite natural de crescimento.  E caso recorresse majoritariamente ao segundo método, os juros se tornariam inviáveis, pois o governo simplesmente não teria como ficar pegando empréstimos ad eternum da população.  Tal esquema de endividamento contínuo só funciona bem quando o governo detém a impressora de dinheiro, pois assim ele pode imprimir dinheiro não apenas para pagar parte do serviço de sua dívida, como também para manipular os juros da sua própria dívida.  Sem essa impressora, o governo é forçado a se manter estritamente dentro de um orçamento.  Com gastos governamentais contidos, a expansão do estado é restringida.  A liberdade da população aumenta.

Sim, hoje sabemos que o dólar não mais é o que era na década de 1990.  Porém, naquela época, só havia esta opção.  Ademais, a adoção do dólar não implicaria a obrigatoriedade do seu uso; moedas paralelas deveriam também ser liberadas, sejam elas estatais (como euro, iene, franco suíço, iuane) ou privadas (que poderiam ser emitidas tendo como lastro metais preciosos, por exemplo).  A conversão para outra moeda qualquer (tanto de outros países quanto privada) ou para um padrão-ouro seria muito mais fácil neste ambiente.  O exemplo do Panamá, que utiliza o dólar como moeda corrente, que não possui Banco Central, e que por isso é o único país da América Latina que nunca passou por uma crise financeira, é uma boa mostra prática desta teoria.

Portanto, a criação do real, embora bem executada, foi uma pirotecnia desnecessária.  No final, foi apenas um estratagema que permitiu ao estado manter — agora sem o descontentamento popular gerado pela hiperinflação — sua principal fonte de financiamento, aquela instituição que garante a ininterrupta expansão do seu tamanho e do seu poder: o Banco Central.

Perdemos, em 1994, uma ótima chance de termos nos tornado muito mais livres.


Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


121 comentários
121 comentários
Paulo Sergio 30/04/2012 04:57:19

Eu queria perguntar sobre uma coisa diferente: A apropriação original, esse negócio de 'misturar com trabalho', não teve ninguém que se dedicasse a explicar detalhadamente o que é isso? Pq eu acho meio vago, por ex, n sei se vcs ouviram a notícia de que tem uns caras que vão mandar robôs e foguetes pra fazer mineração em asteróides.
Então, quem é o dono de um asteróide cheio de ouro?
Pq o cara pode até mandar seus robôs, mas não foi ele que descobriu o asteroide, nem que tava cheio de ouro, foram os astrônomos.Se esses astrônomos quisessem falar que são os donos do asteróide, eles poderiam?
Então pelo mesmo princípio alguém pode se dizer dono de planetas e estrelas a n sei quantos anos luz daqui?

Responder
Luis Almeida 30/04/2012 06:29:32

Uma coisa é você descobrir um terreno baldio. Ver algo não lhe torna dono daquilo. Outra coisa é você misturar seu trabalho àquele terreno -- por exemplo, plantar árvores ou construir uma palhoça. Isso o torna o proprietário original daquele terreno, pois, qualquer outra pessoa que vier depois de você e decretar que o terreno é dela, estará simplesmente confiscando os frutos do seu trabalho e a sua propriedade honestamente adquirida.

Neste caso do asteróide, descobri-lo não dá direito de posse a ninguém. Ir até ele e trabalhá-lo, sim.

Mas o que isso tem a ver com este artigo? Há outros bem mais apropriados, como estes:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=200
www.mises.org.br/Article.aspx?id=973

Responder
Paulo Sergio 30/04/2012 19:10:31

' Ir até ele e trabalhá-lo'

Eles não estão indo, estão mandando os robôs.
O que tem a ver? Nada, mas não tinha achado o artigo antigo sobre isso.

Responder
anônimo 01/05/2012 09:19:19

E os robôs não seriam frutos do trabalho e do capital daqueles que os estão enviando? os Robôs são ferramentas de trabalho, como um martelo ou chave de fenda...

Responder
Paulo Sergio 01/05/2012 10:20:42

Um telescópio ou radar tb são

Responder
anônimo 01/05/2012 12:20:20

Meu filho em que parte do "IR LÁ E TRABALHAR NELE" você não entendeu? Porque pelo que me consta, radares e telescópios não extraem minerais de asteróides.

Responder
Paulo Sergio 01/05/2012 15:11:44

Bom mamãe, se é uma questão de 'IR lá e trabalhar nele' parece que é vc que não entende o que é 'ir lá', se vc manda um robô vc não vai lá, é o robô que vai.Ta difícil ou quer que desenhe? Se mandar a sua propriedade tb vale, o negócio do 'ir lá' não explica direito as regras.

Já o 'trabalhar nele' ou 'misturar com trabalho' tb é uma coisa muito vaga.O mars rollover chegou em marte, andou, bateu fotos de umas pedrinhas, alguém pode argumentar que é uma forma de trabalho e que portanto o tio sam é o dono daquele pedaço de marte, só que o tal robô n fez nada que teoricamente um supertelescopio não faria

Responder
Thiago Bini Pigato 02/05/2012 11:29:24

Meu amigo, o robô alterou o terreno? retirou algum produto dele? que valha algum dinheiro? agregou valor ao planeta a partir do tempo dispendido com o seu trabalho? não? então não é dono e pronto.

Responder
Tiago Moraes 03/05/2012 08:11:22

A propriedade original de um indivíduo é o seu corpo, sendo por tanto, extensões dessa propriedade, tudo àquilo que for produto do trabalho do seu corpo (esforço físico e intelectual). Por isso é que originalmente, as primeiras decisões internacionais referentes a propriedades, seguiam o princípio do "Uti possidetis", ou basicamente, a terra pertence àquele que possui-la, que consumá-la.

Se uma empresa, constrói autômatos e os envia ao espaço para explorar minérios em asteroides, ela passa a ter direitos de propriedade sobre o corpo espacial, porque esses equipamentos são de propriedade da empresa, sendo por tanto, extensões de sua propriedade, tudo àquilo que esses autômatos retirarem (que lá chegaram e retiraram o mineral primeiro) passa também a ser extensões dessa propriedade. Logo, toda extensão de propriedade dessa empresa, será indubitavelmente pertencente aos seus acionistas, que diga-se de passagem, tornaram tudo isso possível ao aplicarem capital na empresa.

Mandar um robô lá para ficar tirando fotos? Isso está agregando valor ao terreno? Porque até que alguém desenvolva toda uma estrutura de produção e logística que viabilize a utilização comercial de um corpo espacial, o argumento de dizer que a propriedade pertence a quem primeiro viu, tirou foto ou pousou lá, não faz nenhum sentido.

Responder
Rodrigo 04/07/2012 06:16:17

"Mandar um robô lá para ficar tirando fotos? Isso está agregando valor ao terreno?"

Se as fotos tiverem valor comercial: Sim, isso está agregando valor ao terreno.

Responder
Celi 04/05/2012 07:36:56

Caro Paulo Sérgio,\r
\r
mandar a propriedade (no caso o robô) é equivalente sim a "ir lá e trabalhar", pense que, no mesmo caso do terreno, pode ocorrer de vc mesmo não ir lá plantar e colher, mas contratar alguém que faça isso pra vc, fornecer as ferramentas, já acertar o preço antes e o produto da colheita ser todo seu. Aí vc pergunta: Por que o seu contratado aceitaria isso? Porque ele vai receber o valor acertado independentemente de haver colheita ou não, o risco é de quem contrata (que pode ter uma boa colheita ou não colher nada e ficar com o prejuízo todo), aliás isso se aplica a qualquer contrato de trabalho.\r
\r
Agora, quem descobriu o asteróide pode não informar a localização e, no máximo, cobrar por essa informação, aí é outra coisa, mas é muito diferente de dizer q só pq ele achou (mesmo não tendo meios pra explorar) tem o direito a propriedade... até pq, enquanto ele negocia o preço da informação, outra pessoa pode localizar o asteróide e "ir lá".\r
\r
atenciosamente.

Responder
Andre Cavalcante 30/04/2012 05:25:27

Leandro, cá uma dúvida.

A Argentina realmente dolarizou a sua economia? Ao que parece isso não foi lá muito saudável para a economia hermana, ou isso é mais uma falácia da mídia?

Quais são efetivamente os prós e os contras de uma economia dolarizada?

Abraços

Responder
Leandro 30/04/2012 06:22:17

André, o governo argentino, como sempre, só fez lambança. Incrível a capacidade daquela gente.

A Argentina adotou a âncora cambial. Um peso passou a ser igual a um dólar, e isso se tornou lei constitucional. Peso e dólar passaram a circular lado a lado. Até aí, tudo bem.

Só que quando você adota este arranjo, a sua emissão de peso tem de ser 100% lastreada em dólares. Se você aumentar enormemente a quantidade de pesos em circulação, mas a quantidade de dólares se mantiver relativamente constante, o que você terá é uma sobrevalorização do peso. Era para o peso valer muito menos que o dólar, mas, por decreto, ele continuava valendo o mesmo.

