O individualismo metodológico
Apenas o indivíduo possui uma mente; apenas o indivíduo pode sentir, ver, realizar e entender; apenas o indivíduo pode adotar valores e fazer escolhas; apenas o indivíduo pode agir.  Este princípio primordial do "individualismo metodológico", central ao pensamento social de Max Weber, deve fundamentar tanto a praxeologia quanto todas as outras ciências da ação humana.  Ele implica que conceitos coletivos como grupos, nações e estados não agem ou não existem realmente; eles são apenas construções metafóricas utilizadas para descrever as ações similares ou conjuntas de indivíduos.  Em suma, não existem "governos" por si sós; existem apenas indivíduos agindo harmoniosamente de uma maneira "governamental".  Max Weber coloca de forma cristalina:

Estes coletivos devem ser tratados unicamente como sendo os resultados e os modos de organização das ações particulares de agentes individuais, uma vez que apenas estes podem ser tratados como agentes no curso de uma ação subjetivamente compreensível.  .  .  . Para propósitos sociológicos. . . não existe algo como uma 'personalidade coletiva que "age"'.  Quando se faz referências, em um contexto sociológico, às . . . coletividades, está-se na verdade se referindo . . . somente a um certo tipo de desenvolvimento das ações sociais possíveis ou efetivas de pessoas específicas.[1]

Ludwig von Mises destaca que o que diferencia a ação puramente individual daquela de indivíduos agindo como membros de um coletivo é o diferente significado atribuído pelas pessoas envolvidas:

É o significado que os agentes individuais, e todos que são afetados pela sua ação, atribuem a uma ação o que determina o seu caráter. É o significado que distingue uma ação como ação de um indivíduo e outra como ação do estado ou da municipalidade. É o carrasco, e não o estado, quem executa um criminoso. É o significado daqueles interessados na execução que distingue, na ação do carrasco, uma ação do estado.  Um grupo de homens armados ocupa um local. É o significado destes envolvidos que imputa esta ocupação não aos soldados e oficiais, mas à sua nação.[2]

Em sua importante obra metodológica, o discípulo de Mises, F.A. Hayek, demonstrou que a falácia de se tratar construções coletivas como sendo "conjuntos sociais" ("capitalismo", "a nação", "a classe") sobre os quais se é possível deduzir leis tem origem na insistência objetivista-behaviorista de se considerar os homens apenas a partir de seu exterior, como se fossem pedras, em vez de tentar entender como suas ações são subjetivamente determinadas.

Ela [a visão objetivista] trata os fenômenos sociais não como algo do qual a mente humana faz parte e não como algo cujos princípios organizacionais podemos construir a partir de partes conhecidas, mas sim como se eles fossem objetos diretamente percebidos por nós como conjuntos. . .

Existe a ideia um tanto quanto vaga de quem uma vez que os "fenômenos sociais" devem ser objeto de estudo, o procedimento óbvio é começar a partir da observação direta destes "fenômenos sociais", em que a utilização popular de termos como "sociedade" ou "economia" é ingenuamente considerada como evidência de que deve haver "objetos" definidos que correspondem a eles.[3]

Hayek complementa dizendo que enfatizar o significado da ação individual revela que, "o que conseguimos entender diretamente dos complexos sociais são apenas as partes, pois o todo nunca é percebido diretamente; ele sempre é reconstruído por meio de um esforço de nossa imaginação".[4]

Alfred Schütz, o notório construtor do método da fenomenologia aplicado às ciências sociais, nos relembrou da importância de se retornar "ao 'homem esquecido' das ciências sociais, ao agente do mundo social cujos afazeres e sentimentos residem na origem de todo o sistema.  Nós, então, procuramos entendê-lo a partir destes afazeres e sentimentos e do estado de espírito que o induziu a adotar atitudes específicas relativas ao seu ambiente social".  Schütz acrescenta que "para uma teoria sobre a ação, o ponto de vista subjetivo deve ser conservado ao máximo, sendo que, na ausência deste, esta teoria perde suas fundamentações básicas, qual seja, sua referência ao mundo social da vida cotidiana e da experiência".  Desprovida desta fundamentação, as ciências sociais tendem a substituir o "mundo da realidade social" por um irreal mundo fictício, todo ele construído pelo cientista observador.  Ou, como Schütz coloca sucintamente: "Eu não posso entender algo social sem antes reduzi-lo à atividade humana que o criou; mais ainda, sem remeter esta atividade humana aos motivos que a originaram".[5]

