(In)feliz aniversário, dinheiro de papel!

Quarenta anos atrás, 15 de agosto de 1971, em uma manhã de domingo, o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, declarou que o dólar não mais era conversível em ouro.  As 20.000 toneladas do metal amarelo que haviam sido depositadas em Fort Knox em 1944 vinham decrescendo substancialmente devido aos altos custos militares da Guerra do Vietnã.  Os EUA — a principal potência econômica global — não mais podiam honrar seus compromissos financeiros.

Não que antes daquela fatídica data houvesse de fato um padrão-ouro.  Longe disso.  A maioria dos países já havia rompido qualquer elo direto entre suas moedas e o ouro muitos anos antes.  Os cidadãos americanos ainda estavam proibidos, pelo seu próprio governo, até mesmo de portar ouro privadamente.  Não obstante, um tênue elo entre o dólar e o ouro ainda existia.  Sob o novo arranjo monetário criado após a Segunda Guerra Mundial, o dólar havia se tornado a moeda de reserva internacional, e os bancos centrais de todo o mundo receberam uma garantia dos EUA de que poderiam trocar suas reservas em dólares por ouro a um preço fixo.  Porém, naquela data de 1971, os EUA deram calote nessa promessa e, ato contínuo, removeram o último obstáculo para a ilimitada produção de dinheiro de papel.  Após o decreto de Nixon, os bancos centrais estrangeiros não mais poderiam trocar seus dólares acumulados por ouro ao preço oficial de US$ 35 a onça.  Com efeito, eles simplesmente não mais poderiam exigir que o governo americano redimisse dólares em ouro.

Após esse evento, conhecido como "o choque de Nixon", o dinheiro em todo o mundo tornou-se meramente uma moeda de papel sem lastro — ou, cada vez mais, uma moeda eletrônica —, que poderia ser criada por produtores privilegiados — bancos e bancos centrais — praticamente sem limite.  (E hoje, como consequência dessa liberdade para se inflacionar, o atual preço do ouro já está acima dos US$1.600!)

O sistema de Bretton Woods foi, assim, oficialmente extinto naquela data, e o dólar se tornou uma moeda totalmente fiduciária, lastreada não por ouro mas sim pela simples promessa do governo.

Isso representou o fim de um regime monetário que, desde a alvorada da civilização, havia tornado o dinheiro tanto um meio geral de troca como também uma reserva de valor.  O que começou em 1971 foi uma nova era de anormalidade histórica.  Uma era de moedas de papel fiduciárias e de curso forçado, gerenciadas por bancos centrais monopolistas.  Uma era em que a capacidade de fornecer crédito e financiamentos se tornou tão ilimitada quanto a capacidade do banco central de produzir papel pintado, cujo uso o governo decretou ser obrigatório.

Com a extinção dos últimos vestígios do ouro — aquela "relíquia bárbara" do passado, nas palavras de Keynes —, a irritante limitação (para o governo, é claro) à criação de dinheiro e crédito do nada foi finalmente abolida.  As necessidades humanas, bem como as demandas políticas mobilizadas por meio de maiorias (e minorais) democráticas, são infinitas.  Logo, por que parar a gastança?  Por que sacrificar os prazeres imediatos?  Um papel-moeda fiduciário e de curso forçado, destituído de quaisquer propriedades intrínsecas, libera os governos de seus compromissos com a conversibilidade, garantindo poderes ilimitados para os soberanos desse sistema estatista.

Com o fim dos últimos vestígios de um sistema monetário sólido, Keynes tornou-se o profeta de uma nova era de prazeres e exaltações, tudo sob o novo evangelho da gastança.  O papel-moeda fiduciário e de curso forçado ajudou a remover o elo entre a produção e o consumo, fazendo crer que o consumo não apenas independe da produção, como também pode antecedê-la.  Ainda pior: contribuiu para o delírio de que a escassez de capital — que é o estado natural da civilização — pode ser abolida mediante a simples impressão de dinheiro.

