Como o apriorismo permite o verdadeiro conhecimento
I.

Como adquirimos conhecimento sobre o mundo externo — ou sobre a realidade, para ser mais exato?  De onde vem nosso conhecimento sobre ela?  A tentativa de se responder a essa questão nos leva à epistemologia, o ramo da filosofia que lida com a origem, o escopo e a validade do conhecimento humano.

No debate epistemológico, existem dois conceitos arquetípicos e, na realidade, diametralmente opostos: o empirismo e o racionalismo.  O empirismo alega que a experiência sensorial (a observação) é a principal (ou até mesmo a única) fonte de conhecimento do homem, ao passo que o racionalismo alega que o conhecimento advém da razão humana.

Dificilmente alguém negaria que existem conhecimentos que adquirimos por meio de experiência sensorial.  Por exemplo, o conhecimento de que a água congela a zero grau Celsius.  É realmente necessário fazer observações para se adquirir tal conhecimento.

Entretanto, no campo da ciência, que formula conhecimentos que se aplicam universalmente, independentemente do tempo e do local, o racionalismo afirma que o conhecimento empírico adquirido por meio da experiência sensorial não possui a mesma validade que o conhecimento deduzido por meio da razão.

Peguemos, por exemplo, as duas seguintes observações aleatórias:

1. Nas últimas décadas, a oferta monetária aumentou 200% ao todo, ao passo que o PIB real, nesse mesmo período, aumentou 50%.

2. Nas últimas décadas, as receitas de impostos do governo subiram de 10 para 50% do PIB, ao passo que a renda per capita aumentou 40%.

Como podemos tirar algum sentido destes fatos?  O PIB real cresceu por causa do aumento na oferta monetária, ou o PIB real cresceu apesar do aumento na oferta monetária?  Da mesma forma, o PIB real cresceu por causa ou apesar do aumento na carga tributária?

Cada uma destas explicações aparenta ser igualmente plausível.  Sendo assim, qual a correta?  O primeiro passo para se responder a essa questão é entender que empregar uma teoria (a ideia de construir e agrupar, de maneira sistemática, todo o conhecimento que o indivíduo possui acerca dos aspectos da realidade) é algo indispensável para se observar corretamente os "fatos".

II.

Com efeito, é impossível fazer uma observação dos fatos sem qualquer pressuposição, como Ludwig von Mises (1881-1973) apontou:

Não tem sentido registrar fatos autênticos sem fazer qualquer referência a uma teoria. O simples registro de dois eventos como pertencentes a uma mesma classe já implica a existência de uma teoria.[1]

A ideia de "deixar os fatos falarem por si sós" sem se recorrer a nenhuma teoria é algo absurdo.[2]  Mises estava ciente de que "ação sem pensamento e prática sem teoria são inimagináveis.  O raciocínio pode ser falso e a teoria, incorreta; mas o pensamento e a teoria estão presentes em toda ação."[3]

Mas como sabemos e como podemos ter a certeza de que estamos empregando uma teoria correta?  Felizmente, nas ciências sociais, uma resposta satisfatória pode ser dada a essa pergunta ao se recorrer a uma teoria apriorística — proposições que fornecem uma compreensão verdadeira sobre a realidade, e cuja veracidade pode ser confirmada independente de experimentos.

Para explicar melhor, temos de nos voltar brevemente para o filósofo prussiano Immanuel Kant (1723-1804) e seu pioneiro e revolucionário A Crítica da Razão Pura (1781).  Um dos principais resultados daquilo que Kant rotulou de investigação transcendental foi a sua descoberta dos chamados juízos sintéticos a priori.

A expressão a priori denota uma proposição (uma afirmação declarativa) que expressa um conhecimento que é adquirido antes — ou independente — da experiência.  Em contraste, a expressão a posteriori denota um conhecimento que é adquirido por meio da — e baseando-se na — experiência.  Os defensores do aposteriorismo são também chamados de empiristas.

Um juízo sintético se refere ao conhecimento que não está contido no objeto.  Um exemplo seria "Todos os corpos são pesados".  Aqui, o predicado "pesados" transmite um conhecimento que vai além do mero conceito geral de corpo.  Um juízo sintético, portanto, gera novo conhecimento sobre o objeto.

Juízos analíticos repetem aquilo que o próprio conceito do objeto já pressupõe.  Um exemplo seria "Todos os corpos possuem dimensões".  Para saber que corpos possuem dimensões não é necessário fazer experimentos, uma vez que essa informação já está contida no conceito de corpos.

Seria de se esperar que juízos analíticos fossem apriorísticos e juízos sintéticos fossem aposteriorísticos.  Entretanto, Kant afirma que existem juízos sintéticos a priori — um conhecimento que não se limita a repetir o significado do conceito que está sob análise e tampouco requer experimentos para se descobrir alguma novidade sobre o objeto.