O governo argentino aumentou enormemente a oferta de pesos para continuar financiando a farra não apenas do governo de Buenos Aires, mas também o governo das províncias.

No início, isso foi gostoso. O dinheiro era abundante e, por causa da âncora, era possível importar baratinho. Obviamente, as indústrias fora sumindo. Até que com a moratória russa, os investidores finalmente se deram conta do que estava acontecendo; eles se deram conta de que não havia dólares suficientes, e começaram a tirar seus dólares da Argentina o mais rápido possível (o mesmo processo que aconteceu aqui). Só que lá a coisa foi muito mais dramática, culminando no famoso corralito, quando o governo, desesperado, simplesmente proibiu que as pessoas sacassem dólares de suas contas.

Falando mais tecnicamente, quando você adota esta âncora cambial, você não pode ter um banco central. Você tem de adotar um Currency Board (Caixa de Conversão), uma agência repleta de dólares cuja única função é trocar peso por dólares à taxa de 1 para 1. O Currency Board não pode fazer política monetária e nem nada. Sua única função é trocar dólar por peso e peso por dólar à taxa de 1:1. Só que a Argentina, além de ter seu Currency Board, manteve seu banco central imprimindo pesos livremente, o que causou a total sobrevalorização da moeda argentina. Enquanto o FMI estava na área dando apoio ao arranjo, os investidores se sentiram confortáveis. Quando a coisa na Rússia degringolou, eles finalmente acordaram.

Temos vários artigos sobre a Argentina. Recomendo estes:

A Argentina no abismo
Confisco deflacionário: o caso da Argentina
O desastre econômico da Argentina

Abraços!

Responder
Andre Cavalcante 30/04/2012 06:59:23

Ok. Muito grato. Muito bom artigo.

O último link tá quebrado.

Mais umas questões: o currency board acontece em Hong Kong, certo? Lá não há BC?
Pensando no Brasil de hoje, uma âncora cambial, por exemplo, US$1.00 = R$1,80 (que parece ser o número mágico que o nosso BC está a usar, seria uma saída para essas questões do câmbio, que afligem o governo e a indústria? Digo, seria uma saída mais do ponto de vista político, porque "já sei" (por causa do IMB, claro! :) ), o certo mesmo seria deixar o câmbio solto e o BC parar de imprimir dinheiro, o que fatalmente iria apreciar o real (mas não vejo ambiente político para isso) ...

Abraços

Responder
Leandro 30/04/2012 07:18:09

Andre, desculpe. Aqui vai o link correto:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=79

Quanto ao Currency Board de Hong Kong, ele é o mais ortodoxo em operação, mas, em momentos de crise, como em 1997, ele acaba assumindo a função de Banco Central. Porém, ao que me consta, foi a única vez que ele fez isso. Eu sinceramente não vejo nenhum sentido econômico em se adotar um Currency Board. Parece-me ser muito mais uma desculpa para, no futuro, tal agência se transformar em um Banco Central. Muito mais economicamente sensato é simplesmente adotar a moeda que se usa como reserva, em vez de utilizar um substituto monetário para esta moeda.

Quanto à questão do "câmbio solto", é preciso deixar algo claro para que não haja confusões. Não defendemos flutuação do câmbio. Um sistema de câmbio flexível é, por definição, um sistema de "quase-escambo". Taxas de câmbio flutuantes introduzem incertezas indesejadas nos mercados internacionais, obstruindo o livre comércio, principalmente os investimentos. O investidor torna-se muito mais um especulador do que propriamente um investidor.

Taxas de câmbio flutuantes são aceitas por economistas simplesmente porque estes têm em mente apenas o conceito de 'nação'. Entretanto, embora 'nação' seja uma importante unidade política, ela não é uma unidade econômica. Assim, imagine se houve uma taxa de câmbio flexível entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro? Ou entre Bahia e Santa Catarina? Isso seria um incentivo ao livre comércio entre os estados ou uma barreira?

Se os estados adotassem câmbios flexíveis entre si, os efeitos seriam desastrosos para o comércio, com cada estado fazendo guerra cambial e impondo várias tarifas protecionistas. Ainda bem que não é assim.

Não faz sentido -- a menos para protecionistas inveterados, é claro -- defender câmbio flutuante entre países, mas "câmbio fixo" entre estados, cidades e bairros.

Logo, o ideal seria uma moeda comum entre todos os países -- como o ouro, por exemplo -- de modo que o câmbio fosse fixo entre os países. Na ausência desta moeda, a segunda melhor opção é realmente limitar ao máximo a impressão de dinheiro. Tal prática traria grandes benefícios a longo prazo, como explicado aqui.

Porém, um país que abandonar sua moeda e adotar uma outra que seja internacionalmente aceita -- como dólar ou euro -- estará em posição vantajosa, pelos motivos explicados no final do artigo.

Grande abraço!

Responder
Inacio Neto 30/04/2012 05:52:28

Parabéns Leandro !

Ótimo artigo.

Responder
Leandro 30/04/2012 06:21:41

Obrigado, Inacio. Abraços!

Responder
Rene 30/04/2012 06:36:37

Quando a maioria dos fatos narrados neste artigo ocorreram, eu não tinha idade suficiente para entender o que estava acontecendo. O Leandro consegue escrever um texto fácil e agradável de ler, sem que isso afete a profundidade e o conteúdo do mesmo sobre o tema tratado. Brilhante.\r
\r
A segunda fase do Plano Real favorece a formação de bolhas e ciclos econômicos. Veremos se a combinação entre o estouro da bolha e a crise internacional irá gerar uma terceira fase.

Responder
Josiberto 30/04/2012 06:39:28

Parabéns, seus Artigos estão cada vez melhores! Não pensa em escrever um Livro Leandro?

Responder
Leandro 30/04/2012 06:52:51

Josiberto, de leve. Por enquanto, vamos poupar o mundo deste tormento. Grande abraço e obrigado.

Responder
Mohamed Attcka Todomundo 30/04/2012 16:40:49

mas pq ñ um mundo assombrado por + um demônio? Mises é o demônio dos socialistas, Rothbard é o demonio q assombra os estatistas. recomendemos o Leandro como o demônio 'padroeiro' do stableishment acadêmico brasileiro.

Responder
Ronei Leonel 30/04/2012 06:56:31

Leandro e pessoal do IMB,

já pensaram em fazer um livro sobre a história do Brasil segundo a EA?

Ótimo trabalho e artigo.

Responder
Lucio 30/04/2012 07:01:27

Leandro,

Li agora de manhã uma notícia falando que a base monetária na eurozona subiu 3,2%.
Em seguida, outra notícia dizendo que a inflação na eurozona desacelerava para 2,7%.

Isso está correto? Como se da esse fenômeno?

Amplexos!

Responder
Leandro 30/04/2012 07:24:14

Lucio, "desacelerava" significa crescer a uma taxa menor que a anterior. Não está havendo deflação (como imagino que você tenha entendido). Os preços aumentaram 2,6%, sendo que tal aumento foi menor do que o aumento anteriormente havido, de 2,7%.

Veja aqui.

É preciso tomar cuidado com a interpretação destas notícias. Jornalistas em especial têm enorme dificuldade com o vocábulo.

Abraços!

Responder
Bernardo Emerick 30/04/2012 07:11:14

Leandro, esse é um dos capítulos do livro que eu te encomendei de história monetária do Brasil? :)
Já te falei isso, rapaz: você tem de escrever um livro austríaco de história econômica do Brasil. Você já está escrevendo melhor e mais profundamente que todos os outros economistas brasileiros.
Se quiser, a gente organiza uma vaquinha para financiar o trabalho...
Grande abraço!

Responder
Leandro 30/04/2012 07:33:27

Caro Bernardo, guardemos a vaquinha para obras caritativas. O impacto sobre a sociedade será incomensuravelmente maior.

Grande abraço!

Responder
Daniel F. 30/04/2012 08:58:56

Achei muito boa a idéia do Bernardo. O IMB poderia organizar campanhas de crowdfunding para publicações, sejam originais ou traduções!

Responder
Maurício Goncalves 30/04/2012 09:34:00

Faço coro aos demais para financiar a inteligência primorosa do Leandro Roque. Iria além, temos que tê-lo nos seminários abordando estes temas.

Já provou em seu podcast que também é competente na oratória!

Esse é um daqueles artigos que tenho que imprimir e ler com calma, pois seria um desrespeito ao seu trabalho lê-lo rapidamente na tela do computador.

Se esse moço já é essa fera com essa idade, imaginem o que nos espera qdo tiver cabelos brancos...

Abraço e continue com o excelente trabalho!

Responder
Leandro 30/04/2012 14:21:48

Caríssimo Maurício, seus copiosos encômios são como sementes de plantas raras lançadas em terra estéril: imerecidas.

Quando estiver grisalho, concorrerei a síndico do prédio. E só.

Grande abraço e obrigado!

