(In)feliz aniversário, dinheiro de papel!

Quarenta anos atrás, 15 de agosto de 1971, em uma manhã de domingo, o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, declarou que o dólar não mais era conversível em ouro.  As 20.000 toneladas do metal amarelo que haviam sido depositadas em Fort Knox em 1944 vinham decrescendo substancialmente devido aos altos custos militares da Guerra do Vietnã.  Os EUA — a principal potência econômica global — não mais podiam honrar seus compromissos financeiros.

Não que antes daquela fatídica data houvesse de fato um padrão-ouro.  Longe disso.  A maioria dos países já havia rompido qualquer elo direto entre suas moedas e o ouro muitos anos antes.  Os cidadãos americanos ainda estavam proibidos, pelo seu próprio governo, até mesmo de portar ouro privadamente.  Não obstante, um tênue elo entre o dólar e o ouro ainda existia.  Sob o novo arranjo monetário criado após a Segunda Guerra Mundial, o dólar havia se tornado a moeda de reserva internacional, e os bancos centrais de todo o mundo receberam uma garantia dos EUA de que poderiam trocar suas reservas em dólares por ouro a um preço fixo.  Porém, naquela data de 1971, os EUA deram calote nessa promessa e, ato contínuo, removeram o último obstáculo para a ilimitada produção de dinheiro de papel.  Após o decreto de Nixon, os bancos centrais estrangeiros não mais poderiam trocar seus dólares acumulados por ouro ao preço oficial de US$ 35 a onça.  Com efeito, eles simplesmente não mais poderiam exigir que o governo americano redimisse dólares em ouro.

Após esse evento, conhecido como "o choque de Nixon", o dinheiro em todo o mundo tornou-se meramente uma moeda de papel sem lastro — ou, cada vez mais, uma moeda eletrônica —, que poderia ser criada por produtores privilegiados — bancos e bancos centrais — praticamente sem limite.  (E hoje, como consequência dessa liberdade para se inflacionar, o atual preço do ouro já está acima dos US$1.600!)

O sistema de Bretton Woods foi, assim, oficialmente extinto naquela data, e o dólar se tornou uma moeda totalmente fiduciária, lastreada não por ouro mas sim pela simples promessa do governo.

Isso representou o fim de um regime monetário que, desde a alvorada da civilização, havia tornado o dinheiro tanto um meio geral de troca como também uma reserva de valor.  O que começou em 1971 foi uma nova era de anormalidade histórica.  Uma era de moedas de papel fiduciárias e de curso forçado, gerenciadas por bancos centrais monopolistas.  Uma era em que a capacidade de fornecer crédito e financiamentos se tornou tão ilimitada quanto a capacidade do banco central de produzir papel pintado, cujo uso o governo decretou ser obrigatório.

Com a extinção dos últimos vestígios do ouro — aquela "relíquia bárbara" do passado, nas palavras de Keynes —, a irritante limitação (para o governo, é claro) à criação de dinheiro e crédito do nada foi finalmente abolida.  As necessidades humanas, bem como as demandas políticas mobilizadas por meio de maiorias (e minorais) democráticas, são infinitas.  Logo, por que parar a gastança?  Por que sacrificar os prazeres imediatos?  Um papel-moeda fiduciário e de curso forçado, destituído de quaisquer propriedades intrínsecas, libera os governos de seus compromissos com a conversibilidade, garantindo poderes ilimitados para os soberanos desse sistema estatista.

Com o fim dos últimos vestígios de um sistema monetário sólido, Keynes tornou-se o profeta de uma nova era de prazeres e exaltações, tudo sob o novo evangelho da gastança.  O papel-moeda fiduciário e de curso forçado ajudou a remover o elo entre a produção e o consumo, fazendo crer que o consumo não apenas independe da produção, como também pode antecedê-la.  Ainda pior: contribuiu para o delírio de que a escassez de capital — que é o estado natural da civilização — pode ser abolida mediante a simples impressão de dinheiro.

Os bancos centrais podem hoje imprimir qualquer quantidade de dinheiro que julguem necessária.  O dólar, que funciona (pelo menos até agora) como moeda de reserva internacional, tem o poder de adquirir bens reais sem oferecer absolutamente nada em troca.  O Banco Central americano imprime dólares, estes são enviados ao exterior e, em troca, estrangeiros mandam bens reais aos americanos.  O que eles ganharam em troca?  Pedaços de papel, os quais eles vão utilizar para comprar títulos do Tesouro americano, ajudando a financiar o déficit orçamentário do governo. 

