Além da boa governança

A crise da dívida soberana na Europa e a contenda nos Estados Unidos sobre o teto da dívida do governo federal têm um significado que transcende a política atual.  Esses acontecimentos denotam o fim de uma era.  A crise financeira da atualidade assinala o fim da época do estado intervencionista de bem-estar social.  Segundo sua própria natureza, este sistema é insustentável porque depende de um endividamento perpétuo do setor público.  O fim do estado intervencionista de bem-estar social está marcado pela falência financeira do estado.

O problema

A destruição da ordem liberal do século XIX, em conjunto com o abandono do padrão-ouro na Primeira Guerra Mundial, produziu um período de caos econômico, de desintegração social, de pobreza e radicalização política que, por sua vez, foi causal para a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial.  Na era pós-guerra, foi estabelecida uma nova ordem sob a liderança dos Estados Unidos ao lado do império Soviético.  Com o colapso do império comunista e o declínio relativo dos Estados Unidos, põe-se à prova mais uma vez a ordem econômica e a boa governança.

Cada época precisa reformular a reposta para a questão: o que é necessário para se aproximar de uma boa sociedade?  As mudanças tecnológicas mudam a economia e a sociedade, e cada era está se confrontando novamente com provocações específicas.

Com a revolução industrial surgiu o problema das consequências negativas da divisão do trabalho.  A divisão do trabalho implica especialização crescente, aumentando fortemente a interdependência socioeconômica.  Os ganhos de produtividade trazidos pela especialização permitem um nível de vida cada vez melhor.  Sem os ganhos de produtividade e, assim, sem um alto nível de especialização e uma rede extensa de divisão de trabalho (que por sua vez implica mercados, preços e moeda), a sociedade cai na pobreza.

Esse era o problema fundamental da época industrial e de todas as variações do socialismo — da social-democracia até o nacional-socialismo —, os quais representavam a resposta do século passado ao desafio de que, embora produza altos níveis de riqueza, a economia industrial deixa o indivíduo sempre em posição precária.

O sistema que resultou desse processo cruel de seleção foi o estado intervencionista de bem-estar social. Neste sentido, Francis Fukuyama elogiou o fim da história em 1992, refletindo as consequências da queda do muro de Berlim e o colapso da União Soviética.

Bancarrota do intervencionismo

Fukuyama identificou a democracia liberal do Ocidente como a forma final do governo humano.  Porém, diferentemente da tese de Fukuyama, o que realmente se estabeleceu foi o "welfare-warfare-state" (estado assistencialista e belicista) nos Estados Unidos, o "social-liberalismo" na Europa, o populismo na América Latina e o "capitalismo de estado" na China, na Rússia e em várias outras partes do mundo.  Na realidade de hoje não há nem neoliberalismo nem um sistema capitalista laissez-faire.  O que se chama "democracia liberal" é o estado intervencionista de bem-estar social, caracterizado por uma imensa presença do estado na economia.

O capitalismo de hoje não é um capitalismo liberal; o que realmente existe é um capitalismo burocrático que está sob forte controle e regulamentação dos governos dos estados nacionais.  A característica fundamental deste sistema é um intervencionismo caótico e desordenado — com uma legitimidade precária baseada no sistema redistributivo do estado de bem-estar social e da democracia das massas.  O que existe é um sistema altamente precário, um sistema que está sempre em perigo de colapso.  Cada crise provoca mais intervenções, produz mais burocracia e mais regulação, mais gastos do setor público e uma carga tributária cada vez maior.

Intervencionismo e burocratização são formas de atuar em uma "organização".  A ideia de tratar a sociedade como organização tem sua origem no positivismo de Auguste Comte (1798-1857).  O grande dilema dos nossos dias é que a política atua como se a sociedade fosse uma organização e como se fosse possível "governá-la" por comando em um sistema hierárquico.

Enquanto o intervencionismo recebe aceitação popular, ele está confrontado com o problema de que a política econômica intervencionista pontual provoca confusão e bloqueio, o que resulta, finalmente, em uma carga excessiva de dívidas fiscais e, por fim, numa paralisia da atividade econômica e no declínio da produtividade.  O intervencionismo moderno em sua atuação irritante e caótica destrói os fundamentos da produtividade e da coesão social.  A hiperatividade governamental nervosa produz uma economia que sofre de insuficiente formação de capital e move-se de uma crise à outra.  O que Ludwig von Mises diagnosticou nos anos 20 do século passado é hoje uma realidade inquestionável: o sistema econômico de intervencionismo é insustentável porque inerentemente cada intervenção provoca uma nova intervenção, e assim vai produzindo cada vez mais desordem e calamidades fiscais.