Responder
EUDES 03/05/2012 17:07:27

Leandro, você é modesto como sempre. A modéstia é uma virtude dos grandes! Seus artigos são de leitura obrigatória.Você é o Rothbard das Minas Gerais!

Responder
Pedro Ivo 30/04/2012 17:00:50

Seria um prazer para muita gente contribuir nesta vaquinha, tenha certeza Leandro.

Sinta-se intimado! Precisamos deste livro. Imagine-o sendo lido em universidades, e os neoclássicos, marxistas e keynesianos sendo 'incomodados' por seus alunos com perguntas! É ou não é uma visão idílica?

O livro certamente seria adotado por uns poucos professores, e lido por muita gente por iniciativa própria. E se você acha isto contribuição pouca, dê uma olhadinha nos editais de concurso público em que há provas de economia! É uma miscelânea. Cobram de tudo: Schumpeter, neoclássicos, Marx, CEPAL, keynesianos, monetaristas, dentre de tudo mais um pouco. Se você publicar um livro, corre o risco de começarem a cobrar EA até em concurso público. Como você pode exitar tanto em ser ainda mais subversivo que já é Leandro (vou até rezar para Raul Seixas baixar em você e te motivar. Quem sabe você vira uma 'metamorfose ambulante' e se metamorfoseia em autor deste livro que queremos tanto).

Tudo de bom para você Leandro!

Responder
Vinicius e Souza 30/04/2012 08:07:05

Excelente artigo.


Parabéns

Responder
Vinci 30/04/2012 08:44:16

Caro Leandro,


No contexto da primeira fase do plano real, o processo de dolarização da economia, ao menos inicialmente, não geraria desindustrialização do país? Digo isso pois além das taxas de câmbio estarem favoráveis a importação, os juros elevados asfixiam o investimento nas empresas nacionais. Como resolver esse problema?




PS: O caso da Argentina, do 1:1, também não asfixiou a industria nacional?

Responder
Leandro 30/04/2012 10:06:35

Não faz sentido falar em taxa de câmbio quando se adota o dólar, Vinci. Se você tem a mesma moeda, não faz sentido falar em sobrevalorização ou taxa de câmbio artificial. Você tem apenas preços acima dos de mercado. Só. Afinal, faz sentido dizer que o câmbio da Bahia está sobrevalorizado em relação a São Paulo?

Desindustrialização como a da Argentina ocorre quando você tem uma moeda nacional manipulada por banco central e mantida artificialmente valorizada em relação à moeda internacional de troca.

Responder
Julio 30/04/2012 09:21:48

A hiperinflação contrai a estrutura de produção da economia, o que a deixa menos produtiva.

O que significa contrair a estrutura de produção da economia e porque a hiperinflação faz isso?

Responder
Leandro 30/04/2012 09:41:41

A hiperinflação inviabiliza investimentos de longo prazo, fazendo com que empreendedores se concentrem apenas em investimentos de curto prazo. Investimentos voltados para o curto prazo significam que toda a cadeia de produção da economia, em vez de ser longa, com várias etapas de produção (por exemplo, mineração, extrativismo, siderurgia, etapas que estão mais longe dos bens de consumo final), se torna curta, com poucos processos produtivos.

Responder
Marconi 30/04/2012 09:58:38

Ótimo artigo Leandro!

Será que você teria um gráfico comparando a oferta de real desde essa "segunda etapa" até hoje, juntamente com a oferta de dólares ?

Pra ver em quanto cresceu/diminuiu a oferta de reais em relação ao dólar, em especial de 2008 pra cá.

flw

Responder
Leandro 30/04/2012 14:35:56

Prezado Marconi, os gráficos podem ser montados na página do BACEN, mas infelizmente não há um link direto para eles.

Mas eis os valores:

Janeiro de 1999

M1 = R$47,983 bilhões
Reservas = US$36,136 bilhões


Março de 2012

M1 = R$257,29 bilhões
Reservas = US$365,22 bilhões


As reservas começaram a disparar em junho de 2006, quando estavam em apenas US$62 bilhões.

Houve um soluço entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009, quando elas caíram de US$206,49 para US$186,88. Desde então, só subiram.

Observe que, pelos valores das reservas, não há o menor risco de qualquer tipo de crise cambial, ao contrário do que os jornalistas de sempre vêm dizendo.

Abraços!

Responder
Pedro Ivo 30/04/2012 17:22:28

Mas como se faz para achar estes dados no BACEN se não há link?

Responder
Leandro 01/05/2012 02:58:37

Pedro Ivo,

Para ver os gráficos, você terá de ir à seção de séries temporais do BACEN.

Vá aqui: www.bcb.gov.br/?SERIETEMP

Depois, clique em "Acesso ao Sistema de Séries temporais"

Depois, em "Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS)"

Depois em "Indicadores monetários"

Depois, em "Agregados monetários"

Depois em "Meios de pagamento"

Depois selecione "M1 (média nos dias úteis do mês)".

Clique lá em embaixo em "Acrescentar séries".

Depois, repita o mesmo procedimento, só que agora, em vez de "indicadores monetários", vá em "Setor Externo" e clique em "Reservas internacionais - conceito liquidez internacional".

Selecione as datas desejadas.


Abraços!

Responder
Pedro Ivo 02/05/2012 07:12:26

Grato pelas dicas. Funcionou do jeito que você disse.

Incrível como este sítio do BC é rico e detalhado em informações. Eles fazem toda esta lambança e dão o serviço direitinho: nem sonegam nem distorcem os dados. Sequer adoçam a pílula. Eles creem realmente que sua interpretação não será posta em questão nem usada contra eles. O duplipensar orwelliano está em plena atividade. Uma verdadeira lavagem cerebral chamada 'graduação em economia'.

Responder
rickk 30/04/2012 23:02:41

O que seria essa crise cambial qur a midia fala?

Responder
Leandro 01/05/2012 03:01:25

Nem ela sabe. Crise cambial, por definição, é quando há fuga de dólares, as reservas internacionais secam e há uma crise no balanço da pagamentos, pois o governo tem dificuldade para atrair dólares para saldar contabilmente o balanço de pagamento. Isso acontecia a rodo na década de 1980.

Com a atual abundância de reservas, não há o menor risco de isso acontecer.

Responder
Marconi 02/05/2012 10:23:22

mas Leandro,

embora todo o real (M1) então esteja lastreado em dólares, creio sim ser possível uma crise cambial.

A dívida interna me parece ser já de 1,6 tri reais, não tenho certeza...
se os investidores venderem em massa os títulos brasileiros, trocando reais por dólares, pode acontecer sim uma nova maxdesvalorização.

Se essa política de afrouxamento dos EUA parar e se houver um estouro de bolha imobiliária no brasil, creio as chances são razoáveis. O que acha?

Responder
Leandro 02/05/2012 10:42:20

Não altera nada, Marconi. Antes de serem convertidos em dólar, qualquer papel (título, ação etc.) tem de ser convertido em reais. E o que irá possibilitar que isso ocorra é o volume das contas-correntes (uma das variáveis do M1). É sobre o volume das contas-correntes que se baseiam todas as formas de crédito do sistema financeiro de uma economia. Todas as outras aplicações financeiras -- sejam elas renda fixa, curto prazo, multimercado, referenciado, ações, depósito a prazo, títulos etc. -- são meros papeis que, para serem convertidos em dinheiro, precisam antes ser vendidos para algum agente obviamente disposto a comprá-los. E este só irá fazê-lo se tiver dinheiro disponível em sua conta corrente.

Portanto, se um indivíduo (nativo ou estrangeiro) possui um título e decide regatá-lo antes do seu prazo de maturação (pagando uma multa, é claro), o banco terá de vender esse papel para outro comprador a fim de que este forneça o dinheiro necessário para que o banco restitua o indivíduo que está sacando sua aplicação.

E isso vai depender das contas-correntes.

Responder
Marconi 02/05/2012 13:21:24

Entendi, mas.. de toda forma, os governos/bancos meio que garantem converter esses títulos em reais. Não creio que exista a chance de você querer vender um título público e não encontrar comprador. Se ninguém quiser comprar, o governo "imprimi reais" e paga, creio eu. Segundo li em algum artigo aqui, ele já faz isso para manter a demanda por títulos, não é?

Assim, poderia sim ocorrer uma maxdesvalorização, pois as reservas são muitas se comparadas ao M1, mas poucas se comparadas com a dívida ("potenciais integrantes do M1").

Ou ainda tô viajando na maionese? :-D




Responder
Leandro 02/05/2012 14:47:07

A questão é que se houver esta súbita venda em massa de títulos -- algo sem a mínima perspectiva no horizonte --, os juros deles iriam disparar, o que faria com que outras pessoas quisessem imediatamente comprá-los (principalmente no mundo atual, que está implorando por maiores rendimentos), reequilibrando todo o arranjo descrito acima.

Portanto, não. Não há como este seu cenário ocorrer. Toda venda implica uma compra. Uma venda em massa implicaria juros astronômicos, tornando extremamente atraente a recompra destes títulos. É assim que os juros equilibram este mercado. Não há este risco de exaurimento das reservas.