É claro que, dentre os usuários de dólares, há muita gente que trabalha duro, gente integrada à estrutura de produção e que contribui para a sociedade fornecendo bens e serviços reais.  Mas não podemos ignorar os políticos e os burocratas — uma classe de pessoas completamente distinta.

Essa classe parasítica enfraquece a classe produtiva, além de manipular a produção por meio do gasto público.  No momento, o Banco Central Europeu está monetizando a dívida dos países da periferia europeia, o que significa que ele está imprimindo dinheiro unicamente para comprar os títulos das dívidas destes países.  Ao fazer isso, as pessoas que recebem esse dinheiro ficam na vantajosa posição de adquirir bens e serviços de outros países (a moeda, o euro, é a mesma para todos os países).  E isso, por sua vez, reduz a quantidade de bens disponíveis nesses outros países, fazendo com que os empreendedores desses países tenham menos bens à sua disposição.  Ou seja, o Banco Central Europeu, por meio de simples criação de dinheiro, está retirando recursos reais de empreendedores e desviando esses recursos para o financiamento de pródigas e dissipadoras atividades governamentais, bem como para o bem-estar das pessoas que vivem nesses países deficitários.  Isso é algo totalmente ultrajante, moralmente injusto e economicamente ruinoso.  Trata-se de apenas mais uma estrada no caminho para a servidão.

O papel-moeda fiduciário e de curso forçado tenta fazer o milagre de transformar pedras em pães — ou, mais especificamente, de trocar papel por carros, aparelhos eletrodomésticos e roupas de luxo.  É a maravilhosa sensação de poder gastar e consumir sem a necessidade de produzir.  Por meio do papel-moeda fiduciário e de curso forçado, os países mais ricos e mais poderosos do mundo também se tornaram os mais endividados.

Ao contrário do que ocorreu no século XIX, quando a potência dominante (Grã-Bretanha) acumulava superávits e as nações emergentes apresentavam crescente endividamento, agora está ocorrendo o oposto.  Tanto o déficit externo americano, bem como seu irmão gêmeo, o déficit orçamentário do governo, absorvem o grosso da poupança mundial, ao passo que os países emergentes, mais notavelmente a China, fazem os empréstimos, financiando a gastança americana.  E tudo indica que a China — o maior credor do governo americano, detendo mais de 25% de todos os títulos da dívida americana em mãos de estrangeiros — não vai se resignar a permanecer passiva todo esse tempo, vendo o valor dos títulos americanos que ela comprou diminuindo continuamente.

Os Estados Unidos — mesmo quando foram fundados em 1776 por meio de uma revolução libertária contra o despotismo arbitrário de um estado britânico que queria impor tributos sem nenhuma consulta — possuem em seu DNA os genes do alto gasto público e do ilimitado crescimento governamental.  Os Estados Unidos de hoje nada têm a ver com aquele de Thomas Jefferson.  Os princípios que nortearam sua fundação foram esquecidos há um século, com a criação do Federal Reserve em 1913, com a explosão dos gastos governamentais e o consequente aumento nos impostos e no endividamento.

Conclusão

O mundo pode continuar a jornada que começou a trilhar em 15 de agosto de 1971, ou pode reconhecer que aquilo foi um erro trágico que trouxe consequências terríveis.

Defensores de um leviatã com poderes ilimitados não apenas propõem doses adicionais de expansão monetária para mitigar a atual crise — a qual foi causada justamente por expansões monetárias ilimitadas —, como também estão propondo a criação de uma moeda única global a ser controlada por um banco central mundial[1].  Segundo esse modelo, os principais bancos centrais do mundo poderiam implementar medidas unificadas e oligopolistas, tudo sob o pretexto de estarem coordenando suas políticas monetárias.  Isso resultaria em um desastre total e no triunfo supremo exatamente do sistema que levou à atual crise.

A alternativa é um retorno a um sistema monetário sólido, uma restauração da moeda verdadeira — a qual surgiu espontaneamente no mercado, sem nenhuma imposição estatal — e uma rejeição a todo e qualquer tipo de intromissão dos governos no sistema monetário. 