Arnold W. Green demonstrou recentemente como o uso de conceitos coletivos inválidos prejudicou a disciplina da sociologia.  Ele destaca o crescente uso de "sociedade" como uma entidade que pensa, sente e age, e, em anos recentes, foi a responsável por perpetrar todas as desgraças sociais.  Por exemplo, é a "sociedade", e não o criminoso, quem geralmente é considerada a responsável pelos crimes.  Para muitos, a "sociedade" é considerada quase que demoníaca, uma "vilã materializada" que "pode ser atacada à vontade, acusada aleatoriamente, ridicularizada e escarnecida com uma fúria virtuosa e fanática, [e] pode até ser derrubada por decreto ou pelo anseio utópico — e, de alguma forma, tudo continuará funcionando perfeitamente."  Green complementa dizendo que "se, por outro lado, a sociedade é vista como pessoas cujas relações sociais instáveis são preservadas apenas pela submissão às regras morais, então a área de livre escolha permitida, na qual se pode fazer demandas, questionar e solapar desejos com impunidade, está severamente restringida."

Ademais, se entendermos que "a sociedade" não existe por si só, mas é uma criação feita a partir de indivíduos, então dizer que "a sociedade é a responsável pelos crimes, e os criminosos não são os responsáveis pelos crimes que cometem, é o mesmo que dizer que apenas os membros da sociedade que não cometeram crimes devem ser considerados os responsáveis pelos crimes.  Este óbvio absurdo só pode ser  contornado caso se considere a sociedade como o diabo encarnado, um mal exterior e isolado das pessoas e do que elas fazem".[6]

A ciência econômica está repleta de falácias que surgiram quando metáforas sociais coletivas passaram a ser tratadas como se fossem objetos reais.  Assim, durante a era do padrão-ouro, era comum o temor de que "a Inglaterra" ou "a França" corriam grande perigo porque "elas" estavam perdendo ouro.  O que realmente aconteceu foi que ingleses e franceses estavam voluntariamente enviando ouro para o exterior e, com isso, ameaçando os banqueiros de seus países com a necessidade de cumprirem suas obrigações de restituir depósitos em um volume de ouro que eles não mais possuíam.  Porém, o uso da metáfora coletiva transformou um grave problema do setor bancário em uma confusa crise nacional pela qual cada cidadão era, de alguma forma, o responsável.

Similarmente, durante os anos de 1930 e 1940, muitos economistas proclamaram que, diferentemente das dívidas contraídas no exterior, o tamanho da dívida pública nacional era irrelevante porque "nós devemos para nós mesmos".  A implicação era a de que o indivíduo, do ponto de vista nacional e coletivo, devia dinheiro "para ele mesmo", bastando para saldar esta dívida mover o dinheiro que estava no bolso do lado direito da calça para o bolso do lado esquerdo.  Esta explicação, no entanto, obscurecia o fato de que faz uma enorme diferença saber a qual dos dois pronomes coletivos você pertence: ao "nós" (o infeliz pagador de impostos) ou ao "nós mesmos" (aqueles que vivem da renda oriunda dos impostos).

Às vezes, o conceito coletivo é tratado descaradamente como um organismo biológico.  Assim, o conceito popular de crescimento econômico implica que toda economia está, de alguma forma, como um organismo vivo, destinada a "crescer" de uma maneira predeterminada.  O uso de tais termos análogos é uma tentativa de ignorar, e até mesmo de negar, a vontade e a consciência individual nos assuntos econômicos e sociais.  Como escreveu Edith Penrose em uma crítica ao uso do conceito de "crescimento" no estudo de empresas:

