clube   |   doar   |   idiomas
A Escola de Chicago versus a Escola Austríaca

As pessoas frequentemente me perguntam, "Qual a diferença entre os economistas seguidores da Escola Austríaca e os seguidores da Escola de Chicago?  Ambos não seriam defensores do livre mercado e inimigos dos keynesianos que adoram um estado grande?"

No presente artigo, irei delinear algumas das principais diferenças.  Embora seja verdade que os austríacos concordam com os chicaguistas em várias questões políticas, a abordagem que ambos fazem da ciência econômica pode ser bastante divergente.  É sempre importante explicar essas diferenças, nem que seja apenas para retrucar aquela reclamação rotineira que afirma que a Escola Austríaca é simplesmente uma religião que serve para justificar conclusões libertárias.

Antes de começar, permitam-me algumas óbvias advertências: não estou aqui falando em nome de todos os economistas seguidores da Escola Austríaca, e neste artigo irei discutir a Escola Austríaca na moderna tradição de Ludwig von Mises e Murray Rothbard.  (Particularmente em questões metodológicas, os austríacos da ala rothbardiana se diferem um tanto daqueles que recorrem a Friedrich Hayek e a Israel Kirzner como fonte de inspiração).  Também é importante observar que nem todos os economistas da Escola de Chicago pensam da mesma maneira.  Ainda assim, espero que as generalizações a seguir sejam representativas. 

Metodologia

Antes de tudo, os austríacos são considerados excêntricos pelos economistas convencionais por causa do seu enfoque em questões metodológicas.  Com efeito, a obra-prima de Mises, Ação Humana, dedica todo o segundo capítulo (41 páginas) a "Os problemas epistemológicos da ciência da ação humana".  Não houve abordagem semelhante no último livro da série Freakonomics .

Embora a maioria dos economistas do século XX e da atualidade discorde fortemente, Mises insistia em afirmar que a teoria econômica era, em si, uma disciplina apriorística.  O que ele queria dizer com isto é que os economistas não deveriam macaquear os métodos das ciências físicas, imaginando hipóteses e submetendo-as a testes empíricos.  Ao contrário, Mises acreditava que o núcleo da teoria econômica poderia ser logicamente deduzido do axioma da "ação humana", isto é, a constatação de que há outros seres conscientes que utilizam intencionalmente sua razão para, através de determinados meios, alcançar suas metas subjetivas.  (Para saber mais sobre as visões metodológicas de Mises, leia aqui e aqui.)

Em contraste, o artigo seminal da Escola Chicago sobre metodologia foi escrito por Milton Friedman em 1953, "The Methodology of Positive Economics".  Longe de derivar leis ou princípios econômicos que sejam necessariamente verdadeiros (como faz Mises), Friedman na verdade defende o desenvolvimento de modelos baseados em hipóteses que podem ser provadas falsas.  Essas falsas premissas, entretanto, não representam nenhum golpe contra uma boa teoria:

A pergunta relevante a ser feita sobre as "hipóteses" de uma teoria não é se elas são descritivamente "realistas", pois elas nunca são, mas sim se elas são aproximações suficientemente boas para o objetivo em questão.  E essa pergunta pode ser respondida somente observando se a teoria funciona, isto é, se ela permite prognósticos suficientemente acurados.

Embora a análise de Friedman soe perfeitamente sensata, podendo até ser considerada a epítome do "científico", Mises considerava-a uma armadilha sedutora para os economistas.  Para uma rápida ilustração dessa diferença de perspectivas, permitam-me um exemplo por mim vivenciado quando professor.

Era uma aula sobre princípios de microeconomia, e estávamos utilizando o (excelente) livro-texto de Gwartney, Stroup et al.  No primeiro capítulo, havia uma lista de vários marcos ou princípios sobre o modo econômico de pensar.  Lembro-me de itens como "As pessoas reagem a incentivos" e "Sempre haverá conflitos de escolha".  Eram coisas não controversas as quais todo economista concordaria serem importantes para fazer com que os estudantes começassem a "pensar como um economista".