Como um juízo sintético a priori pode ser identificado?  De acordo com Kant, uma proposição deve satisfazer dois requisitos para poder ser classificada como um juízo sintético a priori.  Primeiro, ela não pode resultar da experiência, mas sim da razão.  Segundo, ela não pode ser negada sem que o autor da negação caia em contradição intelectual.

III.

Mises constatou que o axioma da ação humana é um juízo sintético a priori.  O axioma da ação humana afirma que os humanos agem.  Isso pode soar trivial à primeira vista.  Entretanto, à segunda vista, torna-se óbvio que o axioma da ação humana possui implicações de longo alcance e de amplas consequências.[4]

O axioma da ação satisfaz os requerimentos de um juízo sintético a priori.  Primeiro, não é possível observar que os humanos agem sem que, antes de se fazer tal observação, o indivíduo saiba o que é uma ação humana.  Ou seja, para se observar que os humanos agem, primeiro é preciso saber o que é uma ação humana.  E esse conhecimento não pode ser adquirido por meio de experimentos, pois ele advém da razão e não da experiência.

Segundo, não é possível negar que os humanos agem, pois tal ato resultaria em uma contradição intelectual.  O simples ato de dizer "os humanos não podem agir" é em si uma forma de ação humana e, como tal, contradiz a veracidade dessa afirmação.

Mises também constatou que, utilizando-se a lógica formal, outras verdades universais podem ser deduzidas do irrefutavelmente verdadeiro axioma da ação humana.  Essa abordagem foi por ele rotulada de praxeologia: a lógica da ação humana[5].  Mises reconstruiu a ciência econômica baseando-se na praxeologia.

A praxeologia é uma teoria apriorística.  Ela gera proposições sobre a realidade que são irrefutavelmente verdadeiras — proposições que podem ser validadas sem que se tenha de recorrer à experiência.  Peguemos, por exemplo, o conceito de causalidade — a ideia de que todo efeito possui uma causa.  Tal conceito está logicamente subentendido no axioma da ação humana.

Como disse Mises,

O homem tem condições de agir porque tem a capacidade de descobrir relações causais que determinam mudanças e transformações no universo.  Ação requer e pressupõe a existência da causalidade.  Só pode agir o homem que percebe o mundo à luz da causalidade.  Neste sentido é que podemos dizer que a causalidade é um requisito da ação.  A categoria meios e fins pressupõe a categoria causa e efeito.  Em um mundo sem causalidade e sem a regularidade dos fenômenos, não haveria campo para o raciocínio humano nem para a ação humana.  Um mundo assim seria um caos no qual o homem estaria perdido e não encontraria orientação ou guia.  O homem nem sequer é capaz de imaginar um universo caótico de tal ordem.  O homem não pode agir onde não percebe nenhuma relação causal.[6]

Uma teoria apriorística oferece uma abordagem por meio da qual é possível examinar, criticar, e possivelmente repensar todas aquelas explicações teóricas padrão para eventos históricos.[7]  Quando revistas, reexaminadas e repensadas do ponto de vista da teoria apriorística, o que se pode dizer daquelas duas observações feitas lá no início deste artigo?

Re 1: Do ponto de vista da teoria apriorística, podemos dizer com toda a certeza que um aumento na oferta monetária não pode aumentar o padrão de vida de uma sociedade.  Um aumento na quantidade de dinheiro na economia não possibilita um benefício social, pois a única função do dinheiro é servir como meio de troca.

Ademais, a teoria apriorística demonstra que a moeda fiduciária de curso forçado gera efeitos economicamente perniciosos para a economia.  A moeda fiduciária de curso forçado é normalmente criada por meio da expansão creditícia feita pelo sistema bancário de reservas fracionárias, o qual cria moeda eletrônica literalmente do nada, sem nenhum lastro — o que se chama de meios fiduciários.  Isso necessariamente gera consumo (esgotamento) de capital e investimentos errôneos e insustentáveis.

A criação de meios fiduciários reduz a taxa de juros para um nível abaixo daquele que prevaleceria em um mercado livre de intervenções — a taxa de juros natural, que é aquela determinada pela preferência temporal dos indivíduos da economia.  Essa distorção dos juros, os quais estarão artificialmente reduzidos, fará com que as empresas produzam bens e serviços que na verdade não correspondem à real demanda do mercado.  Isso criará um período de expansão econômica que inevitavelmente terminará em recessão, que é o período em que a economia passa por reajustes estruturais para fazer com que a oferta volte a estar alinhada com a demanda.