Responder
Julio 30/04/2012 10:45:37

Quanto é hoje o M1 do Brasil?

Responder
Eduardo 30/04/2012 11:07:51

Que beleza de artigo. Parabéns! É tão bom saber que há pessoas lúcidas nesse país, um sopro de esperança pela liberdade.

Responder
Artur Fernando 30/04/2012 12:18:18

Parabéns Leandro. Abrace a ideia do livro.

Responder
Sergio Ricardo 30/04/2012 13:32:31

Leandro,

Que aula fantástica!

Sou adepto de meus colegas acima. Precisamos de economistas assim, como você, em nossas escolas para ensinar de fato a verdadeira economia. Isto começará com um grande livro.

Eu temo, com o modelo de formação atual, nosso desastre econômico devido às defesas categóricas na academia de estruturas keynesianas em curto prazo compartilhada com o modelo de desenvolvimento baseado em teses ideológicas de partidos políticos.

Eu acredito que o modelo keynesiano sempre imperará porque nosso modelo político acaba se tornando imediatista, fazendo com que as políticas públicas não tenham densidade e sejam feitas apenas dos galhos e não da raiz. Por exemplo: cada novo governante prometerá elevar o programa bolsa família para marcar o nome na história e ser lembrado que quatro anos foram poucos para criarem "políticas" de desenvolvimento sócio-econômico.

Acho que é um tema interessante para você dissertar. Como o sonho de Keynes acontece no Brasil, em modelos de curto prazo estruturados pela estrutura político-partidária tupiniquim.

Grande abraço!
Sérgio Ricardo

Responder
Rhyan 30/04/2012 13:42:28

Um dos melhores artigos do site! Parabéns!

Engraçado como antes o governo lutava por um real valorizado, ou é o contrário. Como que antes não havia preocupação com a exportação como há hoje?

Abraço!

Responder
Jonathan 30/04/2012 18:03:25

A grande preocupação da época era que os preços recentemente controlados voltassem a disparar. Um real valorizado aumentava a oferta de bens aqui dentro, o que ajudava a segurar os preços.

Responder
Jonathan 30/04/2012 18:06:14

Leandro, impressionante. Meus parabéns pelo belíssimo artigo!


É o mercado demandando livros de qualidade, e com as forças do mercado não se brinca! rs
Considere a campanha dos amigos ai de cima.

Abraços

Responder
eduardo 30/04/2012 15:03:25

Muito bom!
estava procurando material sobre o assunto essa semana mesmo.
Muito Obrigado

Responder
anônimo 30/04/2012 15:48:42

Que tal escrever ou publicar um texto sobre o 1° de Maio?

Responder
Raphael Auto 30/04/2012 18:06:02

Eu acho que devíamos financiar o Leandro para ele fazer um livro sobre a história econômica do Brasil.

Parabéns Leandro.

Responder
william 30/04/2012 20:43:12

Alguém viu o pronunciamento da Dilma hoje? Ela xingando os bancos privados, chamando-os de perversos, por manterem as taxas de juros altas, quanta hipocrisia...

Responder
Luciano A. 30/04/2012 22:48:24

Excelente artigo, um dos melhores do site.

Mas, o que é exatamente um ataque especulativo? Como ele acontece?

Abraço!

Responder
Leandro 01/05/2012 03:11:03

Luciano, ataque especulativo, no caso, é quando especuladores fazem venda a descoberto (short selling) de uma moeda apostando em sua desvalorização. Por meio de diversas práticas, ao agirem assim, eles forçam a desvalorização da moeda. E se ela se desvalorizar, eles colhem ótimos lucros.

Responder
Ewerton Alipio 01/05/2012 05:53:58

Leandro, tenho uma pergunta besta: no processo de aquisição de dólares, o governo se endividou mais?

Em tempo: esse texto já é um clássico do site.

Responder
Leandro 01/05/2012 06:01:41

Prezado Ewerton, a se julgar tanto pelo crescimento da base monetária quanto pela desvalorização cambial (esta em consequência daquela), todo o processo de aquisição de dólares foi de fato feito por meio da simples impressão de dinheiro.

Obrigado pelo elogio.

Abraços!

Responder
Aris Adalberto de Souza 01/05/2012 08:36:50

Sobre o Fim do Plano Real, Dolarização possível e o exemplo do Panamá:

O que é o Panamá se não uma invenção dos EUA? Qual o PIB? Qual a densidade demográfica, Qual a diversificação de sua economia?

Não serve de exemplo. O Equador, que se gaba de de ser "bolivariano" sempre sofre com os refluxos do FED.

Responder
anônimo 01/05/2012 14:11:17

Quer dizer então que o Panamá é um país fictício? Sua gente não existe? Eles são o quê, zumbis?

Quanto à economia deles, naqueles setores em que o governo intervém pouco, há enorme dinamismo. O comércio é bastante livre, o setor bancário é dinâmico, os investimentos são pouco burocráticos e o setor de serviços é extremamente desenvolvido. E o PIB per capita é maior que o do Brasil.

Responder
Rafael Hotz 01/05/2012 17:21:27

Bacana o artigo Leandro!

Você não acha que a dolarização e a manutenção do câmbio próximo a 1:1 não gerou algo semelhante a reversão do boom explicada pela TACE?

O governo brasileiro jogava os juros na lua artificialmente para atrair capital e obter reservas em dólar. Com o câmbio valorizado um nível de consumo insustentável era mantido ao mesmo tempo em que os estágios mais afastados do consumo eram trucidados pelo efeito dos juros altos. A estrutura temporal da produção fica desnecessariamente encurtada e focada no setor de serviços. Eu tentei elaborar isso em um dos anexos da minha monografia que vocês gentilmente publicaram no site.

Como você mesmo disse, em 1994 o país perdeu a grande chance de se libertar das amarras do estado e do controle estatal sobre a moeda. O caminho natural naquele momento provavelmente seria a dolarização e um sistema de moedas concorrenciais, e o mercado deveria ter sido deixado operar.

No mais, a teoria monetária Austríaca e o teorema da regressão de Mises foram ilustrados perfeitamente na economia brasileira: não há como criar um sistema monetário do nada e o novo sistema de preços que permite o cálculo econômico precisa ser atrelado a um já existente (no caso ao sistema em dólar).

Repito o coro: Leandro Roque deveria escrever "Uma História Monetária da Economia Brasileira".

Responder
Leandro 02/05/2012 02:48:53

Ótimo ponto, Hotz. Vale ressaltar também que, embora os preços da economia brasileira estivessem dolarizados quando do lançamento do real, a moeda brasileira ainda assim se valorizou em relação ao dólar ao mesmo tempo em que os preços internos continuaram subindo. Ou seja, houve uma dupla valorização do real em relação ao dólar, o que estimula uma estrutura de produção mais voltada para o setor de serviços.

Mais um exemplo prático que demonstra que criar uma moeda para servir de substituta para outra -- e ao mesmo tempo deixá-la aos cuidados de um banco central -- não é algo que funcione harmoniosamente. Muito melhor seria adotar a moeda original (a moeda que serve de reserva) para poder fazer o cálculo de preços e, então, liberar a concorrência de moedas.

Obrigado pelos elogios e grande abraço!

Responder
Pedro Ivo 02/05/2012 07:23:32

Prezado Leandro, uma pergunta para você.

Na déc. 1990 o estado de Minas Gerais, sob governo de Itamar Franco, decretou uma moratória. Se me recordo bem (eu era ainda verde na época) motivação foi tentar desmoralizar FHC. Mas o efeito foi ser o gatilho de uma destas crises que se deu entre 1997-99 (1997 - falência da Coréia do Sul; 1998 - moratória da Rússia; 1999 - crack da NASDAQ). Estou certo, ou me recordando mal? A moratória de Minas foi o 1º dominó de algum destes colapsos? Ela foi o 1º não-pagamento que engatilhou uma sequëncia de calotes?

Responder
Leandro 02/05/2012 07:29:02

Corretíssimo, mas ela foi um dos últimos eventos, já nos estertores do Plano Real. A moratória (que era de MG em relação à União) se deu no início de janeiro de 1999, e certamente ajudou os investidores a saírem daqui. De certa forma, isto está incluso neste parágrafo:

"O crescente endividamento do governo prenunciava calotes. Temerosos quanto a este calote e quanto a uma iminente desvalorização do real, investidores estrangeiros começaram a tirar seus dólares do Brasil. Paralelamente, os especuladores também atacaram."

Grande abraço!

Responder
Eu 02/05/2012 11:39:36

Não entendo qual a vantagem de dolarizar a economia de um país (que não seja os EUA).

É para que o governo não tenha um banco central que possa imprimir dinhero e gerar inflação? Mas o país de origem do dolar - os EUA - tem um banco central, que pode a qualquer momento começar a imprimir dinheiro e gerar inflação.

Então se continua existindo um banco central capaz de imprimir dinheiro, não é melhor que este banco seja nacional e esteja envolvido com os interesses do nosso país ao invés de outro?