Quando analogias biológicas explícitas surgem na ciência econômica, elas são extraídas exclusivamente daquele aspecto da biologia que lida com o comportamento imotivado dos organismos . . . não existe nenhuma razão para se acreditar que o padrão de crescimento de um organismo biológico é determinado pela vontade do próprio organismo.  Por outro lado, temos todos os motivos do mundo para acreditar que o crescimento de uma empresa é determinado pela vontade daqueles que tomam as decisões da empresa . . . e a prova disso está no fato de que ninguém pode descrever o desenvolvimento de uma dada empresa qualquer . . . a não ser que seja em termos das decisões tomadas por indivíduos.[7]

Não há melhor maneira de resumir a natureza da praxeologia e o papel da teoria econômica em relação a eventos históricos concretos do que aquela presente na discussão de Alfred Schütz sobre a metodologia econômica e Ludwig von Mises:

Nenhuma ação econômica pode ser concebida sem alguma referência a um agente econômico, mas este último é absolutamente anônimo; ele não é você, nem eu, nem um empreendedor, nem mesmo um "homem econômico", mas um puro e universal "indivíduo".  É por esta razão que as proposições da teoria econômica possuem aquela "validade universal" que confere a elas a idealidade do "e assim por diante" e "posso fazer novamente".

No entanto, pode-se estudar o agente econômico como tal e tentar descobrir o que se passa em sua mente; logicamente, não se estaria fazendo teorizações econômicas, mas sim história econômica ou sociologia econômica. . . . Entretanto, os enunciados destas ciências não podem reivindicar nenhuma validade universal, pois elas lidam tanto com sentimentos econômicos de específicos indivíduos históricos quanto com tipos de atividades econômicas para as quais as ações econômicas em questão são manifestações.

. . .

De acordo com nossa visão, a ciência econômica pura é um exemplo perfeito de um complexo de significado objetivo sobre uma configuração de significado subjetivo — complexos, em outras palavras, de um significado objetivo — estipulando as típicas e invariáveis experiências subjetivas de qualquer pessoa que aja dentro de uma estrutura econômica. . . . Teria de ser excluído de tal cenário qualquer consideração acerca do uso a que os "bens" serão destinados depois de terem sido adquiridos.  Porém, tão logo voltamos nossa atenção para o significado subjetivo de um indivíduo real, deixando o anônimo "qualquer um" de lado, então logicamente faz sentido falar de comportamento atípico. . . Não há dúvida de que este comportamento é irrelevante do ponto de vista da ciência econômica, e é neste sentido que os princípios econômicos são, nas palavras de Mises, "não uma declaração do que geralmente ocorre, mas uma declaração sobre o que necessariamente deve ocorrer".[8]



[1] Max Weber, The Theory of Social and Economic Organization (Glencoe, Ill.: The Free Press, 1957), citado em Alfred Schütz, The Phenomenology of the Social World (Evanston, Ill.: Northwestern University Press, 1967), p. 199. Para uma aplicação do individualismo metodológico à política externa, veja Parker T. Moon, Imperialism and World Politics (New York: Macmillan, 1930), p. 58. Para aplicações políticas mais gerais, veja Frank Chodorov, "Society Are People," in The Rise and Fall of Society (New York: Devin- Adair, 1959), pp. 29?37.

[2] Mises, Ação Humana, p. 70

[3] Hayek, Counter-Revolution of Science, pp. 53?54.

[4] Ibid., p. 214.

[5] Schütz, Collected Papers, vol. 2, pp. 7, 8, 10.

[6] Arnold W. Green, "The Reified Villain," Social Research 35 (Winter, 1968): 656, 664. Sobre o conceito de "sociedade", veja também Mises, Theory and History, pp. 250ff.

[7] Edith Tilton Penrose, "Biological Analogies in the Theory of the Firm," American Economic Review (December 1952): 808.

[8] Schütz, Phenomenology of the Social World, pp. 137, 245.


Tradução: Fernando Fiori Chiocca

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SOBRE O AUTOR

Murray N. Rothbard
(1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.