CAPA_MetodoAustriaco.jpgO aumento na produção oriundo da expansão monetária é insustentável e inevitavelmente será corrigido mais cedo ou mais tarde.  Os ganhos de produção daquelas atividades que foram estimuladas pela criação de dinheiro tendem a ser vivenciados antes de as perdas de produção se manifestarem, o que gera a sensação de que um aumento na oferta monetária pode aumentar a produção.  A verdade, entretanto, é que a criação de dinheiro não aumenta o padrão de vida das pessoas; ao contrário: faz com que o padrão de vida fique abaixo de onde poderia estar caso não tivesse havido esse aumento na oferta monetária.

Re 2: Podemos dizer com toda a certeza que aumentar impostos irá reduzir, não aumentar, o padrão de vida das pessoas.  Isso porque impostos mais altos retiram proporcionalmente mais recursos escassos dos produtores, e consequentemente redistribuem esses recursos escassos para os não produtores.  Como bem explicou Hans-Hermann Hoppe, "riqueza e renda são forçosamente tomadas de seus proprietários e de seus produtores e transferidas para pessoas que não são proprietárias dessa riqueza e que não produziram essa renda.  A acumulação futura de riqueza e a produção de renda serão, desta forma, desestimuladas, e o confisco e o consumo da riqueza existente serão estimulados."  

A poupança e os investimentos irão declinar, e o estoque de capital e a massa salarial crescerão mais lentamente (ou podem até mesmo diminuir). Como resultado, a sociedade ficará mais pobre em relação a uma situação em que não há tributação.

IV.

A teoria apriorística fornece um verdadeiro conhecimento a respeito do mundo externo, e a veracidade do conhecimento derivado da teoria apriorística pode ser validada independentemente de experimentos sensoriais.

Tão importante quanto é o fato de que o conhecimento apriorístico sobrepuja o conhecimento empírico: "Uma proposição teórica apriorística jamais pode ser refutada por experimentações."[8]

A praxeologia, a ciência apriorística da ação humana — e, mais especificamente, seu até agora mais bem desenvolvido ramo, a ciência econômica —, fornece em sua área de atuação uma completa interpretação dos eventos passados e uma completa antecipação dos efeitos a serem esperados de determinadas ações futuras.[9]

Um teórico seguidor do apriorismo pode assim decidir antecipadamente (isto é, sem incorrer em experimentações sociais, ou ensaios e verificações) se uma determinada ação — medida política — irá gerar os efeitos desejados e prometidos.

Por exemplo, sabemos a priori que criar meios fiduciários não gera prosperidade econômica, que gastos do governo financiados por meio de impostos ou de endividamento não melhoram o bem-estar material da sociedade, e que essas medidas na realidade são economicamente nocivas.

O apriorismo é uma defesa intelectualmente poderosa contra as promessas feitas pelas falsas teorias e, principalmente, contra as danosas (até mesmo desastrosas) consequências econômicas que inevitavelmente surgiriam caso tais teorias fossem colocadas em prática.  Estudantes das ciências sociais deveriam, portanto, ser contínua e crescentemente estimulados a dominar a teoria apriorística.



[1] Mises, L., Ação Humana, p. 738

[2] Ver, por exemplo, Cohen, M.R., Nagel, E. (2002 [1934]), An Introduction To Logic And Scientific Method, Simon Publications Inc., Safety Harbor, Capítulo XI, esp. p. 199.

[3] Mises, L., Ação Humana, p. 221

[4] Sobre isso, uma leitura obrigatória é Hoppe, H.H. (2007 [1995]), A Ciência Econômica e o Método Austríaco.

[5] Praxeologia: do grego praxis - ação, hábito, prática - e logia - doutrina, teoria, ciência.  É a ciência ou teoria geral da ação humana.  Mises definiu ação como "manifestação da vontade humana": ação como sendo um "comportamento propositado".  A praxeologia a partir deste conceito apriorístico da categoria ação analisa as implicações plenas de todas as ações.  A praxeologia busca conhecimento que seja válido sempre que as condições correspondam exatamente àquelas consideradas na hipótese teórica.  Sua afirmação e sua proposição não decorrem da experiência: antecedem qualquer compreensão dos fatos históricos.  (extraído de Mises Made Easier.  Percy L. Greaves Jr.).

[6] Mises, L., Ação Humana, p. 47

[7] Ver, por exemplo, Hoppe, H.H. (2006), Democracia — o deus que falhou, em particular sua Introdução, pp. xv-xix.

[8] Mises, L. (2003), Epistemological Problems of Economics, 3rd ed., "The Task and Scope of the Science of Human Action," Ludwig von Mises Institute, Auburn, US Alabama, p. 30.

