Como o assistencialismo corrompeu a Suécia
por , quarta-feira, 18 de junho de 2008

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As pessoas mais velhas na Suécia dizem que ser sueco significa saber como suprir as próprias necessidades, saber cuidar de si próprio e nunca ser um fardo para o ombro alheio. Independência e trabalho duro eram as qualidades básicas para se ter uma vida decente, e representavam, acima de tudo, a idéia básica da moralidade. Isso foi há menos de cem anos.

Minha falecida avó costumava dizer que algo de errado havia acontecido com o mundo. Ela tinha orgulho de jamais ter pedido ajuda, de sempre ter sido capaz de valer-se de si própria e de seu marido, e do fato de eles terem podido cuidar de sua família durante toda a vida. Ao falecer com a respeitável idade de 85 anos, tenho a felicidade de dizer que ela se foi com aquela dignidade ainda intacta. Ela nunca foi um fardo.

Minha avó, nascida em 1920, pertencia à última geração a ter aquele orgulho pessoal que é tão especial, a ter uma moralidade firme e profundamente enraizada, e que era autônoma e independente na vida, não importasse o que viesse — eram os senhores únicos do próprio destino. As pessoas da geração dela testemunharam e agüentaram uma ou duas guerras mundiais (apesar de a Suécia nunca ter participado de nenhuma) e foram criados por fazendeiros e operários suecos pobres. Eles testemunharam e foram a força motora por trás do "milagre" sueco.

Sua moralidade assegurava que eles poderiam sobreviver em quaisquer condições. Se eles se encontrassem em uma situação em que não fossem capazes de viver com seus salários, eles apenas iriam trabalhar mais pesadamente e por mais tempo. Eles eram os arquitetos e os operários da construção de suas próprias vidas, mesmo que isso frequentemente significasse trabalho duro e contínuas situações aparentemente desanimadoras.

Eles alegremente se disporiam a ajudar aqueles em necessidade, mesmo se eles tivessem muito pouco a oferecer, mas provavelmente não aceitariam qualquer ajuda que lhes fosse oferecida. Eles tinham orgulho da competência que tinham para cuidar de si próprios; eles apreciavam a independência em relação a terceiros, a independência de nunca ter de pedir ajuda. Eles achavam que se não fossem capazes de cuidar de si mesmos, então não teriam o direito de pedir auxílio a ninguém.

Entretanto, de alguma maneira, eles caíram nas promessas de políticos que diziam que iriam suprir "os fracos", uma categoria de pessoas que não existia naquela época: quem iria admitir ser incapaz de cuidar de si próprio? Mas eles eram pessoas trabalhadoras e de bom coração, e provavelmente pensaram que uma pequena contribuição para prover aqueles em condição muito pior seria uma ação típica de um Bom Samaritano.

Teoricamente, é talvez compreensível e até mesmo invejável. Seus pais e eles já estavam participando voluntariamente de grupos privados locais, arranjando apoio financeiro para aqueles que necessitavam de assistência médica ou que tinham perdido o emprego. Em tempos ruins, como recessões ou rápidas mudanças sociais, tudo isso era um grande ônus, embora voluntário e feito por interesse próprio. Uma versão em larga escala desse mesmo tipo de arranjos mútuos para ajudar terceiros provavelmente soou como uma boa idéia, mesmo que ela tivesse de ser financiada coercivamente através da tributação.

O problema é que nesse momento o estado assistencialista foi criado e ele iria mudar dramaticamente a vida das pessoas e afetar sua moralidade de maneira fundamental. Esse estado de bem-estar poderia ter sido um projeto de sucesso se as pessoas tivessem continuado tendo o orgulho e a moralidade de prover a si próprios e somente procurassem amparo se realmente necessitadas. Ou seja, a criação de um estado assistencialista possivelmente poderia funcionar em um mundo ceteris paribus, que é o que o estado assistencialista de fato presume. Mas o mundo está em mudança constante, e por isso um estado assistencialista requer que as pessoas sejam mais fortes e moralmente superiores às pessoas em sociedades que não possuem um estado assistencialista.

Esse conhecimento, entretanto, não havia sido adquirido — e ainda não foi. Ao invés disso, as pessoas pensaram que coisas como o orgulho pessoal pelo trabalho e pela família eram algo natural, algo que não precisava ser trabalhado e estimulado; por essa perspectiva, essa proposta política deve ter parecido um bom negócio. Tudo o que elas tinham de fazer, disseram-lhes, era deixar a política (e um pouco de poder) para os políticos. Esse argumento, lamento comunicar, ainda parece válido para o populacho sueco; os suecos normalmente saúdam propostas para dar mais poder aos políticos, e eles mesmos tendem a solicitar mais impostos.