Entretanto, um princípio que me chamou bastante a atenção era aquele que dizia que "Para ser científica, uma teoria econômica deve apresentar prognósticos testáveis".  Expliquei para a classe que, mesmo sendo aquela uma noção popular entre os economistas profissionais, não era uma visão da qual eu compartilhasse.  Expliquei que tudo o que iríamos aprender durante todo o semestre com aquele livro-texto não geraria prognósticos testáveis.  Ao contrário, eu iria simplesmente ensinar a eles um arcabouço com o qual eles poderiam interpretar o mundo.  Os alunos teriam então de decidir se tal arcabouço seria útil ou não; porém, em última instância, a decisão final deles não iria se resumir a "Será que essas ferramentas de oferta e demanda permitem bons prognósticos?"

Após eu ter feito todo esse meu discurso, um dos alunos fez a excelente observação de que absolutamente nenhum dos outros princípios era um prognóstico testável.  Ele estava certo!  Por exemplo, como pode alguém testar a afirmação de que "As pessoas reagem a incentivos"?  Eu poderia dizer para um indivíduo, "Vou lhe dar $20 se você decepar o seu dedão."  Independentemente do que venha a acontecer, a afirmação continua correta.  Se o indivíduo não decepar seu dedão, isso significa apenas que eu não ofereci a ele um incentivo bom o bastante.

Isso não é uma mera parolice filosófica.  Mises enfatizava que a importante herança de uma sólida teoria econômica não é uma coleção de afirmações empiricamente testáveis sobre o comportamento de variáveis econômicas.  Antes, a teoria econômica é, acima de tudo, um arcabouço internamente coerente com o qual se interpretar "os dados".

É verdade que determinadas aplicações da economia envolvem evidências históricas — como, por exemplo, investigar se o Banco Central americano desempenhou um papel importante na bolha imobiliária do país —, porém há uma diferença enorme entre isto e a típica justificação dos economistas convencionais para se utilizar construções baseadas em modelos matemáticos.

Ciclos econômicos

Outra grande divergência entre as escolas Austríaca e de Chicago está na explicação de ambas para os períodos de crescimento econômico e em suas receitas para a cura de recessões.  Os leitores deste artigo provavelmente já estão familiarizados com a visão austríaca, portanto irei omitir uma outra discussão.

Os economistas da Escola de Chicago obviamente possuem visões variadas, mas em termos gerais eles aderem à "hipótese dos mercados eficientes".  Em seu formato mais vigoroso, a HME nega até mesmo que seria possível haver algo como uma bolha imobiliária (ver aqui e aqui).  Considerando-se suas hipóteses de que os agentes são racionais e que os mercados se equilibram rapidamente, e considerando-se principalmente o fato de que eles não possuem uma teoria para a estrutura do capital, os economistas da Escola de Chicago são obrigados a explicar as recessões como um "equilíbrio" advindo de "choques" repentinos.

Historicamente, eles não levam em conta as distorções causadas por taxas de juros fixadas em níveis abaixo dos de livre mercado (as quais, obviamente, são o ingrediente principal da teoria austríaca dos ciclos econômicos).  Entretanto, recentemente, um número cada vez maior de críticos chicaguistas do Fed vem apontando os perigos da política de taxa de juros zero implantada por Ben Bernanke.

Ironicamente, a área em que austríacos e chicaguistas mais divergem é a questão monetária, assunto no qual Milton Friedman se especializou.  Friedman (e sua co-autora Anna Schwartz) famosamente culpou o Federal Reserve por não imprimir, no início da década de 1930, dinheiro o bastante para contrabalançar o declínio econômico intensificado pelas corridas bancárias.  Atualmente, alguns economistas de orientação chicaguista — que justificavelmente recorrem a Milton Friedman como argumento — culpam a crise financeira americana de 2008 na política monetária "restritiva" de Bernanke.  Naturalmente, essa visão é anátema para os modernos austríacos na tradição de Murray Rothbard, que creem que o banco central deve ser abolido.

Análise econômica do direito

Finalmente, a maioria dos atuais membros das escolas Austríaca e de Chicago possui ideias vastamente diferentes no que concerne à área conhecida como "Análise econômica do direito".  Seja baseando-se nos direitos naturais ou na herança tradicional do direito consuetudinário, os austríacos tendem a crer que as pessoas objetivamente possuem direitos de propriedade, ponto final; e que, só uma vez especificados esses direitos, a análise econômica pode ser feita.  Em contraposição, algumas das mais extremas aplicações daquilo que pode ser chamado de "a abordagem de Chicago" diriam que os direitos de propriedade deveriam ser designados de acordo com a eficiência econômica. (Na reductio ad absurdum feita por Walter Block, um juiz pode decidir se um homem roubou ou não a bolsa de uma mulher perguntando quanto cada um dos envolvidos estaria disposto a pagar pela bolsa.)