[9] Mises, L. (1985), Theory and History: An Interpretation of Social and Economic Evolution, Ludwig von Mises Institute, Auburn, US Alabama, p. 309.


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SOBRE O AUTOR

Thorsten Polleit
é economista-chefe da empresa Degussa, especializada em metais precisos, e co-fundador da firma de investimentos Polleit & Riechert Investment Management LLP.  Ele é professor honorário da Frankfurt School of Finance & Management.



Olá xará!obrigado pela resposta.

Então,do avião eu entendo.Mas eu vejo o conflito na questão dos consumidores assumirem o risco,a liberdade gera responsabilidades.Só que o problema é ate onde é um ''crime'' e ate onde é a responsabilidade de cada um.No caso do avião,a falta de manutenção ocasionar em um acidente pode ser considerado crime,mas e se o consumidor era consciente disso?
É ai a questão que você me disse,o contrato não prevalece em relação a vida.A grande questão aqui é, até quando a morte do consumidor pode ser ocasionada pelo seu próprio risco e responsabilidade ou por um ''crime'' do empresario.Entende?
Mas enfim,é um tema polemico e gostaria de ver a galera debatendo aqui.

Coisas implícitas é quando você usufruiu de um bem ou serviço ''rápido'', sem que haja um contrato, certas coisas são implícitas por serem tão obvias e consequentemente subentendidas por qualquer um.
Se eu comprar um carro,é subentendido que o mesmo não vai explodir na primeira partida.
Se eu comprar um navio,é implícito que o mesmo não vai pegar fogo e naufragar nas suas primeiras milhas.
Mas há uma diferença: Os exemplos que eu citei, há um contrato assinado(comum).
Agora, ao frequentar uma casa noturna por exemplo, você não assina nenhum contrato, mas é implícito que a casa noturna não vai desmoronar e muito menos pegar fogo, como foi o caso de Santa Maria.Por isso, argumentar que não houve um contrato entre os jovens e a boate, seria uma aberração pois diante o acontecimento, era implícito que tal fatalidade não poderia ocorrer.Entende mais ou menos?
Não tenho duvidas de que infelizmente, tais jovens detêm uma parcela de ''culpa'', por não serem responsáveis de frequentar uma casa noturna naquelas condições.Entendo perfeitamente também que, os incentivos de mercado garantiriam a segurança e não um alvará estatal.O ponto aqui não é esse!Só um exemplo...
Outro exemplo de implícito,é você ir a um restaurante, é implícito que a comida não virá estragada ou contaminada, logo é um contrato implícito que o restaurante não vai ti vender veneno...Entende?
Se eu for na banca comprar um jornal ou revista, é implícito que o vendedor não irá me vender algo com uma tinta toxica,ao menos que tenha um aviso prévio e um consentimento da minha parte(um contrato).

E sobre venda do ''ponto'',o que achas?

Abraços!

Séries Temporais do Banco Central. Vá a www.bcb.gov.br/?serietemp, e então clique em "Acesso ao Sistema de Séries temporais", e aí, na coluna da esquerda, onde está escrito "Por código", apenas digite o número do código de cada gráfico do artigo (o número está na parte inferior esquerda de cada gráfico).
Friddi. Eu discordo de sua afirmação: "2o O plano Morgenthau poderia ter ajudado caso que Alemanha não teria perdido seus territorios no leste (o que é hoje parte de Polonia e Russia; Silesia, Prussia leste e Oeste)."

Até o final do século XVIII a Polônia fazia da Comunidade Polaca-Lituana, independente. Entre os anos de 1792 e 1795 esta comunidade foi dissolvida na marra pelos Império Russo, pelo Reino da Prussia e pelo Império Austriaco dos Habsburgos, que a dividiram entre os três no que foi chamado de "Tripartição da Polônia".


Esta partição criou uma grande emigração de poloneses para outros paises da Europa.

A Polônia só recuperou sua independência quando os impérios alemão e austro-húngaros foram derrotados na Primeira Guerra Mundial.

Com o advento da Segunda Guerra Mundial, Hitler e Stalin dividiram novamente a Polônia, ficando a parte ocidental para a Alemanha nazista e a oriental para a URSS.

Ao final da Segunda Guerra novamente a Polônia foi libertada.

Inclusive, áreas atuais do leste da Alemanha, pré-historicamente eram habitados por povos eslavos e não germânicos (originários da região ocidental da atual Alemanha e países nórdicos (Dinamarca e etc.), como já demonstrado por descoberta arqueológicas realizados na atual Alemanha por alemães

Assim sendo, a Alemanha não perdeu terreno para a Polônia mas recuperou pois eram territórios pré-historicamente e historicamente eslavos, e que desde a pré-história habitavam inclusive terrritório que hoje pertence a Alemanha e não o contrário.