Boa governança

Um programa de boa governança acentua a necessidade de colocar as atividades governamentais e especificamente a política econômica no contexto do sistema inteiro, e assim implica a necessidade de um modelo normativo.

O tema da "boa governança" e, mais geralmente, a pergunta sobre a "boa sociedade" e a "ordem econômico-social", a cada época se apresenta novamente.  Para se manter no tempo, cada sociedade precisa resolver o conflito entre as vontades e cobiças dos indivíduos e as vantagens de viver juntos. Trata-se de inventar e reinventar novamente o modus vivendi social.  Desta forma, estabelece-se o problema essencial da ordem socioeconômica, e para a sua solução é necessário levar em consideração não somente a natureza espontânea que se manifesta na expressão da natureza crua do ser humano, mas também o ideal humano como uma meta essencial e como ponto de orientação.  Ordem — na tradição europeia desde os gregos antigos — significa a busca de uma ordem que seja adequada para o homem como animal político e, assim, para o ser humano como indivíduo que gosta e necessita da sociedade.

A ideia original da ordem, como já foi formulada na antiga filosofia, reside no fato de que, em relação ao mundo social, o espírito investigativo do homem não busca somente o conhecimento sobre a realidade, mas também sistemas ideais ou normativos.  Neste sentido, a busca está orientada para uma ordem conforme a natureza humana.

Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) insistiu na diferença entre cosmos e taxis, onde "cosmos" representa a ordem natural ao passo que "taxis" representa o sistema produzido pela intervenção humana.  Semelhantemente, Tomás de Aquino (1225-1274) separa a lei natural da lei positiva, e o economista francês François Quesnay (1694-1774), autor de "Tableaux economique", aplica a diferença entre a ordre positif e a ordre naturel em sua obra fundadora da fisiocracia.  Adam Smith (1723-1790) usa quase a mesma dicotomia para identificar a ordem natural como a ordem comercial e a caracteriza como o resultado natural do laissez-faire sob a regência da mão invisível.  Carl Menger (1840-1921), o fundador da escola austríaca, formulou a lei das instituições como resultado da ação humana sem plano e sem intenção, e Friedrich Hayek (1899-1992), da mesma escola, desenvolveu a teoria econômica constitucional, ao passo que Walter Eucken (1891-1950) elaborou a ordo-teoria econômica moderna como programa do ordo-liberalismo, o qual preparou a base teórica para estabelecer o sistema da "economia social de mercado" na Alemanha ocidental do pós-guerra.

Constitucionalismo econômico

No campo da política econômica, estamos hoje em um uma situação similar à política estatal de antes da introdução do estado de direito, o qual substituiu o sistema de privilégios particulares e a intervenção ad hoc dos princípios constitucionais.  Como a luta pelo constitucionalismo jurídico, a luta pelo constitucionalismo econômico de hoje está confrontada com fortes preconceitos e descrença.  O mesmo era o caso apenas alguns séculos atrás quando ainda parecia impossível existir a subordinação de poderes políticos na constituição ou haver uma separação entre estado e religião.  Não obstante, o que é aceito quase sem discussão no campo jurídico, falta ainda completamente na esfera econômica. Aqui ainda não existe a separação entre economia e estado.  Ao contrário, durante o século XX, o intervencionismo político na economia aumentou implacavelmente.

Para obter "boa governança" não é suficiente tornar o governo mais eficiente, transparente, participativo e livre de corrupção, como é o projeto dos grandes promotores deste conceito, como o Banco Mundial.  Para obter uma "ordem econômica" onde espontaneamente surja "boa governança", é necessário ter como pré-condição uma separação entre estado e economia.  Neste caminho, o primeiro passo estaria na desestatização do dinheiro, ou, mais precisamente, a sua desnacionalização.

O estado intervencionista de bem-estar social é incapaz de produzir "boa governança".  Este sistema não pode ser qualificado como ordem.  O estado intervencionista do bem-estar social é inerentemente expansivo e, com o seu crescimento, produz cada vez mais desordem.  Para avançar no caminho de estabelecer um sistema de ordem, é necessário minimizar a esfera política.

