Salários, desemprego e inflação

A economia de mercado — também chamada de capitalismo —, quando operando sem intervenções do governo em seu mecanismo de preços e sem obstáculos à livre entrada e livre atuação da concorrência, é um sistema em que a supremacia é do consumidor.  O consumidor é soberano.  Como diz um popular slogan, ele "tem sempre razão". 

Neste arranjo, empreendedores estão sob a constante necessidade de ofertar aquilo que os consumidores querem, e devem fazer isso a preços que os consumidores podem e estão preparados para pagar.  Um empreendimento retumbará em um estrondoso fracasso caso as receitas de vendas não restituam o empreendedor por tudo aquilo que ele gastou produzindo seus bens e serviços.  E é assim que os consumidores, ao consumirem bens e serviços a um dado preço, determinam também o nível dos salários que serão pagos àqueles envolvidos nestes empreendimentos.

Os salários são, em última instância, pagos pelos consumidores

Deste raciocínio, segue-se que um empregador não pode pagar ao seu empregado um valor maior do que aquele que o empregado, por meio do seu trabalho, acrescenta à mercadoria.  E quem, em última instância, irá valorizar adequadamente a mercadoria é o público consumidor.  (É por isso que as estrelas de cinema ganham muito mais do que a faxineira da sala de cinema). 

Se o empregador fosse pagar um salário maior, ele não iria conseguir recuperar suas despesas por meio das receitas obtidas das compras do público consumidor; ele teria seguidos prejuízos e finalmente iria à falência.  Ao pagar salários, o empregador age como um representante dos consumidores, por assim dizer.  É sobre os consumidores que recai a incidência dos salários que um empregador paga a seus empregados.  Dado que a esmagadora maioria dos bens produzidos é comprada e consumida por pessoas que são elas próprias assalariadas, torna-se óbvio que, ao gastar seus ordenados, os assalariados e empregados são eles próprios os principais determinadores do nível de compensação que eles e outros assalariados como eles irão receber.

O que faz os salários subirem

Os consumidores não pagam pelo trabalho árduo e pelas dificuldades que o trabalhador enfrentou em sua jornada, tampouco pelo tempo que ele gastou trabalhando.  Eles pagam pelos produtos.  Quanto melhores forem as máquinas, as ferramentas e os equipamentos — isto é, o capital — que os trabalhadores utilizam em seu trabalho, mais bens e serviços eles podem produzir em uma hora e, consequentemente, maior será a sua remuneração. 

O que faz os salários subirem e o que torna as condições materiais dos assalariados mais satisfatórias é o aprimoramento dos equipamentos e materiais que eles utilizam.  Os salários serão mais altos naqueles países em que o capital investido por trabalhador seja maior, o que fará com que empresas e indústrias possam utilizar as mais eficientes máquinas e ferramentas.  E para que este capital seja alto, o governo deve retirar todos os obstáculos que impedem a poupança e a acumulação de capital, como impostos sobre a renda, tarifas de importação, regulamentações e burocracia. 

Os países mais economicamente atrasados serão justamente aqueles cujas políticas de seus respectivos governos impeçam tanto a acumulação de capital doméstico quanto o investimento de capital estrangeiro.  Sem este capital, as empresas não conseguirão empregar quantidades suficientes de equipamentos modernos.  Consequentemente, irão produzir muito menos por hora trabalhada e só poderão pagar salários que, em comparação aos dos países mais ricos, parecerão escandalosamente baixos.

Há apenas uma maneira de aprimorar o padrão de vida dos assalariados: aumentar a quantidade de capital investida.  Todos os outros métodos, por mais populares que possam ser, não apenas são fúteis, como na realidade são perniciosos para o bem-estar justamente daqueles que supostamente devem ser os beneficiados.

O que causa do desemprego

A questão fundamental é: seria possível aumentar os salários, para todas aquelas pessoas ansiosas para trabalhar, acima daquele valor que seria o obtido em um mercado de trabalho livre e desimpedido?

A opinião pública acredita que a melhoria nas condições de vida dos assalariados é uma conquista dos sindicatos e das várias medidas legislativas.  Ela concede ao sindicalismo e ao legislativo o crédito pelo aumento dos salários, pela diminuição das horas de trabalho, pelo desaparecimento do trabalho infantil e por várias outras mudanças.  O predomínio dessa crença tornou o sindicalismo algo popular e foi responsável pela solidificação de várias legislações trabalhistas.  Como as pessoas creem que devem aos sindicatos seu alto padrão de vida, elas toleram toda a intimidação, coerção e violência praticadas pelos movimentos sindicais, e se tornam indiferentes às restrições às liberdades pessoais geradas por aquelas cláusulas que estabelecem que determinadas empresas só podem admitir empregados sindicalizados e que todos os operários devem obrigatoriamente se filiar a um sindicato.  Enquanto essas falácias predominarem na mente dos eleitores, será em vão esperar um abandono resoluto daquelas políticas que são erroneamente chamadas de progressistas.