Trata-se de uma área particularmente sutil, a qual eu não posso sintetizar adequadamente neste artigo.  É suficiente dizer que austríacos e chicaguistas podem, similarmente, apreciar as surpreendentes ideias — e desafios à crítica pigoviana convencional ao mercado — contidas no famoso artigo de Ronald Coase.  No entanto, a Escola de Chicago reconhecidamente utilizou a obra de Coase para chegar a conclusões que os austríacos modernos consideram repelentes.

Conclusão

Em questões típicas como salário mínimo, tarifas ou gastos governamentais, economistas austríacos e chicaguistas podem seguramente ser agrupados conjuntamente como "livre-mercadistas".  Entretanto, em várias outras áreas — particularmente em questões de pura teoria econômica — as duas escolas são completamente diferentes.  Como um autointitulado economista austríaco, eu encorajaria os livre-mercadistas que conhecem apenas Friedman a acrescentar Ludwig von Mises e Murray Rothbard à sua lista de leitura.


0 votos

autor

Robert P. Murphy

é Ph.D em economia pela New York University, economista do Institute for Energy Research, um scholar adjunto do Mises Institute, membro docente da Mises University e autor do livro The Politically Incorrect Guide to Capitalism, além dos guias de estudo para as obras Ação Humana e Man, Economy, and State with Power and Market.  É também dono do blog Free Advice.



  • Raphael Noronha Auto De Souza Leão  27/06/2011 12:25
    A primeira vez que eu questionei sobre a diferença das duas escolas um amigo me respondeu: "A escola de Chicago gosta de gráficos bonitinhos". Ainda Parece uma boa resposta.
  • Fernando  27/06/2011 12:48
    Não entendo essa coisa de querer diminuir outra escola... Tanto a escola austríaca como a de Chicago tem conteúdos muito bons, é só tirar o que presta de cada uma e fazer sua própria escola.
  • mcmoraes  27/06/2011 15:04
    Fernando, seu raciocínio é tão confuso que você não entende a si mesmo. Ao dizer que uma escola X tem pontos que não prestam, você está querendo diminuir esta escola X.
  • Getulio Malveira  27/06/2011 19:03
    Muito bom, artigo. Distinções estabelecidas com muita propriedade e serenidade. Claro, há outras distinções relevantes, como a questão do cartesianismo dos "neoclassicos" que o colega mencionou acima. \r
    \r
  • Lutty  28/06/2011 00:33
    Ao final quis que artigo fosse maior (estava tão interessante).
    Parabéns para o Robert Murphy pelo artigo e ao Leandro Roque pelo papel fundamental na divulgação da Escola Austríaca no Brasil!
  • André Ramos  29/06/2011 10:33
    Leandro (ou algum outro entendido no assunto, como o Klauber Cristofen Pires),
    no que se refere às leis antitruste, qual seria a diferença entre essas Escolas? Os chicaguistas caem na conversa fiada de que o Estado precisa regular a economia?
    Abs.
  • Entendido no Assunto  29/06/2011 11:05
  • Daniel  29/06/2011 12:10
    "Economists and Antitrust" foi traduzido recentemente. Segue o link.
    escolaaustriacadf.blogspot.com/2011/06/os-economistas-e-as-leis-antitruste.html
  • francisco ramos  05/02/2012 16:50
    A questão, que aqui no contexto adquire foro de verdadeiro postulado filosófico, é

    que não é psiquiatrica ou moralmente recomendável oferecer 20 ou 01 milhão de dólares

    para que alguém corte seu próprio dedo. Apenas uma mente doentia cogitaria uma possi-

    bilidade desta natureza.
  • Mário  12/11/2013 18:30
    Muito bom artigo, estabelece com clara distinção entre as escolas econômicas. Muitos alunos acreditam que escola clássica, marginalista, e outras de orientação liberal são todas iguais mudando-se apenas o tempo em que aparecem.
  • anônimo  22/01/2015 12:20
    Os chigaguistas e friedman acreditavam na neutralidade da moeda?
  • Leandro  22/01/2015 12:26
    Sim. Sobre o assunto, recomendo este artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=306
  • Emerson Luis  28/01/2015 12:36

    As convergências em defender o livre mercado e combater o estatismo são mais importantes do que as divergências nestes outros tópicos, sem menosprezar a importância destes.