O implacável crescimento do estado é possível em decorrência do acesso dos governos ao crédito ilimitado, pois, no sistema vigente, é o próprio estado quem tem soberania sobre a moeda.  O projeto de minimização da atuação do governo não pode ser realizado enquanto os governos continuarem mantendo sua supremacia sobre a criação de moeda.

Nos Estados Unidos já existe o formidável movimento político para abolir o banco central americano, um movimento que, por sua vez, incentivou fortemente o interesse em teorias que tratam deste assunto, como é o caso da escola austríaca da economia.  Ao longo das últimas décadas, a discussão monetária se concentrou no tema de como salvaguardar a independência dos bancos centrais das intervenções políticas.  Entretanto, mais fundamental é o tema de como é possível livrar a moeda da supremacia do estado.


[Publicado originalmente no Ordem Livre]

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SOBRE O AUTOR

Antony Mueller
é doutor pela Universidade de Erlangen-Nuremberg, Alemanha (FAU) e, desde 2008, professor de economia na Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde ele atua também no Centro de Economia Aplicada. Antony Mueller é fundador do The Continental Economics Institute (CEI) e mantém em português os blogs Economia Nova e Sociologia econômica





Isso é elitismo seu. Uma pessoa que realmente não soubesse fazer nada senão carregar tijolos e apertar parafusos já estaria dormindo nas ruas, sem lar e sem teto. Tal pessoa dificilmente encontraria qualquer demanda por sua mão-de-obra no mercado atual. Poderia, no máximo, encontrar um ou outro bico esporádico. E o valor monetário que ele ganhasse seria rapidamente diluído pela inflação.

O fato é que qualquer indivíduo, com um mínimo de treinamento e dedicação, consegue fazer muito mais do que isso. Eu mesmo conheço um cara que era pedreiro ("carregava tijolo") e hoje trabalha em supermercado, atendendo clientes. Upgrade. E ele continua sem ter tido ensino médio.

Essa sua visão, ironia das ironias, é a de que indivíduos são tão burros quanto uma máquina, e incapazes de aprender qualquer coisa nova. Sinceramente, isso não existe. O que existe é comodismo. Qualquer um, numa situação de extrema necessidade, aprende a se adaptar. Sim, exige esforço. Sim, é desconfortável. Sim, seria muito melhor receber tudo pronto e sem qualquer chateação. Mas a vida não é assim. Vivemos num mundo de escassez e não de abundância. Tudo exige determinação, esforço e dedicação.

Agora, se tal indivíduo que você falou realmente é uma porta e realmente não quer aprender mais nada, bom, então aí nada pode ser feito por ele. Só falta agora você querer dizer que todo o progresso tecnológico deve ser interrompido apenas porque há um cidadão que se recusa a se auto-aprimorar na vida.
"Isso é um argumento lógico sim"

Conforme eu disse: e daí? E daí que o consumo aumentaria? O que vc extrai disso? O fato de que o consumo aumentaria em caso de descriminalização faz com que você defenda a proibição de drogas?
Cidadão, entenda uma coisa: o governo (e sua proibição de drogas) não obstrui o surgimento do crime organizado (decorrente do tráfico, que por sua vez é decorrente da proibição); ele fomenta esse crime organizado. Então, você defende algo que FOMENTA o crime organizado. Essa é a consequência do que você defende.


"A comparação com os carros foi um pouco infeliz da sua parte. Carros trazem benefícios para todos. Drogas, e todos nós temos que concordar, só trazem malefícios"

Não, meu amigo, você que continua com a mente bastante confusa: a referência foi feita a "acidentes de carros". Acidentes de carros matam milhões de pessoas, mas nem por isso vc defende a proibição de carros visando a evitar a ocorrência de acidentes de carros. Seja como for, não dá para dizer que todas as drogas só trazem malefícios: vc se esquece dos inúmeros fármacos, que inclusive podem salvar a vida de pessoas. De outro lado, vc continua sem explicar pq álcool e cigarro não deve ser proibidos. Dizer que "uns são mais viciantes que outros" não é explicação. É só fugir da explicação.

