A verdadeira Lei de Say - e não a distorção keynesiana

"Keynes . . . além de não ter entendido, deturpou a Lei de Say. . . . Este é o legado mais duradouro de Keynes, um legado que deformou permanentemente toda a teoria econômica."

— Steven Kates[1]



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Enquanto pesquisava material para a elaboração do meu livro The Story of Modern Economics [A História da Moderna Ciência Econômica], descobri um extraordinário livro escrito pelo economista australiano Steven Kates, Say's Law and the Keynesian Revolution [A Lei de Say e a Revolução Keynesiana].  De acordo com Kates, John Maynard Keynes deturpou a teoria original de Jean-Baptiste Say — sua famosa lei de que os mercados sempre tendem ao equilíbrio — com o único objetivo de, ao atacar essa teoria deturpada, poder gerar uma revolução na ciência econômica.  Segundo Kates, toda a Teoria Geral "é uma tentativa de refutar a Lei de Say".

A fim de refutar a Lei de Say, Keynes distorceu-a e adulterou-a gravemente.  Como afirma Kates, "Keynes se equivocou em sua interpretação da Lei de Say e, ainda mais importante, se equivocou quanto às implicações econômicas da mesma."[2]  E vale ressaltar que Kates é totalmente simpatizante da economia keynesiana!

Como Keynes entendeu tudo errado

Na introdução da edição francesa da Teoria Geral, de 1939, Keynes centrou-se na Lei de Say como sendo a questão central da macroeconomia. 

Creio que, até uma época recente, a ciência econômica em todos os lugares tem sido dominada . . . pelas doutrinas associadas ao nome de J.-B. Say.  É verdade que sua "lei dos mercados" já foi há muito abandonada pela maioria dos economistas; porém, eles próprios ainda não libertaram das suposições básicas criadas por Say, particularmente de sua falácia de que a demanda é criada pela oferta. . . . No entanto, uma teoria baseada nesta suposição é claramente incapaz de atacar os problemas do desemprego e dos ciclos econômicos.

Infelizmente, Keynes não foi capaz de entender a Lei de Say.  Ao incorretamente afirmar que a lei diz que "a oferta cria sua própria demanda", ele na realidade sugeriu que o objetivo de Say era dizer que qualquer coisa que for produzida será automaticamente comprada.  Logo, a Lei de Say não pode explicar os ciclos econômicos.[3]

Keynes foi adiante e declarou que a Lei de Say "pressupõe pleno emprego".  Outros keynesianos cometem este erro até hoje, embora nada possa estar mais longe da verdade.  As condições do desemprego não proíbem a produção e nem as vendas, ambas as quais formam a base do aumento da renda e do aumento da demanda.

Ademais, a Lei de Say serviu especificamente de base para a teoria clássica dos ciclos econômicos e do desemprego.  Como declarou Kates, "A posição dos economistas clássicos era a de que o desemprego involuntário não somente era possível, como na realidade ocorria frequentemente, e com sérias consequências para os desempregados."[4]

Produção e consumo

Mas o que é exatamente a Lei de Say?  A descrição de sua famosa lei dos mercados pode ser encontrada no capítulo 15 do livro de Say, A Treatise on Political Economy:  "Quando um produto é criado, ele, desde aquele instante, por meio de seu próprio valor, proporciona acesso a outros mercados e a outros produtos".[5]  Quando um vendedor produz e vende um produto, ele instantaneamente se torna um potencial comprador, pois agora possui renda para gastar.  Para poder comprar alguma coisa, um indivíduo precisa antes vender.  Em outras palavras, a produção é o que gera o consumo, e um aumento na produção é o que permite que haja um maior gasto com consumo.

Em suma, eis a Lei de Say: a oferta (venda) de X cria a demanda por (pela compra de) Y.

Say ilustrou sua lei com o exemplo de um agricultor que usufruiu uma boa colheita: "Quanto maior for a colheita, maior será o poder de compra do agricultor.  Já uma safra ruim, por outro lado, irá afetar enormemente a venda das mercadorias."[6]

E Say está correto.  De acordo com as estatísticas sobre ciclos econômicos, quando uma recessão se inicia, a produção é a primeira variável a entrar em declínio, bem antes do consumo.  E quando a economia começa a se recuperar, isso ocorre porque a produção foi retomada, sendo somente depois seguida pelo consumo.  O crescimento econômico começa com um aumento na produtividade, na produção de novos produtos e na criação de novos mercados.  Portanto, os gastos em produção sempre vêm antes dos gastos em consumo.

Podemos ver como isso funciona também na escala do indivíduo.  O segredo para um maior padrão de vida é, primeiramente, um aumento na sua renda — isto é, na sua produtividade —, seja por meio de um aumento salarial, ou de um novo emprego, ou de uma maior especialização ou pela criação de um empreendimento rentável.  Seria uma insensatez querer aumentar seu padrão de vida simplesmente aumentando seus gastos ou se endividando para comprar um imóvel maior ou um automóvel novo sem antes ter aumentado sua produtividade.  Você pode até ser capaz de viver luxuosamente dessa maneira por algum tempo, mas um dia inevitavelmente a conta chegará — no caso, a fatura do cartão de crédito ou o vencimento dos empréstimos bancários.

De acordo com Say, o mesmo princípio se aplica às nações.  A criação de novos e melhores produtos cria novos mercados e possibilita o aumento do consumo.  Donde se conclui que "o estímulo ao mero consumismo não traz benefício algum para o comércio; pois a dificuldade jaz exatamente em como criar os meios para o consumo, e não em como estimular o desejo do consumo.  E já vimos que a produção, por si só, fornece estes meios."  E Say então acrescentou: "Sendo assim, o objetivo de um bom governo seria apenas permitir que a produção ocorresse desimpedidamente, ao passo que o objetivo de um mau governo seria estimular o consumo."[7]

A causa dos ciclos econômicos

A Lei de Say afirma que recessões não são causadas por uma insuficiência na demanda (a tese de Keynes), mas sim por um descompasso na estrutura da oferta e da demanda.  A recessão se inicia quando os produtores percebem que erraram em suas estimativas sobre o que os consumidores querem consumir, o que faz com que os bens não vendidos se acumulem nos estoques.  Ato contínuo, a produção é reduzida, a renda cai e, só então, o consumo diminui.  Como Kates esclareceu, "A teoria clássica explica as recessões demonstrando como os erros na produção surgem durante a fase da expansão econômica artificial, de modo que alguns bens permanecerão nos estoques sem serem vendidos, mesmo se cotados a preços que meramente cubram seus custos de produção."  O modelo clássico era uma "teoria altamente sofisticada que explicava a recessão e o desemprego", mas que foi varrida e "obliterada" de uma só vez pelo ilustre Keynes.[8]

Em seu livro, Kates destaca as contribuições de outros economistas clássicos, dentre eles David Ricardo, James Mill, Robert Torrens, Henry Clay, Frederick Lavington e Wilhelm Röpke, que ampliaram a Lei de Say.  Vários economistas clássicos centraram seus esforços em explicar como a inflação monetária exacerba os ciclos econômicos.  Eles foram os precursores dos austríacos Ludwig von Mises e F.A. Hayek.