E a abolição dos bancos centrais.



[1] Essa foi a proposta de Keynes durante a conferência de Bretton Woods, na qual ele recomendou a imposição do 'bancor' como a moeda internacional.


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SOBRE O AUTOR

Jordi Franch
leciona administração e economia na Universidade de Manresa, na Espanha, e na Universidade Técnica da Catalunha.  Ele descobriu Mises durante sua pós-graduação, mas o diretor de seu departamento de economia o proibiu de fazer seu Ph.D em economia austríaca.  Então ele foi à Universidad Rey Juan Carlos, em Madrid, e lá descobriu Jesús Huerta de Soto.

Tradução de Leandro Roque




"parece-me improvável ser coincidência os produtores do metal em questão [ouro] também terem abruptamente reduzido sobremaneira sua mineração e refino na década de 70 e de forma ainda mais intensa do que a supostamente levada a cabo pela OPEP [...]"

Exato! Este é o ponto. Quem afirma que o petróleo encareceu na década de 1970 por causa de uma suposta escassez de oferta tem também de explicar por que o ouro (e outras commodities) se encareceu ainda mais intensamente. Houve restrição na oferta de ouro?

Assim como não houve redução da oferta de ouro (cujo preço explodiu em dólar) também não houve redução da oferta de petróleo (cujo preço explodiu em dólar).

O problema, repito, nunca foi de oferta de commodities, mas sim de fraqueza das moedas -- recém desacopladas do ouro (pela primeira vez na história do mundo) e, logo, sem gozar de nenhuma confiança dos agentes econômicos.

Igualmente, por que o petróleo barateou (junto com o ouro) nas décadas de 1980 e 1990, quando a demanda por ele foi muito mais intensa do que na década de 1970? Por que ele encareceu em 2010 e 2011, em plena recessão mundial? E por que barateou em 2014 e 2015, quando as economias estavam mais fortes que em 2010 e 2011?

O dinheiro representa a metade de toda e qualquer transação econômica. Logo, quem ignora a questão da força da moeda está simplesmente ignorando metade de toda e qualquer transação econômica efetuada. Difícil fazer uma análise econômica sensata quando se ignora metade do que ocorre em uma transação econômica.

"ao menos em tese, não seria possível ocorrer uma elevação do índice "DXY" durante algum tempo simultaneamente a uma alta nas cotações em USD de algumas commodities, configurando uma situação de inflação de preços global generalizada onde a moeda america seria nesta hipótese "a garota menos feia do baile"

Sim, em tese seria possível. Só que, ainda assim, haveria um indicador que deixaria explícito o que está acontecendo: o preço do ouro.

Se o dólar estiver se fortalecendo em relação a todas as outras moedas, mas estiver sendo inflacionado (só que menos inflacionado que as outras moedas), o preço do ouro irá subir.

Mas este seu cenário só seria possível se todas as outras moedas estivessem sendo fortemente desvalorizadas. Enquanto houver franco suíço, iene e alemães na zona do euro, difícil isso acontecer.

Abraços.
Saudações, Leandro.

Teus comentários me remeteram a
uma recente troca de posts que tive no MI !
A propósito, uma análise da relação entre ouro e petróleo talvez pudesse reforçar nosso argumento em comum. Afinal, parece-me improvável ser coincidência os produtores do metal em questão também terem abruptamente reduzido sobremaneira sua mineração e refino na década de 70 e de forma ainda mais intensa do que a supostamente levada a cabo pela OPEP, caso a explicação p/ o fortalecimento do primeiro em relação ao segundo (i.e. cruede mais barato em Au) também se baseasse no suposto "choque de oferta" ao qual frequentemente se atribuem praticamente todos os episódios de encarecimento do petróleo em US$...

Sobre o "desafio": "Sigo no aguardo de um único exemplo prático de dólar forte e commodities caras. E de dólar fraco e commodities baratas, pergunto: ao menos em tese, não seria possível ocorrer uma elevação (ainda que improvável, inclusive na atual conjuntura) do índice "DXY" (dólar em relação às moedas mais líquidas do mundo) durante algum tempo simultaneamente a uma alta nas cotações em USD de algumas commodities, configurando uma situação de inflação de preços global generalizada onde a moeda america seria nesta hipótese "a garota menos feia do baile" (de ForEx) ?