E o fato é que essa doutrina popular falsifica cada aspecto da realidade econômica.  O nível dos salários em que todos aqueles que estão ansiosos por trabalho poderão ser empregados depende da produtividade marginal do trabalho.  Quanto mais capital for investido — tudo o mais constante —, mais os salários subirão em um mercado de trabalho livre, isto é, em um mercado de trabalho que não seja manipulado pelo governo e nem por sindicatos.  Sob o predomínio destes salários de mercado, todos aqueles ansiosos para empregar trabalhadores podem contratar quantos quiserem.  Sob o predomínio destes salários de mercado, todos aqueles que querem estar empregados podem conseguir um emprego. 

Em um mercado de trabalho livre e desimpedido, sempre prevalecerá uma tendência de pleno emprego.  Com efeito, a política de permitir que o livre mercado determine o nível dos salários é a única política de pleno emprego sensata e bem sucedida.  Se os salários — seja por pressão ou coerção sindicalista, seja por decreto governamental — forem elevados acima deste nível de livre mercado, uma fatia da força de trabalho, aquela fatia não sindicalizada e com poucas habilidades, e justamente por isso a mais necessitada de qualquer tipo de emprego, será relegada a um permanente desemprego.

A expansão do crédito não substitui o capital

As opiniões acima são veementemente rejeitadas pelos líderes sindicais e por seus sectários, dentre estes políticos e pretensos intelectuais.  A panacéia por eles recomendada para combater o desemprego é a inflação monetária e a consequente expansão do crédito, eufemisticamente chamada de "política monetária expansionista".

Como explicado acima, um acréscimo ao estoque do capital existente e que foi previamente acumulado possibilita que haja um aprimoramento adicional dos equipamentos das indústrias, elevando assim a produtividade marginal do trabalho e, consequentemente, também os salários. 

Porém, a expansão do crédito, seja por meio da simples criação de mais cédulas ou moedas metálicas, seja por meio da expansão contas-correntes, não acrescenta nada à riqueza de uma economia.  A expansão do crédito não gera novos bens de capital; ela meramente cria a ilusão de um aumento na quantidade de fundos disponíveis para uma expansão da produção.  Como agora podem obter crédito mais barato, as pessoas erroneamente passam a crer que a riqueza do país foi aumentada e que, por isso, determinados projetos e investimentos que antes não poderiam ser executados agora se tornam viáveis.  O empreendimento desses projetos aumenta a demanda por mão-de-obra e por matéria-prima, e eleva os salários e os preços das mercadorias.  Uma expansão econômica artificial é iniciada.

Sob esse cenário de expansão econômica artificial, os salários nominais — que antes da expansão do crédito eram altos demais para as condições de mercado que predominavam naquele momento e que, por isso, haviam criado desemprego para uma fatia da mão-de-obra — deixam de ser considerados muito elevados, e os desempregados voltam a conseguir empregos.  Entretanto, isso ocorre somente porque, sob as atuais condições de inflação monetária e crédito fácil, os preços estão subindo; ou, falando o mesmo em outras palavras, o poder de compra da moeda está caindo.

Desta forma, o mesmo valor de salário nominal, isto é, o salário expresso em termos de dinheiro, passa a valer menos em termos reais, ou seja, em termos das mercadorias que podem ser compradas pela unidade monetária.  A inflação pode curar o desemprego apenas reduzindo os salários reais dos trabalhadores.  Mas então os sindicatos entram em cena e exigem novos aumentos salariais a fim de repor as perdas e acompanhar o ritmo do aumento do custo de vida.  Isso faz com que tudo volte à situação anterior, isto é, a uma situação em que o aumento do desemprego só poderá ser evitado caso haja novas expansões creditícias.

Tal política ocorre rotineiramente em vários países ao redor do mundo.  Os sindicatos, apoiados pelos governos, obrigam as empresas a pagar salários que estão muito além dos salários que prevaleceriam em um mercado livre — isto é, aqueles valores que o público estaria disposto a restituir os empregadores ao comprar seus produtos.  Já o governo, por sua vez, estabelece inúmeras regulamentações trabalhistas e sociais, onerando a folha de pagamento da empresa, fazendo com que o valor total pago pela mão de obra esteja muito acima daquele valor que prevaleceria em um livre mercado.  Isso tudo inevitavelmente geraria um desemprego crescente.  Porém, o governo impede que isso ocorra ao colocar em prática a política de expansão do crédito, isto é, inflação.  O resultado é o aumento dos preços, novas demandas por maiores salários e reiteradas expansões creditícias — em suma, inflação prolongada.