Logo, nada mais apropriado do que finalizar com a própria definição de Mises sobre a Lei de Say:

O mais sincero defensor e pregador da inflação em nossa época, Lord Keynes, estava certo, do seu ponto de vista, quando atacou aquilo que é chamado de "Lei de Say".  A Lei de Say é uma das grandes façanhas da teoria econômica.  O francês Jean-Baptiste Say, na chamada Lei de Say, disse que você não pode aprimorar as condições econômicas simplesmente aumentando a quantidade de dinheiro na economia; quando os negócios não estão indo bem, não é porque não há dinheiro suficiente.  O que Say tinha em mente, o que ele disse quando criticou a doutrina de que deveria haver mais dinheiro na economia, era que tudo o que alguém produz representa, ao mesmo tempo, uma demanda por outras coisas.  Se há mais sapatos produzidos, esses sapatos serão oferecidos no mercado em troca de outros bens.  A expressão "a oferta cria demanda" significa que o fator produção é essencial.  Expressada mais acuradamente, ele estava dizendo que "a produção cria consumo", ou, ainda melhor, que "a oferta de cada produtor cria sua demanda pelas ofertas de outros produtores".  Dessa forma, um equilíbrio entre oferta e demanda sempre existirá em termos agregados (embora Say reconheça que pode haver escassez e fartura em relação a produtos específicos).

Em última instância, os bens não são trocados por dinheiro — o dinheiro é apenas um meio de troca; os bens são trocados por outros bens.  "Você quer minhas maçãs?  O que você me dá em troca delas?"  Say acreditava que a criação de mais dinheiro simplesmente cria inflação de preços; mais dinheiro perseguindo a mesma quantidade de bens.

E se você aumentar a quantidade de dinheiro, você não estará melhorando a situação de ninguém, exceto daquele indivíduo — ou daquele grupo de indivíduos -. para quem você dá esse dinheiro recém-criado; esse indivíduo, ou esse grupo, poderá então comprar mais coisas, retirando mais bens do mercado, privando outras pessoas desses bens, piorando o bem-estar delas.

 

Leia também: As pedras viram pães: o milagre keynesiano 



[1] Steven Kates, Say's Law and the Keynesian Revolution (Northampton, Mass.: Edward Elgar, 1998), p. 1

[2] Ibid., p. 212.

[3] John Maynard Keynes, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (London: Macmillan, 1936), pp. 25-26.

[4] Kates, p. 18.

[5] Jean-Baptiste Say, A Treatise on Political Economy (Augustus M. Kelley, 1971 [1832]), p. 134.

[6] Ibid., p. 135.

[7] Ibid., p. 139.

[8] Kates, pp. 18, 19, 20.

 

1 voto

SOBRE O AUTOR

Mark Skousen
é professor de Administração na Grantham University, ex-presidente da Foundation for Economic Education e membro da Mont Pelerin Society.




"parece-me improvável ser coincidência os produtores do metal em questão [ouro] também terem abruptamente reduzido sobremaneira sua mineração e refino na década de 70 e de forma ainda mais intensa do que a supostamente levada a cabo pela OPEP [...]"

Exato! Este é o ponto. Quem afirma que o petróleo encareceu na década de 1970 por causa de uma suposta escassez de oferta tem também de explicar por que o ouro (e outras commodities) se encareceu ainda mais intensamente. Houve restrição na oferta de ouro?

Assim como não houve redução da oferta de ouro (cujo preço explodiu em dólar) também não houve redução da oferta de petróleo (cujo preço explodiu em dólar).

O problema, repito, nunca foi de oferta de commodities, mas sim de fraqueza das moedas -- recém desacopladas do ouro (pela primeira vez na história do mundo) e, logo, sem gozar de nenhuma confiança dos agentes econômicos.

Igualmente, por que o petróleo barateou (junto com o ouro) nas décadas de 1980 e 1990, quando a demanda por ele foi muito mais intensa do que na década de 1970? Por que ele encareceu em 2010 e 2011, em plena recessão mundial? E por que barateou em 2014 e 2015, quando as economias estavam mais fortes que em 2010 e 2011?

O dinheiro representa a metade de toda e qualquer transação econômica. Logo, quem ignora a questão da força da moeda está simplesmente ignorando metade de toda e qualquer transação econômica efetuada. Difícil fazer uma análise econômica sensata quando se ignora metade do que ocorre em uma transação econômica.

"ao menos em tese, não seria possível ocorrer uma elevação do índice "DXY" durante algum tempo simultaneamente a uma alta nas cotações em USD de algumas commodities, configurando uma situação de inflação de preços global generalizada onde a moeda america seria nesta hipótese "a garota menos feia do baile"

Sim, em tese seria possível. Só que, ainda assim, haveria um indicador que deixaria explícito o que está acontecendo: o preço do ouro.

Se o dólar estiver se fortalecendo em relação a todas as outras moedas, mas estiver sendo inflacionado (só que menos inflacionado que as outras moedas), o preço do ouro irá subir.

Mas este seu cenário só seria possível se todas as outras moedas estivessem sendo fortemente desvalorizadas. Enquanto houver franco suíço, iene e alemães na zona do euro, difícil isso acontecer.

Abraços.
Saudações, Leandro.

Teus comentários me remeteram a
uma recente troca de posts que tive no MI !
A propósito, uma análise da relação entre ouro e petróleo talvez pudesse reforçar nosso argumento em comum. Afinal, parece-me improvável ser coincidência os produtores do metal em questão também terem abruptamente reduzido sobremaneira sua mineração e refino na década de 70 e de forma ainda mais intensa do que a supostamente levada a cabo pela OPEP, caso a explicação p/ o fortalecimento do primeiro em relação ao segundo (i.e. cruede mais barato em Au) também se baseasse no suposto "choque de oferta" ao qual frequentemente se atribuem praticamente todos os episódios de encarecimento do petróleo em US$...

Sobre o "desafio": "Sigo no aguardo de um único exemplo prático de dólar forte e commodities caras. E de dólar fraco e commodities baratas, pergunto: ao menos em tese, não seria possível ocorrer uma elevação (ainda que improvável, inclusive na atual conjuntura) do índice "DXY" (dólar em relação às moedas mais líquidas do mundo) durante algum tempo simultaneamente a uma alta nas cotações em USD de algumas commodities, configurando uma situação de inflação de preços global generalizada onde a moeda america seria nesta hipótese "a garota menos feia do baile" (de ForEx) ?