A moralidade decente já se foi há muito. Foi completamente destruída em pouco mais de duas gerações — por benefícios públicos assistencialistas e pelo conceito de que há um direito ao assistencialismo.

Os filhos do estado assistencialista

Os filhos da geração dos meus avós, meu pais dentre eles, rapidamente aprenderam e adotaram uma nova moralidade baseada nos "direitos" assistencialistas oferecidos pelo sistema de seguridade social. Enquanto que a geração mais velha não aceitaria ser dependente de terceiros (incluindo receber benefícios assistencialistas do estado), eles não relutaram em enviar a geração mais nova para ser educada em escolas públicas. Certo estou de que eles nunca pensaram ser um "direito" ter seus filhos educados. Antes, eles aceitaram e agradeceram a oportunidade de seus filhos terem uma chance que eles mesmos nunca tiveram — uma educação "gratuita".

Assim, a geração de meus pais freqüentou escolas públicas onde a eles foi ensinado matemática e idiomas, bem como a superioridade do assistencialismo e a moralidade do estado. Eles aprenderam o funcionamento da maquinaria do estado assistencialista e adquiriram uma concepção (errônea) totalmente nova sobre direitos: todos os cidadãos desfrutam de um direito — simplesmente pelo fato de serem cidadãos — a educação, a saúde, ao seguro-desemprego e a seguridade social.

Ser um indivíduo — foi-lhes ensinado — significa ter direito a receber auxílios para suas necessidades individuais. Todo mundo tem direito a todos os recursos necessários para se buscar a felicidade própria e a da sociedade, foi-lhes dito. E todo mundo deve desfrutar do direito de colocar seus filhos em creches estatais enquanto estiver no trabalho, tornando-se possível para cada família ganhar dois salários (mas sem tempo suficiente para criar seus próprios filhos). As oportunidades para a "boa vida", pelo menos financeiramente, devem ter parecido colossais para as gerações mais velhas.

Essa nova moralidade permeou o populacho e se tornou o estado "natural" das coisas, ao menos em suas mentes. Essa geração, nascida durante as duas ou três décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, tornou-se consideravelmente diferente da geração de seus pais tanto moralmente como psicologicamente. Eles se tornaram habituados ao enorme crescimento econômico do pós-guerra (graças ao fato de a Suécia nunca ter entrado nas guerras) e aos cada vez maiores direitos assistencialistas concedidos por um estado em crescimento acelerado. (Para sustentar o crescimento do estado assistencial e satisfazer a demanda popular por benefícios, o governo sueco desvalorizou a moeda várias vezes durante as décadas de 1970 e 1980).

Os efeitos sobre a sociedade advindos do crescimento dessa geração e sua conseqüente entrada no mercado de trabalho foram principalmente dois: aumento da pressão pública para mais políticas progressivas; e um fracasso em larga escala, por toda a sociedade, em se criar filhos independentes e virtuosos, capazes de serem donos de si próprios pelo resto da vida.

A essa altura, a mudança moral e filosófica ocorrida na sociedade tornou-se aparente. Enquanto que no início do século XX os Social Democratas, um poder hegemônico na política sueca por todo o século (e além), haviam demandado cortes de impostos para tirar de sobre os trabalhadores um fardo desnecessário, hoje esse partido rapidamente se transformou em um tributarista feroz e defensor entusiasmado do assistencialismo, e segue pedindo por mais reformas especiais e "emancipadoras". A massa votante, filhos do estado assistencialista, dependentes do sistema, apoiou os aumentos de impostos, que rapidamente ultrapassaram 50%. E eles exigiram que os benefícios sociais, sempre às custas do contribuinte, fossem maiores que os impostos pagos.

A mudança política havida assim que os filhos do estado assistencialista cresceram e começaram a participar da política foi maciça. As revoltas estudantis de 1968, de cunho comunista, provavelmente representaram o pico dessa geração radical exigindo mais para si mesmo através da redistribuição estatal; eles não queriam assumir responsabilidade pessoal por suas vidas, nem jamais pensaram em ter de trabalhar arduamente para se proverem a si próprios. "Tenho necessidades", eles argumentavam, e dessa reivindicação eles diretamente inferiram ter o direito a ter essa necessidade satisfeita — fosse ela comida, abrigo ou um carro novo.