Att.
Prezado Paulo, obrigado pelo comentário, o qual nada alterou a constatação: o preço das commodities é cotado em dólar; consequentemente, a força do dólar é crucial para determinar o preço das commodities. Impossível haver commodities caras com dólar forte. Impossível haver commodities baratas com dólar fraco.

Perceba que seus próprios exemplos comprovam isso: você diz que a produção americana de petróleo atingiu o pico em 1972, e dali em diante só caiu. Então, por essa lógica era para o preço do petróleo ter explodido nas década de 1980 e 1990. Não só a oferta americana era menor (segundo você próprio), como também várias economia ex-comunistas estavam adotando uma economia de mercado, implicando forte aumento da demanda por petróleo. Por que então o preço do barril não explodiu (ao contrário, caiu fortemente)?

Simples: porque de 1982 a 2004 foi um período de dólar mundialmente forte.

"Período 1973/74: É consenso da indústria mundial de petróleo que a subida abrupta dos preços em 1973/74 deveu-se ao embargo árabe realizado pela OPEP[...]"

Nada posso fazer quanto a esse "consenso", exceto dizer que ele é economicamente falacioso. O preço do barril (em dólares) subiu durante toda a década de 1970 (e não apenas no período 1973-74). O barril só começou a cair a partir de 1982, "coincidentemente" quando o dólar começou a se fortalecer.

Será que foi a OPEP quem encareceu o petróleo de 1972 a 1982? Se sim, por que então em 1982 ela reverteu o curso? Mais ainda: se ela é assim tão poderosa para determinar o preço do barril do petróleo, por que ela nada fez de 1982 a 2004, que foi quando o barril voltou a disparar ("coincidentemente", de novo, quando o dólar voltou a enfraquecer)?

E por que de 2004 a 2012 (dólar fraco) o petróleo disparou? E por que desabou de 2013 a meados de 2016 (dólar forte)? E por que voltou a subir agora (dólar enfraquecendo)?

Sigo no aguardo de um único exemplo prático de dólar forte e commodities caras. E de dólar fraco e commodities baratas.

Se alguém apresentar esse exemplo, toda a teoria econômica está refutada.
Boa tarde Bruno., tudo tranquilo?

Advogados de uma maneira geral tem duas frentes: ou são interlocutores mediante a resolução de conflitos, ou analistas para evitar conflitos. Basicamente são especialistas em detalhes jurídicos, sendo obrigatório o talento nato em retórica, para expor a parte de seu cliente de forma objetiva, lírica e eloquente na mediação, e muita disciplina acadêmica para assimilar todos os enlaces dos códigos a que se propõe atuar.

Sob a batuta do Estado, apenas formados em direito (e aqui no Brasil postulantes ao exame da OAB) podem representar pessoas e empresas nas demandas da Lei. Basicamente, 90% dos advogados no Brasil são decoradores de Lei, tendo parco saber jurídico para analisar de forma contundente demandas mais complexas.

Já em um país libertário, basta a pessoa ter um grande saber jurídico, oratória razoável e ser um bom jogador de xadrez que pode advogar tranquilamente, podendo também adquirir títulos e certificados mediante associações privadas, com o único propósito de destacar aqueles que realmente tem o que é necessário para ser advogado para quem quiser contrata-lo.

Quanto a sua questão, seja pelo monopólio do Estado ou em um país livre, o advogado não propriamente cria riqueza, mas impede que a mesma seja perdida por um descuido na assinatura de um contrato, ou mesmo a ruína causada por uma ex mulher gananciosa. Na assinatura de contratos é como uma companhia de seguros, pois ao analisar os detalhes mitiga os riscos apontando erros e pegadinhas. Por outro lado, se for atuar em uma demanda já existente, seria mais ou menos como o corpo de bombeiros, para apagar o incêndio o mais rápido possível, antes que o fogo consuma tudo.

Prezado Leandro

Aprecio muito seus artigos e comentários, postados aqui no Instituto Mises. Inclusive, suas respostas a indagações minhas sempre primaram pela cordialidade e análise ponderada. E, em relação ao seu comentário acima, não discordo quanto à correlação existente entre uma commoditie e a moeda em que ela é comercializada.