Ah, é que você acha que drogas "só trazem malefícios". Ainda que seja assim, e daí? Tudo que eventualmente traga malefício para as pessoas deve ser proibido pelo estado? Então é esse seu argumento? Precisamos de burocratas e políticos dizendo o que é maléfico para nós?

Cidadão: nós somos donos do nosso corpo. A soberania do indivíduo sobre o próprio organismo lhe dá o direito de nele introduzir quaisquer substâncias (inclui drogas) que desejar. Se o estado limitar esta liberdade, ele estará se apossando indevidamente do corpo das pessoas, violando a mais sacrossanta propriedade privada.

Ademais, quando o estado assume o papel de regulador moral, as instituições que seriam naturalmente responsáveis pela moralidade se enfraquecem, abrindo mão de suas funções. O indivíduo se torna menos zeloso e mais dependente, sem falar no apelo do fruto proibido. A inibição moral do consumo de drogas cabe à família, religião, cultura, e não aos burocratas.

Proibir as drogas é nivelar por baixo: restringir a liberdade dos bravos e fortes, que saberiam se controlar e ter uma relação saudável com as substâncias alucinógenas, em nome dos impotentes que se tornariam viciados.

Uma sociedade pode ser caridosa com os fracos, mas não deve se guiar por eles. Proibir as drogas em nome de potenciais viciados é cultuar a mediocridade.


"Mas eles são criminosos e não deixarão de ser quando for retirado o "core-business"deles. Eles não vão passar a acordar às 6 da manhã pra trabalhar. Vão simplesmente migrar de crime"

Os traficantes vão migrar de crime? Sim, e daí? Por causa disso vc defende uma medida (proibição de drogas) que os mantenham como chefões poderosos de crime organizado, matando e praticando violência como decorrência da proibição, que vc mesmo reconhece como sendo aquilo que lhes dá poder? Nossa, que posicionamento racional e humanista esse!

Então vc defende proibição sob o argumento de "evitar" migração de crime? Então vc quer manter os traficantes como chefões do tráfico. Muito sensato e inteligente de sua parte.

Se eles "migrarem" de crime, que sejam punidos conforme o crime que vierem a praticar, ora bolas. O que não é racional - nem moral - é manter um arranjo em que chefões do tráfico matam milhares de pessoas em virtude de uma proibição estúpida, ineficiente e imoral.


"Em tempo, eu nunca defendi o desarmamento civil, ok?"

Como vc é confuso, cidadão!

Eu não disse que vc defende ou defendeu isso; o que eu falei foi uma resposta à sua frase de que "traficantes escravizam a população mais pobre usando armas que o cidadão de bem não pode ter", frase que não tem nenhuma serventia para para quem defende proibição de drogas, como vc vem fazendo.














A evolução tecnológica se dá a pequenos passos, muitas vezes desconexos no início. Porém, sempre firmes e, às vezes, rápidos.

A cada passo da criação de algo, o ser humano também fica mais inteligente e com mais capacidade.

O seu cenário é possível sim, mas neste caso, as máquinas seremos nós. Afinal, somos máquinas, mas biológicas, naturais (ou como alguns querem: que Deus fez) e então é sim possível a criação de uma máquina semelhante, mesmo que isso dure vários milênios para acontecer, dado que podemos estudar sistematicamente a natureza e aprender com ela (ou, como querem alguns, porque Deus nos fez a sua imagem, então somos co-criadores).

Claro que, neste ponto, as duas máquinas (biológica e artificial) se confundem. Eu diria que criaríamos o nosso próprio corpo, de acordo com a nossa necessidade. Então, neste sentido, as coisas ainda seriam feitas por nós mesmos. Tem gente que leva a sério esta do transhumanismo e do homo technologicus (TripleC)

Sobre as máquinas serem programadas... Sim, de fato é isto, você pode programá-las para aprenderem, para interagirem, para reagirem e para otimizarem seu funcionamento. E mais, se você programar tudo isso de forma que a máquina o faça automaticamente (por ela mesma), ela se torna auto-reativa, com auto-aprendizado (aprendizado não supervisionado), auto-otimizada, auto-organizada etc. (Auto-X). As interações entre várias delas suscita novidades "não previstas", o que é chamado processo de emergência.

Na moderna IA, não se fala mais em programar o computador para realizar tal e tal tarefa (isso ainda é muito comum, mas não é mais alvo de pesquisas [= realidades futuras]), mas se fala em ensinar o computador a realizar tal e tal tarefa.