O vale do Rio Elba (nasce na República Tcheca, corta o leste da Alemanha, a oeste de Berlim, e desagua no Mar Báltico era habitado na idade média por povos eslavos, osSlowianie polabscy.

PS:
1) Sou descendente de alemães por parte de mãe: meus avós maternos vieram ao Brasil no entre-guerras. Tenho muitos primos na Alemanha;
2) de poloneses por parte de pai: meus quatro bisavôs paternos eram eslavos, nasceram, cresceram, casaram numa pequena comunidade situada a cerca de 50 km a leste da Alemanha.
Os quatro só falavam polonês, tinham feições e raizes eslavas e se consideravam poloneses, não prussianos. Mas, ao virem ao Brasil na segunda metade do século XIX vieram com passaportes prussianos, o passaporte dos dominantes da Polônia à época.

Aliás, por conta disto não consegui a nacionalidade polonesa pois quando a Primeira Guerra acabou meus bisavôs já haviam morrido e, portanto, não trocaram seus documentos de prussianos para poloneses.

Algumas fontes:

-
https://global.britannica.com/event/Partitions-of-Poland

- Norman Davies, God's Playground: A History of Poland in Two Volumes, Oxford University Press, 2005, ISBN 0-19-925339-0

- Bideleux, Robert; Jeffries, Ian (1998). A History of Eastern Europe: Crisis and Change. Routledge. p. 156

- Batt, Judy; Wolczuk, Kataryna (2002). Region, State and Identity in Central and Eastern Europe. Routledge. p. 153

Estudos sobre a presença de povos eslavos na atual Alemanha, escritos por alemães:

- The Archeology of Medieval Germany, by Günther P. Fehring :
https://books.google.com.br/books?id=7RMcBQAAQBAJ&pg=PA196&lpg=PA196&dq=slavic+settlement+Germany&source=bl&ots=DnBMN4Yl37&sig=oS9F03wUrlqh54GxzF-aZV58at0&hl=en&sa=X&ved=0ahUKEwjWr7-k2LXPAhVLCpAKHd_OB8AQ6AEIbzAQ#v=onepage&q=slavic%20settlement%20Germany&f=false


- Herrmann, Joachim (1970). Die Slawen in Deutschland (in German). Berlin: Akademie-Verlag GmbH
Boa noite xará! Grandes questões tem levantado...

Penso que independente de cláusula, morte e ferimentos sempre estarão cobertos pois trata-se de integridade física. Qualquer um que fere a integridade de outro está cometendo crime.
A ocorrência de morte ou ferimentos não exclui a aplicabilidade das normas contratuais, por consequência essas poderão ser cobradas perante o tribunal.

Quanto ao avião. Sim, o proprietário assume riscos. Seus passageiros também. Em uma economia de livre mercado, se tal empresa utilizasse dessa vantagem competitiva de maneira transparente, ela certamente teria consequência de morte com o acidente. Mas no caso que você citou (falta de manutenção), não é necessário nem mesmo que a empresa ofereça serviços em aeronaves inseguras e precárias. Caso uma empresa que ofereça serviços excelentes, em aviões de última geração, deixe de fazer manutenção na aeronave, e isso fique comprovado no tribunal, ela também deveria ser responsabilizada civil e penalmente (morte e ferimentos). Entendo que a empresa seria responsabilizada civil e penalmente, com direito de regresso contra o funcionário se este agiu com a intenção ou se agiu descumprindo as normas da empresa.

Essas questões que parecem coisa de crianças lotam os tribunais no dia hoje. É só uma das formas de entregar as coisas do dia a dia para o Estado cuidar. No caso da fumaça, a melhor saída seria uma boa conversa com o vizinho. Se isso não resolver, você que feche sua casa ou mude de casa. Querer regular, de qualquer forma, o hábito do sujeito viver dentro de sua própria casa, ao meu ver, destrói todos os valores liberais.

Ponto: valor subjetivo, utilidade marginal. Pede quem tem, paga quem quer e pode.

Ainda não consegui compreender o "coisas implícitas"...

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Giovanni P  12/07/2011 13:41
    Nunca vi, nem neste artigo nem em qualquer outra fonte, alguém mostrar por quais deduções passa o axioma da ação humana até chegar na afirmação de que a moeda fiduciária necessariamente "gera consumo (esgotamento) de capital e investimentos errôneos e insustentáveis". Não vejo como chegar até aí, sendo que a praxeologia não pode saber nada sobre as preferências dos agentes. Apenas a experiência pode.
  • Giovanni P  12/07/2011 13:48
    O próprio Rothbard admite, no Man, Economy and State, que a o axioma da preferência temporal, que é fundamental na construção da teoria dos ciclos que ele faz, não é um dado a priori, mas um dado que vem da experiência.