A inflação não pode continuar eternamente

Entretanto, chega um momento em que as autoridades se tornam receosas.  Elas sabem que a inflação não pode prosseguir continuamente.  Se não for interrompida a tempo, essa perniciosa política de expansão da quantidade de dinheiro e dos meios fiduciários fará com que, no extremo, o sistema monetário do país entre em total colapso.  O poder de compra da unidade monetária cai para um valor que, para todos os propósitos práticos, não está acima de zero.  Isso aconteceu recorrentemente na história mundial, sendo os casos mais famosos o da moeda Continental, nos EUA, em 1781, o assignat, na França, em 1796, o marco alemão, em 1923, e o pengõ húngaro, em 1946.

Nunca é cedo demais para uma nação finalmente perceber que a inflação não pode ser considerada um meio de vida, e que é imperativo o retorno a políticas monetárias mais sólidas e sensatas.

Não é o escopo deste pequeno artigo abordar todas as consequências que serão geradas pelo fim das políticas inflacionárias.  É necessário apenas enfatizar que o fim da expansão do crédito — e o consequente retorno à estabilidade monetária — não gera uma crise, ao contrário do que diz o senso comum.  O fim desse período de expansão creditícia, que gerou uma expansão econômica artificial, irá apenas revelar todos os investimentos insustentáveis e todos os vários outros erros que foram cometidos sob a alucinação da prosperidade ilusória criada pelo crédito fácil.  As pessoas finalmente se tornam cientes dos erros cometidos e, não mais enganadas pelo espectro do crédito fácil, começam a reajustar suas atividades, adequando-as ao real estado do mercado, à real estrutura de produção da economia, à real oferta de fatores de produção, de bens de capital e de mão-de-obra.

É esse — certamente doloroso, porém inevitável — ajuste que constitui a recessão.


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SOBRE O AUTOR

Ludwig von Mises
foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico.  Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política.  Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico.  Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de "praxeologia".



Meu caro, pelo seu discurso você nunca foi liberal e nunca entendeu o que é ser liberal. E ainda tem coragem de vir com esse apelo sobre pobreza.

Gostaria de fazer uma pergunta a todos vocês:
Pois não.

Vocês já foram Pobres pra saber?
Nasci pobre, muito prazer.

Vocês já tiveram um parente morto por bala perdida?
O que isso tem a ver com capitalismo/liberalismo? Você está misturando segurança pública (que é MONOPOLIO do estado), que alias é altamente ineficiente (no Brasil, morrem 56.000 pessoas por ano, o maior indice do mundo, a gente perde até pra India, que é 43.000 por ano, outro país com alto controle estatal e burocrático) com conceitos economicos. O estado nega aos seus cidadãos o próprio direito de se defender com uma arma e mesmo assim é incapaz de solucionar o problema.

Falam tanto em mercado, economia. Mas nunca vi um liberal que enriqueceu graças a todo seu conhecimento na área, algum de vocês é rico por acaso? Maioria que vejo é classe média, acho gozado porque se manjam tanto de produzir valor e riqueza vocês deveriam ser ricos..Mas não é isso que eu vejo.

Ai meus deuses... essa foi triste.
1) O Brasil está muito longe de ser um país livre, economicamente. É o país que fica em 118 lugar no índice de liberdade econômica.

2) Ser liberal não é uma formula para ser rico e sim defender que as pessoas tenham a liberdade para efetuarem trocas entre si sem intervenção constante do Estado por via de impostos e regulações. É dessas trocas de valor que a riqueza é produzida. Cada um teria a liberdade de crescer de acordo com suas habilidades e viver num patamar de vida que julga confortável, mas repito, o Brasil NÃO É E NUNCA FOI UM PAÍS LIVRE, ECONOMICAMENTE. Você se dizia liberal e não sabe desse básico. Aham. To vendo.

Eu já fui liberal, ai cai na real com a vida, vi que esse papo de mercado não é bem assim.
Não, amigo, você nunca foi liberal. Sinto muito. Ou você está mentindo ou você diz ser uma coisa que nunca entendeu direito o que é (o que mostra o seu nível de inteligência).

Inclusive, um amigo meu foi pra Arabia Saudita, ele disse que lá existem muitas estatais e assistencialismo e o país enriqueceu assim mesmo...