Considerando que meus pais misteriosamente parecem ter herdado muito da "velha" forma de moralidade, a maioria das pessoas da idade deles, e principalmente aqueles mais novos, são paradigmaticamente diferentes da geração de seus pais. Eles são filhos do estado de bem-estar social e são plenamente cônscios dos benefícios assistencialistas aos quais eles têm "direito". Eles não ponderam sobre de onde vêm esses benefícios, mas são bem céticos quanto a políticos os quais eles pensam que podem cortá-los. "Mudança" rapidamente se tornou uma palavra indesejável, já que ela necessariamente implica uma mudança no sistema no qual as pessoas dependem parasiticamente.

Com essa geração, o fato outrora tido como verdadeiro de que a produção precede o consumo foi substituído pela crença de que todos têm um "direito humano" natural e inviolável aos serviços assistencialistas oferecidos pelo estado. Através dos poderosos sindicatos, os suecos assalariados foram premiados com aumentos anuais, independentemente da produtividade real; e com o tempo, aumentos salariais anuais se tornaram uma normalidade. As pessoas que não conseguiam um aumento passavam a se considerar "punidas" por seus empregadores malvados, e assim começaram a haver demandas cada vez maiores para ajudas legais na batalha contra empregadores. As pessoas têm o "direito" a um salário melhor no ano seguinte, assim como o salário atual deve ser melhor que o do ano passado; e por aí vai o pensamento.

Essa mudança na percepção foi, como vimos, precedida por uma mudança nos valores. A mudança social também mudou as condições para a filosofia e, assim, novas e estranhas teorias destrutivas emergiram. As crianças dessa geração, nascidas nas décadas de 70, 80 e 90, tiveram em comum uma criação "livre" (baseada nos ideais de 1968), significando essencialmente uma infância "livre de regras" e "livre de responsabilidades". Para essa geração não há qualquer causalidade na vida em sociedade; o que quer que você faça não é sua responsabilidade — até mesmo ter filhos. Essa é a mentalidade dos atuais jovens adultos da sociedade sueca.

Os netos do estado assistencialista

Eu mesmo faço parte dessa segunda geração de pessoas criadas com e pelo estado assistencialista. Uma diferença significante entre a minha geração e a antecessora é que a maioria de nós não foi criada pelos nossos pais sob qualquer aspecto. Fomos criados pelas autoridades das creches estatais no período da infância; então fomos empurrados para as escolas públicas, depois para escolas secundárias públicas e universidades públicas; e mais tarde para o emprego no setor público e para mais educação através dos poderosos sindicatos e suas associações educacionais. O estado é uma presença constante em tudo, e para muitos ele é o único meio de sobrevivência — e seus benefícios assistenciais a única maneira possível de ganhar independência.

A diferença para as gerações mais velhas é obvia. Meus avós viveram em um mundo totalmente diferente, moral e filosoficamente, e meus pais ainda apresentam alguns vestígios herdados de meus avós, como aquele "velho" senso de justiça e a percepção do certo e do errado. Enquanto que os pais da minha geração estão apenas parcialmente estragados (o que já é ruim o suficiente), minha geração está totalmente sem rumo. Por não ter sido criada com os valores sólidos de nossos avós, mas sim com aqueles propagandeados pelo estado-babá, os netos do estado assistencialista não possuem qualquer entendimento de questões econômicas.

Para os "netos", uma percepção comum de justiça é que indivíduos têm o "direito" de reivindicar perpetuamente que a sociedade supra alguém com o que quer que esse alguém considere necessário (ou divertido). Em um recente debate ocorrido na TV estatal, os filhos e netos do estado assistencialista se encontraram para discutir desemprego e os problemas comuns enfrentados pelos jovens em crescimento e que estão entrando no mercado de trabalho. A exigência dos "netos" era literalmente que os "mais velhos" (nascidos nas décadas de 40, 50 e 60) saíssem de cena (isto é, parassem de trabalhar), porque o trabalho deles "roubava" empregos dos mais jovens!

A "lógica assistencialista" que sustenta tais exigências absurdas funciona mais ou menos assim: a premissa é que cada indivíduo tem o direito a ter uma boa vida. Disso pode se concluir que uma boa vida significa não ter que se preocupar com riquezas materiais, sendo por isso essencial receber benefícios assistencialistas e ganhar uma "independência" financeira. Independência financeira, por sua vez, requer um bom status, um alto salário e um emprego não muito exigente; donde se infere que um bom emprego é um direito humano. As pessoas que atualmente têm esses empregos literalmente ocupam essas posições e, portanto, estão no caminho e devem sair da frente — cada um deles, sem exceção, está violando meu direto àquele emprego. Isso faz com que cada um que tenha um bom emprego seja um violador de direitos e, portanto, um criminoso.