    Muito mais frutífero do que essa insistência no apriorismo das coisas me parece ser o ponto que Carl Menger afirma e reafirma várias vezes, de que a boa teoria parte dos dados da experiência e estabelece relações causais claras entre elas. Esta concepção por si já basta para impugnar praticamente toda a economia neoclássica moderna, que é baseada só em punhado de correlações.

    Por outro lado não vejo incompatibilidade entre o apriorismo de Mises e o empirismo de Menger, a não ser quando tentam exagerar os poderes do apriorismo. Mas isto também pode ser mudado se alguém fizer o favor de me mostrar a resposta à pergunta ali do meu outro comentário.
  • Angelo T.  12/07/2011 16:32
    Poderia apontar em qual capítulo do Man, Economy and State o Rothbard diz isso, por favor? Gostaria de pesquisar.
    Lembro do Rothbard falando de outros pontos empíricos, mas não desse.
  • Giovanni  12/07/2011 19:29
    Confundi, Angelo, não é a preferência temporal, mas a desutilidade do trabalho (ele afirma que o lazer é preferível ao trabalho e diz que não dá pra deduzir isso do axioma da ação humana: mises.org/rothbard/mes/chap1c.asp#8._Factors , nota 27). Em verdade, o da preferência temporal ele deduz sim do axioma da ação humana.

    Em todo caso, a preferência pelo lazer ao trabalho é fundamental para a construção de toda a teoria e não é conhecimento a priori. E aí? Se todo ficar insistindo demais que SÓ A PRAXEOLOGIA DÁ O CONHECIMENTO VERDADEIRO a economia austríaca perde muito. Ou não?
  • Fernando Chiocca  12/07/2011 19:46
    Mas a praxeologia é a ferramenta para analisar a experiência e transformá-la em conhecimento verdadeiro, a priori. Sem experiência, não há o que deduzir. Não daria nem pra estabelecer o axioma básico da ação humana, o de que "o homem age".

    Assim como a mera observação jamais poderia estabelecer este axioma, pois o que há para ser observado são apenas movimentos corporais. Não vemos açõs propositais, que utilizam meios para alcançar fins.

    Esta curta obra do Hoppe linkada no artigo talvez possa esclarecer alguns pontos.
  • Angelo T.  12/07/2011 20:44
    Giovanni, aí sim! A desutilidade do trabalho é reconhecida pelo Rothbard como sendo empírica. \r
    Como a própria nota diz, o seu contrário pode existir, não é auto-contraditório.\r
    Não só isso, mas outros pontos no livro também são reconhecidos como empíricos.\r
    \r
    De minha parte vejo o texto mostrando que é possível ter conhecimento de modo a priori, ao contrário do que é comum vermos por aí. Essa é a principal lição que tiro do texto. Mas não diria que o apriorismo é a ÚNICA forma de se obter conhecimento.\r
    Algumas ferramentas são mais úteis no estudo de alguns fenômenos, enquanto outras ferramentas são úteis no estudo de outros fenômenos.\r
    Por exemplo, acho pouco provável mandarmos a Cassini até Titan pegando impulso dando voltas em outros planetas somente com conhecimento a priori. Mas a praxeologia com sua base a priori é a melhor ferramenta que vejo no estudo da economia.\r
    \r
    Esse artigo é um que gostei bastante quando li no mises.org. \r
    Outro mais desafiador intelectualmente sobre o mesmo assunto, que também gostei bastante é esse:\r
    Mises on Mind and Method\r
    Torço para que ele um dia seja traduzido aqui no IMB.
  • Leandro  12/07/2011 17:15
    Giovanni,

    A moeda fiduciária foi adotada justamente pela facilidade de ser inflacionada. E quando a moeda é inflacionada, isso reduz tanto a propensão à poupança quanto a propensão ao investimento -- afinal, a inflação monetária faz com que as pessoas fujam da moeda e se resguardem comprando ativos reais. Quanto mais alta a inflação monetária, mais rapidamente as pessoas querem se livrar da moeda, menos elas querem poupar e mais rápido elas querem consumir.

    Em tal cenário, é impossível haver acúmulo de capital. Muito pelo contrário: o capital é rapidamente exaurido, pois a inflação monetária estimula o seu consumo, e não sua acumulação.

    E há também o efeito tributário. A inflação monetária faz com que os lucros das empresas sejam artificialmente elevados. Consequentemente, a quantidade de impostos que elas têm de pagar aumenta na mesma proporção. Simultaneamente, a inflação monetária também encarece os preços das peças de reposição do maquinário.