No entanto, se me permite, gostaria de discordar parcialmente do seus comentários acima sobre a causa e efeito nos preços dos mercados do petróleo, a partir do chamado Choque Nixon (1971). Entre outras medidas, ele cancelou unilateralmente a conversão do dólar em ouro. Baseei meus comentários em inúmeros autores, que usamos na indústria, não para fins políticos, mas para nosso negócio (tenho 38 anos de indústria do petróleo).

Para melhor acompanhar meus comentários, é interessante analisar os mesmos acompanhado de dois gráficos:

1) Preço do petróleo entre 1986 e 2015, fonte: BP Global:
www.bp.com/en/global/corporate/energy-economics/statistical-review-of-world-energy/oil/oil-prices.html

2) Produção e importação de óleo cru nos EUA: //en.wikipedia.org/wiki/Petroleum_in_the_United_States#/media/File:US_Crude_Oil_Production_and_Imports.svg

Vou colocar os eventos em ordem cronológica, com meus comentários após aspas de seus comentários, as vezes com ... :

SEU COMENTÁRIO: Igualmente, a acentuada e abrupta desvalorização do dólar na década de 1970 ... : não era o petróleo que estava ficando escasso; eram as moedas, recém-desacopladas do ouro, que perdiam poder de compra aceleradamente.

MEU COMENTÁRIO:
- A indústria do petróleo nunca correlacionou a culpa do aumento dos preços do petróleo na década de 1970 como sendo por causa de escassez do produto.

- Ano de 1972: A produção total Americana atinge o pico, próximo a uma média diária de nove milhões de barris por dia (bpd) e, a partir deste ponto, entra num declínio acentuado e contínuo, só interrompido em meados dos anos 2000, por conta do crescimento estratosférico da produção americana está ligado ao boom do "shale oil" americano (óleo de folhelho).

- Período 1973/74: É consenso da indústria mundial de petróleo que a subida abrupta dos preços em 1973/74 deveu-se ao embargo árabe realizado pela OPEP contra os países que apoiavam Israel na Guerra do Yom Kippur. Entre o início e o fim do embargo os preços tinham subido de US$ 3/barril (US$ 14 hoje) para US$ 12/barril (US$ 58 hoje).

SEU COMENTÁRIO: Tanto é que, nas décadas de 1980 e 90, o barril do petróleo despencou (dólar forte).

MEU COMENTÁRIO: Período 1985-1999:

- Em 1986 a Arábia Saudita resolveu recuperar sua participação no mercado global (market share) aumentando sua produção média diária de 3,8 milhões bpd em 1985 para mais que 10 milhões bpd em 1986. As reservas sauditas são tão grandes que ela sempre pôde se dar o luxo de "fechar ou abrir torneiras" para controlar demanda e oferta. Mas, atualmente isto está começando a ser modificado.

- 1988: Com o fim da Guerra Irã-Iraque, ambos voltaram a aumentar substancialmente a produção média diária.

SEU COMENTÁRIO: O boom das commodities (principalmente minério e petróleo) na década de 2000 foi "auxiliado" pelo enfraquecimento do dólar.

MEU COMENTÁRIO: Principais eventos para o aumento quase contínuo dos preços na década de 2000:

- Final dos anos 1990 e início dos anos 2000: Crescimento das economias Americana e Mundial.

- Pós 11/01/01 e invasão do Iraque: crescente preocupação quanto a estabilidade da produção do Oriente Médio.

- Segunda metade da década: Combinação de produção declinante mundial com o aumento acelerado e contínuo da demanda asiática pelo produto, especialmente China.

A causa da produção mundial declinante está relacionada à enorme expansão da produção OPEP na década anterior e que inibiu o investimento da indústria em exploração (pesquisa para descoberta de novas jazidas). Para quem não é da área, investimentos em exploração de petróleo tem retorno de médio a longo prazo.

SEU COMENTÁRIO: a recente queda a partir de 2012 (dólar forte).