Todos sabemos o que pensar de criminosos: eles deveriam estar trancafiados. Tal sentença também é o que demanda um ainda muito pequeno, porém rapidamente crescente número de jovens na Suécia — sentença essa que deve ser aplicada em donos de negócios que não desejam contratá-los, ou em pessoas mais velhas que ocupam posições que esses jovens desejam. É "necessário" fazer leis mais progressivas.

Mas essa não é uma idéia apoiada apenas pela juventude ignorante. Em 2006, o sindicato nacional dos trabalhadores varejistas exigiu que o estado "redistribuísse" empregos oferecendo pensões estatais a pessoas com mais de 60 anos caso elas se demitissem e seus empregadores passassem a empregar pessoas jovens e desempregadas em seus lugares. Pelos cálculos do sindicato, tal truque "criaria" 55.000 empregos.

O que isso mostra é que a única maneira perceptível de se encontrar empregos para os mais jovens parece ser "liberando" os mais velhos dos seus; postos de trabalho estão escassos e o desemprego está subindo mesmo com a crescente demanda por bens e serviços — graças à pesada regulação estatal sobre o mercado. O estado assistencialista cria problemas e conflitos em vários níveis, forçando as pessoas a competir por fatias cada vez mais decrescentes de riqueza. A solução: mais regulamentação e menos prosperidade. Isso é o que acontece quando a necessidade e a vontade substituem o mérito e a experiência, tanto na moralidade pública como na pessoal.

Exigindo responsabilidade social

Essa moralidade degenerada e a falta de compreensão quanto à ordem natural e real das coisas também é evidente nas áreas que requerem responsabilidade pessoal e respeito para com o próximo. Os velhos hoje são tratados como um lastro, ao invés de como seres humanos e parentes. As gerações mais novas acham que têm o "direito" de não assumir responsabilidade pelos seus pais e avós — e com isso exigem que o estado os alivie desse fardo.

Consequentemente, os velhos na Suécia, em sua maioria, vivem deprimidos e solitários em suas casas, esperando que a morte chegue; ou já foram institucionalizados em asilos públicos sob vigilância 24 horas por dia, sete dias por semana, de modo a aliviar o encargo que representam para as gerações mais jovens. Alguns deles chegam a ver seus netos e parentes por apenas uma ou duas horas no Natal, quando as famílias fazem um esforço para ir visitar seus "problemas".

Mas os mais velhos não são os únicos que se encontram na periferia da sociedade assistencialista, enquanto o estado está cuidando da população ativa. O mesmo ocorre com os mais jovens, que também são entregues ao estado para receber cuidados públicos ao invés de serem criados e educados por seus pais.

Minha mãe, uma professora de escola secundária, já teve de enfrentar pais de seus alunos que exigiam que ela "fizesse algo" quanto à estressante situação familiar pela qual eles passavam. Eles exigiam que a "sociedade" se responsabilizasse pela criação de seus filhos, já que eles próprios já tinham gasto "muitos anos" cuidando deles. ("Cuidando" normalmente significa deixá-los na creche pública às 7 da manhã e pegá-los novamente às 6 da tarde).

Eles enfatizam espalhafatosamente ter o "direito" de serem aliviados desse encargo. Os problemas causados em casa por crianças desobedientes e fora de controle devem ser resolvidos nas salas de aula por funcionários da escola e em creches pela equipe do jardim de infância. As crianças devem ser vistas, mas não ouvidas; e elas não devem de modo algum atrapalhar o direito de seus pais a uma carreira, a longas férias no exterior e a participar de eventos sociais.

Com o intuito de manter a geração adulta trabalhando e criando riqueza que possa ser tributada (as alíquotas de impostos sobre os trabalhadores de baixa renda está em torno de 65% da renda), o estado assistencialista sueco continuamente lança programas progressivos para protegê-los de incidentes e problemas. A liberdade assistencialista representa uma existência livre de problemas, livre de responsabilidades e rica em benefícios.

O que estamos vendo hoje na Suécia é a conseqüência perfeitamente lógica do estado assistencialista: ao distribuir benefícios e, assim, liberar o indivíduo da responsabilidade individual por sua própria vida, um novo tipo de indivíduo é criado — o imaturo, irresponsável e dependente. Com efeito, o que o estado assistencialista criou foi uma população de crianças moral e psicologicamente dependentes — assim como pais que nunca deixam seus filhos enfrentar problemas, assumir responsabilidades e criar soluções sozinhos tornam seus rebentes mimados, em constantes necessidades e extremamente exigentes.