Mas essas características não vão acabar com os empregos, mas somente com os empregos ruins, exatamente como diz o artigo...

Abraços
Mesmo que as máquinas substituam tudo que fazemos hoje (não só na produção, mas estamos falando em praticamente todos os níveis de serviço hoje existentes, desde restaurantes até agências de publicidade e entretenimento) sempre existirá mais "trabalho" a ser realizado.

As nossas necessidades irão mudar em um mundo de uma "inteligência artificial plena", iremos nos dedicar a outras atividades. Por exemplo, em um mundo assim talvez uma parcela maior da população se dedique a esporte profissional (a não ser que você me diga também que iremos preferir ver jogadores de futebol robôs…), outras áreas do conhecimento humano, exploração espacial e por aí vai.

Entenda, meu caro: os recursos são escassos! Mesmo que as máquinas produzam "tudo" eles continuarão sendo escassos. O que iremos consumir pode ser muito barato em um futuro assim, mas os recursos continuarão escassos e desta forma eles terão sim preço.

A realidade é que, independente do que você acredita ser inteligência artificial ou não, com exceção do cenário apocalíptico das máquinas nos destruírem, elas irão continuar a ser ferramentas que irão aumentar a nossa produtividade. Se uma fábrica precisar apenas de uma pessoa para ir lá e apertar o botão a cada 100 anos isso significa que a produtividade alcançada é altíssima. Apenas isso…

Realisticamente, a economia é complexa demais para acreditar que máquinas irão simplesmente substituir os homens em todos os níveis possíveis de trabalho existentes (ou que nem existem ainda…)
10 horas
"O tributo do pessoal ativo + tributação do lucro (apesar dos altos lucros serem temporários, eles não são nulos ao longo do tempo) não seriam suficientes para pagar a "renda básica"?"

A renda básica e todo o resto das operações estatais hoje vigentes?

Detalhe: os valores nominais arrecadados seriam decrescentes, o que significa que tanto os salários dos funcionários públicos e dos políticos, quanto o salário de toda a população (a "renda básica"), bem como todos os repasses a saúde, educação, segurança, justiça, cultura, lazer etc. terão de encolher anualmente em termos nominais. Isso nunca aconteceu em lugar nenhum na história do mundo.

Gostaria de ver a turma toda aceitando isso.

"o valor arrecadado pelo governo não seria maior em termos reais, apesar de não aumentar nominalmente?"

Depende. O valor nominal certamente irá cair. A questão então passa a ser: a deflação de preços cairá ainda mais?

E, mesmo que isso ocorra, o que comanda a política e a população são os valores nominais. Sempre foi. Nunca ninguém aceitou contínuas reduções nominais sob a promessa de que "ano que vem tudo estará mais barato, portanto aceitem". Esse será o jogo.

"Qual a diferença entre o governo arrecadar um valor nominal menor (mas com ganho real) e um valor nominal maior (mas com ganho real menor). O primeiro caso não seria melhor para o governo?"

Falta combinar com os funcionários públicos, com os políticos e com toda a população. A Grécia, por exemplo, está em deflação monetária (todo mundo tirou os euros de lá e mandou para outros países da zona do euro) e até mesmo com deflação de preços. Mas ninguém quer saber de redução salarial. Com isso, o desemprego vai para os dois dígitos. A Espanha está na mesma situação.

"Ou seja, por que a deflação é ruim para o governo?"

Porque afeta suas receitas nominais. E todo mundo só quer saber de ver os valores nominais subindo. Nunca o funcionalismo público, os dependentes do assistencialismo e os setores da saúde, educação, segurança, justiça etc. aceitaram reajustes salariais para baixo. Em nenhum país do mundo. Pode vir a acontecer? Até pode. Mas aí seria algo completamente inédito.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Tiago RC  08/08/2011 09:04
    Tomara que aconteça, mas acho um tanto quanto otimista dizer "A crise financeira da atualidade assinala o fim da época do estado intervencionista de bem-estar social."