Dinheiro monopolístico "de verdade" não pode ser criado do nada nem lastreado em outra coisa criada do nada (dívida), pois haverá sempre o nefasto flagelo do moral hazard de para quem e em que quantidade irá o financeiro mais recentemente parido do vento em moto-perpétuo pelo "dono do morro", o que exclui daquela categoria de sound money tanto o "dinheiro de banco central" (seu passivo em fiat money no padrão atual predominante) como também os meios de pgto criados pelos bancos comerciais, cujas reservas no caso americano a propósito só se encontram em níveis elevados recordes (porém ainda assim bem inferiores aos demais agregados monetários frequentemente empregados como se fossem depósitos à vista mas dispensados de recolhimentos compulsórios, apesar de causadores dos "busts") justamente porque foram prontamente recompostas pelo emprestador de última instância via QE's (e agora c/ "hell"icopter$ ?!) após o estouro da bolha creditícia imobiliária de 2008 por ele anteriormente permitida e estimulada como saída p/ o estouro da bolha predecessora em 2000 das "ponto.com" por ele anteriormente permitida e estimulada como saída p/...
Ou seja, é a eterna festa do "wash, rinse, repeat" da qual só participam permanentemente os integrantes da cabala bancária e uma ínfima parte da sociedade que consegue se aproveitar do super-privilégio de criação de moeda outorgado e garantido pelo estado (!) exclusivamente àquele cartel, sendo imediatamente criminalizado e preso como "falsificador" atentando contra a "economia popular" todo sujeito que resolver entrar na farra produzindo seu próprio "bilhete de ingresso" num fundo de quintal qualquer ! :-(

Se o governo não impôr o curso de nenhuma moeda oficial, aceitando passivamente a livre circulação de todo tipo de meios de troca na economia, rapidamente surgirão dezenas de formas de dinheiro c/ oferta controlada naturalmente pelo próprio mercado selecionando voluntariamente as melhores em detrimento das mais abundantes, configurando não um problema (conforme prega o zeitgeist keynesiano perma-inflacionista do último século) mas sim um excelente acontecimento a deflação de preços decorrente de eventual (e, neste arranjo, desejada) escassez monetária.

Vejo como o maior perigo essa racionalização do status-quo vacilando em condená-lo sumariamente e denunciá-lo como a verdadeira estrutura imoral que é.
"a precificação inicial do Brexit previa reação imediata da UE"

Ok, vamos analisar os fatos. Desde o início do ano, ninguém apostava no Brexit. Até as vésperas da votação, todas as pesquisas davam que o "permanecer" ganharia. Ou seja, não havia nenhuma precificação para a "saída". Todos apostaram no "permanecer". E, ainda assim, o FTSE só andava de lado, mês após mês. Pode conferir aqui:

cdn.tradingeconomics.com/charts/united-kingdom-stock-market.png?s=ukx&v=201609281355o&d1=20160101&d2=20160928&area

Imediatamente após a votação, que surpreendeu a todos, houve a turbulência inicial (posições sendo desfeitas). Hoje, no entanto, o FTSE está no nível máximo do ano, muito maior do que onde estava em qualquer outro período do ano, quando todos davam como certo que o "permanecer" ganharia. De novo, pode conferir no gráfico acima.

E confira também os da indústria:

cdn.tradingeconomics.com/charts/united-kingdom-manufacturing-pmi.png?s=unitedkinmanpmi&lbl=0&v=201609072315o&d1=20160101&d2=20160928&type=line

Pergunta inevitável: se, como você diz, a saída será uma tragédia, e se os números só melhoraram porque a efetiva saída foi postergada, então por que diabos os números de hoje são muito melhores que os dos meses anteriores, quanto todos davam como certa a permanência?

Seu raciocínio não faz sentido nenhum. Ele faria sentido se os números tivessem apenas "parado de piorar". Aí sim seu argumento estaria certo. Afinal, há um evento ruim se aproximando, mas com data ainda incerta. Nesse cenário, haveria uma interrupção da piora.

Agora, não foi isso o que aconteceu. Não é nem que os números pararam de piorar; eles simplesmente melhoraram, e muito. Estão muito melhores do que estavam durante todos os outros meses do ano, quando todos davam como certa a permanência.

Como você explica?

"a reformulação do cálculo após o início das tratativas responde em parte por melhora na expectativa."