Responder
Leandro 02/05/2012 11:53:16

Nao, muito pelo contrário: quanto mais longe a impressora de dinheiro estiver dos políticos -- ou desse tal "interesse nacional" -- melhor. A intenção é justamente privar esta gente de manipular a oferta monetária a seu favor (sempre que fazem, geram desgraças para uns e privilégios para outros). Ainda melhor seria adotar o franco suíço, mas infelizmente ele não é a moeda internacional de troca, de modo que a opção pelo dólar, na época, era inevitável.

Ademais, o texto deixa claro que a dolarização seria apenas a etapa inicial da reforma, utilizada maioritariamente para se fazer o cálculo de preços. Após isso, a livre concorrência de moedas deveria ser estabelecida, abolindo-se as leis de curso forçado.

Responder
Lucio 02/05/2012 12:18:37

São Paulo, 2 de maio de 2012 - A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, agradeceu hoje os passos tomados por alguns países-membros para autorizar a instituição a utilizar seus lucros com a venda de ouro na concessão de empréstimos para países de baixa renda. De acordo com um plano anunciado em 2009, o FMI distribuirá parte de suas reservas de US$ 1,1 bilhão em ganhos com a venda de ouro entre 2009 e 2010. "Muitos de nossos membros de baixa renda enfrentaram a recente crise muito melhor que no passado, graças aos seus impressionantes esforços para fortalecer as economias e o combate à pobreza. Mesmo assim, em um tempo em que suas resistências e seus duros ganhos podem ser testados novamente pela volatilidade global, o aumento dos empréstimos de juros baixos será crucial para ajudar muitos deles a absorver outros choques e continuar com seus esforços para aprofundar e tornar o crescimento econômico mais sustentável", disse Lagarde.

Comentários?

Aproveitando, existe alguma forma de calcular um "preço justo" para o ouro?

Amplexos!

Responder
Felipe Cola 03/05/2012 06:05:07

Excelente texto, Leandro! Sólido, esclarecedor e acessível ao público leigo (como, aliás, costumam ser os textos dos seguidores da Escola Austríaca)!

Agora uma dúvida que me surgiu: a adoção de uma moeda estrangeira, no caso o dólar, realmente conteria, por si só, a expansão dos gastos do Estado? Na Grécia, quando o Euro foi adotado, o Estado simplesmente não continuou gastando até levar a economia ao colapso? (Só esclarecendo, não estou comparando o Euro com o dólar). No fim das contas, o melhor lastro não é sempre o ouro?

Grande abraço e parabéns pelo artigo!

Responder
Felipe Cola 03/05/2012 06:09:06

Leandro, apenas complementando a pergunta anterior: uma dolarização da economia, embora saudável sob o ponto de vista de retirar do Estado o poder de fazer "política monetária", não nos tornaria, por outro lado, reféns do intervencionismo de um outro banco central, no caso, o americano?
Abração!

Responder
Leandro 03/05/2012 06:26:16

Prezado Felipe, obrigado pelos elogios.

Como já foi explicado maciçamente neste site, por meio dos artigos do professor Philipp Bagus, o euro foi estruturado de tal maneira a ser perfeitamente possível os governos deficitários gerarem automaticamente uma expansão da oferta monetária. Se um determinado governo incorre em um déficit orçamentário, haverá um aumento da oferta monetária. Recomendo estes artigos:

Por que o euro é um sistema monetário autodestrutivo

Como funciona o Banco Central Europeu

Isso, por si só, já diferencia por completo o sistema do euro de uma eventual dolarização. Ademais, como foi dito, a dolarização seria apenas a etapa inicial da reforma, utilizada majoritariamente para se fazer o cálculo de preços. Após isso, a livre concorrência de moedas deveria ser estabelecida, abolindo-se as leis de curso forçado. De modo algum deveria o Brasil ficar restrito ao dólar. A dolarização, no entanto, pelos motivos puramente econômicos citados no artigo, era um passo não apenas necessário, como também inevitável, para o rearranjo da estrutura de preços da economia.

Grande abraço!

Responder
Thyago 03/05/2012 08:33:17

Parabéns pelo texto!

Mas só um comentário...

Dolarizar? Padrão ouro neles!

Ouro = liberdade

Dólar = servidão (pra que servir a dois, não basta Brasília?)

Responder
Leandro 03/05/2012 08:39:49

Thyago, o país vinha comprando dólares desde o final de 1991. Sendo assim, a equipe do Plano Real montada em 1993, mesmo que fosse composta por misesianos inveterados, não teria como reverter esta política em prol da compra de ouro. Ademais, para o mero objetivo da estabilização, o dólar da época fazia bem o serviço.

No mais, como dito, de modo algum deveria o Brasil ficar restrito ao dólar. A dolarização seria apenas a etapa inicial da reforma, utilizada majoritariamente para se fazer o cálculo de preços. Após isso, a livre concorrência de moedas deveria ser estabelecida, inclusive utilizando o ouro, abolindo-se as leis de curso forçado. A dolarização, no entanto, pelos motivos puramente econômicos citados no artigo, era um passo não apenas necessário, como também inevitável, para o rearranjo da estrutura de preços da economia.

Abraços e obrigado!

Responder
Robson Cota 05/05/2012 14:04:12

Leandro, mais uma vez, muito bom.

Mas eu quero perguntar mais uma coisa: como funcionam as tais "Reservas Internacionais"? Onde elas ficam? É dolar de papel mesmo que fica armazenado no Banco Central? Como elas aumentam e como diminuem? Enfim, porque são tão importantes?

Ah, outra coisa, se ainda não está preparando, é uma boa oportunidade de vc escrever um artigo explicando as notícias da última semana na economia brasileira, que é a mudança na regra da poupança e a queda dos juros nos bancos públicos, que porque isso é ruim (porque eu sei que é ruim, já que esse povo não faz nada certo, hehehe).

Responder
Mota 06/05/2012 01:18:55

Robson, as reservas internacionais estão relacionadas na balança de pagamentos brasileira, a qual você encontra os dados no site do Banco Central.

O funcionamento das Reservas estão associadas à Conta Capital e Financeira Brasileira que conforme o saldo positivo ou negativo de suas transações gera um aumento ou uma diminuição nos dados. Além do fato de que as reservas são contabilizadas com um conjunto de moedas ao invés de somente uma, embora o dólar seja a moeda prevalecente, assim conforme a valorização ou desvalorização das moedas presentes nas nossas reservas, essas também podem aumentar ou diminuir. Portanto, é possível que nossas reservas aumentem com transações correntes negativas e valorização das moedas pertencentes à bolsa de moedas da reserva e vice-versa.

Não sou membro do IMB, mas gosto de acompanhar o site. Espero ter ajudado! :D

Responder
Leandro 07/05/2012 02:49:59

Prezado Robson,

O Mota explicou bem. Vou apenas acrescentar:

As reservas internacionais, ao menos em seu formato atual, são compostas majoritariamente de títulos do Tesouro americano. O BACEN compra dólares e os aplica em títulos do Tesouro americano para auferir juros (de míseros 0,25% ao ano). Antes aplicar em títulos do que deixar os dólares parados dentro de um cofre, perdendo poder de compra. No entanto, e também em teoria, tais títulos têm de ser convertidos em dólares quando vencerem.

As reservas aumentam quando o BACEN compra dólares, e diminuem quando ele vende dólares. Nada complicado. E elas são importantes justamente pelos motivos descritos no artigo: representam um colchão contra crises cambiais geradas por crises financeiras internacionais. Basta ver no gráfico 5 o baixo nível das reservas internacionais na década de 1980 e todas as moratórias externas que isto gerou.

Sobre a queda dos juros nos bancos públicos, tal assunto foi amplamente debatido na seção de comentários deste artigo.

Grande abraço!

Responder
Jose Roberto 07/05/2012 03:39:26

Leandro.

Mesmo com o esse colchão que é a reserva de dólares, durante o governo FHC foram feitos 3 empréstimos junto ao FMI(que sempre foram motivo de discussões e acusações entre partidos), qual foi a importância desses empréstimos? Para que foram usados? E como ele foi feito(dinheiro vivo, títulos)?

Responder
Leandro 07/05/2012 03:56:18

Os empréstimos foram feitos justamente para manter/restabelecer um nível confortável para as reservas internacionais. Foram feitos em dinheiro (majoritariamente eletrônico, é claro).

Responder
Rodrigo 11/05/2012 13:20:06

Realmente tenho que concordar com os colegas visitantes do site. É mais do que bem vindo um livro sobre a história econômica brasileira aos olhos do liberalismo austríaco. Não somente escrito pelo Leandro mas por outros articulistas daqui tb. Seria uma verdadeira quebra do paradigma nacional-desenvolvimentista que impera nestas terras. Um projeto desse tipo com certeza terá meu apoio.

Responder
Gil 16/05/2012 09:53:46

Tem como alguém do Mises.org colocar legenda nesse video?
Parece ser muito bom
www.youtube.com/watch?v=pSgAQ6Rmprc

Responder
ricardo 16/05/2012 11:41:03

Acho que o Instituto poderia começar a traduzir outros videos, para tornar a EA mais visivel pro povo brasileiro.

