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Resumindo a encrenca

Há poucos dias, o economista Paul Krugman, em artigo publicado em jornal de São Paulo, fez severas críticas à Escola Austríaca de Economia. Como presidente do Instituto Mises Brasil, é meu dever apresentar nosso ponto de vista e contestar algumas afirmações de Krugman. Antes, um pequeno panorama.

A crise de crédito que teve início em 2007 segue afetando os mercados desenvolvidos, e parece ganhar mais corpo com a crise existencial do euro. Não obstante as injeções maciças de dinheiro público e o estímulo dos juros baixos — virtualmente zero — os bancos seguem com problemas de financiamento.

A artilharia governamental tem tido controverso êxito mesmo após 4 anos. As economias dos Estados Unidos e da Europa seguem com crescimento pífio, desemprego alto, e os preços dos ativos não baixaram o suficiente a ponto de catalisar uma recuperação.  O custo das intervenções é mais tangível: a dívida líquida em relação ao PIB dos EUA, Reino Unido, França aumentou em mais de 30 pontos percentuais do PIB neste período!

Os depósitos bancários nos bancos sediados nos chamados PIIGS caíram entre 5 e 10% nos últimos seis meses.  Faz sentido: afinal, em uma Europa ainda integrada, por que permanecer com dinheiro em um país cujo governo pode transformar a moeda da noite para o dia em um novo Dracma ou Escudo, e impor um corralito à la Argentina de Cavallo?

De posse do monopolista status de "emprestador de última instância", o Fed e o BCE têm sido ainda mais agressivos que os governos para dissipar o receio de quebra de bancos.  Os metafóricos dinheirodutos para os bancos por meio do infame quantitative easing (similar à cruel alimentação forçada dos gansos) já triplicaram a base monetária nos EUA, e o BCE segue por caminho similar, ainda que mais comedidamente (um foie gras mais magro).  O custo desta política de criação de moeda é mais oculto:

a) as reservas em excesso recém-criadas serão inflacionárias caso se multipliquem em empréstimos via o multiplicador bancário do livro-texto(veja aqui); e, mais importante,

b) as injeções impedem que haja uma saudável e necessária desalavancagem no sistema, que permite a um custo suportável eliminar os excessos e os falsos lucros propiciados pelas taxas de juros artificialmente baixas.

As consequências nefastas de se impedir a desalavancagem do sistema são explicitadas pela Escola Austríaca, e rechaçadas pelo keynesianismo e pela Escola de Chicago monetarista.  Representantes desses últimos, partes do chamado mainstream, são apegados à uma panacéia de criação de moeda.  Um keynesiano, Paul Krugman, incomodado pelos pífios resultados e altos custos de suas prescrições, partiu para o ataque frontal a Ron Paul, um candidato republicano, e a Peter Schiff, um gestor de recursos, ambos simpáticos à Escola Austríaca.  Ambos são exitosos em suas especialidades, mas não são representantes acadêmicos da Escola Austríaca.

Quanto ao ponto a) acima, Krugman afirma que a preocupação com a inflação até agora se mostrou infundada, e que isso comprova o erro da Escola Austríaca.  Sim, até agora.  Porém, dada a inédita quantidade de reservas injetadas nos bancos, é razoável supor que se tornem no futuro empréstimos em multiplicidade, inflacionários portanto.  A ausência de empréstimos multiplicadores até agora em nada contradiz as lições da Escola Austríaca, ao contrário do que afirma Krugman. Os bancos hoje não estão confiantes para emprestar.

Quanto ao ponto b), Krugman (bem como keynesianos e monetaristas) advoga impedir o ajuste do mercado, pois este provocaria uma crise ainda pior. No entanto, as evidências empíricas comprovam que suas prescrições não têm funcionado há muito tempo.  Em 2001, após o estouro da bolha da internet, Krugman defendeu um regime de juros baixos para inflar os preços de imóveis.  O resultado foi uma bolha maior, que ao estourar causou uma crise mais severa.  Suas prescrições para a atual crise deixaram o contribuinte americano mais endividado, e com menos emprego.  A política atual remete ao sofrimento do Japão desde 1990.  O Japão, inventor do quantitative easing, ainda não venceu a crise mesmo após vinte anos; e o índice Nikkei, que estava em 39.000 em 1989, hoje está em 8.300.  No longo prazo, o mercado é mais forte que os desejos dos burocratas.

Os juros baixos atuais são um tipo de heroína financeira.  Só visualizaremos a realidade como ela é no momento da abstinência.

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autor

Helio Beltrão
é o presidente do Instituto Mises Brasil.