De novo: "reformulação do cálculo após o início das tratativas" explicaria uma interrupção da piora. Agora, qual a explicação para os números terem disparado, ficando muito melhores do que estavam durante todos os outros meses do ano, quando todos davam como certa a permanência?

"Depois eu que sou ignorante"

De fato.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Sol Moras Segabinaze  15/03/2012 08:31
    Maravilha.
  • Gustavo Sauer  15/03/2012 08:58
    "a sociedade é a responsável pelos crimes, e os criminosos não são os responsáveis pelos crimes que cometem, é o mesmo que dizer que apenas os membros da sociedade que não cometeram crimes devem ser considerados os responsáveis pelos crimes. Este óbvio absurdo só pode ser contornado caso se considere a sociedade como o diabo encarnado, um mal exterior e isolado das pessoas e do que elas fazem"

    E realmente é isso que alguns socialistas dizem. Os criminosos são vítimas e o culpado é o "sistema", ou seja, todo o restante fora a pessoa que cometeu o crime.
  • Paulo Sergio  15/03/2012 10:08
    E essa conversa fétida dá voto que é uma beleza...
  • André Ramos  15/03/2012 09:48
    Um escroto se embriagou, dirigiu seu carro e matou alguém: é a deixa para estatistas fazerem uma lei que pune toda a "sociedade", notadamente aqueles que a vida toda dirigiram após beber, mas nunca causaram dano a nada nem a ninguém. Quer caso mais claro de responsabilização da sociedade pelos crimes de indivíduos?\r
    Excelente texto!
  • Petrus  15/03/2012 11:00
    nossa! tive uma aula ontem sobre individualismo metodologico\r
    \r
    que coincidencia o artigo hj!\r
    \r
    lendo...
  • anônimo  15/03/2012 12:08
    Individualismo metodológico é uma furada. É como se o indivíduo ocupasse vivesse isolado e pudesse fazer as coisas que quer, sem estar preocupado com a opinião da sociedade, sem ser condicionado pelas forças produtivas materiais. É como se não houvesse uma construção social desde criança, transmitida de geração em geração. "É o carrasco, e não o estado, quem executa um criminoso." Que pérola! Quer dizer que o carrasco age por conta própria?

    E até o crime é algo socialmente construído. Em primeiro lugar, quem determina o que é crime e o que não é crime? Quem é que determina as penas? Só um exemplo: ontem eu ví uma reportagem do SBT dizendo que o adultério feminino está aumentando, depois o repórter comentou que faz tempo que esta prática já não é considerada um crime (o que todo o mundo já sabe). Então até a definição do que é crime e o que não é crime é socialmente determinado.
  • Leandro  15/03/2012 14:13
    Anônimo, essa sua definição de individualismo metodológico, dada logo nas primeiras linhas, é tão correta quanto eu dizer que astrofísica é um ramo da biologia.

    Ninguém nega que as entidades sociais influem na esfera da ação humana. Ninguém nega que países, estados, cidades, partidos, comunidades religiosas etc. são fatores reais que influenciam e determinam a ocorrência de eventos e a ação das pessoas. O individualismo metodológico não contesta, de forma alguma, a importância de tais coletivos; ele apenas considera que uma de suas principais tarefas é descrever e analisar o surgimento, o desaparecimento, as mudanças em suas estruturas e a maneira como funcionam estes coletivos. E ele faz isso por meio do único método capaz de resolver esta questão satisfatoriamente: entendendo que todas as ações são realizadas por indivíduos.

    Quem executa o criminoso, se não o carrasco, é quem? Eu? Você? Garanto que "nós" não temos participação nenhuma nisso. Se você, por exemplo, for contra a pena de morte, você certamente não pode ser implicado neste ato. O criminoso pode ser condenado, mas se não houver um verdugo disponível para o serviço, a sentença simplesmente não é implementada. Se não houver um indivíduo realizando uma ação, qualquer decisão "coletiva" é letra morta.

    Favor ter a bondade de se informar melhor sobre determinado assunto antes de fazer perorações sobre ele. Vá sacar pra cima de outros.