Responder
Fellipe 17/05/2012 11:08:09

Sensacional esse artigo. Parabéns. Sempre procurei alguma reportagem ou livro que explicasse sobre o Plano Real de forma clara para leigos como eu e sem posição partidária.

Muito obrigado pelo seu texto, contribuiu muito para mim nos meus estudos econômicos.

Responder
amauri 20/06/2012 05:20:04

Bom dia Leandro!
"Ao final de julho de 1994, a quantidade de reais em poder do público e em contas-correntes (ou seja, o M1) era de R$10,687 bilhões. Já a quantidade de reservas internacionais era de US$43,09 bilhões."
Se isto era uma condição positiva para o Real pergunto:
Hoje, a relação entre o M1 e as reservas internacionais estão proximos daquele ano?
Se não estão o que dá credibilidade ao governo?
abs

Responder
Leandro 20/06/2012 07:08:45

Amauri, a proporção das reservas internacionais em relação ao M1 hoje é bastante semelhante à do início do Plano Real. Tal volume dá segurança aos investidores estrangeiros em caso de crise mundial, e ajuda o país a navegar por estes períodos sem sofrer grandes solavancos na taxa de câmbio (embora nada impeça movimentos fortes no curto prazo) ou fugas de capital. O que ocorreu em 2009 foi um bom exemplo desta segurança.

Responder
amauri 20/06/2012 07:56:46

Leandro, então a equipe econômica está fazendo a coisa certa, a crise não vai pegar, e o Brasil, como o Trombini ontem disse no debate promovido pela revista Isto É, o Brasil vai muito bem, a crise não é nossa, o modelo a ser seguido é o brasileiro.

Responder
Leandro 20/06/2012 08:03:04

Não, isso é outra questão. Reservas internacionais ajudam a evitar problemas cambiais (mais especificamente, no balanço de pagamentos), mas de modo algum impedem recessões e estagnações, cujos fatores principais estão nas manipulações da oferta monetária feitas pelo Banco Central. Tampouco impedem o endividamento e a subsequente inadimplência da população. E são estes fatores que afetarão o Brasil no futuro.

Responder
Pedro Aniz 01/07/2012 08:33:43

Texto interessante, porém ao criticar a não dolarização em 1994 o autor parece se esquecer que o Dolar também vem de um banco central, e este banco tambem "imprime dinheiro" pra pagar a dívida publica. Iriamos trocar um BACEN por um FED; parar de financiar a divida brasileira com inflação, e passar a financiar a divida americana. Sim, a inflação seria solucionada, por hora, mas isso acarretaria outros problemas. Não estou simplesmente falando que o plano real foi melhor, mas apontando que a dolarização não é mil maravilhas também. A verdade é que com o conjunto Banco central - moeda única - curso forçado - Deficit publico, há poucas opções. A única solução verdadeira é a eliminação do deficit público.

Responder
Leandro 01/07/2012 08:57:29

Prezado Pedro, nada disso foi esquecido ou ignorado pelo autor, como pode ser visto na parte final do artigo.

O que se está dizendo é que, dado nosso histórico de devassidão monetária, muito melhor seria adotar diretamente outra moeda, sob os auspícios de outro banco central. Ter um Banco Central próprio, sujeito a pressões políticas, deveria ser a última das opções. Melhor se submeter ao Fed ou ao BCE lá de longe -- indiferente ao déficit público do Brasil -- do que entregar a economia para meia dúzia de burocratas encastelados em um Banco Central em Brasília, cuja sede está ao lado do Congresso e do Palácio do Planalto.

Abraços!

Responder
Marcio Cavalcanti 02/07/2012 14:29:55

Artigo bastante explicatvo, de forma suscinta mostra como foi debelada a famigerada inflação.Parabens ao autor do esclarecedor artigo.

Responder
Edson 02/07/2012 18:42:42

Excelente artigo, porém vendo a atual situação na europa me surgiu a seguinte dúvida.
Se passassemos a utilizar o dolar como nossa moeda, não estariamos enfrentando problemas semelhantes ao que a grécia tem enfrentado ao usar a mesma moeda de um país tão mais competivo como a alemnha.

Responder
Leandro 03/07/2012 06:59:07

Prezado Edson, as causas do problema da Grécia são outras, e passam por descontrole dos gastos, estado assistencialista e inchaço da máquina pública.

Adicionalmente, como explicado em profundos detalhes nesta série de artigos, há vários mecanismos dentro da zona do euro que beneficiam, no curto prazo, um país que incorra em déficits orçamentários.

Já no caso da adoção de uma moeda estrangeira por um país -- como fez o Panamá, que não possui Banco Central e utiliza o dólar americano --, não há espaço para o governo fazer gracinhas. Ou ele se ajusta ou ele simplesmente fica sem dinheiro. Na zona do euro, como dito acima, ainda dá para os governos, por meio de um complexo mecanismo, fabricarem dinheiro. Já no caso da adoção de uma moeda estrangeira, simplesmente não há esse espaço.

Fazendo uma comparação um tanto quanto forçada, mas ainda assim válida, caso adotasse o dólar, o governo federal ficaria na mesma posição de nossos governos estaduais, que não podem imprimir dinheiro e, justamente por isso, tiveram de implantar a Lei de Responsabilidade Fiscal, talvez a melhor lei já criada neste país.

Agora, se o problema é puramente a questão da competitividade, ora, isso não é problema nenhum. Competitividade se ganha com preços. Basta reduzir os seus, tornando seus custos menores que os dos americanos (nada difícil). Se os sindicatos não aceitarem, então que fiquem desempregados.

Grande abraço!

Responder
Marconi 06/07/2012 07:07:12

Caro Leandro e demais do mises, vocês poderiam tentar uma entrevista (ou um debate) saudável com o Gustavo Franco, sobre esse assunto. Seria muito legal um bate papo com ele sobre o real. Sem dúvida, se não foi o ideal, o real foi um avanço e tanto.

Qual opinião ele tinha? O real foi exatamente como ele queria ou ele cedeu em algum ponto? Funcionou pior, melhor ou exatamente como ele imaginava? FHC deu algum palpite ou não sabia nada mesmo de economia? Qual opinião dele sobre a opção de dolarizar a economia? Ele decidiu que não era uma boa ou isso não era negociável? Como era o cenário internacional de fluxo de capitais na época, na visão dele?




Responder
Lucas Amaro 06/07/2012 16:45:26

Leandro, não sei se você já leu, mas o senhor Guido Mantega deu uma opinião a respeito logo após a criação do Plano Real.

Acho que nada mais justo do que ver a opinião do nobre ministro sobre as "ilusões" que seria o real...

veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/o-pais-quer-saber/as-fantasias-do-real-por-guido-mantega/

Responder
David 25/08/2012 21:50:07

Como a venda da moeda faz com que a moeda nacional fique valorizada?

Ela diminui de valor porque há maior oferta no mercado mundial depois da venda? A venda de dolares freia a valorização do dolar em relação a todos os países porque aumenta a oferta enquanto a demanda fica constante?

Mais: Se fosse abolido no Brasil o sistema de curso forçado, não haveria uma proliferação enorme de moedas? E isso não seria prejudicial para a economia por dificultar a troca no dia a dia?

Responder
Leandro 27/08/2012 06:29:24

Se o Banco Central vender dólares, o preço do dólar em real diminuirá. Questão de oferta e demanda. Aumenta a oferta de dólares no mercado nacional, seu preço diminui.

Quanto à proliferação de moedas dificultar as transações no dia a dia, isso dá um bom debate. De início, certamente a coisa seria confusa. Mas a tendência -- já empiricamente comprovada ao longo da história, repetidas vezes -- é que apenas uma ou duas moedas acabarão sendo escolhidas voluntariamente por todos. E tais moedas sempre foram o ouro e a prata.

Responder
Francisco 21/11/2012 07:15:24

Reservas internacionais de mais de 43Bilhões,dinheiro especulatório,é reserva?Se tinha tudo isto,qual o porquê de doarem a Vale do Rio Doce,por míseros 3Bilhões,quando uma empresa é e deve ser vendida,não somente pelo seu preço,mas pelo que ela pode dar de lucro? Por que o FMI,"mandava"tanto aqui,e hoje(2012),não acontece,será que é porque hoje temos reservas REAIS,e não Internacionais? Gostaria de saber estas respostas,obrigado.

Responder
Leandro 21/11/2012 07:21:01

Não entendi muito bem seu raciocínio, mas posso dizer apenas o seguinte:

1) O governo detinha apenas 42% do capital votante. Ou seja, o que foi a leilão não foi a empresa inteira, mas apenas 42% do capital votante. A empresa inteira estava avaliada em aproximadamente US$ 8 bilhões, sendo que a fatia vendida valia US$3,34 bilhões.