Os bancos centrais podem hoje imprimir qualquer quantidade de dinheiro que julguem necessária.  O dólar, que funciona (pelo menos até agora) como moeda de reserva internacional, tem o poder de adquirir bens reais sem oferecer absolutamente nada em troca.  O Banco Central americano imprime dólares, estes são enviados ao exterior e, em troca, estrangeiros mandam bens reais aos americanos.  O que eles ganharam em troca?  Pedaços de papel, os quais eles vão utilizar para comprar títulos do Tesouro americano, ajudando a financiar o déficit orçamentário do governo. 

É claro que, dentre os usuários de dólares, há muita gente que trabalha duro, gente integrada à estrutura de produção e que contribui para a sociedade fornecendo bens e serviços reais.  Mas não podemos ignorar os políticos e os burocratas — uma classe de pessoas completamente distinta.

Essa classe parasítica enfraquece a classe produtiva, além de manipular a produção por meio do gasto público.  No momento, o Banco Central Europeu está monetizando a dívida dos países da periferia europeia, o que significa que ele está imprimindo dinheiro unicamente para comprar os títulos das dívidas destes países.  Ao fazer isso, as pessoas que recebem esse dinheiro ficam na vantajosa posição de adquirir bens e serviços de outros países (a moeda, o euro, é a mesma para todos os países).  E isso, por sua vez, reduz a quantidade de bens disponíveis nesses outros países, fazendo com que os empreendedores desses países tenham menos bens à sua disposição.  Ou seja, o Banco Central Europeu, por meio de simples criação de dinheiro, está retirando recursos reais de empreendedores e desviando esses recursos para o financiamento de pródigas e dissipadoras atividades governamentais, bem como para o bem-estar das pessoas que vivem nesses países deficitários.  Isso é algo totalmente ultrajante, moralmente injusto e economicamente ruinoso.  Trata-se de apenas mais uma estrada no caminho para a servidão.

O papel-moeda fiduciário e de curso forçado tenta fazer o milagre de transformar pedras em pães — ou, mais especificamente, de trocar papel por carros, aparelhos eletrodomésticos e roupas de luxo.  É a maravilhosa sensação de poder gastar e consumir sem a necessidade de produzir.  Por meio do papel-moeda fiduciário e de curso forçado, os países mais ricos e mais poderosos do mundo também se tornaram os mais endividados.

Ao contrário do que ocorreu no século XIX, quando a potência dominante (Grã-Bretanha) acumulava superávits e as nações emergentes apresentavam crescente endividamento, agora está ocorrendo o oposto.  Tanto o déficit externo americano, bem como seu irmão gêmeo, o déficit orçamentário do governo, absorvem o grosso da poupança mundial, ao passo que os países emergentes, mais notavelmente a China, fazem os empréstimos, financiando a gastança americana.  E tudo indica que a China — o maior credor do governo americano, detendo mais de 25% de todos os títulos da dívida americana em mãos de estrangeiros — não vai se resignar a permanecer passiva todo esse tempo, vendo o valor dos títulos americanos que ela comprou diminuindo continuamente.

Os Estados Unidos — mesmo quando foram fundados em 1776 por meio de uma revolução libertária contra o despotismo arbitrário de um estado britânico que queria impor tributos sem nenhuma consulta — possuem em seu DNA os genes do alto gasto público e do ilimitado crescimento governamental.  Os Estados Unidos de hoje nada têm a ver com aquele de Thomas Jefferson.  Os princípios que nortearam sua fundação foram esquecidos há um século, com a criação do Federal Reserve em 1913, com a explosão dos gastos governamentais e o consequente aumento nos impostos e no endividamento.

Conclusão

O mundo pode continuar a jornada que começou a trilhar em 15 de agosto de 1971, ou pode reconhecer que aquilo foi um erro trágico que trouxe consequências terríveis.

Defensores de um leviatã com poderes ilimitados não apenas propõem doses adicionais de expansão monetária para mitigar a atual crise — a qual foi causada justamente por expansões monetárias ilimitadas —, como também estão propondo a criação de uma moeda única global a ser controlada por um banco central mundial[1].  Segundo esse modelo, os principais bancos centrais do mundo poderiam implementar medidas unificadas e oligopolistas, tudo sob o pretexto de estarem coordenando suas políticas monetárias.  Isso resultaria em um desastre total e no triunfo supremo exatamente do sistema que levou à atual crise.