    Ou seja, a inflação monetária aumenta artificialmente os lucros das empresas. Tal aumento nos lucros, entretanto, seria quase que totalmente gasto na reposição de ativos a preços maiores. "Seria", mas não é, pois esse aumento nominal dos lucros faz com que as empresas tenham de pagar mais impostos. Portanto, no final, houve uma redução não sua capacidade de investimento -- consequentemente, houve consumo de capital.

    E há também a "ilusão da prosperidade". O aumento da renda nominal gerado pela inflação monetária estimula as pessoas a consumir mais, pois gera essa falsa sensação de riqueza. Não há aquela urgência de se poupar.


    Bem, esses são apenas algumas das consequências da inflação monetária que podem ser deduzidas aprioristicamente. Não apenas podem, como Mises fez isso. Em seu livro The Causes of the Economic Crises, a primeira parte é composta de artigos escritos em 1919. Ali, ele explica detalhadamente os eventos que só viriam a acontecer na Alemanha em 1923 (para os brasileiros, a teoria misesiana é ainda mais impactante, porque ela explica com décadas de antecedência tudo o que vivemos na década de 1980 e nos primeiros anos da de 1990).

    Caso queira se aprofundar mais, George Reisman dedica umas 10 páginas (cada uma com coluna dupla) em seu "catálogo" Capitalism (seção 5 do capítulo 19).

    E há também esse artigo, que explica bem as coisas:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=764

    Grande abraço!
  • Giovanni  12/07/2011 19:31
    Boa. Não é que o negócio é dedutível mesmo? Obrigado, Leandro.
  • Absolut  12/07/2011 19:46
    Giovanni, você é o responsável pelo inflacao.org?
  • Giovanni  12/07/2011 20:28
    Absolut, sou sim, mas só se você for falar bem (risos).

    Ou então se for dizer que precisa de milhares de correções e aprimoramentos. Eu aceitarei sugestões de muito bom grado e te agradecerei infinitamente.
  • Absolut  12/07/2011 20:36
    Parabéns pela iniciativa!
    Fora que o domínio inflacao.org é beeeeeeeeeeem (mesmo!) atrativo.
    Uma sugestão: ponha o logo e página do IMB lá na página inicial...
  • Giovanni  12/07/2011 21:00
    Obrigado. Ainda estou trabalhando em tudo ali. Sou ruim na parte gráfica e o conteúdo é praticamente nulo, mas será construído aos poucos. De início, acho que só a idéia e a existência do site já valem algo.
  • Absolut  12/07/2011 21:09
    O domínio é perfeito. Sobretudo ele.
  • Breno Almeida  13/07/2011 00:38
    Giovanni,\r
    \r
    Muito bom o seu site não conhecia.
  • Rhyan  12/07/2011 19:42
    Como definir o que é uma ação humana no contexto da praxeologia?
  • Fernando Chiocca  12/07/2011 19:51
    Ação proposital.
  • Rhyan  12/07/2011 19:55
    Quer dizer que atos instintivos são descartados? Respirar, sentir fome, sede, chorar quando nasce?
  • Fernando Chiocca  12/07/2011 20:26
    Sim. Estes atos estão descartados. Movimentos involuntários como bater coração, reflexo de dar um chute depois de uma martelada do joelho etc.

  • Rhyan  12/07/2011 20:49
    Mas a fome e a sede têm consequências econômicas.
  • Fernando Chiocca  12/07/2011 23:45
    Sim. E a praxeologia entra quando o ser humano age para matar sua fome e sede, escolhendo meios para estes fins, incorrento em custos ao preterir outros tipos de ações (inclusive a não ação) etc..
  • Getulio Malveira  12/07/2011 20:18
    "Mises constatou que o axioma da ação humana é um juízo sintético a priori."\r
    \r
    Creio que o autor se equivocou redondamente nesse ponto, confundindo Mises e Kant. Não encontro em nenhum trecho de Ação Humana uma corroboração a existência de juízos sintéticos a priori.
  • Leandro  12/07/2011 20:22
    Hoppe sobre Mises:

    Para entender melhor sua explicação, devemos fazer uma excursão no campo da filosofia, ou, mais precisamente, no campo da filosofia do conhecimento ou epistemologia. Em particular, devemos examinar a epistemologia de Immanuel Kant conforme mais completamente desenvolvida em seu Crítica da Razão Pura.

    A idéia da praxeologia de Mises foi claramente influenciada por Kant. Mas isto não quer dizer que Mises seja pura e simplesmente um kantiano. Na verdade, como mostrarei mais adiante, Mises leva a epistemologia kantiana para muito além de onde o próprio Kant a havia deixado. Mises aperfeiçoa a filosofia kantiana de uma maneira que até hoje tem sido completamente ignorada e rejeitada pelos filósofos ortodoxos kantianos.