2) O leilão se deu na bolsa de valores, a preço de mercado. Qualquer um poderia ter participado. Quem hoje esperneia que a venda foi barata tem a obrigação de explicar por que não participou da venda. Se a empresa estava "a preço de banana", então o sujeito tinha a certeza de que a empresa iria se valorizar enormemente no futuro. Por que não montaram um consórcio e compraram ações? Era dinheiro certo. Não fizeram isso por quê? Odeiam dinheiro?

3) À época, ninguém imaginava que haveria um súbito e intenso boom no preço global das commodities em conjunto com uma forte demanda chinesa, o que elevou o preço do minério de ferro para a estratosfera e impulsionou fortemente o valor da Vale.



Dica: fique longe de ideólogos e panfleteiros político-partidários. Essa gente não tem compromisso nenhum com a verdade. Estão aí apenas para agradar políticos e ganhar favores financeiros deles. Não se rebaixe a ficar macaqueando discurso de militante político. Estude as coisas com honestidade e dedicação. Sua vida será muito melhor.

Abraços!

Responder
Eduardo 27/11/2012 06:15:01

Muito bom o artigo, mas só queria saber a fonte dos gráficos.
Preciso fazer um trabalho exatamente sobre plano real e gostaria de sugestões de onde procurar coisas como nível de inflação, base monetária, taxa de juros e etc.

Responder
Leandro 27/11/2012 06:25:44

Todos os gráficos são do Banco Central e estão disponibilizados em seu site. Só que, infelizmente, não há um link direto. Você tem de ir à página principal e dali clicar em todas as variáveis desejadas, montando a sua própria tabela.

Responder
Eduardo 27/11/2012 06:42:20

Exatamente por ai que estou procurando.
Obrigado e esse artigo ira me ajudar muito com esse trabalho

Responder
Marco 20/05/2013 23:48:00

Excelente artigo, Leandro!! Vai me ajudar bastante nos meus estudos de economia brasileira!! Muito obrigado!

Já tem tempo o artigo, estou meio atrasado, eu sei rsrsrs Mas fiquei com uma dúvida conceitual (não sou economista), mas tenho muito interesse e tenho estudado bastante para, em breve, fazer o exame da ANPEC... Pode explicar melhor o trecho abaixo do artigo!?

"Mais ainda, eles estariam seguros de que o governo não recorreria — como já fizera várias vezes no passado — às maxidesvalorizações cambiais para evitar que uma repentina fuga de dólares gerasse um total esgotamento das reservas internacionais."

De que forma os estrangeiros teriam medo de uma desvalorização!? Seriam apenas os que injetaram "capital produtivo"!? Seria isso!? Fiquei meio confuso nessa parte...

Obrigado desde já e parabéns mais uma vez!!

Responder
Leandro 21/05/2013 00:32:56

Prezado Marco, a dolarização dá segurança aos investidores estrangeiros porque eles deixam de temer uma súbita desvalorização da moeda nacional, o que causaria enorme prejuízo para eles quando fossem repatriar seus lucros.

Grande abraço e obrigado pelos elogios!

Responder

Se com apenas 13 para 15 anos, teria direito de receber parte de herança, quando venderam a casa da minha avó-paterna, entre 1988 para 1990, já que o meu pai já era falecido, quanto de juro teria de cobrar 23 anos depois. Se a casa foi vendida por milhões de cruzados, mas com o Plano Collor, desvalorizou tudo? se tiver a resposta é só responder!

Responder
Osvaldo Junior 26/07/2013 00:56:26

Analisando os dados econômicos do Brasil, verifiquei que o dinheiro circulante M1 no mês de julho/13 está em torno de 300 bilhões de reais (140 bilhões de dólares), com aumento de dinheiro circulante em torno de 20% em relação a julho de 2012, ou seja, papel moeda impresso aos borbotões, vide www.tradingeconomics.com/brazil/money-supply-m1. Esse incremento em um ano de 20% de moeda impressa, a meu ver, gera um descontrole de preços e consequentemente inflação. Em contrapartida, as reservas internacionais que vinham crescendo ano a ano, estacionaram em 370 bilhões de dólares desde 2012, levando as agências S&P e Fitch . Leandro, peço uma análise, por gentileza, a partir destes dados, da solidez do real frente da esta política expansionista, s.m.j., populista e perigosa.

Responder
Leandro 26/07/2013 03:10:34

Prezado Osvaldo, permita-me antes uma pequena correção técnica. Meio circulante não é sinônimo de M1; meio circulante se refere apenas às cédulas de papel e às moedas metálicas existentes na economia (tanto as que estão em posse do público quanto as que estão nas reservas dos bancos e em seus caixas eletrônicos). Já o M1 se refere à fatia deste papel-moeda que está em posse do público mais os depósitos bancários em conta-corrente.

Entendido isso, vale dizer que um aumento do M1, por si só, não significa muito. É necessário analisar também o que está acontecendo com os outros depósitos bancários, como os depósitos em poupança e os depósitos a prazo. Se o M1 está aumentando, mas estes outros depósitos estão diminuindo, então são grandes as chances de estar havendo uma transferência entre contas.

No Brasil, desde o final de 2011, a quantidade de depósitos a prazo que têm liquidez imediata (como CDBs) caíram de R$720 para R$600 bilhões, ao passo que a poupança seguiu aumentando normalmente. Isso significa que boa parte destes depósitos a prazo foi transferida tanto para a poupança quanto para o M1. É por isso que o M2 está crescendo bem moderadamente, o que significa que a quantidade total de dinheiro na economia está crescendo a um ritmo baixo.

E é justamente isso que causou a atual estagnação da economia brasileira. Do final de 2011 até hoje, o ritmo de crescimento da quantidade de dinheiro na economia desacelerou (e de maneira relativamente acentuada), mas os preços continuaram subindo porque houve uma forte desvalorização cambial neste mesmo período (o dólar foi de R$1,54 para quase R$2,30).

Essa combinação entre desaceleração do ritmo de crescimento da quantidade de dinheiro na economia (o que faz com que a renda nominal fique estagnada), inflação de preços em alta e alto nível de endividamento está afetando sensivelmente a renda real das pessoas.

Em outras ocasiões em que inflação de preços também estava alta, como em meados de 2011, não havia esta sensação de renda afetada porque a quantidade de dinheiro na economia também estava crescendo acentuadamente, o que gerava um certo alívio. Agora, no entanto, o arranjo é outro: a inflação de preços está em alta, mas a quantidade de dinheiro na economia está crescendo bem mais contidamente, o que gera esta sensação -- real -- de aperto financeiro.

Tudo isso que eu falei aqui foi explicado com mais detalhes em meus últimos artigos sobre a economia brasileira. Tenha a bondade de lê-los nesta ordem:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1387

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1489

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1574

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1601

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1635


Logo, eis a minha resposta à sua pergunta:

Caso a oferta monetária continue crescendo no atual ritmo, não há risco de descontrole inflacionário. Porém, ainda continuamos com o problema do câmbio.

Quando uma economia ainda em desenvolvimento -- como a brasileira -- adota uma taxa de câmbio flutuante, sua moeda está diariamente sujeita aos humores dos especuladores, dos investidores internacionais e de todos os traders que atuam no mercado financeiro. Se eles perderem a confiança no governo, a taxa de câmbio poderá se desvalorizar acentuadamente, e permanecer assim por um bom tempo. É isso que está acontecendo no Brasil atual: a inflação monetária não está mais crescendo em níveis acentuados, mas a taxa de câmbio segue se desvalorizando, por causa da atuação de especuladores, dos investidores internacionais e de todos os traders que já perceberam que as autoridades monetárias e econômicas do Brasil não são muito sérias.

Caso o Banco Central não reconquiste a confiança dos investidores, especuladores e traders, o câmbio continuará se desvalorizando. Esta contínua desvalorização cambial em conjunto com uma oferta monetária relativamente estagnada continuará fazendo com que a economia permaneça nesta quase-estagflação que estamos vivenciando, com uma crescente redução na renda real das pessoas.

O Banco Central tem de reconquistar a confiança do mercado para que a taxa de câmbio possa cair, o que irá ajudar a conter a inflação de preços. Como não há muito mais o que fazer na área monetária, resta apenas o câmbio.

Abraços!

Responder
Osvaldo Junior 26/07/2013 16:44:19

Obrigado, Leandro pela pronta e sábia resposta. Cabe aqui, mais uma indagação, após as leituras recomendadas: se o M2, como índice mais verdadeiro do capital circulante no Brasil está hoje em torno de 1 trilhão e 800 bilhões de reais, ou seja, o equivalente a 800 bilhões de dólares, demonstra que hoje não temos lastro suficiente em reservas internacionais ( hoje em 370 bilhões de dólares) para um ataque especulativo contra nossa moeda. Isso também não demonstra um descontrole do governo quanto a alavancagem de dinheiro fácil da política expansionista? O governo não fica sem armas contra uma desvalorização motivada por agentes externos?