    * * *
  • Eric Henrique  22/10/2015 16:34
    Bom artigo! O autor apenas deixou de ressaltar na conclusão como leituras importantes F.A. Hayke, parece-me que há um esforço em fazer de Rothbard( uma grande austríaco também) um nome acima do de Hayke, quando que na verdade, "na minha opinião" F.A. Hayke é muito mais importante para escola austríaca, depois de Mises é claro. Amigos me perdoem se eu estiver errado e fiquem a vontade para comentar.
  • Gustavo  29/10/2015 15:39
    Concordo com você. Friedrich Von Hayek foi muito mais importante para a teoria econômica do que Murray Rothbard.
  • Marcus  22/03/2016 20:53
    Alguém poderia indicar a um novato em economia algum site ou blog que tenha influência da escola de Chicago. Obrigado.
  • Jefferson Cavalcanti  21/06/2016 15:03
    Parei de ler em que Keynesianos adoram estado grande. É cada absurdo que escrevem aqui que me impedem de fazer pesquisas simples, apenas gostaria de saber sobre as diferenças sobre as escolas Austríacas e as de Chicago, mas a parcialidade que flerta com a mentira nesse site me incomoda, não sou liberal, muito menos comunista, mas consigo filtrar bem o que leio e tiro minhas pró´rias conclusões.

    veja.abril.com.br/noticia/economia/keynes-nao-defendia-estado-forte-destaca-pesquisador

  • Ricardo  21/06/2016 15:38
    Em primeiro lugar, há uma diferença entre Keynes e keynesianos. Se você acha que os dois são a mesma coisa, então isso revela que suas "pesquisas simples" ainda estão muito no início. Você ainda tem muito farofa para comer.

    Quanto a Keynes defender um estado grande, não precisa confiar neste artigo, não. Vá direto à fonte original. Pesquise o que Keynes escreveu no prefácio da versão alemã de A Teoria Geral, lançado em pleno regime nazista. Facilito para você:

    "Os exemplos e as explicações de boa parte do livro a seguir remetem principalmente às condições vigentes nos países anglo-saxões. Não obstante, a teoria da produção como um todo, que é o que este livro tenciona oferecer, se adapta muito mais facilmente às condições de um estado totalitário, e não às condições de livre concorrência e uma grande medida de laissez-faire."

    Página xxvi de The General Theory of Employment, Interest, and Money. Vol. 7 of The Collected Writings Edited by Elizabeth Johnson and Donald Moggridge. London: Macmillan, Cambridge University Press, and St. Martin's Press for the Royal Economic Society.

    Artigos bibliográficos para você:

    É verdade que Keynes era um liberal?

    Keynes e suas simpatias pelos "experimentos" do nazismo e do fascismo

    Keynes e o comunismo soviético

    Você pode gemer e espernear, mas não pode fugir.
  • Thomás Turbando Romeu Pinto  21/06/2016 15:40
    "Parei de ler em..." e cita uma frase que está no primeiro parágrafo!

    Ou seja, o sujeito leu duas frases, parou, mas não abre mão de comentar e espernear.

    Escreveu "parei de ler em...", pode saber que se trata de uma toupeira. Não falha nunca. Esse argumento é típico do Jardim de Infância. "Ui, me ofendi, parei de ler, seus bobos! Eis aí a minha crítica profunda!"

    Aliás, nem entendo por que esses comentários são publicados. Se o sujeito admite que nem sequer se deu ao trabalho de ler algo (o que comprova sua indigência intelectual), por que então dar palanque para o desclassificado?

    "Parei de ler em... mas quero comentar! Nossa, como tô bandida!".
  • Gustavo  29/06/2016 17:31
    E que tal essa constatação por parte de F.A. Hayek:

    "I agree with Milton Friedman that once the Crash had occurred, the Federal Reserve System pursued a silly deflationary policy. I am not only against inflation but I am also against deflation. So, once again, a badly programmed monetary policy prolonged the
    depression."

    Parece que os austríacos tem um quedinha pelo monetarismo de alguma forma.

    Em momentos de recessão, permitir a deflação é algo ruim, ou o Hayek estaria "delirando" quando disse isso?

    Obs: Achei essa frase no trabalho de Anthony Evans: "Sound Money".
  • Leandro  29/06/2016 18:36
    Sim, Hayek errou no diagnóstico (algo compreensível, pois, à época, as informações disponibilizadas não eram tão fartas quanto às de hoje).