Att.
Prezado Paulo, obrigado pelo comentário, o qual nada alterou a constatação: o preço das commodities é cotado em dólar; consequentemente, a força do dólar é crucial para determinar o preço das commodities. Impossível haver commodities caras com dólar forte. Impossível haver commodities baratas com dólar fraco.

Perceba que seus próprios exemplos comprovam isso: você diz que a produção americana de petróleo atingiu o pico em 1972, e dali em diante só caiu. Então, por essa lógica era para o preço do petróleo ter explodido nas década de 1980 e 1990. Não só a oferta americana era menor (segundo você próprio), como também várias economia ex-comunistas estavam adotando uma economia de mercado, implicando forte aumento da demanda por petróleo. Por que então o preço do barril não explodiu (ao contrário, caiu fortemente)?

Simples: porque de 1982 a 2004 foi um período de dólar mundialmente forte.

"Período 1973/74: É consenso da indústria mundial de petróleo que a subida abrupta dos preços em 1973/74 deveu-se ao embargo árabe realizado pela OPEP[...]"

Nada posso fazer quanto a esse "consenso", exceto dizer que ele é economicamente falacioso. O preço do barril (em dólares) subiu durante toda a década de 1970 (e não apenas no período 1973-74). O barril só começou a cair a partir de 1982, "coincidentemente" quando o dólar começou a se fortalecer.

Será que foi a OPEP quem encareceu o petróleo de 1972 a 1982? Se sim, por que então em 1982 ela reverteu o curso? Mais ainda: se ela é assim tão poderosa para determinar o preço do barril do petróleo, por que ela nada fez de 1982 a 2004, que foi quando o barril voltou a disparar ("coincidentemente", de novo, quando o dólar voltou a enfraquecer)?

E por que de 2004 a 2012 (dólar fraco) o petróleo disparou? E por que desabou de 2013 a meados de 2016 (dólar forte)? E por que voltou a subir agora (dólar enfraquecendo)?

Sigo no aguardo de um único exemplo prático de dólar forte e commodities caras. E de dólar fraco e commodities baratas.

Se alguém apresentar esse exemplo, toda a teoria econômica está refutada.
Boa tarde Bruno., tudo tranquilo?

Advogados de uma maneira geral tem duas frentes: ou são interlocutores mediante a resolução de conflitos, ou analistas para evitar conflitos. Basicamente são especialistas em detalhes jurídicos, sendo obrigatório o talento nato em retórica, para expor a parte de seu cliente de forma objetiva, lírica e eloquente na mediação, e muita disciplina acadêmica para assimilar todos os enlaces dos códigos a que se propõe atuar.

Sob a batuta do Estado, apenas formados em direito (e aqui no Brasil postulantes ao exame da OAB) podem representar pessoas e empresas nas demandas da Lei. Basicamente, 90% dos advogados no Brasil são decoradores de Lei, tendo parco saber jurídico para analisar de forma contundente demandas mais complexas.

Já em um país libertário, basta a pessoa ter um grande saber jurídico, oratória razoável e ser um bom jogador de xadrez que pode advogar tranquilamente, podendo também adquirir títulos e certificados mediante associações privadas, com o único propósito de destacar aqueles que realmente tem o que é necessário para ser advogado para quem quiser contrata-lo.

Quanto a sua questão, seja pelo monopólio do Estado ou em um país livre, o advogado não propriamente cria riqueza, mas impede que a mesma seja perdida por um descuido na assinatura de um contrato, ou mesmo a ruína causada por uma ex mulher gananciosa. Na assinatura de contratos é como uma companhia de seguros, pois ao analisar os detalhes mitiga os riscos apontando erros e pegadinhas. Por outro lado, se for atuar em uma demanda já existente, seria mais ou menos como o corpo de bombeiros, para apagar o incêndio o mais rápido possível, antes que o fogo consuma tudo.

Prezado Leandro

Aprecio muito seus artigos e comentários, postados aqui no Instituto Mises. Inclusive, suas respostas a indagações minhas sempre primaram pela cordialidade e análise ponderada. E, em relação ao seu comentário acima, não discordo quanto à correlação existente entre uma commoditie e a moeda em que ela é comercializada.

No entanto, se me permite, gostaria de discordar parcialmente do seus comentários acima sobre a causa e efeito nos preços dos mercados do petróleo, a partir do chamado Choque Nixon (1971). Entre outras medidas, ele cancelou unilateralmente a conversão do dólar em ouro. Baseei meus comentários em inúmeros autores, que usamos na indústria, não para fins políticos, mas para nosso negócio (tenho 38 anos de indústria do petróleo).

Para melhor acompanhar meus comentários, é interessante analisar os mesmos acompanhado de dois gráficos:

1) Preço do petróleo entre 1986 e 2015, fonte: BP Global:
www.bp.com/en/global/corporate/energy-economics/statistical-review-of-world-energy/oil/oil-prices.html

2) Produção e importação de óleo cru nos EUA: //en.wikipedia.org/wiki/Petroleum_in_the_United_States#/media/File:US_Crude_Oil_Production_and_Imports.svg

Vou colocar os eventos em ordem cronológica, com meus comentários após aspas de seus comentários, as vezes com ... :

SEU COMENTÁRIO: Igualmente, a acentuada e abrupta desvalorização do dólar na década de 1970 ... : não era o petróleo que estava ficando escasso; eram as moedas, recém-desacopladas do ouro, que perdiam poder de compra aceleradamente.

MEU COMENTÁRIO:
- A indústria do petróleo nunca correlacionou a culpa do aumento dos preços do petróleo na década de 1970 como sendo por causa de escassez do produto.

- Ano de 1972: A produção total Americana atinge o pico, próximo a uma média diária de nove milhões de barris por dia (bpd) e, a partir deste ponto, entra num declínio acentuado e contínuo, só interrompido em meados dos anos 2000, por conta do crescimento estratosférico da produção americana está ligado ao boom do "shale oil" americano (óleo de folhelho).

- Período 1973/74: É consenso da indústria mundial de petróleo que a subida abrupta dos preços em 1973/74 deveu-se ao embargo árabe realizado pela OPEP contra os países que apoiavam Israel na Guerra do Yom Kippur. Entre o início e o fim do embargo os preços tinham subido de US$ 3/barril (US$ 14 hoje) para US$ 12/barril (US$ 58 hoje).

SEU COMENTÁRIO: Tanto é que, nas décadas de 1980 e 90, o barril do petróleo despencou (dólar forte).

MEU COMENTÁRIO: Período 1985-1999:

- Em 1986 a Arábia Saudita resolveu recuperar sua participação no mercado global (market share) aumentando sua produção média diária de 3,8 milhões bpd em 1985 para mais que 10 milhões bpd em 1986. As reservas sauditas são tão grandes que ela sempre pôde se dar o luxo de "fechar ou abrir torneiras" para controlar demanda e oferta. Mas, atualmente isto está começando a ser modificado.