Aham, beleza, usando a Arabia Saudita como exemplo:

Saudi Arabia's riches conceal a growing problem of poverty

"The state hides the poor very well," said Rosie Bsheer, a Saudi scholar who has written extensively on development and poverty. "The elite don't see the suffering of the poor. People are hungry."

The Saudi government discloses little official data about its poorest citizens. But press reports and private estimates suggest that between 2 million and 4 million of the country's native Saudis live on less than about $530 a month – about $17 a day – considered the poverty line in Saudi Arabia.


Opa, perai, como é que 1/4 da população da Arabia Saudita vive abaixo da linha da pobreza? Você não disse que era um país ótimo, rico, cheio de estatal e assistencialismo? Explique isso então.


Falam de acabar com o imposto mas negam toda a imoralidade que a ausência deste geraria, como injustiças e até coisas que ninguém prever.

Que imoralidades, cara-palida? Favor discorrer.

Favor, tentar novamente. Essa sua participação foi muito triste.


Poderiam responder o comentário desse Leonardo Stoppa:
Estranho, hipócrita é dizer que o socialismo atual compete com o capitalismo. Comunismo sim complete com capitalismo mas socialismo é uma forma de redistribuição que, quando interpretada por pessoas que estudam economia a partir de livros de economia (e não Olavo de Carvalho) é uma espécie de segurança ao capitalismo.

Se um dia você entender que existe conhecimento além do que você conhece você vai ver que dentro do conceito atual de socialismo estão as formas de redistribuição de renda (SUS, Fies, Bolsas). Em países de primeiro mundo a galera acaba usando essa grana inclusive para comprar iPhone, logo, é um socialismo que serve ao capitalismo pois deixar essa grana parada na conta de um milionário vai resultar na venda de 1 iPhone para apple, agora, quando redistribuído vira vários iPhones.

O problema da sua visão é que você estuda em materiais criados sob encomenda. Você deixa de estudar em livros de economia para aprender pelas palavras de um cara que é pago por aqueles que pagam os impostos, ou seja, aqueles que são contra a redistribuição, logo, você abre mão do conhecimento para a alienação.

Socialismo não é comunismo. Pode vir de certa forma assemelhado nos livros antigos, mas depois da segunda guerra mundial e principalmente depois da queda da URSS, ficou claro que não há em se falar em controle centralizado e ausência de propriedade privada, mas quem estuda um pouco de economia e sociologia sabe que a intervenção e a redistribuição são importantes atividades governamentais para salvaguardar a atividade industrial.

A final, de que adianta ter industrias de ultima geração se apenas 1% do povo compra seus produtos??

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Rhyan  19/07/2011 10:28
    Fantástico!
  • Edik  19/07/2011 10:58
    É sempre gratificantes ler artigos diretamente de Mises.
  • Joao Luis Leite  19/07/2011 13:55
    Simples, claro, conciso e verdadeiro. Brilhante!
  • Alexandre M. R. Filho  19/07/2011 14:00
    Mises está para nós assim como Marx está para os ignorantes.\r
    \r
    Leandro, eu estou estudando economia e fui ler um livro sobre economia brasileira.\r
    \r
    Eu já li muito texto austríaco, tenho - acho - bastante base, mas acabei ficando com uma dúvida.\r
    \r
    Nesse livro que estou lendo, a autora diz que os monetaristas erram ao propor que a inflação é causada pelo aumento da base monetária\r
    \r
    O exemplo que ela usa para justificar essa conclusão é o Brasil da década de 1980. Não lembro ao certo o período exato que ela cita.\r
    \r
    Segundo a autora, nesse período, o Brasil experimentou uma recessão, com cortes de gastos públicos, diminuição do meio circulante e, ainda assim, inflação.\r
    \r
    Para tal, ela mostrou gráficos, dados e escamabau.\r
    \r
    Logo em seguida, ela discorre sobre a explicação keynesiana para o fenômeno inflacionário, com aquele monte de baboseira maluca que ninguém entende.\r
    \r
    Tenho para mim que ela não estudou os dados de maneira correta ou manipulou-os descaradamente.\r
    \r
    Será que ela está mesmo certo? Será que o Brasil já experimentou uma diminuição dos gastos públicos, uma diminuição do meio circulante e, ainda assim, um aumento generalizado nos preços?\r
    \r
  • João  19/07/2011 14:19
    Peraí, peraí. Eu não sou economista, sou um curioso, mas se um economista viesse com uma cara séria e me dissesse que não houve aumento da base monetária em algum momento da década de 80, eu não levaria esse economista a sério. Por favor, diga-me quais gráficos e números ela usou, porque, sinceramente, não consigo entender.
  • anônimo  19/07/2011 15:04
    Ué, mas e as cédelas com "milhares" de zeros, de onde será que veio? Evolução natural das especies?
  • Alexandre M. R. Filho  19/07/2011 15:47
    Quando chegar em casa, eu vou verificar exatamente os dados, o período etc. e posto aqui pra turma ver.\r
    \r
    O nome da autora do livro é "eliane sei lá do que". O nome é "Economia Brasileira" ou coisa parecida. Vou verificar.\r
    \r
    Foi um livro que comprei na época da faculdade - fiz direito - pq alguns textos/capítulos eram pedidos em uma matéria (justamente "economia").
  • Leandro  19/07/2011 15:46
    Prezado Alexandre, como o leitor João corretamente apontou, e o anônimo perfeitamente ironizou, não há um só período da década de 1980 que tenha vivenciado qualquer tipo de contração monetária. Isso está bem explícito no site do Banco Central.