    A grande maioria das pessoas pensa que essa crise toda é culpa justamente de uma suposta falta de intervencionismo. Enquanto a ignorância reinar dessa forma, tenho dificuldades em ver o intervencionismo acabar. A não ser que o autor queira implicar que o "estado intervencionista de bem-estar social" pode ser substituído por algo ainda pior...
  • mcmoraes  08/08/2011 09:59
    Boa questão, Tiago RC. Penso que seria oportuna a criação de uma métrica objetiva de intervencionismo a nível global. Imagino algo como o índice de liberdade econômica do Heritage Foundation. Dependendo das variáveis utilizadas no cálculo, seria possível fazer aproximações baseadas nos registros históricos nos últimos 50 anos e, com isso, ter uma noção mais clara sobre o crescimento positivo ou negativo do intervencionismo a nível global.
  • Maurício Goncalves  08/08/2011 11:19
    Olá, Moraes, tudo bem?

    Esta métrica já existe. A do heritage foundation:www.heritage.org/index/ranking

    Ela não é perfeita, mas acredito que já é um começo do que vc está querendo...

    Abraços,

    Maurício
  • Maurício Goncalves  08/08/2011 11:27
    Putz, desculpe-me, eu li rápido o seu comentário. Não vi que havia mencionado o da Heritage...

    Abraço
  • Luiz Cesar  08/08/2011 11:10
    O primeiro passo na direção de diminuir a mão pesada do estado na economia é limitar o poder da classe política, principalmente nas esferas executivas e legislativas pois estes são os maiores beneficiários da perpetuação do atual sistema.
  • Eduardo  11/08/2011 08:29
    Luiz, Atacar o sintoma não resolve os problemas. É preciso agir na origem deles. E a origem é o desconhecimento da população em relação à economia austríaca.
  • Ubiratan Iorio  08/08/2011 15:49
    Muito bom o seu artigo, Herr Antony! Coisa de mestre!\r
    Um Umlaufsmittel bem apertado pra você!
  • João Pedro Souza Matos  08/08/2011 17:34
    Para acabarmos com o intervencionismo da forma que queremos e fazendo tuo dar certo, é necessário uma enorme campanha de esclarecimento da população, mas infelizmente ainda não temos isso, por isso a situação pode piorar, infelizmente.
  • Gabriel Meurer  08/08/2011 18:02
    Texto inconclusivo e um pouco confuso.
  • Felix  08/08/2011 18:42
    Tive esta mesma impressão.
    O autor tem muito conhecimento, todavia faltou coesão e linha de argumentação. Tem algumas referências esparsas para dar credibilidade mas estão muito soltas...
  • Dillon  09/08/2011 00:12
    Descordo de você Félix, o texto é claro, sucinto e objetivo! O que não entendo é o seguinte Herr Müller, veja o exemplo do partido republicado americano sempre teve uma política de não intervenção, diminuição dos imposto e combate a corrupção, porém eles não se saíram melhor que o intervencionismo dos democratas, o professor descreve (O intervencionismo moderno em sua atuação irritante e caótica destrói os fundamentos da produtividade e da coesão social). Hoje os republicanos parecem está mais dispostos a tornarem os ricos cada vez mais ricos! É interessante o que von Mises descreve sobre os bancos, pois durante crise do petróleo dos anos 70, o chefe Federal Reserve(FED), manipulou o valor do dólar e disse ao mundo: - A moeda é nossa o problema é de vocês......\r
    O mundo apostando no dólar teve que ao menos rever suas estratégias sobre a moeda,
  • Emerson Luis  06/04/2016 11:18

    "Fukuyama identificou a democracia liberal do Ocidente como a forma final do governo humano. Porém, diferentemente da tese de Fukuyama, o que realmente se estabeleceu foi o "welfare-warfare-state" (estado assistencialista e belicista) nos Estados Unidos, o "social-liberalismo" na Europa, o populismo na América Latina e o "capitalismo de estado" na China, na Rússia e em várias outras partes do mundo."

    Fukuyama disse que a democracia liberal é "a forma final do governo humano" não no sentido de que todos os países se tornariam liberais, mas no sentido de que esta era o melhor sistema social possível.

    A competição entre os países exige crescente tecnologia, a tecnologia exige níveis de instrução mais elevados na população em geral e pessoas mais instruídas querem liberdade.

    Mas Fukuyama também disse que nem todos os países optariam pelo liberalismo e que poderiam haver retrocessos na liberdade. Talvez ele devesse ter escolhido outro nome para seu livro, mas muitos interpretaram errado suas ideias.

    * * *


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