  • Inácio Neto  12/01/2012 06:20
    Em relação ao argumento de Krugman contra a EA sobre a inflação, é necessário lembrar que os E.U.A tem o privilégio de ter o Dólar como moeda de reserva internacional e lembrar também que esses indices de " nivel geral de preços " escondem as diferenças entre os preços de diferentes bens e setores econômicos.

    Os Austríacos já sabem como isso vai acabar, mas os economistas mainstream acham que a teoria austríaca e seus postulados não são válidos porque a EA não é "científica" ... fazer o que né? pior pra eles.
  • PAULO BOCCATO  12/01/2012 06:31
    1-) NOS JORNAIS DAQUI -TODOS PRATICANTES DA AUTOCENSURA EM PROL DO ALTAR IDEOLOGICO QUE PERMEIA O BAIXO NIVEL INTELECTUAL DOS JORNALISTAS DESTA TERRA E SUAS REDAÇÕES EMPRESTADAS A SOLDO PELO GOVERNO OU QUE SE ALINHAM POR DEVOÇÃO IDEOLOGICA- NÃO DÃO UMA LINHA SOBRES AS PESQUISAS ELEITORAIS NA FRANÇA QUE APONTAM VITORIA COM LARGUISSIMA VANTAGEM A SENHORA MARINE LE PEN !
    É A DONA GANHAR E A FRANÇA CAI FORA DO EURO E TORNA AO FRANCO !!!!!!!!

    2-) ASSIM QUE A ITALIA FOR AS ELEIÇÕES- E CEDO OU TARDE ELES IRÃO APESAR DA CORTE CONSTITUCIONAL NEGAR PEDIDO APOS PEDIDO P. QUE ISTO ACONTEÇA- A DIREITA VAI VENCDER E ABANDONAR A UE !

    3-) OLHO NA HUNGRIA QUE FARA O MESMO CEDO OU TARDE...

    4-) A POLONIA JA DECLAROU QUE VAI ATRASAR SUA ENTRADA...

    5-) A ISLANDIA TBEM DE FININHO , POUCO A POUCO VAI DANDO O FORA...

    6-) OLHO NA ELEIÇÃO DOS EUA POIS GANHANDO OS REPUBLICANOS (COISA QUE EU ESPERO) OU É GUERRA CONTRA O IRÃ OU É ISOLACIONISMO...

    A UE VAI ACABAR E COM ELA , O PROJETO GLOBALISTA COM O RETORNO DOS ESTADOS NACIONAIS E SUAS SOBERANIAS ! O MODELO ATUAL FOI PRO SACO !

    TADINHO DO GEORGE SOROS,CLUB BILDERBERG, ROTCHILD E A CATERVA QUE POR AQUI SE ALIMENTA DAS MIGALHAS QUE CAEM DA MESA DELES !

    E FINALMENTE , UMA PERGUNTA, QUANDO O BRASIL UM DIA , VAI PARAR DE VIVER NA MENTIRA ?
  • Felix  12/01/2012 07:20
    ??
  • Marc...  13/01/2012 08:58
    Félix, só estudar um pouquinho que você entende tudo que o Paulo falou, está tudo de graça na internet (comece pelo youtube).

    Paulo Boccato, não fique tão otimista, nãe se esqueça que tudo está saindo conforme planejado, "o modelo atual foi pro saco" e eles colocarão um pior, como estão fazendo e conseguirão, pode ter certeza, teremos saudades desses tempos.

    Somos incapazes, sempre fomos, conforme exposto por Étienne: "conservaram a devoção à liberdade, por mais numerosos que sejam, porque não se conhecem; sob o tirano, é-lhes tirada toda a liberdade de fazer, de falar, e quase de pensar: todos se tornam singulares em suas fantasias"

    When you are aware, you can prepare. Prepare-se, é só o que nos resta.
  • EUDES  13/01/2012 13:02
    Égua! Como dizem os paraenses ! Gostei do seu comentário, Paulo!
  • Thyago  12/01/2012 07:03
    Muito bom o texto...

    Esse Krugman é um pilantra de primeira... Não sei como ainda tem respaldo pra escrever em jornais.
  • Lucas Maynard  12/01/2012 19:03
    é prêmio nobel de economia...
  • Andre F.  12/01/2012 20:11
    "Quando a espoliação se torna um meio de vida para um grupo de pessoas, elas criam para si próprias, ao longo do tempo, um sistema legal que autoriza este ato, e um código moral que o glorifica." F. Bastiat
  • Daniel Marchi  12/01/2012 07:36
    Excelente resposta ao P. Krugman, o ufólogo do ano de 2011.

    "No longo prazo, o mercado é mais forte que os desejos dos burocratas."