MEU COMENTÁRIO: A partir de 2014 a queda dos preços está ligada a dois grandes eventos:

- Aumento substantivo da produção nos EUA e na Rússia, sendo que em 2015 a produção Americana atingiu o mais alto nível em mais de 100 anos, com os EUA voltando a serem os maiores produtores mundiais após mais de 50 anos (Figura a seguir)

- O crescimento estratosférico da produção americana está ligado ao boom do "shale oil" americano (óleo de folhelho), com o avanço tecnológico do fraturamento hidráulico (hydraulic fracturing, or fracking), ela começou a ser utilizada com progressivo sucesso em reservatórios não convencionais como o shale oil. Com isto, nunca os estoques americanos estiveram tão altos. E, aqui o básico da economia de Adam Smith: oferta maior que demanda gera queda nos preços.

Saudações, Paulo









Não, Xiba. Continua sendo pirâmide do mesmo jeito.

Essa questão da Previdência brasileira é um assunto bastante interessante pelo seguinte motivo: talvez seja a única área da economia que não está aberta a opiniões ideológicas.

Não importa se você é de esquerda ou de direita; liberal, libertário ou intervencionista. Também pouco importa se você acredita que a Previdência atual seja superavitária (como alguns acreditam). O que importa é que o modelo dela é insustentável. E é insustentável por uma questão puramente demográfica.

E contra a realidade demográfica não há nada que a ideologia possa fazer.

Comecemos pelo básico.

Ao contrário do que muitos ainda pensam, o dinheiro que você dá ao INSS não é investido em fundo no qual ele fica rendendo juros. Tal dinheiro é diretamente repassado a uma pessoa que está aposentada. Não se trata, portanto, de um sistema de capitalização, mas sim de um sistema de repartição: o trabalhador de hoje paga a aposentadoria de um aposentado para que, no futuro, quando esse trabalhador se aposentar, outro trabalhador que estiver entrando no mercado de trabalho pague sua aposentadoria.

Ou seja, não há investimento nenhum. Há apenas repasses de uma fatia da população para outra.

Por motivos óbvios, esse tipo de esquema só pode durar enquanto a fatia trabalhadora for muito maior que a fatia aposentada. Tão logo a quantidade de aposentados começar a crescer mais rapidamente que a fatia de trabalhadores, o esquema irá ruir.

Portanto, todo o arranjo depende inteiramente do comportamento demográfico da população. A qualidade da gestão do INSS é o de menos. Mesmo que a Previdência fosse gerida por anjos probos, sagazes e imaculados, ainda assim ela seria insustentável no longo prazo caso a demografia não cooperasse.

E, no Brasil, ela já não está cooperando. Segundo os dados do IBGE, em 2013, havia 5,5 pessoas com idade entra 20 e 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos. Em 2060, a se manter o ritmo projetado de crescimento demográfico, teremos 1,43 pessoa com idade entre 20 a 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos.

Ou seja, a menos que a idade mínima de aposentadoria seja continuamente elevada, não haverá nem sequer duas pessoas trabalhando e pagando INSS para sustentar um aposentado.

Aí fica a pergunta: como é que você soluciona isso? Qual seria uma política factível "de esquerda" ou "de direita" que possa sobrepujar a realidade demográfica e a contabilidade?

Havendo 10 trabalhadores sendo tributados para sustentar 1 aposentado, a situação deste aposentado será tranquila e ele viverá confortavelmente. Porém, havendo apenas 2 trabalhadores para sustentar 1 aposentado, a situação fica desesperadora. Ou esses 2 trabalhadores terão de ser tributados ainda mais pesadamente para sustentar o aposentado, ou o aposentado simplesmente receberá menos (bem menos) do que lhe foi prometido.

Portanto, para quem irá se aposentar daqui a várias décadas e quer receber tudo o que lhe foi prometido hoje pelo INSS, a mão-de-obra jovem do futuro terá de ser ou muito numerosa (uma impossibilidade biológica, por causa das atuais taxas de fecundidade) ou excessivamente tributada (algo que não é duradouro).

Eis o fato irrevogável: contra a demografia e a matemática, ninguém pode fazer nada.

A não ser mudar totalmente o sistema.