A analogia com as crianças mimadas está se provando verdadeira no cotidiano das pessoas que trabalham no setor público, que estão enfrentando as demandas da população. Já aprendi que não é incomum que jovens pais repreendam professores por acharem que o para casa é uma pressão "desnecessária" sobre os mais novos. As crianças têm o "direito" ao conhecimento, mas aparentemente elas não deveriam ser expostas à educação, já que esta requer estudo e esforço. A função dos professores é obviamente fornecer às crianças um conhecimento que elas possam consumir sem ter de refletir ou mesmo pensar a respeito (ou até mesmo estudá-lo). Ter de fazer algo por conta própria é "opressivo". Uma "obrigação", mesmo que seja um efeito das leis da natureza, é algo totalmente injusto e representa a violação do direito a uma vida livre de problemas. A natureza em si, junto com suas leis, se torna um "fardo".

A economia da dependência

Talvez essa mentalidade explique o aumento na popularidade de teorias irrealistas como o ceticismo e o pós-modernismo, onde nada pode ser tomado como verdadeiro. A lógica, alegam, é apenas uma construção social que não tem qualquer relação com a realidade ou com o mundo (se é que ela sequer existe). Essas teorias são magníficas pelo fato de elas jamais poderem ser provadas — ou refutadas. Não importa o que você diga, você jamais precisará se responsabilizar por sua declaração — ninguém pode verificar sua tese, ninguém pode criticá-la ou mesmo utilizá-la. Ela é sua e existe apenas pra você — e ela é verdadeira só para você.

A inutilidade de tais teorias deveria ser óbvia. Também deveria ser óbvio que os proponentes dessas teorias assumem que certas coisas, como a existência, são garantidas — eles vivem suas vidas baseando-se apenas em dúvidas e na "sabedoria" de que não há nada que alguém possa de fato saber, que nada é o que parece. Mas isso, ao que parece, deve ser a beleza da coisa.

De certo modo, a premissa austríaca de que "valores são subjetivos" foi tomada muito literalmente. Nessas teorias "modernas", a subjetividade é o princípio fundamental da realidade, e não a maneira como a realidade é avaliada ou percebida. Essa "compreensão" é inferida diretamente da moralidade relativa e de lógica relativa das crianças e dos netos do estado assistencialista. Não há necessidade que alguém produza para que um outro possa consumir — e não há necessariamente um ônus sobre aquele que deve fornecer os benefícios que eu preciso para poder viver a "boa" vida. Afinal, viver uma boa vida é um direito humano; sendo que o direito é o único ponto fixo em um universo em constante mudança e subjetivamente instituído.

Da perspectiva de um observador (como eu me considero), toda essa loucura faz sentido — ensinar as pessoas que elas não precisam se preocupar com as conseqüências de suas atitudes torna-as prontamente dependentes. O estado assistencialista criou o monstro egotista contra o qual ele alega querer nos salvar — através da distribuição de privilégios e benefícios para todos às custas de "ninguém".

Os engenheiros sociais do estado assistencialista obviamente nunca consideraram uma possível mudança na moralidade e na percepção — eles simplesmente queriam um sistema que garantisse seguridade para todos; um sistema no qual o capaz poderia e deveria trabalhar para sustentar a si próprio, e que o incapaz também pudesse viver uma vida digna. Quem iria imaginar que as reformas progressistas feitas para garantir direitos trabalhistas e prosperidade para todos no início do século XX iriam ricochetear e moral e filosoficamente?

Já deveria estar óbvio que nada saiu como esperado — a sociedade simplesmente não era tão previsível como foi previsto.

Essa nova moralidade é obviamente oposta àquela da geração dos meus avós. É uma moralidade que diz que a independência só pode ser atingida através da transferência de responsabilidades para terceiros, e que a liberdade só pode ser conquistada através da escravização de outros (e de si próprio). O resultado dessa moralidade degenerada por toda a sociedade é um desastre economicamente, socialmente, psicologicamente e filosoficamente.