Abraços

Responder
Leandro 26/07/2013 18:38:08

Os US$370 bilhões cobrem com folga toda a base monetária, todo o M1 e mais a poupança. Eles são mais do que suficientes para contrabalançar todo e qualquer ataque especulativo -- muito embora ataques especulativos só ocorram em regime de câmbio atrelado.

Em suma, essa é uma preocupação que não deve existir.

Para mais detalhes sobre este assunto, tenha a bondade de ler estes dois artigos:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1562
www.mises.org.br/Article.aspx?id=1601
www.mises.org.br/Article.aspx?id=1634

Grande abraço!

Responder
ricardson 28/07/2013 03:36:11

Leandro,

seria possível informar o que ocorreu no período de outubro de 1992 a julho de 1993 com a economia brasileira?
Estive olhando os dados das séries temporais das reservas bancárias e base monetária no site do Banco Central e encontrei números altíssimos nesse período e logo após houve um forte decréscimo nos seus valores. Saberia dizer o que houve?

Responder
Leandro 28/07/2013 06:54:46

Em agosto de 1993, cortaram 3 zeros da moeda, que passou a se chamar Cruzeiro Real. Só isso.

Durante todo o período (antes e depois de agosto de 1993), a inflação monetária permaneceu incólume.

Responder
João Gabriel 02/09/2013 23:47:21

Olá Leandro!
Muito bacana a exposição sobre os fatos de nossa história recente (afinal quase 20 anos para a História é quase ontem), foi legal relembrar como foi difícil a luta para acabar com a inflação.
Meu questionamento é sobre a sua posição quanto à dolarização da economia brasileira. Não me parece adequado comparar um país-continente como o Brasil, com sua miríade de interesses econômicos, as vezes contraditórios, com o Panamá, cuja economia é fortemente lastreada no entreposto de mercadorias importadas (e muitas vezes menor que a brasileira).
Entendo que usar uma moeda estrangeira obrigue o governo a "andar na linha" mas, e se o emissor dessa moeda não o fizer, ficaremos totalmente à mercê da vontade do Federal Reserve System? E a nossa dívida pública atual, trocaremos toda por US$?
O que ocorre com o Euro parece ilustrar bem o que aconteceria de fato com o Brasil caso adotasse o dólar como moeda. Uma "unificação" monetária sem unificação de dívidas públicas fariam os dólares desaparecerem da economia brasileira e rumarem para os EUA no primeiro sinal de fumaça. E sem uma "Alemanha" para nos socorrer.

Responder
Leandro 03/09/2013 00:04:22

"Entendo que usar uma moeda estrangeira obrigue o governo a "andar na linha" mas, e se o emissor dessa moeda não o fizer, ficaremos totalmente à mercê da vontade do Federal Reserve System?"

Este é um risco que foi contemplado e explicitado no artigo. No entanto, olhando em retrospecto, é absolutamente inegável que o histórico inflacionário do Fed é (muito) melhor que o do BACEN. Imaginar que o Fed seja pior do que o BACEN é imaginar o fim do arranjo monetário como o conhecemos.

"E a nossa dívida pública atual, trocaremos toda por US$?"

Eu não advogo (nem tampouco o artigo fez isso) a troca do real pelo dólar hoje, mas sim na época da criação do real, quando a dívida pública era de meros R$68 bilhões (hoje é de R$2,8 trilhões).

"O que ocorre com o Euro parece ilustrar bem o que aconteceria de fato com o Brasil caso adotasse o dólar como moeda. Uma "unificação" monetária sem unificação de dívidas públicas fariam os dólares desaparecerem da economia brasileira e rumarem para os EUA no primeiro sinal de fumaça. E sem uma "Alemanha" para nos socorrer."

Não vejo esta ligação. As economias dos PIIGS foram relaxadas justamente porque sabiam que, pelas regras da União Europeia, seriam socorridas por Alemanha e França caso fizessem lambança. Isso se chama risco moral. Já a simples adoção de uma moeda estrangeira, sem essas regras estatais e sem comitês centralizadores, não teria por que provocar este fenômeno. Prova disso é o Equador, que está dolarizado desde 2000 e, embora tenha uma economia populista, nunca sofreu esta "fuga de dólares".

Grande abraço!

Responder
Hugo 07/01/2014 02:04:25

Boa noite Leandro!

Gostaria de comentar sobre o ponto de ser a favor à dolarização do BR:

Você disse que a melhor alternativa para a estabilização em 1994 seria a dolarização em vez do Real,porém hoje essa reforma monetária não seria recomendável pelo tamanho da dívida pública que se multiplicou em dezenas de vezes desde então.

Estudei bastante sobre a evolução e estrutura da dívida pública brasileira,especialmente do governo FHC,onde a dívida passou de menos de 100 bilhões de reais no início de 1995 para mais de 600 bilhões em 2002.Porém apesar de ter sido um aumento estrondoso,aproximadamente 80% desse aumento era carcaça de dívidas deixadas pela libertinagem fiscal e bancária feitas antes do Real,ou seja,eram dívidas que mais cedo ou mais tarde explodiriam.

Com este cenário de enormes pressões sobre o endividamento interno e o enorme déficit público do primeiro governo FHC a dolarização não iria sufocar a economia brasileira?

Responder
Leandro 07/01/2014 02:47:04

O problema é a estrutura dessa dívida: o governo federal assumiu as dívidas dos governos estaduais -- majoritariamente dos bancos estaduais, mas também dos governos -- e, até hoje, trata-se de uma dívida entre governos estaduais e o governo federal. Ou seja, é governo devendo para governo. E utilizando o nosso dinheiro para saldar a dívida entre eles. Não vejo por que tal dívida deva ser mantida. Não há nenhum sentido nela.

No que mais, em vez da dolarização, acho que eu seria mais propenso a um [link=www.mises.org.br/Article.aspx?id=1601]Currency Board[/lin].

Responder
Ali Baba 07/01/2014 11:35:35

@Leandro 07/01/2014 02:47:04

"No que mais, em vez da dolarização, acho que eu seria mais propenso a um Currency Board".

Hoje ou em 1994?

Eu acho que em 1994, qualquer dessas soluções serviam (dolarizacao ou currency board), mas hoje, só um currency board salva... Estou certo?

(Claro, ou o estabelecimento de um padrão-ouro, mas isso não vejo acontecendo no Brasil nem nos meus sonhos mais libertários).

Responder
Eduardo R., Rio 24/02/2014 03:31:24

"20 anos do Plano Real", por Gustavo H. B. Franco.

Responder
wagner teixeira de deus 25/02/2014 20:23:48

A década de 80/90 foram para mim duas décadas perdidas. Nos anos 90 tinha 3 fontes de rendas, 2 empregos formais e uma consultoria. De repente, não mais do que de repente, como um raio, perdi tudo.Tinha um emprego com carteira assinada, fui sumariamente demitido da empresa. Tinha um escritório de consultoria em geologia, fiquei endividado. A consultoria que fazia em geologia, os clientes sumiram.Como ter saudades dos anos 90. Foram muitas as versões do Plano Real. Alguns técnicos do governo afirmaram que a aplicação do Plano era necessária e urgente e não sabiam como seriam os seus efeitos na economia.Aplicaram o plano emergencial e no decorrer dos sintomas da crise foram sendo corrigidos. Outros técnicos afirmam que a "dose" foi muito alta para a economia que estava doente e os efeitos colaterais foram sentidos na sociedade.

Responder
amauri 01/03/2014 14:53:49

Bom dia Leandro!
O que voce acha disto.

blog.kanitz.com.br/erros-do-plano-real/?utm_source=feedblitz&utm_medium=FeedBlitzEmail&utm_campaign=0&utm_content=550671

Responder
Leandro 01/03/2014 16:09:17

Muito bom no geral.

Faço apenas cinco observações:

1) Não se deve confundir o plano de estabilização monetária em si com os impostos subsequentes que foram criados. Mesmo eu que não sou fã da maneira como a coisa foi feita (um Currency Board seria melhor), não culpo os economistas criadores do plano pelos aumentos de impostos ocorridos em seguida.

2) O autor foi feliz ao reconhecer que o PSDB é um partido de esquerda e, como tal, via com bons olhos o aumento da tributação sobre lucros, juros e capital

3) O autor defende, no item 4, a alavancagem dos bancos, justamente o que causou a crise financeira. E o pior é que ele defende a alavancagem dizendo que foram justamente as tentativas de se contornar a alavancagem o que causou a crise. Não é verdade.

4) O autor especula no item 5 que "o erro de precificação do dólar inicial [...] geraria a crise cambial anos depois". Nonsense. A causa da crise de 1999 foi a fuga de capitais em decorrência da moratória da Rússia aliada ao fato de que nenhum Banco Central é capaz de manter uma moeda atrelada a outra se as reservas internacionais estiverem em queda.

5) O item 8 é uma contradição total. Primeiro ele mostra a profunda destruição ocorrida no poder de compra do real. Depois, logo em seguida, ele diz que o problema é que superestimamos a inflação. Não faz sentido.

Mas há pontos interessantes, sim. Principalmente no que diz respeito à contabilidade.

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