- 1988: Com o fim da Guerra Irã-Iraque, ambos voltaram a aumentar substancialmente a produção média diária.

SEU COMENTÁRIO: O boom das commodities (principalmente minério e petróleo) na década de 2000 foi "auxiliado" pelo enfraquecimento do dólar.

MEU COMENTÁRIO: Principais eventos para o aumento quase contínuo dos preços na década de 2000:

- Final dos anos 1990 e início dos anos 2000: Crescimento das economias Americana e Mundial.

- Pós 11/01/01 e invasão do Iraque: crescente preocupação quanto a estabilidade da produção do Oriente Médio.

- Segunda metade da década: Combinação de produção declinante mundial com o aumento acelerado e contínuo da demanda asiática pelo produto, especialmente China.

A causa da produção mundial declinante está relacionada à enorme expansão da produção OPEP na década anterior e que inibiu o investimento da indústria em exploração (pesquisa para descoberta de novas jazidas). Para quem não é da área, investimentos em exploração de petróleo tem retorno de médio a longo prazo.

SEU COMENTÁRIO: a recente queda a partir de 2012 (dólar forte).

MEU COMENTÁRIO: A partir de 2014 a queda dos preços está ligada a dois grandes eventos:

- Aumento substantivo da produção nos EUA e na Rússia, sendo que em 2015 a produção Americana atingiu o mais alto nível em mais de 100 anos, com os EUA voltando a serem os maiores produtores mundiais após mais de 50 anos (Figura a seguir)

- O crescimento estratosférico da produção americana está ligado ao boom do "shale oil" americano (óleo de folhelho), com o avanço tecnológico do fraturamento hidráulico (hydraulic fracturing, or fracking), ela começou a ser utilizada com progressivo sucesso em reservatórios não convencionais como o shale oil. Com isto, nunca os estoques americanos estiveram tão altos. E, aqui o básico da economia de Adam Smith: oferta maior que demanda gera queda nos preços.

Saudações, Paulo









Não, Xiba. Continua sendo pirâmide do mesmo jeito.

Essa questão da Previdência brasileira é um assunto bastante interessante pelo seguinte motivo: talvez seja a única área da economia que não está aberta a opiniões ideológicas.

Não importa se você é de esquerda ou de direita; liberal, libertário ou intervencionista. Também pouco importa se você acredita que a Previdência atual seja superavitária (como alguns acreditam). O que importa é que o modelo dela é insustentável. E é insustentável por uma questão puramente demográfica.

E contra a realidade demográfica não há nada que a ideologia possa fazer.

Comecemos pelo básico.

Ao contrário do que muitos ainda pensam, o dinheiro que você dá ao INSS não é investido em fundo no qual ele fica rendendo juros. Tal dinheiro é diretamente repassado a uma pessoa que está aposentada. Não se trata, portanto, de um sistema de capitalização, mas sim de um sistema de repartição: o trabalhador de hoje paga a aposentadoria de um aposentado para que, no futuro, quando esse trabalhador se aposentar, outro trabalhador que estiver entrando no mercado de trabalho pague sua aposentadoria.

Ou seja, não há investimento nenhum. Há apenas repasses de uma fatia da população para outra.

Por motivos óbvios, esse tipo de esquema só pode durar enquanto a fatia trabalhadora for muito maior que a fatia aposentada. Tão logo a quantidade de aposentados começar a crescer mais rapidamente que a fatia de trabalhadores, o esquema irá ruir.

Portanto, todo o arranjo depende inteiramente do comportamento demográfico da população. A qualidade da gestão do INSS é o de menos. Mesmo que a Previdência fosse gerida por anjos probos, sagazes e imaculados, ainda assim ela seria insustentável no longo prazo caso a demografia não cooperasse.

E, no Brasil, ela já não está cooperando. Segundo os dados do IBGE, em 2013, havia 5,5 pessoas com idade entra 20 e 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos. Em 2060, a se manter o ritmo projetado de crescimento demográfico, teremos 1,43 pessoa com idade entre 20 a 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos.

Ou seja, a menos que a idade mínima de aposentadoria seja continuamente elevada, não haverá nem sequer duas pessoas trabalhando e pagando INSS para sustentar um aposentado.

Aí fica a pergunta: como é que você soluciona isso? Qual seria uma política factível "de esquerda" ou "de direita" que possa sobrepujar a realidade demográfica e a contabilidade?

Havendo 10 trabalhadores sendo tributados para sustentar 1 aposentado, a situação deste aposentado será tranquila e ele viverá confortavelmente. Porém, havendo apenas 2 trabalhadores para sustentar 1 aposentado, a situação fica desesperadora. Ou esses 2 trabalhadores terão de ser tributados ainda mais pesadamente para sustentar o aposentado, ou o aposentado simplesmente receberá menos (bem menos) do que lhe foi prometido.

Portanto, para quem irá se aposentar daqui a várias décadas e quer receber tudo o que lhe foi prometido hoje pelo INSS, a mão-de-obra jovem do futuro terá de ser ou muito numerosa (uma impossibilidade biológica, por causa das atuais taxas de fecundidade) ou excessivamente tributada (algo que não é duradouro).

Eis o fato irrevogável: contra a demografia e a matemática, ninguém pode fazer nada.

A não ser mudar totalmente o sistema.

Uma proposta para uma reforma definitiva da Previdência

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • mcmoraes  28/11/2011 07:00
    Muito bom! Por sorte não deixei passar esse artigo, pois não estou habituado a mais de 1 artigo por dia aqui no IMB. Que continue assim :)
  • Arion  28/11/2011 10:07
    O mais incrível é que a população geral não percebe que é ROUBADA quando o governo imprime dinheiro novo. Acho essa a maior de todas as fraudes e a mais bem sucedida delas já que os expoliados não percebem o modo que se dá o roubo. Pior ainda tem muitos que acreditam que isso é bom...
  • Castel  02/05/2016 23:34
    Inclusive, há uma corrente econômica vinculada a partidos politicos, que defende a tesses de que a expansão monetaria diminui a dívida publica, o que é um lamentável erro; exemplo: Estados Unidos vem praticando uma expansão monetária, media, de 7% e a dívida aumenta anualmente. O mesmo ocorre com a imensa maioria dos demais países, ricos ou pobres. Agressão às leis econômicas mais elementares, visto não haver dinheiro de graça, cria um panorama econômico futuro extremamente comprometido, cuja solução exigirá medidas traumáticas.
  • Andre Poffo  28/11/2011 10:11
    Mas espera lá! Como esse Kates sabendo do erro de Lord Keynes é um entusiasta do keynesianismo?
  • Rhyan  28/11/2011 13:56
    "Quanto maior for a colheita, maior será o poder de compra do agricultor. Já uma safra ruim, por outro lado, irá afetar enormemente a venda das mercadorias."