    Apesar de tudo, é de Kant que Mises tira suas distinções conceituais e terminológicas centrais, bem como alguns insights kantianos fundamentais relativos à natureza do conhecimento humano. Deste modo, é importante analisarmos Kant.

    www.mises.org.br/EbookChapter.aspx?id=47
  • Getulio Malveira  13/07/2011 18:25
    Sim, absolutamente de acordo quanto a influência kantiana. Porém, continuo totalmente em desacordo com o autor quando este afirma que Mises simplesmente adotou a teoria dos juízos sintéticos a priori. Parece-me muito claro que Mises defende que as proposições da matemática, da lógica e da praxeologia são proposições analíticas, mas que implicam um conhecimento relevante. \r
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    Os próprios argumentos de Hoppe no sentido de que Mises desenvolve a epistemologia kantiana, mostram que para Mises (mas não para Kant) o conhecimento apriorístico é analítico, a saber, está todo contido no conceito de ação. Mises não advoga juízos sintéticos a priori, mas juízos analíticos não-triviais (tautológicos), o que jamais passaria pela cabeça de Kant. \r
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  • Foca Lisa  18/07/2011 11:08
    Não consigo divisar o propalado contraste entre o empirismo e o racionalismo. Ambos provém da caverna, da metafísica de Platão. Eles compõem a dialética, ao gáudio dos Trinta Tiranos de Atenas, em revesamento constante. O empirismo sofreu golpe mortal com Galileu e Newton. Mas o racionalismo logra ainda maior equívoco. A tendência natural das ideologias racionalistas é crer num mundo previsível, 'em princípio', em todos os seus aspectos. Elas são hostis à idéia de 'criatividade' (no sentido bergsoniano). O determinismo é aliado natural do racionalismo. Sua viciosidade peculiar é destruir próprio conhecimento que possivelmente viria salvá-lo de si próprio, ou seja, o conhecimento concreto ou tradicional. Um pedaço de matéria, que tomávamos como uma entidade persistente única, é na verdade uma cadeia de entidades, como os objetos aparentemente contínuos em um filme. E não há razão pela qual não possamos dizer o mesmo quanto à mente: o ego persistente parece tão fictício quanto o átomo permanente. Ambos são apenas uma cadeia de eventos que têm certas relações interessantes uns com os outros. "O racionalismo serve apenas para aprofundar a inexperiência a partir do qual ele foi originalmente gerado." (Giddens, A.: 39) A técnica exige previsibilidade e, em não menor grau, exatidão de previsão. Pelo racionalismo é necessário que a técnica prevaleça sobre o ser humano. A técnica precisa reduzir o homem a um animal técnico, rei dos escravos da técnica. Ao contrário do que informa a valiosa Wiki, a pretensão racionalista nada tem de liberal. "Em breve, certamente, daremos o último passo, e a autoridade da ciência se imporá de modo completo no domínio dos conhecimentos sociais. Então, chegaremos a fazer uma política racional, como já fazemos máquinas elétricas racionais, porque construídas unicamente sobre dados positivos, e não sobre tendências subjetivas." J. Novicow, 1910. Pensava-se que se pudéssemos conhecer todas as partículas e forças do universo seria possível prever exatamente todo o futuro do cosmo, mas as descobertas do século XX comprovaram que isto é impossível, devido não à nossa ignorância, mas à íntima natureza da realidade. Ao conhecimento não persiste "imperativo categórico", tal qual vislumbrado por Kant. "A ciência é um sistema de relações. Portanto, só nas relações se deve procurar a objectividade: seria inútil procurá-las nos seres considerados isoladamente uns dos outros." (POINCARÉ, J.H.)
  • Daniel  23/02/2013 13:27
    qual seria, por ventura, o impacto sobre às teorias de misses se fosse provado que o conhecimento não pode ser adquirido aprioristicamente?
  • anônimo  23/02/2013 15:46
    Derrubaria tudo.Só isso.
    Mas claro, depende de que tipo de conhecimento.
  • Emerson Luis  28/03/2016 10:40

    "Um teórico seguidor do apriorismo pode assim decidir antecipadamente (isto é, sem incorrer em experimentações sociais, ou ensaios e verificações) se uma determinada ação — medida política — irá gerar os efeitos desejados e prometidos."

    Um seguidor do socialismo não se deixa convencer nem pelo raciocínio apriorístico e nem pelo empirismo (as inúmeras tentativas mal sucedidas que "deturparam Marx"), a próxima experiência socialista com certeza vai dar certo!

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