    Abraços!
  • anônimo  15/03/2012 17:25
    O melhor método capaz de descrever e analisar o surgimento, o desaparecimento, as mudanças é este: os homens nascem em uma determinada sociedade com pensamentos, idéias, conhecimento, ciência e tecnologia legados pelas gerações passadas, então interagem com estes pensamentos, idéias, conhecimento, ciência e tecnologia e transformam-as ao mesmo tempo em que os transformam a si próprios. E assim são condicionadas as suas ações. Entende?

    Então o carrasco age por conta própria, Leandro? Não há uma lei, uma ordem que manda ele fazer isso?
  • Leandro  15/03/2012 17:55
    Apenas repetiu o que já havia sido dito e ignorou a conclusão essencial que lhe foi apresentada: todas as ações são, em última instância, realizadas por indivíduos. Negue este fato.

    Quanto ao seu insistente exemplo do carrasco, quem executa a ação, afinal? Uma entidade amorfa chamada sociedade ou um indivíduo muito bem definido? A obediência a uma lei é algo automático, quem deixa um indivíduo sem nenhuma volição? Troque 'carrasco' por 'assassino profissional'. Quem executa a ação, o mandante do crime ou o matador? O matador é um objeto sem vida, um robô?

    Este seu argumento é a típica desculpa de que o ambiente condiciona o indivíduo, como se ele não fosse dotado de absolutamente nenhuma vontade própria -- argumento perfeito para pessoas que não querem assumir responsabilidades pelas consequências de seus atos. "Ah, o mundo me obrigou a agir assim".

    Entende?

    Por fim, quem fez gols na Copa de 1994, o Brasil ou Romário?
  • anônimo  25/04/2012 16:54
    Peraí, o que você quer dizer quando perguntou quem ganhou o Tetra: o Brasil ou o Romário?? Ele fez mtos gols, claro, mas ele era atacante, meio-campista, zagueiro, goleiro, etc.? O que o Tafaréu fazia, então? E outra coisa, o Romário não jogava no Brasil?

    Carrasco é como um assassino profisional? Leandro, observe a diferença de como os dois são vistos pela sociedade. O carrasco é visto como um trabalhador, como um agente que estaria cumprindo a lei; enquanto o assassino profisional é visto pela sociedade como um "vagabundo" que ganha dinheiro pra matar as pessoas. Peguemos o exemplo que foi exposto aqui: o adultério. Antes, uma mulher que cometia adultério era apedrejada, ou enforcada, ou decapitada, etc. enfim, era condenada à morte. Era aceito, e o marido era considerado vítima e a mulher merecia ir pro inferno. Agora, vamos supor que hoje, você seja casado (só uma suposição, não sei se você é casado ou não) e descobre que sua mulher está lhe traindo. Imagine que você reaja pagando um assassino profissional para matá-la. O que aconteceria? Primeiro, o assassino (que não é bem visto pela sociedade como o carrasco é visto) será preso (enquanto o carrasco recebe um salário por cumprir sua função social de "cumpridor da lei"), segundo, você não será bem visto e ainda será considerado um "corno covarde", que além de tudo, não teve coragem de você mesmo matar, pagou um criminoso profissional (viu? De novo a diferença, um criminoso, não um trabalhador "cumpridor da lei" como o carasco é visto) para isso (não quero dizer que se você mesmo pegasse uma arma pra matar a sua mulher, você seria bem visto). E claro, este caso mostra as construções sociais de determinadas épocas. Há séculos atrás, adultério era crime punido com pena de morte, hoje é visto como algo normal.
  • Márcio  11/09/2013 12:12
    Sim, as ações são realizadas por indivíduos, mas inseridos num grupo.

    Ainda que as pessoas sejam responsáveis pelas escolhas que fazem, é o grupo que estabelece regras, formas de agir, formas de punir, comportamentos tolerados e não tolerados e coopera pensando em aumentar o bem estar de todos.

    Individualmente, há abusos, mas as formas de cooperação são estabelecidas pensando no grupo como um td. Não se estabelecem regras punitivas pensando q se vai punir um inocente, mesmo q isso possa acontecer eventualmente. Não se estabelecem direitos pensando q se vai usá-los mal, mesmo q isso possa acontecer eventualmente.