    A deflação monetária ocorrida à época não foi criada de propósito pelo Fed. Tampouco poderia o Fed ter feito algo para evitá-la. A oferta monetária caiu porque, de um lado, os bancos estavam exigindo que os empréstimos pendentes fossem quitados antecipadamente; de outro, porque ninguém tomava empréstimos, o que significa que a oferta monetária não se expandia.

    E por que ninguém tomava empréstimos? Porque ninguém tinha confiança na economia. E por que ninguém tinha confiança? Por causa de todas as incertezas geradas pelo governo e suas políticas intervencionistas. (Aquilo que os austríacos chamam de "incerteza gerada pelo regime").

    Veja as medidas adotadas pelos governos Hoover e Roosevelt.

    Herbert Hoover aumentou os gastos do governo federal em 43% em um único ano: o orçamento do governo, que havia sido de US$ 3 bilhões em 1930, saltou para US$ 4,3 bilhões em 1931. Já em junho de 1932, Houve aumentou todas as alíquotas do imposto de renda, com a maior alíquota saltando de 25% para 63% (e Roosevelt, posteriormente, a elevaria para 82%).

    A Grande Depressão, na verdade, não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários (exatamente como havia feito na depressão de 1921, que foi ainda mais intensa, mas que durou menos de um ano justamente porque o governo permitiu que o mercado se ajustasse). Porém, o governo fez exatamente o contrário: além de aumentar impostos e gastos, ele também implantou políticas de controle de preços, controle de salários, aumento de tarifas de importação (que chegou ao maior nível da história), aumento do déficit e estimulou uma arregimentação sindical de modo a impedir que as empresas baixassem seus preços.

    Nesse cenário, quem seria doido de se endividar para investir? Daí a contração monetária.

    O Fed pode ser culpado de várias coisas (inclusive de ter inflado a bolha de ativos durante a década de 1920), mas não fez sentido dizer que ele propositalmente causou uma deflação monetária. Nesse caso em específico, ele nada poderia ter feito. Não tinha como ele obrigar as pessoas a se endividarem para investir e consumir. Quem impedia isso era o governo e suas políticas que geravam incerteza e falta de confiança.

    Dizer que o Fed deveria ter "feito mais" é o argumento dos monetaristas, que afirmam que o erro do Fed foi não ter reflacionado. Nonsense.
  • Gustavo  29/06/2016 18:53
    Mas Leandro, isso que você destacou não me parece ser "exatamente" o que os monetaristas dizem.

    Pelo que eu entendi, pelo ponto de vista do próprio Rothbard (você que traduziu, creio que deve se recordar), é de que Friedman dizia que a política de retração do FED a partir de 1928 diminuiu ainda mais a quantidade de reservas dos bancos. No momento do pós-quebra as corridas bancárias teriam então colocado os bancos em situação de insolvência, pois as reservas que haviam sido limitadas não estariam dando conta da demanda por saques.

    Não seria algo referente a tentar aumentar a oferta de crédito, e sim de manter os bancos com a liquidez necessária para honrar os próprios depósitos. Como o FED retraiu, os bancos tiveram escassez de dinheiro e acabaram por falir.

    Isso, de acordo com Friedman, é o que deveria ser evitado.

  • Leandro  29/06/2016 19:15
    "isso que você destacou não me parece ser "exatamente" o que os monetaristas dizem."

    É exatamente isso que eles defendem.

    "Friedman dizia que a política de retração do FED a partir de 1928 diminuiu ainda mais a quantidade de reservas dos bancos."

    Pois isso é factualmente incorreto. O Fed não retraiu. E não precisa confiar em mim, não. Pode conferir no gráfico da base monetária. Não houve contração. Não houve "sumiço" de reservas.

    fred.stlouisfed.org/graph/fredgraph.png?g=57RB

    "No momento do pós-quebra as corridas bancárias teriam então colocado os bancos em situação de insolvência, pois as reservas que haviam sido limitadas não estariam dando conta da demanda por saques."

    Sim, as quebras bancárias obrigaram os bancos a exigir a quitação imediata dos empréstimos. Já afirmei isso ali em cima.

    "Não seria algo referente a tentar aumentar a oferta de crédito, e sim de manter os bancos com a liquidez necessária para honrar os próprios depósitos."