A alternativa é um retorno a um sistema monetário sólido, uma restauração da moeda verdadeira — a qual surgiu espontaneamente no mercado, sem nenhuma imposição estatal — e uma rejeição a todo e qualquer tipo de intromissão dos governos no sistema monetário. 

E a abolição dos bancos centrais.



[1] Essa foi a proposta de Keynes durante a conferência de Bretton Woods, na qual ele recomendou a imposição do 'bancor' como a moeda internacional.


0 votos

SOBRE O AUTOR

Jordi Franch
leciona administração e economia na Universidade de Manresa, na Espanha, e na Universidade Técnica da Catalunha.  Ele descobriu Mises durante sua pós-graduação, mas o diretor de seu departamento de economia o proibiu de fazer seu Ph.D em economia austríaca.  Então ele foi à Universidad Rey Juan Carlos, em Madrid, e lá descobriu Jesús Huerta de Soto.

Tradução de Leandro Roque



Isso é elitismo seu. Uma pessoa que realmente não soubesse fazer nada senão carregar tijolos e apertar parafusos já estaria dormindo nas ruas, sem lar e sem teto. Tal pessoa dificilmente encontraria qualquer demanda por sua mão-de-obra no mercado atual. Poderia, no máximo, encontrar um ou outro bico esporádico. E o valor monetário que ele ganhasse seria rapidamente diluído pela inflação.

O fato é que qualquer indivíduo, com um mínimo de treinamento e dedicação, consegue fazer muito mais do que isso. Eu mesmo conheço um cara que era pedreiro ("carregava tijolo") e hoje trabalha em supermercado, atendendo clientes. Upgrade. E ele continua sem ter tido ensino médio.

Essa sua visão, ironia das ironias, é a de que indivíduos são tão burros quanto uma máquina, e incapazes de aprender qualquer coisa nova. Sinceramente, isso não existe. O que existe é comodismo. Qualquer um, numa situação de extrema necessidade, aprende a se adaptar. Sim, exige esforço. Sim, é desconfortável. Sim, seria muito melhor receber tudo pronto e sem qualquer chateação. Mas a vida não é assim. Vivemos num mundo de escassez e não de abundância. Tudo exige determinação, esforço e dedicação.

Agora, se tal indivíduo que você falou realmente é uma porta e realmente não quer aprender mais nada, bom, então aí nada pode ser feito por ele. Só falta agora você querer dizer que todo o progresso tecnológico deve ser interrompido apenas porque há um cidadão que se recusa a se auto-aprimorar na vida.
"Isso é um argumento lógico sim"

Conforme eu disse: e daí? E daí que o consumo aumentaria? O que vc extrai disso? O fato de que o consumo aumentaria em caso de descriminalização faz com que você defenda a proibição de drogas?
Cidadão, entenda uma coisa: o governo (e sua proibição de drogas) não obstrui o surgimento do crime organizado (decorrente do tráfico, que por sua vez é decorrente da proibição); ele fomenta esse crime organizado. Então, você defende algo que FOMENTA o crime organizado. Essa é a consequência do que você defende.


"A comparação com os carros foi um pouco infeliz da sua parte. Carros trazem benefícios para todos. Drogas, e todos nós temos que concordar, só trazem malefícios"

Não, meu amigo, você que continua com a mente bastante confusa: a referência foi feita a "acidentes de carros". Acidentes de carros matam milhões de pessoas, mas nem por isso vc defende a proibição de carros visando a evitar a ocorrência de acidentes de carros. Seja como for, não dá para dizer que todas as drogas só trazem malefícios: vc se esquece dos inúmeros fármacos, que inclusive podem salvar a vida de pessoas. De outro lado, vc continua sem explicar pq álcool e cigarro não deve ser proibidos. Dizer que "uns são mais viciantes que outros" não é explicação. É só fugir da explicação.

Ah, é que você acha que drogas "só trazem malefícios". Ainda que seja assim, e daí? Tudo que eventualmente traga malefício para as pessoas deve ser proibido pelo estado? Então é esse seu argumento? Precisamos de burocratas e políticos dizendo o que é maléfico para nós?