    A punição do inocente e o abuso do desonesto são exceções que não impedem que regras e direitos existam. Resta ao grupo agir de forma a minimizar esses eventos, por exemplo condenando moralmente tais coisas, dando exemplo e educando.

    Sociedades coletivistas podem ser muito pacíficas. Muitas vezes bem mais do que naquelas em que há posse individual de recursos e bens.
  • anônimo  18/03/2012 16:03
    "Então o carrasco age por conta própria, Leandro? Não há uma lei, uma ordem que manda ele fazer isso?"

    Essa "ordem" a qual você se refere, é uma entidade viva e dotada de consciência própria ou nada mais é que uma decisão tomada por um indivíduo(juiz)? Claro, você pode ainda argumentar que mesmo o juiz segue essa tal "ordem" que você faz referência, mas no caso, o juiz estará seguindo um ordenamento jurídico e este é definido por quem, senão por indivíduos (legisladores)?

    Caro anônimo, o que o individualismo metodológico nos diz, é que essas entidades coletivas que vocês idiotamente atribuem consciência e externam os homens das suas realizações, nada mais são que nominalismos atribuídos aos resultados de ações individuais. Ou como de outra forma explica Weber, ações sociais são apenas o resultado da interação de ações individuais.

    O mais engraçado é que filósofos coletivistas e deterministas, são em sua maioria comunistas e comunistas são em sua maioria ateus, todavia, a única analogia a este método de aferir a existência de uma ordem superior condicionando as ações dos indivíduos, só é encontradas nas religiões, é o que dá os materialistas históricos, emularem o método epistemológico de um teólogo (Hegel).
  • Tiago Moraes  18/03/2012 16:10
    Opa, Leandro, desculpe, essa última postagem foi feita por mim, esqueci de colocar meu nome, para você não achar que ela foi feita pelo "anônimo".
  • anônimo  16/03/2012 05:03
    recomendo o usuario ANONIMO ler o seguinte artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=678
    o estado dos 5 macacos
  • Getulio Malveira  21/03/2012 15:54
    Ótimo texto. Rothbard tem a virtude de falar de coisas extremamente complexas de modo extremamente simples - é uma virtude rara hoje em dia.
  • Malthus  22/03/2012 02:52
    De fato o Rothbard tem esse dom. E parece que só os austríacos o herdaram. Ao menos na economia.
  • Gustavo Sauer.  22/03/2012 06:20
    Diziam que Rothbard nunca iria ter chance de ganhar um prêmio nobel porque ele escreve com clareza.
  • anônimo  25/07/2012 13:25
    Então o individualismo das pessoas é importante para a sociedade em geral e não ao contrário? É isso mesmo?
  • Luis Almeida  25/07/2012 13:37
    Exato. Todas as grandes conquistas da civilização se originaram com esforços individuais, nunca com ideias coletivas. O coletivo não pensa, o coletivo é apenas um amontoado de indivíduos. E apenas indivíduos agem.

    Ainda tá acordado ou já desmaiou após esta revelação estonteante?
  • anônimo  25/07/2012 15:22
    Mas isso não vai contra o princípio libertário do Spencer? "A sociedade existe para o benefício de seus membros, não seus membros para o benefício da sociedade".

    rodrigoconstantino.blogspot.com.br/2007/09/cooperao-compulsria.html
  • Luis Almeida  25/07/2012 15:31
    Ao contrário. Confirma este princípio. Esse negócio de indivíduo viver para o benefício da sociedade é ideologia socialista, que reduz o indivíduo a um mero membro do coletivo.

    O meu exemplo acima foi justamente para demonstrar que indivíduos buscando seu interesse próprio, em um ambiente de respeito à propriedade privada, geram benefícios involuntários para toda a sociedade. Já um socialista diz que uma pessoa qualquer deve abrir mão de seu interesse próprio e pensar apenas num abstrato bem coletivo.