    E liquidez sempre houve. De novo, não precisa confiar em mim, não. Pode conferir no gráfico da base monetária. Não houve contração. Não houve "sumiço" de reservas. Havia liquidez.

    fred.stlouisfed.org/graph/fredgraph.png?g=57RB

    "Como o FED retraiu, os bancos tiveram escassez de dinheiro e acabaram por falir".

    Não retraiu. Vide gráfico acima.

    (Aliás, houve retração, aí sim, na recessão de 1921, aquela em que o governo não interveio, que terminou em um ano e da qual ninguém mais se lembra hoje.)

    Por fim, vale lembrar que essas pessoas -- Friedman e Hayek -- falavam sobre isso na década de 1960, quando não havia informações amplamente disponíveis como há hoje. Eles erraram. Acontece.
  • Gustavo  29/06/2016 20:25
    Na verdade houve né. Muito pouca mas houve. De 1928 à 1931 o % de reservas se contraiu. Da pra ver no gráfico que você linkou até.

    Se é possível estabelecer uma correlação entre essa "leve" retração e toda a quebradeira que veio depois, daí fica mais complicado.

    No período do Roosevelt elas explodem a la QE. Deve ser esse um dos motivos de chamarem Hoover de adepto ao laissez-faire.
  • Leandro  29/06/2016 20:27
    Ínfima (praticamente nula) e por um período curtíssimo (menos de um ano). Em relação à tendência que já vinha ocorrendo desde 1927, a linha se mantém praticamente constante.

    Agora, compare com o que ocorreu em 1920-22, que foi muito mais profunda e bem mais prolongada. Aquilo sim foi contração.

    Dizer que aquela variação praticamente imperceptível foi o que causou toda a catástrofe é uma teoria, no mínimo, estapafúrdia.

    Ademais, e isso é importante, a grande depressão mesmo ocorreu em 1932 e 1933 (pesquise os indicadores econômicos), anos em que a base monetária já crescia a passos largos (exatamente o que defendiam os monetaristas).

    Insisto: sem se considerar a questão da confiança e da incerteza gerada pelo regime -- que foi o que realmente afetou a economia e a oferta monetária (M1) -- você não entenderá nada do que se passou naquela época. Ficar preso a variações imperceptíveis e de curto prazo da base monetária -- sendo que variações muito maiores já haviam ocorrido antes -- não lhe trará resposta nenhuma.
  • Gustavo  02/07/2016 16:33
    Olhando mais de perto, é possível perceber que da mesma maneira que a retração foi muito pequena depois do crash em 1929, a expansão da base monetária entre 1924 e 1929 foi bastante ínfima também.

    Entre 1924 e 1928 foram cerca de US$ 400 milhões de dólares adicionados às reservas, enquanto entre 1929 a 1931 a queda foi de cerca de US$ 300 milhões.

    Nesse caso, seguindo sua linha de raciocínio, complica para o Rothbard também. Pois da mesma maneira que Friedman teria errado ao dizer que as reservas se contraíram, e essa então seria a causa do prolongamento da recessão, da mesma forma Rothbard estaria sendo posto contra a parede, pois a expansão monetária que ele alega ter ocorrido durante a década de 20, e que teria sido essa a principal causa da crise, não seria relevante.

    Concordo com você que a base monetária não é a única variável a ser levada em conta, mas no que diz respeito à ela, minha teoria é a seguinte:

    1 - Rothbard acertou em dizer que houve expansão do crédito nos anos 20, assim como no resto da sua análise.

    2 - Friedman também acertou quanto à retração das reservas. Pois mesmo essa tal retração ter sido relativamente pequena, ela foi abrupta. Perceba que a expansão pré-crash ocorreu gradualmente em 5 anos, já a contração a partir de 1930 foi intensa, pois voltou-se ao estágio de base monetária de 8 anos antes em pouco mais de 12 meses apenas.

    O que Friedman deixou escapar, teria sido justamente os fenômenos que teriam de fato CAUSADO a quebra da bolsa, somando todas as outras intervenções governamentais que foram feitas antes e durante a depressão, sendo a retração do FED um agravante, mas de longe teria sido a principal causa do tudo o que aconteceu. Nesse sentido a análise dele estaria correta, porém incompleta.

    OBS: Nesse gráfico que você linkou a escala atrapalha um pouco a visualização disso que estou falando, tem que diminuir os períodos para poder observar.