Mas isso também é uma tragédia para milhares de suecos. As pessoas parecem incapazes de desfrutar a vida sem ter responsabilidade pelas próprias ações e escolhas, e é impossível sentir orgulho e independência sem ter os meios para se controlar o próprio viver. O estado assistencialista criou pessoas dependentes e totalmente incapazes de encontrar algum valor em sua existência; ao invés disso, eles se vêem incapazes de ter sentimentos tipicamente humanos como orgulho, honra e empatia. Esses sentimentos, junto com os meios para se criar um sentido para a vida, foram tomados pelo estado assistencialista.

Talvez isso explique por que uma grande parte da população jovem de hoje consome medicamentos antidepressivos, sem os quais eles são incapazes de funcionar normalmente em situações sociais. E presumivelmente isso explica por que o número de suicídios entre as pessoas bem jovens que nunca de fato conheceram seus pais está aumentando dramaticamente (o número total de suicídios permanecendo praticamente o mesmo). Ainda assim, as pessoas são totalmente incapazes de ver o problema ou achar uma solução. Como crianças mimadas, elas clamam ao estado por "ajuda".

Isso, minha avó nunca conseguiu entender. Que ela descanse em paz.

 

* Atualização feita pelo autor em 19 de maio de 2008:

Fui contactado por algumas pessoas que expressavam descrença no fato de que muitas pessoas tomam antidepressivos para se livrar de depressões, da "infelicidade", e da ausência de vontade para viver e trabalhar. Em um artigo publicado em um dos maiores jornais da Suécia, foi afirmado que 500.000 suecos atualmente tomam antidepressivos (=receberam de seus médicos receitas para antidepressivos). 500.000 pessoas em uma população de 9.000.000 — isso representa 5,6% da população, e a maioria deles provavelmente é formada por jovens!

Também é dito nesse artigo (disponível apenas em sueco) que 25% da população vai tomar antidepressivos em algum momento de suas vidas. Eu não sei como isso se compara a outros países, mas a porcentagem sem dúvidas é bastante grande.

O artigo foi escrito pela professora finlandesa Merete Mazzarella, que já escreveu livros sobre aspectos culturais do bem-estar:

http://www.svd.se/kulturnoje/understrecket/artikel_1263429.svd

 

Per Bylund 

foi consultor de negócios na Suécia e hoje é Ph.D em economia pela Universidade do Missouri e professor na Hankamer School of Business, da Baylor University, no Texas.



tags:  Suécia  assistencialismo  moralidade  
31 comentários
31 comentários
Francisco Morais 26/10/2010 00:09:54

Excelente comentário! Infelizmente, poucas pessoas percebem que estamos entrando em um círculo vicioso, de se dar dinheiro a pessoas para que elas não trabalhem (vide bolsa família, que "premia" a preguiça de pessoas que antes trabalhavam e produziam antes de existir tal programa. Para esta parte do eleitorado, classificada pela diretora do Ibope como "Meu governo, minha vida", o Estado tem a obrigação de dar dinheiro a eles, bastando colocar na conta dos "riquinhos, burgueses e playboys". Para tais pessoas, é como se o dinheiro nascesse por geração espontânea, não resultando de trabalho, seja ele braçal ou intelectual. Dá-se cada vez mais dinheiro a cada vez mais pessoas que não produzem, fazendo com que os "capazes" trabalhem mais e ganhem menos, para se sustentar os "incapazes". Maldito círculo vicioso em que o Brasil está entrando, mas tomara que saia logo, alertado por pessoas visionárias, como você. Um abraço!

Responder
sandra 13/05/2013 00:28:03

Francisco Morais
Olha até certo ponto entendo seu cometário, mas não podemos comparar países desenvolvidos com países que vivem na miséria, totalmente desiguais, no Brasil esse tipo de assistência é para a necessidade imediata(fome mesmo!)totalmente diferente do assistencialismo na Suécia. Você ao fazer seu comentário coloca os países como iguais, e não é assim! Também não concordo com o esse tipo de assistencialismo (bolsa família), só penso que você deve se informar melhor sobre o assunto, antes de chamar pessoas com direitos violados de preguiçosos!

Responder
anônimo 13/05/2013 09:54:27

'pessoas com direitos violados' ora, isso não existe. Todo mundo por aqui sabe que esses 'direitos' são uma conversa inventada por políticos (mais vagabundos e ladrões ainda) pra se eleger.
Antes da onda de assistencialismo tinha sim muito emprego pra esse pessoal, hoje que eles não querem trabalhar, melhor ficar só fazendo filhos e vivendo de bolsa esmola.