Cidadão: nós somos donos do nosso corpo. A soberania do indivíduo sobre o próprio organismo lhe dá o direito de nele introduzir quaisquer substâncias (inclui drogas) que desejar. Se o estado limitar esta liberdade, ele estará se apossando indevidamente do corpo das pessoas, violando a mais sacrossanta propriedade privada.

Ademais, quando o estado assume o papel de regulador moral, as instituições que seriam naturalmente responsáveis pela moralidade se enfraquecem, abrindo mão de suas funções. O indivíduo se torna menos zeloso e mais dependente, sem falar no apelo do fruto proibido. A inibição moral do consumo de drogas cabe à família, religião, cultura, e não aos burocratas.

Proibir as drogas é nivelar por baixo: restringir a liberdade dos bravos e fortes, que saberiam se controlar e ter uma relação saudável com as substâncias alucinógenas, em nome dos impotentes que se tornariam viciados.

Uma sociedade pode ser caridosa com os fracos, mas não deve se guiar por eles. Proibir as drogas em nome de potenciais viciados é cultuar a mediocridade.


"Mas eles são criminosos e não deixarão de ser quando for retirado o "core-business"deles. Eles não vão passar a acordar às 6 da manhã pra trabalhar. Vão simplesmente migrar de crime"

Os traficantes vão migrar de crime? Sim, e daí? Por causa disso vc defende uma medida (proibição de drogas) que os mantenham como chefões poderosos de crime organizado, matando e praticando violência como decorrência da proibição, que vc mesmo reconhece como sendo aquilo que lhes dá poder? Nossa, que posicionamento racional e humanista esse!

Então vc defende proibição sob o argumento de "evitar" migração de crime? Então vc quer manter os traficantes como chefões do tráfico. Muito sensato e inteligente de sua parte.

Se eles "migrarem" de crime, que sejam punidos conforme o crime que vierem a praticar, ora bolas. O que não é racional - nem moral - é manter um arranjo em que chefões do tráfico matam milhares de pessoas em virtude de uma proibição estúpida, ineficiente e imoral.


"Em tempo, eu nunca defendi o desarmamento civil, ok?"

Como vc é confuso, cidadão!

Eu não disse que vc defende ou defendeu isso; o que eu falei foi uma resposta à sua frase de que "traficantes escravizam a população mais pobre usando armas que o cidadão de bem não pode ter", frase que não tem nenhuma serventia para para quem defende proibição de drogas, como vc vem fazendo.














A evolução tecnológica se dá a pequenos passos, muitas vezes desconexos no início. Porém, sempre firmes e, às vezes, rápidos.

A cada passo da criação de algo, o ser humano também fica mais inteligente e com mais capacidade.

O seu cenário é possível sim, mas neste caso, as máquinas seremos nós. Afinal, somos máquinas, mas biológicas, naturais (ou como alguns querem: que Deus fez) e então é sim possível a criação de uma máquina semelhante, mesmo que isso dure vários milênios para acontecer, dado que podemos estudar sistematicamente a natureza e aprender com ela (ou, como querem alguns, porque Deus nos fez a sua imagem, então somos co-criadores).

Claro que, neste ponto, as duas máquinas (biológica e artificial) se confundem. Eu diria que criaríamos o nosso próprio corpo, de acordo com a nossa necessidade. Então, neste sentido, as coisas ainda seriam feitas por nós mesmos. Tem gente que leva a sério esta do transhumanismo e do homo technologicus (TripleC)

Sobre as máquinas serem programadas... Sim, de fato é isto, você pode programá-las para aprenderem, para interagirem, para reagirem e para otimizarem seu funcionamento. E mais, se você programar tudo isso de forma que a máquina o faça automaticamente (por ela mesma), ela se torna auto-reativa, com auto-aprendizado (aprendizado não supervisionado), auto-otimizada, auto-organizada etc. (Auto-X). As interações entre várias delas suscita novidades "não previstas", o que é chamado processo de emergência.