  • Leandro  02/07/2016 18:49
    "Olhando mais de perto, é possível perceber que da mesma maneira que a retração foi muito pequena depois do crash em 1929, a expansão da base monetária entre 1924 e 1929 foi bastante ínfima também."

    Correto.

    Só que tem um detalhe: a expansão do crédito se traduz em aumento da oferta monetária, e não da base monetária. Ou seja, há aumento do M1 e dos depósitos bancários. E é isso o que comanda os números da economia.

    E como se comportaram os depósitos bancários? Eis alguns trechos de algumas atas do Fed durante a década de 1920:

    Página 100:

    The continuous growth of time deposits in recent years at a rate more rapid than the growth in demand deposits has resulted in an increase in the proportion of the banks' deposit liabilities that is represented by time deposits. This more rapid growth of time deposits, which require only 3 per cent reserve, has been an important factor in the past six years in enabling member banks to increase their loans and investments by $11,000,000,000 on the basis of $756,000,000 added to their reserve balances. This expansion during the past six years at the rate of $15 of credit to $1 of reserve has reduced the average required reserves.


    Página 101:

    Another phase in the operations of member banks arises from the fact, already mentioned, that time deposits have been increasing much more rapidly than demand deposits. Since legal reserve requirements against time deposits are 3 per cent, while against net demand deposits they range from 7 to 13, the increase in the proportion of time deposits has had the effect of decreasing the average amount of reserves. This decline in ratio means that member banks were able to comply with legal reserve requirements with a considerably smaller amount of reserves than would have been necessary had the proportion of time to demand deposits remained unchanged or, to put it another way, to add a large amount to their loans and investments without a corresponding increase in their reserves. As a matter of fact, reserve balances of member banks have not increased since the end of 1924, while there has been since that time a growth of about $2,900,000,000 in the total amount of credit extended by these banks.


    Ver também as tabelas das páginas 90, 97, 105 e 111 para ver o forte crescimento no total dos depósitos bancários. Aliás, leia o livro todo.

    E como os bancos multiplicaram depósitos sem que o Fed expandisse fortemente a base monetária? Por meio da prática detalhada neste artigo. (E explicada também nos trechos em inglês acima).


    "[...] Rothbard estaria sendo posto contra a parede, pois a expansão monetária que ele alega ter ocorrido durante a década de 20, e que teria sido essa a principal causa da crise, não seria relevante."

    Espero que, frente ao que foi exposto acima (documentos do próprio Fed), você agora esteja mais bem informado sobre os fatos.

    Eis uma dica de quem já está nesta área há quase 10 anos: jamais parta do princípio de que você descobriu algo que ninguém mais antes de você percebeu. É sempre o caminho certo para a soberba.
  • Gustavo  02/07/2016 19:26
    Mas o que causou então as quedas tanto no M1 quanto no M2 no período pós 1929?

    www.sjsu.edu/faculty/watkins/depmon.htm

    Entre 1928 e 1933 deu uma boa reduzida. No M2 mais ainda que no M1. Deve ser por isso que o FED começou uma espécie de QE logo depois.

    Talvez o que Friedman observou foi essa timidez do FED logo de início. Creio que a ideia central dos monetaristas é que demoraram pra ligar a impressora...

    E obrigado pela indicação do livro. Já comecei a ler.
  • Leandro  03/07/2016 14:13
    Já comentado: as quebras bancárias, as quais geraram várias corridas bancárias e levaram os bancos a exigir que os empréstimos pendentes fossem quitados.

    Isso foi estancado em 1933 com a criação do FDIC, o seguro federal para depósitos, algo que até então não existia. O governo chegou e disse: doravante vamos garantir cada centavo dos senhores que está depositado nos bancos. Não se preocupem.

    Ato contínuo, as pessoas não apenas pararam de sacar seu dinheiro dos bancos, como também voltaram a depositá-lo.

    Em um sistema de reservas fracionárias, sistema este em que bancos operam tecnicamente insolventes (pois nunca têm dinheiro para honrar seus compromissos), a confiança é tudo. Se a confiança é restabelecida, o sistema funciona.

  • Davi Miranda Rodrigues  03/02/2017 02:02
    Bom, entendo que você sugere aos "seguidores" de friedman que leiam mises e rothbard ou escola austriaca no geral, mas o que você acha como um todo de friedman, também é interessante que pessoas que só conhecem as justificativas e teorias economicas dos austriacos leiam friedman?


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.