Responder
anônimo 13/05/2013 12:48:40

Como assim 'pessoas com direitos violados'? Eles os favorecidos pela bolsa esmola é que estão violando os direitos dos outros, o governo tirando de quem trabalha e produz pra dar pra um bando de vagabundos

Responder
Cristiano 13/05/2013 14:46:57

Um esfomeado pode ser considerado uma pessoa livre?
www.mises.org.br/Article.aspx?id=99

Responder
Russo 20/04/2011 00:55:02

Esse artigo é um tapa na cara da sociedade. Precisamos acordar desse sonho socialista e terminar com essa palhaçada.

Responder
Erick Skrabe 18/12/2011 11:03:33

É sempre bom rever este texto - na minha opiniao um dos melhores já escritos sobre todos os Welfare States. A Suécia passou de país mais pobre da Europa a país mais rico do mundo em apenas uma geracao gracas a livre iniciativa. E depois disso (e nao antes) veio o Welfare state. Hj vemos as empresas saindo ou sendo vendidas. ABB, Scania, Saab e Volvo foram só algumas.

Responder
Cristiano 19/06/2012 07:38:38

Não canso de revisitar esse artigo. Posso notar em mim várias deficiências que adquiri por ter sido criado sob esse ambiente cultural/filosófico de "direitos".

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Demais!!! 06/01/2013 16:13:13

Acho que esse é um dos melhores textos que li na vida. Muito interessante mesmo.

Obrigado por traduzirem!

Responder
kondde 11/01/2013 21:19:53

A suécia é hoje uma pornocracia comunista..

Responder
Romulo 02/07/2014 05:10:11

e agora está sendo dominada pelos mulçumanos. Tão previsível quanto o resto da Europa ocidental!

Responder
kondde 11/01/2013 23:51:03

Uma verdadeira síntese de como o ocidente está se destruindo, muito bem escrita e um texo conciso que é simplesmente impossível parar de ler até o fim, será que poderemos ler algum dia um texto desse de uma reflexão de algum intelectual brasileiro sobre a sua própria vida? Pois vejo que em menor ou maior escala todos nos já passamos por isso, é surpreendentemente igual os estágios socializantes que mudaram profundamente nossas vidas.

Responder
anônimo 15/01/2013 05:16:22

Só faltou falar da imigração em massa que tem trazido um caos sem precedentes a uma sociedade que já estava desmoronando. Aquele país e o resto da Europa viraram um laboratório humano a céu aberto para experiências de engenharia social. Pelo andar da carruagem os suecos étnicos estarão extintos ou reduzidos a uma insignificante minoria no próprio país em 100 anos ou até menos.

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Amarilio Adolfo da Silva de Souza 24/06/2013 15:56:42

Imagine como está o Brasil!

Responder
Themistocles Sousa 01/11/2013 20:18:34

Olha aqui uma das péssimas consequências disso: noticias.terra.com.br/educacao/apos-proibir-palmadas-suecia-sofre-com-geracao-de-criancas-mimadas,477a68fadb402410VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html

Responder
Emerson Luis, um Psicologo 28/11/2013 16:10:57

A Suécia pelo menos se tornou um país rico (graças ao liberalismo econômico) antes de se tornar socialista. Eles distribuem a riqueza, aqui se distribui a pobreza.

Poderíamos acrescentar ao texto o massacre que o feminismo está causando ao sexo masculino na Suécia, tornando os meninos fracos e assexuados (para não dizer afeminados) e usurpando os direitos básicos e a dignidade dos homens adultos, tudo em nome da "igualdade entre os gêneros".

* * *

Responder
Wellington 15/05/2014 03:50:05

Assistencialismo é o que temos na América Latina. O que se tem na Suécia, é política social, que ver o cidadão como um ser produtivo. Muito diferente do assistencialismo.

Tirando o fator "liberal social" da Suécia, há tantos países(inclusive países com liberalismo econômico) sobre maus lençóis, que chega a ser cômico ter que ler destes.

Responder
Lucas Favaro 20/09/2014 15:40:00

"O resultado dessa moralidade degenerada por toda a sociedade é um desastre economicamente, socialmente, psicologicamente e filosoficamente."

Então resta a pergunta: por que a Suécia é a sétima do ranking de renda per capita e a décima segunda do iDH? Esses são os dados objetivos que se tem, e eles não apontam a Suécia como um desastre econômico, tampouco social.

Pelo tom dramático do texto parece que a Suécia está a beira do colapso, prestes a se tornar uma nação horrivelmente miserável, em todos os aspectos. E então, alguém aí tem um palpite de quando isso vai acontecer?