    Mas e a questão da oferta nos preços?
  • Leandro  28/11/2011 14:14
    É preciso deixar claro duas coisas:

    1) Para se consumir, antes é necessário produzir. Se a produção vai ser alta ou baixa é algo secundário; o que importa é que, para se consumir, antes é necessário produzir.

    É exatamente por isso que não procede o raciocínio keynesiano, amplamente difundido pela mídia, de que ‘crescimento econômico gera inflação’. Um aumento na demanda em um cenário com oferta monetária rígida não causa elevação geral dos preços. Afinal, para que uma pessoa possa demandar algo nesse cenário, ela precisa antes ter produzido algo -- e isso elevaria a oferta de bens e serviços para toda a economia (definição precípua de ‘crescimento econômico’), reduzindo os preços.

    Aumento da demanda só causa aumento de preços quando essa maior demanda surge em decorrência de um aumento da oferta monetária -- nesse caso, a pessoa não precisa produzir nada para poder demandar algo; ela simplesmente utiliza o dinheiro recém-criado e já aumenta o seu consumo.

    2) Quanto à pergunta específica sobre maior oferta gerar menores preços, ora, isso em nada altera a veracidade dos fatos. Menores preços permitem um maior volume de vendas e, consequentemente, uma receita ainda maior do que a receita obtida antes da redução dos preços.

    Um exemplo simples: um indivíduo A produz e vende 100 unidades de X a um preço de $10 cada uma. Sua receita total será de $1.000. Caso ele produza 120 unidades e consiga vender tudo, qualquer preço acima de $8,40 (queda de 16% nos preços) já lhe garantirá uma receita maior do que os $1.000 originais. E dado que houve queda nos preços, não é desarrazoado imaginar que haverá um aumento na demanda.

    Saber calibrar quanto deve ser o aumento na produção e quanto deve ser a redução nos preços de modo a maximizar a receita é justamente a função indelével de um empreendedor.

    Não é vida fácil.

    Grande abraço!
  • Rhyan  28/11/2011 14:38
    Obrigado, Leandro!

    Isso reforça minha idéia de que devo ler logo algo de microeconomia, de preferência do Kirzner.

    Abraço!
  • Giovanni  28/11/2011 17:01
    A oferta não cria a demanda, a oferta é a demanda.
  • anônimo  29/11/2011 09:29
    Só lembrando que o preço é formado a partir do custo médio de produção que levará aos rendimentos decrescentes - O IMB deveria postar um artigo sóbre os rendimentos decrescentes aqui..
  • Tiago Moraes  08/12/2011 05:54
    Rendimento decrescente é a função da interação entre Receita Marginal e Custo Marginal sempre tendendo a zero e o Custo médio é o produto da divisão do volume produzido pelo custo unitário do bem.
  • lene angeli  07/12/2011 19:29
    isso nada mais é q atendimento à função social dos bens
  • anônimo  17/12/2011 05:00
    Leandro, se fosse possível gostaria de ver seu comentário sobre o post abaixo. Participo de um fórum e esse artigo foi lançado para os participantes, gostaria de respondê-lo mas poderia me equivocar com alguns pontos. Acho que a recessão é um efeito de uma política economica incorreta.. vc poderia esclarecer melhor? Desculpe pelo tamanho do texto, obrigado.


    Recessão é uma política ou efeito?
    Mailson Ferreira Da Nóbrega na Veja

    A esquerda brasileira desenvolveu um estranho raciocínio: a recessão seria o objetivo de certas políticas governamentais, não o seu efeito. Isso começou nos anos 1980, quando sobreveio uma severa crise econômica e tal raciocínio era usado para criticar o regime militar. A ideia deitou raízes.
    A recessão se caracteriza por queda de produção, do emprego, da renda, do consumo e do investimento. Nos Estados Unidos, ela se define como "um declínio significativo de atividade por toda a economia , com duração de alguns meses e percebido no PIB, na renda real, no emprego, na produção industrial e nas vendas no atacado e no varejo". Embora não seja oficial, diz-se que a recessão se instala quando o declínio ocorre por dois trimestres consecutivos.
    A recessão tem várias causas. O exemplo, é o estouro de uma bolha imobiliária, quando deprime o preço dos imóveis, diminui a riqueza das famílias e as torna menos propensas a consumir. Outro, é a inflação alta, que corrói a renda dos trabalhadores e seu poder de consumo. A causa mais comum é a ação do governo para ajustar o ritmo de atividade econômica e assim resolver problemas de crescimento excessivo, alta perigosa da inflação, endividamento público insustentável, crise no balanço de pagamentos ou parada súbita de crédito externo. Nem sempre isso acarreta recessão. Quando tal ação é bem calibrada e adotada oportunamente, apenas reduz o ritmo de crescimento, como aconteceu na economia brasileira neste ano.
    A teoria econômica evoluiu muito desde 1776, quando Adam Smith, em célebre obra, investigou as causas das riquezas das nações. A teoria mostrou como funcionam os mercados, o papel da produtividade, as formas de aumentá-la e a função das instituições. Contribuiu assim para a formulação das políticas que trouxeram mais desenvolvimento e bem-estar. Apesar disso, a economia é tida como a "ciência sinistra" (dismal science). O epíteto foi criado pelo historiador escocês Thomas Carlyle (1795-1881), em resposta às ideias de Thomas Malthus (1766/1834). Malthus previa fome e inanição para a humanidade, pois a população cresceria mais rapidamente, do que a produção de alimentos. Ela estava errado, mas a expressão ficou.
    No Brasil, os economistas também contribuíram para o desenvolvimento. As ideias de Persio Arida e André Lara Resende ajudaram a vencer o entranhado processo inflacionário. Acontece que, se defenderam reformas em favor das maiorias, que causam perdas a minorias, os economistas serão rotulados de socialmente insensíveis, contra os aposentados ou inimigos do desenvolvimento.
    Quando o médico prescreve um tratamento, o objetivo é o bem estar do paciente. Ninguém dirá que ele planeja o sofrimento. Mas, se os economistas sugerem medidas de austeridade para resolver desequilíbrios e restabelecer o crescimento sustentável, diz-se que eles propugnam ações para promover a recessão, o desemprego e a destruição de conquistas sociais.
    Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, o receituário dos economistas, "salvo os keynesianos e os (poucos) marxistas", é conservador. Esse receituário, diz ele, "propõe corte de gastos públicos, redução de direitos sociais, até minirecessões. A presidente Dilma, talvez prisioneira do raciocínio de outros tempos, não cansa de repisá-lo: "O que nós temos visto na América Latina é uma espécie de repetição das nossas duas décadas perdidas, nas quais a recessão foi imposta como a saída para a crise".
    O receituário do médico incorpora esperança e simpatia, pois se sabe que o objetivo dele é a cura da doença. Sua ação é mais bem percebida por todos. A expectativa maior é de êxito. O diagnóstico é mais preciso, especialmente com os avanços da tecnologia. O economista não tem essas vantagens. No tratamento da crise , lida com incertezas, complexidades e situações inéditas. Nessas ocasiões, seu trabalho envolve questões difíceis de entender: juros, câmbio, riscos, déficit público, superávit primário. Os políticos e pessoas menos informadas podem associar o trabalho deles à desventura. Os economistas tendem a errar mais do que os médicos, mas seu foco jamais será a recessão pela recessão ou a austeridade sem propósito.
  • Marcio Estanqueiro  18/12/2011 07:27
    Leandro, me desculpe! No texto acima eu esqueci de dar meu nome. De qualquer forma gostaria, se possível, de uma análise sua. Obrigado.
  • Leandro  18/12/2011 19:46
    Prezado Marcio, confesso não ter entendido muito bem a intenção do autor do artigo. Não entendi o que ele estava defendendo. No entanto, a definição de recessão é uma só, e não permite variâncias: uma recessão nada mais é do que uma série de (desejáveis) correções na estrutura de uma economia que foi artificialmente inflada por injeções monetárias do banco central. Uma recessão é apenas uma fase de correção dos investimentos insustentáveis cometidos no período expansionista.