    E digo mais: não há um só período pós-década de 1940 em que os gastos tenham sido efetivamente reduzidos -- reduzidos no sentido correto da palavra, aquele sentido que vale para mim e para você: gastar menos esse ano do que no ano passado. Na linguagem governamental, reduzir gastos significa aumentar gastos em um ritmo menor.

    Entretanto, para o bem da discussão, vale apontar que houve anos em que a expansão monetária foi praticamente nula e a inflação foi alta, como 2003 e 2008.

    Para ambos os casos, não podemos ignorar o papel das expectativas na formação dos preços. Por exemplo, o dono da padaria e do supermercado não fica entrando no site do BC para acompanhar a evolução da oferta monetária. Ele tende a olhar o histórico da inflação do último ano e compará-lo ao que as pessoas, principalmente a mídia, estão dizendo sobre as perspectivas de inflação futura. Daí ele vai precificar suas coisas de acordo com isso. Entretanto, se ele aumenta os preços, mas a oferta monetária não soube, a demanda vai cair, o desemprego vai subir e a economia ficará em desequilíbrio até que a oferta volte a se casar com a demanda. O que ocorre normalmente é que os preços param de subir e o Banco Central volta a expandir a oferta monetária, o que volta a estimular a demanda e a economia volta a aparentar crescimento. Isso ocorreu em 2004 e 2009.

    No caso específico de 2003, havia também a disparada do dólar do final de 2002 para intensificar a inflação de preços. Por outro lado, em 1998, a oferta monetária também pouco se alterou, e a inflação de preços foi quase nula.

    Vale observar que o causador inicial destes solavancos é o próprio Banco Central, que, ao manipular a moeda, provoca inflação de preços, o que altera as expectativas futuras das pessoas. Daí quando o próprio BC tenta se corrigir e interromper a expansão monetária, ele gera os desequilíbrios acima.

    Por fim, vale ressaltar que a base monetária está longe de ser um bom indicador para a previsão da inflação de preços. Comentei isso na seção de comentários deste artigo. Tenha a bondade de ler a minha resposta para o leitor Felix:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1015

    Abraços!
  • Marcelo Werlang de Assis  19/07/2011 16:05
    "Economia Brasileira ao Alcance de Todos", de Eliana Cardoso?
  • Alexandre M. R. Filho  19/07/2011 19:46
    Esse mesmo!!! Vou atrás das páginas agora...
  • Alexandre Melchior  20/07/2011 02:11
    O livro realmente é "Economia Brasileira ao Alcance de Todos", de Eliana A. Cardoso.\r
    \r
    A edição que eu tenho é a 4a., impressa em 2000.\r
    \r
    Achei o trecho a que me referi no capítulo 4 ("A inflação: teoria e fatos").\r
    \r
    Cito:\r
    \r
    P. 88: \r
    \r
    "(...) O corte simultâneo do déficit e da expansão monetária deve necessariamente provocar a queda da inflação. Como a inflação brasileira em 1984 não diminuía após três anos de corte após corte, os monetaristas se espantavam: ""Estou perplexo com o processo inflacionário brasileiro. Estamos controlando a política monetária e reduzimos o déficit governamental. Mesmo assim, a inflação não cede"". A afirmação é do presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore e publicada na imprensa. E perplexos estavam os brasileiros. Depois de três anos de recessão econômica, a taxa de inflação brasileira era de 200 por cento ao ano."\r
    \r
    Depois ela enrola mais ainda. Não vou escrever tudo aqui pra poupar os amigos da chatice...\r
    \r
    Leandro, ela viajou então??? Ou deu um miguézão??
  • Leandro  20/07/2011 08:39
    Alexandre, eis os dados do Banco Central para a evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais depósitos em conta-corrente), que é o agregado monetário que mais influencia a inflação de preços:

    jan/80 --- 826.000.000
    fev/80 --- 839.000.000
    mar/80 --- 878.000.000
    abr/80 --- 936.000.000
    mai/80 --- 981.000.000
    jun/80 --- 1.057.000.000
    jul/80 --- 1.100.000.000
    ago/80 --- 1.112.000.000
    set/80 --- 1.159.000.000
    out/80 --- 1.203.000.000
    nov/80 --- 1.264.000.000
    dez/80 --- 1.415.000.000
    jan/81 --- 1.399.000.000
    fev/81 --- 1.369.000.000
    mar/81 --- 1.420.000.000
    abr/81 --- 1.492.000.000
    mai/81 --- 1.526.000.000
    jun/81 --- 1.606.000.000
    jul/81 --- 1.696.000.000
    ago/81 --- 1.753.000.000
    set/81 --- 1.828.000.000
    out/81 --- 1.988.000.000
    nov/81 --- 2.127.000.000
    dez/81 --- 2.449.000.000
    jan/82 --- 2.589.000.000
    fev/82 --- 2.583.000.000
    mar/82 --- 2.568.000.000
    abr/82 --- 2.707.000.000
    mai/82 --- 2.854.000.000
    jun/82 --- 3.066.000.000
    jul/82 --- 3.239.000.000
    ago/82 --- 3.397.000.000
    set/82 --- 3.440.000.000
    out/82 --- 3.748.000.000
    nov/82 --- 4.005.000.000
    dez/82 --- 4.511.000.000
    jan/83 --- 4.536.000.000
    fev/83 --- 4.747.000.000
    mar/83 --- 4.662.000.000
    abr/83 --- 4.897.000.000
    mai/83 --- 4.988.000.000
    jun/83 --- 5.279.000.000
    jul/83 --- 5.886.000.000
    ago/83 --- 5.923.000.000
    set/83 --- 6.483.000.000
    out/83 --- 7.012.000.000
    nov/83 --- 7.458.000.000
    dez/83 --- 8.899.000.000
    jan/84 --- 9.273.000.000
    fev/84 --- 9.082.000.000
    mar/84 --- 9.841.000.000
    abr/84 --- 10.803.000.000
    mai/84 --- 11.546.000.000
    jun/84 --- 12.515.000.000
    jul/84 --- 13.833.000.000
    ago/84 --- 14.739.000.000
    set/84 --- 16.341.000.000
    out/84 --- 17.726.000.000
    nov/84 --- 19.417.000.000
    dez/84 --- 24.917.000.000
    jan/85 --- 25.426.000.000
    fev/85 --- 27.032.000.000
    mar/85 --- 29.319.000.000
    abr/85 --- 32.481.000.000
    mai/85 --- 35.068.000.000
    jun/85 --- 39.923.000.000
    jul/85 --- 45.934.000.000
    ago/85 --- 51.863.000.000
    set/85 --- 60.566.000.000
    out/85 --- 65.335.000.000
    nov/85 --- 73.762.000.000
    dez/85 --- 101.620.000.000


    Não há um só mês de "corte da expansão monetária", quiçá três anos.

    Ironicamente, foi justamente em 1984 que a coisa ficou mais descontrolada. Como essa gente esperava reduzir a inflação de preços aumentando a inflação monetária?!

    Realmente, é preciso ser economista, com doutorado e tudo, pra fazer com a economia aquilo que só se deve fazer no lavabo.

    Abraços!
  • Alexandre Melchior  20/07/2011 11:23
    Pois é. Veja o tamanho do estrago: uns 300 jovens, egressos da USP - que os caras teimam em dizer que é a melhor do país -, aprenderam economia desse jeito.\r
    \r
    Muitos deles hoje são juízes, promotores, diplomatas, trapalham pro governo federal do PT nos ministérios etc.
  • Luis Dietz  20/07/2011 13:59
    Professores universitários também. Engraçado Alexandre tive um professor (formado na USP e ex acessor de um ministério petista) na faculdade de economia que usou o mesmo argumento que a sua autora. Excetuando eu, creio que todos os meus colegas aceitam esta idéia de que a década de 80 é um exemplo de como os monetaristas estavam errados. Isto é amplamente aceito aqui entre alunos e professores e em 90% das vezes a resposta para "monetaristas" é "década de 80".
  • Alexandre M. R. Filho  20/07/2011 17:22
    Leva os dados do Leandro pro professor cara. Vamos ver o que ele fala.\r
    \r
    Qual o nome dele?
  • Domingos  20/07/2011 17:17
    Acrescento um dado recente: desde 1994, o M1 no Brasil cresce a uma taxa média de 16% a.a. Não está tão longe do despertador dessa bomba tocar.
  • Sérgio Ricardo  19/07/2011 15:23
    Explicação célere e fantástica.