Uma proposta para uma reforma definitiva da Previdência

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Filosofo  17/08/2011 11:15
    Está na hora de comprar prata, negociar em metais preciosos e mandar os governos às favas. Aliás, a prata irá se valorizar. A razao entre elas é de aproximadamente 16:1 mas está artificialmente em 70:1. Logo que o desastre monetário mundial chegar, quem tiver prata irá quintuplicar sua poupança. A coisa mais importante neste momento não é disputar o poder político, mas lutar pela liberdade de usar a moeda que quiser para negociar, criando as moedas privadas lastreadas em metais e pedras preciosas. A falencia das moedas estatais é suficiente para falir o Estado destruir boa parte do seu poder político.
  • jorge Prestes  16/01/2017 12:58
    O futuro lastro da moeda mundial, não sera prata ou ouro, sera a "VIDA", porque ela não é instável e não muda, não envelhece e é igual em todos os países, somente vem de forma e se vai também de uma so forma, portanto é a unica paridade para uma igualdade monetária, inclusive faz parte da nova economia mundial na "Constituição Mundial", ver no site - www.lifeworld.com.br
  • Frederico  17/08/2011 11:30
    Olá...

    O principal fundamento da aceitação do dólar como moeda de reserva internacional é o fato de que o petróleo é cotado em dólar, e isso tem sido imposto pela força militar dos EUA. Estou correto?
  • Joao  17/08/2011 11:47
    Não acho que seja esse o caso. O dólar é aceito como moeda de reserva internacional por questões históricas. Este artigo explica o processo que levou ao uso do dólar como "lastro", especialmente a partir de Bretton-Woods:

  • amauri  17/08/2011 14:50
    "Na avaliação de Nouriel Roubini, professor de economia na Universidade de Nova York, a não ser que haja outra etapa de massivo incentivo fiscal ou uma reestruturação da dívida universal, o capitalismo continuará a experimentar uma crise, dado o seu defeito sistêmico identificado primeiramente por Karl Marx há mais de um século. Roubini, que há quatro anos previu a crise financeira global diz que uma das críticas ao capitalismo feitas por Marx está se provando verdadeira na atual crise financeira global." Esta noticia deu no blog vermelho Carta Capital.
  • Filosofo  17/08/2011 15:50
    Eu estou a meses tentando convencer um colega de trabalho, que se diz de esquerda, de que não vivemos sob o capitalismo. Já estou quase desistindo.
  • Fernando Chiocca  17/08/2011 16:20
    Desista. Apenas diga que se ele chama o que vivemos agora de capitalismo, então você é totalmente anti-capitalista.

    E coloque os termos da sociedade livre que você defende e recomece daí.

    Existe até um grande debate entre libertários de devemos abrir mão do termo capitalismo (cunhado por Marx) ou não.

    Should Libertarians Oppose "Capitalism"?
  • Leandro  17/08/2011 16:28
    Intrometendo-me na discussão, faço aqui uma propaganda sobre um (antigo) artigo que escrevi falando justamente sobre isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=372
  • Andre Cardoso  17/08/2011 17:07
    Posso estar errado, mas ele disse que ele não acredita que estamos vivendo em um sistema de capitalista e não o amigo.

    Aliás, muito bom artigo.
    Abraco a todos.
  • Filosofo  17/08/2011 20:06
    Excelente artigo! Não tinha lido ainda, agradeço bastante. Abaixo o capitalismo!
  • Pergunta para leandro  18/08/2011 07:15
    Leandro, se estiver lendo,gostaria que me respondesse.O que o comentário do Amauri acima,bem observado, onde ele reproduz parte de um artigo, diz.Esse chamado "defeito sistêmico" "descoberto" por Marx não é nenhuma novidade pra quem é capitalista, ele ocorre, é "natural", digamos assim.Escrevo novamente o que escrevi já a tempos atrás comentando neste site:os comunistas colocam o capitalismo como uma promessa que alguém fez de vida perfeita e falhou,pergunto a eles QUEM DISSE QUE O CAPITALISMO PROMETIA UMA VIDA DE IGUALDADE E FELICIDADE PARA TODOS?Não vale mencionar propaganda de refrigerantes, cigarros e filmes americanos.
    E pergunto a você,Leandro, bem mais informado do que eu, algum economista sério prometeu a igualdade e felicidade através do capitalismo?
  • Leandro  18/08/2011 16:52
    Tal defeito sistêmico não é natural. Ele decorre justamente do intervencionismo governamental no sistema monetário. Como o dinheiro é o elo entre todas as atividades econômicas, é natural que alterações na quantidade dessa variável provoquem efeitos na economia (tanto uma expansão econômica insustentável, quanto a subsequente e inevitável recessão).