    Recessões ocorrem porque parte do capital da economia foi desperdiçada tanto em investimentos insustentáveis quanto na farra consumista, ambos fenômenos provocados pela expansão do crédito. (Recessões nada têm a ver com baixa demanda ou baixo consumo. Estes são consequências de uma recessão, e não a causa dela.)

    Por isso, em vez de ser combatida, toda recessão deve ser aceita e deixada livre para expurgar todos os desequilíbrios existentes na economia.

    A importância da recessão está no fato de que ela libera recursos escassos (capital e mão-de-obra) de um setor que os estava sobreutilizando, e faz com que eles sejam alocados para setores que estavam subutilizados, e que agora estão precisando desses fatores. O aumento no desemprego que ocorre durante uma recessão é uma maneira de o mercado mostrar que determinados setores estavam com excesso de mão-de-obra e consumindo capital que deveria estar sendo utilizado por outros setores, que por sua vez estavam com escassez de fatores de produção. Trata-se de uma retirada de recursos de setores que não mais possuem a mesma demanda de antes. E isso representa poupança de recursos; isso evita o desperdício de recursos escassos, algo essencial para a saúde de qualquer economia.

    Não adianta tentar utilizar de meios artificiais para se evitar uma recessão, pois ela um dia virá inevitavelmente. E quanto mais ela for adiada, mais dolorosa ela será quando vir. Por isso, é inútil tentar evitar que certas empresas quebrem e totalmente contraproducente utilizar dinheiro público e outros pacotes governamentais para tentar manter empresas falidas operando.

    Qualquer outra definição de recessão que não seja esta certamente estará sendo proferida por gente ansiosa por uma desculpa para que o governo tome dinheiro de uns e repasse outros (normalmente pessoas com fortes conexões políticas).

    Grande abraço!
  • Gustavo  26/08/2013 03:47
    Li o texto e discordo. Não tive oportunidade de ler tudo que Keynes escreveu, mas pelo menos na Teoria Geral não lembro nenhuma parte onde o Keynes diga que a Lei de Say é errada pois se alguém produzir boné sem aba ninguém vai comprar. Tá no capítulo 2 da Teoria Geral que o problema da Lei de Say é que ela supõe que poupança é adiamento de consumo futuro, quando não está claro que isso seja verdade. Isso pode ser um argumento mais ou menos verídico, mas o texto postado por vocês apresenta uma versão distorcida da opinião de Keynes sobre a Lei de Say.
  • Leandro  26/08/2013 04:13
    A Lei de Say nunca supôs que "poupança é adiamento de consumo futuro". Aliás, tal frase não faz o mais mínimo sentido. O que seria um adiamento de consumo futuro? Seria algo como "estou pensando em consumir daqui a um ano, mas mudei de idéia e só irei consumir daqui a dois anos"? Nonsense total.

    Por maior que seja nossa aversão a Keynes, não é correto dizer que o indigitado afirmou tamanho disparate.

    A verdadeira Lei de Say diz apenas que tudo o que alguém produz representa, ao mesmo tempo, uma demanda por outras coisas.  Se há mais sapatos produzidos, esses sapatos serão oferecidos no mercado em troca de outros bens.  A expressão "a oferta cria demanda" significa que a produção de um bem permite que seu ofertante possa agora adquirir outro bem; significa que "a oferta de cada produtor cria sua demanda pelas ofertas de outros produtores".  Dessa forma, um equilíbrio entre oferta e demanda sempre existirá em termos agregados (embora Say reconheça que pode haver escassez e fartura em relação a produtos específicos).

    Em última instância, os bens não são trocados por dinheiro -- o dinheiro é apenas um meio de troca; os bens são trocados por outros bens.  "Você quer minhas maçãs?  O que você me dá em troca delas?"  Say acreditava que a criação de mais dinheiro simplesmente cria inflação de preços; mais dinheiro perseguindo a mesma quantidade de bens.
  • Gustavo  26/08/2013 04:48
    Posso ter me expressado de maneira equivocada. Parece-me que o problema do Keynes com a lei de Say é de que ele não vê a poupança como consumo.

    "Os que assim pensam foram, contudo, vítimas de uma ilusão de
    óptica que confunde duas atividades essencialmente diferentes. Julgaram,
    erradamente, que existe um nexo unindo as decisões de abster-se
    de um consumo imediato às de prover a um consumo futuro, quando
    não há nenhuma relação simples entre os motivos que determinam as
    primeiras e os que determinam as segundas" Teoria Geral, Cap. 2, p. 52.

    Lendo o texto novamente, talvez nessa parte ele refute a opinião do Keynes.

    "Infelizmente, Keynes não foi capaz de entender a Lei de Say. Ao incorretamente afirmar que a lei diz que "a oferta cria sua própria demanda", ele na realidade sugeriu que o objetivo de Say era dizer que qualquer coisa que for produzida será automaticamente comprada. Logo, a Lei de Say não pode explicar os ciclos econômicos."

    Mas ainda assim me parece que o texto dá a entender outra coisa.
  • Emerson Luis, um Psicologo  29/11/2013 18:27

    Uma frase concisa fora do seu contexto pode ser muito mal interpretada.

    * * *
  • Henrique  25/06/2014 20:36
    Enquanto minhas habilidades com a retórica seguem em desenvolvimento, costumo perder algumas discussões para amigos keynesianos por não conseguir dar uma resposta de bate pronto às suas colocações.