Na moderna IA, não se fala mais em programar o computador para realizar tal e tal tarefa (isso ainda é muito comum, mas não é mais alvo de pesquisas [= realidades futuras]), mas se fala em ensinar o computador a realizar tal e tal tarefa.

Mas essas características não vão acabar com os empregos, mas somente com os empregos ruins, exatamente como diz o artigo...

Abraços
Mesmo que as máquinas substituam tudo que fazemos hoje (não só na produção, mas estamos falando em praticamente todos os níveis de serviço hoje existentes, desde restaurantes até agências de publicidade e entretenimento) sempre existirá mais "trabalho" a ser realizado.

As nossas necessidades irão mudar em um mundo de uma "inteligência artificial plena", iremos nos dedicar a outras atividades. Por exemplo, em um mundo assim talvez uma parcela maior da população se dedique a esporte profissional (a não ser que você me diga também que iremos preferir ver jogadores de futebol robôs…), outras áreas do conhecimento humano, exploração espacial e por aí vai.

Entenda, meu caro: os recursos são escassos! Mesmo que as máquinas produzam "tudo" eles continuarão sendo escassos. O que iremos consumir pode ser muito barato em um futuro assim, mas os recursos continuarão escassos e desta forma eles terão sim preço.

A realidade é que, independente do que você acredita ser inteligência artificial ou não, com exceção do cenário apocalíptico das máquinas nos destruírem, elas irão continuar a ser ferramentas que irão aumentar a nossa produtividade. Se uma fábrica precisar apenas de uma pessoa para ir lá e apertar o botão a cada 100 anos isso significa que a produtividade alcançada é altíssima. Apenas isso…

Realisticamente, a economia é complexa demais para acreditar que máquinas irão simplesmente substituir os homens em todos os níveis possíveis de trabalho existentes (ou que nem existem ainda…)
"O tributo do pessoal ativo + tributação do lucro (apesar dos altos lucros serem temporários, eles não são nulos ao longo do tempo) não seriam suficientes para pagar a "renda básica"?"

A renda básica e todo o resto das operações estatais hoje vigentes?

Detalhe: os valores nominais arrecadados seriam decrescentes, o que significa que tanto os salários dos funcionários públicos e dos políticos, quanto o salário de toda a população (a "renda básica"), bem como todos os repasses a saúde, educação, segurança, justiça, cultura, lazer etc. terão de encolher anualmente em termos nominais. Isso nunca aconteceu em lugar nenhum na história do mundo.

Gostaria de ver a turma toda aceitando isso.

"o valor arrecadado pelo governo não seria maior em termos reais, apesar de não aumentar nominalmente?"

Depende. O valor nominal certamente irá cair. A questão então passa a ser: a deflação de preços cairá ainda mais?

E, mesmo que isso ocorra, o que comanda a política e a população são os valores nominais. Sempre foi. Nunca ninguém aceitou contínuas reduções nominais sob a promessa de que "ano que vem tudo estará mais barato, portanto aceitem". Esse será o jogo.

"Qual a diferença entre o governo arrecadar um valor nominal menor (mas com ganho real) e um valor nominal maior (mas com ganho real menor). O primeiro caso não seria melhor para o governo?"

Falta combinar com os funcionários públicos, com os políticos e com toda a população. A Grécia, por exemplo, está em deflação monetária (todo mundo tirou os euros de lá e mandou para outros países da zona do euro) e até mesmo com deflação de preços. Mas ninguém quer saber de redução salarial. Com isso, o desemprego vai para os dois dígitos. A Espanha está na mesma situação.

"Ou seja, por que a deflação é ruim para o governo?"

Porque afeta suas receitas nominais. E todo mundo só quer saber de ver os valores nominais subindo. Nunca o funcionalismo público, os dependentes do assistencialismo e os setores da saúde, educação, segurança, justiça etc. aceitaram reajustes salariais para baixo. Em nenhum país do mundo. Pode vir a acontecer? Até pode. Mas aí seria algo completamente inédito.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Filosofo  17/08/2011 11:15
    Está na hora de comprar prata, negociar em metais preciosos e mandar os governos às favas. Aliás, a prata irá se valorizar. A razao entre elas é de aproximadamente 16:1 mas está artificialmente em 70:1. Logo que o desastre monetário mundial chegar, quem tiver prata irá quintuplicar sua poupança. A coisa mais importante neste momento não é disputar o poder político, mas lutar pela liberdade de usar a moeda que quiser para negociar, criando as moedas privadas lastreadas em metais e pedras preciosas. A falencia das moedas estatais é suficiente para falir o Estado destruir boa parte do seu poder político.
  • Frederico  17/08/2011 11:30
    Olá...