    Portanto, para se analisar corretamente as flutuações da economia é preciso, antes de tudo, analisar as alterações das principais variáveis monetárias da economia -- e, principalmente, analisar quais órgãos são os responsáveis pela alteração dessas variáveis.

    No arranjo monetário em que vivemos, apenas dois órgãos têm esse poder: o Banco Central e o sistema bancário, que está sob total controle do Banco Central.

    Logo, não se trata de um defeito sistêmico "natural". Trata-se de um inevitável defeito sistêmico causado pela intervenção estatal no sistema monetário.

    Sobre dizer que o "capitalismo promete uma vida de igualdade e felicidade para todos", é claro que tal afirmação é ilógica. O capitalismo necessariamente gera desigualdade. Os melhores prosperam e os piores ficam para trás. Isso não só é inevitável, como também tem de ser assim, pois é o arranjo mais moralmente correto que existe.

    Em uma sociedade livre, a desigualdade de renda é algo inevitável. Ela é reflexo do mérito individual. É resultado do esforço. E tentar coibir essa disparidade com o intuito de tomar dos mais capazes para transferir aos menos é simplesmente tirania. Uma sociedade que privilegie a igualdade em detrimento do mérito não pode ser livre. É por isso que o mérito sempre deve vir antes da justiça, por mais gritaria que isso possa gerar. Uma sociedade baseada no mérito se desenvolve; uma baseada exclusivamente na justiça é uma incógnita, até porque a definição de justiça sempre estará, em última instância (infelizmente), nas mãos de burocratas com interesses próprios.

    Por fim, mesmo os piores estarão em melhor situação no capitalismo do que aqueles mais bem de vida no socialismo. É preferível ser pobre na Suíça a ser rico na Coréia do Norte ou em Cuba.
  • Pitomba  19/08/2011 15:24
    Seu argumento de que o mérito precede a justiça indica que você nunca leu muito sobre Ética. Foi justamente a evolução ética da sociedade que permitiu a esta sair da barbárie, quando a regra que atuava era simplesmente a Lei da Seleção Natural (sobrevivência pelo mérito), para a civilização, na qual vigora a Lei da Justiça. É a noção de justiça que evita a instalação do caos na sociedade. Ou voltaremos a viver como chimpanzés, disputando recursos na base da lei do mais forte.

    Recomendo a leitura de Aristóteles e Kant.
  • Fernando Chiocca  19/08/2011 16:43
    Pitomba, infelizmente o que vigora hoje é a lei do mais forte e recursos são distribuidos sem justiça e ética alguma.

    Vivemos num completo caos onde os produtores são pilhados em mais de 50% e o esbulho vai para os não produtores, na base da força.

    Foi Kant quem desenvolveu seu imperativo categórico, que é a regra de ouro da ética, que nos ensina que uma lei, que pretende ser justa, deve cumprir o requisito mínimo de ser universal, ou seja, igual para todos.

    As "leis" que os estados impõe para seus súditos não valem para eles, ou seja, não há justiça onde o estado atua.

    Recomendo a leitura de Hoppe.
  • Guilherme  18/08/2011 18:01
    Por falar em prata, alguém sabe dar informações sobre o seu comércio? Na BMF só se negocia ouro. Será que existe algum mercado para compra e venda de lingotes de prata seguro no Brasil?
  • Emerson Luis  11/04/2016 11:07

    "O papel-moeda fiduciário e de curso forçado tenta fazer o milagre de transformar pedras em pães — ou, mais especificamente, de trocar papel por carros, aparelhos eletrodomésticos e roupas de luxo. É a maravilhosa sensação de poder gastar e consumir sem a necessidade de produzir. Por meio do papel-moeda fiduciário e de curso forçado, os países mais ricos e mais poderosos do mundo também se tornaram os mais endividados."

    Keynes fez uma alusão metafórica à Bíblia. Na narrativa bíblica, foi o Diabo quem falou de "transformar pedras em pães" e Jesus se recusou a fazê-lo. É curioso que Keynes tenha dito ser capaz de fazer (ainda que metaforicamente) algo que foi proposto pelo Diabo e que Jesus rejeitou como ação imprópria.

    * * *


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