    Compreendo o que a Lei de Say mostra, que a oferta gera a sua demanda. O problema é que os keynesianos, mesmo concordando com essa lei depois que eu explico do que se trata, continuam firmemente crendo que também é possível fazer a "economia girar" pelo lado da demanda, como se a relação entre oferta e demanda fosse um moto-perpétuo, e que não importa onde "injetamos" incentivos.

    O argumento base deles é o seguinte: dado que as pessoas demandam N produtos do tipo X. Sendo X um produto essencial, ao estimular o consumo desse produto, estamos dando um sinal aos produtores para que produzam mais (N+M), logo, nesse caso, a demanda acabaria puxando a oferta. Da mesma forma, um consumo em baixa (N-P produtos demandados) gera dois efeitos: os preços caem e a produção diminui. O "pulo do gato" pra eles é dizer que se isso se espalhar para toda a economia, temos uma recessão. Eis aí a necessidade de se estimular a tal da demanda agregada.

    Eu sei que, por definição, a demanda agregada é infinita, mas quem nunca ouviu falar de economia austríaca não sabe disso. Acaba sendo um caminho meio tortuoso ter que explicar TUDO pra essa galerinha, partindo do princípio da escassez, explicar o que são recursos e o que são demandas, praxeologia, a relação de ganho-ganho das trocas comerciais, etc, etc, etc...

    Dado que a teoria keynesiana faz sentido -- a priori -- o que eu queria saber é se existe uma forma de explicar isso "for dummies", sem ter que dar uma aula completa de economia austríaca (algo que eu não estou apto a fazer ainda e mesmo que estivesse, acabaria cansando o interlocutor).

    Meu intuito não é nem convencer keynesianos convictos, mas trazer aqueles que não tem uma ideia formada sobre o assunto para o nosso lado, fugindo do senso comum que foi martelado em nossas cabeças pela economia mainstream desde sempre.
  • Lopes  25/06/2014 23:00
    Simples, Henrique: A poupança não é esporte e o capital não é infinito. Respectivo à relação N-P; ao abster-se do consumo, um consumidor visa dois propósitos: realizar encaixes de médio prazo em caso de necessidade (vide uma emergência médica) ou acumular recursos para o consumo de um bem que não pode ser adquirido de imediato (vide um imóvel, por exemplo; uma meta de longo prazo). Dado generalizado em toda economia, ocorrerão dois resultados:

    (1) - Diminuição das taxas de juros devido ao grande volume de poupança, o que barateia investimentos de longo prazo e aumenta sua margem de lucro (colocando bens de capital em perspectiva, principalmente; falaremos disso mais tarde), o que convém necessariamente às intenções dos consumidores ao decidirem pela abstenção do consumo imediato. Algo torna-se evidente: A função do crédito relativa ao uso do conhecimento em sociedade é justamente temporal - deslocar o capital em função das preferências temporais dos consumidores.

    Uma breve música que explica basicamente a função de conhecimento do preço do crédito:


    (2) - Valorização do dinheiro que é mantido em circulação para consumo. Tal qual os preços crescem durante um período de expansão artificial de crédito devido ao fato de a demanda agir muito mais depressa que a oferta (obviamente, a produção de um bem é um processo custoso e demorado); a situação oposta ocorre quando há abstenção do consumo.

    ----------------------------------------------------------------
    Sobre a demanda por bens de consumo: Evidenciado por Hayek e, se não me engano, pela 4º proposição de John Stuart Mill; há dois usos viáveis para o capital: ou ele é voltado à aquisição de bens de capital (que barateiam a produção, criam produtos mais competitivos e por isso, mais acessíveis; e assim, geram lucro e produtividade) ou à produção de bens de consumo em demanda.

    A verdade é que ambos os fins são mutuamente exclusivos: Quanto mais capital for deslocado para a produção de bens de consumo, menos atrativa será a aquisição de bens de capital. Por tal motivo, é mister discriminar que em momentos de expansão creditícia artificial, por exemplo, ocorre crescimento diminuto na produtividade da economia. O fator temporal também presta um grande atrativo aos bens de consumo: bens de capital representam meramente uma lucratividade de longo prazo devido aos seus altos custos, porém tornando-se já muito mais lucrativos apenas com a diminuição natural das taxas de juros e a necessidade de maior acessibilidade para atender às demandas de um mercado consumidor focado na poupança (que tenderá a preferir bens de consumo mais acessíveis).

    A verdade é que dado contínuo, uma constante explosão de demanda jamais tornaria a economia mais produtiva, pois é logicamente impossível de fazê-lo; e a produtividade o grande fator diferencial no aumento da quantidade de bens e serviços acessíveis a um consumidor (riqueza). Peço perdão pelo excesso de tautologia, é que estou cansado.

    Aqui estão uns artigos que ajudarão:

    Murray Rothbard refutando a abstenção de consumo como algo negativo.
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1526
    Por que os bens de capital são o fator mais discriminador entre sociedades ricas e pobres?
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1457
    Fantástico artigo do 'Bira sobre a 4º proposição de Mill e seu paralelo com os usos do capital de Hayek:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1503
    Um excelente resumo de todas as etapas do Keynesianismo e sua insensatez.
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=629
  • Gabriel  10/12/2015 00:50
    Boa noite. Eu entendi que antes do consumo, logicamente, vem a produção. Mas antes dos dois vem a demanda certo? Suponhamos que um único indivíduo numa ilha nunca tenha fome, então sua demanda por comida é zero, por tabela, sua produção e consumo de qualquer coisa relacionada à comida também serão zero. Então não estaria correto dizer: a demanda gera a produção que posteriormente gera o consumo? Dando sentido a teoria do Keynes de incentivar a demanda? Abraços.
  • Leandro  10/12/2015 11:15
    "Suponhamos que um único indivíduo numa ilha nunca tenha fome, então sua demanda por comida é zero, por tabela, sua produção e consumo de qualquer coisa relacionada à comida também serão zero."

    Correto.

    "Então não estaria correto dizer: a demanda gera a produção que posteriormente gera o consumo?"

    A demanda faz com que as pessoas tenham estímulo para produzir. Ponto.

    Mas a demanda, por si só, não possibilita a produção.

    Para que haja produção, é necessário haver ferramentas, maquinários e bens de capital em geral. E para que haja essas coisas, elas têm de ter sido anteriormente produzidas. E para que elas tenham sido produzidas, várias pessoas tiveram de poupar (deixar de consumir) para permitir que matéria-prima estivesse disponível para a construção dessas máquinas, ferramentas e bens de capital.

    "Estimular a demanda" não apenas não faz surgir bens de capital, como na realidade dificulta o surgimento destes. Se todo mundo estiver consumindo desbragadamente (porque a "demanda foi estimulada") não haverá nem vergalhões e cimento para construir edifícios.

    "Dando sentido a teoria do Keynes de incentivar a demanda?"