    O principal fundamento da aceitação do dólar como moeda de reserva internacional é o fato de que o petróleo é cotado em dólar, e isso tem sido imposto pela força militar dos EUA. Estou correto?
  • Joao  17/08/2011 11:47
    Não acho que seja esse o caso. O dólar é aceito como moeda de reserva internacional por questões históricas. Este artigo explica o processo que levou ao uso do dólar como "lastro", especialmente a partir de Bretton-Woods:

  • amauri  17/08/2011 14:50
    "Na avaliação de Nouriel Roubini, professor de economia na Universidade de Nova York, a não ser que haja outra etapa de massivo incentivo fiscal ou uma reestruturação da dívida universal, o capitalismo continuará a experimentar uma crise, dado o seu defeito sistêmico identificado primeiramente por Karl Marx há mais de um século. Roubini, que há quatro anos previu a crise financeira global diz que uma das críticas ao capitalismo feitas por Marx está se provando verdadeira na atual crise financeira global." Esta noticia deu no blog vermelho Carta Capital.
  • Filosofo  17/08/2011 15:50
    Eu estou a meses tentando convencer um colega de trabalho, que se diz de esquerda, de que não vivemos sob o capitalismo. Já estou quase desistindo.
  • Fernando Chiocca  17/08/2011 16:20
    Desista. Apenas diga que se ele chama o que vivemos agora de capitalismo, então você é totalmente anti-capitalista.

    E coloque os termos da sociedade livre que você defende e recomece daí.

    Existe até um grande debate entre libertários de devemos abrir mão do termo capitalismo (cunhado por Marx) ou não.

    Should Libertarians Oppose "Capitalism"?
  • Leandro  17/08/2011 16:28
    Intrometendo-me na discussão, faço aqui uma propaganda sobre um (antigo) artigo que escrevi falando justamente sobre isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=372
  • Andre Cardoso  17/08/2011 17:07
    Posso estar errado, mas ele disse que ele não acredita que estamos vivendo em um sistema de capitalista e não o amigo.

    Aliás, muito bom artigo.
    Abraco a todos.
  • Filosofo  17/08/2011 20:06
    Excelente artigo! Não tinha lido ainda, agradeço bastante. Abaixo o capitalismo!
  • Pergunta para leandro  18/08/2011 07:15
    Leandro, se estiver lendo,gostaria que me respondesse.O que o comentário do Amauri acima,bem observado, onde ele reproduz parte de um artigo, diz.Esse chamado "defeito sistêmico" "descoberto" por Marx não é nenhuma novidade pra quem é capitalista, ele ocorre, é "natural", digamos assim.Escrevo novamente o que escrevi já a tempos atrás comentando neste site:os comunistas colocam o capitalismo como uma promessa que alguém fez de vida perfeita e falhou,pergunto a eles QUEM DISSE QUE O CAPITALISMO PROMETIA UMA VIDA DE IGUALDADE E FELICIDADE PARA TODOS?Não vale mencionar propaganda de refrigerantes, cigarros e filmes americanos.
    E pergunto a você,Leandro, bem mais informado do que eu, algum economista sério prometeu a igualdade e felicidade através do capitalismo?
  • Leandro  18/08/2011 16:52
    Tal defeito sistêmico não é natural. Ele decorre justamente do intervencionismo governamental no sistema monetário. Como o dinheiro é o elo entre todas as atividades econômicas, é natural que alterações na quantidade dessa variável provoquem efeitos na economia (tanto uma expansão econômica insustentável, quanto a subsequente e inevitável recessão).