    Em suma: o livre mercado atinge na prática aquela utopia que o socialismo apenas imagina na retórica.
  • Eduardo  15/03/2016 19:05
    Spencer, quem ainda considera ele hoje?
  • João Marcos Theodoro  05/09/2013 15:10
    Um dos problemas de se adotar uma perspectiva coletivista é incorrer em sugestões de absurdos. Por exemplo, quando se diz que "a sociedade é capitalista", deixa-se a impressão de que todos os indivíduos dessa sociedade apoiam o capitalismo, quando na verdade muitos indivíduos apoiam outras ideologias. Eu nunca consegui engolir essas afirmações; elas ignoram completamente as individualidades.

    Eu já observei um problema grande entre liberais e comunistas, que é o seguinte: os liberais, sendo em geral cristãos, acreditam no livre-arbítrio, e os comunistas, sendo em geral ateus ou influenciados por ateus, consideram mais que as ações individuais são condicionadas pela sociedade. Eu sou anarcocapitalista e, não obstante, não acredito em livre-arbítrio. O fato de as ações serem condicionadas por vários fatores não faz com que os indivíduos percam suas peculiaridades, assim como não deixam de ser responsabilizados pelo que fazem.
  • Eduardo Bellani  20/05/2014 15:21
    liberais e comunistas, que é o seguinte: os liberais, sendo em geral cristãos

    Mises, Rothbard, Hoppe, Block, para citar alguns grandes nomes do liberalismo moderno,
    não são (ou eram) cristãos.
  • anônimo  10/09/2013 20:45
    A sociedade é um grupo e grupos cooperam para a sobrevivência de todos. Hoje vc mais dá do que recebe. Amanhã, você mais recebe do que dá. É essa a lógica.

    Em grupos, não existe essa história de cada um por si de forma absoluta. A história da humanidade está assentada nessa cooperação intragrupo e intergrupo. A barbárie só foi superada, justamente quando os agrupamentos humanos mais populosos (quanto mais gente, mais difícil administrar conflitos) organizaram um poder central responsável por aplicar a lei e as punições.

    Todos os primatas sociais sabem que não há sobrevivência sem cooperação. É evidente que existe comportamento egoísta, mas esse comportamento deve ser dosado. Egoístas que ignoram completamente o bem-estar do grupo são severamente punidos. Primatas, por exemplo, não toleram desigualdade. Em testes, já foi demonstrado inúmeras vezes, que primatas deixam de cooperar quando as condições entre dois parceiros é muito desigual (quando a recompensa para um deles é muito maior, p. ex.).
  • Leonardo Couto  10/09/2013 23:54

    Não entendi o que isto tem a ver com o artigo, anônimo. Você o leu?
  • Giulliano  20/05/2014 15:14
    Olá.

    Estou escrevendo sobre Carl Menger para minha monografia em economia, e estou com dúvida se Carl Menger defende o individualismo metodológico ou o pluralismo metodológico. Segundo o autor de HPE Ricardo Feijó (História do Pensamento Econômico. Ed. Atlas, p. 395), Menger expande o individualismo metodológico e "segue a máxima metodológica: a cada meta, um método. Conhecidas as diferentes metas da ciência econômica e reconhecendo-se a necessidade de um método a cada meta, a classificação de estudos nesse domínio é a própria identificação de suas metas. Trata-se, portanto, do pluralismo metodológico".

    Essa questão é de suma importância para mim pois estou abordandando o Methodenstreit.

    Agradeço pela atenção.
  • Leandro  20/05/2014 15:18
    Individualismo metodológico está mais associado a Mises. Menger era adepto da abordagem causal-realista.

    mises.org/daily/2740/
  • Giulliano  20/05/2014 17:30
    Obrigado Leandro.
  • Idealizador  27/08/2014 08:28
    Alguém, pelo amor do amor, poderia me informar se o individualismo metodológico pode ser aplicado ao estudo da ciência da história? Já estou farto "dessa conversa" historicista alucinada do profeta Marx do tal do materialismo histórico-dialético, bem como do coletivismo velado da escola dos annales com a tal da psicologia social. Please, alguém me passa uma bibliografia sobre (se houver) o individualismo metodológico no estudo da história?

    Este humilde individualista fica grato desde já!


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