    Desde que o mundo é mundo, a dificuldade sempre foi a de criar oferta, e nunca a de criar demanda. Criar demanda é fácil. Aliás, demandar coisas é algo natural no ser humano. A partir do momento em que saímos da cama, estamos demandando coisas. Nunca deixaremos de demandar coisas, seja para nosso bem-estar, seja para nosso lazer, seja para nosso luxo, seja para nossa saúde. Por definição, é impossível o ser humano sofrer de um problema de baixa demanda.

    A encrenca sempre esteve na produção. Produzir é que o segredo. Demandar é fácil e natural, produzir é trabalhoso e complicado.

    Aumentar a demanda é algo fácil (no extremo, pode ser facilmente resolvido pela simples criação de dinheiro); já criar oferta é que são elas.

    Demanda sem oferta gera carestia, escassez e colapso econômico. (Vá à Venezuela e veja se há algum problema de demanda). Oferta sem demanda gera apenas falências localizadas seguidas de um redirecionamento de recursos escassos para setores econômicos mais demandados pelos consumidores (cujas demandas continuam existindo, tendo apenas sido alterada para outras áreas. Antes a demanda era por máquinas de escrever; agora é por notebooks).

    E onde se concentram as políticas econômicas? Na demanda, e não na oferta.

    Todas as políticas econômicas -- desde aumento de gastos até manipulação de juros, passando por tarifas de importação e reservas de mercado -- sempre procuram atacar a demanda, e nunca a oferta. Até mesmo cortes de impostos são feitos para se estimular a demanda e não para facilitar a oferta. Por isso a estagnação econômica.
  • Henrique  10/12/2015 11:16
    O erro da sua análise está justamente na premissa: "se o indivíduo não tivesse fome..."

    Acontece que no mundo real não é assim, as pessoas sentem necessidade de comer, de se vestir, de se comunicar, etc.

    As demandas já existe naturalmente. São infinitas.

    O papel do empreendedor é justamente o de tentar entender quais as demandadas mais urgentes que os demais indivíduos desejam ter satisfeitas.
  • Gabriel  10/12/2015 15:33
    "Para que haja produção, é necessário haver ferramentas, maquinários e bens de capital em geral. E para que haja essas coisas, elas têm de ter sido anteriormente produzidas. E para que elas tenham sido produzidas, várias pessoas tiveram de poupar (deixar de consumir) para permitir que matéria-prima estivesse disponível para a construção dessas máquinas, ferramentas e bens de capital."

    Mas ainda sim foi necessário existir, antes disso, uma demanda certo? Demanda esta que não se transformou em consumo imediato, mas sim em poupança para, futuramente, uma produção e consumo maiores. Então, ao meu ver, os incentivos feitos para aumentar a demanda, pode destravar a economia, mas, por ser algo artificial, sempre vai incentivar mais o consumo imediato do que a poupança-produção-consumo, gerando, assim, inflação e uma má alocação de recursos. Eu entendi o que disse e concordo. Só quis frisar que me parece tentador manipular a demanda, como fez Keynes, já que é ela que influi na poupança, produção e consumo.
  • Dornelles  10/12/2015 15:54
    "Demanda esta que não se transformou em consumo imediato, mas sim em poupança"

    Tal salto lógico não fecha. A demanda (consumo) não se transforma em poupança. A demanda (consumo), por definição, é o oposto da poupança.

    "Então, ao meu ver, os incentivos feitos para aumentar a demanda, pode destravar a economia, mas, por ser algo artificial, sempre vai incentivar mais o consumo imediato do que a poupança-produção-consumo"

    Também não faz sentido. Se você quer estimular o consumo (demanda) não tem como, ao mesmo tempo, você estimular a poupança.

    "Mas ainda sim foi necessário existir, antes disso, uma demanda certo?"

    O que você pode estar querendo dizer -- mas não está conseguindo se expressar -- é que a demanda gera um estímulo psíquico para a produção. Ok. Mas a demanda, por si só, não faz com que coisas se materializem para ser consumidas.
  • Gabriel  10/12/2015 16:08
    Você não está confundindo demanda com consumo?

    "O que você pode estar querendo dizer -- mas não está conseguindo se expressar -- é que a demanda gera um estímulo psíquico para a produção. Ok. Mas a demanda, por si só, não faz com que coisas se materializem para ser consumidas."

    Exato, a demanda é o gatilho para a produção e o consumo. Eu posso preferir consumir uma certa quantidade agora ou consumir mais futuramente[o que me leva a poupar no presente]. Ambas as hipóteses só existem porque, antes, existiu a demanda[se não quiserem falar demanda, usem qualquer outro nome que quiserem dar]. O fato é que antes da produção e do consumo existe algo, um gatilho.
  • Dornelles  10/12/2015 17:14
    Ora, o consumo é a manifestação da demanda. Demanda sem consumo é apenas desejo psicológico, algo inócuo.
  • Gabriel  10/12/2015 17:28
    Correto, não estou dizendo que não.
  • Carlos Marrasca  15/02/2016 23:56
    É como demandar um lanche do McDonalds sem que ele nunca tenha sido produzido. O consumo vem somente depois da produção, somente depois do potencial consumidor conhecer o produto e se interessar por ele. Nesse meio tempo, o empreendedor assume o risco de queimar sua poupança em um produto que pode não ter aceitação, por isso, tem o direito moral do lucro.
  • Josélton   17/09/2016 06:02
    Isso não é incompatível com a teoria austríaca que a demanda antecede a oferta?
  • Say   17/09/2016 13:33
    Oi?!

    Ora, é exatamente o contrário! A Escola Austríaca é totalmente crítica a essa ideia de que demanda e consumismo geram oferta e crescimento. Essa ideia de demanda gerar oferta é puramente keynesiana.

    Para austríacos, é a oferta todo o ponto de partida. Sem oferta, não há nada.

    Primeiro vem a oferta. Depois, só depois, pode vir a demanda. Como é que você vai consumir algo que nem sequer foi produzido?

    O consumismo não gera crescimento econômico - e sua defesa é o cerne da teoria keynesiana

    Produção versus consumo - a confusão que causa miséria

    O crescimento econômico é fácil e natural - basta o governo permitir

    Em suma, de nada adianta haver demanda se não houver produção. E não há como haver produção se não houver poupança e investimento. A encrenca está em produzir, e não em demandar.

    Demandar, todo mundo demanda. Ao acordar e sair da cama você já está demandando (alimentos, energia elétrica, água, gasolina para o carro etc.). Demandar é fácil. Produzir é que são outros quinhentos. Produzir é que é a encrenca. Toda a dificuldade do mundo está em saber como produzir.

    O simples fato de haver demanda não garante produção.

    Há uma enorme demanda para a cura do câncer. Mas cadê a oferta?
  • Josélton  17/09/2016 14:39
    Muito obrigado pela resposta, que deus o abençoe.


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