    Às vezes eu me pergunto se a vida explica a arte ou a arte explica a vida. Esse questionamento surge quando vejo quanto é real um texto que foi escrito no início do século XX e que serve de base para o presente. Estamos em 2011 e o texto parece que foi escrito em nosso tempo.

    Infelizmente se explicarmos isso para a maioria das pessoas, temos que sair escoltados, pois os ignorantes não entenderão e nos chamarão de reacionários e contra os nossos iguais.

    A cada dia eu percebo que a vida é dos inúteis! Pois vejo como é fácil enganar a maioria com falácias ignorantes e os enganados ainda aplaude quem está os eliminando.

    Leandro, parabéns por nos trazer essa relíquia.

    Abraço!
    Sérgio Ricardo
  • Raphael Auto  19/07/2011 19:01
    Existe algum livro que trata da história das políticas econômicas brasileiras sobre um ponto de vista mais racional (austríaco, hehe) ou pelo menos não ideológico? De vez em quando é difícil ter noção do que realmente aconteceu com a economia brasileira em certos governos, simplesmente por que a história sempre foi muito pervertida.
  • Leandro  19/07/2011 19:13
    Prezado Raphael, tal obra ainda está por nascer. Porém, como quebra-galho, acho que essa artigo faz uma boa introdução ao assunto:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=313

    Abraços!
  • Andre Poffo  20/07/2011 20:32
    Quem deveria escrever este livro é você Sr. Leandro. :)\r
    \r
    Já começou algo por acaso?
  • Paulo  20/07/2011 15:37
    "a evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais depósitos em conta-corrente), que é o agregado monetário que mais influencia a inflação de preços:"
    Engraçado, outro dia nós tivemos um debate aqui sobre a inflação de preços na Holanda no século XVII (que adotava o sistema bancária com 100% de reservas, mas ainda assim, emitia meios fiduciários), e a história da inflação de preços naquele país nesta época mostrou que ocorreu exatamente o oposto do que o Leandro disse: segundo uma tabela publicada por Douglas French, no artigo sobre a bolha das tulipas, no período 1929-1936, houve um aumento explosivo na oferta monetária, mas nesta período houe uma deflação de preços. Já no período 1640-1644, quando a cunhagem de moeda caiu, houve uma pequena inflação de preços, aliás, foi no período 1643-1644, quando houve uma desaleceração no ritma da expansão monetária que houve uma inflação de preços...
    Se tem dúvidas, acesso o link abaixo aqui estão os números:

    www.iisg.nl/hpw/calculate.php

    Só uma correção: segundo Mises, em 1781 houve uma hiperinflação nos EUA, no entanto, de acordo com o site measuringworth, em 1781, houve uma DEFLAÇÃO de preço nos EUA, de 19,3%.
  • Leandro  20/07/2011 15:58
    Mas é claro, meu caro Paulo. Foi exatamente em 1781 que o Continental foi abandonado, justamente por causa de sua inflação. É claro que neste ano os preços caíram. E é claro que este é o ano citado por Mises como o fim do Continental. Queria que ele citasse qual ano, o da criação da moeda? Estude mais a história do Continental e veja que ele circulava em paralelo a outras moedas, pois todas as colônias eram livres para emitir os estados eram livres para emitir notas de crédito, as quais circulavam lado a lado com ouro e prata.

    De resto, creio que você está se referindo à discussão ocorrida nos comentários deste artigo. Pelo visto, nada mudou em sua disposição para trolar.

    Abraços!
  • Paulo Kelson  21/07/2011 22:40
    Obrigado instituto, por publicar a explicação no artigo: Salários, desemprego e inflação do dia 19/07/11. Realmente os sindicatos deveriam mais é lutar contra a exploração exagerada e abusos sofridos aos trabalhadores pelas empresas e não chantageando-as e também o governo deveria é diminuir os impostos, pois realmente o abuso de suas pesadas taxas e aumento de juros afeta o desenvolvimento de todo mundo.

    Aviso, apesar do Pólo Industrial de Manaus ter recorde faturamento em 2010, (78 bilhões de reais) e o 1° semestre de 2011 superou o mesmo período do ano passado, os salários dos trabalhadores nesses anos são os menores da História da Zona Franca.

    Sucesso para vocês do Instituto!