Responder
anônimo 14/10/2014 11:46:22

Lucas Favaro, leia esse artigo.

www.imil.org.br/artigos/suecia-sucesso-apesar-estado-de-bemestar/

Responder
Carlos Garcia 14/10/2014 19:49:30

Meu preferido spbre o tema, mas que é longo e em inglês:
www.libertarianism.org/publications/essays/how-laissez-faire-made-sweden-rich

Basicamente, a história da suécia se divide em períodos. Primeiro de 1760 até 1960, marcado por diversas reformas e revoltas que levaram o país ao liberalismo econômico. Então começaram os gastos estatais, e de 1960 até 1990 a Suécia experimentou uma brusca queda no nível de crescimento, que levou a novas reformas em direção ao liberalismo (mas nada que se comparasse ao que um dia eles já foram). O que temos atualmente é isso que você vê: um país que acumulou grande riqueza, gastando tudo. Não digo que eles estão indo mal, mas certamente não foram as politicas atuais que construiram o país que você esta vendo.

Responder
Anderson 08/08/2015 18:52:15

Eu estava lendo esse artigo, hoje, pela manhã. Estava "no fundo do porão" da minha pasta de artigos do IMB.

É um relato fantástico, uma exposição dos malefícios sociais do Welfare State. Pena que esse tipo de texto não apenas não faz efeito na mídia e na massa, como também realça a histeria por parte dos iludidos (idiotas úteis) e engenheiros sociais, logo aparece respostas do tipo: "Ah, seu insensível!", "você só quer tudo para si e nada para os explorados", "você é um dos que não suporta ver um pobre andando de carro e avião" e "blablabla".

É complicado, esse povo foi ensinado desde cedo a pôr emoções na frente da cabeça, é por isso que valorizam qualquer merda que aparece na TV, ou compram qualquer discurso barato (se o discurso lhes for favorável).

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Joao Girardi 09/08/2015 00:52:48

Sabe do que eu gosto na economia? As leis dela são universais, pois é a ciência da ação humana, a explicação sobre oferta, demanda, formação de preços, conhecimento disperso, preferência temporal e claro, o fracasso do estado de mal-estar social (esse sim deveria ser o nome certo) e do intervencionismo é a mesma em qualquer lugar, seja no Brasil, seja na Suécia.

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Anderson 10/08/2015 15:33:26

Sim, verdade.

Os professores de esquerda costumam dizer que "estudando História e sociologia o ser humano entende o mundo ao seu redor". Não contesto esse pensamento, dá para aprender muita coisa com essas ciências/ramos de ensino, mas é na ciência econômica que o indivíduo sabe o que está acontecendo, compreende as relações humanas (ao produzir e trocar seus "produtos" por outros produtos). É sensacional!

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anônimo 14/08/2015 15:31:04

Não se iluda, eles só falam isso porque história e sociologia estão infestadas de tralhas esquerdistas.

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Jorge de Melo 14/08/2015 02:32:37

Eu li este texto e, a cada linha, eu me lembrava de um livro escrito por uma russa chamada Ayn Rand, o livro A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged, na versão em inglês). Enquanto eu lia esse livro, eu pensava que a estória seria apenas uma distopia, um pesadelo literário que nunca iria acontecer.
Pois aconteceu, menos de uma geração depois da edição do livro (editado em 1957).

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RichardD 22/09/2015 10:58:08

Um dos melhores artigos que já li.

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Alexandre 27/10/2015 02:13:12

Excelente artigo. Um tapa na cara de quem foi, é ou será a favor do assistencialismo desenfreado que vivemos atualmente neste mundo.

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Fernando 08/01/2016 13:13:50

Deu no G1: 'Suécia obriga pais a tirar pelo menos 3 meses de licença-paternidade'.
Taí um bom exemplo de país bem gerido, o livre Mercado sozinho nunca será a salvação, apenas o bom senso pode trazer harmonia economica. A Suécia obriga porque há abusos no Mercado desregulamentado.

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Rodrigues 08/01/2016 14:03:45

Essa ironia foi ainda melhor que aquelas do "Típico Filósofo", do "Economista da USP", e do "Economista da Unicamp".

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anônimo 08/01/2016 16:34:26

"Sociólogo da USP"

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Anonimo 29/05/2016 20:05:10

Só que, realmente, o bom-senso é melhor. Tanto Suécia como Brasil precisam de algum Estado, pelo menos o "mínimo", em outras palavras, um mínimo de arbitragem policial comum, pública. Sobre antidepressivos e crise de valores, a questão é maior, é geral, basta ver a situação do Estados Unidos.

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