    Portanto, para se analisar corretamente as flutuações da economia é preciso, antes de tudo, analisar as alterações das principais variáveis monetárias da economia -- e, principalmente, analisar quais órgãos são os responsáveis pela alteração dessas variáveis.

    No arranjo monetário em que vivemos, apenas dois órgãos têm esse poder: o Banco Central e o sistema bancário, que está sob total controle do Banco Central.

    Logo, não se trata de um defeito sistêmico "natural". Trata-se de um inevitável defeito sistêmico causado pela intervenção estatal no sistema monetário.

    Sobre dizer que o "capitalismo promete uma vida de igualdade e felicidade para todos", é claro que tal afirmação é ilógica. O capitalismo necessariamente gera desigualdade. Os melhores prosperam e os piores ficam para trás. Isso não só é inevitável, como também tem de ser assim, pois é o arranjo mais moralmente correto que existe.

    Em uma sociedade livre, a desigualdade de renda é algo inevitável. Ela é reflexo do mérito individual. É resultado do esforço. E tentar coibir essa disparidade com o intuito de tomar dos mais capazes para transferir aos menos é simplesmente tirania. Uma sociedade que privilegie a igualdade em detrimento do mérito não pode ser livre. É por isso que o mérito sempre deve vir antes da justiça, por mais gritaria que isso possa gerar. Uma sociedade baseada no mérito se desenvolve; uma baseada exclusivamente na justiça é uma incógnita, até porque a definição de justiça sempre estará, em última instância (infelizmente), nas mãos de burocratas com interesses próprios.

    Por fim, mesmo os piores estarão em melhor situação no capitalismo do que aqueles mais bem de vida no socialismo. É preferível ser pobre na Suíça a ser rico na Coréia do Norte ou em Cuba.
  • Pitomba  19/08/2011 15:24
    Seu argumento de que o mérito precede a justiça indica que você nunca leu muito sobre Ética. Foi justamente a evolução ética da sociedade que permitiu a esta sair da barbárie, quando a regra que atuava era simplesmente a Lei da Seleção Natural (sobrevivência pelo mérito), para a civilização, na qual vigora a Lei da Justiça. É a noção de justiça que evita a instalação do caos na sociedade. Ou voltaremos a viver como chimpanzés, disputando recursos na base da lei do mais forte.

    Recomendo a leitura de Aristóteles e Kant.
  • Fernando Chiocca  19/08/2011 16:43
    Pitomba, infelizmente o que vigora hoje é a lei do mais forte e recursos são distribuidos sem justiça e ética alguma.

    Vivemos num completo caos onde os produtores são pilhados em mais de 50% e o esbulho vai para os não produtores, na base da força.

    Foi Kant quem desenvolveu seu imperativo categórico, que é a regra de ouro da ética, que nos ensina que uma lei, que pretende ser justa, deve cumprir o requisito mínimo de ser universal, ou seja, igual para todos.

    As "leis" que os estados impõe para seus súditos não valem para eles, ou seja, não há justiça onde o estado atua.

    Recomendo a leitura de Hoppe.
  • Guilherme  18/08/2011 18:01
    Por falar em prata, alguém sabe dar informações sobre o seu comércio? Na BMF só se negocia ouro. Será que existe algum mercado para compra e venda de lingotes de prata seguro no Brasil?
  • Emerson Luis  11/04/2016 11:07

    "O papel-moeda fiduciário e de curso forçado tenta fazer o milagre de transformar pedras em pães — ou, mais especificamente, de trocar papel por carros, aparelhos eletrodomésticos e roupas de luxo. É a maravilhosa sensação de poder gastar e consumir sem a necessidade de produzir. Por meio do papel-moeda fiduciário e de curso forçado, os países mais ricos e mais poderosos do mundo também se tornaram os mais endividados."

    Keynes fez uma alusão metafórica à Bíblia. Na narrativa bíblica, foi o Diabo quem falou de "transformar pedras em pães" e Jesus se recusou a fazê-lo. É curioso que Keynes tenha dito ser capaz de fazer (ainda que metaforicamente) algo que foi proposto pelo Diabo e que Jesus rejeitou como ação imprópria.

    * * *


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.