    Paulo Kelson, Manaus, AM.
  • Marcio Estanqueiro  22/07/2011 16:37
    Olá Leandro!

    Acompanho sempre seus artigos, são excelentes!
    Gostaria de lhe fazer uma pergunta, e embora nào esteja totalmente relacionado com o artigo acima, fala também do comportamento do consumidor. Eis a pergunta: O recente acordo entre Sadia e Perdigão poderá afetar o mercado? Essa união dificultará a concorrencia? Obrigado.
  • Leandro  22/07/2011 17:58
    Prezado Márcio, não há nada de errado com fusões ou qualquer tipo de acordo entre empresas desde que isso ocorra em um ambiente de livre concorrência e sem qualquer subsídio do governo.

    Nesse cenário de livre mercado, a opção de fusão entre empresas se dá justamente visando a uma redução de custos e a uma melhor integração dos serviços, tudo para vencer a concorrência e vender a preços mais baixos. O processo se dá seguindo exatamente o raciocínio apresentado ao final deste meu comentário aqui

    Já em um cenário regulamentado pelo estado, em que este determina quem pode e quem não pode entrar no mercado, e em que ele próprio concede financiamentos subsidiados, é claro que as operações de fusão não se darão de acordo com os sinais do mercado; o objetivo não é o corte de custos e a redução de preços, mas sim o simples desejo das empresas de garantirem ainda mais o seu oligopólio, restringindo ainda mais o mercado por meio do estado, de modo que elas se tornem tão grandes que elas possam monopolizar toda a cadeia de suprimento dos produtos que elas compram para revender (os fornecedores não terão outra opção a não ser vender seus produtos para um único e grande conglomerado).

    Tal arranjo, obviamente, é deletério para o livre mercado e, por conseguinte, para o consumidor.

    Sempre lembrando que, em um ambiente de livre entrada e livre concorrência, uma empresa só se tornará uma gigante se ela for realmente excepcional na oferta de bens e serviços -- algo praticamente impossível de ser feito por apenas uma empresa, sem que nenhuma outra a imite. É por isso que monopólios e oligopólios são características inerentes a economias reguladas.

    Grande abraço e obrigado pelos elogios!
  • Maurício Goncalves  12/10/2011 13:23
    Olá, Leandro, tudo bem?

    Vc pode me dar um exemplo de como, na espiral inflacionária, os assalariados sofrem mais com o aumento da base monetária?

    Um artiguinho tb cairia bem... :o)

    Abraço!

    Maurício
  • Leandro  12/10/2011 17:16
    Prezado Maurício,

    A maneira como a variação da oferta monetária (no caso brasileiro, o M1 é mais importante que a Base Monetária) irá afetar preços e salários depende totalmente do ponto da economia em que tal injeção de dinheiro será feita. Os setores que primeiro receberem essa nova quantia de dinheiro (no Brasil atual, o setor imobiliário) terão seus preços e salários aumentados em relação aos outros setores da economia. Como explicado neste artigo, essa injeção de dinheiro provoca uma distorção dos preços relativos da economia, ampliando os investimentos e a demanda por mão-de-obra nestes setores, o que aumenta os salários (tanto de peões quanto de engenheiros civis, corretores, arquitetos etc.).

    Aí, à medida que esse dinheiro recém-criado vai sendo gasto por essas pessoas que primeiro o receberam, os preços restantes da economia também começam a ser afetados. Porém, nestes outros setores não haverá um aumento na demanda por mão-de-obra na mesma intensidade em que houve naquele setor que primeiro recebeu o dinheiro recém-criado, pois o dinheiro naquele setor (o imobiliário) entrou via empréstimos (resultantes da expansão creditícia feita pelo Banco Central), ao passo que nestes outros setores o dinheiro chega meramente via gastos ("vazamento").

    Logo, nestes setores da economia, os preços sobem mais rapidamente do que os salários.

    Portanto, quando se diz que "os assalariados sofrem mais em um ambiente de expansão monetária", é preciso ter cuidado para identificar quais assalariados. Os assalariados dos setores que primeiro recebem o dinheiro recém-criado certamente se beneficiam. Quem perde são os assalariados daqueles setores que irão receber este dinheiro por último -- pois, quando o dinheiro chegar neles (e seus salários finalmente aumentarem), os preços da economia já terão subido. Assim, eles terão perdido poder de compra real.

    Grande abraço!
  • Emerson Luis  30/03/2016 11:33

    Os socialistas dificultam ao máximo o desenvolvimento do capitalismo, assumem o mérito pelos benefícios que este traz e ainda o responsabilizam pelos males que ele ajudou ou está ajudando a resolver.

    * * *


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