    Vejam quantos anúncios de estatais e empresas amigas do estado estão presentes na Folha de SP. A frase entre aspas é indigesta demais para os patrocinadores.
  • Daniel  12/01/2012 08:51
    O estadão seria mais amigável? É um jornal longe do ideal, mas me parece ter mais críticas ao governo que a Folha.
  • anônimo  12/01/2012 09:10
    Ao governo talvez, mas não ao "sistema". Eles também são simpáticos ao Krugman, que tem lá, também, uma coluna.
  • Angelo Noel  12/01/2012 09:43
    Tudo bem que o Krugman não sabe do que tá falando, mas acho difícil a Folha ou qualquer outro veículo de comunicação brasileiro publicar um artigo massacrando o próprio colunista que já tá lá há anos falando besteira.

    Um jornal que pauta pela verdade ao invés da vaidade cederia o espaço para o debate (e ainda proporia o espaço do Krugman pra outro), mas forgod'sake!, a gente tá falando da Folha de S. Paulo..
  • Rhyan  12/01/2012 10:09
    "O Japão, inventor do quantitative easing"

    E aquele artigo que diz que não houve inflação monetária no Japão?

    Creio eu que sejam periodos diferentes.
  • Leandro  12/01/2012 10:15
    O quantitative easing do Japão começou em 2001 e foi até meados de 2002, como demonstra o primeiro gráfico deste artigo, que mostra o crescimento percentual anual da base monetária. A partir de 2004, a expansão monetária foi interrompida, e em 2006 foi revertida.

    O problema do Japão, como explicado neste artigo, é sua política fiscal e seu sistema financeiro formado por bancos zumbis -- bancos que foram socorridos pelo governo mas que não liquidaram suas dívidas.
  • Rhyan  12/01/2012 12:24
    Entendi! Valeu, Leandro!
  • Fabio  12/01/2012 13:45
    Sr. Hélio Beltrão, acredito que o Krugman é o nosso Dr. Ferris, o inútil que não diz coisa com coisa. Sua maior depravação é ser o porta voz de um raciocínio desprovido de sentido para perverter a lógica e a moralidade de homens honrados. Este site é uma excelente arma contra aqueles que querem usar da virtude dos bons para escravizá-los e saqueá-los. Meus parabéns pelo insistência.

    Abraços
  • PESCADOR  12/01/2012 18:52
    Acredito mais no ET de Varginha do que nas besteiras que o Krugman arrota. Inacreditável como a maioria dos "argumentos" dele são baseados em falsificações e distorções na cara-de-pau. Que bom que temos o IMB, uma espécie de oásis no meio do deserto de besteirol keynesiano que lemos na imprensa. Só de entrar no site do IMB, já dá um ar de sanidade, depois de ler um Estadão ou Folha ou qualquer outra porcaria.
  • Antony Mueller  12/01/2012 19:22
    Even my mainstream colleagues are making fun of Krugman. In private mails that I receive they call him .... (words I won't repeat). It is mainly only journalists who take him seriously. They are blinded by titles like "Princeton" and "Nobel" - just as earlier generations were blinded by "von" or "duke" or "prince".
  • Marc...  13/01/2012 09:07
    S&P dégrade la note souveraine de la France
    www.lemonde.fr/crise-financiere/article/2012/01/13/la-bourse-de-paris-dans-le-rouge_1629457_1581613.html
  • Caio  16/01/2012 12:37
    Me intrigou a seguinte questão:

    "O Japão, inventor do quantitative easing, ainda não venceu a crise mesmo após vinte anos; e o índice Nikkei, que estava em 39.000 em 1989, hoje está em 8.300. No longo prazo, o mercado é mais forte que os desejos dos burocratas".


    Partindo do ponto que o quantitative easing é, em poucas palavras, impressão de dinheiro, o índice Nikkei não deveria ter sido inflado?
  • Leandro  16/01/2012 12:47
    Caio, leia a minha resposta ao Rhyan. E sim, você está corretíssimo: se de fato tivesse havido inflação monetária no Japão, o índice Nikkei não estaria hoje onde está. (Não deixe de clicar nos dois artigos sugeridos em minha resposta ao Rhyan).

    Abraços!
  • andre  19/01/2012 13:21
    Um economista que relamente sabe o que faz é rico. E rico é o que vcs não parecem ser.
    "Numa economia de livre mercado"...... Continuem sonhando com isso.
  • Fernando Chiocca  19/01/2012 14:55
    "Já que você é tão esperto, por que não está rico?"

    Esse artigo responde essa patética objeção, de quem sequer sabe o que é a ciência economica, quanto mais a diferença entre um empreendedor e um economista.

    Mas fiquei curioso, como "parece" que eles não são ricos? heheeh

    E a ignorância desse andre não tem limites, já que não conhece economistas austríacos pró-livre-mercado multi-milhonários como Jim Rogers, Marc Faber, Doug Casey, Peter Schiff etc....


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